Capítulo 29: Caçadores e Caçados
O rugido oco do rio preencheu seus ouvidos. Por um instante, pareceu a Simon que a água era a única coisa em movimento, que os arqueiros do outro lado, Marya, ele próprio, todos haviam sido congelados em imobilidade pelo impacto da flecha que vibrou nas costas de Binabik. Então, outra flecha passou voando pela garota de rosto pálido, estilhaçando-se ruidosamente contra uma cornija quebrada de pedra brilhante, e tudo voltou a ser um movimento frenético.
Consciente apenas em partes do movimento furtivo dos arqueiros sobre a água, Simon percorreu a distância de volta até a garota e o gnomo em três passos. Abaixou-se para olhar, uma parte estranha e isolada de sua mente notando como as calças de menino que Marya usava tinham buracos rasgados no joelho, e uma flecha cortou sua camisa debaixo do braço. A princípio, pensou que havia errado completamente; um momento depois, sentiu uma pontada de dor crepitar ao longo de sua caixa torácica.
Mais dardos passaram raspando, atingindo as lajes à frente deles e ricocheteando como pedras em um lago. Simon se ajoelhou rápido e pegou o silencioso gnomo nos braços, sentindo a flecha horrível e rígida vibrar entre seus dedos. Ele se virou, colocando as costas entre o homenzinho e os arqueiros... Binabik estava tão pálido! Estava morto, devia estar! E então se levantou. A dor nas costelas o atingiu novamente, e cambaleou, com Marya o segurando pelo cotovelo.
— Sangue de Löken! — gritou o Ingen de vestes negras, sua voz distante um murmúrio fraco no ouvido de Simon. — Vocês estão os matando, seus idiotas! Eu disse para mantê-los lá! Onde está o Barão Heahferth?
Qantaqa havia corrido para se juntar a eles; Marya tentou acenar para a loba enquanto ela e Simon subiam as escadas para Da’ai Chikiza. Uma última flecha emplumada estalou no degrau atrás deles, e então o ar ficou voltou a ficar vazio.
— Heahferth está aqui, rimmerio! — gritou uma voz em meio ao clamor dos homens armados.
Simon olhou para trás do degrau mais alto. Seu coração afundou.
Uma dúzia de homens em formação de batalha passava correndo por Ingen e seus arqueiros, indo direto para o Portão dos Cervos, a ponte que Simon e seus companheiros haviam atravessado pouco antes de desembarcar. O próprio Barão cavalgava atrás deles em seu cavalo ruivo, com uma longa lança erguida acima da cabeça. Não conseguiriam escapar nem mesmo dos soldados de infantaria por muito tempo, o cavalo do Barão os alcançaria em três respirações.
— Simon! Corra! — Marya puxou seu braço, fazendo-o tropeçar e cair. — Precisamos nos esconder na cidade!
Contudo Simon sabia que isso também era inútil. Quando chegassem ao primeiro esconderijo, os soldados já estariam os alcançando.
— Heahferth! — gritou a voz de Ingen Jegger atrás, um som plano e fraco acima do zumbido do rio. — Você não pode! Não seja tolo, erkyno, seu cavalo...
O restante de suas palavras se perdeu no som da água; se Heahferth ouviu, não pareceu se importar. Em um instante, o clangor dos passos de seus soldados sobre a ponte foi acompanhado pelo bater dos cascos na pedra.
Ainda com o barulho da perseguição aumentando, Simon prendeu a ponta da bota em uma telha arrancada e caiu para a frente.
“Uma lança nas costas...” pensou o garoto no meio da queda, e... “Como tudo aquilo aconteceu?”
Então caiu dolorosamente sobre o ombro, rolando para proteger o corpo do gnomo que estava em seus braços.
Ele ficou deitado de costas, olhando para os pedaços de céu que brilhavam através da cúpula escura de árvores, o peso considerável de Binabik apoiado em seu peito. Marya puxava sua camisa, tentando fazê-lo se levantar. Queria dizer a ela que não era mais importante, que não valia mais a pena se incomodar, entretanto enquanto se sentava apoiado em um cotovelo, sustentando o corpo do gnomo com o outro braço, viu algo estranho acontecendo embaixo.
