TOMO TRÊS: SIMON CABELO NEVADO
Capítulo 30: Mil Pregos
Alguém estava arrombando a porta com machados... Golpeando, cortando, estilhaçando a madeira que a protegia.
— Doutor! — gritou Simon, sentando-se. — São os soldados! Os soldados chegaram!
Mas ele não estava nos aposentos de Morgenes. Estava envolto em lençóis encharcados de suor, em uma pequena cama num quarto pequeno e arrumado. O som de lâminas rachando madeira continuava; um instante depois, a porta se abriu e o barulho aumentou. Um rosto desconhecido espiou pela fresta, pálido e com queixo alongado, coroado por uma fina crista de cabelo que brilhava num tom vermelho acobreado, como o próprio cabelo de Simon, sob a luz do sol que entrava pela janela. Seu único olho visível era azul. O outro estava coberto por um tapa-olho preto.
— Ah! — disse o desconhecido. — Então você acordou. Ótimo.
Pelo sotaque, era um erkyno, com um toque da sonoridade nortenha. Ele fechou a porta atrás de si, abafando um pouco o barulho do trabalho lá fora. Usava uma longa batina cinza sacerdotal que pendia frouxa em sua estrutura franzina.
— Sou o Padre Strangyeard. — o homem se acomodou em uma cadeira de encosto alto ao lado de Simon; além da cama e de uma mesa baixa coberta com pergaminhos e objetos diversos, era o único móvel no quarto. Quando se acomodou, o estranho se inclinou para a frente e deu um tapinha na mão de Simon. — Como você está se sentindo? Melhor, espero.
— Sim... Sim, acho que sim. — o garoto olhou ao redor. — Onde estou?
— Naglimund, porém você já sabia disso, é claro.
O Padre Strangyeard sorriu.
— Mais especificamente, está no meu quarto... Na minha cama também. — ele levantou a mão. — Espero que tenha achado confortável. Não é grande coisa, contudo... Nossa, como fui tolo! Você estava dormindo na floresta, não é? — o padre deu outro sorriso rápido e hesitante. — Deve ser melhor do que a floresta, hmmm?
Simon balançou os pés no chão frio, aliviado ao constatar que estava usando calças, e um pouco perturbado ao ver que não eram as suas.
— Onde estão meus amigos? — um pensamento sombrio surgiu como uma nuvem. — Binabik... Está morto?
Strangyeard franziu os lábios, como se o jovem tivesse proferido uma leve blasfêmia.
— Morto? Por Jesuris, não... Embora não esteja bem, sua condição é bem ruim.
— Posso vê-lo? — Simon caminhou para procurar suas botas. — Onde ele está? E como está Marya?
— Marya? — a expressão do padre era confusa enquanto observava Simon rastejar pelo chão. — Ah. Sua outra companheira está bem. Poderá vê-la também, não tenho dúvidas.
As botas estavam embaixo da escrivaninha. Enquanto Simon as calçava, o Padre Strangyeard estendeu a mão e pegou uma blusa branca e limpa do encosto da cadeira.
— Aqui! — disse. — Vejo que está com pressa. Gostaria de ver seu amigo primeiro ou comer alguma coisa?
Simon já estava fechando a frente da camisa.
— Primeiro Binabik e Marya, depois comerei. — resmungou, concentrando-se. — E Qantaqa também.
— Por mais difíceis que os tempos tenham sido ultimamente... — disse o padre em tom de repreensão. — Nunca comemos lobos em Naglimund. Presumo que a esteja considerando uma amiga.
Olhando para cima, Simon viu que o homem caolho estava fazendo uma piada.
— Sim! — disse Simon, sentindo-se repentinamente tímido. — Uma amiga.
— Então vamos. — disse o padre, levantando-se. — Disseram-me para garantir que vocês estivessem bem alimentados, então quanto mais cedo eu lhes der comida, melhor terei cumprido minha missão.
Ele abriu a porta, deixando entrar mais uma onda de sol e barulho.
Simon piscou sob a luz forte, olhando para as altas muralhas da fortaleza e para a vasta extensão roxa e marrom de Wealdhelm que se erguia acima, fazendo com que os sentinelas vestidos de cinza parecessem minúsculos. Um conjunto de edifícios angulares de pedra se erguia imponente no centro da fortaleza, dispostos sem qualquer traço da beleza excêntrica de Hayholt, seu contraste de estilos e épocas. Os cubos escuros de arenito, cobertos por listras de fumaça, as pequenas janelas sem luz e as portas pesadas, pareciam ter sido construídos com um único propósito: manter algo do lado de fora.
A poucos passos de distância, em meio ao pátio comum fervilhante, um grupo de homens sem camisa rachava uma pilha de toras, aumentando um monte de madeira que já chegava à altura de suas cabeças.
— Então era isso que estavam cortando. — disse Simon, observando os machados reluzirem e caírem. — O que estão fazendo?
O Padre Strangyeard se virou para seguir seu olhar.
— Ah. Ah. Estão construindo uma pira. Vão queimar o Hunë... O gigante.
— O gigante? — a pergunta veio de repente... O rosto coriáceo e feroz, os braços de comprimento impossível se estendendo em sua direção. — Ele não está morto?
— Oh, sim, está morto!
Strangyeard começou a caminhar em direção aos edifícios principais. Simon ficou para trás, lançando um último olhar furtivo para a pilha crescente de lenha.
