Capítulo 69: Soltos, os cães de caça mostram suas presas
Uma densa fumaça pairava no ar.
Essa foi a primeira coisa que vimos quando saímos correndo do quarto, descemos o corredor até o terraço mais próximo e olhamos para a cidade de Atessa. Claro, colunas de fumaça não eram uma visão incomum em uma cidade de ferreiros. Mas duas colunas em particular eram notavelmente mais escuras que as outras.
E então... Fwoom! Houve uma terceira explosão e uma nova coluna apareceu.
“É o Tessius!” gritou Zel.
“Aposto que sim!” disse Amelia, lançando um olhar furioso para a fumaça.
Espere um minuto! Zel havia mencionado a possibilidade de os Cães da Floresta de Tessius atacarem a qualquer momento, porém ainda assim, parecia um pouco repentino demais. Como esses caras são tão impacientes?
De um jeito ou de outro, a cidade estava sob ataque! O que significava que tínhamos que defendê-la!
“Amelia, você e os soldados cuidam das evacuações! Cuidado! Alguns dos Cães podem ter se infiltrado na cidade em meio ao caos!”
Amelia pareceu momentaneamente contrariada com a minha ordem, contudo respondeu com firmeza.
“Muito bem!”
Sabia que ela teria preferido uma participação ativa na derrota do mal. No entanto também sabia que, se uma princesa insistisse em ir para a linha de frente, os soldados e a segurança local insistiriam em ir junto em vez de levar os civis para um lugar seguro. Amelia também sabia, e foi por esse motivo que não saiu correndo logo de cara.
Você cresceu, Amelia. Nos velhos dias, ela teria subido no telhado da hospedaria assim que eu desviasse o olhar para fazer uma declaração dramática ao nosso oponente.
“Soldados de Zephilia e Saillune!” Amelia gritou agora, virando-se para a multidão de homens armados. “Embora nossas nações e patentes sejam diferentes, temos um desejo mútuo de proteger o povo e manter a paz! Com servos do mal entre nós, é nosso dever repeli-los e salvaguardar esta cidade! Vocês me prestarão sua ajuda?”
“Sim!” gritaram os soldados em uníssono.
Nesse meio tempo...
“Zel! Pegue o Gourry e me siga! Vou na frente!” falei, enquanto começava a recitar um encantamento. “Lei Asa!”
O feitiço me elevou do terraço. Teria preferido Gourry e Zel ao meu lado, todavia minhas únicas duas opções de magia de voo eram uma lenta e flutuante e a de alta velocidade que acabei de invocar. A versão de alta velocidade era útil quando se estava com pressa, só que a barreira de vento que criava dificultava o controle. Sua capacidade máxima de carga, velocidade e altitude também dependiam da habilidade do conjurador. Teria sido moleza com meus antigos talismãs que potencializavam a magia, porém tentar carregar Gourry sem eles nos limitaria a deslizar pelo chão em um ritmo bem lento. Talvez nem conseguíssemos atravessar as muralhas da cidade.
Agora, Levitação... O feitiço de voo flutuante... Me permitiria carregar alguém com facilidade, contudo tinha a desvantagem de ser muito mais lento. Flutuar a essa velocidade era como pedir para alguém atirar projéteis na sua direção. Foi por essa razão que optei em liderar o ataque, atrair a atenção do inimigo e ganhar tempo para Zel trazer Gourry consigo!
Voei sobre casas, lojas e oficinas antes de cruzar a muralha que cercava Atessa. Dada a localização das explosões na cidade, foi fácil adivinhar onde os Cães estavam. Voei a uma certa distância daquela área, dissipei meu feitiço de voo e aterrissei no meio da floresta. Então comecei meu cântico!
Tu que és mais sombrio que o crepúsculo...
Tu que és mais vermelho que o sangue...
Juro em teu nome exaltado...
Obscurecido, nas profundezas do fluxo do tempo...
Faço esta promessa à escuridão aqui...
Então todos aqueles em igual medida...
Tolos que ousam bloquear nosso caminho...
Enfrentarão a destruição sem restrições
Conceda-me poder e liberte o seu!
“Dragon Slave!”
A luz carmesim que produzi concentrou-se em um ponto à distância e então... Fa-bwoom! Explodiu como puro poder destrutivo!
Meu alvo era o coração da floresta. A madeira no ponto zero foi completamente atomizada pela explosão, enquanto as árvores ao redor foram dobradas, quebradas ou arrancadas de suas raízes e lançadas pelos ares!
Dragon Slave era um feitiço que, como seu nome de matador de dragões sugeria, tinha poder suficiente para obliterar um pequeno castelo. Criou uma depressão... Bem, mais como uma cratera... Do tamanho de um quarteirão, cercada por destruição. Indiferente à selvageria que eu havia causado, comecei a conjurar um novo feitiço.
“Bola de Fogo!”
A luz que liberei desta vez atingiu as árvores derrubadas e... Bwoosh! Explodiu, espalhando chamas carmesins por toda parte. Continuei com uma segunda rodada, depois uma terceira! Era difícil o fogo se espalhar entre árvores saudáveis, todavia se aumentasse o calor o suficiente de todos os lados, conseguiria. Uma fumaça densa subiu enquanto as árvores ao redor começavam a queimar.
Acho que eles não podem ignorar isso, mas... Examinei a floresta ao redor com meus olhos. Algo está...
Achei que vi. Um arrepio estranho percorreu minha espinha. Seguindo minha intuição ansiosa, me virei em seguida. Nesse instante... Krrrshoom! Um clarão branco cortou o lugar onde eu estava! Olhei para ver quem tinha vindo me cumprimentar, porém tudo o que vi foi uma névoa branca rolando em minha direção. Não consegui identificar quem a conjurara.
A névoa continuava a se expandir, avançando em minha direção. Logo alcançou as árvores lambidas por línguas de fogo ascendentes e as encharcou, reduzindo a força e propagação das chamas. Aha... Como Alaina havia dito, era um ótimo feitiço para apagar incêndios florestais. Adoraria estudá-lo, contudo para o meu azar, não tinha tempo para ficar sentada admirando a magia.
“O que pensa que está fazendo?” perguntou alguém com ódio de além da névoa que agora envolvia a área... Tessius.
“Ah, qual é!” respondi com um tom zombeteiro intencional. “Tudo bem vocês lançarem feitiços de ataque contra uma cidade humana, no entanto é imperdoável que humanos incendeiem a floresta? Não sejam estúpidos. Da próxima vez que atacarem a cidade, incendiarei ainda mais a floresta.”
Se o objetivo dos Cães era retomar a floresta para os elfos, imaginei que incendiar uma boa parte dela chamaria sua atenção rapidinho. E parece que tinha razão.
“Vou fazê-la pagar por isso!” sibilou Tessius. “Esta floresta era nossa, afinal.”
“Não sei qual é a sua opinião sobre o assunto, entretanto ouvi dizer que humanos e elfos resolveram toda essa discussão há muito tempo.”
Conseguia ouvir a voz de Tessius se aproximando. Uma figura começou a tomar forma na névoa.
Um novo arrepio percorreu minha espinha.
A figura cinzenta que surgiu através da névoa era maior que Tessius... Maior que qualquer humano ou elfo comum, na verdade. Tinha o tamanho de um demônio inferior. Talvez até maior.
“Um pequeno grupo de elfos fez esse acordo. Não temos obrigação de respeitá-lo.”
Um gigante todo cinza, sua cor tão turva que não podia ser chamada de branca... Conforme se aproximava e conseguia distinguir mais detalhes, percebi que suas feições me eram um tanto familiares.
Isto... Vai ser complicado.
Reprimi meu nervosismo interno enquanto decidia continuar provocando-o para ganhar tempo.
“E por que todos os outros, elfos e humanos, deveriam só ouvir tudo o que você tem a dizer?”
