sexta-feira, 1 de maio de 2026

Warhammer 40K: Runner

Capítulo Único

O mensageiro fugiu pela tundra sob um céu estrelado que o fazia se sentir humilhado. Sua respiração era ofegante, o filtro em seus dentes sulcando sua gengiva. Um artefato de casa, de tanto tempo atrás; uma velha lembrança que fisicamente não lhe servia mais, guardada por sentimentalismo, não para uso em campo.

O corredor limpou o sal e a saliva do queixo enquanto mantinha o passo, sentindo o gosto metálico do antigo respirador. Sua máscara, fornecida pelo regimento, havia sido destruída quando escapou da batalha, justo quando a névoa mortal os alcançou. Cada vez que esticava ou contorcia o rosto, sentia onde o material havia derretido em suas bochechas, transformando a pele em couro insensível, calos químicos que traçavam rios pelas laterais de sua mandíbula, queixo e pescoço. A colmeia atrás dele quase certamente havia desaparecido, junto com o que restava de seu regimento. Perguntou-se quem levaria a culpa quando a notícia se espalhasse, se ainda restasse alguém vivo para culpar.

Ninguém havia dado muita importância quando as comunicações de longa distância foram estabelecidas, considerando a fragilidade do equipamento regimental. Mesmo na segunda noite, quando suas repetidas perguntas ao comando não foram respondidas e rumores começaram a circular sobre murmúrios úmidos e desumanos no canal de comunicação, a maioria dos homens os descartou como histórias de fantasmas inventadas por recrutas entediados. Trincheiras foram cavadas conforme o protocolo. Houve uma duplicação protocolar da guarda noturna. Os homens passavam o tempo jogando cartas e trocando histórias picantes, e a cidade estava quase silenciosa.

Mas então os mortos voltaram à vida.

O mensageiro nunca tinha visto nada parecido. Os dutos de descarte de lixo foram os primeiros a falhar, à medida que os corpos descartados entupiam o sistema com sua repentina e recém-descoberta vontade. Os mortos-vivos rastejavam, cambaleando e se debatendo, para fora das valas comuns, dominando posições isoladas e adicionando as almas infelizes que capturavam à sua multidão trêmula e cambaleante.

No primeiro dia de combate, o mensageiro estava na retaguarda, lutando pelo acesso a uma vala de descarte de lixo. Ele teve um vislumbre em primeira mão dos tanques de lixo e dos corpos que se moviam repentinamente antes que acionassem o interruptor dos incineradores... Uma bênção e uma maldição, já que os mortos-vivos que não eram incinerados de imediato cambaleavam para longe das chamas, indiferentes ao fogo e à decomposição que se espalhavam ao seu redor.

E então veio a névoa e as outras coisas.

Em seus anos de serviço, o mensageiro havia lutado e matado homens de todos os tipos, em dezenas de mundos diferentes. Porém aquelas outras coisas... Eram algo diferente. Com forma humana, talvez... Contudo não homens. Foi o fedor deles que o atingiu: como uma memória terrível que se tornou sólida, sombras vagas em névoa verde, oscilando entre a fuga e a vigília, absorvendo tiros de laser com uma suavidade apática que não era de toda física. Vinham e iam em inexplicáveis ​​nuvens de neblina, uma das quais alcançou sua unidade no terceiro dia, enquanto o mensageiro estava em rotação com uma das equipes de metralhadora pesada... Bigwum e o Funileiro carregando equipamentos, Bullard vigiando suas costas. Quando o banco de neblina os envolveu, o mensageiro quase ficou cego com o fedor. Ele não conseguia enxergar através das lágrimas e do ar denso e verde, todavia se lembrava do som dos tiros e dos gritos de Bullard.

E então, tão rápido quanto veio, o fedor desapareceu, junto com a névoa, as sombras e a metade superior do corpo de Bullard.

Em seu último dia no forte, o mensageiro recebeu um cantil e um mapa para o próximo comando regimental, a trezentos quilômetros a sudeste. Ele foi então despojado de seu rifle laser.

— Precisaremos da munição. — o velho sargento retrucou quando protestou. — São dez quilos de equipamento que vão te atrasar, e estará morto de qualquer maneira se não conseguir escapar disso. Vá avisar o comando...

Houve um assobio e uma explosão. Uma voz deu um aviso tardio quando um habitante da colmeia morto surgiu no topo da trincheira improvisada, explodindo em uma saraivada de tiros de laser. O sargento praguejou ao ser respingado com vísceras, cuspindo e engasgando com os filetes de fluido que escorriam pelo seu rosto e entravam em sua boca.

— Augh... Diga ao comando que não podemos resistir. Diga... Diga a eles que o forte caiu. Diga a eles que essas coisas estão vindo mais rápido do que...

Outro arco de fogo laser, seguido pelo estalo de granadas. O mensageiro e o sargento ficaram em silêncio por um momento, observando a névoa verde e densa se aproximar de sua posição. No meio da névoa, mal visível a olho nu, havia sombras sobre sombras, tênues indícios de figuras contorcendo-se.

As comunicações de curto alcance se transformaram em uma sinfonia de tiros, súplicas e gritos. As comunicações de longa distância permaneceram silenciosas como sempre.

A névoa continuou avançando, e o rugido dos bolters¹ pesados ​​e dos rifles laser atingiu um crescendo. Acima do fedor e do barulho, o sargento gritou, em um tom que o mensageiro nunca ouvira antes daquele veterano grisalho. Antes que a névoa se fechasse e tudo ficasse verde, pôde ouvir o velho berrando, sua voz embargada pelo pânico, quase em lágrimas.

— Vai! Vai! Conta para eles!



A cerca de um dia de distância da colmeia², as planícies começaram a se nivelar. O forte ainda se erguia sobre os campos de pergelissolo atrás dele, entretanto estava cinzento e turvo pela distância. A crescente semi-colmeia que se estendia sob a sombra de sua proteção já estava bem fora de vista.

