Capítulo 01: Jones
O calor sufocante das palavras, a fervura e a ardência delas, era a única dádiva que recebera na vida. E guardava essa dádiva no mesmo coração calejado onde guardava o último estertor de seu pai e a bala que recebera perto do fim da guerra. A bala que deveria ter extinguido sua chama, mas que acabou sendo freada pelo colete de couro e pela correia grossa do cantil, não passando de um projétil alojado na musculatura de seu peito como um carrapato. Em certas noites, quando o humor pedia, Jones deslizava um ou dois dedos por baixo da camisa para acariciar a protuberância dura que ali residia. Uma forma de lembrar a si mesmo de que tinha sorte por respirar, ou de que a morte lhe fora roubada. Às vezes, a sensação oscilava entre uma coisa e outra.
Amarrou a égua, a quem chamava de Enterline, na árvore moribunda que se curvava como as costas de um velho e caminhou devagar em direção à casa. Ou ao que restava desta. Vigas carbonizadas emergiam da lama e das cinzas como os dedos de um enorme carniçal tentando se libertar da terra. Jones desejava que fosse esse o caso, talvez sentisse menos medo. Parou e olhou para o fogão de ferro, encostado no que um dia fora uma parede. Quantas vezes se sentara à mesa e observara sua mãe tirar tortas daquele forno? Ou a viu cozinhar ensopados em fogo brando, ou fritar ovos e bacon sobre ele? Tantos dias quanto os arrependimentos que carregava, apostaria ele. Fechou os olhos e quase pôde sentir o cheiro das massas açucaradas e dos caldos encorpados de carne. Quase pôde ver o avental xadrez azul que ela sempre usava. Seus dedos ossudos agarrando as extremidades do rolo de madeira enquanto esticava a massa. Ou a farinha e a sujeira sob as unhas quando apontava para os papéis dele, enquanto ele se sentava para fazer as lições antes da hora de dormir. Depois que seu pai se foi, as lições definharam, morreram rapidamente e se decompuseram em tarefas domésticas e silêncio. De muitas maneiras, sua mãe morreu junto com o pai. O calor se apagou como uma vela. Tornou-se um órfão que vivia com uma mãe de papel, numa casa repleta de sombras salgadas.