— Veja bem, Simon, alguns dos homens de Josua queriam fazer um espetáculo, entende? Cortar a cabeça, pendurá-la no portão, esse tipo de coisa. O Príncipe disse não. Disse que era uma criatura maligna, no entanto não era um animal. Eles usam roupas, sabia? Carregam clavas também, porretes, na verdade. Bem, Josua disse que não penduraria a cabeça de nenhum inimigo por esporte. Disse para queimá-lo. — Strangyeard coçou a orelha. — Então, eles vão queimá-lo.
— Esta noite? — Simon teve que se esticar para acompanhar os passos largos do padre.
— Assim que a pira estiver pronta. O Príncipe Josua não quer que se alongue mais do que o necessário. Tenho certeza de que preferiria enterrá-lo nas colinas, todavia o povo quer vê-lo morto. — o Padre Strangyeard desenhou o símbolo da Árvore em seu peito. — É o terceiro que desce do norte este mês, sabe? Um dos outros matou o irmão do Bispo. Tudo isso tem sido muito antinatural.
***
Binabik estava em um pequeno quarto ao lado da capela, que ficava no pátio central dos edifícios principais da fortaleza. Parecia muito pálido e menor do que Simon esperava, como se parte de sua energia tivesse se esvaído, entretanto seu sorriso era alegre.
— Amigo Simon! — disse o homenzinho, sentando-se com cuidado.
Seu pequeno torso moreno estava envolto em bandagens até a clavícula. O garoto resistiu à vontade de pegar o homenzinho no colo e abraçá-lo, não querendo reabrir as feridas em cicatrização. Em vez disso, sentou-se na beirada do catre e apertou uma das mãos quentes de Binabik.
— Pensei que tivéssemos te perdido. — disse Simon, com a língua presa na boca.
— Como eu mesmo pensei, quando a flecha me atingiu. — disse o gnomo, balançando a cabeça com pesar. — Mas tive sorte de não ter nenhum órgão vital perfurado. Recebi bons cuidados e, tirando uma leve dor ao me movimentar, estou quase como novo.
Ele se virou para o padre.
— Caminhei pelo pátio hoje.
— Ótimo, muito bom. — o Padre Strangyeard sorriu distraidamente, mexendo no cordão que prendia seu tapa-olho. — Bem, preciso ir. Tenho certeza de que há muitas coisas que vocês, companheiros, desejam discutir. — e se dirigiu para a porta. — Simon, fique à vontade para usar meu quarto pelo tempo que quiser. Estou dividindo o quarto do Irmão Eglaf por enquanto. Ele faz barulhos terríveis quando dorme, porém é um bom homem por me acolher.
O jovem agradeceu. Depois de um último desejo pela recuperação de Binabik, ele saiu.
— Um homem muito bom, Simon. — disse Binabik enquanto ouviam os passos do padre se afastarem pelo corredor. — Mestre dos arquivos do castelo. Já tivemos uma ótima conversa.
— Um pouco estranho, não é? Meio... Distraído?
Binabik riu, depois fez uma careta e tossiu. Simon se inclinou para a frente, apreensivo, porém o gnomo fez um gesto para que recuasse.
— Só um momento. — pediu. Quando recuperou o fôlego, continuou. — Alguns tipos de homens, Simon, cujas mentes estão muito cheias de pensamentos, se esquecem de falar e agir como homens normais.
Simon assentiu com a cabeça, olhando ao redor do quarto. Era muito parecido com o de Strangyeard: simples, pequeno, com paredes caiadas. Em vez das pilhas de livros e pergaminhos, a escrivaninha continha apenas um exemplar do Livro de Aedon, uma fita vermelha como uma língua fina marcando o ponto onde o último leitor havia parado.
— Você sabe onde Marya está? — perguntou.
— Não. — Binabik parecia extremamente sério. Simon se perguntou por quê. — Imagino que ela tenha entregado sua mensagem a Josua. Talvez a tenha mandado de volta para onde quer que a Princesa esteja, para transmitir uma resposta.
— Não! — Simon não gostou nada dessa ideia. — Como tudo isso pôde acontecer tão rápido?
— Tão rápido? — Binabik sorriu. — Esta é a manhã do segundo dia que estamos em Naglimund.
Simon ficou surpreso.
— Como é possível? Acabei de acordar!
Binabik balançou a cabeça, deslizando de volta para debaixo dos lençóis.
— Não é bem assim. Você dormiu a maior parte de ontem, acordando apenas para beber água e depois voltou a dormir. Suponho que tenha sido a última parte da viagem que o enfraqueceu, além da febre que teve quando navegamos pelo rio.
— Jesuris! — sentiu como se seu corpo o tivesse traído. — E Marya foi mandada embora?
Binabik ergueu uma mão apaziguadora debaixo dos lençóis.
— Desconheço o que ocorreu. Foi apenas um palpite. É bem provável que esteja por aqui em algum lugar, talvez hospedada com alguma das mulheres, ou nos aposentos dos criados. Ela é, afinal, uma criada.
Simon lançou um olhar furioso. Binabik gentilmente retirou a mão que o garoto havia puxado com dificuldade em sua agitação.
— Tenha paciência, amigo Simon. — disse o gnomo. — Você fez um trabalho heroico ao chegar tão longe. Quem sabe o que pode acontecer a seguir?