A colmeia tinha um nome, é claro. O mundo inteiro tinha um nome, assim como o sistema que habitava. Todavia, como o mensageiro aprendera ao longo de suas missões, os nomes eram, em sua maioria, coisas ornamentais e sempre secundários à função. Para a maioria dos soldados do regimento, este era apenas mais um mundo que não conheciam, onde lutariam outra guerra ingrata que não conseguiam nomear, em defesa (ou talvez em oposição a, quem sabe?) das inúmeras fileiras de habitantes locais que usavam trajes finos que nunca tinham visto e falavam línguas que não entendiam.

O mensageiro também tinha um nome... Sílabas arbitrárias que denotavam alguma identidade pessoal arbitrária, há muito tempo. Não conseguia se lembrar da última vez que o usara. No presente, sua patente era de cabo, seu papel era correr e sua função era a de servo do Deus-Imperador. Os açoites e a manipulação mental de seus dias de treinamento haviam gravado essa hierarquia de funções fundo em sua mente, facilmente suplantando o reino pueril de nomes e identidades individuais.

O mensageiro controlou a respiração. As planícies congeladas flutuavam em meio à névoa e às sombras. Em uma memória turva pelo tempo, tinha uma vaga lembrança de correr descalço por trilhas montanhosas escaldantes, saltando de uma elevação para outra em uma cantoria infantil. Podia se lembrar de uma época em que era apenas um corredor em sua companhia... Um dos muitos mensageiros descartáveis ​​de um dos muitos pelotões descartáveis... Antes do jogo intra-regimental em que ganhou seu título em uma corrida a pé de um dia inteiro, unindo seu nome e função em um pequeno e elegante apelido.

Então, como agora, havia suor em sua testa e uma pontada no flanco do corpo. Mas naquela época, o ar estava denso com os gritos de seus companheiros de esquadrão e outros espectadores bêbados. O Funileiro e o Mecânico tinham contrabandeado amasec³ extra do refeitório e estavam distribuindo para Bullard e os outros garotos que tinham voltado para a pista depois que os jogos mais curtos terminaram. A corrida tinha começado ao amanhecer, e o último competidor tinha cambaleado para fora da pista por desistência horas atrás. Bullard tinha corrido ao lado do mensageiro, com um olho inchado e fechado por causa de uma luta brutal no dia anterior, onde quase derrubou um ogryn4.

— Ei, homenzinho! Já se passaram doze horas. Você ganhou. Por que diabos ainda está correndo?

E o mensageiro riu, lembrando-se do cheiro do ar da montanha e dos picos escaldantes. Riu enquanto corria, sem parar, até que Bullard ficou sem fôlego demais para convencê-lo, até que os espectadores bêbados se dispersaram para seus respectivos beliches e as estrelas tomaram suas posições no céu negro.

— Eu disse, por que você ainda está correndo?

O mundo se abriu em um rasgo expressionista verde. O mensageiro engasgou. Em sua mente, não tinha certeza se era em memória desperta ou sonho, Bullard se virou. Ou melhor, a metade superior do torso de Bullard se virou, a metade que estava ausente quando recuperaram seu corpo da névoa. Girou sobre vértebras decepadas e o encarou com um olhar enrugado e cinza, como o de um peixe morto deixado para inchar. A pele de seus lábios tremia e gotejava sílabas de uma boca desdentada.

— Não há como vencer esta corrida, homenzinho.

O fedor fez os olhos do mensageiro lacrimejarem. Murmurou as orações de bênção. A boca de Bullard se esticou num sorriso sem alegria, dividindo seu rosto ao meio. Ele cambaleou para mais perto, as vértebras decepadas estalando e rangendo umas contra as outras a cada passo doloroso. Quando Bullard abriu a boca numa gargalhada estrondosa, o mundo desapareceu em suas profundezas negras e desdentadas.

O mensageiro fechou os olhos com força. Forçou outra litania de orações do peito, sufocando com o cheiro fétido.

Houve um momento de quietude.

Quando voltou a abrir os olhos, estava de joelhos no pergelissolo salgado, sua respiração se transformando em vapor sobre a vasta desolação à sua frente. Não havia Bullard, nem fedor, nem neblina, apenas a extensão infinita das planícies congeladas e um leve toque de verde no horizonte. Acima, o céu se abria em uma boca escancarada e existencial; à sua frente, apenas a tundra e sua promessa de uma longa e fria escuridão.

— Por que você ainda está correndo?

O mensageiro cambaleou e dobrou o passo.



O terreno ficou mais acidentado com a chegada da noite. O mensageiro escalou as estrias glaciais, sentindo a pontada no flanco do corpo. Acima, faixas de laranja, vermelho e violeta se espalhavam pelo céu. À medida que os últimos vestígios de violeta desapareciam no preto, o mensageiro se perguntava distraidamente como evitaria morrer congelado na noite que se aproximava. Os kits de campo regimentais costumavam incluir um isqueiro e um pacote de gravetos para acender fogo, contudo ele havia se esquecido de pegar algo do tipo em sua fuga inglória do forte.

O mensageiro examinou os arredores. Em sua visão periférica, captava borrões ocasionais de movimento que se afastavam do som de seus passos. Quando ligou seus óculos de operação, pôde ver o brilho de olhos de mamíferos, olhando cautelosamente em sua direção na escuridão. O mensageiro se lembrou das reuniões regimentais que fora obrigado a assistir antes do pouso no planeta... Algumas gravações de voz apropriadamente áridas sobre a nomenclatura e a ecologia das planícies salinas e os roedores necrófagos que as habitavam...

Seu estômago roncou. Sem isqueiro ou gravetos, e seu corpo enviando imperativos biológicos que não podia ignorar. Se ao menos o velho Sargento não tivesse levado seu rifle laser...

Seu passo diminuiu. Os olhos brilhantes na escuridão se aproximaram. O mensageiro cuspiu seu respirador antigo no bolso do peito e se deixou cair contra a lateral de uma duna, fingindo fraqueza. As criaturas se aproximaram, hesitantes, quase ao alcance de um braço, seus focinhos trêmulos farejando o fedor de seu suor e exaustão.

