Volume 01: Aoi — Capítulo 03: Ainda que todos me considerem uma especialista no amor
— Ah, sério! Por que
ninguém atende?
Honoka Shikibu, dentro de
seu quarto, ficou nervosa enquanto segurava o telefone no ouvido.
Já estava no ônibus a
caminho de casa quando percebeu que seu celular havia sumido. Ela estava
pegando o aparelho para atualizar seu blog, como sempre fazia, mas só encontrou
um bolso vazio na saia.
Ao notar, voltou em seguida para a escola e procurou por toda lugar: nas carteiras das salas de aula, nos corredores e em todos os outros lugares por onde tinha passado. Porém não conseguiu encontrar seu celular.
Até pediu para aqueles
que ainda estavam na escola ligarem para o seu celular, contudo a única
resposta que recebeu foi uma notificação de que este estava desligado ou fora
de alcance.
O que eu faço? Ninguém
trouxe para a sala dos professores também. Será que deixei cair naquela hora?
Depois da escola, alguém
de repente a atropelou enquanto caminhava pelo corredor.
O culpado era aquele
colega que se sentava ao seu lado na sala, o delinquente ruivo com aqueles
olhos selvagens. Como se para piorar a situação, ele enterrou o rosto no peito
dela! Aquele pervertido e bastardo idiota, Akagi Koremitsu!
Talvez ele ainda esteja bravo
porque roubei o pão de yakisoba durante o intervalo do almoço e o deixei com
fome.
Quanto mais pensava a
respeito, mais queria lhe dar alguns bons chutes, e sua pele ficava agitada
como se estivesse com uma erupção cutânea.
O celular poderia ter escorregado
do bolso da saia quando o pisoteou mais cedo; era a única possibilidade que
conseguia pensar.
Se alguém o pegasse e
visse seu conteúdo...
Sua visão escureceu e
sentiu como se sua garganta estivesse seca; seu pulso acelerou.
Não... Tudo menos isso!
Ela agarrou a cabeça e
balançou de um lado para o outro. Seus cabelos brilhantes, cor de chá, batiam
em seu rosto.
Vai ficar tudo bem.
Alguém gentil pode ter pegado e levado para a sala dos professores. Mas... Mas
e se for alguém desonesto como Akagi que pegou e viu o conteúdo... UWAAAHH,
não, não, não quero pensar mais.
Shikibu tentou afastar
esse pensamento da mente, contudo seu estômago continuava doendo; não conseguia
comer muito da carne de porco agridoce que tanto amava.
No dia seguinte, Honoka
correu para a sala dos professores no início da manhã e descobriu que seu
celular ainda não havia sido devolvido e que não podia fazer nada além de ir
para sua sala de aula.
— Você não parece muito
bem, Hono. Aconteceu alguma coisa?
Sua boa amiga, a
representante de classe de óculos que usava o cabelo em pequenas tranças,
perguntou preocupada.
— ?Não... Não é nada.
Sua mão foi colocada sob
a barriga e respondeu atordoada.
Nesse momento, Koremitsu
Akagi entrou e sentou-se ao lado em silêncio.
Se o seu celular não
tivesse desaparecido, poderia ter atacado com uma enxurrada de insultos como “pervertido”,
“molestador” e qualquer outra coisa que lhe ocorresse, no entanto nada lhe veio
à mente. Não queria demonstrar nenhum sinal de hesitação e estava prestes a
fulminá-lo com o olhar, entretanto, por algum motivo, Koremitsu já estava a
olhando!
Por um momento, o coração
de Honoka quase parou de bater.
— Geh!
Ela desviou o olhar
apressadamente.
Seu peito soava como um
sino matinal.
P-P-P-P-P-Por que ele
está olhando para mim?
Koremitsu a encarava com
os olhos semicerrados, lábios selados e sobrancelhas franzidas; seu semblante
demonstrava sua seriedade.
Seus joelhos tremeram de
medo e não ousou olhar de volta depois disso.
Quando o período de aula
terminou, Koremitsu sussurrou para Honoka.
— Seu bem precioso está
comigo agora. Venha para o terraço durante o intervalo.
— !
Seu coração quase
congelou de novo.
Koremitsu disse aquilo e
ficou em silêncio mais uma vez.
Aquele delinquente e
molestador pervertido, Koremitsu Akagi, definitivamente leu o conteúdo do
telefone dela.
Não havia dúvida de que
sabia o segredo de Honoka.
Durante o intervalo após
o primeiro período, Koremitsu saiu da sala de aula.
Honoka foi para o telhado
um minuto depois, parecendo doente como um paciente de hospital.
Acho que está planejando
usar o telefone para me chantagear e ameaçar. Isso é o pior.
Que tipo de exigências
indulgentes ele faria?
Honoka sentiu extrema
apreensão ao tropeçar algumas vezes, e seu estômago doía como se algo duro estivesse
sendo revirado dentro.
Ao abrir a porta do
telhado, encontrou Koremitsu parado ali com as mãos nos bolsos.
Suas costas estavam
arqueadas.
Seu cabelo ruivo
bagunçado balançava com a brisa.
Ao notar a chegada de
Honoka, este se virou para encará-la. Seu olhar afiado e vingativo parecia
desafiar tudo neste mundo enquanto franzia a testa para Honoka.
Não importava como alguém
olhasse para tal pessoa, todos o viam como um delinquente, uma pessoa perigosa.
Honoka quase desmaiou.
Entretanto, se lhe
mostrasse qualquer sinal de fraqueza, com certeza seria devorada, com ossos e
tudo.
Não havia como se submeter
a tal pessoa.
Ela afastou o cabelo com
uma das mãos e retribuiu a carranca de Koremitsu com um olhar furioso.
— O que você quer comigo?