“Vocês, humanos estúpidos, não entendem os fatos. Tudo o que fazem é zurrar.”
Os passos do gigante cinza pararam.
Não teria reconhecido Tessius se não fosse pela sua voz. Uma armadura cinza clara cobria todo o seu corpo. Duas protuberâncias se projetavam do capacete, lembrando chifres ou orelhas de animais. Onde deveriam estar as aberturas para os olhos, havia duas pedras de cristal lisas, semelhantes a ônix, e várias protuberâncias semelhantes a tentáculos brotavam por toda a armadura, aqui e ali.
“Apenas peguei as suas palavras e inverti os papéis. Estou tentando provar que sua lógica é inerentemente falha.”
“Heh. Vejo que tem coragem ao continuar falando sem parar depois de me ver assim.” proclamou Tessius, confiante.
Acenei com as mãos.
“Eu, uma simples coitadinha? Que nada. Estou morrendo de medo. Meus joelhos estão tremendo, mal me aguento em pé.” disse com o maior desdém que consegui.
“Está me subestimando. Pode pensar que essa coisa é só uma armadura pesada, mas...”
“Não, sei que não é.” interrompi seu falatório. “Essa é a Armadura Zenafa. Ou... A Zanaffar?”
Minha declaração casual deixou Tessius atônito, sem palavras.
Claro, quem, sabendo muito bem o que era, pronunciaria seu nome com tanta desfaçatez?
Havia uma lenda muito contada sobre a besta mágica Zanaffar, que destruiu a cidade de Sairaag há 120 anos. A verdadeira forma da besta era uma arma/armadura viva, criada a partir do conhecimento obtido do mítico tomo mágico, a Bíblia Claire.
Em um passado mais recente, um humano criou uma réplica incompleta da Zanaffar viva e resistente à magia. Era usada como armadura, todavia tinha vontade própria. Em pouco tempo saiu do controle e destruiu uma cidade. Gourry e eu tivemos o prazer de derrotá-la alguns anos atrás.
Embora, ainda mais recentemente, elfos e dragões usaram o mesmo conhecimento básico para desenvolver a Armadura Zenafa como uma medida contra mazokus. Consegui derrotar um mazoku de altíssimo nível com a ajuda de uma elfa que a usava.
Em termos de aparência, a armadura que Tessius vestia se parecia menos com a bestial e berserker Zanaffar e mais com a Armadura Mágica Zenafa, que se transformava em um gigante branco. Porém o que ambas as versões tinham em comum? Feitiços de ataque não funcionavam nelas.
Pois é. Era uma situação muito desfavorável para uma feiticeira como eu. Afinal, nem mesmo o Dragon Slave que lancei minutos atrás tinha feito cócegas na criatura. Estávamos sem a Espada da Luz, que havia derrotado o lendário Zanaffar, e nem sequer tenho acesso ao feitiço que usei para derrotar seu primo enfurecido alguns anos atrás.
Isso era mais um motivo para continuar blefando. Demonstrar confiança, ainda sabendo o quão poderoso Tessius era, poderia fazê-lo pensar que eu tinha uma contramedida em mente. E, como esperado...
“Como você sabe sobre Zanaffar? E... O que é uma Armadura Zenafa?” perguntou Tessius cautelosamente.
Aha... Então deve estar usando algo baseado na versão incompleta.
“Boa pergunta! Ah, só para te avisar, se esse for o Zanaffar que conheço, vai te devorar em breve.” decidi lhe apresentar os fatos. O Zanaffar que enfrentamos antes consumia seu hospedeiro para facilitar seu crescimento em uma besta implacável e inteligente. Contudo...
“Ahh!” disse Tessius casualmente. “Quando ganha vontade própria e começa a corromper o usuário, é o que está insinuando? Temos um estudioso talentoso entre nós que detectou esse problema e o resolveu na fase de produção. Claro, tenho certeza de que meras técnicas humanas não se comparam à nossa magia élfica.”
Isso explica muita coisa. Se tivessem percebido o problema antes de criarem sua versão e seu ponto de referência fosse uma técnica usada por humanos, é provável que tivessem conseguido a versão improvisada que o culto bizarro havia feito para uso humano. Eu me perguntava se os Cães da Floresta tinham aprendido com seu Zanaffar, no entanto na verdade eles o analisaram, aprimoraram e criaram este modelo melhorado. Aquilo de fato explicaria o súbito aumento de atividade do grupo extremista quase extinto.
Duvidava que Zel soubesse disso. Se soubesse, teria percebido na hora que estava enganado. Também teria nos avisado.
Mesmo assim, lutar contra esse cara vai ser complicado...
Contudo guardei esses pensamentos para mim por enquanto.
“Ah, então resolveu todos os problemas, hein?” respondi com a confiança de sempre enquanto quebrava a cabeça em busca de possíveis soluções. Nesse instante...
“O que está fazendo, Tessius?” perguntou uma nova voz atrás do elfo.
Erk! Enquanto falava, algo emergiu na névoa... Um segundo gigante cinza. Tá brincando comigo? Tentei ao máximo manter minha expressão neutra.
Este gigante parecia um pouco mais suave do que o Zanaffar com chifres que Tessius estava usando. Não havia protuberâncias perceptíveis em sua cabeça, e tinha apenas um grande olho de ônix. Sua silhueta era arredondada, como se estivesse usando um manto ou túnica que cobria todo o corpo. Resumindo, era um tipo diferente de Zanaffar.
Certo, espere um minuto! Eles não apenas aprimoraram, iteraram sobre isso? Acho que Tessius não estava brincando quando disse que havia um estudioso talentoso entre eles!
“Sagan! Esta humana sabe sobre os Zanaffar!”
O recém-chegado não pareceu se abalar.
“E é um problema?”
Ao ouvi-lo falar, consegui reconhecer sua voz. Era o arqueiro que me atacou no caminho de volta da cidade, depois de nos encontrarmos com Amelia e Zel.
O arqueiro... Ou melhor, o usuário ciclópico de Zanaffar chamado Sagan, levantou a mão em minha direção.
“Teríamos que matá-la mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma...”
Vwoosh! Nesse instante, um vento forte soprou e levou consigo as próximas palavras de Sagan. A névoa dançou em espirais, chicoteando meu cabelo e minha capa. Quase perdi o equilíbrio e dei cinco ou seis passos contra o vento para me firmar.
Quando tudo se acalmou... Gourry, Zel e Alaina estavam ao meu lado!
Eles já chegaram? Isso foi rápido demais... Aha, é claro! Levaria um tempo para chegarem aqui com magia lançada por um humano. No entanto e se fosse lançada por um elfo? Não é à toa que chegaram rapidinho! Obrigada, Alaina!
Tive que admitir que estava grata. Ganhar tempo com Tessius foi fácil, todavia Sagan não parecia tão fácil de provocar. Ainda assim, nosso número não mudava o fato de estarmos em desvantagem.
“O que são aquelas coisas?” Zelgadis sussurrou, encarando os dois gigantes. Enquanto isso...
“Zelgadis... E uma elfa?” nossos oponentes pareciam tão surpresos quanto nós. Sagan soltou um grito de choque e abaixou a mão direita ao ver Alaina.
“Por que tem um elfa do lado desses caras?” a voz de Tessius também tremia.
Mas então...
“Por que você acha?” Alaina proclamou inesperadamente. Ela gritava com sua própria voz, sem a amplificação dos Discos de Regulus. Suas palavras ecoaram pela floresta enquanto encarava os dois gigantes. “Por que vocês não se perguntam por que estou aqui? Por que vocês, egocêntricos e autoproclamados ‘defensores da floresta’, não voltam a se esconder nas folhas como os párias sociais que são? Seus arruaceiros imbecis, resolveram se exaltar e atacar humanos com suas novas armaduras de brinquedo, enquanto o resto dos elfos decentes tem que pagar o preço, e é por essa razão que não tenho escolha a não ser me humilhar tentando impedi-los antes que a situação piore mais! E depois de me enrolarem enquanto eu tentava resolver isso em silêncio, vocês vão e atacam a cidade! É chocante para mim que achem o fato de eu estar aqui tão absurdo! Se não gostam de ser repreendidos por uma elfa, larguem esses brinquedinhos agora mesmo e voltem para debaixo da pedra de onde saíram para sugar água do musgo!”
