TOMO UM: OLHO DA TEMPESTADE
Capítulo 01: A Música das Alturas
Mesmo dentro da caverna, onde a fogueira crepitante enviava dedos cinzentos de fumaça em direção à abertura no teto de pedra e a luz avermelhada brincava sobre as esculturas nas paredes... Serpentes entrelaçadas e bestas de presas e olhos fixos, o frio ainda lhe roía os ossos. Enquanto oscilava entre o sono febril e a vigília, passando pela luz do dia filtrada e pela noite gélida, sentia como se um gelo cinzento crescesse em seu interior, enrijecendo seus membros e preenchendo-o de geada. Perguntava-se se algum dia voltaria a sentir calor.
Fugindo da fria caverna de Yiqanuc e de seu corpo enfermo, ele vagava pela Estrada dos Sonhos, deslizando impotente de uma fantasia para outra. Muitas vezes pensava ter retornado a Hayholt, ao seu castelo-lar como outrora fora, e como jamais voltaria a ser. Um lugar de gramados aquecidos pelo sol, de recantos sombrios e esconderijos, a maior de todas as casas, repleta de movimento, cor e música. Caminhava de novo pelo Jardim de Cercas Vivas, e o vento que soprava do lado de fora da caverna onde dormia cantava também em seus sonhos, agitando suavemente as folhas e sacudindo as delicadas cercas de arbustos.