Estou muito ocupada.
— Este telefone é seu,
certo?
Koremitsu apresentou o
telefone a ela como o personagem principal de Mito Komon exibindo seu estojo de
foca.
O coração de Honoka
estava dolorido.
— I-I-I-Isso mesmo.
Pensou se deveria sorrir
e agradecê-lo, ou se deveria ficar ressentida por ele não ter retornado o
telefone mais cedo, durante a aula.
Antes que se decidisse,
Koremitsu disse algo que a pegou desprevenida.
— Desculpe, eu vi aquilo
sem querer.
— !
— A mensagem do e-mail
com o nome Princesa Púrpura.
— !!!
— Eu li essa ‘Mansão da
Princesa Púrpura’.
— E-E-E-E-E-E da...
Honoka queria manter a
compostura e perguntar “E daí?”, no entanto sua língua não se submetia à sua
vontade.
A temperatura do seu
corpo oscilava, e não tinha certeza se seu rosto estava corando ou ficando
pálido.
ELE LEU O BLOG!
Em outras palavras,
navegou pelos romances e pelas conversas de amor.
— Então você é a “especialista
em amor” de quem todo mundo fala.
Koremitsu aproximou seu
rosto do de Honoka.
Honoka estava enraizada
no chão.
O-O que está planejando?
Esse delinquente! Molestador!
Ela realmente considerou
chutá-lo do telhado se viesse a tocá-la.
Honoka se posicionou
defensivamente, e os lábios de Koremitsu se curvaram em uma carranca. Ele
ergueu as sobrancelhas e falou com uma postura séria...
— Primeiro, aquilo de
ontem foi um acidente. Não sou um molestador, nem um pervertido. Voltando ao
assunto principal.
O assunto principal? Será
que vai pagar a dívida comigo?
Ela tragou saliva.
— Por favor, me ensine
como persuadir garotas e abrir seus corações!
O delinquente ruivo
abaixou a cabeça, e Honoka não pôde fazer nada além de encará-lo boquiaberta.
***
Na verdade, a própria
Honoka não era boa em lidar com homens.
Isso aconteceu porque, em
um dia de primavera, durante seu primeiro ano do ensino fundamental, ela
conheceu um voyeur senil.
Honoka estava caminhando
alegremente para casa depois da escola, e o sol ainda não havia se posto.
Ela avistou um homem
usando óculos escuros e um casaco, ajoelhado na beira da estrada.
— Você está bem?
Surpreendida, tentou perguntar,
porém o homem se levantou e abriu o casaco, expondo seu corpo completamente nu
e aquela coisa ereta lá embaixo.
Honoka gritou e saiu
correndo.
O quê?
O que era aquilo?
O que era aquela coisa
nojenta na virilha?
Todos os homens são
assim? Nããão! É nojento!
Desde então, essa cena
ocasionalmente lhe vinha à mente, e era horrível o suficiente para fazê-la
gritar.
Houve um tempo em que se
lembrava daquele pervertido toda vez que olhava para os rostos de seus colegas
homens; seu corpo ficava tenso e desviava o olhar, tentando agir como sempre, contudo
se perguntando se encontraria o amor se não conseguisse esquecer aquele
incidente.
Se não conseguisse gostar
de homens, teria que aceitar que havia sido derrotada por aquele pervertido.
Honoka ficou perturbada
com a ideia e orgulhosa o suficiente para não ceder.
Foi por essa razão que,
para superar aquele pervertido, começou a treinar em uma academia de
kickboxing, aprendendo técnicas que poderia usar caso se metesse em encrenca, e
começou a escrever histórias de amor na tentativa de aumentar sua tolerância
aos homens.
No início, exagerou com o
quão irrealistas e enjoativamente doces as histórias eram. “Esse tipo de coisa não
existe na vida real! Homens assim não vão dizer frases tão clichês.” Ela mesma
comentava sobre elas, corando e rolando na cadeira. Com o passar dos dias, sua escrita
melhorou.
O número de leitores
aumentou com o tempo e, a cada atualização, recebia respostas como: “É muito
interessante” e “A história de amor de Natsuno é realmente tocante”. Essas
respostas enchiam Honoka de alegria, então começou a enviar histórias com mais
frequência.
Alguém deixou um
comentário no blog de Honoka pedindo ajuda com problemas amorosos e, quando
respondeu, todos começaram a enviar suas próprias perguntas sobre amor.
Honoka tinha uma
personalidade de “irmã mais velha” e adorava ajudar os outros a resolver seus
problemas. Ela respondia a todas as perguntas que lhe eram feitas e, sem
querer, ficou aclamada como a “Especialista do Amor”.
No entanto nunca tinha
namorado um garoto antes.
***
— Por favor.
O delinquente estava
diante dela, com as mãos nas coxas enquanto fazia uma profunda reverência.
— Por favor... Seja meu
heliotrópio. Seja minha fragrância roxa.
Honoka ficou chocada com
essas palavras repentinas, mas o garoto continuou a implorar, perguntando como
poderia abrir o coração de Aoi Saotome e como poderia cortejar garotas.
Sério, você é um
molestador. Por que está me perguntando isso com uma cara tão séria?
O suor frio escorria pouco
a pouco de seus poros e descia por sua têmpora.
O que devo fazer agora?
Parece que acredita de verdade que sou uma “Especialista em Amor”. Hum, eu
fingi ser a mulher perfeita no meu blog, só que nunca namorei um cara antes.
Como vou dizer uma coisa tão constrangedora?
Koremitsu continuou
mantendo a cabeça baixa, como uma estátua.
Honoka só conseguia ver
seu cabelo ruivo bagunçado com um redemoinho no centro.
As palmas das mãos dela
estavam suadas, mas sua personalidade atenciosa a forçou a seguir em frente.
