Capítulo 28: Tambores de Gelo
O sol da manhã do vigésimo quarto dia do mês de maya brilhava sobre Hernysadharc, transformando o disco dourado no topo do telhado mais alto dos Taig em um círculo de chamas brilhantes. O céu estava azul como um prato esmaltado, como se Brynioch dos Céus tivesse espantado as nuvens com seu bastão celestial de avelã, deixando-as espreitando sombriamente ao redor dos picos superiores do imponente Grianspog.
O súbito retorno da primavera deveria ter alegrado o coração de Maegwin. Em toda Hernystir, as chuvas fora de época e as geadas cruéis haviam lançado um véu sobre a terra e o povo de seu pai, Lluth. Flores congelaram no chão, antes de nascer. Maçãs caíram pequenas e azedas dos galhos retorcidos dos pomares. As ovelhas e vacas, soltas para pastar nos campos encharcados, voltavam com os olhos revirados e assustados, perturbadas pelas pedras de granizo e pelos ventos fortes.
Um melro, insolentemente esperando até o último momento, saltou do caminho de Maegwin para os galhos despidos de uma cerejeira, onde trinou de forma contestadora. Maegwin não lhe deu atenção, porém arregaçou o longo vestido e apressou-se em direção ao salão de seu pai.
A princípio, ignorou a voz que a chamava, relutante em ser atrapalhada em sua missão. Por fim, a contragosto, virou-se para ver seu meio-irmão Gwythinn correndo em sua direção. Parou e esperou por ele, de braços cruzados.
A túnica branca de Gwythinn estava desarrumada, e seu colar dourado havia caído até a metade das costas, como se fosse uma criança em vez de um jovem guerreiro. O rapaz a alcançou e parou ofegante; ela bufou de desânimo e começou a ajeitar suas vestes. O Príncipe sorriu de canto, contudo esperou pacientemente enquanto sua meia-irmã puxava o colar para que ficasse sobre sua clavícula. Sua longa juba castanha havia se soltado em grande parte do tecido vermelho que a prendia em um rabo de cavalo displicente. Enquanto ela se inclinava para amarrar o cabelo dele, seus rostos ficaram frente a frente, embora Gwythinn não fosse de forma alguma um homem baixo. Maegwin franziu a testa.
— Pelo rebanho de Bagba, Gwythinn, olhe para você! Precisa se esforçar mais. Um dia você será Rei!
— E o que ser Rei tem a ver com o jeito que meu cabelo está arrumado? Além do mais, estava ajeitado o suficiente quando comecei, contudo tive que correr como o vento para te alcançar, você com essas pernas compridas.
Maegwin corou ao se virar. Sua altura era algo sobre o qual, por mais que tentasse, não conseguia não dar importância.
— Bom, me alcançou agora. Está indo para o salão?
— É claro. — uma expressão mais severa cruzou o rosto de Gwythinn, e acariciou seu longo bigode. — Tenho coisas a dizer ao nosso pai.
— Eu também! — Maegwin assentiu, voltando a caminhar.
Seus passos e alturas eram tão simétricos, seus cabelos castanho-avermelhados tão parecidos que poderiam ter sido fiados em uma única roca, que qualquer forasteiro teria suposto que eram gêmeos, em vez disso, Maegwin era cinco anos mais velha e de mãe diferente.
— Nossa melhor leitoa, Aeghonwye, morreu ontem à noite. Outra, Gwythinn! O que está acontecendo? É outra praga, como em Abaingeat?
— Se for uma praga... — disse seu irmão em um tom sombrio, tocando o cabo revestido de couro de sua espada. — Sei quem a trouxe para cá. Aquele homem é uma doença ambulante. — ele bateu no pomo e cuspiu. — Só rezo para que sua língua não caiba em sua boca e diga alguma insolência. Brynioch! Como eu adoraria cruzar espadas com aquele homem!
Maegwin estreitou os olhos.
— Não seja tolo! — disse irritada. — Guthwulf matou cem homens. E, por mais estranho que pareça, é um hóspede no Taig.
— Um convidado que insulta meu pai! — Gwythinn rosnou, puxando o cotovelo do aperto gentil e sufocante de Maegwin. — Um convidado que traz ameaças de um Supremo Rei afogado em seu próprio reinado lamentável... Um Rei que se pavoneia, intimida e gasta moedas de ouro como se fossem pedrinhas, e depois se vira para Hernystir e exige nossa ajuda!
Sua voz estava se elevando, e sua irmã lançou um olhar rápido ao redor, preocupada com quem pudesse ouvir. Não havia ninguém à vista, exceto as figuras pálidas dos guardas da porta a cem passos de distância.
— Onde estava o Rei Elias quando perdemos a estrada para Naarved e Elvritshalla? Quando surgiram bandidos e sabe-se lá o que mais os deuses libertaram na Estrada da Marca Gelada? — com o rosto corado novamente, o Príncipe olhou para cima e viu que Maegwin não se encontrava mais ao seu lado. Virou-se para vê-la de pé, de braços cruzados, dez passos atrás.
— Terminou, Gwythinn? — ela perguntou.
Este assentiu, embora sua boca estivesse cerrada.