Um silêncio constrangedor se instalou. Nada se moveu, exceto a névoa densa, por um tempo.
Whoa... Então Alaina consegue falar com outros elfos com tanta confiança! E de um jeito meio grosseiro, ainda por cima!
Tessius e Sagan, impressionados com a força de sua postura, ficaram parados em silêncio até que...
“Tessius.”
“Sim?”
“Vamos matá-la.”
“Combinado.”
Nesse momento, os dois gigantes ergueram as mãos e dispararam raios de luz que rasgaram a névoa! Era o sopro laser especial dos Zanaffars!
“O quê?”
Gourry, Zel, Alaina e eu gritamos ao mesmo tempo e corremos para o lado, em direção ao grupo de árvores mais denso possível.
Parei ao lado da elfa loira e a chamei.
“Ei! Alaina!”
Ela ativou os Discos de Regulus em seu colarinho para responder.
“Parece que não consigo convencê-los!”
“Estava tentando convencê-los? Pra mim, pareceu que estava tentando provocá-los!”
“Era o que você estava fazendo antes de chegarmos, não é? Eu te ouvi!”
“No meu caso estava tentando ganhar tempo! Além do mais, quanta conversa fiada para alguém tão tímida!”
“Assim que souber que são inimigos, não me importarei mais com o que pensam de mim!”
Sabia que a ansiedade social costumava vir do medo do julgamento dos outros, mas não fazia ideia de que a sua fosse tão seletiva!
Outro feixe de luz, depois outro e outro, rasgou a névoa atrás de nós enquanto corríamos.
“O que são essas coisas, Lina?” perguntou Zelgadis, mantendo o ritmo.
Respondi, também correndo.
“A Besta Mágica Zanaffar! Uma versão aprimorada!”
“O quê?” ele exclamou, chocado.
Gourry, correndo tão rápido quanto eu, acrescentou.
“Você sabe sobre, Zel?”
“Claro que sei! Tanto quanto você! Era aquela besta branca com a qual lutamos, com todos aqueles tentáculos, sopro laser e tudo mais!”
“O branco... Ah, ei, eu me lembro daquilo!” Gourry recordou com um aceno displicente de cabeça.
Zel estava conosco quando lutamos contra Zanaffar, que havia assumido a forma de um quadrúpede branco gigante. Seria difícil dizer à primeira vista que esses dois gigantes tinham alguma relação com ele. Só os reconheci porque tinha visto o Zanaffar aperfeiçoado, a Armadura Zenafa, e a semelhança lá era muito maior.
“Zanaffar?” Alaina repetiu, ouvindo nossa conversa. “Daquela lenda humana?”
“Sim! A maioria dos feitiços de ataque não faz efeito nenhum contra essa coisa!” alertei-a.
“Por que não me falou antes que eu os provocasse?”
“Então estava tentando provocá-los!” me virei para Zel, que corria ao meu lado. “É provável que este seja o motivo pelo qual começaram a se comportar de forma estranha do nada! Chegaram a dar alguma dica sobre quando você estava por perto?”
“Não! Devem ter escondido isso de mim!” Zelgadis respondeu.
Aha... Justo como suspeitei.
“A armadura de Zanaffar não consome a vontade de quem a veste?” ele perguntou em seguida.
“Já te disse, esta era uma versão aprimorada!” repeti minha explicação.
Estávamos correndo o tempo todo enquanto conversávamos, é claro. O sopro laser havia parado de vir, talvez porque agora estávamos em meio à copa das árvores, entretanto tínhamos todos os motivos para pensar que os dois gigantes seguiam nos perseguindo. Não podíamos nos dar ao luxo de parar.
Foi uma retirada covarde completa, todavia não ia reclamar! Teria sido péssimo se Zel ou Alaina tivessem tentado enfrentar esses oponentes sem saber sobre sua imunidade mágica. Eu precisava de tempo para informá-los.
“O fato de os elfos terem conseguido aprimorar a Zanaffar deve significa que podem fazê-la fazer o que quiserem! Mesmo que não possamos usar feitiços neles, tenho certeza de que eles podem usar em nós!”
“Isso é ainda pior!”
“Concordo!”
A pele do Zanaffar com quem lutamos antes mantinha seu corpo isolado do plano astral, o que significava que a maior parte da magia negra não tinha efeito sobre a besta. A desvantagem era que ele também não podia usar magia. Sabia que esse não era o caso dos elfos por um motivo visível: a névoa branca. Um deles devia ter lançado o feitiço para apagar o fogo que acendi para atraí-los. Portanto, era lógico que seus Zanaffars aprimorados, assim como a Armadura Zenafa, permitissem que regulassem a conexão com o plano astral à vontade.
“O que faremos?” perguntou Gourry.
Fiquei feliz por estarmos desviando a atenção dos Cães da cidade, todavia não podíamos continuar com esse jogo de pega-pega para sempre. Precisávamos encontrar algum lugar para contra-atacar e derrotá-los, um por vez, se necessário.
“Vamos atraí-los para a floresta e...”
Antes que pudesse terminar a frase, ouvi um farfalhar. A floresta ganhou vida ao nosso redor. Da vegetação rasteira, de trás dos troncos... Figuras emergiram para nos cercar.
Golens de plantas? Um pouco de magia de fogo daria conta deles!
“Alaina! Você consegue dissipar a névoa?”
“Por um momento, sim. Entretanto há uma boa chance de que voltem a conjurá-la depois.”
“Ótimo para mim! Ao meu sinal!”
Antes que pudesse ver se Alaina assentiu ou não, comecei meu encantamento. Os golens de plantas continuaram a nos atacar o tempo todo. Terminei meu feitiço, dei o sinal para Alaina e então...
“Desencantar!” ela sussurrou.
A névoa ao nosso redor desapareceu como uma onda recuando da praia. Com a visão clareada, pude ver os golens de plantas se aproximando em detalhes. E também...
Havia algo agachado nos galhos da árvore. Quatro pernas longas e finas brotavam de um torso arredondado que lembrava um grande casulo. Fios... Não, tentáculos... Brotavam de seu corpo aqui e ali, agarrando-se a galhos e troncos de árvores ao redor, mantendo o gigante no ar. Quase parecia um aracnídeo gigante. Parte da porção do ‘casulo’ estava aberta, quase como suas quelíceras, revelando um rosto humano. Parecia que um humano havia sido devorado por uma aranha enorme, mas na verdade era...
Um terceiro Zanaffar?
O rosto pertencia ao usuário da armadura. Ele tinha as características élficas atraentes típicas, embora parecesse ter uns trinta ou quarenta anos... Em termos humanos, é claro. Na realidade, poderia facilmente ter mais de cem anos.
O elfo havia exposto o rosto para lançar um feitiço, com certeza. Esses caras não podiam usar magia enquanto estivessem com o corpo todo envolto em seus Zanaffars, então o abriu para invocar os golens de plantas. Suspeito que esse seja o cara que os invocou na luta em que nos reunimos com Amelia e Zel também.
Assim que a névoa se dissipou e eu pude enxergar ao meu redor, sua boca se moveu.
“Olglous.”
Aquele feitiço de novo?
Instantaneamente, vinhas brotaram dos golens de plantas, chicoteando em nossa direção! Sem outra alternativa...
“Flecha Flamejante!” lancei o feitiço que havia conjurado para matar os golens de plantas nas vinhas. Não podíamos nos dar ao luxo de ficar presos nelas agora!