No meio da longa ponte arqueada, o Barão Heahferth e seus homens haviam parado de se mover... Não, isso não era totalmente correto, estavam balançando no mesmo lugar... Os homens armados agarrados às paredes baixas da ponte, o Barão empoleirado em seu cavalo, suas feições não muito distinguíveis a essa distância, todavia sua postura era a de um homem que é despertado assustado. Um momento depois, sem nenhuma razão que Simon pudesse discernir, o cavalo empinou e disparou para a frente; os homens o seguiram, correndo mais rápido do que antes. Logo depois, um lampejo atrás do movimento, Simon ouviu um grande estalo, como se uma mão gigante tivesse quebrado um tronco de árvore para fazer um palito de dente. A ponte pareceu se desprender no meio.
Diante dos olhos chocados e fascinados de Simon e Marya, o esguio Portão dos Cervos despencou, começando pelo meio, pedras se soltando em grandes fragmentos angulares para cair espumando na água abaixo. Por alguns instantes, pareceu que Heahferth e seus soldados chegariam ao outro lado; então, ondulando como um cobertor sacudido, o arco de pedra dobrou-se sobre si mesmo, enviando uma massa contorcida de braços, pernas, rostos pálidos e um cavalo descontrolado despencando em meio aos blocos irregulares de calcedônia leitosa, para desaparecer em jatos de água verde e espuma branca. Alguns instantes depois, a cabeça do cavalo do Barão apareceu alguns côvados rio abaixo, o pescoço esticado para cima, e então deslizou de volta para o rio turbulento.
Simon inclinou a cabeça em direção à base da ponte. Os dois arqueiros estavam de joelhos, olhando fixamente para a torrente; a figura encapuzada de preto de Ingen estava atrás deles, olhando para os companheiros. Dava a impressão de que seus olhos pálidos estavam a poucos centímetros de distância...
— Levante-se! — gritou Marya, puxando os cabelos de Simon.
O garoto desviou o olhar de Ingen Jegger com um estalo quase palpável de separação, como uma corda se rompendo. Ele se levantou, equilibrando seu pequeno fardo, e eles se viraram e fugiram para altas sombras de Da’ai Chikiza.
***
Os braços de Simon doíam depois de cem passos, e sentia como se uma faca estivesse entrando e saindo em suas costas; lutou para acompanhar a garota enquanto seguia a loba saltitante pelas ruínas da cidade sitha. Era como correr por uma caverna de árvores e pingentes de gelo, uma floresta de brilho vertical e corrupção escura e musgosa. Telhas quebradas estavam por toda parte, e enormes emaranhados de teias de aranha se estendiam por belos arcos em ruínas. O garoto sentia como se tivesse sido engolido por algum ogro incrível com entranhas de quartzo, jade e madrepérola. Os sons do rio se tornaram abafados atrás deles; o som áspero de sua própria respiração ofegante competia com o arrastar de seus pés correndo.
Por fim, parecia que estavam chegando aos arredores da cidade... As árvores altas, cicutas, cedros e pinheiros imponentes, estavam mais próximas umas das outras, e o piso de azulejos que antes cobria todo o chão agora se reduzia a caminhos que serpenteavam aos pés dos gigantes da floresta. Simon parou de correr. Sua visão estava escurecendo nas bordas. Ficou parado e sentiu a terra girar ao seu redor. Marya pegou sua mão e o guiou por alguns passos mancando até um monte de pedras coberto de hera que Simon, com a visão voltando aos poucos, reconheceu como um poço. Pousou o corpo de Binabik delicadamente sobre a bolsa que Marya carregava, apoiando o lado do homenzinho contra o tecido áspero, e então se inclinou na borda do poço para inspirar o ar para seus pulmões necessitados. Suas costas continuavam doendo.
Marya se agachou ao lado de Binabik, afastando o focinho de Qantaqa enquanto a loba cutucava seu mestre silencioso. Qantaqa deu um passo para trás, emitindo um gemido de incompreensão, e então deitou-se com o focinho sobre as patas. Simon sentiu lágrimas quentes brotarem em seus olhos.
— Ele não está morto.
Simon olhou para Marya, depois para o rosto pálido de Binabik.
— O quê? — perguntou. — O que você quer dizer?
— Não está morto. — ela repetiu sem levantar o olhar.
Simon ajoelhou-se ao lado dela. Marya estava certa... O peito do gnomo se movia quase imperceptivelmente. Uma bolha espumosa de sangue em seu lábio inferior pulsava no ritmo.
— Jesuris Aedon. — Simon enxugou a mão na testa encharcada.
— Temos que tirar a flecha.
Marya o encarou com firmeza.
— Você está louco? Se fizermos isso, a vida vai acabar para ele! Não terá nenhuma chance!
— Não. — Simon balançou a cabeça. — O doutor me disse, tenho certeza que disse, embora não sei se consigo tirar a flecha. Me ajude a tirar a jaqueta.