— Ótimo. A diferença entre nosso pai e você, meu caro, é muito maior do que trinta e poucos anos. Nesses anos, ele aprendeu quando falar e quando guardar seus pensamentos para si. É por isso que, graças a ele, um dia você poderá ser o Rei Gwythinn, e não apenas o Duque de um Ducado Hernystir.
O rapaz a encarou por um longo momento.
— Eu sei. — disse por fim. — Você quer que eu seja como Eolair, curvando-me e rastejando diante dos cães de Erkynlandia. Sei que pensa que Eolair é o sol e a lua, independente do que o próprio pense a seu respeito, filha do Rei... Contudo não sou esse tipo de homem. Nós somos hernystiros! Não rastejamos para ninguém!
Maegwin lançou um olhar furioso, magoada pela alfinetada sobre seus sentimentos pelo Conde de Nad Mullach, sobre quem Gwythinn estava absolutamente certo... A atenção que este lhe demonstrava era apenas a devida à filha desajeitada e solteira de um Rei. No entanto as lágrimas que temia não vieram; em vez disso, ao olhar para Gwythinn, seu belo rosto contorcido pela frustração, pelo orgulho e, sobretudo, pelo genuíno amor por seu povo e sua terra, viu outra vez o irmãozinho que um dia carregara nos ombros... E a quem ela mesma, de tempos em tempos, provocara até as lágrimas.
— Por que estamos brigando, Gwythinn? — perguntou, cansada. — O que trouxe essa sombra sobre nossa casa?
Seu irmão baixou o olhar para as botas, envergonhado, e então estendeu a mão.
— Amigos e aliados. — disse. — Venha, vamos entrar e ver o pai antes que o Conde de Utanyeat entre sorrateiramente para se despedir com carinho.
***
As janelas do grande salão do Taig estavam escancaradas; a luz do sol que entrava estava repleta de poeira brilhante dos juncos espalhados pelo chão. As grossas vigas das paredes, talhadas nos carvalhos do Circoille, estavam encaixadas com tanto cuidado que nenhum raio de luz transparecia entre elas. Lá no alto, entre as vigas do telhado, pendiam mil esculturas pintadas dos deuses de Hernystir, de heróis e monstros, todas girando lentamente nas vigas enquanto a luz refletida brilhava calorosa em seus detalhes de madeira polida.
No fundo do salão, com o sol entrando por ambos os lados, o Rei Lluth ubh-Llythinn estava sentado em seu enorme trono de carvalho, sob a cabeça de veado esculpida que se projetava do encosto do assento, com chifres de verdade fixados ao crânio de madeira. O Rei comia uma tigela de mingau com mel usando uma colher de osso, enquanto Inahwen, sua jovem esposa, sentava-se em uma cadeira mais baixa ao seu lado, fazendo um delicado bordado na bainha de uma das vestes de Lluth.
Enquanto os sentinelas batiam duas vezes com as pontas de suas lanças em seus escudos para sinalizar a chegada de Gwythinn... Nobres de menor importância, como o Conde Eolair, recebiam apenas uma batida, enquanto o próprio Rei recebia três, e Maegwin nenhuma... Lluth ergueu os olhos e sorriu, colocando sua tigela no braço do trono e limpando o bigode grisalho na manga. Inahwen viu o gesto e lançou a Maegwin um olhar desesperado de cumplicidade de mulher para mulher, que a filha de Lluth ressentiu bastante. Maegwin nunca se acostumara de verdade com a presença de Fiathna, a mãe de Gwythinn, no lugar da sua (a mãe de Maegwin, Penemhwye, havia morrido quando Maegwin tinha quatro anos), mas pelo menos Fiathna tinha a idade de Lluth, não era uma mera garota como Inahwen! Ainda assim, essa jovem de cabelos dourados era bondosa, embora talvez um pouco lenta de raciocínio. Não era culpa de Inahwen ser a terceira esposa.
— Gwythinn! — Lluth se levantou parcialmente, sacudindo as migalhas da gola de seu manto amarelo com cinto. — Não temos sorte de ter sol hoje? — o Rei gesticulou em direção à janela, tão satisfeito quanto uma criança que aprendeu um truque. — É algo de que precisamos um pouco, não é? E talvez ajude nossos convidados de Erkynlandia... — sua expressão fez uma careta irônica, seus traços expressivos e inteligentes se transformando em uma expressão de perplexidade, as sobrancelhas arqueadas acima do nariz grosso e torto quebrado na infância. — A desfrutar de um humor mais agradável. O que acha?
— Não, não creio isso, pai. — respondeu Gwythinn, aproximando-se enquanto o Rei se acomodava em seu assento adornado com chifres. — E espero que a resposta que o senhor lhes der hoje, se me permite presumir, os afaste com uma resposta ainda mais vil. — ele puxou um banquinho e sentou-se aos pés do Rei, logo abaixo da plataforma elevada, fazendo um harpista se apressar. — Um dos soldados de Guthwulf arrumou briga com o velho Craobhan ontem à noite. Tive muita dificuldade em impedir que Craobhan acertasse as costas do desgraçado com uma flecha.
Lluth pareceu preocupado por um momento, mas logo a expressão desapareceu, escondida atrás da máscara sorridente que Maegwin conhecia tão bem.
“Ah, pai...” pensou ela. “Até o senhor está achando difícil manter a música tocando enquanto essas criaturas uivam por todo o Taig.”