As vinhas avançaram em direção às minhas flechas flamejantes e, quando o verde-esmeralda encontrou o vermelho-vivo, o verde foi destruído enquanto o vermelho foi lançado para longe. No fim, as últimas vinhas superaram o fogo. Porém então...
“Flecha Flamejante!” Zel lançou seu próprio feitiço, queimando quase todas as vinhas restantes, atingindo os golens além!
Kracka-pop! Qualquer golem de planta atingido em cheio foi liquidado.
Gourry então limpou as últimas vinhas com sua espada. E...
“Zeifrit.” o aracnídeo Zanaffar... Ah, esquece. ‘Aranha’ usou um encantamento, conjurando uma gigantesca bola de fogo que apareceu no espaço entre ele e nós. A coisa ocupou metade do meu campo de visão!
Maldição! Será que o seu plano era nos distrair com os golens de plantas enquanto preparava essa belezinha?
“Tch!” Gourry atirou uma pedra na Bola de Fogo. Essa estratégia era eficaz para ativar feitiços de Bola de Fogo conjurados por humanos enquanto estavam a caminho de seus alvos, contudo...
Essa Bola de Fogo em particular devorou a pedra sem hesitar, continuando seu curso!
Sem perder um segundo, Alaina tentou um feitiço próprio.
“Explosão de Ar.”
Pow! Houve uma explosão audível de ar logo abaixo da Bola de Fogo que se aproximava. A torrente de ar a detonou, e ficamos cambaleando atordoados enquanto o tornado flamejante nos atingia. Através da torrente furiosa ao nosso redor, podíamos ouvir um grito inaudível ecoar.
O ar havia repelido as chamas, então, enquanto éramos brindados com um vento escaldante, Aranha recebeu toda a fúria da explosão flamejante... E se sua armadura ainda estivesse aberta naquele momento, ele teria sido atingido em cheio no rosto!
Assim que as chamas se dissiparam, pudemos ver Aranha furioso. Um som semelhante a um grito assobiou ao nosso redor enquanto as pernas e os tentáculos de sua armadura rasgavam o ar inutilmente. Seu corpo havia perdido o equilíbrio e caído no chão, onde continuou a se contorcer. O cara estava agonizando em dor.
Gourry não ia perder essa chance! Mesmo que um Zanaffar pudesse bloquear magia de ataque, não significava que era imune a ataques físicos. E o Aranha não conseguia nem enxergar naquele momento! Gourry mergulhou habilmente entre os tentáculos que se debatiam fora de controle e ergueu sua espada, no entanto antes que pudesse abaixá-la... Se virou e cortou o ar!
Que diabos...
“Impossível!” Sagan gritou de longe.
“Não pode ser!” ouvi Alaina gritar surpresa bem ao meu lado.
Não tinha certeza do que tinha acabado de acontecer, embora presumi que devia ter sido um ataque de Tessius e Sagan. Me virei e vi duas figuras vindo em nossa direção. De longe, reconheci a armadura de Ciclope de Sagan, parcialmente aberta. Tenho certeza de que ia usar algum tipo de feitiço, todavia então...
“Lukoria?” Tessius, cuja armadura chamarei de ‘Chifres’, gritou ao ver seu amigo se contorcendo. (Lukoria era presumivelmente o cara-aranha.) Chifres então disparou um sopro laser para nos afastar do Aranha, impedindo-nos de terminar o serviço!
Certo! Hora de aproveitar ao máximo a situação! Vou fingir que vou tentar acabar com o Aranha e atacar outro desses caras! Se tudo correr bem, posso acabar com tudo...
Enquanto ainda organizava minhas ideias, um par de asas bloqueou o céu azul visível através da copa das árvores. Vabwabwabwabwoosh! Quando aconteceu, raios de luz caíram ao nosso redor!
Aquilo era... Um sopro laser? Por sorte, nenhum nos atingiu, mas aquela coisa alada era um quarto Zanaffar? Quantos existem?
Essa era a melhor chance que tínhamos de acabar com o Aranha, porém se nosso inimigo tivesse unidades aéreas em suas fileiras, não podíamos arriscar. Poderíamos acabar mortos por causa disso.
“Recuar!” gritei.
“Certo!” respondeu Gourry.
“Foggul.” Alaina produziu uma nova onda de névoa branca. Não tenho dúvidas de que extinguiria os resquícios da explosão flamejante de Lukoria e nos protegeria da vista do inimigo.
“Alaina! Existe algum lugar onde possamos nos esconder além da cidade?” perguntei.
“Por aqui!” ela se virou e nós a seguimos, fugindo para a névoa.
———
Nossas luzes mágicas iluminaram paredes de terra cobertas de musgo. O ar ao nosso redor era fresco e revigorante, e a terra abaixo de nós era quase inodora.
“Acho que não vão nos encontrar aqui.” disse Alaina quando chegamos a um espaço um pouco mais aberto.
“Este lugar...” olhei ao redor, embora nada fosse particularmente surpreendente. Havia apenas alguns pilares cobertos de musgo sustentando um teto e paredes. “Será que este é um antigo poço de mina?”
“Sim. Encontrei quando estava procurando a base deles.” disse Alaina, acenando com a cabeça.
Depois que fugimos da cena, os Cães não nos perseguiram. Talvez tivessem priorizado salvar Lukoria, o usuário da Aranha, ou talvez só tivessem nos perdido de vista na névoa. De qualquer forma, Alaina nos trouxe em segurança até aqui.
O poço abandonado parecia bem antigo. A entrada estava meio enterrada e escondida pela vegetação rasteira, e se Alaina não tivesse apontado, eu nunca teria percebido que estava ali. Aliás, se você me pedisse para encontrá-lo de novo sozinha um dia e meio depois, duvido que conseguiria.
Alaina respirou fundo.
“Lina.” ela fixou os olhos nos meus e caminhou diretamente em minha direção.
Bem, lá vamos nós... Encarei seu olhar e cerrei os dentes. De repente, Alaina desviou o olhar, girou nos calcanhares e voltou pelo mesmo caminho que viera.
“Espere um minuto.” segurei seu ombro por trás.
“O-O que foi, Lina?”
“Qual é! Você estava exalando uma energia de ‘Destruir a floresta só para distrair o Tessius é imperdoável! Vou te dar uma bronca!’ Por que amarelou?”
“Seus olhos estavam assustadores.”
“Não fiz aquilo por diversão, tá bem? Achei que merecia um bom tapa depois!”
“Oh... Jamais conseguiria te dar um tapa, Lina. E se minha mão quebrasse?”
“Não vai quebrar, droga! Do que acha que minha cabeça é feita? Tá, enfim... Sabia que não ia gostar do que fiz, mas foi o único jeito que consegui pensar para afastar os Cães da cidade. Me desculpe. Sinto muito, de verdade!” pedi desculpas sinceramente.
“Que bom que está arrependida... Ah. Claro, isso não te desculpa de queimar mais da floresta no futuro!”
“Não vou fazê-lo, pode deixar!” falei, gesticulando com as mãos de um jeito exagerado. A floresta era um recurso importante não só para os elfos. A cidade dos ferreiros também dependia dela para seu sustento. Fiz o que tinha que fazer naquele momento, porém não é como se gostasse de cometer incêndios criminosos, sabe?
“Falando em fogo... Aquele cara-aranha conjurou aqueles golens de plantas para nos fazer dissipar a névoa e depois aproveitou a oportunidade para lançar aquela Bola de Fogo gigante. Os elfos toleram esse tipo de coisa?”
“Tenho certeza de que pretendia apagar o fogo logo depois de nos derrotar, contudo... Bem, cada um tem sua própria bússola moral. Há elfos que não suportam a ideia de quebrar um único galho, e há aqueles que podem ignorar todo tipo de coisa se servir ao bem maior. Com relação a mim, sou bastante contra a ideia de fogo na floresta.”