Ela pode ter tido alguma
culpa por tê-lo chutado sem motivo no dia anterior...
Ele parecia um
delinquente, porém no fundo podia ser inocente...
E ele viu o conteúdo do
seu telefone, então tinha controle sobre a sua fraqueza...
— Se jurar não contar a
ninguém que eu sou a Princesa Púrpura, talvez possa te ajudar.
E assim, por fim pronunciou
essas palavras.
***
Assim, o aconselhamento
amoroso de Honoka começou.
— Ela não quer ouvir uma
única palavra sua? E jogou pincéis, baldes e paletes em você... Você é idiota?
Sua Alteza Aoi do Segundo Ano é uma princesa de verdade, descendente de nobres
de verdade. Muitas das pessoas no campus da nossa escola, matriculadas desde o
jardim de infância, podem ser classificadas como “nobres”; contudo ela é
considerada uma classe superior entre todos os demais. É óbvio que será
rejeitado por esta flor em alturas tão elevadas! Ok... É um pouco antiquado, no
entanto por que não tenta escrever uma carta de amor? Mostre quão sério está
com uma carta apaixonada, uma carta intelectual que a surpreenda com o quão
refinado pode ser.
— As meninas ficarão felizes
quando receberem algumas palavras?
Koremitsu franziu a testa
enquanto resmungava.
— Não palavras, uma
carta! Um bilhete! Como alguém pode se contentar com palavras ditas às pressas,
num impulso de momento?
Bem, como alguém vai
ficar feliz com isso?
Depois de ouvir suas
palavras, Koremitsu pensou consigo mesmo, desanimado, e sentou-se à mesa para
escrever sua carta para Aoi.
Sob a orientação de
Honoka, colocou os pensamentos em palavras escritas, formulou frases a partir
dessas palavras em parágrafos e incorporou o corpo do texto para formar a carta
de Aoi, que Honoka revisou.
Honoka ficou
impressionada com a caligrafia artística de Koremitsu.
Os traços de sua caneta
eram facilmente legíveis, elaborados de forma meticulosa e continham certa firmeza
e masculinidade em sua estrutura.
A composição da carta era
como a de uma criança do ensino fundamental, e Honoka não pôde deixar de se
perguntar se não haveria conserto. Contudo considerou como uma caligrafia tão
bonita por si só poderia ser adequada para expressar amor.
A própria Honoka estava
ansiosa e, depois de encontrar Koremitsu na manhã seguinte na estação, seguiram
para a escola e colocaram a carta que Koremitsu havia copiado em casa no
armário de sapatos de Aoi.
Os dois se esconderam para
assistir, e uma Aoi de pele de marfim chegou.
O cabelo preto caído
sobre seus ombros fazia a pele parecer muito mais pálida, e seu corpo parecia
extremamente frágil.
Hm, agora que olho para
ela, é realmente uma princesa que não se compara em nada ao Akagi. Bem, é a
noiva do Lorde Hikaru, afinal...
Honoka se lembrou do
semblante do menino batizado de “Lorde Hikaru” e de seu carisma, próprio de um
comandante, pelo qual as meninas o exaltavam.
Honoka não gostava de
homens delicados, entretanto sua expressão gentil e sorriso resplandecente
geravam conflito dentro dela. Não importava o número de escândalos em que ele
se envolvesse, sua grandeza e pureza eram perpétuas. Conseguia entender o afeto
das garotas que se sentiam atraídas por tais personagens.
Havia um memorial para o
Lorde Hikaru pendurado no quadro de avisos ao lado da escada, e mais cinco
papéis coloridos foram colados nele pelas meninas, que ainda escreviam em seu
memorial para expressar sua tristeza.
Qualquer cara parece feio
quando comparado a um príncipe sorridente.
Todavia o casamento foi
arranjado pelos seus pais, e Sua Alteza Aoi não parecia ter a menor intenção de
concordar com aquilo. Talvez estivesse incomodada com o comportamento de
Casanova do Lorde Hikaru. Nesse caso, teremos de mostrá-la nossa sinceridade.
Ao lado de Honoka estava
Koremitsu, olhando fixamente para Aoi.
Sua intenção devia ser a
de mostrar uma expressão austera, mas para Honoka, parecia que guardava um
rancor eterno.
Uuh... Acho que ele está
mais obcecado do que sendo sincero aqui.
Foi então que Aoi avistou
a carta.
Sua testa franziu de
leve.
Uma linha de palavras bem
escritas ao lado do nome do remetente dizia. “Eu não sou um molestador”.
Ao ver aquilo, ela rasgou
a carta.
— !
— !
Aoi empilhou os dois
pedaços rasgados um sobre o outro, rasgou-os mais uma vez, jogou-os na lata de
lixo e foi embora.
— Ei, “Especialista no
Amor”, aquela maldita garota rasgou a carta sem ler.
— Pró-Próximo plano,
então.
***
— Entendeu? Assim que Sua
Alteza Aoi passar, vou te dar o sinal e você se aproximará naturalmente. Finja
que deixou o caderno cair sem querer. Sua Alteza Aoi com certeza o pegará.
Nesse caso, aproveite esta oportunidade para se desculpar como um cavalheiro.
— Oh, tudo bem.
Era o intervalo da
segunda aula.
Os dois estavam à
espreita, antecipando a mudança de Aoi da sua primeira sala de aula para a sala
de biologia. Era um método antiquado, porém essa abordagem clássica funcionaria
bem contra uma princesa tão delicada.
— Ela está vindo!
Honoka deu o sinal e Koremitsu
saiu.
Por que você tem que
colocar as mãos nos bolsos? Você é praticamente um delinquente agora!