A garota caminhou silenciosamente para a frente e sentou-se na plataforma ao lado do banquinho de Gwythinn.
— Bem... — o Rei sorriu com pesar. — É claro que o Rei Elias poderia ter escolhido seus diplomatas com um pouco mais de cuidado. Porém hoje, em uma hora, eles já terão ido, e a paz retornará a Hernysadharc. — Lluth estalou os dedos e um criado se adiantou para levar seu prato de mingau.
Inahwen observou com olhar crítico enquanto o prato passava.
— Pronto! — comentou em tom de reprovação. — Você não terminou de novo. O que eu faço com seu pai? — acrescentou, desta vez dirigindo o olhar para Maegwin, sorrindo com afeto como se Maegwin também fosse uma guerreira na constante batalha para fazer Lluth terminar suas refeições.
Maegwin, ainda sem saber como lidar com uma mãe um ano mais nova que ela, rompeu o silêncio, impaciente.
— Aeghonwye morreu, pai. Nossa melhor leitoa, e a décima do mês. E algumas das outras emagreceram muito.
O Rei franziu o cenho.
— Este tempo maldito. Se Elias pudesse manter este sol de primavera sobre nós, eu lhe daria qualquer imposto que pedisse. — ele estendeu a mão para dar um tapinha no braço de Maegwin, contudo não conseguiu alcançá-lo. — Tudo o que podemos fazer é empilhar mais juncos nos celeiros para nos proteger do frio. Se isso não funcionar, estaremos nas mãos divinas de Brynioch e Mircha.
Houve outro choque metálico de lança contra escudo, e o porteiro apareceu, com as mãos nervosamente entrelaçadas.
— Vossa Alteza! — chamou o homem. — O Conde de Utanyeat solicita uma audiência.
Lluth sorriu.
— Nossos convidados decidiram se despedir antes de partirem a cavalo. Claro! Por favor, tragam o Conde Guthwulf.
No entanto o convidado, seguido por vários de seus homens de guarda, embora sem espadas, já passava pelo velho servo.
Guthwulf ajoelhou-se devagar a cinco passos da plataforma.
— Vossa Majestade... Ah, e o Príncipe também. Sou um homem de sorte. — não havia qualquer traço de escárnio em sua voz, todavia seus olhos verdes brilhavam com uma intensidade nada sutil. — E a Princesa Maegwin... — um sorriso. — ‘A Rosa de Hernysadharc’.
A jovem lutou para manter a compostura.
— Senhor, só existiu uma Rosa de Hernysadharc... — disse ela. — E como era a mãe do seu Rei Elias, surpreende-me que o senhor tenha se esquecido disso.
Guthwulf fez um aceno firme.
— Claro, senhora, apenas pretendia fazer um elogio, entretanto devo discordar de você chamar Elias de meu Rei. Não é seu também, sob a Suprema Tutela?
Gwythinn se remexeu, virando-se para ver qual seria a reação do pai; sua bainha raspou na plataforma de madeira.
— Claro, claro. — Lluth acenou com a mão lentamente, como se estivesse debaixo d’água profunda. — Já discutimos tudo isto e não vejo necessidade de insistir no assunto. Reconheço a dívida da minha casa para com o Rei John. Sempre a honramos, em tempos de paz ou de guerra.
— Sim. — o Conde de Utanyeat se levantou, sacudindo a poeira dos joelhos das calças. — Mas e a dívida da sua casa para com o Rei Elias? Ele tem demonstrado grande tolerância...
Inahwen se levantou e o manto que estava costurando deslizou para o chão.
— Desculpe-me... — disse ela ofegante, pegando a peça de roupa. — Há assuntos domésticos que demandam minha atenção.
O Rei acenou com a mão, dando-lhe permissão, e ela caminhou rápida, porém cuidadosamente, entre os homens que esperavam e saiu pela porta entreaberta do salão, com a agilidade de uma corça.
Lluth soltou um suspiro silencioso; Maegwin olhou para o pai, vendo as sempre surpreendentes linhas da idade que envolviam seu rosto.
“Ele está cansado, e ela, Inahwen, está assustada...” pensou Maegwin. “Eu me pergunto o que estou sentindo? Raiva? Não tenho certeza... Exaustação, talvez.”
Enquanto o Rei encarava o mensageiro de Elias, o cômodo pareceu escurecer. Por um momento, Maegwin temeu que nuvens tivessem coberto o sol, que o inverno estivesse retornando; então percebeu que era apenas sua própria apreensão, sua súbita sensação de que algo mais do que a paz de espírito de seu pai estava em jogo ali.
— Guthwulf... — começou o monarca, sua voz soava cansada como se estivesse sob um grande peso. — Não pense em me provocar hoje... Mas também não pense que pode me intimidar. O Rei não demonstrou nenhuma tolerância para com os problemas de Hernystir. Suportamos uma seca amarga, e agora as chuvas pelas quais agradecemos a todos os deuses mil vezes se tornaram uma maldição. Com que punição Elias pode me ameaçar que possa ser maior do que ver meu povo amedrontado, nosso gado faminto? Não posso pagar um dízimo maior.
O Conde de Utanyeat permaneceu em silêncio por um momento, e a expressão vazia de seu semblante aos poucos se transformou em algo que, para Maegwin, parecia perturbadoramente com júbilo.