— Tem razão... Eu acho... — ele respirou fundo.
— E também salvou minha vida! — apontou Binabik.
— Isso é importante? — Simon deu um tapinha distraído na mãozinha e se levantou. — Você também salvou a minha, várias vezes. Amigos são amigos.
Binabik sorriu, mas seus olhos mostravam cansaço.
— Amigos são amigos... — concordou. — Falando nisso, preciso dormir agora. Haverá acontecimentos importantes nos próximos dias. Poderia verificar como Qantaqa está sendo cuidada? Strangyeard deveria trazê-la para mim, porém receio que tenha se esquecido do meu pedido com o quão atarefado está. — ele ajeitou o travesseiro.
— Pode deixar. — disse Simon, abrindo a porta. — Sabe onde ela está?
— Strangyeard disse... Nos estábulos... — respondeu Binabik, bocejando.
Simon saiu da habitação.
Ao chegar ao pátio central, parando para observar as pessoas que passavam, cortesãos, servos e clérigos, nenhum deles lhe dando a mínima atenção, foi atingido por uma dupla revelação.
Primeiro, não tinha ideia de onde os estábulos poderiam estar. Segundo, estava com muita, muita fome. O Padre Strangyeard tinha dito algo sobre ter jurado se encarregar de alimentá-lo, contudo o padre tinha se afastado. Era um velho tolo!
De repente, viu um rosto familiar do outro lado do pátio. Já tinha dado alguns passos antes de se lembrar do nome.
— Sangfugol! — chamou, e o harpista parou, olhando em volta para ver quem o tinha chamado. Viu Simon correndo em sua direção e sombreou os olhos, continuando a parecer confuso ainda quando o jovem parou pouco a frente.
— Sim? — respondeu. O arpista estava vestido com um rico gibão lavanda, e seus cabelos escuros caíam graciosamente sob um gorro de penas da mesma cor. Mesmo com as roupas limpas, Simon se sentia maltrapilho diante do músico que esboçava um sorriso cortês.
— Tem alguma mensagem para mim?
— Sou eu, Simon. Talvez não se lembre... Conversamos no banquete fúnebre em Hayholt.
Sangfugol o encarou por mais um instante, franzindo um pouco a testa, antes de seu rosto se iluminar.
— Simon! Ah, claro! O eloquente rapaz. Sinto muito, não o reconheci. Você cresceu bastante.
— Cresci?
O harpista sorriu.
— Com certeza! Não tinha toda essa penugem no rosto da última vez que te vi. — ele estendeu a mão e acariciou o queixo de Simon. — Ou pelo menos não me lembro de ter.
— Penugem?
Curioso, Simon levou a mão à bochecha e a tocou. Parecia mesmo peluda... Mas macia, como os pelos da parte de trás dos seus braços.
Sangfugol curvou os lábios e riu.
— Como não percebeu? Quando minha barba cresceu, eu ia ao espelho da minha mãe todos os dias para ver como estava ficando. — ele levou a mão ao queixo barbeado. — Agora a corto esbravejando maldições todas as manhãs, para manter meu rosto macio para as damas.
Simon sentiu-se corar. Devia estar com um aspecto tão rústico!
— Faz tempo que não me olho em espelhos.
— Hmm. — Sangfugol o olhou de cima a baixo. — Está mais alto também, se bem me lembro. O que o traz a Naglimund? Não que não possa imaginar. Há muitos aqui que fugiram de Hayholt, meu mestre, o Príncipe Josua, incluso.
— Eu sei! — disse Simon, e sentiu a necessidade de dizer algo que o colocasse de volta em algum nível de igualdade com o jovem bem-vestido. — Eu o ajudei a escapar.
O harpista ergueu uma sobrancelha.
— Verdade? Bom, essa parece uma história interessante, de fato! Você já comeu? Ou gostaria de tomar um vinho? Sei que é cedo, porém, para falar a verdade, ainda não fui para a cama... Para dormir.
— Comida seria esplêndido. — disse Simon. — Contudo primeiro preciso fazer algo. Poderia me mostrar onde ficam os estábulos?
Sangfugol sorriu.
— E agora, jovem herói? Vai cavalgar até Erchester para nos trazer a cabeça de Pryrates em um saco?
Simon voltou a corar, no entanto desta vez com um certo prazer.
— Venha! — disse o harpista. — Estábulos, depois comida.
***
O homem curvado e de semblante azedo, que empilhava feno com um forcado, reagiu desconfiado quando Simon perguntou sobre o paradeiro de Qantaqa.
— Ei, o que quer com ele? — perguntou o homem, balançando a cabeça em seguida. — É repugnante. Não é certo colocá-lo aqui. Não deveria ter que fazer isso, só que como foi o Príncipe que mandou. Essa coisa quase arrancou minha mão, aquela besta.
— Bem, então... — interrompeu Simon. — Deveria estar feliz por se livrar dela. Leve-me até ela.
— Essa é uma besta demoníaca, estou te avisando. — disse o homem.
Eles seguiram seu mancar por todo o caminho através dos estábulos escuros e para fora pela porta dos fundos, em um pátio lamacento aninhado na sombra do muro.
— Trazemos as vacas aqui para o abate, às vezes. — disse o homem, apontando para uma vala quadrada. — Não sei por que o Príncipe trouxe esta coisa viva para o pobre velho Lucuman. Deveria ter enfiado uma lança nesse desgraçado, como fez com aquele gigante.