Koremitsu planejou, com
as mãos nos bolsos, deixar cair “por acidente” seu caderno de estudante.
Ahhh, sério! Não abaixe o
queixo e arqueie as costas desse jeito! Por que está com esse olhar furioso e
fazendo beicinho?
Com Honoka observando-o
com desconfiança, Koremitsu deixou cair seu caderno.
Aoi caminhou na direção
do caderno caído de Koremitsu.
Ela certamente pegaria
seu caderno...
Ou não.
Em vez disso, Aoi pisou no
caderno e foi embora.
— Ei, meu caderno novo agora
tem uma marca de pegada.
— Próximo!
***
Assim, Koremitsu obedeceu
às instruções de Honoka e tentou encontrar Aoi por coincidência, contudo parecia
que Aoi estava firme em ignorar Koremitsu, não importando a situação.
Apesar das inúmeras
tentativas para capturar sua atenção, ela o ignorava prontamente, olhando para
a frente com um olhar vazio e desinteressado. Em seguida, se afastava dele.
Depois da escola, no
telhado.
— Suas estratégias não
são nada eficazes, “Especialista no Amor”.
A crítica de Honoka veio
em resposta à reclamação de Koremitsu.
— Sua cara é muito
selvagem, ok? Todos vão ficar desconfiados quando você se aproximar com essa
cara!
— Você quer que eu faça
uma cirurgia plástica?
— Uuuh, nesse caso,
teremos que usar o feitiço reverso, fazendo de você um cara decente, apesar da
sua aparência delinquente. Certo, vamos lá, delinquente tsundere²!
— EU NÃO SOU UM
DELINQUENTE!
***
No dia seguinte,
Koremitsu se equipou com uma variedade de coisas de gatinhos.
Ele tinha emblemas de gatinhos no peito e nos sapatos, suas meias tinham pegadas de gatinhos gravadas, a alça do chaveiro do seu telefone mostrava um mascote de gatinho e a cabeça de um gatinho de brinquedo saía de sua mochila.
Pelas informações que
Honoka havia passado para Koremitsu, Aoi gostava de gatos. O protetor de tela
do seu celular era uma foto do amado gato que ela mesma criou.
O nome deste querido gato
era Shellblue, e pelo que parecia este foi encontrado em uma caixa de papelão
no parque. O gato era de rua, no entanto Aoi demonstrava sua admiração por
Shellblue, e os dois se aconchegavam na cama.
Depois de verificarem que
Aoi ia para a escola de ônibus, Koremitsu e Honoka esperaram-na no ponto de
ônibus e começaram sua empreitada.
Naquela manhã, o rosto de
Aoi estava mais pálido que de costume, e dava a impressão de estar um tanto
inquieta.
A dupla passou por ela,
conversando alto o suficiente para serem ouvidos.
— Ei, Akagi. Os gatos que
você salvou do afogamento no rio ontem, eles estão bem?
— É, foi uma noite bem
tempestuosa. Os quatro gatos que estavam numa caixa de papelão boiando rio
abaixo ainda estão cheios de energia.
— Ouvi dizer que salvou
um gato de um corvo também.
— Ah, aquela gatinha
malhada prenha? Eu ajudei a dar à luz.
— Você gosta mesmo de
gatos, né? Admito que a culpa é minha por ter te chutado porque pensei que
fosse um molestador. Não existe um amante de gatos que seja mau de coração. Ah,
sim, ouvi dizer que você tem uma coleção de fotos de gatos?
— Ah, posso te emprestar
quando quiser.
Por fim, Aoi, que estava
caminhando atrás deles, interrompeu.
— Ei!
As orelhas de Koremitsu e
Honoka se contraíram.
Está funcionando!
No entanto...
— Vocês poderiam, por
favor, não atrapalhar? — sua voz fria perguntou.
— Ah... Desculpe.
Koremitsu se afastou
apressadamente.
Aoi lançou um olhar que
evocou medo nos dois ao passar.
— Ei, “Especialista no
Amor”, fui ignorado de novo, certo?
Koremitsu gemeu.
***
— Ei, ouça o que estou
dizendo... Não é melhor desistir?
Era hora do almoço.
Honoka e Koremitsu
estavam no parapeito do telhado da escola, admirando a paisagem, e Honoka
expressou seus pensamentos sobre os acontecimentos do dia.
— Sinto muito por não
poder ajudá-lo, mesmo que tenha se curvado e me pedido, mas olhando para a
resposta de Sua Alteza Aoi, sinto que é um tanto impossível.
Honoka estava relutante
em dizer algo tão desanimador, e sentiu pontadas de remorso no coração quando
as palavras saíram de sua boca.
— Você já se esforçou
bastante. Pensei que você fosse só um molestador delinquente, um cara mau, porém
na verdade foi impressionante te ver levando tão a sério a pessoa de quem
gosta. Já que fez tudo o que podia, não acho que seja uma má ideia desistir.
Seria difícil para qualquer
um se recompor depois de ser rejeitado por alguém de quem gostava. Todavia,
Koremitsu continuou se levantando, não importava quantas vezes tivesse falhado.
Não importava o quão
estranhas ou embaraçosas fossem as instruções de Honoka, ele as seguia com
firmeza.
Mesmo sendo um
molestador...
— Se não se importa, vou te
apresentar algumas garotas solteiras.
Ela deixou isso escapar
acidentalmente.
Isso é ruim... Quem eu o
apresento? Mesmo que conheça muitas garotas que não têm namorado... Bem, talvez
a Riko possa. Como ela gosta de filmes de terror, acho que teria alguma
resistência a um rosto assustador...
Honoka estava pensando se
conhecia alguma garota que não seria afetada pela aparência de Koremitsu quando
foi interrompida.
— Ela é a única.
O olhar de Koremitsu caiu
no corrimão enquanto falava.