— Nenhuma punição maior? — disse o Conde, saboreando cada palavra como se lhe soasse bem. — Nenhum dízimo maior? — cuspiu um pouco de suco de citrino no chão diante do trono do Rei. Vários dos homens de armas de Lluth gritaram de horror; o harpista que tocava baixinho num canto deixou cair seu instrumento com um estrondo dissonante.
— Cão! — Gwythinn saltou, seu banquinho caindo com um baque. Num instante, sua espada estava desembainhada e apontada para a garganta de Guthwulf. O Conde apenas o encarou, com o queixo levemente inclinado para trás.
— Gwythinn! — Lluth rugiu. — Embainhe, maldito seja, embainhe!
O lábio de Guthwulf se curvou num sorriso irônico.
— Deixe-o. Vá em frente, filhote, mate a Mão do Supremo Rei desarmado!
Ouviu-se um barulho metálico perto da porta quando alguns de seus homens, com o espanto se dissipando, começaram a avançar. A mão de Guthwulf se ergueu.
— Não! Mesmo que este pirralho me corte de orelha a orelha, ninguém revidará! Vocês saíram e cavalgaram para Erkynlandia. O Rei Elias ficará... Muito interessado.
Seus homens, confusos, permaneceram imóveis como espantalhos blindados.
— Deixe-o ir, Gwythinn! — disse Lluth, com uma raiva fria na voz.
O Príncipe, com o rosto corado, encarou o erkyno por um longo momento, depois deixou a espada repousar ao lado do corpo. Guthwulf passou o dedo sobre o pequeno corte na garganta e lançou um olhar gélido para o próprio sangue. Maegwin percebeu que estava prendendo a respiração; ao ver a mancha carmesim na ponta do dedo do Conde, e voltou a encher os pulmões com ar.
— Você viverá para contar a Elias por sua própria boca, Utanyeat. — apenas um leve tremor perturbou a firmeza da voz do Rei. — Espero que também lhe conte a afronta mortal que cometeu contra a Casa de Hern, uma afronta que lhe teria custado a vida se não fosse o emissário de Elias e Mão do Rei. Agora vá.
Guthwulf se virou e caminhou até onde seus homens estavam, com uma expressão selvagem. Ao alcançá-los, girou sobre um calcanhar, encarando Lluth do outro lado do grande salão.
— Lembre-se de que não há dízimo maior que possa pagar. — falou o Conde. — Se um dia ouvir fogo nas vigas do Taig e seus filhos chorando. — ele atravessou com passos pesados pela porta.
Maegwin, com as mãos trêmulas, curvou-se e pegou um pedaço da harpa quebrada, enrolando a corda retorcida em sua mão. Ela ergueu a cabeça para olhar para o pai e o irmão; o que viu ali a fez voltar a atenção para o pedaço de madeira na palma da mão, e a corda que apertava contra sua pele pálida.
***
Deixando escapar um palavrão suave em Wranana, Tiamak olhou desconsoladamente para a gaiola vazia de juncos. Era sua terceira armadilha, e ainda não havia um caranguejo sequer. A cabeça de peixe que servira de isca, é claro, havia desaparecido sem deixar rastro. Olhando para a água lamacenta, teve uma súbita e nervosa premonição de que os caranguejos estavam de alguma forma um passo à sua frente... Talvez estivessem até mesmo esperando que jogasse a gaiola, repleta com outra cabeça de peixe de olhos esbugalhados. Conseguia imaginar uma tribo inteira deles correndo com expressões de alegria para cutucar a isca através das grades com um graveto ou alguma outra ferramenta semelhante, concedida há pouco tempo aos caranguejos por alguma divindade benevolente dos crustáceos.
“Será que os caranguejos o veneravam como um anjo da guarda de casca mole?” ele se perguntava. “Ou o olhavam com a indiferença cínica de um bando de malfeitores avaliando um bêbado antes de lhe roubar a bolsa?”
Tinha certeza de que era a segunda opção. Recolocou a isca na gaiola cuidadosamente tecida e, com um suspiro suave, deixou-a cair na água, desenrolando a corda atrás enquanto afundava.
O sol estava se pondo no horizonte, tingindo o longo céu acima do pântano com tons de laranja e vermelho-caqui. Enquanto Tiamak conduzia seu barco a remo pelas vias navegáveis do Wran, distinguíveis da terra em alguns trechos apenas pela menor altura da vegetação, ele tinha a sensação de que o azar de hoje era apenas o começo de uma longa maré crescente. Naquela manhã havia quebrado sua melhor tigela, aquela pela qual passara dois dias escrevendo a lista de ancestrais de Roahog, o Oleiro, para pagar; à tarde, havia quebrado a ponta de uma pena e respingado uma grande quantidade de tinta de suco de frutas vermelhas em seu manuscrito, arruinando uma página quase concluída. E agora, a menos que os caranguejos tivessem decidido realizar algum tipo de festival nos confins apertados de sua última armadilha, haveria muito pouco para comer esta noite. Estava ficando muito cansado de sopa de raízes e biscoitos de arroz.