Depois de tentarem retirar a jaqueta por um instante com infinito cuidado, perceberam que não havia como removê-la sem puxar a flecha. Simon praguejou. Precisava de algo para cortar a jaqueta, algo afiado. Puxou a bolsa que havia encontrado pela alça e começou a vasculhá-la. Mesmo em meio à tristeza e à dor, ficou satisfeito ao descobrir a Flecha Branca, ainda envolta em seu manto de trapos. Tirou-a e começou a desatar o nó que prendia as tiras de tecido.
— O que está fazendo? — perguntou Marya. — Já não tivemos flechas suficientes?
— Preciso de algo afiado para cortar. — resmungou. — É uma pena termos perdido parte do bastão de Binabik... Era a parte que tinha uma faca.
— É isso que está procurando? — Marya enfiou a mão na camisa e tirou uma pequena faca em uma bainha de couro, pendurada em um cordão no pescoço. — Geloë me disse que deveria ficar com ela. — explicou, desembainhando-a e entregando-a a Simon. — Não é muito útil contra arqueiros.
— E os arqueiros não são muito bons em impedir que pontes caiam, graças a Deus.
Simon começou a serrar o couro untado com óleo.
— Acha que foi só isso que aconteceu? — perguntou Marya depois de um tempo.
— Como assim? — Simon ofegou. Era um trabalho árduo, porém havia cortado de baixo para cima, passando pela flecha, revelando uma massa pegajosa de sangue coagulado. Puxou a lâmina da faca em direção à gola.
— Que a ponte só... Caiu. — Marya olhou para a luz que filtrava através da vegetação entrelaçada. — Talvez os sitha estivessem furiosos com o que estava acontecendo em sua cidade.
— Pfah. — Simon cerrou os dentes e rasgou o último pedaço de couro. — Os sitha que ainda estão vivos não moram mais aqui, e se os sitha não morrerem, como o doutor me disse, então não há espíritos para fazer as pontes desabarem. — removeu as partes cortadas da jaqueta rasgada e fez uma careta. As costas do gnomo estavam cobertas de sangue seco. — Você ouviu o rimmerio gritando com Heahferth, não queria que levasse seu cavalo para a ponte. Agora deixe-me pensar, maldita seja!
Marya ergueu a mão como se fosse golpeá-lo; Simon olhou para cima e seus olhares se encontraram. Pela primeira vez, viu que a garota também havia chorado.
— Eu te dei minha faca! — ela disse.
Simon balançou a cabeça, confuso.
— É que... Aquele diabo do Ingen pode já ter encontrado outro lugar para atravessar. Ele tem pelo menos dois arqueiros, e quem sabe o que aconteceu com os cães... E... E este homenzinho é meu amigo. — ele se virou para o gnomo ensanguentado.
Marya ficou em silêncio por um momento.
— Eu sei. — disse por fim.
A flecha entrou em um ângulo, atingindo a distância de uma mão do centro da coluna. Inclinando com cuidado o pequeno corpo, Simon conseguiu deslizar a mão por baixo. Seus dedos logo encontraram a ponta de ferro afiada que sobressaía logo abaixo do braço de Binabik, perto da frente das costelas.
— Droga! Atravessou! — Simon pensou freneticamente. — Um momento... Um momento...
— Quebre a ponta! — sugeriu Marya, com a voz agora calma. — Assim poderá puxá-la com mais facilidade... Se tiver certeza de que deve.
— Claro! — Simon estava radiante e um pouco tonto. — Claro.
Custou-lhe algum tempo para cortar a flecha sob a ponta; a pequena faca estava consideravelmente cega. Quando terminou, Marya o ajudou a inclinar Binabik na posição em que a flecha era mais flexível. Então, com uma oração silenciosa a Aedon em voz baixa, retirou a flecha pela ferida feita por sua entrada, enquanto sangue fresco jorrava ao redor. Encarou o objeto odioso por um momento, depois o jogou fora. Qantaqa ergueu sua cabeça enorme para observar o voo da flecha, soltou um gemido grave e desabou de volta.
Eles envolveram Binabik nos trapos da Flecha Branca, junto com tiras cortadas de sua jaqueta arruinada, então Simon pegou o gnomo, que ainda respirava fracamente, e o aconchegou.
— Geloë disse para subirmos a Escadaria. Não sei onde fica, mas é melhor continuarmos em direção às colinas. — disse o garoto.
Marya assentiu.