Honoka voltou sua atenção
para Koremitsu e o viu franzindo a testa, o rosto cheio de agonia e as mãos
tremendo enquanto agarravam o corrimão.
Apesar dessa posição
abatida, sob os cabelos ruivos bagunçados que caíam sobre sua cabeça baixa,
seus olhos exibiam uma aura intensa.
— Eu nunca vou desistir,
não importa o que aconteça.
Ele fez essa declaração
lucidamente.
Honoka ficou hipnotizada
tanto pelo olhar de soslaio quanto pela determinação em sua voz.
BA—DUM! Seu coração
disparou e seu rosto ficou quente como se estivesse pegando fogo.
O-O que é isso?
Por que meu rosto está
corando?
E meu peito está
insuportável. O que é isso?
É por causa do Akagi?
Porque Akagi disse que
não iria desistir?
Qualquer outro garoto
teria desistido muito antes. Dizia-se que, após a morte de Hikaru, muitos
garotos se aproximaram de Aoi, entretanto todos desistiram logo após serem
rejeitados friamente.
Os garotos que tentaram
cortejá-la eram todos bonitos, academicamente excelentes, ricos e cheios de
autoconfiança... Filhos dos “nobres” que estavam naquela escola desde o jardim
de infância.
Contudo, esse Koremitsu,
que era famoso por ser um delinquente, que era considerado pior que um
camponês, um cão selvagem... Que estava muito aquém deles, disse que não
desistiria.
Koremitsu virou a cabeça
para olhar para Honoka.
Sua tola expressão direta...
Uma expressão resoluta... Encarava Honoka.
— Sinto muito por te
fazer me ajudar quando está tão ocupada. Obrigado, no entanto vou tentar
continuar sozinho.
Ele falou desajeitadamente.
Ao ouvi-lo, Honoka sentiu
seu rosto queimar enquanto seu coração batia ainda mais forte.
— Mesmo que tente de novo,
pode não ter sucesso.
Koremitsu também
enrijeceu o rosto enquanto olhava para Honoka com convicção feroz.
— Ainda assim, tenho que
tentar.
O vento balançava os
cabelos ruivos de Koremitsu.
Honoka vacilou diante de
sua determinação.
Mesmo sendo um
delinquente, um molestador...
Ela murmurou em seu
coração.
***
Por que estou tão
preocupada com o Akagi?
Ele já disse que não
precisa dos meus conselhos amorosos...
Depois que as aulas do
dia terminaram, Honoka arrumou suas coisas desanimada.
A cadeira ao lado estava
vazia, e era óbvio que Koremitsu havia corrido para Aoi.
Aquele idiota. Ele vai
ser largado de qualquer jeito.
— Hono... Você tem se
dado bem com Akagi ultimamente.
— HÃ?
A boa amiga de Honoka,
com o cabelo trançado, Michiru, interrompeu de repente, e Honoka gritou de
surpresa.
— Ah, eu sinto o mesmo!
Você consegue falar com o Akagi. Não tem medo dele?
— Ouvi dizer que conseguiu
puxar assunto com o Akagi no telhado. É verdade?
As meninas vieram
abordá-la com um interrogatório entusiasmado.
As pontas de suas orelhas
estavam queimando.
— D-Do que vocês estão falando?
Como pode acontecer alguma coisa entre mim e aquele delinquente? Enfim, é
impossível. Gosto daqueles que são inteligentes, tímidos... Certo, gosto
daqueles garotos intelectuais.
Ela negou firmemente.
Que piada é essa? Tem um
boato sobre mim e o Akagi?
— Veja, muitos garotos
bonitos já se confessaram para você antes, Honoka.
— Mas você rejeitou todos
dizendo “vamos ser apenas amigos”. Não existe amizade entre meninos e meninas,
certo?
— Certo.
Todos as colegas de
classe, com exceção de Michiru, deram seu consentimento juntas.
Michiru olhou para Honoka
através de seus grandes óculos e deu sua resposta tardia.
— Honoka, é melhor não
ser tão exigente só porque é descolada. Tome cuidado para não passar os três
anos do ensino médio sem namorado.
— É verdade. Que tal
irmos juntos para uma festa? Vai ser fácil trazer os meninos se eles souberem
que você vai junto.
— Desculpe, não estou com
humor para isso agora.
Sua resposta foi abrupta.
— Não diga isso. Que tal tentar
também, representante de classe?
Michiru respondeu à
pergunta com um sorriso preocupado.
— Uma festa conjunta para
mim é um pouco...
Foi então que uma voz que
parecia inteligente soou da porta dos fundos da sala de aula.
— A Srta. Honoka Shikibu
ainda está por aí?
Honoka se virou para a
porta e, ao ver a origem da voz, levantou-se com pressa de seu assento.
Cabelos negros, longos e
lisos, capazes de deixar uma impressão indelével, repousavam impecavelmente
sobre os ombros de uma beldade alta, parada à porta. Seu próprio ser suprimia a
atmosfera circundante em uma pausa cativante.
Seus olhos negros
encararam Honoka em silêncio.
Não era um olhar
penetrante, no entanto a inflexível Honoka sentiu seu peito apertar.
Por que a presidente...
Ela sentiu o suor
escorrer pelas costas.
— Sou eu.
Só conseguia pensar em
uma razão para ela, uma veterana cuja reputação era maior do que a de qualquer
outro “nobre”, visitar uma aluna camponesa que só foi matriculada no ensino
fundamental, e lembrar desse boato sobre Koremitsu e ela só serviu para fazer
seu estômago doer mais.
A Presidente do Conselho
Estudantil da Escola de Ensino Médio da Academia Heian, Asai Saiga... Apelidada
de Matriarca Asa, falou com uma Honoka pensativa com calma e autoridade.