Enquanto se aproximava da última plataforma flutuante, uma bola de juncos em forma de treliça, ofereceu uma oração silenciosa Àquele Que Sempre Pisa na Areia, para que os pequenos andarilhos do fundo empurrassem e se espremessem para entrar na gaiola abaixo. Devido à sua educação incomum, que incluiu um ano vivendo em Perdruin... Algo inédito para um Wran, Tiamak não acreditava mais n’Àquele Que Sempre Pisa na Areia, todavia seguia nutrindo um carinho por este, como o que se poderia sentir por um avô senil que frequentemente saía da casa, porém que certa vez trouxe nozes e brinquedos esculpidos. Além do mais, nunca fazia mal rezar, mesmo que não se acreditasse no objeto da oração. Ajudava a acalmar a mente e, no mínimo, impressionava os outros.
A armadilha subiu devagar e, por um instante, o coração de Tiamak acelerou um pouco em seu peito magro e moreno, como se tentasse abafar os ruídos expectantes de seu estômago. Contudo a sensação de resistência foi passageira, talvez alguma raiz que se agarrara e depois escorregara, e a gaiola de repente surgiu e flutuou na superfície turva da água. Algo se movia lá dentro; levantou a gaiola, interpondo-a entre si e o céu ofuscante do pôr do sol, semicerrando os olhos. Dois olhinhos minúsculos e pedunculados o encararam, olhos que oscilavam sobre um caranguejo que desapareceria em sua palma se dobrasse os dedos sobre ele.
Tiamak bufou. Podia imaginar o que havia acontecido ali: os irmãos caranguejos mais velhos e barulhentos instigando o menor a testar a armadilha; o filhote, preso lá dentro, chorava enquanto seus irmãos grosseiros riam e agitavam suas garras. Então, a sombra gigante de Tiamak, a gaiola subitamente puxada para cima, os irmãos caranguejos se entreolharam envergonhados, imaginando como explicariam a ausência do pequenino para a Mãe.
“Ainda assim...” pensou Tiamak, considerando a sensação de vazio em seu estômago, se isso era tudo o que tinha conseguido hoje... “É pequeno, no entanto ficaria ótimo na sopa.”
Voltou a olhar para a gaiola, depois a virou de cabeça para baixo, sacudindo o prisioneiro para fora, em sua palma. Por que se iludir? Havia sido um dia desastroso, e pronto.
O pequeno caranguejo fez um barulho de plop quando o jogou de volta na água. Nem se deu ao trabalho de fechar a armadilha de volta.
***
Enquanto subia a longa escada de seu barco ancorado até a pequena casa empoleirada na figueira-de-bengala, Tiamak jurou se contentar com sopa e um biscoito. A gula era um obstáculo, lembrou a si mesmo, um impedimento entre a alma e os reinos da verdade. Enquanto puxava a escada para a varanda, pensou Naquela Que Deu à Luz a Humanidade, que nem sequer provara uma boa tigela de sopa de raízes, mas subsistira inteiramente de pedras, terra e água do pântano até que tudo se combinasse em seu estômago e ela desse à luz uma ninhada de homenzinhos de barro, os primeiros humanos.
Pronto, isso fazia da sopa de raiz um verdadeiro banquete, não é? Além disso, tinha muito trabalho a fazer de qualquer maneira... Consertar ou reescrever a página manchada do manuscrito, por exemplo. Entre os membros de sua tribo, era considerado apenas um estranho, mas em algum lugar do mundo haveria pessoas que leriam sua revisão de Os Remédios Soberanos dos Curandeiros de Wran e perceberiam que havia mentes brilhantes até nos pântanos. Porém, ei! Um caranguejo teria caído muito bem, isto e um jarro de cerveja de samambaia.
Enquanto Tiamak lavava as mãos na tigela de água que havia colocado antes de sair, agachado porque não havia espaço para sentar entre sua prancheta obsessivamente raspada e polida e seu jarro de água, ele ouviu um som de arranhão no telhado. Tentou se atentar mais ao que escutava enquanto enxugava as mãos em seu pano de cintura. Veio de novo, um farfalhar seco, como sua pena quebrada sendo esfregada na palha.
Levou apenas um instante para deslizar para fora da janela e subir, mão sobre mão, no telhado inclinado. Agarrando-se a um dos longos e curvados galhos da figueira-de-bengala, subiu até onde uma pequena caixa com teto de casca de árvore repousava no topo do telhado, uma casinha infantil carregada nas costas da mãe. Enfiou a cabeça na abertura da caixa.
Lá estava, como esperado, um pardal cinzento, bicando vigorosamente as sementes espalhadas pelo chão. Tiamak estendeu a mão com cuidado para embalá-lo; então, com o máximo cuidado possível, desceu do telhado e entrou pela janela.
Tiamak colocou o pardal na gaiola de caranguejo que mantinha pendurada na viga do telhado para essas ocasiões e em seguida acendeu uma fogueira. Quando as chamas começaram a lamber a lareira de pedra, retirou o pássaro da gaiola, com os olhos ardendo enquanto a fumaça começava a subir em espiral em direção ao buraco no teto.
O pardal havia perdido uma ou duas penas da cauda e mantinha uma asa um pouco aberta para o lado, como se tivesse se machucado em sua descida da Erkynlandia. Sabia que viera de Erkynlandia porque era o único pardal que já havia criado. Seus outros pássaros eram pombas-do-brejo, mas Morgenes insistia em pardais por algum motivo... Que velho engraçado ele era.