***
Os vislumbres do sol através das copas das árvores indicavam que era quase meio-dia quando deixaram o poço coberto de vegetação. Passaram correndo pelas margens da cidade decadente e, em menos de uma hora, perceberam que o terreno começava a subir sob seus pés cansados. O gnomo estava se tornando outra vez um pesado fardo. Simon era orgulhoso demais para dizer qualquer coisa, mas estava suando profusamente, e suas costas e braços começaram a doer tanto quanto seu flanco ferido. Marya sugeriu que cortasse buracos para as pernas na bolsa para que pudesse usá-la para carregar Binabik. Depois de alguma consideração, Simon descartou a ideia. Para começar, significaria muitos solavancos para o homenzinho indefeso e inconsciente; além do mais, teriam que deixar parte do conteúdo da bolsa para trás, e a maior parte era comida.
Quando o terreno suavemente ascendente começou a se transformar em encostas íngremes e cobertas de juncos e cardos, Simon enfim fez um gesto para que Marya parasse. Ele colocou o homenzinho no chão e ficou parado por um momento, com as mãos na cintura, ofegando enquanto recuperava o fôlego.
— Nós... Nós precisamos... Eu preciso... Descansar... — bufou.
Marya olhou para o rosto corado dele com compaixão.
— Você não pode carregá-lo até o topo da colina, Simon! — ela disse com gentileza. — Parece que vai ficar mais íngreme adiante. Vai precisar das suas mãos para subir.
— Ele é... Meu amigo! — disse Simon, mantendo a teimosia. — Eu consigo... Fazer isso.
— Não, não consegue. — Marya balançou a cabeça. — Se não podemos usar a bolsa para carregá-lo, então precisamos... — seus ombros caíram e a garota deslizou para baixo, sentando-se em uma pedra. — Não sei o que precisamos fazer, mas precisamos. — concluiu.
Simon se sentou ao lado dela. Qantaqa havia desaparecido na encosta, saltando agilmente por onde o menino e a menina levariam longos minutos para seguir.
De repente, uma ideia surgiu para Simon.
— Qantaqa! — chamou, levantando-se e deixando a bolsa ciar na grama à sua frente. — Qantaqa! Venha aqui!
Trabalhando febrilmente, com o pensamento silencioso de Ingen Jegger como uma sombra pairando, Simon e Marya envolveram Binabik da cabeça aos pés no manto da garota, depois equilibraram a barriga do gnomo nas costas de Qantaqa, amarrando-o no lugar com os últimos pedaços de roupa rasgados que restaram da mochila. Simon se lembrava da posição de sua cavalgada involuntária até o acampamento do Duque Isgrimnur, contudo sabia que se o grosso manto estivesse entre as costelas de Binabik e as costas da loba, o homenzinho ao menos conseguiria respirar. Sabia que não era uma boa situação para um gnomo ferido, talvez até moribundo, no entanto o que mais poderia ser feito? Marya estava certa; precisaria das mãos para subir a colina.
Assim que a hesitação inicial de Qantaqa passou, ficou passiva enquanto o menino e a menina trabalhavam, virando-se as vezes para tentar cheirar o rosto de Binabik, que balançava ao seu lado. Quando terminaram e começaram a subir a encosta, a loba escolheu o caminho com cuidado, como se estivesse ciente da importância de uma subida tranquila para seu fardo silencioso.
Agora avançavam mais rápido, escalando pedras e troncos antigos que trocavam de casca em tiras. A brilhante bola do sol, turva pelas nuvens, que espreitava por entre os galhos, havia rolado para longe em direção ao seu ponto de ancoragem ocidental. Caminhando com dificuldade, a cauda cinza e branca da loba flutuando diante de seus olhos suados como uma pluma de fumaça, Simon se perguntava onde a escuridão os encontraria... E o que poderia encontrá-los naquela escuridão.
***
A subida se tornara muito íngreme, e tanto Simon quanto Marya estavam cobertos de arranhões da vegetação rasteira que os agarrava, quando por fim encontraram uma fenda horizontal clara na encosta da colina. Eles se sentaram agradecidos na trilha empoeirada. Qantaqa parecia disposta a explorar mais adiante a trilha estreita e coberta de grama, entretanto, em vez disso, se deixou cair ao lado dos dois, com a língua para fora. Simon desamarrou o gnomo da amarração improvisada. O estado de Binabik parecia inalterado, sua respiração ainda terrivelmente superficial. Simon deixou a água do cantil entrar em sua boca aos poucos e a passou para Marya. Quando a garota terminou, Simon juntou as mãos em concha, que ela encheu, e as ofereceu para Qantaqa beber.