O mensageiro atacou. Os roedores se dispersaram, no entanto não rápido o suficiente. Agarrou o animal mais próximo; predador e presa, morte e renovação, um alimentando o outro. O mensageiro gritou quando a coisa peluda se virou e mordeu sua mão com seus incisivos afiados como navalhas. Na fração de segundo em que seu aperto foi afrouxado, o animal disparou para longe. O mensageiro correu atrás, rente ao chão, escalando rochas e cristais de sal, até que um passo em falso o fez cair sobre a crista de uma duna.

Por um momento interminável, preso entre a inércia e a gravidade, o mensageiro deslizou por um mar negro salpicado de estrelas.

— Por que diabos você ainda está correndo?

Então o chão se ergueu e o atingiu nos dentes, nas costelas, nas costas. Despencou pela duna congelada e caiu aos pés do pequeno morro, convulsionando enquanto seu tornozelo se dobrava para trás sob seu peso. Uma dor aguda percorreu seu corpo e gritou as orações de bênção. As palavras podem ter sido “o Imperador protege”, entretanto o significado era: socorro, socorro, isso dói.

As estrelas mantinham sua vigília apática enquanto o mensageiro tremia e praguejava contra a tundra abaixo. A frustração cresceu dentro de si: ele tinha o maldito rato; se ao menos tivesse apertado e quebrado sua espinha antes que tivesse a chance de morder...

Ele transferiu o peso cuidadosamente para longe do tornozelo torcido. Agora, longe de estar saciado, seguia faminto... E, além disso, mais cansado e abatido do que antes. A futilidade de tudo fervilhava em seu peito, misturando-se à dor na perna e à estupidez da ordem do Velho Sargento para entregar seu rifle laser... E à sua própria idiotice dócil ao renunciá-lo. Algo cinzento e infinitamente avassalador o dominou. Sua frustração deu lugar a um súbito esgotamento, e deixou seus punhos caírem inertes no pergelissolo.

Uma voz paternal gargalhou em sua cabeça.

Uma dormência o invadiu, percorrendo seus braços e pernas, peito e espírito. Pensou em como seria fácil apenas ficar ali deitado, deixar a escuridão cair ao seu redor, deixar o calor do seu corpo escapar em mechas de vapor, deixar as pequenas criaturas roedoras mordiscarem sua carne até que não fosse nada mais do que cabelo e ossos descoloridos. Não desejava nada mais do que se encolher em apatia, até se transformar em pó, até que os próprios roedores se decompusessem em nada, e todo o maldito sistema estelar se dissipasse na escuridão infinita e entrópica sem sequer um sussurro ou um elogio fúnebre.

O mensageiro fechou os olhos. Seu condicionamento imperial o impeliu a invocar o nome do Imperador em busca de força... Porém tudo o que emergiu de seu peito foram pequenos suspiros derrotados. A luz das estrelas formou teias diáfanas através de suas lágrimas, e uma lembrança repentina o atingiu: pontes de corda e trilhas, brilhando sob um sol amarelo e quente, tecendo como teias de aranha na distância entre os picos das montanhas. Há muito tempo, sua mãe se inclinou e o pegou no colo acima do planalto sem nuvens, murmurando um nome que não usava desde que fora levado para fora do planeta.

Wanlek... — ela murmurou em sua língua materna. — Wanlek, ak-chi atwa pat mogwil...

O mensageiro se encolheu em agonia e tomou goles parcimoniosos de seu cantil. Forçou a mente a se afastar do passado quente e nebuloso. Ali, no presente, estava sozinho, ferido e congelando, sem comida ou abrigo à vista. Se deitasse para dormir agora, certamente congelaria até a morte.

A dor em seu tornozelo diminuiu para uma pulsação surda. O mensageiro se obrigou a ficar de pé e, lenta e laboriosamente, mancando, atravessou a próxima duna. Uma rajada de vento soprou sobre as planícies salgadas congeladas.

Apertando o casaco ao redor do corpo, mancou cada vez mais fundo na noite impenetrável.



O amanhecer despontou sobre uma terra selvagem, pintando sombras irregulares sobre salinas e cristas de montanhas. A névoa matinal traçava listras brancas e verdes no horizonte, obscurecendo o homem que, meio correndo, meio mancando, era a única vida visível por quilômetros ao redor.

O mensageiro semicerrava os olhos contra o sol, que estava aconchegado como uma ferida vermelha e inchada dentro da névoa. Seu tornozelo esquerdo estava comprimido e inchado dentro da bota de combate. Bolhas de atrito se formaram, estouraram e se formaram de novo durante a noite, e cada passo que dava agora era doloroso e estaladiço.

O sol brilhava em seus olhos.

Certa vez, há muito tempo, sua mãe lhe contara uma história sobre como o sol encontrou seu lugar no céu... Como ele cairia no abismo todas as noites e seria resgatado pelos ancestrais que labutavam em sua proteção sobre os vivos.

Ele não conseguia se lembrar de como aquela história terminava agora... Embora se lembrasse do comissário que o açoitara por contá-la aos seus companheiros recrutas durante os primeiros dias de seu treinamento. A Fé Imperial nunca foi adepta do sincretismo. Acabara aprendendo a reconhecer e evitar os fanáticos no corpo de oficiais... Os autoproclamados pontífices para quem cada fogueira acesa era a Luz do Imperador, e qualquer murmúrio em contrário era motivo para uma surra.

Ainda assim, as orações eram uma rotina útil. Elas mantinham o cansaço sob controle e distraíam sua mente da dor nos pés. O mensageiro usara o Fede Imperialis como um recurso mnemônico5 durante a maior parte da noite, sincronizando cada sílaba com seus próprios passos.



Nosso Imperador, livrai-nos da peste, do engano, da tentação e da guerra.

Nosso Imperador, livrai-nos do flagelo do Kraken.




E assim, cada palavra o aproximava um pouco mais do comando regimental, onde calor, segurança e um merecido descanso o aguardavam.

O mensageiro diminuiu o passo e levou o cantil aos lábios ásperos, notando que estava menos da metade cheio. Perguntou-se vagamente quanto tempo tinha até a água acabar. Tentou novos ângulos para os pés tocarem o chão, para que as solas dos pés, castigadas pelo atrito, pudessem ter algum alívio da dor que as atravessava a cada passo.

