Capítulo 27: As Torres de Teias de Fábulas
Tentou ignorar a mão em seu ombro, mas não conseguiu. Abrindo os olhos, viu que o quarto seguia estando bastante escuro, com apenas dois aglomerados angulares de estrelas indicando a localização das janelas.
— Deixe-me dormir. — gemeu. — É muito cedo!
— Levante-se, garoto! — sussurrou a voz áspera. Era Geloë, com o manto frouxamente enrolado no corpo. — Não há tempo a perder.
Piscando os olhos secos e doloridos, Simon olhou por cima do ombro da mulher ajoelhada para ver Binabik arrumando quieto sua bolsa.
— O que está acontecendo? — perguntou, mas o gnomo parecia ocupado demais para falar.
— Eu estive lá fora. — disse Geloë. — O lago foi descoberto, presumo que pelos homens que estavam caçando vocês.
Simon se sentou rapidamente e pegou suas botas. Tudo parecia tão irreal na quase escuridão; ainda assim, podia sentir seu coração batendo forte.
— Jesuris! — praguejou baixinho. — O que faremos? Eles nos atacarão?
— Não sei. — respondeu Geloë enquanto o deixava para ir acordar Malaquias... Não, Marya, Simon lembrou a si mesmo. — Há dois acampamentos, um na extremidade do lago, perto do riacho que deságua nele, e outro não muito longe daqui. Ou eles sabem de quem é esta casa e estão tentando decidir o que fazer, ou ainda não sabem que a cabana está aqui. É possível que tenham chegado depois que apagamos as velas.
Uma pergunta repentina lhe ocorreu.
— Como você sabe que estão lá na outra extremidade? — seus olhos espiaram pela janela. O lago estava outra vez envolto em neblina, e não havia sinal de fogueiras. — Está tão escuro. — concluiu, e voltou-se para Geloë. A mulher não estava vestida para rondar a floresta. Seus pés estavam descalços!
Porém, mesmo enquanto a observava, o manto vestido às pressas e as gotas úmidas de névoa agarradas ao seu rosto e cabelo, se lembrou das grandes asas da coruja que voara à frente deles até este lago. Ainda podia sentir as garras fortes que o carregaram quando aquela coisa odiosa na Estrada dos Sonhos estava lhe roubando a vida.
— Suponho que não seja importante, não é? — concluiu por fim. — Só importa sabermos que estão lá fora.
Apesar do fraco luar, pôde ver a bruxa sorrir.
— Tem razão, Simon. — disse ela com a voz baixa, e foi ajudar Binabik a encher mais duas bolsas, uma para Simon e outra para Marya.
— Escute! — disse Geloë quando Simon, já vestido, se aproximou. — É óbvio que vocês precisam sair agora, antes do amanhecer... — seu olhar se voltou para as estrelas por um instante. — Que não demorará a chegar. A questão é: como?
— Tudo o que podemos esperar... — resmungou Binabik. — É escapar e tentar passar por eles na floresta, movendo-nos com muita quietude. Com certeza não podemos voar. — o homenzinho sorriu, um tanto amargamente. Marya, aconchegando-se em uma capa que a valada lhe dera, olhou para o sorriso do gnomo, confusa.
— Não! — disse Geloë em um tom sério. — Contudo também duvido que consigam escapar daqueles cães terríveis. Podem não voar, no entanto podem flutuar para longe. Tenho um barco amarrado embaixo da casa. Não é grande, entretanto é o bastante para comportar todos vocês... E Qantaqa também, se não se mover muito. — ela acariciou afetuosamente as orelhas da loba, que estava reclinada ao lado de seu mestre agachado.
— E de que adianta isso? — perguntou Binabik. — Vamos remar até o centro do lago e, de manhã, desafiá-los a nadar e nos pegar? — terminou de empacotar o último saco e empurrou um para Simon e outro para a garota.
— Há um riacho que desemboca no lago. — disse Geloë. — É pequeno e não tem muita correnteza, nem mesmo tão forte quanto aquele que vocês seguiram até aqui. Com quatro remos, poderão sair do lago sem problemas e subir um pouco o rio.
Sua leve carranca era mais contemplativa do que preocupada.
— Por infelicidade, também passa por um dos dois acampamentos. Bem, não há nada que se possa fazer. Terão apenas de remar em silêncio. Talvez isso até ajude na fuga. Um homem tão teimoso quanto o Barão Heahferth... Acreditem, já tive meus problemas com ele e outros como ele! Não acreditaria que sua presa pudesse passar por debaixo de seu nariz.
— Heahferth não me preocupa. — respondeu Binabik. — E sim aquele que realmente está liderando a caçada, o rimmerio negro, Ingen Jegger.
— É provável que nem sequer durma. — acrescentou Simon. Não gostava nem um pouco da lembrança daquele homem.
Geloë fez uma careta irônica.
— Então não se preocupem. Ou pelo menos, não deixem que o medo os domine. Alguma distração útil pode surgir... Nunca se sabe. — ela se levantou. — Vamos, menino. — chamou Simon. — Você é bem grande. Ajude-me a desamarrar o bote e a movê-lo em silêncio até a ponte da porta da frente.
***
— Você consegue ver? — sibilou a bruxa, apontando para uma forma escura que flutuava no lago de ébano perto do canto mais distante da casa elevada. Simon, já com água até os joelhos, assentiu com a cabeça. — Vá em silêncio, então. — instou, de forma um tanto desnecessária, pensou Simon.
Enquanto caminhava pela lateral, com a água na altura da cabeça até o piso de madeira sobre palafitas da cabana, Simon decidiu que não se enganara na tarde anterior, quando sentira que algo ao redor da cabana havia mudado. Aquela árvore ali, com as raízes até a metade na água, ele a vira no primeiro dia em que chegaram, mas então... Tinha certeza, por Jesuris! Ela estava do outro lado da cabana, perto da tábua da porta. Como uma árvore poderia se mover?
Encontrou a corda que prendia o barco com os dedos e os deslizou para cima até encontrar o ponto onde estava amarrada a uma espécie de aro pendurado na parte inferior da cabana. Ao se curvar num ângulo que lhe causava dor nas costas para tentar desatar o nó, franziu o nariz por causa do cheiro estranho. Seria o lago, ou a parte de baixo da própria casa, que cheirava assim? Além do odor de madeira úmida e mofo, havia também um tipo de cheiro estranho, animal... Quente e almiscarado, embora não desagradável.
Mesmo enquanto semicerrava os olhos na escuridão, as sombras clarearam um pouco; conseguia até ver o nó! Seu prazer com isso, e o rápido desatar que se seguiu, foi frustrado pela fria constatação de que o amanhecer chegaria em breve: a escuridão que se dissipava era sua amiga. Depois de soltar a corda, começou a voltar a pé, rebocando o barco silenciosamente atrás de si. Mal conseguia discernir a silhueta indistinta de Geloë encolhida ao lado da longa prancha que descia da entrada da cabana; ele caminhou em direção a ela o mais rápido que pôde... Até tropeçar.