Depois, ele mesmo tomou vários goles longos do odre.
— Você acha que essa é a Escadaria? — perguntou Marya, passando as mãos pelos cabelos negros e úmidos.
Simon esboçou um frágil sorriso. Típico de uma garota, arrumar o cabelo no meio da floresta! Seu rosto estava muito corado, e viu que isso realçava as sardas em seu nariz.
— Parece mais uma trilha de veados ou algo assim. — respondeu por fim, voltando sua atenção para onde a trilha serpenteava pela encosta da colina. — Acho que a Escadaria é uma coisa sitha, segundo Geloë. Mas acho que podemos seguir por aqui por um tempo.
“Ela não é exatamente magra.” pensou Simon. “É mais o que chamam de delicada.” se lembrou de como a garota se esticou e quebrou os galhos pendentes, e de suas rudes canções fluviais. “Não, talvez ‘delicada’ também não fosse bem a palavra certa.”
— Vamos então. — Marya interrompeu seus devaneios. — Estou com fome, porém prefiro não ficar aqui ao relento quando o sol se pôr.
A garota se levantou e começou a juntar as tiras de tecido para remontar Binabik em seu corcel, que aproveitava seus últimos momentos de liberdade para coçar atrás de uma orelha.
— Eu gosto de você, Marya! — Simon deixou escapar, e então quis se virar, correr, fazer alguma coisa; em vez disso, corajosamente permaneceu onde estava, e um momento depois a garota o encarou, sorrindo... E era ela quem parecia envergonhada!
— Que bom! — foi tudo o que disse, e então se afastou alguns passos pela trilha de cervos para deixar Simon, com as mãos repentinamente desajeitadas, amarrar Binabik sobre Qantaqa. De repente, ao terminar de dar o último nó sob a barriga peluda da paciente loba, olhou para o rosto pálido do gnomo, tão inexpressivo e imóvel quanto a morte... E ficou com raiva de si mesmo.
“Que grande cabeça-oca eu sou!” pensou com ferocidade. “Um dos seus amigos mais próximos está morrendo, você está perdido no meio do nada, sendo perseguido por homens armados e talvez alguma coisa pior... E aqui está você, lamentando-se por causa de uma criada magricela! Idiota!”
Não disse nada a Marya enquanto a alcançava, embora a expressão em seu rosto deve ter lhe dito algo. Ela o olhou pensativa e eles retomaram o passo sem mais conversa.
***
O sol já havia se posto atrás das cristas das colinas quando a trilha dos cervos começou a se alargar. Em cerca um quarto de légua, tornou-se um caminho largo e plano que talvez já tivesse sido usado para carroças, embora há muito tempo tivesse cedido espaço à vegetação rasteira. Outras trilhas menores serpenteavam ao lado, distinguíveis em sua maioria como falhas na cobertura lisa de arbustos e árvores. Chegaram a um lugar onde esses caminhos menores se juntavam ao deles e, não muito depois, se viram caminhando outra vez sobre antigas lajes de pedra. Pouco depois, chegaram a Escadaria.
A estrada larga e calcetada cortava o caminho que vinham seguindo, subindo e descendo a colina em uma travessia íngreme. Grama alta brotava entre os ladrilhos cinza e branco rachados, e em alguns lugares grandes árvores haviam crescido através do trajeto, empurrando as pedras para cima e para fora à medida que as árvores cresciam, de modo que cada uma agora estava cercada por um pequeno monte de pedras arrancadas.
— E isso nos levará a Naglimund. — disse Simon, meio para si mesmo. Foram as primeiras palavras que qualquer um dos dois disse em muito tempo.
Marya estava prestes a responder quando algo no topo da colina chamou sua atenção.
Ela olhou fixamente, contudo o que quer que tivesse produzido o clarão de luz havia desaparecido.
— Simon, acho que vi algo brilhante lá em cima.
Ela apontou para o cume da colina, uma boa légua acima deles.
— O que era? — perguntou, no entanto a garota apenas deu de ombros. — Uma armadura, talvez, se o sol ainda refletisse a esta hora do dia. — respondeu a si mesma. — Ou as muralhas de Naglimund, ou... Ou quem sabe...? — seu olhar foi erguido, estreitando os olhos.
— Não podemos sair da estrada. — disse por fim. — Não até chegarmos mais longe, não enquanto houver luz. Nunca me perdoaria se não conseguíssemos levar Binabik até Naglimund, especialmente se... Se...
— Eu sei, Simon, no entanto acho que não conseguiremos chegar até o topo esta noite.