Simon lançou um olhar de nojo para o homem curvado e caminhou até a borda da vala. Uma corda fincada no chão, na beira do buraco, descia até o fundo. Estava amarrada no pescoço da loba, que jazia de lado no fundo lamacento da cova.
Simon ficou chocado.
— O que você fez com ela? — gritou, virando-se para o encarregado dos estábulos.
Sangfugol, caminhando com mais cuidado pelo pátio encharcado, aproximou-se por trás.
A suspeita do velho transformou-se em irritação.
— Não fiz nada! — respondeu ressentido. — É o demônio! Rugi e uiva como um demônio. Tentou me morder também.
— Eu também tentaria! — retrucou Simon. — Aliás, ainda posso tentar. Tire-a daí.
— Como? — perguntou o homem, inquieto. — Puxando a corda? Ele é grande demais.
— Ela, seu idiota. — Simon estava furioso ao ver a loba, sua companheira de incontáveis quilômetros, deitada em um buraco escuro e lamacento. Ele se inclinou sobre a loba. — Qantaqa! — chamou. — Ei, Qantaqa!
A loba mexeu as orelhas, como se para espantar uma mosca, no entanto não abriu os olhos. Simon olhou ao redor do pátio até encontrar o que precisava: o cepo, um toco de tronco marcado por cicatrizes, tão grande quanto o peito de um homem. Arrastou-o até o fosso enquanto o tratador de cavalos e o harpista observavam, perplexos.
— Veja só. — gritou para a loba, e então rolou o toco para fora do buraco; ele afundou na terra macia a apenas um côvado das patas traseiras da loba.
Ela ergueu a cabeça por um momento para olhar, e então voltou a deitar.
Simon olhou mais uma vez por cima da borda do buraco, tentando convencer Qantaqa a subir, mas esta não lhe deu atenção.
— Tenha cuidado, pelo amor de Deus! — disse Sangfugol.
— Tem sorte de aquela fera estar descansando agora. — disse o outro homem, mordiscando a unha do polegar. — Deveria tê-lo ouvido antes, uivando e tudo.
Simon passou os pés por cima da borda do buraco e deslizou para baixo, aterrissando na lama escorregadia e lamacenta lá embaixo.
— O que está fazendo? — gritou Sangfugol. — Você está louco?
Simon se agachou ao lado da loba e estendeu a mão devagar. Qantaqa rosnou, mas ele estendeu os dedos. Seu nariz enlameado fungou brevemente, então estendeu sua longa língua e lambeu o dorso de sua mão. Simon começou a coçar suas orelhas, depois a apalpou em busca de cortes ou ossos quebrados. Não encontrou nenhuma das duas coisas. Depois, se virou e colocou o tronco de madeira em pé, fincando-o na lama ao lado da parede da vala, e então voltou para Qantaqa. Abraçou-a pela largura do tronco e a obrigou a ficar de pé.
— Só pode estar louco, não é? — sussurrou o homem de cara amarrada para Sangfugol.
— Cale a boca! — rosnou Simon, olhando para suas botas limpas e roupas já sujas de lama. — Pegue a corda e puxe quando eu disser. Sangfugol, corte a cabeça desse homem se demorar.
— Já vou! — disse o homem em tom de reprovação e agarrou a corda.
O harpista se posicionou atrás dele para ajudar. Simon incentivou Qantaqa a se aproximar do toco, por fim convencendo-a a apoiar as patas dianteiras nele. Simon abaixou o ombro até a traseira larga e com franjas de pelos dela.
— Pronto? Puxe! — gritou.
A corda esticou. Qantaqa resistiu a princípio, puxando-se para longe dos homens que se esforçavam, deixando seu peso considerável cair sobre Simon, cujos pés escorregavam na lama. Justo quando pensou que podia sentir-se deslizando para baixo, para ser esmagado até a morte em um poço de lama sob um grande lobo, Qantaqa cedeu e acompanhou o puxão da corda. Simon deslizou, no entanto teve a satisfação de ver a loba se debater e sair do poço. Houve um grito de surpresa e consternação do tratador de cavalos e de Sangfugol quando sua cabeça de olhos amarelos ultrapassou a borda.
Simon usou o tronco para sair. O tratador de cavalos estava encolhido de terror diante do animal, que o encarava com um olhar fulminante. Sangfugol, parecendo um tanto alarmado, deslizava cautelosamente para longe, caído de bunda, por ora indiferente aos danos em suas belas vestes.
Simon riu e ajudou o harpista a se levantar.
— Venha. — disse. — Levaremos Qantaqa ao seu amigo e mestre, que você deveria conhecer de qualquer maneira... E então, talvez pegar aquela comida de que conversamos?
Sangfugol assentiu lentamente com a cabeça.
— Agora que vi Simon, Companheiro dos Lobos, algumas das outras coisas são mais fáceis de acreditar. De qualquer forma, vamos indo.
Qantaqa encarou o tratador prostrado uma última vez, arrancando um gemido de medo deste. Simon desamarrou a corda e partiram pelo estábulo, deixando quatro pares de pegadas enlameadas para trás.