“É, também não quero prejudicar a floresta, no entanto se for o único jeito de conter os Cães da Floresta... Disse que incendiaria mais dela se eles atacassem a cidade de novo, então acho que vão me priorizar em vez de Atessa por enquanto.”
“Só que também significa que não podemos voltar para a cidade.” acrescentou Zelgadis. “Se perceberem que estamos lá...”
“Eles vão nos aniquilar junto com a cidade. Simples e eficiente, do ponto de vista deles.” eu disse, coçando a cabeça.
Se Tessius e seu grupo quisessem, poderiam ter começado com um ataque implacável de sopros laser Zanaffar e reduzido Atessa a escombros. Talvez houvesse dois motivos para não terem o feito em seu ataque anterior. Um era que seu objetivo não era a destruição, e sim assustar os humanos para que abandonassem a cidade. O outro era que arrasar a cidade por completo faria com que toda a humanidade se voltasse contra os elfos. Entretanto agora que ameacei sua preciosa floresta, havia um perigo real de que arrasassem o lugar... E nos levassem junto.
“Então teremos que ficar aqui por um tempo e voltar escondidos à cidade de vez em quando para reabastecer... Ou algo assim. Claro, há uma chance de nos encontrarem aqui depois de alguns dias, e com certeza estarão vasculhando a floresta nesse meio tempo. Ficar muito tempo pode ser problemático.”
“Não poderíamos só ir embora?” perguntou Alaina. “Se não atacarem a cidade até encontrarem vocês, poderíamos mantê-los sob controle por um tempo apenas indo para algum lugar onde nunca nos encontrarão.”
“Também pensei na possibilidade... Mas se descobrirem que fugimos, atacarão a cidade logo em seguida. O que significa que fugir não é uma opção.”
“Acha que temos alguma chance aqui?” perguntou Zelgadis.
Eu assenti.
“O motivo pelo qual a Equipe Tessius começou a causar problemas depois de tanto tempo na clandestinidade é porque conseguiram seus Zanaffars. Então, se derrotarmos esses Zanaffars, destruí-los ou provarmos de alguma forma que não são a solução mágica que pensam ser, os Cães deveriam recuar. Os Zanaffars são assustadores, todavia não são invencíveis. Feitiços de ataque não funcionarão quando estiverem fechados, porém precisarão se abrir se quiserem usar seus próprios feitiços de ataque. Além dessa opção, quaisquer ataques físicos que superem a própria armadura ainda devem funcionar. Isso exclui espadas normais, é claro... Contudo a de Gourry pode ser a solução.”
“A minha?” Gourry, que estava distraído, olhou de repente na minha direção ao ouvir seu nome.
“Sim. Aquele cara com quem lutamos antes... Você conseguiria quebrar a armadura dele sem matá-lo?”
Sei que perguntar se ele conseguiria quebrar a armadura soava ridículo à primeira vista, contudo para um homem com a sua habilidade com uma espada daquelas? Não era impossível.
“Bem... Não vou saber até tentar, mas parece bem resistente.”
“Falando nisso...” Alaina falou. Escondida atrás de mim, espiou Gourry. “Mestre... Gourry, não é? Como cortou aquele ataque anterior do lado astral?”
...
“O quê?” Zel e eu exclamamos ao mesmo tempo.
Gourry cortou um ataque astral? Caso não saiba, o lado astral da realidade, o plano astral, é como o outro lado do mundo material que habitamos. Quando falamos em conjurar feitiços, na verdade estamos falando de usar o poder mágico daquele plano para manifestar vários efeitos. Era um reino que os humanos normalmente não conseguiam perceber, no entanto...
“Você cortou?” me peguei perguntando.
Gourry apenas me olhou confuso.
“Lato Asral? Quem é esse?”
“Não é uma pessoa, cara. É...”
“Lembra quando estava prestes a matar o gigante aracnídeo?” Alaina perguntou, ainda escondida atrás de mim. “O ciclope te atacou pelas costas, mas a sua espada cortou o ataque.”
Lembrei-me de como Gourry se virou de repente para atacar o nada em vez de finalizar o cara-aranha.
“Ah, aquilo?” Gourry disse, como se não fosse nada demais. “Só tive um instinto, tipo, ‘É melhor eu cortar aqui’. Cortei alguma coisa?”
Como eu vou responder isso, cara?
“Cortou!” insistiu Alaina.
Cortou?
Era verdade que a armadura do Ciclope estava aberta naquele momento. Lembro de ter visto o rosto de Sagan. Presumi que estivesse se preparando para lançar um feitiço, entretanto talvez fosse o oposto... Acabara de concluir um ataque astral.
“Pense como cortar uma flecha invisível. Apesar que pensei que os humanos não conseguiam perceber fenômenos astrais... Então, como conseguiu fazê-lo?”
“Bem, é como...” Gourry fez um gesto como se estivesse segurando sua espada. “Saquei minha espada para acabar com aquele cara aracnídeo, porém senti naquele momento como se ela estivesse sendo puxada naquela direção... Aí pensei: ‘Ah, aposto que tem alguma coisa que preciso cortar ali’.”
Não tinha certeza se aquela era a explicação de um mestre ou de um idiota. Embora, ei, Gourry era os dois.
“Perguntando para um amigo aqui...” falei. “O que acontece se um humano for atingido por um desses ataques astrais?”
Alaina respondeu casualmente.
“Na melhor das hipóteses, ficará inconsciente. Porém, mais comumente, aniquilaria seu espírito.”
“Assustador! É possível evitar o ataque?”
“Sim, se desviar.”
“Desviar? Contudo... Os humanos não conseguem ver...”
Como esperado, não havia quase nenhuma maneira de um humano perceber o que acontecia no plano astral. Não diria que não havia nenhuma maneira, no entanto é certo que nada que você pudesse fazer no meio de um combate.
“Ah... Suponho que seja verdade.”
“Há alguma maneira de nos deixar ver?”
“Os elfos conseguem ver inatamente, então receio que não saberia... Ah, eu sei. Leva um bom tempo para preparar um ataque do lado astral. Se estiver em movimento constante, seria bem difícil acertar um golpe à distância.”
Em movimento constante? Parecia que a grande estratégia se resumia a ‘correr como louco e torcer para que errem’.
“Eu... Entendo.”
Porém, por mais absurdos que fossem os ataques astrais, Gourry havia conseguido atravessar um. Como tinha conseguido?
Ah... Ele disse que sentiu como se algo estivesse puxando sua espada. Poderia ser...
“Alaina!” exclamei, quando de repente me ocorreu algo. “A espada de Gourry tem uma história. Na verdade, um dragão lançou um feitiço na lâmina para torná-la cega. Como uma elfa, você deveria conseguir remover esse selo... Poderia tentar?”
“Existe um selo... Para cegar a espada?” Alaina perguntou, confusa.
É, acho que soa bem estranho fora de contexto...
“Aparentemente, o poder de corte da lâmina aumenta em resposta à magia ao seu redor. Então... É só uma teoria... Contudo estou me perguntando se essa propriedade fundamental da espada reagiu à poderosa magia do ataque astral, o que fez Gourry sentir como se estivesse sendo puxado naquela direção.”
Alaina ficou pensativa com a minha explicação.
“Isso... Talvez seja possível! Não posso confirmar nem negar neste momento... No entanto como cortou o ataque, então...”
“Teorizando à parte, a lâmina afiada da espada tem o péssimo hábito de cortar bainhas, foi por esse motivo que pedimos a um dragão para embotá-la. Entretanto se restaurarmos seu poder total... Não sei se a ajudaria a detectar ataques astrais ou não, mas pelo menos deveria permitir que cortasse a armadura de Zanaffar. Sendo assim...”
“Devo conseguir remover tal selo, porém não sem ferramentas. E deixei todas as minhas coisas na hospedaria da cidade...”