— Quero te perguntar uma
coisa. Poderia vir até a sala do Conselho Estudantil?
***
Koremitsu estava
preocupado enquanto estava na sala de artes.
Aoi virou as costas para
ele e voltou a pintar.
Koremitsu, parado atrás
dela, dava a impressão de um cachorro faminto; entretanto não importava o
quanto sofresse com as coisas, não mudaria a situação.
— Domingo não é o seu
aniversário?
Ele falou com ela
sinceramente.
— ...
— Não pode me acompanhar
por apenas um dia?
— ...
Aoi continuou a mover seu
pincel sem dizer nada.
Na tela, havia uma escada
na névoa dourada semitransparente. A pintura era tão calorosa, todavia as
costas de Aoi, ao lado, pareciam tão frias quanto os flocos de neve
esvoaçantes. Os outros membros do clube de arte estavam longe dos dois,
remexendo-se em seus assentos, desconfortáveis a ponto de ser preciso sentir
pena delas.
Droga, como posso fazê-la
olhar para mim?
Koremitsu já havia dito a
Honoka que cuidaria do resto, mas conseguiria fazer Aoi mudar de ideia antes do
seu aniversário?
Não restava muito tempo,
e essa situação fez com que sua garganta secasse por causa da ansiedade.
Sua “namorada” é muito
difícil de lidar.
Ele lançou um olhar amargo
para Hikaru.
Hikaru respondeu com um
olhar igualmente angustiado, porém demonstrou sua determinação sorrindo e
passando por Koremitsu para ficar ao lado de Aoi.
— Senhorita Aoi.
Ele olhou para o perfil do
rosto imóvel de Aoi com uma expressão gentil e a chamou em uma calma voz.
— Dar seus sete presentes
de aniversário pode ser um ato imprudente para você, Srta. Aoi, contudo essa é
uma promessa muito importante para mim.
Enquanto a luz quente e
suave do sol brilhava pela janela, sua voz doce e sentimental fluía como uma
fragrância pura.
— Continuarei aqui para
cumprir a promessa que fiz a você, Srta. Aoi.
Aoi não conseguia ouvir
as palavras de Hikaru...
No entanto depois de ver
Hikaru falar de forma tão séria, Koremitsu prendeu a respiração.
A voz de Hikaru
enfraqueceu um pouco.
— Então minha voz
realmente não consegue alcançar os ouvidos da Srta. Aoi... Se me ouvir, mesmo
que seja um pouco, por favor, coloque um dedo nos lábios para indicar isso.
Droga... Que expressão é
essa?
Era provável que Hikaru
soubesse há muito tempo que não importava se era sua voz ou sua silhueta, Aoi
era incapaz de notá-la.
Mesmo sabendo que era
impossível, continuou a ter esperança de que Aoi, que ainda pintava de costas
para ele, se virasse e o visse.
Enquanto olhava para a
pequena figura aparentemente distante que olhava sempre para frente, Koremitsu
se lembrou de algo que havia esquecido há muito tempo.
A silhueta de um dorso,
desaparecendo na escuridão sob a fraca iluminação de um poste de luz.
Durante sua adolescência,
quando continuava a olhar pela janela sem expressão, não havia resposta, não
importava o quanto gritasse.
Aquelas costas se
sobrepunham às do Aoi.
Nenhuma delas se virou.
— Aoi.
A voz lânguida de Hikaru
gritou mais uma vez e implorou por um milagre.
Na adolescência,
Koremitsu rezava para que sua mãe sorrisse para ele, para que levantasse a
cabeça e para que, mesmo com o menor sorriso, acariciasse sua cabeça.
Por favor, por favor.
Por favor, Deus.
Ele orou inúmeras vezes
em seu coração.
Por favor, por favor, me
ajude.
Tch, o que eu estava
pensando naquela época?
Nove anos atrás, no
aniversário de sua mãe, decidiu presenteá-la com sua palavra favorita. Depois
de assistir à aula de caligrafia do avô, sentou-se na mesa de estudos, moeu um
pouco de tinta e escreveu a palavra em papel japonês.
Sua caligrafia não era
boa, então teve que reescrevê-la algumas vezes.
Enquanto escrevia, orava
a Deus para que seu dom trouxesse alegria à sua mãe, e a tinta com que escrevia
respingou em suas mãos e rosto.
Naquela noite, antes que
pudesse oferecer o presente à mãe, ela abandonou o jovem Koremitsu e fugiu de
casa.
Sua figura esguia
desapareceu na escuridão e nunca mais voltou.
— Sinto muito. Sinto
muito mesmo, Mitsu.
Ele continuou a escrever,
esforçando-se ao máximo, tentando conter as lágrimas que escorriam do rosto da
mãe enquanto ela se desculpava, e também fazê-la sorrir. No fim, nunca lhe
entregou seus escritos.
No dia seguinte à partida
da mãe, desenhou cruzes em cada papel em que havia escrito. Ranho escorria de
seu nariz enquanto desenhava cruz após cruz.
Enquanto olhava para Aoi,
sentiu que não eram as suas costas que estava vendo, mas as de sua mãe. A
sensação durou apenas um momento.
Deus nunca respondeu às
orações de Koremitsu.
Quando Hikaru lhe mostrou
aquela expressão de oração tão familiar, Koremitsu não pôde deixar de orar por
ele também.
Mesmo que seja por pouco
tempo, realize o desejo desse cara. Eu consigo vê-lo tão claramente; você não
pode deixar Aoi ouvir um pouquinho também?
Assim que o peito de
Koremitsu começou a doer como se estivesse sendo esmagado, Aoi mergulhou seu
pincel na cor marrom escura em sua paleta.