***
Enquanto Binabik e Qantaqa se reencontravam, com a mediação de Simon para proteger o gnomo ainda debilitado da exuberância perigosa de sua montaria, Sangfugol escapuliu para as cozinhas. Voltou pouco depois com um jarro de cerveja, uma boa quantidade de carneiro, queijo e pão embrulhados em um pano; também estava, para surpresa de Simon, vestindo as mesmas roupas respingadas de lama.
— A ameia sul, para onde vamos, está bem empoeirada. — explicou o harpista. — Estaria louco se estragasse outro gibão.
Enquanto se dirigiam para o portão principal da fortaleza e a escadaria íngreme que levava às ameias, Simon comentou sobre a grande quantidade de pessoas que circulavam pelo pátio comum e as tendas e barracas improvisadas que pontilhavam os espaços abertos.
— Muitos deles vieram em busca de refúgio. — esclareceu Sangfugol. — A maioria vem de fora da Marca Gelada e do vale do rio Greenwade. Alguns também de Utanyeat, que acharam a mão do Conde Guthwulf um pouco pesada demais, contudo em sua maior parte são pessoas que foram expulsas de suas terras pelo clima ou por bandidos. Ou outras coisas, como os Hunën.
O músico gesticulou em direção à pira concluída enquanto passavam. Os lenhadores tinham ido embora; a pilha de madeira permanecia muda e imponente como uma igreja em ruínas.
No alto das ameias, os dois se acomodaram sobre pedras rústicas. O sol já estava alto no céu, brilhando através das poucas nuvens restantes.
Simon desejou ter um chapéu.
— Ou você ou alguém trouxe bom tempo consigo.
Sangfugol abriu seu gibão devido ao calor.
— Este foi o clima de maya mais estranho de que já vi. Rajadas de neve na Marca Gelada, chuvas frias em Utanyeat... Granizo! Tivemos granizo há quinze dias, pedras de gelo do tamanho de ovos de pássaro.
Ele começou a desembrulhar a comida enquanto Simon admirava a vista. Empoleirados como estavam no alto das altas muralhas da torre interna, Naglimund se estendia a seus pés como um cobertor.
O castelo se aninhava em uma depressão íngreme nas Colinas de Wealdhelm como algo contido na palma da mão voltada para cima. Abaixo das ameias ocidentais, em frente à onde estavam sentados, ficava a ampla muralha externa do castelo; além, as ruas tortuosas da cidade de Naglimund desciam em direção à muralha externa. Fora da muralha, estendia-se uma vasta extensão de pastagens rochosas e colinas baixas.
Do outro lado, entre as ameias orientais e a imponente muralha violeta de Wealdhelm, havia uma longa trilha sinuosa que descia do topo das colinas. Pontilhando as encostas de ambos os lados do caminho, havia mil pontos de luz solar que brilhavam intensamente.
— O que são essas coisas? — Simon apontou.
Sangfugol cerrou os olhos, mastigando.
— Os pregos, você quer dizer?
— Que pregos? Aqueles longos espigões na encosta são o que estou perguntando.
O harpista assentiu.
— Os pregos. O que você acha que Naglimund significa, afinal? Vocês, erkynos, esqueceram da sua própria língua antiga. ‘Forte de pregos’, é isso que significa. O Duque Aeswides os colocou lá quando construiu Naglimund.
— Quando foi isso? E para que servem?
Olhando fixamente, Simon deixou o vento levar suas migalhas de pão e espalhá-las pelo pátio externo.
— Algum tempo antes dos rimmerios virem para o sul, é tudo o que sei... — respondeu Sangfugol. — O Duque conseguiu o ferro dos nortenhos, todas aquelas barras. Os dverningos as fizeram. — acrescentou significativamente, entretanto o nome não significava nada para Simon.
— E por quê? É como um jardim de ferro.
— Para manter os sitha afastados! — declarou Sangfugol. — Aeswides tinha pavor deles, porque esta terra era na verdade deles. Uma de suas grandes cidades, esqueci o nome, ficava do outro lado das colinas aqui.
— Da’ai Chikiza. — disse Simon baixinho, olhando para o emaranhado de metal enferrujado.
— Isso mesmo! — concordou o harpista. — E dizem que os sitha não suportam ferro. Deixa-os enfermos, até os mata. Então Aeswides cercou seu castelo com aqueles ‘pregos’ de aço, antigamente eles também ficavam ao redor da frente da torre principal, porém com a partida dos sitha, estes só atrapalhavam. Dificultavam a entrada de carroças no dia de mercado, coisas desse tipo. Então, quando o Rei John deu este lugar a Josua, para mantê-lo e seu irmão o mais separados possível, eu suspeito... Meu mestre os removeu todos, exceto os que estavam nas encostas. Acho que o divertem. Ele gosta muito de coisas antigas, o Príncipe, meu mestre.
Enquanto compartilhavam a jarra de cerveja, Simon contou ao harpista uma versão resumida do que lhe havia acontecido desde o último encontro, omitindo algumas das coisas mais inexplicáveis, já que não tinha resposta para as perguntas que o harpista sem dúvida faria. Sangfugol ficou impressionado, contudo se mostrou mais tocado pela história do resgate de Josua e do martírio de Morgenes.