E quando sua negação vacilou e suas barreiras mentais enfraqueceram, se perguntou sobre as vozes.



Tudo começou em algum momento da noite. Uma coisa estranha. Na escuridão, juraria ter ouvido passos atrás de si, como um exército marchando por um pântano, caminhando penosamente em uma conversa baixa, contudo jovial. Reconheceu algumas das vozes: Bullard, o Velho Sargento, o Mecânico e o Funileiro, e os brutamontes do refeitório de seu regimento. Às vezes, as vozes pareciam tão próximas que quase se comunicavam direto com ele... No entanto sempre que o mensageiro se dava ao trabalho de olhar para trás, só via a tundra árida.

Agora, enquanto mancava em seu caminho, o exército atrás dele se reagrupou. Podia ouvir um murmúrio simulado da voz de Bullard, o som de seus passos pesados, o ranger de sua coluna vertebral decepada enquanto acompanhava os passos do mensageiro.

— Deve ser um incômodo para você ficar me seguindo por aí, Bull. — disse o mensageiro para ninguém em particular. — Essa sua coluna parece estar doendo muito.

— Não está. E não dói.

O mensageiro cambaleou e olhou fixamente. A voz o perturbou... Mais do que até mesmo as visões fugazes do primeiro dia. Aquelas, pelo menos, podia atribuir ao trauma. Porém esta... Esta era a voz de Bullard, próxima e conversacional, articulada e real.

A desolação da tundra vazia o encarava de volta. A névoa se enrolava em torno de seus pés como tantos dedos ansiosos. O mensageiro levou a mão à testa e sentiu um suor frio, talvez uma febre leve. Soltou um palavrão fraco e voltou para o seu percurso. Já tinha preocupações suficientes sem ter que lidar com a possibilidade de estar perdendo a cabeça.

A voz de Bullard soou atrás, próxima e confidencial.

— Não se preocupe, homenzinho. A morte só é assustadora para os vivos. As perspectivas mudam quando se está do outro lado.

— É tudo instinto e narcisismo, sabe?

O mensageiro engoliu um gole de água, desamarrando as botas e engasgando de dor enquanto o sangue corria para o inchaço. Era meio-dia e não conseguia mais correr. As unhas dos pés perfuravam as meias, rachadas e dobradas para trás... A unha do dedinho do pé havia se soltado com um puxão nauseante, presa na borracha da biqueira.

— Pense nisso, nos éons que se passaram antes de você nascer, nos éons que se passarão depois que virar pó.

Uma camada de pele se desprendeu enquanto retirava o tecido dos pés. O líquido das bolhas escorria frio no ar subártico. O sal queimava seus calcanhares onde os apoiava no pergelissolo.

— Sua existência é apenas um breve lampejo aberrante, entre dois fios infinitos de não-vida.

O mensageiro jazia de costas no leito de sal, seus músculos flácidos de exaustão.

— Bem, ninguém te culpa. Não pode controlar o que você é. — a voz oscilava entre a sabedoria terrena de Bullard e a filosofia pomposa do Mecânico. — A vida existe para gerar vida. Seu ponto de vista é tão irremediavelmente influenciado pela sua biologia que despreza o estado perfeitamente natural de não-vida e idolatra a aberração da sua própria existência caótica.

— Instinto. — disse o Funileiro, com desaprovação.

— E narcisismo — disse o Velho Sargento.

— Cala a boca! — murmurou o mensageiro para a tundra vazia. Ele flexionou os dedos dos pés, observando o calor do seu corpo se dissipar em fitas de vapor no céu branco como leite.

— Nunca pensei que fosse tão sem curiosidade, homenzinho. É tão ruim assim existir sem dor, sem esforço, sem a constante competição de matar ou morrer?

O mensageiro tapou os ouvidos com os dedos incrustados de sal, no entanto a voz penetrou sua mente como um tiro de laser.

— Há paz aqui. Certeza. Conforto.

Uma rajada de vento levantou sal e poeira e lançou as gotículas irritantes nos pés castigados do mensageiro. A ansiedade pulsava em seu peito... Sabia que não podia ficar ali deitado daquele jeito, todavia seus músculos exaustos não conseguiam obedecer aos espasmos nervosos que percorriam seus membros.

Se eu sobreviver a isso, pensou o mensageiro, agarrando seu respirador e lambendo os lábios rachados. Se eu sair vivo dessa...

Não havia muito espaço para arrependimentos na Guarda... Até porque não havia muito que estivesse sob o controle de alguém, para começar. Entretanto jurou que, se sobrevivesse, se certificaria de pelo menos se recuperar bem e dormir por uma semana. E depois... Bem. Provavelmente morreria lutando em alguma outra guerra ingrata, em algum outro planeta de merda. Mas se, por algum milagre abençoado pelo Imperador, conseguisse completar todo o seu período de serviço vivo... Se houvesse alguma chance de voltar para casa...

O mensageiro apertou o respirador antigo no bolso. Lembrou-se da última vez que contemplara os picos de Intinti. O pensamento o surpreendeu. Não achava que ainda se lembraria do nome de seu mundo natal depois de todos esses anos, porém lá estava: um céu claro e sem nuvens, pombas aqtipi espalhadas sobre um alto planalto de andesito, uma procissão dos cinquenta meninos saudáveis ​​do wamani subindo solenemente em direção ao templo celeste, o mensageiro entre eles.

Três toques estridentes de uma corneta de osso de urso, e um tributo entregue.

O mensageiro lembrou-se de ter tapado os ouvidos quando uma besta metálica rugindo abriu caminho entre as nuvens. Na noite anterior, havia se entregado ao banquete ritual e às copiosas quantidades de vinho de milho que proporcionara. Os sacerdotes o ungiram com uma pitada de cinábrio, entoando...

Wanlek Dir, terceiro filho da terceira esposa da Casa Dir-ek, chaquec em treinamento para os Mensageiros Imperiais. Você foi ungido pelos deuses.