Marya chutou uma pedra, fazendo-a rolar na grama alta ao lado das lajes. Ela fez uma careta.
— Tenho mais bolhas em um pé do que tive em toda a minha vida. E não deve ser bom para Binabik ficar pulando nas costas da loba a noite toda. — Marya o encarou. — Se é que ele vai sobreviver. Você fez tudo o que qualquer um poderia fazer, Simon. Não é sua culpa.
— Eu sei! — respondeu Simon, irritado. — Vamos andar. Podemos conversar sobre isso enquanto caminhamos.
Eles continuaram a caminhar com dificuldade. Não demorou muito para que as sábias palavras de Marya se fizessem óbvias. Simon também estava tão arranhado, cheio de bolhas e esfolado que queria se deitar e chorar... Um Simon diferente, o Simon que vivera sua vida de menino do castelo no labirinto de Hayholt, teria se deitado... Teria se sentado em uma pedra e exigido jantar e dormir. Agora era um pouco diferente... Ainda sentia dor, mas havia outras coisas mais importantes. Mesmo assim, não adiantava nada aleijar a todos.
Por fim, até Qantaqa começou a mancar de uma das pernas. Simon estava pronto para ceder quando Marya avistou outra luz na crista da colina.
Esta não era um reflexo do sol, o crepúsculo azul estava se instalando sobre as encostas.
— Tochas! — gemeu Simon. — Jesuris! Por que agora, quando estamos quase lá?
— Provavelmente é por isso. Aquele monstro do Ingen deve ter ido para o topo da Escadaria para nos esperar. Precisamos sair do caminho!
Com o coração pesado como pedra, eles se afastaram com pressa do calçamento da Escadaria e desceram para uma ravina que se estendia por toda a largura da colina. Correram, tropeçando por várias vezes na luz que se esvaía, até encontrarem uma pequena clareira não mais larga do que a altura de Simon, protegida por uma paliçada de cicutas jovens. Ao olhar para cima uma última vez antes de se esconder na vegetação alta, Simon pensou ter visto os o brilho de mais algumas tochas piscando no topo da colina.
— Que esses bastardos queimem no inferno! — rosnou sem fôlego, agachando-se para desamarrar o corpo inerte de Binabik das costas de Qantaqa. — Aedon! Jesuris Aedon! Como eu gostaria de ter uma espada, ou um arco!
— Você deveria desmontar o Binabik das costas? — Marya sussurrou. — E se tivermos que correr de novo?
— Então eu o carrego. Além do mais, se for para correr, podemos desistir agora. Acho que eu não conseguiria correr cinquenta passos, você conseguiria?
Marya balançou a cabeça com pesar.
Os dois se revezaram bebendo água do cantil enquanto Simon massageava os pulsos e tornozelos de Binabik, tentando fazer o sangue voltar a circular nas extremidades geladas do gnomo. O homenzinho estava respirando melhor agora, embora Simon não tinha certeza se isso duraria muito. Uma fina camada de saliva com sangue entrava e saía de sua boca a cada respiração, e quando Simon puxou a pele das pálpebras do homenzinho, como tinha visto o Doutor Morgenes fazer uma vez com uma camareira desmaiada, o branco dos olhos do gnomo parecia bem cinza.
Enquanto Marya procurava algo para comer na bolsa, Simon tentou levantar uma das patas de Qantaqa para ver por que ela estava mancando. A loba parou de ofegar o suficiente para mostrar os dentes e rosnar em sua direção de uma maneira muito convincente. Quando tentou prosseguir com a investigação, ela mordeu sua mão, as mandíbulas se chocando com força a menos de um centímetro de seus dedos que a sondavam. Simon quase havia esquecido que era uma loba e se acostumara a lidar com Qantaqa como se fosse um dos cães de Tobas. De repente, ficou grato por tê-lo repreendido com tamanho cuidado. Deixou-a sozinha para lamber suas feridas.
A luz diminuiu, estrelas minúsculas florescendo na escuridão crescente acima. Simon mastigava um pedaço de biscoito duro que Marya havia encontrado para ele e desejava ter uma maçã, ou qualquer coisa com suco, quando um ruído fino e estridente começou a se desvencilhar do canto dos primeiros grilos da noite. Os dois se entreolharam e, em busca da confirmação que realmente não precisavam, olharam para Qantaqa. As orelhas da loba estavam erguidas para a frente, seus olhos alertas.
Não havia necessidade de nomear as criaturas que emitiam aquele latido distante. Ambos estavam muito familiarizados com os sons de cães de caça em plena caçada.