Com um mergulho e um grito abafado, meio que caiu de joelhos, depois se endireitou. O que o havia prendido? Parecia um tronco. Tentou passar por cima do obstáculo, porém apenas conseguiu colocar o pé descalço direto sobre ele e teve que reprimir a vontade de gritar. Apesar de estar imóvel e sólido, ainda assim tinha a textura escamosa de um dos peixes-lúcio do fosso de Hayholt, ou de um dos galos-da-pradaria empalhados que Morgenes mantinha empoleirados em suas prateleiras. Quando as ondulações se acalmaram e ouviu a voz calma, contudo cautelosa de Geloë perguntando se havia se machucado, ele olhou para baixo.
Embora a água estivesse quase opaca na escuridão, Simon tinha certeza de que podia ver o contorno de algum tipo estranho de tronco, ou melhor, um galho enorme de algum tipo, pois podia ver que a coisa em que havia tropeçado, logo abaixo da superfície da água, se unia a outros dois galhos escamosos. Juntos, eles pareciam conectados à base de um dos dois pilares sobre os quais a cabana estava suspensa sobre o lago.
E enquanto pisava com cuidado sobre aquilo, deslizando silencioso pela água em direção à sombra que era Geloë, de repente percebeu que o que as raízes da árvore... Ou galhos, ou o que quer que fossem... Realmente pareciam ser... Uma espécie de pé monstruoso. Uma garra, na verdade, a garra de um pássaro. Que ideia engraçada! Uma casa não tinha pés de pássaro, assim como uma casa não se levantava e... Andava.
Simon ficou muito quieto enquanto Geloë amarrava o barco à base da prancha.
***
Tudo e todos estavam amontoados no pequeno bote. Binabik empoleirado na proa pontiaguda, Marya no meio, Simon sentado na popa com uma Qantaqa inquieta entre os joelhos. A loba estava obviamente muito desconfortável; ela choramingou e resistiu quando Binabik ordenou que entrasse na pequena embarcação. Por fim, precisou dar-lhe um tapinha leve no focinho. O desconforto no rosto do homenzinho era evidente mesmo na escuridão da madrugada.
A lua já estava distante na abóbada azul-escura do céu ocidental que clareava. Geloë, depois de entregar-lhes os remos, endireitou-se.
— Assim que saírem do lago em segurança e subirem um pouco o rio, acho que devem levar o bote por terra, através da floresta, até o Aelfwent. Não é uma embarcação muito pesada e não vão precisar carregá-la por muito tempo. O rio está fluindo na direção certa e deve levá-la até Da’ai Chikiza.
Binabik estendeu o remo e empurrou o bote para longe da prancha. Geloë ficou com água até os tornozelos na margem do lago enquanto giravam suavemente para longe da costa.
— Lembrem-se... — ela sussurrou. — Coloque os remos na água ao chegar à nascente. Silêncio! Essa é a sua proteção.
Simon ergueu a palma da mão.
— Adeus, Valada Geloë.
— Adeus, jovem peregrino. — sua voz já estava ficando fraca, com menos de três côvados entre eles. — Boa sorte a todos vocês. Não tenham medo! Eu cuidarei bem da garotinha.
Eles se afastaram sem fazer qualquer barulho, até que a bruxa se tornou apenas uma sombra ao lado do pilar próximo da casa.
A proa do pequeno barco cortava a água como a lâmina de um barbeiro corta a seda. Ao gesto de Binabik, todos abaixaram a cabeça, e o gnomo guiou silenciosamente a embarcação em direção ao centro do lago enevoado. Enquanto Simon se aconchegava na espessa pelagem das costas de Qantaqa, sentindo a pulsação de sua respiração nervosa, observou pequenos anéis se formarem na superfície do lago ao lado do barco; a princípio, pensou que pudessem ser peixes, que acordaram cedo para quebrar o jejum com mariposas e mosquitos. Então, sentiu uma pequena gota de umidade respingar na nuca, e outra. Voltava a chover.
À medida que se aproximavam do meio, abrindo caminho através de enxames de jacintos que jaziam espalhados na água à sua frente como se tivessem sido lançados no caminho de um herói que retornava, o céu começou a clarear. O amanhecer não anunciou sua chegada. Levariam horas até que o sol rompesse as nuvens e se tornasse visível no céu. Em vez disso, era como se uma camada de escuridão tivesse sido arrancada dos céus, o primeiro de muitos véus. A fileira de árvores que antes era uma mancha obscura no horizonte tornou-se um tapete de copas distintas, recortadas contra o céu cinza-ardósia. A água era como vidro negro ao redor, mas agora alguns detalhes da margem podiam ser vistos, as raízes tênues e pálidas das árvores como as pernas retorcidas de mendigos, o brilho prateado e fraco de um afloramento de granito... Todos em volta do lago secreto como uma galeria de tribunal esperando a chegada dos atores, todos se metamorfoseando pouco a pouco de formas cinzentas da noite para os objetos vívidos do dia.
Qantaqa encolheu-se, surpresa, quando Marya se inclinou de repente para a frente para espiar por cima da borda do barco. Ela começou a dizer algo, conteve-se e optou em apontar o dedo para a proa um pouco para a direita.
Simon forçou os olhos e então viu... Uma forma anômala na orla desordenada, porém de alguma forma simétrica, da floresta, uma forma quadrada e robusta de cor diferente dos galhos escuros ao redor... Uma tenda listrada azul.
Agora podiam ver várias outras, um grupo de três ou quatro logo atrás da primeira. Simon franziu a testa e depois sorriu com desdém. Típico do Barão Heahferth, pelo menos pelo que ouvira em seus dias no castelo, levar tais luxos para a floresta selvagem.
Logo além do conjunto de pequenas tendas, a margem do lago mergulhava por alguns metros e reaparecia, deixando um espaço escuro no meio, como se um pedaço da margem tivesse sido mordido. Galhos de árvores pendiam baixos sobre a água ali; era impossível ver se era realmente a foz do rio, contudo Simon tinha certeza de que sim.
“Justo onde Geloë disse!” pensou ele. “Ela tem olhos muito aguçados... Entretanto, pensando bem, isso não é nenhuma surpresa, não é?”
Ele apontou para a abertura escura na borda do lago, e Binabik assentiu, tendo a visto também.
À medida que se aproximavam do acampamento silencioso, Binabik teve que remar um pouco mais forte para manter um bom ritmo; Simon imaginou que deviam estar começando a sentir o impulso do riacho. Tomando cuidado, levantou o remo para baixá-lo na água. Binabik, percebendo o movimento pelo canto do olho, virou-se e balançou a cabeça, murmurando em um tom baixíssimo ‘ainda não’; Simon parou o pequeno remo logo acima da água enrugada pela chuva.
Ao passarem pelas tendas, a menos de trinta côvados da margem, Simon viu uma forma escura se movendo entre as paredes de tecido azul. Sua garganta se apertou. Era uma sentinela, conseguia ver o brilho fosco do metal sob a capa. Ele poderia até estar virado na direção deles, no entanto era difícil dizer, pois o capuz da capa estava levantado em volta da cabeça.
Em instantes, os outros também viram o homem. Binabik aos poucos levantou o remo da água e todos se inclinaram para a frente, na esperança de mostrar o mínimo de perfil possível. Ainda que o soldado por acaso olhasse para o lago, talvez seu olhar passasse por eles, ou visse apenas um tronco boiando na água... Todavia seria pedir demais, Simon tinha certeza. Não conseguia imaginar o homem não os avistando se se virasse, tão perto estavam.