Abraçou sua mãe e chorou, o que lhe rendeu as zombarias de seus irmãos... Contudo até eles amenizaram as brincadeiras com um toque de melancolia. De manhã, partiria para sempre do wamani, levado pelos deuses do céu para o reino do sol. De manhã, não seria mais Wanlek Dir. E assim choraram, riram, festejaram e beberam, e os sacerdotes espalharam folhas de ouro e milho a seus pés, finalizando os ritos de iniciação para o tributo aos deuses do céu e suas bestas voadoras de metal.

Como o mundo era pequeno naquela época, pensou o mensageiro. Sabia tão pouco, todos os sábios e santos sabiam tão pouco. Fechando os olhos, ainda conseguia se lembrar dos nobres que presidiam, entoando suas orações ao sol em um rítmico Alto Tahuanti.

Qulonqu-ek tapa, ik tapa ak qhapaq pat dwil...

E então, apenas o interior escuro da nave espacial. O rangido interminável do metal, o suor, a urina e o vômito dos outros garotos enquanto a besta os levava para o céu, seus corações batendo forte na garganta, seus espíritos humilhados pela crescente expectativa da revelação divina. E então o solavanco final da acoplagem, o fedor e o anticlímax quando as portas de metal se abriram para um mar de homens. Homens mundanos, suados, presos, assustados.

— Eu me lembro daquele dia... — a voz de Bullard ressoou no frio presente. — Vocês pareciam que iam desmaiar... Todos vocês, seus miseráveis.

O mensageiro soltou um suspiro nebuloso para o céu. Seus compatriotas de Intinti não duraram muito tempo na Astra Militarum. Ao final do treinamento, a maioria havia morrido ou sido dispensada para trabalhos braçais no corpo de escravos. Sentia falta deles, embora não conseguisse se lembrar com clareza de nenhum de seus rostos. Sentia falta de Bullard... O Bullard vivo, de carne e osso. Sentia falta dos picos vagamente lembrados de sua infância, onde o sol era quente e podia correr descalço pelas trilhas da montanha sem dor, exaustão ou a constante palpitação de ansiedade em seu peito. Sentia falta de sua mãe e de seus muitos, muitos irmãos.

Se houvesse alguma chance de voltar para casa...

— O que faria?

O mensageiro pensou por um segundo. Para começar, encontraria sua mãe, se ela ainda estivesse viva. Talvez desse uma bronca no sumo sacerdote sobre o que de fato havia lá fora, no “reino do sol”. E então encontraria as trilhas de sua juventude e, sob um sol amarelo e quente, correria até que todas as terríveis lembranças de fora do planeta evaporassem como suor de sua testa.

— E depois?

O mensageiro refletiu em silêncio. Depois? Envelhecer, aposentar-se em uma propriedade nas montanhas, criar filhos, netos e então, quando enfim chegasse a sua hora...

— É isso mesmo, não é? — Bullard murmurou, com um ar de quem já sabia de tudo. — Se deixar a história continuar por tempo suficiente, tudo termina da mesma maneira.

Os dedos do mensageiro agarraram-se fracamente à terra. Um bom sinal, pelo menos seus músculos estavam respondendo outra vez. Tirou um pedaço de gaze da sua pochete e, com dificuldade, moveu as pernas para uma posição em que pudesse enfaixar os pés. A gaze aderiu firme às bolhas semi-secas. Notou que a mordida do roedor começara a supurar e também a enfaixou.

Pelo menos a fome passou, consolou-se. Ela havia diminuído em algum momento do dia, substituída por uma sensação de aperto constritivo no estômago que mal percebia.

Apoiando os pés enfaixados no chão, enfiou a mão nas botas e raspou a areia de dentro delas. Aglomerados de fluidos meio secos e pele morta caíram perto do seu rosto. Cravou os dedos na biqueira, arrancando a unha que havia sido puxada do seu dedinho com uma onda doentia de satisfação.

O mensageiro calçou as botas e se levantou em meio a uma profusão de dores: a dor aguda e seca das bandagens recentes e a dor úmida e surda onde a pele sem bandagem roçava nas palmilhas umedecidas de pus das botas. Suas articulações protestavam a cada movimento, e os músculos das coxas e das costas não paravam de tremer sob seu peso.

— Não precisa ser assim. — disse Bullard em tom grave, atiçando seu cansaço. — Não gosto de te ver sofrer, homenzinho.

O mensageiro colocou um pé na frente do outro e correu.



A noite caiu sobre a névoa e as sombras. O mensageiro cambaleava pela escuridão fria, sentindo um arrepio febril. As solas de suas botas começaram a desfiar no início da noite, e agora a borracha batia em farrapos a cada passo. Improvisara um torniquete para unir a bota, passando o tecido de gaze por baixo da sola e prendendo-o nos cadarços... Contudo o sal cristalino e afiado em pouco tempo lacerou o tecido, transformando-o em um trapo inútil e esvoaçante.

O mensageiro movia os pés em sincronia com sua oração.



Nosso Imperador, livrai-nos da peste, do engano, da tentação e da guerra.

Nosso Imperador, livrai-nos do flagelo do Kraken.




Atrás dele, o último raio de sol desapareceu no horizonte.

— Eu sou Wanlek Dir, e fui escolhido pelos deuses. — disse o mensageiro ao céu que escurecia. Sua voz estava rouca e delirante. — O Imperador protege.

As solas de suas botas bateram no chão e ele caiu para a frente. Uma boca cheia de sal e sangue.

Virando-se de costas, Wanlek soltou um riso fraco enquanto as estrelas apáticas giravam sobre sua cabeça. Cuspiu sal e areia e pegou seu cantil. Segurou-o acima dos lábios por um minuto inteiro antes de perceber que estava vazio.

— Reverenciado Imperador de Terra. — ofegou. — Livra-nos da sede e das botas sujas de merda...

Por um momento, perguntou-se onde Terra poderia estar e qual seria a aparência do Imperador. Invocando todas as orações e histórias antigas que conhecia, Wanlek pintou uma imagem em sua mente... Um homem grande em um trono dourado. Uma luz sagrada indefinida. E... E era só.