— Ah, aquele vilão Elias... — disse por fim, e Simon ficou surpreso com a expressão de verdadeira raiva que nublou o rosto do harpista como uma tempestade. — O Rei John deveria ter estrangulado aquele monstro ao nascer, ou, na incapacidade disso, pelo menos tê-lo nomeado general dos exércitos e deixado que atormentasse os homens dos Thrithings. Qualquer coisa, menos colocá-lo no Trono de Ossos do Dragão para ser uma praga para todos nós!
— No entanto ele está lá. — disse Simon, mastigando. — Acha que vai nos atacar aqui em Naglimund?
— Só Deus e o Diabo sabem. — Sangfugol revelou um amargo sorriso. — E o Diabo está jogando pelo seguro. Pode ser que ainda não saiba que Josua está aqui, embora certamente não demorará muito. Esta fortaleza é um lugar muito, muito forte. De qualquer forma, devemos agradecer a Aeswides, que já morreu há muito tempo. Mesmo assim, forte ou não, não consigo imaginar Elias parado por muito tempo enquanto Josua incrementa seu poder aqui no norte.
— Eu pensei que o Príncipe Josua não quisesse ser Rei. — disse Simon.
— E não quer. Entretanto Elias não é do tipo que possa entendê-lo. Homens ambiciosos nunca acreditam que os outros não sejam iguais. Além do mais tem Pryrates sussurrando conselhos traiçoeiros em seu ouvido.
— Mas Josua e o Rei não são inimigos há anos? Desde muito antes de Pryrates chegar?
Sangfugol assentiu.
— Não faltaram problemas entre eles. Os dois já se amaram um dia, eram mais próximos do que a maioria dos irmãos... Ou pelo menos é o que me contam os antigos criados de Josua. Porém acabaram brigando, e então Hylissa morreu.
— Hylissa? — perguntou Simon.
— A esposa nabbana de Elias. Josua a estava levando para Elias, que ainda era um Príncipe, em guerra pelo seu pai nos Thrithings. Seu grupo foi emboscado por saqueadores dos Thrithings. Josua perdeu a mão tentando defender Hylissa, todavia foi em vão... Os saqueadores eram muitos.
Simon soltou um longo suspiro.
— Então foi assim que aconteceu!
— Foi a morte de qualquer amor entre eles... Ou pelo menos é o que dizem.
Depois de refletir um pouco sobre as palavras de Sangfugol, Simon se levantou e se espreguiçou; a dor nas costelas lhe deu uma pontada de aviso.
— Certo, e o que o Príncipe Josua fará agora? — perguntou.
O harpista coçou o braço e observou o pátio comum.
— Não consigo nem imaginar. — disse Sangfugol. — O Príncipe Josua é cauteloso e lento para agir; de qualquer forma, não costumam me chamar para discutir estratégia. — sorriu. — Há rumores de que emissários importantes estão chegando e que, em algum momento dentro de uma semana, Josua convocará um Raed formal.
— Um o quê?
— Raed. É um antigo termo erkyno para conselho, mais ou menos. As pessoas por aqui tendem a se apegar aos costumes antigos. No campo, longe do castelo, a maioria segue usando a língua antiga. É provável que um homem de Hayholt como você precisasse de um intérprete local.
Simon não se distrairia com conversas sobre peculiaridades rústicas.
— Um conselho, você disse... Um... Um Raed? Seria um conselho de... Guerra?
— Hoje em dia... — respondeu o músico, e seu rosto voltou a ficar sombrio. — Qualquer conselho em Naglimund será um conselho de guerra.
***
Eles caminharam ao longo das ameias.
— Estou surpreso... — disse Sangfugol. — Que, com todos os serviços que você prestou ao meu mestre, ele ainda não o tenha chamado para uma audiência.
— Acabei de sair da cama esta manhã. — disse Simon. — Além disso, Josua pode nem ter me notado... Em uma clareira escura, com um gigante moribundo e tudo mais.
— Suponho que tenha razão. — disse o harpista, agarrando-se ao chapéu, que fazia o possível para resistir às rajadas de vento.
“Ainda assim...” pensou Simon. “Se Marya entregou a mensagem da Princesa, eu esperaria que ela mencionasse seus companheiros. Nunca imaginei que fosse o tipo de garota que apenas se esqueceria de nós.”
Todavia tinha de ser justo... Que garota, repentinamente salva da umidade e do perigo da região selvagem, não preferiria passar seu tempo com os nobres do castelo em vez de com um magricelo de cozinha?
— Por acaso você não viu a garota, Marya, que veio conosco? — perguntou.
Sangfugol balançou a cabeça.
— Pessoas estão chegando pelos portões todos os dias. E não apenas aquelas que fogem das fazendas e vilarejos mais afastados. Os batedores do Príncipe Gwythinn de Hernystir chegaram ontem à noite, com os cavalos em polvorosa. O grupo do Príncipe deve chegar esta noite. Lorde Ethelferth de Tinsett está aqui há uma semana com duzentos homens. O Barão Ordmaer trouxe cem homens de Utersall logo depois. Outros lordes estão chegando com seus exércitos de todos os lados. A caçada começou, Simon... Embora só Aedon saiba quem está caçando quem.
Eles haviam chegado à torre nordeste. Sangfugol fez uma saudação militar ao jovem soldado que fazia a sentinela. Além de seu ombro coberto por um manto cinza, erguia-se a imponente Wealdhelm, as colinas maciças parecendo tão próximas que dava para tocá-las.