Mesmo com a pequena embarcação diminuindo a velocidade, a fenda escura na margem surgiu diante à sua frente. Era o riacho que desaguava no lago. Simon conseguia ver a água ondulando levemente onde passava sobre a parte arredondada de uma pedra alguns metros acima do canal. A correnteza também quase interrompeu seu movimento para a frente; na verdade, a proa do barco começava a virar, repelida pela leve correnteza. Logo teriam que colocar os remos na água, ou seriam empurrados para a margem logo abaixo das tendas azuis.
Então, terminando o que quer que tivesse chamado sua atenção do outro lado do acampamento, o sentinela se virou para contemplar o lago.
Num instante, antes mesmo que o medo crescente pudesse dominá-los, uma forma escura desceu das árvores sobre o acampamento e deslizou rapidamente em direção ao sentinela. Passou por entre os galhos como uma enorme folha cinzenta e parou em seu pescoço, todavia esta folha tinha garras; quando as sentiu em sua garganta, o homem de armadura soltou um grito de horror e largou a lança, golpeando o que quer que o tivesse agarrado. A forma cinzenta voou para cima, com as asas agitadas, e pairou sobre sua cabeça, logo além de seu alcance. O homem voltou a gritar, agarrando o pescoço, e tateou na terra em busca de sua lança.
— Agora! — sibilou Binabik. — Remem!
Ele, Marya e Simon mergulharam as pás de madeira na água, puxando desesperadamente. Nas primeiras remadas, pareceram de alguma forma presas, a água espirrando sem propósito enquanto o barco balançava. Então começaram a avançar devagar e, em instantes, estavam empurrando contra a correnteza mais forte do riacho, deslizando por baixo dos galhos que se estendiam sobre eles.
Simon olhou para trás e viu o sentinela, de cabeça descoberta, saltando para cima e para baixo tentando acertar a criatura que pairava no ar. Alguns dos outros homens se levantaram de seus catres, começando a rir enquanto observavam o camarada, que havia largado a lança e agora atirava pedras naquela ave tola e perigosa. A coruja desviou dos projéteis com facilidade; quando Simon abaixou a cortina de galhos frondosos atrás do barco, ela deu uma leve mexida em sua larga cauda branca e circulou para dentro das árvores sombreadas.
Enquanto se esforçavam para avançar contra a correnteza difícil... Surpreendentemente difícil, já que na superfície ela parecia não se mover... Simon deu uma risadinha discreta de triunfo.
***
Por um longo tempo, remaram com força contra a correnteza do rio. Mesmo que não sentissem a necessidade de ficar em silêncio, teriam dificuldade em conversar, pois remar era um trabalho extenuante. Mais tarde, quase uma hora depois, encontraram um pequeno remanso cercado por uma cortina secreta de juncos, onde puderam parar e descansar.
O sol já estava alto, um borrão brilhante atrás de um dossel perolado de nuvens que se estendia por todo o céu. Uma fina camada de neblina ainda envolvia a floresta e o rio, de modo que o ambiente ao redor parecia a paisagem de um sonho. Em algum lugar à frente, o riacho passava por cima ou através de algum obstáculo; o murmúrio suave da água em movimento era amplificado pelos sons cristalinos do curso d’água saltando e respingando sobre si mesmo.
Simon, ofegante, observava a menina enquanto ela se apoiava na borda do barco, com a bochecha apoiada no antebraço. Era difícil entender como a havia confundido com um menino. O que vira como astúcia de uma raposa, como uma nitidez de traços incomum em um menino, agora via como delicadeza. Marya estava corada pelo esforço; Simon encarou a sua bochecha rosada, e seu olhar percorreu o pescoço longo e branco até a protuberância suave, porém bem definida, da clavícula, onde a camisa de menino que vestia se abria na altura do pescoço.
“Ela não é muito cheinha... Não como Hepzibah.” refletiu. “Hmm! Eu gostaria de ver Hepzibah se passar por menino! Mesmo assim, ela é bonita, de um jeito meio magrinho. Seu cabelo é tão preto.”
Os olhos de Marya se fecharam lentamente e continuou a respirar fundo. Simon acariciou distraidamente a cabeça larga de Qantaqa.
— Está bem feita, não é? — perguntou Binabik alegremente. Simon o encarou boquiaberto, surpreso.
— O quê?
Binabik franziu a testa.
— Desculpe. Talvez vocês se refiram a eles como ‘ele’ em Erkynlandia? ‘Isso’, talvez? Mesmo assim, você deve concordar que Geloë fez um trabalho de grande maestria.
— Binabik. — disse Simon, com o rubor começando a desaparecer. — Não tenho a mínima ideia do que está falando.
O homenzinho bateu de leve na borda do barco com a palma da mão.
— Falo do belo trabalho que Geloë fez com casca e madeira. E tão leve! Não teremos muita dificuldade, creio eu, para transportar isso por terra até Aelfwent.
— O barco... — disse Simon, assentindo como um idiota. — O barco. Sim, é bem feito.
Marya sentou-se.
— Vamos tentar atravessar para o outro rio agora? — perguntou ela.
Ao se virar de novo para olhar através da estreita faixa de floresta visível por entre os juncos, Simon notou as olheiras sob seus olhos, sua expressão tensa e esgotada. De certa forma, ainda estava chateado com a garota por ter ficado aliviada quando Geloë se ofereceu para ficar com a criança, contudo ficou feliz em ver que àquela criada parecia preocupada, que não era apenas o tipo de garota que ria e zombava o tempo todo.
“Bem, é claro que não.” pensou ele um momento depois. “Aliás, acho que ainda não a vi sorrir. Não que as coisas não tenham sido assustadoras... No entanto eu não estou sempre franzindo a testa e de mau humor também.”
— Talvez seja uma boa ideia. — disse Binabik, respondendo à pergunta de Marya. — Acredito que o barulho que se ouve à frente seja um amontoado de pedras no riacho. Se for esse o caso, não teremos muita escolha a não ser manobrar o barco. Talvez Simon possa ir verificar.
— Quantos anos você tem? — perguntou Simon a Marya.
Binabik, surpreso, virou-se e o observou. Marya curvou os lábios e olhou para Simon por um longo momento.
— Eu tenho... — ela começou, então fez uma pausa. — Farei dezesseis anos em octander.
— Quinze, então! — disse Simon, um pouco convencido.
— E você? — desafiou a garota.
Simon se irritou.
— Quinze!
Binabik tossiu.
— Estou de acordo que os companheiros de bordo se conheçam, mas... Talvez mais tarde. Simon, poderia ir ver se aquelas são mesmo pedras à frente?
Estava prestes a concordar, porém de repente não quis mais. Por acaso era um mensageiro? Uma criança, correndo para descobrir coisas para os adultos? Quem teve a ideia de ir resgatar essa garota estúpida de uma árvore, afinal?
— Já que precisamos atravessar até lá, seja lá como se chama, por que se incomodar? — perguntou. — Só vamos logo fazer isso.
O gnomo olhou fixamente, depois assentiu com a cabeça.
— Muito bem. Acho que fará bem à minha amiga Qantaqa esticar as pernas. — o homenzinho se virou para Marya. — Lobos não são grandes marinheiros, sabia?
Por alguns instantes, Marya olhou para Binabik como se ele fosse mais estranho que Simon. Então, caiu na gargalhada.