O pincel fez uma longa
linha preta diagonalmente para baixo a partir do canto superior esquerdo da
tela.
A expressão de Hikaru
congelou na hora.
Koremitsu sentiu como se
estivesse sendo cortado pela frente.
Aoi desenhou uma linha
diagonal a partir do canto superior direito.
A grande cruz preta que
havia desenhado quando criança veio à mente de novo, e sentiu como se seus
olhos estivessem em chamas.
— O que você está
fazendo?
Koremitsu berrou enquanto
agarrava Aoi pelo braço.
Os outros membros olhavam
com expressões horrorizadas; os membros que estavam fazendo permanente no
cabelo e fazendo as unhas umas das outras deixaram cair seus modeladores de
cachos e esmaltes.
Havia uma cruz grande e
feia na tela que continha um sopro de luz.
— Por favor, não me
toque.
Aoi sacudiu a mão de
Koremitsu.
Sua pele era de uma palidez
medonha, e seus olhos demonstravam raiva e ressentimento.
— Você... Por que fez
isso com a pintura?
— Não posso... Falar com
você. Foi o que Asa me disse.
Droga! Essa Asa de novo?
Aoi virou o rosto para
longe de Koremitsu enquanto soltava essas palavras com força, parecendo conter suas
emoções internas.
Aoi se afastou de
Koremitsu enquanto falava com firmeza, contudo suas verdadeiras emoções
pareciam estar contidas.
— É por isso que estou
apenas murmurando para mim mesma... Aquele Hikaru...
Hikaru estava parado ao
lado de Aoi, sem entender nada, no entanto, ao ouvir seu nome, seus ombros se
contraíram.
Koremitsu ficou
apreensivo e prendeu a respiração.
O que ela vai dizer? Algo
pior?
— Até onde sei... Hikaru...
Seus lábios macios
pareciam doloridos quando pronunciou essas palavras, e suas mãos tremiam.
— É a pessoa mais
desonesta... Deste mundo...
Seu rosto endureceu e um
brilho implacável surgiu em seus olhos. Hikaru, que estava parado à sua frente,
franziu as sobrancelhas e olhou para Aoi com dor nos olhos.
Não. Já chega, não diga
mais nada.
— O pior... Mentiroso.
Os olhos de Hikaru
estavam tingidos com a cor da agonia.
O coração de Koremitsu
parecia ter sido cortado.
Hikaru entendeu o quão
insincero havia sido com Aoi, e ainda assim, as palavras ditas na sua frente e
a cruz desenhada na tela engoliram seu coração por inteiro; a agonia de ser
rejeitado por uma pessoa tão preciosa levou sua alma ao lamento.
— Você não precisa ser
tão cruel, mesmo que o próprio Hikaru seja um mulherengo.
Aoi cruzou os braços e
murmurou.
— De qualquer forma, isso
é um fato... Eu odiava o Hikaru mais do que qualquer outra pessoa neste mundo.
Ele me irritava o tempo todo e mentia para mim com frequência. Não existe outro
cara pior. É um homem completamente podre por dentro, apesar da sua aparência
requintada por fora.
— O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ
DIZENDO?
Aoi menosprezar Hikaru
perturbou Koremitsu, e isto o lembrou de suas preces não atendidas e das
emoções que experimentara na infância: dor e desespero. Essas falas lhe
arrancaram esses sentimentos do fundo do coração, e o sangue subiu à cabeça;
suas veias pulsavam de raiva, que subia muito abaixo do seu ventre.
— Koremitsu.
Hikaru tentou acalmar
Koremitsu, no entanto a raiva que o devorava só aumentou. Aoi mordeu os lábios
e respirou fundo, embora continuou culpando Hikaru.
— Não sei exatamente com
quantas mulheres o Hikaru saiu, mas é porque não consigo contar todas. Sempre
estando com mulheres diferentes, e quando pergunto “Quem é essa pessoa?”, ele
responde “uma conhecida” ou “uma amiga” com aquele sorriso santo no rosto. De toda
forma, só me respondia com um sorriso gentil, mesmo quando estou com raiva... Ele
sorri e pratica aquelas desonestidades com outras garotas.
Seu pálido rosto estava
tingido de vermelho.
Hikaru deu apoio a Aoi e
continuou a implorar a Koremitsu, dizendo-lhe.
— Estou bem!
— É por essa razão que
esse canalha merece minha retribuição!
Ao ouvir aquilo,
Koremitsu soltou um rugido.
— NÃO OUSE DIZER ISSO
COMO SE FOSSE UM FATO!
Seu ataque sacudiu a
janela e assustou Aoi.
— Calma, Koremitsu! Estou
bem aqui! Certo? Veja, todo mundo está com medo agora.
Hikaru tentou o que pôde
para parar Koremitsu, porém suas emoções transbordantes não puderam ser
contidas.
— HIKARU NÃO É UM LIXO!
ELE ESTÁ SE ESFORÇANDO AO MÁXIMO PARA CUMPRIR A PROMESSA QUE FEZ COM VOCÊ,
MESMO AGORA!
Ele disse que era uma
promessa muito importante.
Disse que era uma garota
muito importante.
Mesmo agora, olhava para
Aoi com tanta paixão, tanta ternura, tanta melancolia! Continuou a falar com
ela em vão, esperando que o notasse.
Sua mãe virou as costas e
foi embora.
Aoi desenhou a grande
cruz na tela.
Continuou implorando e
praticando para fazê-la feliz.
Por que tinha só ignorado
e abandonado isso de forma tão leviana?
Depois de perceber que os
membros do clube de arte estavam amontoadas com medo, Koremitsu cerrou os
dentes com força.
— ...
Reconsiderou sobre a
explosão que teve depois de se perder, no entanto foi devido à raiva
incontrolável que sentiu pelas palavras de Aoi.