“Entendido. Certo, ao anoitecer, voltaremos escondidos à cidade para pegar nossas coisas enquanto a gangue de Tessius não perceber nada, ok? Também precisamos contar aos outros o que aconteceu, e talvez seja melhor verificarmos os danos também.”
Todos concordaram com a minha sugestão.
Tinha a sensação de que ficaria sem uma cama macia e uma refeição quente por um tempo, contudo, ei, era mais um motivo para derrotar aqueles idiotas o mais rápido possível! Eu estava ardendo com uma vontade renovada de vencer os Cães da Floresta. Queria meu conforto de volta o mais rápido possível!
———
Olhei para cima e vi o céu estrelado através dos galhos. Olhei para baixo novamente e vi a floresta envolta na noite como uma cortina imaculada de escuridão.
Não, não imaculada... Havia uma única luz minúscula entre as árvores. Ela avançava pela mata fechada, balançando devagar. Três faces da lanterna estavam cobertas, deixando apenas um único ponto de luz laranja trêmula que mal iluminava o caminho, embora ainda se destacava na escuridão total da noite.
Talvez porque minha visão estivesse limitada, tudo ao meu redor parecia mais alto. As folhas das árvores farfalhavam ao vento. Pássaros e insetos desconhecidos cantavam.
Não sabia a que distância da cidade o portador da lanterna havia chegado, todavia quando a luz fraca enfim parou, ela havia alcançado uma fileira de árvores espaçadas uniformemente, da altura de crianças. Suponho que seja o replantio mais recente após a colheita.
Mais tempo se passou. Logo...
“O que aconteceu?” veio a voz sussurrada de uma mulher a uma curta distância da luz.
“A cidade... Foi atacada.” respondeu a voz baixa de um homem mais perto da lanterna. A luz aos poucos se aproximou da fonte da voz da mulher. “Houveram baixas.”
Por fim, a lanterna iluminou uma figura humanoide... Uma mulher vestindo uma armadura de formato curioso. Seu rosto na noite era surpreendentemente belo, e um reflexo da luz da lanterna dançava em seus olhos.
“Eu ouvi... Que foram os elfos.” continuou o homem com a lanterna. “Não pode ser verdade, certo? Você disse que nos ajudaria.”
“Nós, elfos, não somos um grupo homogêneo. Estou ajudando você, no entanto os elfos que estão atacando a cidade são diferentes. Ainda assim, sabia que se contasse quem eles eram, você deixaria de confiar em mim. Por isso não disse nada.”
“Então... Está mesmo do meu lado?” a voz do homem tornou-se suplicante.
“Sim. Acredite em mim. Vou te ajudar no que for preciso.”
“Certo. Confio na sua palavra.”
“Obrigada. Agora, para que possa ajudar, poderia me dar informações mais detalhadas? Quando a cidade foi atacada, havia pessoas que pareciam mercenários lutando contra os elfos. Quem são?”
“Oh, estão apenas viajando...”
Interrompendo a resposta do homem.
“Não confie nela, seu idiota! Flecha Congelante!” lancei meu feitiço, incapaz de suportar mais do que estava vendo.
Uma dúzia de flechas de gelo voou em direção à mulher!
“?”
Percebendo que não podia se esquivar, a mulher estendeu a mão direita. Ao fazê-lo, parte da armadura que vestia se transformou. Tornou-se um escudo enorme para bloquear meus raios de gelo.
“O quê? Hã? Er?”
Enquanto o homem com a lanterna gritava de surpresa, Gourry correu em direção à mulher. Mas antes que pudesse chegar ao alcance da espada, ela saltou. Não... Voou! Ao saltar, sua armadura se desdobrou e se transformou. O escudo se transformou em asas, e alçou voo para o céu noturno!
As ‘Asas’ de Zanaffar?
Nos preparamos para a batalha, porém nossa oponente não parecia estar com vontade, portanto só continuou voando. Gourry embainhou sua espada, caminhou até o homem que havia sido deixado para trás, pegou sua lanterna e a apontou para seu rosto. Iluminado pela luz laranja bruxuleante estava...
“É você...”
Aqui, eu me calei.
Não é que eu estivesse chocada com a sua identidade... Apenas não conseguia me lembrar do seu nome agora. Era o cara da força-tarefa de segurança local. Sabe. Uhhh... Randa, eu acho?
Estávamos voltando para Atessa, navegando pela luz da lua e das estrelas, para pegar nosso equipamento e entrar em contato com nosso pessoal. Contudo, pouco antes de chegarmos à cidade, vimos alguém saindo sorrateiramente à luz de lanterna. Nós o seguimos, e foi assim que nos deparamos com a cena que acabei de descrever.
“O que pensa que está fazendo?” perguntei.
“Hã... Vocês? O que está acontecendo?” ele olhou em volta, confuso, sem conseguir compreender a situação.
Não tínhamos escolha.
“Não podemos conversar aqui. Vamos ouvir sua história lá na hospedaria.” suspirei.
———
Podíamos ouvir a agitação distante da vida noturna de Atessa.
Depois de voltarmos para a Folha de Prata, fizemos o check-in com MacLyle e nos reunimos no quarto de Gourry, no terceiro andar. Era um quarto relativamente grande, embora ainda assim era para uma pessoa, e agora tinha que acomodar a mim, Gourry, Zel, Alaina, MacLyle e Randa. Seis pessoas. É, dava para dizer que estava um pouco apertado.
Teria sido mais fácil conversar no restaurante do térreo, entretanto havia outros clientes por perto. Não havia garantia de que conseguiríamos evitar ouvidos curiosos.
Comecei dando um breve resumo do que tínhamos feito. Eu lhes disse que tínhamos saído para atrair os Cães que atacavam a cidade, no entanto eles sacaram as armas pesadas, nos obrigando a nos esconder por um tempo. Então, no caminho de volta, encontramos Randa se encontrando com aquela elfa... Claro, não mencionei o nome lendário de Zanaffar. Mesmo assim, quando terminei meu relato rápido e superficial dos acontecimentos, Randa pareceu compreender toda a gravidade da situação, ficando visivelmente mais pálido à luz do poste.
“Então...” falei, olhando para Randa. “Como você a conheceu e o que vocês estavam fazendo juntos?”
“Eu não fazia ideia até você mencionar isso hoje.” disse Randa com a voz rouca, desviando o olhar cuidadosamente. “Nunca pensei... Que as pessoas que estavam atacando a cidade fossem elfos...”
Segundo sua explicação confusa, quando todos pensavam que os invasores que atacavam a cidade eram simples bandidos, ele se feriu ao cair em uma armadilha enquanto patrulhava a floresta em busca de pistas. Pelo visto, uma elfa que se chamava Lucida o resgatou ali.
“Eu mesma venho à floresta de vez em quando, mas nesses últimos tempos bandidos têm aparecido por perto... Suspeito que sejam eles que armaram aquela armadilha. Gostaria de expulsá-los daqui.” disse ela, e Randa acreditou nela. A elfa então propôs que trabalhassem juntos. “Vamos compartilhar informações periodicamente e usá-las para flanquear os bandidos. Porém se algum boato a meu respeito se espalhar pela cidade, os bandidos podem vir atrás de mim, então você não pode contar a ninguém sobre isso.”
Em retrospectiva, era uma história bastante suspeita, e havia uma boa chance de a armadilha em que Randa havia caído ter sido armada pela gangue de Tessius.
“Nunca imaginei que elfos fariam uma coisa dessas.” Randa sussurrou, com lágrimas nos olhos.
O conflito entre humanos e elfos pela floresta já havia terminado há muito tempo quando ele nasceu, e os humanos costumavam considerar os elfos como seres intelectuais e não agressivos. Seria pedir demais que percebesse as artimanhas de Lucida sem nenhuma noção a mais sobre.