Nada mais emanava da névoa de reverência inconsciente. Apesar de todas as surras e doutrinações, de toda a veneração praticada e temor condicionado, havia muito pouco que sabia sobre o Sagrado Deus-Imperador que supostamente velava por toda a humanidade.

Wanlek ergueu a cabeça, vendo o brilho de olhos mamíferos se reunir ao seu redor. Deu uma leve batida no chão com uma das mãos, e eles se dispersaram de volta para a escuridão.

Certa vez, em seu mundo natal, Wanlek vira um imperador. Um velho magricela com um cocar de penas douradas. O imperador estava em visita oficial, então não havia trono de ouro, apenas uma liteira pintada e adornada com pirita e esmeraldas. Um velho pequeno e frágil... Entretanto um Deus-Imperador tão bom quanto qualquer outro, por tudo o que ambos já haviam feito por ele. Afinal, onde eles estavam quando o forte caiu? Onde estava o Imperador quando Bullard foi partido ao meio? Onde estava o Imperador quando o Velho Sargento gritou e a névoa os envolveu?

Salve Sua santa impotência, o magricela Deus-Imperador da Terra! Wanlek pensou, delirantemente tonto com a irreverência de tudo aquilo. Se algum de seus comissários pudesse ouvi-lo agora, com certeza o fuzilaria.

Wanlek rolou de bruços e rastejou até ficar de joelhos. O mapa indicava mais oitenta milhas entre ele e o comando do regimento. Desvencilhou-se de suas botas inúteis e esvoaçantes e se contorceu ao sentir o sal cortante da tundra. Apenas a secura lancinante em sua garganta o impediu de gritar de dor.

— Por que não descansar um pouco?

Wanlek ignorou as vozes gorgolejantes de seus companheiros de esquadrão mortos. Pequenas criaturas roedoras surgiam e desapareciam das sombras, seguindo-o com seus olhos brilhantes.

Eles sabem que estou morrendo, pensou Wanlek. Deu mais um passo agonizante. Não se lembrava de ter sentido tanta dor ou exaustão em toda a sua vida. Ajustando seus binóculos, examinou desesperadamente a paisagem em busca de qualquer sinal de água. O terreno sinuoso do leito de um rio, talvez, ou o brilho reflexivo da neve ou do gelo sob a luz das estrelas.

Uma desolação sem limites o encarava. A tundra escura se estendia até o horizonte, infinita e atemporal. Névoas rodopiavam em tentáculos ansiosos. Wanlek Dir olhou para a escuridão, tremendo enquanto seus músculos se contraíam e sua pele supurava.

E em meio a tudo isso, onde estava o Imperador?



Um coro ecoou pela paisagem, baixo e jovial, sob uma névoa opressiva que sufocava as estrelas. A batida retumbante penetrou nos músculos exaustos de Wanlek Dir como melaço escorrendo.

Sou carne e sou podridão.

Sou carne e sou deus.

As palavras vieram simultaneamente da escuridão além da névoa e do fundo de seus ossos. Wanlek Dir cantarolava em delírio febril.

Nenhuma palavra saiu, apenas um chiado desafinado.

Sou sujeira e sou varíola.

Sou a carne que o tempo esqueceu.

Sal e sujeira marcavam a pele nua de suas solas. Um rastro de pegadas se estendia atrás dele em pus e sangue... Embora, nos últimos cinco quilômetros, as impressões tivessem sido feitas em sua maior parte por suas mãos e joelhos, e não por seus pés.

Wanlek rastejou adiante em meio à febre e ao suor frio. As palmas de suas mãos estavam salpicadas de sal e em carne viva, e seu uniforme de combate havia sido rasgado, revelando joelhos igualmente machucados e esfarrapados. Contou seu progresso em múltiplos de sete. Sou carne e sou podridão... E isso foram sete movimentos cambaleantes. Sou carne e sou deus... E mais sete pegadas esfarrapadas.

A voz de Bullard ecoou sobre o coro.

— Deite-se e descanse, homenzinho. Você merece um pouco de paz.

Wanlek girou na direção do som, porém não viu nada além de névoa.

Aquele desgraçado está sempre se escondendo de mim, pensou. Bullard gostava de suas pegadinhas. Wanlek respirou fundo, com a garganta seca. Água, era o mais importante. Não conseguiria ir muito mais longe sem água.

Sou a carne que o tempo esqueceu.

Wanlek rastejou adiante, oscilando entre a consciência e a inconsciência, a mente tomada pela febre. A névoa o envolveu; sombras dentro de sombras se agitavam com o que poderiam ter sido formas humanas. Depois de um tempo indeterminado, acordou encostado na lateral de uma formação rochosa, as mãos nuas tremendo contra uma fenda na parte inferior. Levou a mão ao rosto para tirar um grão de sal que ardia, e seus dedos se afastaram da rocha, frios e úmidos.

Uma emoção primordial cortou sua névoa mental.

Umidade! Geada na parte inferior da rocha. Um impulso simples e bestial saltou em seu peito. Wanlek Dir deitou-se trêmulo no chão, sedento e necessitado, e lambeu a pedra.

Uma dor aguda percorreu sua língua. Wanlek engasgou. Os grãos de sal laceraram sua boca, e a umidade gelada apenas serviu para espalhar a salmoura em uma fina camada adesiva que grudou em sua língua e palato. Ele engasgou e tentou cuspir, contudo não conseguiu produzir saliva. Sua língua se abriu em fissuras danificadas pelo sal.

Wanlek Dir desabou em desespero absoluto, gemendo em um Tahuanti quase esquecido. Não havia Imperador na galáxia que pudesse ajudá-lo. Conforme a secura o sufocava na garganta e nenhum som saía, murmurou para o céu.

— Mamãe. Mamãe, me ajude. Quero ir para casa.