— É verdade! — disse ela, e continuou a rir.
***
O bote de fato era leve como uma pluma, todavia ainda tiveram dificuldade para carregá-lo por entre os galhos e trepadeiras. Para mantê-lo a uma altura em que tanto Binabik quanto a garota pudessem ajudar a suportar o peso, tiveram que segurar o barco virado de tal forma que o ângulo agudo da popa batia constantemente contra o esterno de Simon. Este também não conseguia ver os próprios pés enquanto caminhava, o que fazia com que tropeçasse com recorrência na vegetação rasteira. A chuva caía torrencialmente através da rede de galhos e folhas que se estendia acima de suas cabeças; com as mãos ocupadas, Simon não conseguia nem enxugar as gotas que lhe caíam nos olhos. Não estava no melhor dos humores.
— Quão longe é, Binabik? — perguntou por fim. — Meu peito está sendo massacrado por este maldito barco.
— Não muito longe, espero! — respondeu o gnomo, sua voz ecoando estranhamente debaixo da casca esticada. — Geloë disse que o riacho e o Aelfwent corriam lado a lado por uma longa distância, separados por apenas um quarto de légua, mais ou menos. Logo chegaríamos lá.
— É melhor que cheguemos logo. — disse Simon, com um tom sombrio. À sua frente, Marya fez um ruído, do qual teve certeza ser de desgosto... Desgosto dele, provavelmente.
Franziu sua testa, com os cabelos ruivos desgrenhados e molhados na testa.
Enfim, ouviram outro som acima do suave tamborilar das gotas de chuva nas folhas, um sussurro ofegante que fez Simon pensar em uma sala cheia de pessoas murmurando. Qantaqa saltou à frente, abrindo caminho pela vegetação rasteira.
— Hah! — Binabik resmungou, colocando sua extremidade do bote no chão. — Viu? Nós encontramos! T’si Suhyasei!
— Pensei que se chamasse Aelfwent. — Marya esfregou o lugar onde o bote havia repousado em seu ombro. — Ou é algo que os gnomos sempre dizem quando encontram um rio?
Binabik sorriu.
— Não. Esse é um nome sitha. É um rio sitha, de certa forma, já que costumavam navegar por ele quando Da’ai Chikiza era sua cidade. Você deveria saber disso. Aelfwent significa ‘rio sitha’ na antiga língua de Erkynlandia.
— Então o que... O que significa? — perguntou Marya.
— T’si Suhyasei? — repetiu o homenzinho. — É difícil dizer com exatidão. Significa algo como: ‘o sangue dela é frio’.
— Dela? — perguntou Simon, tirando a lama das botas com um graveto. — O que é ‘ela’ desta vez?
— A floresta. — respondeu Binabik. — Vamos lá, pode lavar essa lama na água.
Eles carregaram o bote pela margem, empurrando-o por um emaranhado de galhos com muita dificuldade, até que o rio estivesse à sua frente... Uma vasta extensão de água, muito maior que o riacho que a alimentava, e com o que parecia ser uma correnteza muito mais forte. Tiveram que baixar o barco para dentro da ravina escavada pela passagem do rio; Simon, o mais alto, acabou com água até os joelhos para segurar o barco... Suas botas estavam realmente limpas. Ele segurou a embarcação que balançava enquanto Marya e o gnomo primeiro ajudaram uma hesitante Qantaqa a pular para dentro, sem muita ajuda da própria loba, e depois a seguiram. Simon subiu por último, tomando seu lugar na popa.
— Sua posição, Simon... — disse Binabik com seriedade. — Exige muita responsabilidade. Não precisaremos remar muito com uma correnteza tão forte, mas precisa dirigir o bote e avisar quando houver pedras à frente para que todos possamos ajudar a nos afastar delas.
— Pode deixar! — disse ele rapidamente.
Binabik assentiu e soltou o longo galho que segurava; eles se afastaram da margem e entraram no rio Aelfwent, que estava agitado.
No começo, foi um pouco difícil, percebeu Simon. Algumas das pedras que precisavam evitar nem eram visíveis acima da superfície lisa da água; em vez disso, ficavam logo abaixo, reconhecíveis apenas pelas ondulações brilhantes formadas pela água acima delas. A primeira que não viu fez um barulho horrível raspando no casco esticado, assustando a todos por um instante, porém o pequeno barco se afastou da pedra submersa como uma ovelha fugindo da tosquia. Logo Simon pegou o jeito; em alguns trechos, a embarcação parecia quase roçar a superfície da água, leve como uma folha nas ondulações do rio.
Ao chegarem a um trecho de águas mais calmas, com o estrondo das rochas se desprendendo atrás, Simon sentiu o coração se encher de alegria. As mãos brincalhonas do rio puxavam seu remo. As recordações de escalar as amplas muralhas de Hayholt lhe vieram à mente, ofegante com sua própria força, com a visão dos campos ordenados tão distantes lá embaixo. Também se lembrou de estar agachado na câmara do sino da Torre do Anjo Verde, olhando para as casas amontoadas de Erchester, contemplando o vasto mundo com o vento no rosto. Agora, na popa do pequeno barco, estava novamente fazendo parte do mundo e acima dele, muito acima, navegando como a brisa da primavera soprando entre as copas das árvores. Ele ergueu o remo no ar à sua frente... Agora era uma espada.
“Jesuris era um marinheiro...” começou a cantar de repente, as palavras voltando à sua mente de uma vez. Era uma melodia que alguém lhe cantara quando era muito jovem.
Jesuris era um marinheiro,
que navegou pelo oceano
levando a Palavra de Deus
e navegou até Nabban!
Binabik e Maria se viraram para olhá-lo; Simon sorriu.
Tiyagaris era um soldado
que navegou pelo oceano
levando a Palavra da Justiça
e navegou até Nabban!
O Rei John era um governante
que navegou pelo oceano
levando a palavra de Aedon
e navegou até Nabban...
Ele parou de cantar.
— Por que parou? — perguntou Binabik.
Marya ainda o encarava, com um olhar especulativo.
— É tudo o que sei. — respondeu o garoto, abaixando o remo de volta na esteira ondulante do barco. — Nem sei de onde vem. Acho que uma das camareiras costumava cantá-la quando eu era pequeno.
Binabik sorriu.
— Uma boa canção para viagens fluviais, acredito, embora alguns detalhes não tenham muita precisão histórica. Tem certeza de que não se lembra de mais nada?
— Sim.
Sua incapacidade de se lembrar o incomodou um pouco. Apenas uma curta hora no rio havia mudado seu humor por completo. Estivera em um barco de pescador na baía e gostara... Mas isso não era nada comparado a aquilo, à floresta passando rapidamente e à sensação do barco delicado, tão sensível e responsivo quanto um potro.
— Não conheço canções de marinheiros para cantar. — disse o gnomo, satisfeito com a mudança de humor de Simon. — No alto de Qanuc, os rios são de gelo e usados apenas para as brincadeiras de deslizar. Posso cantar, se quiserem, sobre o poderoso Chukku e suas aventuras...
— Eu conheço uma canção de rio. — disse Marya, passando uma mão branca e esguia por sua cabeleira negra. — As ruas de Meremund estão cheias de canções de marinheiros.
— Meremund? — perguntou Simon. — Como uma garota do castelo foi parar em Meremund?