— O que devemos... — Marya começou a perguntar, mas Simon balançou a cabeça. Seu punho bateu de frustração contra o tronco de uma árvore e observou com olhar distante o sangue subir na parte de trás de seus nós dos dedos pálidos. Em poucos minutos, estariam na escuridão total.
— Não há nada que possamos fazer. — sibilou. — Se corrermos, só vamos deixar mais rastros para seguirem.
Queria voltar a atacar, quebrar alguma coisa. Estúpido, estúpido, estúpido, toda essa maldita aventura... E para quê?
Enquanto fervia de raiva, Marya se aproximou, levantou seu braço e o colocou em volta do ombro dela.
— Estou com frio! — foi tudo o que disse.
Simon apoiou a cabeça sobre a dela, cansado, com lágrimas de frustração e medo brotando nos olhos enquanto ouvia os ruídos da encosta acima. Agora acreditava ouvir vozes de homens gritando umas para as outras acima do latido dos cães. O que não daria por uma espada! Por mais inexperiente que fosse, poderia ao menos causar-lhes alguma dor antes que o levassem.
Delicadamente, levantou a cabeça de Marya de seu ombro e se inclinou para a frente. Como se lembrava, a bolsa de pele de Binabik estava no fundo do fardo. Puxando-a, passou os dedos por dentro, procurando apenas pelo tato na escuridão da clareira.
— O que está fazendo? — Marya sussurrou.
Simon encontrou o que procurava e fechou a mão envolta. Alguns dos ruídos agora vinham da encosta ao norte deles também, quase no mesmo nível da inclinação. A armadilha estava se fechando.
— Segure Qantaqa. — pediu.
O garoto se levantou e rastejou por uma curta distância, vasculhando a vegetação rasteira até encontrar um galho quebrado de bom tamanho, grosso e mais comprido que seu braço. Trouxe-o de volta e despejou o saco de pólvora de Binabik em cima, depois o colocou com cuidado no chão.
— Vou fazer uma tocha. — explicou, tirando as pedras de pederneira do gnomo.
— Não vai atraí-los até nós? — perguntou a garota, com um tom de curiosidade distante na voz.
— Não vou acendê-la até que seja necessário. — respondeu. — Contudo pelo menos teremos algo... Algo com que lutar.
O rosto de Marya estava oculto na sombra, no entanto podia sentir o olhar dela sobre ele. A garota sabia exatamente o quanto um gesto como aquele seria útil. Simon esperava... E a esperança era muito forte, que ela entendesse por que era um gesto necessário.
O rugido feroz dos cães se aproximava cada vez mais. Simon podia ouvir o som dos arbustos sendo derrubados e os gritos altos dos caçadores. O som de galhos quebrando ficou mais alto, logo acima deles na encosta, aproximando-se rápido... Um barulho alto demais para cachorros, pensou Simon, com o coração palpitando enquanto batia a pederneira contra a pedra. Deviam ser homens a cavalo. A pólvora faiscou, entretanto não pegou fogo. A vegetação rasteira estalava como se uma carroça estivesse capotando por ela.
“Pegue, droga, pegue!”
Algo irrompeu pela mata fechada logo acima do esconderijo deles.
A mão de Marya apertou o braço dele com tanta força que causou dor.
— Simon! — Marya gritou, e então a pólvora crepitou e brilhou; uma flor laranja trêmula desabrochou na ponta do galho. Simon saltou, balançando-a na ponta do braço, as chamas ondulando. Algo caiu de repente de entre as árvores. Qantaqa se soltou do aperto de Marya, uivando.
“Pesadelo!” foi tudo o que Simon conseguia pensar enquanto erguia a tocha; a luz se estendeu, iluminando a coisa que estava de pé, assustada, à sua frente.
Era um gigante.
No instante horripilante e estático que se seguiu, a mente de Simon lutou para absorver o que seus olhos viram... A coisa que se erguia acima dele, balançando sob o brilho da tocha. A princípio, pensou que fosse algum tipo de urso, pois estava coberto por uma pelagem pálida e hirsuta. Mas não, suas pernas eram muito longas, seus braços e mãos de pele negra muito humanos. O topo de sua cabeça peluda estava três côvados acima da de Simon, enquanto se inclinava para a frente na cintura, os olhos semicerrados em seu rosto coriáceo e humanoide.