Os olhos brilhantes se aproximaram em grande velocidade. Wanlek tentou espantá-los, no entanto os músculos de seus braços não obedeciam ao comando. Além deles, no meio da névoa, sombras revoltas se transformavam em formas humanas. Bordas indistintas se tornaram sólidas, e Wanlek mal conseguia distinguir os contornos familiares na bruma: o Velho Sargento, com a pele descamada como se tivesse sido mergulhada em ácido; o Funileiro, com metade do rosto coberto de varíola; Bullard, balançando e estalando sobre a coluna vertebral decepada, um buraco negro e contorcido onde antes ficava sua boca. Olhando ainda mais para a escuridão, Wanlek pensou que também podia ver o resto de seu regimento reunido em uma multidão, seus rostos e contornos indistintos, desaparecendo infinitamente na névoa que tudo consumia. Havia guardas usando uniformes desconhecidos também, e civis com trajes que nunca tinha visto antes... Até mesmo homens e mulheres Intinti, alguns com chapéus sacerdotais.

— Todas as coisas devem morrer. — entoavam as sombras na névoa.

Wanlek Dir recostou a cabeça e fechou os olhos. Um dos roedores mais corajosos correu até seus pés e mordiscou a gaze esfarrapada e encharcada de pus.

— Somos a carne que o tempo esqueceu. — a voz do Maquinista ressoou na escuridão.

— Podemos fazer a dor passar. — disse Bullard, saindo da névoa e estendendo a mão em um gesto de ajuda.

Wanlek ofegou impotente. Houve um sobressalto vindo de longe quando um dos roedores mordeu a carne onde sua unha costumava estar. Tentou chutá-lo para longe, entretanto, novamente, seus músculos não responderam. À medida que mais roedores se reuniam ao seu redor, as mordidas afiadas de seus incisivos enviaram uma centena de choques de dor por sua carne. Sua pele descamava no ar enquanto tentava pedir ajuda, murmurando palavras ininteligíveis com a língua que se partira em fendas ressecadas e rachadas.

A névoa tornou-se tão densa quanto piche. Os roedores se aglomeravam até sua cintura, se atropelando uns aos outros na corrida para se alimentar. Bullard se inclinou sobre ele, com a mão estendida, num tom esverdeado e doentio.

Wanlek Dir exalou um último suspiro para o céu e estendeu a mão para recebê-lo.



Ele caminhou pelas profundezas de um vasto e impossível jardim.

O solo estalava sob seus pés. A atmosfera era quente e úmida o suficiente para ser tropical, embora a vegetação esquelética ao seu redor parecesse negra demais para ser de qualquer variedade tropical, e nenhum canto de pássaro perturbasse o ar parado e úmido. Escolhia os caminhos com uma determinação que o surpreendeu. Sabia que as solas de seus pés estavam em carne viva, todavia não sentia dor... Cada passo gorgolejava no chão com uma estranha e reconfortante dormência.

Na escuridão, formas indistintas acompanhavam seus movimentos. Suas figuras se transformavam, de Velho Sargento a Maquinista, de Bullard aos garotos Intinti que haviam se perdido há eras durante seu treinamento na Astra Militarum. Uma sombra emergiu da folhagem... Ela tinha o rosto do velho sacerdote Intinti em seu dia de festa.

— Wanlek Dir, terceiro filho da terceira esposa da Casa Dir-ek, aquele em treinamento para os Mensageiros Imperiais. Você é ungido pelos deuses.

O sacerdote em forma de sombra limpou a testa com uma gota de pus e espalhou cinzas e bubões aos seus pés. Wanlek continuou caminhando com dificuldade. Um rosto familiar surgiu da névoa para cumprimentá-lo.

— Eu te disse... — Bullard balbuciou enquanto se abraçavam. — Chega de sofrimento, homenzinho.

Wanlek fechou os olhos e ouviu as vértebras decepadas de Bullard estalarem ao ritmo de sua respiração. Sentiu uma tristeza profunda e distante, mas não conseguia se lembrar por quê. Vagas lembranças de um sol amarelo e trilhas estreitas nas montanhas se dissiparam. Por um segundo, uma voz frágil perfurou a escuridão, brilhante e etérea.

— Meu pequeno pombo aqtipi, você sabe como o sol encontrou seu lugar no céu?

Sua tristeza se aprofundou. Não importava o quão fundo mergulhasse nas profundezas nebulosas da memória, não conseguia se lembrar da resposta para aquela pergunta, nem da razão pela qual ressoava com tanta importância para ele.

Uma terceira sombra surgiu da névoa. Wanlek se mexeu, e palavras meio lembradas borbulharam de sua boca.

— Mamãe?

Ela se curvou para fora da terra, sua carne macia, verde e flexível. Não era sua mãe, porém era parecida o suficiente com a verdadeira para lhe proporcionar um conforto profundo e satisfatório. Sua voz soava como piche enquanto gotejava suas palavras no pântano sob seus pés.

— Você foi ungido pelos deuses, meu pequeno pombo. Chega de dor.

— Chega de dor! — ecoaram as sombras na névoa.

Ela o envolveu num abraço úmido. Beijos mornos deixaram manchas de pus em suas bochechas. Quando por fim se separaram, ela o segurou à distância de um braço e olhou para seu rosto com carinho.

— Nós absorvemos sua dor, contudo isso não significa o fim do nosso dever. Você ainda tem um trabalho a fazer. Entende?

Ele assentiu lentamente.

— Acho que sim.

Ela sorriu e lhe deu um último beijo borbulhante.



O mensageiro abriu os olhos.

O amanhecer despontava sobre a tundra. Um vento frio chicoteava seu rosto, contudo não sentia frio. Sentou-se, testando a resistência dos músculos contra o próprio peso. Responderam sem reclamar. Encostou as solas dos pés esfoladas no sal irregular da tundra. Não sentia dor.

O mensageiro se levantou e olhou para o vazio. A gaze em seus pés caiu, junto com uma camada de pele. Outras coisas também. Fragmentos de memória. Fragmentos de um sol amarelo. Um enigma em uma história cujo final não conseguia se lembrar.

Desamarrou o cantil do cinto e o deixou cair na terra congelada. Em seguida, sua bolsa. Seus cintos e medalhas. Levando a mão ao bolso do peito, sentiu o bloco sólido de metal do antigo respirador... E, após uma breve hesitação, jogou-o fora também.

O mensageiro respirou fundo, observando as carcaças inchadas de roedores a seus pés. As articulações estalavam e a pele descamava, no entanto, fora isso, se sentia bastante funcional.