Marya torceu o lábio para ele.
— E onde você acha que a Princesa e toda a sua corte moravam antes de chegarmos a Hayholt? Nas terras selvagens de Nascadu? — ela bufou. — Em Meremund, é claro. É a cidade mais bonita do mundo, onde o oceano e o grande rio Gleniwent se encontram. Você não saberia, nunca esteve lá. — Marya esboçou um sorrisinho malicioso. — Garoto do castelo.
— Então cante! — exclamou Binabik, acenando com a mão à sua frente. — O rio espera para ouvir. A floresta também!
— Espero me lembrar. — disse a garota, lançando um olhar furtivo para Simon, que retribuiu o olhar com altivez, seu comentário mal havia afetado a leveza de seu humor. — É uma canção de quem cavalga pelo rio. — continuou, então pigarreou e começou... Hesitante a princípio, depois com mais confiança... A cantar com uma voz doce e rouca.
Aqueles que navegam pelo Grande Lago
contarão sobre seu mistério,
Se gabarão de todas as batalhas
E de toda a sangrenta história.
Mas converse com qualquer lobo do mar,
que navega no Gleniwent,
ele os dirá que Deus criou os oceanos,
contudo que Rio é o que Ele em verdade almejava.
Oh, o Oceano é uma pergunta,
mas o Rio é uma resposta,
com seu turbilhão e alegria,
Tão belo quanto qualquer dançarino.
Então que o Inferno leve os preguiçosos,
Pois este velho barco não os carregará.
E se perdermos um ou dois tripulantes
por eles beberemos em Meremund...
Agora, alguns homens partem para o mar,
E nunca mais serão vistos,
contudo todas as noites nós, lobos do mar,
somos encontrados no bar.
Alguns podem dizer que bebemos um pouco
E exageramos em demasia,
mas se o rio é sua dama,
É assim que você descansa.
Oh, o Oceano é uma pergunta,
mas o Rio é uma resposta,
com seu turbilhão e alegria,
Tão belo quanto qualquer dançarino.
Então que o Inferno leve os preguiçosos,
Pois este velho barco não os carregará.
E se perdermos um ou dois tripulantes
por eles beberemos em Meremund...
Em Meremund! Em Meremund!
Brindaremos a eles em Meremund!
Se não os avistarmos flutuando por perto
Pouparei o dinheiro do enterro...!
Quando Marya chegou ao refrão pela segunda vez, Simon e Binabik já sabiam a letra o suficiente para se juntarem a ela. Qantaqa moveu as orelhas enquanto eles gritavam e cantavam no veloz Aelfwent.
— Oh, o Oceano é uma pergunta, mas o Rio é uma resposta... — Simon cantava a plenos pulmões quando a proa do barco mergulhou em uma depressão e saltou... Estavam entre as rochas novamente. Quando enfim atravessaram as águas revoltas e chegaram à margem, estavam todos sem fôlego demais para cantar. Simon, porém, ainda sorria, e quando as nuvens cinzentas acima da copa das árvores se abriram, despejando mais chuva, ele ergueu o queixo e recolheu as gotas com a língua.
— Está chovendo agora. — disse Binabik, com as sobrancelhas arqueadas sob os cabelos grudados na testa. — Acho que vamos nos molhar.
O breve instante de silêncio foi rompido pela risada aguda e estrondosa do gnomo.
***
Quando a luz que filtrava pela copa das árvores começou a diminuir, manobraram o bote para o lado e acamparam. Depois de acender uma fogueira, usando seu saco de pó amarelo para acender a madeira úmida, Binabik tirou um pacote de frutas e verduras frescas de um dos paquetes que Geloë havia providenciado. Qantaqa, deixada à própria sorte, esgueirou-se para o meio da vegetação alta, retornando algum tempo depois com a pelagem encharcada e alguns filetes de sangue adornando seu focinho. Simon olhou para Marya, que chupava meditativamente um caroço de pêssego, para ver qual seria sua reação a essa evidência do lado brutal da natureza da loba, contudo se a garota percebeu, não demonstrou nenhum sinal de desconforto.
“Ela deve ter trabalhado nas cozinhas da Princesa.” supôs. “Mesmo assim, se eu tivesse um dos lagartos empalhados de Morgenes para colocar em seu manto, aposto que pularia de susto.”
Pensar na garota trabalhando nas cozinhas do castelo o fez se perguntar o que ela teria feito a serviço da Princesa... E agora que pensava nisso, o que estaria fazendo espionando-o? No entanto quando tentou lhe fazer perguntas sobre a Princesa, Marya apenas balançou a cabeça, dizendo que não podia dizer nada sobre sua senhora ou seus serviços até que a mensagem fosse entregue em Naglimund.
— Espero que me perdoe por perguntar. — disse Binabik enquanto guardava os poucos itens para o jantar e desmontava seu bastão, finalmente tirando sua flauta do bolso. — Mas qual é o seu plano se Josua não estiver em Naglimund, para receber sua mensagem?
Marya pareceu perturbada com a possibilidade, porém ainda assim não disse mais nada. Simon ficou tentado a perguntar a Binabik sobre seus planos, sobre Da’ai Chikiza e a Escadaria, contudo o gnomo já dedilhava distraidamente sua flauta. A noite lançou um manto de escuridão sobre toda a grande Aldheorte, exceto sobre sua pequena fogueira. Simon e Marya ficaram sentados, ouvindo enquanto Binabik compunha sua música, que ecoava e reverberava nas copas das árvores encharcadas pela chuva.
***
Eles estavam no rio logo após o nascer do sol do dia seguinte. Os movimentos da água agora pareciam tão familiares quanto uma rima infantil. Os longos trechos ociosos em que parecia que seu barco era uma rocha sobre a qual se sentavam enquanto o vasto mar de árvores desfilava de ambos os lados, e então a perigosa emoção das corredeiras velozes que sacudiam a frágil embarcação como se fosse um peixe fisgado e se debatendo. A chuva parou no meio da manhã e, em seu lugar, o sol irrompeu através dos galhos pendentes, pontilhando o rio e o chão da floresta com poças de luz.
A bem-vinda trégua do clima, incomumente invernal para o final de maya, Simon não pôde deixar de notar, lembrando-se da montanha gelada do sonho que compartilhavam, manteve o ânimo de todos elevado. Enquanto flutuavam pelo túnel de árvores inclinadas, interrompido aqui e ali por majestosos raios de sol que penetravam pelas frestas dos galhos emaranhados, transformando por um instante o rio em um espelho de vidro dourado e polido, eles se entretinham com conversas.
Simon, a princípio com relutância, contou sobre as pessoas que conhecera no castelo... Raquel, Tobas, o tratador de cães, que pintava o nariz de preto com graxa de lamparina para se passar mais facilmente por membro da família entre os animais sob seus cuidados, Peter Tigela Dourada, o gigante Ruben e os demais. Binabik falou mais sobre suas viagens, sobre suas aventuras de juventude pela região salobra de Wran e pelos ermos sombrios e exóticos a leste de sua casa em Mintahoq. Inclusive Marya, apesar de sua reticência inicial e da vasta gama de tópicos inacessíveis, fez Simon e o gnomo sorrirem com suas imitações de discussões entre marinheiros de rio e marinheiros de oceano, e suas observações sobre alguns dos nobres duvidosos que cercavam a Princesa Miriamele em Meremund e Hayholt.