Os uivos estavam por toda parte, como a música de um coro fantasmagórico de demônios. A besta estendeu um braço longo e com garras, rasgando a carne do ombro de Simon, balançando-o para trás a ponto de ele tropeçar e quase deixar cair a tocha. A luz fugaz de suas chamas iluminou Marya por um momento, cujos olhos se arregalaram de horror enquanto ela agarrava o corpo inerte de Binabik, tentando arrastá-lo para longe do caminho. O gigante abriu a boca e trovejou... Essa era a única palavra possível para o estrondo ecoante que saiu... E voltou a atacar Simon, que saltou para trás, tropeçando em algo e caindo. Porém, antes que a criatura pudesse se mover em sua direção, seu rosnado estrondoso se transformou em um uivo de dor. Ela caiu para a frente, meio desabando no chão.
Qantaqa o havia mordido atrás de um joelho peludo, uma sombra cinzenta correndo de volta para saltar de novo nas pernas do gigante. A besta rosnou e tentou atacar a loba, errando-a uma vez. Na segunda vez, sua mão larga a agarrou; ela rolou várias vezes para dentro do mato.
O gigante se virou para Simon, todavia mesmo enquanto ele, em vão, erguia a tocha à sua frente e via sua luz pulsante refletida nos olhos negros e brilhantes do gigante, uma massa fervilhante de formas surgiu da vegetação rasteira, uivando como o vento em mil torres altas. Elas fervilhavam ao redor do gigante como um oceano furioso... Cães, por toda parte, saltando e mordendo a enorme criatura enquanto esta rugia com sua voz tempestuosa. O gigante girava os braços como moinhos de vento e corpos despedaçados voavam para longe; um deles derrubou Simon no chão, sua tocha cambaleando, entretanto outros cinco saltaram para ocupar o lugar de cada um que fora derrubado.
Mesmo enquanto Simon rastejava até a tocha, sua mente mergulhada em um emaranhado de imagens insanas e febris, a luz de repente floresceu por toda parte. A vasta forma da besta cambaleou pela clareira, rugindo, e então homens vieram, e havia cavalos empinando e pessoas gritando. Uma forma escura saltou sobre Simon, derrubando sua tocha mais uma vez. O cavalo deslizou até parar logo adiante, o cavaleiro de pé sobre sua montaria com uma longa lança oscilando à luz da tocha. Um instante depois, a lança se tornou um grande prego negro cravado no peito do gigante sitiado, que soltou um último rugido estridente e deslizou para baixo sob a manta convulsiva de cães.
O cavaleiro desmontou. Homens com tochas correram por ele para afastar os cães; a luz revelou o perfil do cavaleiro, e Simon se ajoelhou.
— Josua! — exclamou, e então se caiu de bruços.
Sua última visão foi o rosto magro do Príncipe delineado pela luz amarela das chamas da tocha, os olhos arregalados em surpresa.
***
O tempo passou em momentos intermitentes de vigília e escuridão. Ele estava a cavalo diante de um homem silencioso que cheirava a couro e suor. O braço do homem era uma faixa rígida em volta da cintura de Simon enquanto subiam a Escadaria.
Os cascos do cavalo batiam com força na pedra, e percebeu que estava observando o rabo do cavalo balançando à sua frente. Havia tochas por toda parte.
Ele procurava por Marya, por Binabik, por todos os outros... Onde estavam todos?
Uma espécie de túnel os cercava, paredes de pedra ecoando com o som ondulante de batimentos cardíacos. Não, batidas de cascos. O túnel parecia não ter fim.
Uma grande porta de madeira embutida na pedra se erguia diante deles. Ela se abriu lentamente, a luz das tochas inundando o espaço como água através de uma represa rompida, e as silhuetas de muitos homens apareceram na luz da entrada.
E agora desciam uma longa ladeira a céu aberto, os cavalos em fila indiana, uma serpente cintilante de tochas serpenteando pelo caminho à frente até onde a vista alcançava. Ao redor deles, um campo de terra nua, sem nada plantado além de barras de ferro expostas.
Abaixo, as muralhas estavam repletas de mais tochas, os sentinelas observando a procissão que descia das colinas. As muralhas de pedra estavam à frente, ora niveladas, ora elevando-se aos poucos acima de suas cabeças enquanto seguiam a trilha para baixo. O céu noturno estava escuro como o interior de um barril, mas salpicado de estrelas. Com a cabeça balançando, Simon se viu deslizando de volta para o sono... Ou para o céu escuro, era difícil dizer qual.
“Naglimund!” pensou, enquanto a luz das tochas respingava em seu rosto e os homens gritavam e cantavam nas muralhas acima. Então se afastou da luz, e a escuridão o cobriu como uma nuvem de poeira de ébano.
***
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