— Nós absorvemos sua dor... — ressoou uma voz profunda em seu estômago. — Todavia você ainda tem um trabalho a fazer.

O mensageiro piscou. De repente, lembrou-se de que estava correndo há dias e que seu dever não havia terminado. Arrancando-se de seu repouso, desceu a crista da montanha e seguiu adiante pela vasta e extensa tundra.

Era melhor não se demorar. Afinal, ainda tinha uma mensagem para entregar.



Já era final de tarde quando a silhueta cinzenta e imponente do comando regimental surgiu à vista. O mensageiro aproximou-se em um ritmo tranquilo, cantarolando alegremente seu refrão enquanto o ar estalava ritmicamente ao seu redor. Foram necessários alguns tiros para que reconhecesse o som dos rifles laser. Disparos perdidos passaram por cima de sua cabeça, mas não o impediram de prosseguir. O mensageiro os observava com um interesse vago, imaginando se eram tiros de advertência ou apenas um indicativo de uma mira terrível.

Houve um estalo e um chiado. Cambaleou para trás com uma preocupação distante e olhou para baixo para ver onde um tiro havia arrancado um pedaço fumegante de seu ombro. Por que estavam atirando nele agora? Tinha uma mensagem para entregar e havia percorrido um longo caminho para fazê-lo.

Levantou-se do chão com dificuldade e ergueu o braço bom em um gesto de rendição.

Os tiros cessaram.

Depois de um tempo, várias figuras emergiram da névoa, cercando-o com velocidade experiente. Eles o puxaram para cima, suando e respirando com dificuldade. O mensageiro os olhou com pena. Eles o arrastaram pelo portão do complexo principal, através de um vasto pátio de pedra e concreto, e para dentro de um bunker cinza e baixo que se aninhava perto da base da fortaleza na montanha.

O mundo passou em aço, carne e enxofre. Corredores e mais corredores. Mais carne vinha atrás, latindo, suando, correndo, saudando com todo o esforço desordenado que se esperava. Por fim, uma porta de aço ao longo de uma parede distante deslizou, e o mensageiro foi depositado sem cerimônia em uma sala sem janelas e empurrado para um canto. Mais carne entrou na sala atrás dele, a gelatina de seus olhos se esforçando enquanto o estudavam.

— Nome e patente! — latiu a carne.

O mensageiro piscou.

— Eu sou... — começou, franzindo a testa. Repreendeu-se por sua falha de memória.

Sou carne e sou podridão.

Sou carne e sou deus.

A carne zumbia ao seu redor... Bajulando, cutucando, batendo, gritando. O mensageiro aceitou tudo com uma leve indiferença. Não conseguia entender por que insistiam em emboscá-lo agora. Sua mensagem era importante, mesmo que estivesse um pouco confuso com os detalhes. Um forte, era isso. Um forte havia caído, e algo estava prestes a acontecer. Bullard, o Velho Sargento e o Funileiro estavam mortos, e...

O mensageiro franziu a testa. Não, isso não podia estar certo. Bullard, o Velho Sargento e o Funileiro estavam bem. Na verdade, Bullard estava ali naquele momento, num canto escuro da sala, com os lábios repuxados num sorriso negro como fuligem, profundo, sem língua, desdentado.

Lá fora, no corredor, uma comoção irrompeu. Gritos ecoaram em um estrondo, e passos pesados ​​se moviam de um lado para o outro em uma confusão entrecortada. Mensagens ininteligíveis voavam de um comunicador para outro antes que a sala mergulhasse em um silêncio mortal.

A carne gritou e o atingiu com outro golpe. Podia sentir o choque da carne contra a carne, o nó do dedo contra o queixo.

Certo. A mensagem.

O mensageiro abriu a boca.

Sou a carne que o tempo esqueceu.

Uma compreensão repentina o invadiu. Ele se levantou ponderadamente, processando a semântica em sua mente. Afinal, não era um mensageiro. Era mais um... Qual era a palavra?

Um arauto.

A carne recuou diante da névoa verde que vazava do nariz, da boca e dos poros do arauto.

Sou a carne que o tempo esqueceu.

Bullard saiu das sombras. E o Velho Sargento, e o Funileiro, e o Maquinista. O arauto segurou a carne convulsiva contra o peito, como se quisesse acalmar uma criança que chorava. Seus membros se debatiam com um vigor desesperado, mas cada golpe era mais fraco que o anterior. O arauto abraçou a carne como um pai faria; aconchegou-a, sufocou-a.

— Chega de dor, homenzinho. — disse ele, enquanto a névoa se adensava e as sombras se tornavam sólidas. — Estamos chegando.



Notas:
1. O bolter, e suas variantes são algumas das armas antipessoal balísticas portáteis mais poderosas em uso pelas forças militares do Império da Humanidade . É uma poderosa arma de assalto que dispara projéteis cinéticos explosivos coloquialmente chamados de “bolts”.
2. Colmeia é uma arcologia massiva, ou cidade totalmente autossuficiente, que abriga milhões ou até bilhões de seres humanos leais ao Império da Humanidade. As cidades-colmeia são encontradas em aglomerados nos planetas urbanos densamente povoados conhecidos no léxico imperial oficial como Mundos-Colmeia.
3. Amasec é uma bebida alcoólica potente, semelhante ao vinho, popular em todo o Império da Humanidade e destilada a partir de diferentes tipos de grãos locais. Sua qualidade pode variar consideravelmente, desde bebidas menores, próprias para uso em bombas incendiárias, até marcas bem envelhecidas, adequadas apenas para a nobreza imperial ou para os servos de mais alta patente do Imperador.
4. Os Ogryns (Homo sapiens gigantus) são uma subespécie mutante Abhumana da Humanidade, enorme e fisicamente poderosa, empregada pelo Império da Humanidade como tropas de choque.
5. Mnemônicos são técnicas de memorização que utilizam associações, frases, palavras-chave (acrônimos) ou imagens para facilitar a retenção de informações complexas. Eles funcionam como “gatilhos” para recuperar dados armazenados na memória de longo prazo, transformando conteúdos difíceis em algo simples e organizado.

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