Depois de colocar uma panela de água nas chamas, Tiamak fez o que pôde pela asa prateada desajeitada, depois colocou mais sementes e um pedaço oco de casca cheio de água. Ficou tentado a esperar até comer para ler a mensagem, adiar o prazer das notícias distantes o máximo possível, contudo em um dia como aquele, tanta paciência era pedir demais. Amassou um pouco de farinha de arroz no pilão, adicionou pimenta e água, depois espalhou a mistura e a enrolou em um bolo que colocou na pedra de assar.
O pedaço de pergaminho que estava enrolado na pata do pardal estava com as bordas rasgadas e os caracteres impressos borrados, como se o pássaro tivesse se molhado um pouco, no entanto já estava acostumado com essas coisas e logo resolveu o problema. A anotação indicando a data em que fora escrita o surpreendeu... O pardal cinzento levara quase um mês para chegar a Wran. A mensagem o surpreendeu ainda mais, entretanto não era o tipo de surpresa que esperava.
Foi com uma sensação de frio e peso no estômago, que superou qualquer fome, que ele foi até a janela, olhando além dos galhos emaranhados da figueira-de-bengala para as estrelas que começavam a aparecer rapidamente. Fitou o céu do norte e, por um momento, quase pôde acreditar que sentiu um vento frio cortando o ar, empurrando uma onda de frio através do ar quente de Wran. Tiamak ficou um bom tempo na janela antes de perceber o cheiro de seu jantar queimando.
***
O Conde Eolair recostou-se na cadeira de almofadas macias e olhou para o teto alto. Estava coberto de pinturas religiosas, representações meticulosas de Jesuris curando a lavadeira, Sutrin martirizado na arena do Imperador Crexis e outros temas semelhantes. As cores pareciam estar desbotando um pouco, e muitas das pinturas estavam obscurecidas pela poeira, como se estivessem envoltas em um véu fino. Mesmo assim, era uma visão impressionante, apesar de ser apenas uma das antecâmaras menores do Sancellan Aedonitis.
“Um milhão de quilos de arenito, mármore e ouro.” pensou Eolair. “E tudo para um monumento a algo que ninguém jamais viu.”
Inesperadamente, uma onda de saudade o invadiu, como tantas vezes acontecera na última semana. O que não daria para estar de volta ao seu humilde salão em Nad Mullach, cercado por sobrinhas e sobrinhos e pelos pequenos monumentos de seu próprio povo e deuses, ou no Taig em Hernysadharc, onde um pedaço de seu coração secreto sempre permanecia, em vez de estar cercado ali pela pedra devoradora de terras de Nabban! Mas o cheiro da guerra estava no ar, e não podia se isolar quando seu Rei lhe pedira ajuda. Apesar disso, estava cansado de viajar. A relva de Hernystir voltaria a ser macia e agradável sob os cascos do seu cavalo.
— Conde Eolair! Perdoe-me, por fazê-lo esperar. — Padre Dinivan, o jovem secretário do Leitor, estava parado na porta oposta, enxugando as mãos em sua batina preta. — Hoje já foi um dia cheio, e veja que a manhã sequer terminou. Mesmo assim... — riu ele. — Essa é uma desculpa muito ruim. Por favor, entre em meus aposentos!
Eolair o seguiu para fora da antecâmara, suas botas silenciosas sobre os tapetes velhos e grossos.
***
— Pronto! – disse Dinivan, sorrindo e aquecendo as mãos diante da lareira. — Está melhor assim? É um escândalo, porém não conseguimos manter a maior casa do Senhor aquecida. Os tetos são muito altos. E a primavera tem sido tão fria!
O Conde sorriu.
— Para falar a verdade, eu não tinha reparado muito. Em Hernystir, dormimos com as janelas abertas, exceto no inverno mais rigoroso. Somos um povo que vive ao ar livre.
Dinivan ergueu as sobrancelhas.
— E nós, nabbanos, somos sulistas fracos, é?
— Eu não disse isso! — Eolair riu. — Uma coisa que vocês, sulistas, são, é mestres da oratória.
O secretário sentou-se em uma cadeira de encosto rígido.
— Ah, contudo Sua Santidade, o Leitor, que é originalmente de Erkynlandia, como bem sabe, o Leitor pode dar um show de eloquência entre nós. É um homem sábio e sutil.
— Estou bem ciente. E é sobre ele que gostaria de falar, Padre.
— Por favor, me chame de Dinivan. Ah, é sempre esse o destino do secretário de um grande homem, ser procurado por sua proximidade em vez de sua personalidade. — ele fez uma expressão fingidamente triste.
Eolair se viu outra vez apreciando muito daquele sacerdote.
— Esse é o seu destino, Dinivan. Agora ouça, por favor. Suponho que saiba por que meu mestre me enviou aqui?
— Teria que ser um completo idiota para não saber. São tempos que fazem as línguas se mexerem como rabos de cães animados. Seu mestre entra em contato com Leobardis, para que possam formar uma causa comum.
— Correto.
Eolair se afastou da lareira para puxar uma cadeira perto de Dinivan.