Havia a possibilidade de Alaina, outra elfa, também ter sido enviada à cidade para reconhecimento... Porém, na minha opinião, achava pouco provável. O motivo era simples: timidez externa e arrogância interna eram uma péssima combinação para qualquer espião. Se o inimigo fosse estúpido o suficiente para enviar alguém assim para se infiltrar na cidade, toda essa provação já teria terminado antes mesmo de Gourry e eu chegarmos a Atessa.
“Ei.” Randa olhou para Zel, suplicante. “Lucida... Está... Está mesmo com eles? Não é só um engano?”
“Não é engano!” declarou Zel com firmeza. “Ela faz parte da gangue do Tessius. Talvez esteja te usando para coletar informações sobre a cidade. Nós vimos sua armadura em uma luta, e Tessius só daria essa armadura para pessoas em quem confia. Posso afirmar com propriedade, porque ele não confia em mim, e sequer me disse que a tinha.”
Nós só tínhamos vislumbrado Asas na luta na floresta, e não tínhamos visto o rosto de quem a usava, contudo era seguro presumir que Lucida estava com os Cães.
“Então...” Randa começou com uma expressão sombria. “Fui enganado... E vazei informações sobre a cidade para as mesmas pessoas que estavam tentando destruí-la! É por essa razão que estavam sempre um passo à nossa frente...”
Seu desespero era compreensível. Lembro de como ficou abalado quando descobriu que estávamos lutando contra elfos. Estava com dificuldade em processar o fato de ter sido enganado. No entanto ainda assim...
“O que... O que devo fazer...”
“Ninguém se importa!” dei um golpe na sua cabeça enquanto este gritava. Crack!
“O quêêêêêêêê?” todos os outros gritaram surpresos por algum motivo.
Ignorei suas reações confusas e continuei.
“Não temos tempo para ouvir suas lamúrias! Você pode se preocupar em se redimir depois que tudo acabar! O que precisamos pensar agora é no que fazer a seguir!”
“O quê? Hmm... Bem, acho que sim, mas...” Randa murmurou, claramente confuso.
“Se quer assumir a responsabilidade, se recomponha e nos ajude a acabar com essa luta! Sua punição será decidida por MacLyle! Fim! Agora...” olhei ao redor da sala. “Eu disse aos Cães que incendiaria a floresta se voltassem a atacar a cidade, sendo assim, se ficarmos aqui, eles certamente atacarão. Portanto, vamos pegar o que precisamos, sair da cidade e continuar em movimento. Mestre MacLyle, por favor, avise Amelia.”
“Poderia nos dizer para onde vocês estão indo?” perguntou MacLyle.
Balancei a cabeça, negando.
“Se contarmos a alguém, há uma chance de o inimigo descobrir e enviar alguém atrás de nós, então, segredo absoluto. Nós iniciaremos qualquer comunicação daqui para frente. Acha que poderia nos abastecer com rações?”
“Claro... Ah, e também tenho notícias.” disse MacLyle. “Depois de descobrir a identidade do nosso inimigo e o ataque à cidade, o prefeito fez um pedido oficial de ajuda a Zephilia. Todavia mesmo que enviem tropas nesse instante, elas levarão mais de dez dias para chegar.”
“Dez dias?” franzi a testa. “Parece um pouco rápido demais.”
Esse era mais ou menos o tempo que levávamos só para chegar à capital daqui.
“Enviar um mensageiro à capital e depois despachar soldados não demoraria muito mais?”
“Sim, demoraria. Entretanto parece que o conselho de feiticeiros local tem uma sala onde podem contatar o conselho de feiticeiros da capital, então usaram isto para explicar a situação. Embora ainda estejamos aguardando uma resposta oficial.”
“Certo, entendi.” falei. Fazia sentido. Mesmo uma cidade sem guarda oficial precisava ter alguns preparativos para pedir ajuda quando necessário. “Oh, e amanhã, envie uma mensagem de acompanhamento sobre a poderosa armadura que eles têm. Especificamente, que podem disparar ataques de sopro laser e que nossos feitiços de ataque não funcionam contra eles.”
“Bffffft!” meu despejo de informações sem rodeios fez MacLyle cuspir o chá. “Está falando sério?”
“Por que brincaria com isso?”
“Podemos mesmo lutar contra esses caras?”
“Temos outra escolha?”
“M-Muito bem... Vou avisar a capital. Há algo que possamos fazer? Posso mobilizar a força de segurança local, se precisar.”
“Não agora!” respondi. “Não acho que a força dos números vá convencer a gangue de Tessius a recuar.” pelo contrário, enviar ondas de homens atrás dos Zanaffars era uma ótima maneira de terminar com muitos mortos e não menos Zanaffars. “Porém ainda posso pedir sua ajuda, dependendo de como as coisas se desenrolarem, sendo assim, por favor, fique de prontidão.”
“É claro. Farei tudo o que puder.” concordou MacLyle firmemente.
Fiquei feliz em saber que reforços de Zephilia estavam a caminho. Se possível, adoraria deixar tudo nas mãos deles... Contudo os soldados nunca haviam lutado contra um Zanaffar antes, e tenho minhas dúvidas sobre quanta resistência poderiam oferecer. Agora, se alguém como minha irmã resolvesse aparecer, resolveria tudo até a hora do almoço do dia seguinte. Ainda assim, o maior problema era se, mesmo com minha ameaça de confrontá-los, Tessius e sua gangue de fato nos dariam esses dez dias.
Só podia imaginar que estavam esperando a eventual chegada de reforços em nome da cidade. E sendo esse o caso... Havia uma chance de que atacassem mais cedo ou mais tarde.
———
Ouvimos a lâmina deslizar para fora da bainha e, em seguida, uma fraca luz púrpura surgiu na escuridão. Não era um reflexo das luzes mágicas nas paredes; a própria espada emitia um leve brilho.
“Isso é...” seria apenas minha imaginação, ou o sussurro de Alaina estava mais baixo que o normal? “O quê...?”
“Eu te disse. A espada responde ao poder mágico ficando mais afiada.” respondi.
Depois de terminarmos nossa conversa com MacLyle e os outros na cidade, juntamos nossas coisas, partimos de Atessa e retornamos à mina abandonada que havíamos transformado em nosso acampamento base. É óbvio que tomamos cuidado para garantir que não fôssemos seguidos.
Dentro do poço frio e úmido, nossas lâmpadas iluminavam tapetes e tapeçarias de musgo. Tínhamos compartilhado uma refeição de carne seca e pão, e depois de uma pausa, pedi a Alaina que removesse o selo da espada de Gourry.
Ela largou a bolsa que trouxera da hospedaria e começou a trabalhar. Gourry, Zel e eu ficamos de vigia ao redor.
Alaina silenciosamente retirou a espada de Gourry da bainha, e a lâmina atraiu nossos olhares instintivamente.
“Entendo o princípio... No entanto o que é essa escrita mágica?”
“Escrita mágica?”
“Está bem ali na lâmina... Ah, certo, humanos não conseguem ler.”
O que sugere que a escrita está associada ao lado astral de alguma forma...
“Parecem palavras para olhos élficos? Tudo o que vejo é um leve brilho púrpura...”
“Não sei bem como descrever. É como se houvesse várias camadas de palavras, mais finas e delicadas que fios de cabelo, escritas sobre ela... Entendo que o poder mágico torna sua lâmina mais afiada, no entanto é tão intrincada... É de fato uma arma notável.”
Nem me fale...
Estava evitando dizer de propósito, todavia Gourry foi e apenas falou sem pensar.
“Acho que ele disse que se chamava Espada Explosiva?”
“O quê?” Alaina ergueu os olhos e encarou Gourry. “A espada lendária? Mas... Isto é...” ela então olhou para a espada outra vez. “Sim... Pode muito bem ser...”
“Apesar que minha última espada foi a Espada da Luz.”