— Por mais ocupado que esteja. — disse o harpista de repente. — Não me parece certo que ainda não o tenha visto. Se importa se eu interceder por você? Devo acompanhá-lo no jantar esta noite.
— Eu certamente gostaria de vê-lo, sim. Estive... Muito preocupado com a sua segurança. E meu mestre deu muito para que Josua pudesse retornar para cá, para sua casa.
Simon ficou surpreso ao notar um leve toque de amargura em sua própria voz. Não pretendia que soasse de tal maneira, mas ainda assim, ele havia sofrido para chegar até ali, e fora ele, e ninguém mais, quem encontrara Josua amarrado e pendurado, como um faisão sobre a porta de um criado.
O tom do comentário também não passou despercebido por Sangfugol; o olhar que lançou a Simon era uma mistura de simpatia e divertimento.
— Entendo. No entanto aconselho que não o diga ao meu Príncipe dessa maneira. É um homem orgulhoso e difícil, todavia tenho certeza de que não se esqueceu de você. As coisas têm estado, como pode ver, bastante difíceis nesses últimos tempos por estas bandas, quase tão angustiantes quanto a sua própria jornada.
O garoto ergueu o queixo e fitou as colinas, o estranho brilho das árvores agitadas pelo vento.
— Eu sei. — disse. — Se puder me ver, será uma honra. Se não puder... Bem, é o que será.
O harpista sorriu preguiçosamente, os olhos brincalhões semicerrados.
— Um discurso orgulhoso e justo. Venha, deixe-me mostrar-lhe os Pregos de Naglimund.
***
Era de fato uma visão impressionante em plena luz do dia. O campo de postes brilhantes, começando a poucos passos do fosso abaixo da muralha leste do castelo, subia a encosta e se estendia por talvez um quarto de légua, até o sopé das colinas. Estavam dispostos em fileiras simétricas, como se uma legião de lanceiros tivesse sido enterrada ali, deixando apenas suas armas sobressaindo do solo escuro para mostrar o quão conscienciosamente mantinham sua guarda. A estrada que serpenteava desde uma caverna escancarada na face oeste da colina ziguezagueava entre as fileiras de forma tão sinuosa quanto o rastro de uma serpente, parando por fim diante do pesado portão leste de Naglimund.
— E aquele sujeito, seja lá qual for o nome, fez tudo isto porque tinha medo dos sitha? — perguntou Simon, perplexo com a estranha plantação prateada e escura que se estendia à sua frente. — Por que não apenas os colocou no topo da muralha?
— O nome era Duque Aeswides. Foi um governador de Nabban aqui, e estava quebrando o precedente ao construir seu castelo em terras sitha. Quanto ao porquê de não estar sobre as muralhas, bem, suponho que temia que pudessem encontrar alguma maneira de atravessar uma única muralha... Ou passar por baixo, talvez. Dessa forma, teriam que atravessá-las. Você não viu nem metade, Simon, essas coisas costumavam brotar em todos os lados! — Sangfugol fez um gesto amplo com o braço.
— O que os sitha fizeram? — perguntou Simon. — Tentaram atacar?
Sangfugol franziu a testa.
— Não que eu saiba. Tente perguntar ao velho Padre Strangyeard a respeito. Ele é o arquivista e historiador do lugar.
Simon sorriu.
— Já o conheci.
— Um velho interessante, não é? Ele me contou uma vez que, quando Aeswides construiu este lugar, os sitha o chamaram de... Chamaram de... Droga! Eu deveria conhecer essas histórias antigas, sendo um trovador. Enfim, o nome que davam significava algo como ‘Armadilha que pega o caçador’... Como se Aeswides tivesse se entrincheirado lá dentro ou algo assim: como se tivesse feito sua própria armadilha.
— E fez mesmo? O que aconteceu com ele?
Sangfugol balançou a cabeça e quase perdeu o chapéu de novo.
— Sei lá. Deve ter envelhecido e morrido aqui. Acho que os sitha não lhe deram muita atenção.
***
Levaram uma hora para completar o circuito. Há muito tempo tinham esvaziado o jarro de cerveja que Sangfugol trouxera para acompanhar a refeição, embora o harpista fora prudente e trouxera também um odre de vinho, evitando assim uma caminhada sem bebida. Os dois estavam rindo; o homem mais velho estava ensinando a Simon uma canção obscena sobre uma nobre de Nabban quando chegaram ao portão principal e à escadaria em espiral que descia de volta ao térreo. Ao saírem da guarita, depararam-se com uma multidão de trabalhadores e soldados; a maioria destes últimos estava de folga, a julgar pela desordem em suas vestimentas. Todos gritavam e se empurravam; Simon logo se viu espremido entre um homem gordo e um guarda barbudo.
— O que está acontecendo? — gritou para Sangfugol, que havia sido arrastado para um pequeno trecho pelo movimento da multidão.
— Não tenho certeza. — respondeu o outro. — Talvez Gwythinn de Hernysadharc tenha chegado.
O homem gordo virou seu rosto vermelho para Simon.
— Não, não é ele! — disse com júbilo. Seu hálito cheirava a cerveja e cebola. — É aquele gigante, aquele que o Príncipe matou. — seu dedo apontou para a pira, que ainda estava nua na beira do campo.
— Mas não estou vendo o gigante. — disse Simon.