Apenas uma vez a conversa do segundo dia de passeio de barco se voltou para os assuntos mais sombrios que pairavam sobre os pensamentos de todos os companheiros.
— Binabik... — perguntou Simon, enquanto faziam sua refeição do meio-dia em um trecho ensolarado de prado na floresta. — Você acha que despistamos aqueles homens? Pode haver outros nos procurando?
O homenzinho tirou uma semente de maçã do queixo.
— Não sei nada com certeza, meu amigo Simon, como já disse. Tenho certeza de que passamos despercebidos, de que não houve perseguição imediata, entretanto como não sei por que nos procuram, não sei se conseguirão nos encontrar. Sabem que estamos indo para Naglimund? Não é difícil de se supor. No entanto há três coisas a nosso favor.
— Que coisas? — perguntou Marya, franzindo a testa de leve.
— Primeiro, é mais fácil se esconder do que ser encontrado em uma floresta. — ele ergueu um dedo curto. — Segundo, estamos pegando uma rota alternativa para Naglimund que não é conhecida há centenas de anos. — outro dedo foi levantado. — Por último, para descobrir nossa rota, aqueles homens terão que ouvi-lo de Geloë. — seu terceiro dedo se endireitou. — E isso é algo que, eu acho, não vai acontecer.
Simon vinha se preocupando secretamente com esse ponto.
— Eles não vão machucá-la? Aqueles eram homens com espadas e lanças, Binabik. Corujas não os espantarão para sempre se pensarem que estamos juntos.
Um aceno firme. O gnomo juntou os dedos curtos.
— Não estou sendo indiferente, Simon. Filha das Montanhas, não estou! Mas você sabe pouco sobre Geloë. Tomá-la apenas como uma sábia aldeã é cometer um erro, um erro do qual os homens de Heahferth podem se arrepender se não a tratarem com respeito. Valada Geloë percorreu Osten Ard por muito tempo, ela esteve na floresta por muitos anos e, muitos, muitos anos antes disso, entre os rimmerios. Mesmo antes, ela vinha do sul para Nabban, e ninguém sabe suas viagens anteriores. É alguém em quem se pode confiar para cuidar de si mesma... Muito mais do que eu, ou mesmo, como foi provado com tanta tristeza, aquele bom homem, Morgenes. — Binabik pegou outra maçã, a última do paquete. — Todavia chega de preocupações. O rio está à espera, e nossos corações precisam estar leves para que possamos viajar mais rápido.
***
Mais tarde, naquela tarde, quando as sombras das árvores começaram a se misturar em uma grande mancha de sombra que se estendia pelo rio, Simon aprendeu mais sobre os mistérios do Aelfwent.
Estava remexendo em sua mochila, procurando um pedaço de pano para enrolar nas mãos e protegê-las das bolhas causadas pelo remo áspero. Encontrou algo que parecia ser o que buscava e tirou. Era a Flecha Branca, ainda presa na bainha esfarrapada de sua camisa. Foi surpreendente tê-la de repente em sua mão outra vez, sentir sua delicadeza repousando em sua palma como uma pena que poderia ser levada pela primeira brisa. Ele desembrulhou com cuidado o pano protetor.
— Veja! — disse a Marya, estendendo a mão por cima de Qantaqa para mostrar a flecha aninhada em seu tecido branco. — É uma Flecha Branca Sitha. Salvei a vida de um sitha e ele me deu. — reconsiderou por um instante. — Na verdade, a atirou em mim.
Era uma coisa linda; na luz crepuscular, era quase luminosa, como o peito cintilante de um cisne. Marya olhou para ela por um momento, depois a tocou com um dedo levantado.
— É bonita. — comentou a garota, embora em seu tom não havia nada da admiração que Simon esperava ouvir.
— Claro que é bonita! É sagrada. Significa uma dívida a ser paga. Pergunte a Binabik, e lhe dirá.
— Simon está certo. — respondeu o gnomo da proa. — Isso aconteceu pouco antes de nos encontrarmos.
Marya continuou a observar a flecha com calma, como se sua mente estivesse em outro lugar.
— É um objeto muito bonito. — falou, com um tom de voz apenas um pouco mais convicto do que da vez anterior. — Você tem muita sorte, Simon.
O garoto não sabia por quê, mas aquilo o enfureceu. Ela não percebia o que havia passado? Cemitério, sitha preso, os cães, a inimizade do Rei Supremo? Quem era ela para responder como uma das criadas que o consolavam por pena quando ralava o joelho?
— Claro! — respondeu, erguendo a flecha à sua frente para que captasse um raio de sol quase horizontal, com a margem do rio como uma tapeçaria em movimento atrás. — Claro, por toda a sorte que me trouxe até agora... Ser atacado, mordido, ficar faminto, ser perseguido... Eu poderia muito bem nunca a ter conseguido.
Simon a encarou com raiva, passando os olhos pelas gravuras que poderiam ter sido a história de sua vida desde que deixara Hayholt, de tão complicada e carente de sentido que resultava.
— Talvez eu deva jogá-la fora. — agregou. É claro que nunca faria isso, porém era estranhamente satisfatório fingir que poderia. — Quero dizer, que bem isso me trouxe...
O grito de alerta de Binabik veio no meio da frase, contudo quando Simon reagiu, já era tarde demais. O bote atingiu a rocha escondida quase em cheio; a embarcação cambaleou, a popa rompendo a água com um respingo sugador. A flecha voou da mão de Simon, girando pelo ar e caindo na água agitada ao redor das rochas. Quando a traseira do barco bateu com força, Simon se virou para procurá-la; um instante depois, eles deslizaram em outra pedra submersa e o garoto caiu. O pequeno barco inclinou demais e Simon caiu nas águas...
A água estava muito fria. Por um instante, foi como se tivesse caído por um buraco no mundo na escuridão absoluta. Então ficou ofegante, rompendo a superfície, girando loucamente na água turbulenta. Bateu numa pedra, girou e voltou a afundar, a água assustadora expulsando o ar do seu nariz e boca. Lutando, conseguiu trazer a cabeça à superfície e se tensionou enquanto a correnteza turbulenta o jogava contra um objeto duro após o outro. Sentiu o vento no rosto por um instante e inspirou, tossindo; sentiu um pouco do ar dos louvores de Jesuris entrando em seus pulmões ardentes. Então, de repente, as pedras passaram e se viu flutuando livre, chutando para manter a cabeça acima da superfície do rio. Para sua surpresa, o barco estava atrás dele agora, deslizando ao redor da última das pedras arqueadas. Binabik e Marya remavam com força, os olhos arregalados de medo, no entanto Simon viu a distância aumentar cada vez mais. Estava sendo arrastado pela correnteza e, ao virar a cabeça para os lados, viu que as margens do rio estavam distantes demais. Inspirou fundo, buscando desesperado por ar.
— Simon! — gritou Binabik. — Nade de volta para nós! Não conseguimos remar rápido o suficiente!