— Estamos em um equilíbrio delicado: meu senhor Lluth, seu Leitor Ranessin, Elias, o Supremo Rei, o Duque Leobardis...
— E o Príncipe Josua, se estiver vivo. — disse Dinivan, com o rosto preocupado. — Sim, um equilíbrio delicado. E você sabe que o Leitor não pode fazer nada para perturbar esse equilíbrio.
Eolair assentiu lentamente.
— Estou ciente.
— Então, por que veio até mim? — perguntou Dinivan em um tom gentil.
— Não tenho muita certeza. Só posso lhe dizer o seguinte: parece que há alguma luta se formando, como costuma acontecer, no entanto eu mesmo temo que seja algo mais profundo. Pode me achar um louco, entretanto pressinto que uma era está chegando ao fim, e temo o que a próxima poderá trazer.
O olhar do secretário do Leitor se manteve fixo. Por um momento, seu rosto inexpressivo pareceu muito mais velho, como se refletisse sobre mágoas antigas.
— Direi apenas que compartilho seus temores, Conde Eolair. — disse ele por fim. — Mas não posso falar pelo Leitor, exceto para dizer o que já disse antes... É um homem sábio e perspicaz. — sua mão acariciou a Árvore junto ao peito. — Para seu conforto, porém, posso dizer o seguinte: o Duque Leobardis ainda não decidiu a quem apoiará. Embora o Supremo Rei o lisonjeie e o ameace alternadamente, Leobardis segue resistindo.
— Bem, isso é uma boa notícia! — disse Eolair, e sorriu com cautela. — Quando vi o Duque esta manhã, estava muito distante, como se temesse ser visto me ouvindo com muita atenção.
— Tem muitas coisas as quais ponderar, assim como meu próprio mestre. — respondeu Dinivan. — Contudo saiba também disto... E é um segredo profundo. Esta manhã mesmo, levei o Barão Devasalles para ver o Leitor Ranessin. O Barão está prestes a partir em uma missão diplomática que será muito importante tanto para Leobardis quanto para meu mestre, e terá muito a ver com a forma como Nabban direcionará seu poder em qualquer conflito. Não posso lhe dizer mais do que isto, embora espero que seja algo significativo.
— É mais do que um pouco. — disse Eolair. — Agradeço sua confiança, Dinivan.
Em algum lugar do Sancellan Aedonitis, um sino tocou, grave e profundo.
— O Sino de Clavean anuncia o meio-dia. — disse o padre Dinivan. — Venha, vamos comer algo e tomar uma caneca de cerveja, e conversar sobre coisas mais agradáveis. — um sorriso iluminou seu rosto, rejuvenescendo-o. — Sabia que viajei uma vez por Hernystir? Seu país é lindo, Eolair.
— Embora um tanto carente de construções de pedra. — respondeu o Conde, dando um tapinha na parede do quarto de Dinivan.
— E essa é uma de suas belezas. — riu o padre, conduzindo-o para fora.
***
A barba do velho era branca e longa o suficiente para que a prendesse no cinto ao caminhar... O que, até esta manhã, vinha fazendo há vários dias. Seu cabelo não era mais escuro que a barba. Até mesmo sua jaqueta com capuz e calças eram feitas da pele grossa de um lobo branco. A pele da criatura havia sido cuidadosamente esfolada; as patas dianteiras cruzavam-se sobre seu peito, e sua cabeça sem mandíbula, pregado a um capelo de ferro, repousava sobre sua própria testa. Se não fossem os pedaços de cristal vermelho nas órbitas vazias do lobo e os ferozes olhos azuis do velho sob eles, não seria nada além de mais uma mancha branca na floresta coberta de neve que se estendia entre o Lago Drorshull e as colinas.
O gemido do vento no topo das árvores aumentou, e uma rajada de neve caiu dos galhos do alto pinheiro sobre o homem agachado embaixo. Ele se sacudiu impaciente, como um animal, e uma fina névoa subiu ao seu redor, rompendo por um momento a fraca luz do sol em uma névoa de pequenos arco-íris. O vento continuou seu canto lamentoso, e o velho de branco estendeu a mão para o lado, agarrando algo que a princípio parecia ser apenas mais um pedaço branco... Uma pedra ou toco de árvore coberto de neve. Ergueu o objeto, limpando a camada branca e pulverulenta da parte superior e das laterais, depois levantou a cobertura de tecido o suficiente para espiar o interior.
Sussurrou na abertura e esperou, franzindo as sobrancelhas por um instante, como se estivesse irritado ou preocupado. Colocando o objeto de volta no lugar, levantou-se e desabotoou o cinto de pele de rena branqueada que usava na cintura. Depois de puxar o capuz para trás, revelando seu rosto magro e curtido pelo tempo, tirou o casaco de pele de lobo. A camisa sem mangas que usava por baixo era da mesma cor da jaqueta, a pele de seus braços musculosos não muito mais escura, mas começando em seu pulso direito, logo acima da luva de pele, a cabeça de uma cobra estava desenhada com tintas brilhantes, escrita em azul, preto e vermelho-sangue direto sob a pele. O corpo da cobra curvava-se em espiral ao redor do braço direito do velho, desaparecendo no ombro da camisa para reaparecer contorcendo-se sinuosamente em seu braço esquerdo e terminar em uma cauda ondulada no pulso. Essa explosão de cor vibrante saltava contra a floresta invernal monótona e contra as vestes e a pele brancas do homem; a curta distância, parecia que alguma serpente voadora, cortada ao meio no ar, sofria suas agonias de morte a dois côvados acima da terra congelada.