“Só pode estar brincando... Ou mentindo.” disse Alaina sem olhar para ele. Suponho que seu ceticismo fosse razoável.
“E então?” perguntei. “Consegue remover o selo da lâmina?”
“Acredito que sim. Quem colocou o selo pretendia que este fosse removido.” Comentou, enquanto tirava algumas coisas da bolsa e as alinhava ao seu redor.
Um carretel de linha. Um frasco de algum tipo de remédio. Pequenos cristais... A julgar pela cor, devia ser celestita. Alguns fragmentos de osso. Ervas secas. Mesmo alguém como eu, que sabia muito sobre magia, não reconheceu boa parte do que estava usando.
Estava prestes a testemunhar uma técnica mágica élfica. Nem sabia se humanos conseguiam fazer o que ela fazia, entretanto minha curiosidade como feiticeira estava nas alturas. Queria me aproximar para observar, porém não queria deixar Alaina tão nervosa a ponto de errar. Então, apenas observei em silêncio na penumbra da luz de lamparina.
Alaina removeu a tampa do pequeno frasco e colocou uma pitada do conteúdo no dedo indicador esquerdo. Parecia pó. Gostaria de ter perguntado sobre aquilo, contudo permaneci em silêncio para não interromper seu trabalho.
Em seguida, pegou o carretel de linha com a mão direita e juntou o indicador e o polegar esquerdos para aplicar o pó. A linha coberta de pó deslizou entre seus dedos... Normalmente, teria caído do outro lado, no entanto, em vez disso, envolta em um brilho roxo pálido, o mesmo brilho que envolvia a Espada Explosiva, viajou pelo ar sem apoio, tocou a lâmina e...
“A linha desapareceu?” perguntou Gourry.
Alaina respondeu, com os olhos fixos na linha e na lâmina.
“Não desapareceu. O fio está se entrelaçando com as palavras do feitiço.”
“Entendo...” Gourry assentiu, embora era óbvio que não tinha entendido nada.
“Estou apenas usando um mediador para fundir o fio às palavras do feitiço para que possa extraí-las.”
‘Apenas...’ Hein? Parecia que estava dizendo que estava costurando a escrita para que desaparecesse quando removesse o fio... Todavia a própria ideia me soou um completo absurdo.
Alaina adicionou mais pó ao dedo e enviou mais fio para o feitiço. Não sei quantas vezes repetiu aquele ritual de aparência mundana até...
Por fim, parou e soltou um pequeno suspiro. Usou a mão direita para abrir outra garrafa e a inclinou sobre o fio que segurava. Um líquido vermelho e espesso escorreu do recipiente, subindo aos poucos pela borda e derramando uma única gota sobre o fio.
Uma luz vermelha-vivo percorreu o fio instantaneamente. O líquido deve ter reagido com o pó presente nele. O fio, agora brilhando em vermelho, alongou-se, traçando um contorno na lâmina incandescente, fazendo com que os delicados padrões... Ou talvez palavras... Em carmesim se elevassem.
Alaina sussurrou algo. Talvez fosse um feitiço, mas não usava nenhuma das palavras do Caos que conheço, então não entendi. Então, logo depois...
Plink.
Com um estalo quase imperceptível, o padrão vermelho-vivo se desprendeu da lâmina. A luz no ar se intensificou por um breve instante antes de desaparecer na escuridão da caverna, deixando apenas uma imagem residual gravada em nossos olhos. Ao mesmo tempo, o leve brilho púrpura da lâmina tornou-se claramente, ainda que de forma sutil, mais intenso.
“Isso deve resolver.” Alaina olhou para mim e assentiu. “Experimente.”
“Pode testar, Gourry.”
“Claro!”
Gourry deu um passo à frente, pegou a espada pelo cabo, olhou ao redor e caminhou até uma pedra do tamanho do meu punho, que estava em um canto da caverna. Ele encostou a lâmina na pedra para sentir a textura e...
“Hmm...” ele moveu o braço sem cerimônia.
Kwip! Com um som como o de uma faca cortando uma maçã, a pedra se partiu em duas.
Caramba... Essa coisa é afiada demais.
Gourry manteve um olhar fixo sobre a lâmina.
“Isto vai cortar a bainha se eu embainhar a espada, não vai?”
Alaina, observando o espetáculo, disse.
“A pessoa que fez essa espada era meio burra, por acaso?”
“Eu também estive me perguntando isso.”
Já deve ter visto algo semelhante acontecer com artesãos. Eles dominavam suas artes a tal ponto que, na tentativa de testar seus limites, criavam coisas inutilizáveis no dia a dia. Não havia nada, nem mesmo nas lendas, que nos dissesse quem havia feito a Espada Explosiva, porém tenho a sensação de que era esse tipo de pessoa. A espada era tão afiada que, na verdade, dificultava seu manuseio, o que talvez explicasse por que estava escondida dentro da lâmina de outra espada quando a encontramos pela primeira vez. Meio que anulando o propósito, digamos assim...
“Acho que ela conseguirá cortar a armadura de Zanaffar, contudo gostaria que ele não precisasse segurá-la desembainhada o tempo todo.” falei.
Alaina pensou um pouco.
“E se eu colocasse escrita mágica na bainha para embotar o conteúdo? Desse jeito, impediria de cortar a bainha enquanto estivesse lá dentro.”
“Ótima ideia! Você consegue fazer, Alaina?”
“Devo fazer agora?”
“Se puder. Obrigada! Por favor! Gourry, me de a bainha! Depois segure a espada até terminarmos!”
Alaina mudou a disposição das pedras, depois guardou as folhas e os ossos nas bolsas e os substituiu por um conjunto diferente de folhas e galhos.
...
“A propósito, Alaina, uma pergunta. As pedras, as folhas e essas coisas servem para alguma coisa? Não vi você usá-las.”
“Como assim?” uma expressão de choque passou pelo seu rosto. Então disse. “Ah... Sim, eu as coloco para criar um círculo mágico ritual.”
“E o que fez?”
Alaina tinha dito algo tão incrível com tanta naturalidade que me vi gritando em resposta.
Veja bem, nós, humanos, também tínhamos círculos mágicos rituais, no entanto eles exigiam uma variedade de materiais especiais e poções mágicas misturadas em tinta e pintadas em um círculo de tamanho específico. Também precisava ter vários objetos mágicos colocados ao redor. Contudo nossa elfa estava dizendo que podia, com o perdão da expressão, juntar um monte de porcaria aleatória para fazer a mesma coisa? Sério, para fazer ainda melhor?
“E quando o círculo estiver completo, os elfos poderão ‘vê-lo’, certo?”
“Sim, claro. Todavia, até que esteja completo, são apenas pedras e grama.”
Pensei por um minuto e então fiz uma proposta que tinha certeza de que seria impossível.
“Aqui vai outra pergunta... Poderia usar um círculo mágico como esse para aumentar significativamente o poder mágico de alguém?”
“Posso, com o espaço adequado e as ferramentas necessárias.” ela respondeu prontamente.
“Pode?”
“Sim. Embora mesmo que aumente seu poder mágico, Lina, se você sair do círculo, o efeito se extinguirá. Apenas aumentaria o poder dos feitiços de ataque que conjurar enquanto estiver dentro do círculo.”
“Sim, entendi. Para falar a verdade, costumava ter talismãs que aumentavam meu poder mágico, porém aconteceram algumas coisas e os perdi. Então, tenho um monte de feitiços que não posso usar agora. Se pudesse usá-los, mesmo nessas circunstâncias limitadas, acho que seriam muito úteis. Agora, há algumas outras coisas que quero te perguntar...”
Ainda não havia garantia de que conseguiria usar os feitiços que estava pensando, contudo se conseguisse, seria uma grande vantagem.
Por um tempo depois disso, lancei um monte de perguntas para Alaina sobre magia élfica...
***
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