Em meio à luta, tentou se virar e voltar para eles, mas o rio o puxava com mil dedos invisíveis. Ele chapinhava, tentando formar com as mãos os formatos de remo que Raquel... Ou seria Morgenes? Havia lhe mostrado quando o mantiveram suspenso nas águas rasas do Kynslagh, todavia o esforço parecia risível diante do poder onipresente da correnteza. Estava se cansando rapidamente; não conseguia mais encontrar as pernas, não sentia nada além de um vazio frio quando tentava fazê-las chutar. A água espirrou em seus olhos, prismando os galhos das árvores enquanto deslizava de volta para baixo da superfície.
Algo caiu ao lado de sua mão, e bateu os braços contra a água fria para subir pela última vez. Era o remo de Marya. Com seu alcance maior, ela havia se aproximado do lugar de Binabik na proa e se esticado, estendendo o pedaço plano de madeira a poucos centímetros de seu alcance. Qantaqa estava ao lado da garota, ganindo, se esforçando para frente quase imitando a garota. O bote, com tanto peso na frente, estava inclinado perigosamente.
O jovem enviou uma ordem para onde suas pernas estavam, dizendo-lhes para chutarem se pudessem ouvi-lo e estendeu a mão. Mal sentiu o remo enquanto seus dedos dormentes o envolviam, contudo estava lá, justo onde precisava que estivesse.
Depois que o puxaram para dentro do pequeno barco, uma tarefa quase impossível por si só, já que o garoto pesava mais do que qualquer um deles, exceto a loba... E depois de tossir ou vomitar grandes quantidades de água do rio, ele ficou ofegante e tremendo, encolhido no fundo do barco enquanto a garota e o gnomo procuravam um lugar para desembarcar.
Simon recuperou forças o suficiente para rastejar para fora do bote sozinho, com as pernas trêmulas. Ao cair de joelhos, estendendo as palmas das mãos agradecidas no chão macio da floresta, Binabik estendeu a mão e puxou algo solto da bagunça encharcada e esfarrapada que era a camisa de Simon.
— Veja o que estava preso em suas roupas. — disse Binabik, com uma expressão estranha no rosto. Era a Flecha Branca. — Vamos acender uma fogueira para você, pobre Simon. Talvez tenha aprendido uma lição, uma lição cruel, mas séria, sobre falar mal de um presente sitha enquanto navegava em um rio de sitha.
Sem forças nem para sentir vergonha enquanto Binabik o ajudava a tirar as roupas e o envolvia em seu manto, Simon adormeceu diante da fogueira abençoada. Seus sonhos foram, previsivelmente, sombrios, cheios de coisas que o agarravam e sufocavam.
***
Na manhã seguinte, nuvens pairavam baixas. Simon sentia-se muito mal. Depois de mastigar e engolir algumas tiras de carne seca, apesar dos protestos de seu estômago embrulhado, subiu com cuidado no barco, deixando Marya ficar na popa desta vez enquanto se encolhia no meio, com o corpo quente de Qantaqa pressionado contra ele. Dormiu de forma intermitente durante todo o longo dia no rio. A massa borrosa verde e deslizante que era a floresta o deixava tonto, e sua cabeça parecia quente e tonta. Sentiu que estava com febre, como se fosse uma batata sobre brasas. Binabik e Marya verificaram com atenção o progresso da sua febre. Quando acordou do torpor em que havia caído enquanto seus dois companheiros almoçavam, os encontrou debruçados sobre ele, a palma fria de Marya em sua testa, seu pensamento confuso foi... “Que pais estranhos eu tenho!”
Eles pararam para passar a noite assim que o crepúsculo começou a se espalhar pelas árvores. Simon, envolto em sua capa como um bebê, sentou-se perto do fogo, desembrulhando os braços apenas o suficiente para beber um pouco da sopa que o gnomo havia preparado, um caldo de carne seca, nabos e cebolas.
— Precisamos levantar com os primeiros raios do sol amanhã. — disse Binabik, oferecendo a ponta do talo de um nabo a loba, que o cheirou com benigna indiferença. — Estamos perto de Da’ai Chikiza, porém seria insensato chegar lá à noite, quando não seria possível vê-la direito. De qualquer forma, teremos uma longa subida pela Escadaria a partir dali, e talvez seja melhor fazê-la quando estivermos em pleno dia.
Simon observou, com os olhos semicerrados, enquanto o gnomo tirava o manuscrito de Morgenes de uma das bolsas e o desembrulhava, agachando-se perto da fogueira bruxuleante e inclinando as páginas para ler; parecia um pequeno monge em oração sobre seu Livro de Aedon. O vento sussurrava entre as árvores acima, derrubando gotas de água soltas que se agarravam às folhas, resquícios da chuva da tarde. Misturado ao som abafado das águas abaixo, ouvia-se o coaxar insistente dos minúsculos sapos do rio.
Simon levou um tempo para perceber que a leve pressão contra seu ombro não era apenas mais uma mensagem estranha de seu corpo doente e desconfortável. Com esforço, virou o queixo para além da gola de sua pesada capa de lã, liberando uma das mãos para afastar Qantaqa, apenas para ver a cabeça escura de Marya repousando em seu braço, a boca ligeiramente aberta, a respiração entrando e saindo com o ritmo do sono.
Binabik olhou para ela.
— Foi um dia de trabalho árduo hoje. — sorriu. — Muita remada. Se não estiver te incomodando, deixe-a ficar aí um pouco. — ele voltou-se para o manuscrito.
Marya se mexeu contra ele e murmurou algo. Simon puxou a capa que Geloë lhe emprestara para cima; quando ela tocou sua bochecha, Marya murmurou algo, estendeu a mão e deu um tapinha desajeitado no peito de Simon, depois se aconchegou um pouco mais perto.
O som de sua respiração, tão perto de seu ouvido, se insinuava entre os ruídos do rio e da floresta noturna. Simon estremeceu e sentiu seus olhos ficarem pesados, tão pesados... Mas seu coração batia forte, e era o som de seu sangue inquieto que o guiava por um caminho em direção à escuridão total.
***
Na luz cinzenta e difusa de uma aurora chuvosa, com os olhos ainda pegajosos de sono e os corpos estranhamente inertes por terem começado cedo demais, eles viram a primeira ponte.
Simon estava de volta a popa. Apesar da desorientação de embarcar no barco e entrar no rio quase na escuridão, se sentia melhor do que no dia anterior, ainda com a cabeça leve, embora muito mais disposto. Ao contornarem uma curva no rio, que corria com calma, indiferente à hora, viu uma forma estranha arqueada sobre a água à frente. Limpando os olhos por um instante da garoa fina que parecia não tanto cair, porém pairar no ar, cerrou seus olhos.
— Binabik! — chamou, inclinando-se para a frente. — Aquilo é uma...?
— É uma ponte, sim. — respondeu o homenzinho, feliz. — O Portão dos Grous, acredito.
O rio os levava cada vez com mais força, e usavam os remos para diminuir a velocidade. A ponte se estendia da vegetação rasteira sufocante da margem do rio, formando um arco esguio até as árvores do outro lado. Esculpida em pedra verde pálida e translúcida, parecia delicada como uma extensão de espuma do mar congelada. Outrora coberta por entalhes intrincados, agora grande parte de sua superfície estava obscurecida por musgo e hera entrelaçada; os pontos visíveis estavam desgastados, as espirais, curvas e ângulos retos suavizados, arredondados pelo vento e pela chuva. Empoleirado em seu ápice, logo acima de suas cabeças enquanto o pequeno barco deslizava por baixo, um pássaro de pedra translúcida, verde-creme, abria suas asas desgastadas pela água.