O velho não prestou atenção aos arrepios em seus braços até terminar de drapejar o casaco sobre o embrulho, dobrando as pregas soltas por baixo. Então, tirou uma bolsa de couro de um bolso em sua camisa, espremeu dela uma quantidade de graxa amarela e a esfregou vigorosamente sobre a pele exposta, fazendo a serpente brilhar como se tivesse acabado de chegar de alguma selva úmida do sul. Concluindo a tarefa, voltou a se agachar sobre os calcanhares para esperar. Estava com fome, porém havia terminado suas últimas rações de viagem na noite anterior. Aquilo não importava, de qualquer forma, porque logo aqueles que ele esperava chegariam, e então haveria comida.
Com o queixo inclinado para baixo, os olhos cor de cobalto faiscando sob as sobrancelhas gélidas, Jarnauga observava a aproximação ao sul. Era um homem muito, muito velho, e os rigores do tempo e do clima o haviam endurecido e franzido. De certa forma, ansiava pela hora que se aproximava, quando a Morte o chamaria e o levaria para seu salão escuro e silencioso. O silêncio e a solidão não lhe causavam terror; haviam sido a trama e a urdidura de sua longa vida. Queria apenas concluir a tarefa que lhe fora designada, entregar uma tocha que outros pudessem usar na escuridão que se aproximava; então, deixaria a vida e o corpo partirem com a mesma facilidade com que sacudia a neve de seus ombros nus.
Pensando nos salões solenes que o aguardavam na última curva de sua estrada, lembrou-se de sua amada Tungoldyr, deixada para trás quinze dias atrás. Enquanto estivera à porta de casa naquele último dia, a pequena cidade onde passara a maior parte de seus oitenta e cinco anos se estendia diante dele, tão vazia quanto a lendária Huelheim que o aguardava quando seu trabalho estivesse concluído. Todos os outros habitantes de Tungoldyr haviam fugido meses antes; apenas Jarnauga permanecia na vila chamada Porta da Lua, empoleirada entre as altas Montanhas Himilfell, embora ainda à sombra do distante Sturmrspeik... O Pico das Tormentas. O inverno endurecera em um frio que nem mesmo os rimmerios de Tungoldyr jamais conheceram, e as canções noturnas dos ventos se transformaram em algo que continha o som de uivos e choros, até que os homens enlouqueceram e foram encontrados rindo pela manhã, com suas famílias mortas ao seu redor.
Apenas Jarnauga permanecera em sua pequena casa enquanto as névoas de gelo se tornavam densas como lã nas passagens das montanhas e nas ruas estreitas da cidade, os telhados inclinados de Tungoldyr parecendo flutuar como os navios de guerreiros fantasmas navegando pelas nuvens. Ninguém além de Jarnauga estivera por perto para ver as luzes bruxuleantes do Pico das Tormentas brilharem cada vez mais forte, para ouvir os sons de uma música vasta e áspera que serpenteava em meio ao estrondo dos trovões, ecoando pelas montanhas e vales desta província mais ao norte de Rimmersgardia.
Contudo agora até ele... Sua hora finalmente chegara, como lhe fora revelado por certos sinais e mensagens... Deixara Tungoldyr para a escuridão e o frio rastejantes. Jarnauga sabia que, não importava o que acontecesse, nunca mais veria o sol nas casas de madeira, nem ouviria o canto dos riachos da montanha enquanto eles respingavam em frente à sua porta, até o caudaloso Gratuvask. Tampouco voltaria a ficar parado na varanda nas noites claras e escuras da primavera para ver as luzes no céu, a cintilante aurora boreal que estava lá desde a sua infância, não as chamas trêmulas e doentias que agora brincavam na face escura do Pico das Tormentas. Essas coisas haviam desaparecido. Seu caminho à frente era claro, no entanto havia pouca alegria nele.
Mas nem tudo estava claro, mesmo agora. Ainda havia o sonho persistente a ser resolvido, o sonho do livro negro e das três espadas. Este o atormentava há quinze dias, entretanto seu significado ainda lhe era oculto.
Seus pensamentos foram interrompidos por um ponto de movimento na aproximação sul, ao longe, ao longo da borda das árvores que pontilhavam as encostas ocidentais de Wealdhelm. Seus olhos cerraram por um momento, depois assentiu lentamente com a cabeça e se levantou.
Enquanto vestia o casaco de volta, o vento mudou de direção; um instante depois, um murmúrio fraco de trovão ecoou do norte. Veio novamente, um rosnado baixo como o de uma fera lutando para despertar do sono. Logo em seguida, todavia vindo da direção oposta, o som dos cascos cresceu de um murmúrio para um ruído que rivalizava com o trovão.
Enquanto Jarnauga pegava sua gaiola de pássaros e caminhava para encontrar os cavaleiros, os sons se misturaram... O trovão ribombando ao norte, o ruído abafado dos cavaleiros se aproximando ao sul... Até que preencheram a floresta branca com seu estrondo frio, como música feita em tambores de gelo.
***
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