— Estão indo buscá-lo. — disse o homem. — Eu vim com os outros para ter certeza de vê-lo. O filho da minha irmã era um dos batedores que ajudaram a capturar a besta demoníaca! — acrescentou cheio de orgulho.
Então, outra onda de som passou pela multidão... Alguém na frente conseguia ver algo, e a notícia se espalhava rapidamente para aqueles que não conseguiam. Pescoços se esticavam e crianças eram erguidas nos ombros de mães pacientes e de rosto sujo.
Simon olhou ao redor. Sangfugol havia desaparecido. Ele se ergueu na ponta dos pés e descobriu que apenas alguns na multidão eram tão altos quanto ele. Além da pira, viu as sedas brilhantes de uma tenda ou toldo e, à sua frente, as cores vibrantes de alguns cortesãos do castelo, sentados em bancos e conversando, agitando as mangas enquanto gesticulavam, como um galho cheio de pássaros brilhantes. Examinou os rostos em busca de um vislumbre de Marya... Talvez já tivesse encontrado uma dama nobre a quem se unir. Certamente não era seguro para ela voltar para a Princesa em Hayholt, ou onde quer que estivesse. No entanto nenhum dos rostos era o da jovem, e antes que pudesse procurá-la em outro lugar na multidão, uma fileira de homens armados apareceu em um dos arcos da muralha interna.
Agora a multidão murmurava tomada por seriedade, pois os primeiros seis soldados eram seguidos por uma parelha de cavalos puxando uma carroça. Simon sentiu um aperto no estômago, porém ignorou a sensação... Será que ficaria enjoado toda vez que uma carroça rangesse?
Quando as rodas pararam e os soldados se reuniram para descarregar a criatura pálida, arqueada na carroceria da carroça, Simon vislumbrou cabelos negros como azeviche e pele branca além do local onde os nobres estavam, além das vigas empilhadas; quando olhou mais de perto, na esperança de que fosse Marya, os cortesãos risonhos já haviam se aproximado de novo e não havia mais nada para ver.
Foram necessários oito guardas fazendo esforço para levantar a vara na qual o corpo do gigante pendia como um cervo da reserva de caça do Rei, e mesmo assim eles ainda tiveram que deslizá-lo da carroça para o chão antes de conseguirem encaixar os ombros confortavelmente sob a barra. A criatura estava amarrada pelos joelhos e cotovelos; mãos enormes balançavam no ar enquanto suas costas batiam no chão. A multidão, que avançara ansiosa, começou a recuar com exclamações de medo e repulsa.
A criatura parecia mais humana agora, pensou Simon, do que quando surgira ereta diante na sua frente na floresta da Escadaria. Com a pele de seu rosto escuro flácida pela morte, o rosnado ameaçador apagado, ostentava a expressão perplexa de um homem que recebera notícias incompreensíveis. Como Strangyeard dissera, usava uma vestimenta de pano áspero em volta da cintura. Um cinto de algumas pedras avermelhadas pendia, arrastando-se na poeira do campo.
O homem gordo ao lado de Simon, que exortava os soldados a marcharem mais rápido, lançou lhe um olhar alegre.
— Sabe o que ele estava usando no pescoço? — gritou.
Simon, cercado pelos dois lados, deu de ombros.
— Crânios! — disse o homem, tão satisfeito como se ele mesmo os tivesse dado ao gigante morto. — Os usava como colar. O Príncipe está lhe dando um enterro aedonita... Embora seja impossível adivinhar de quem sejam.
O homem voltou a observar o espetáculo.
Vários outros soldados haviam subido ao topo da pira e ajudavam os carregadores a mover a criatura enorme para o lugar. Quando a colocaram no lugar, deitada de costas no topo, retiraram o poste de entre seus braços e pernas cruzados e desceram em grupo. Quando o último homem saltou para o chão, o grande corpo deslizou um pouco para a frente, e o movimento repentino fez uma mulher gritar. Várias crianças começaram a chorar. Um oficial de capa cinza gritou uma ordem; um dos soldados se inclinou para a frente e enfiou uma tocha fundo nos feixes de palha que haviam sido colocados ao redor das bordas. As chamas, estranhamente incolores sob o sol do final da tarde, começaram a se curvar ao redor da palha, alcançando o alimento mais substancial. Fios de fumaça envolviam a figura do gigante, e uma corrente de ar ondulava sua pelagem hirsuta como grama seca de verão.
Ali! Ele a vira novamente, além da pira! Simon tentou avançar, e recebeu uma cotovelada certeira nas costelas de alguém que lutava para manter seu ponto de vista privilegiado. Parou, frustrado, e encarou o lugar onde pensara tê-la visto.
Então viu, e percebeu que não era Marya. Aquela mulher de cabelos negros, envolta em um manto verde sombrio e primorosamente costurado, era talvez vinte anos mais velha. Sem dúvida era bela, com pele cor de marfim e olhos grandes e amendoados.
Enquanto a encarava, a mulher, por sua vez, observava o gigante em chamas, cujo cabelo começava a se enrolar e escurecer à medida que o fogo subia pelo monte de toras de pinheiro. A fumaça subia como uma cortina, obscurecendo-a da visão de Simon; ele se perguntou quem era e por que... Enquanto os moradores de Naglimund ao redor gritavam e agitavam os punhos contra a coluna de fumaça... Ela olhava para as chamas com olhos tão tristes e raivosos.
***
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