Eles atravessaram a tênue sombra em instantes e estavam do outro lado. A floresta de repente pareceu exalar antiguidade, como se tivessem deslizado por uma porta aberta para o passado.
— Há muito tempo as estradas fluviais foram engolidas pelo Velho Coração. — contou Binabik baixinho enquanto todos se viravam para observar a ponte diminuindo atrás deles. — Talvez até mesmo as outras obras dos sitha desapareçam algum dia.
— Como as pessoas conseguiam atravessar um rio em uma coisa dessas? — perguntou-se Marya. — Parece tão... Tão frágil.
— Mais frágil do que antes, isso é certo. — disse Binabik com um olhar nostálgico para trás. — Contudo os sitha nunca construíram... Nunca construíram... Apenas pela beleza. Suas obras têm força. A torre mais alta de Osten Ard, obra de suas mãos, ainda não está de pé em seu Hayholt?
Marya assentiu, pensativa. Simon deslizou os dedos na água fria.
***
Eles passaram por mais onze pontes, ou ‘portões’, como Binabik os chamava, já que há mil anos ou mais marcavam a entrada do rio para Da’ai Chikiza. Cada portão tinha o nome de um animal, explicou o gnomo, e correspondia a uma fase da lua. Um a um, flutuavam sob Raposas, Galos, Lebres e Pombas, cada um com uma forma um pouco diferente, feito de pedra lunar perolada ou lápis-lazúli brilhante, mas todos inconfundivelmente obra das mesmas mãos sublimes e reverentes.
Quando o sol por fim surgiu por trás das nuvens, atingindo seu ponto mais alto no meio da manhã, estavam prestes a se espreitar sob o Portão dos Rouxinóis. Do outro lado dessa ponte, em cujas imponentes esculturas ainda cintilavam reflexos dourados, o rio começou a virar, rumando mais uma vez para oeste em direção ao flanco oriental invisível das Colinas de Wealdhelm. Não havia rochas agitadas na superfície; a correnteza fluía rápida e uniformemente. Simon estava no meio de uma pergunta a Marya quando Binabik levantou a mão.
Ao contornarem uma curva, lá estava diante seus olhos, uma floresta de torres incrivelmente graciosas, dispostas como um quebra-cabeça de joias dentro da vasta floresta de árvores. A cidade sitha, ladeando o rio em ambos os lados, parecia brotar do próprio solo. Dava a impressão de ser o sonho da floresta realizado em pedra sutil, cem tons de verde, branco e um azul pálido de céu de verão. Era um imenso emaranhado de pedra fina como agulha, de passarelas diáfanas como pontes de teia de aranha, de torres e minaretes com filigranas que se estendiam até o topo das árvores para captar o sol em suas faces como flores de gelo. O passado do mundo se abria diante deles, de tirar o fôlego e comovente. Era a coisa mais bela que Simon já vira.
À medida que flutuavam em direção à cidade, com o rio serpenteando ao redor das colunas esbeltas, tornou-se evidente que a floresta estava retomando Da’ai Chikiza. As torres revestidas de telhas, intrincadas com rachaduras, estavam cobertas por hera e pelos galhos entrelaçados das árvores. Em muitos lugares, onde antes havia paredes e portas de madeira ou algum outro material perecível, os contornos de pedra agora se erguiam precariamente sem suporte, como esqueletos descoloridos de incríveis criaturas marinhas. Por toda parte, a vegetação irrompia, agarrando-se às paredes delicadas, sufocando as torres finas como um sussurro em folhas indiferentes.
De certa forma, Simon concluiu, isso só tornava tudo mais bonito, como se a floresta, inquieta e insatisfeita, tivesse criado uma cidade a partir de si mesma.
A voz suave de Binabik quebrou o silêncio, solene como o momento; os ecos logo se dissiparam na vegetação sufocante.
— ‘Árvore do Vento Cantante’, era o nome que lhe davam: Da’ai Chikiza. Imaginem, outrora era repleta de música e vida. Todas as janelas brilhavam com lâmpadas, e havia barcos reluzentes navegando pelo rio. — o gnomo inclinou a cabeça para trás para observar enquanto passavam sob a última ponte de pedra, estreita como uma pena, adornada com imagens de graciosos cervos com chifres. — Árvore do Vento Cantante. — repetiu, distante como um homem perdido em suas lembranças.
Simon, sem dizer nenhuma palavra, conduziu sua pequena embarcação até um banco de degraus de pedra que terminava em uma plataforma, quase nivelada com a superfície do rio largo. Eles saíram, amarrando o barco a uma raiz que brotava da pedra branca rachada. Quando subiram, pararam, olhando em silêncio para as paredes cobertas de trepadeiras e os corredores musgosos. O próprio ar da cidade em ruínas estava carregado de uma ressonância silenciosa, como uma corda afinada, embora não dedilhada. Até mesmo Qantaqa parecia envergonhada, com a cauda baixa enquanto farejava o ar. Então suas orelhas se endireitaram e ela gemeu.
O sibilo foi quase imperceptível. Uma linha de sombra saltou pelo rosto de Simon e atingiu uma das passarelas estreitas com um estalo seco. Fragmentos brilhantes de pedra verde explodiram em todas as direções. Simon se virou bruscamente para olhar para trás.
A menos de cem côvados de distância, separado dos companheiros apenas pela extensão ondulante do rio, estava uma figura vestida de preto segurando um arco tão comprido quanto sua altura. Uma dúzia de outros, ou mais, trajando sobretudos azuis e pretos, subiam apressadamente por uma trilha para alcançá-los. Um deles carregava uma tocha.
A figura negra levou a mão à boca, mostrando por um instante um vislumbre de sua barba pálida.
— Vocês não têm para onde ir! — a voz de Ingen Jegger soou fraca acima do som do rio. — Rendam-se em nome do Rei!
— O barco! — gritou Binabik, mas mesmo enquanto se dirigiam aos degraus, Ingen, vestido de preto, estendeu algo fino em direção ao portador da tocha; uma chama surgiu em uma das pontas. Um instante depois, colocou-a na corda do arco. Quando os companheiros chegaram ao último degrau, uma rajada de fogo saltou sobre o rio, explodindo no interior do bote. A flecha trêmula incendiou a embarcação quase instantaneamente, e o gnomo teve tempo apenas de puxar uma das bolsas do pequeno bote antes que as chamas o obrigassem a recuar. Escondidos por um momento atrás do fogo que saltava, Simon e Marya subiram as escadas correndo, com Binabik logo atrás. No topo, Qantaqa corria de um lado para o outro, soltando uivos roucos de desespero.
— Corram agora! — ordenou Binabik.
Do outro lado do rio, mais dois arqueiros se aproximaram de Ingen. Enquanto Simon se esforçava para se proteger na torre mais próxima, ouviu o zumbido terrível de outra flecha e a viu deslizar sobre as telhas a vinte côvados à sua frente. Mais duas bateram contra a parede da torre que parecia tão dolorosamente distante. Ouviu um grito de dor e o chamado aterrorizado de Marya.
— Simon!
Ele se virou para ver Binabik cair no chão, como um pequeno embrulho aos pés da menina. Em algum lugar, uma loba uivava.
***
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