— Tudo bem, já chega.
Ele lançou a Aoi seu pior
olhar depreciativo.
— Você não tem o direito
de aceitar os sentimentos do Hikaru. Quem estaria disposto a fazer tal coisa? É
um desperdício apresentá-los a alguém como você.
Aoi mordeu os lábios
enquanto grandes lágrimas escorriam de seus olhos, e tentou se afastar de
Koremitsu.
— Então... Que assim
seja. Ainda que estivesse vivo, Hikaru não cumprirá essa promessa de qualquer
maneira. Tratará essa promessa como se não fosse nada.
Aoi soltou um som baixo
de engasgo, lançou um olhar frio para Koremitsu e continuou a falar com a voz
rígida.
— Foi apenas um impulso
de momento, como antes.
Koremitsu não aguentou
mais a recusa de Aoi em responder a Hikaru, e também não estava disposto a
deixar Hikaru ouvir mais, abriu a porta com um puxão e saiu da sala de artes.
— Anda logo, esquece esse
tipo de mulher e vá para o céu! É como o vovô dizia, as mulheres são as piores!
Koremitsu gritou com a
voz trêmula enquanto caminhava pelo corredor.
Estava furioso o
suficiente para ignorar os olhares que o fitavam. Seu peito parecia ter sido
cortado ao meio e sua cabeça parecia ferver. Seus olhos estavam quentes e seu
nariz estava entupido.
— Você está chorando,
Koremitsu?
Hikaru perguntou em seu
estado de admiração.
— É-É por isso que disse...
Não sei como atrair as mulheres. Elas ficam tristes, ficam bravas sempre que
querem, não falam quando não querem, vão embora quando querem...
Apesar de seus esforços
para impedir, ranho vazava de seu nariz, e não conseguia impedir que as
lágrimas rolassem por suas bochechas.
— É por isso que odeio me
envolver com mulheres de qualquer forma... Não brinque comigo. Droga, ela nem
tentou entender a intenção dos outros... Só pode estar brincando.
Seu peito queimava, e
lágrimas amargas e salgadas escorriam pelo seu rosto.
Suas mãos cobriram o
rosto para abafar os soluços; para ele, um homem chorar era constrangedor.
— Koremitsu, vamos até
lá.
Seguindo a sugestão de
Hikaru, Koremitsu cambaleou até um corredor mais vazio e agachou-se em um
canto. Ele expressou seu arrependimento, e Hikaru silenciosamente o consolou.
— Desculpe, Koremitsu. A
culpa é minha por te confiar esse trabalho. Você se machucou por minha causa.
Não é sua culpa.
Koremitsu queria responder.
A raiva que sentia por
Aoi não era culpa de Hikaru. As experiências traumáticas que viveu na infância
eram a fonte de sua raiva, e só piorou a situação ao jogar essa raiva em Aoi.
A voz de Hikaru era suave
demais e, como uma mão quente, acalmou o coração de Koremitsu. Depois de se
acalmar, falou inadvertidamente.
— Não peça desculpas nem
nada agora.
— Mas...
— Odeio quando as pessoas
pedem desculpas. O que pode mudar quando o faz? Pode resolver alguma coisa? É
porque nada pode ser mudado que pedimos desculpas, certo...? Então não peça
desculpas para mim.
Até recentemente, receber
pedidos de desculpas de outras pessoas era algo desconhecido para Koremitsu.
Desculpe.
Desculpe.
Mitsu.
Desculpe.
O rosto pálido de sua mãe
estava voltado para o jovem Koremitsu; suas bochechas estavam molhadas, e por
várias vezes ela se desculpou com uma voz fraca. “Desculpe, desculpe.”
Seu rosto estava borrado,
e Koremitsu não conseguia se lembrar.
Porém, as lágrimas que
rolavam por aquele rosto, a voz terna que pedia desculpas continuamente, o
corpo esguio que desaparecia. Por vezes se lembrava da cena, e seu coração
parecia ter sido despedaçado.
— Sinto muito, Sr. Akagi.
— Desculpe.
Seus colegas de classe se
desculpavam com ele, com terror evidente em seus rostos.
Eles então saíam com uma
aparência horrível.
Nunca pensou em fazê-los
pedir desculpas.
Essas palavras feriram
seu ser mais profundo e criaram cicatrizes que nunca poderiam curar.
É por isso que eu
realmente odeio quando você pede desculpas! Não termine tudo com desculpas!
Koremitsu não conseguia
controlar suas emoções crescentes e fez beicinho como uma criança irracional,
cobrindo-se enquanto chorava. Hikaru gentilmente colocou a mão no ombro de
Koremitsu.
Koremitsu olhou para a
mão de Hikaru e viu que ela afundava em seu ombro. Hikaru gentilmente abaixou o
olhar e se aproximou da outra metade do corpo de Koremitsu.
Um fantasma não deveria
ter calor corporal, contudo Koremitsu sentiu um calor vindo do ombro que a mão tocou;
esse calor, junto com a expressão gentil de Hikaru, acalmou seu coração.
Esta foi a primeira vez
que foi consolado por outra pessoa.
Nunca teve um amigo para
ouvir suas reclamações, mesmo que esse amigo fosse apenas “temporário”.
— Eu... Não sou uma
garota que está chorando.
Seu protesto foi seguido
por uma fungada.
— Hm, eu já sabia que
você não é uma papoula lamentável.
Hikaru sussurrou com
gentileza.
— Então, por que... Preciso
ser consolado por você? Aoi já disse todo tipo de coisa insuportável a seu
respeito, e você está morto; deveria estar sofrendo pelo menos cem vezes mais
do que eu. Nesse caso, eu é que deveria confortá-lo. Agora realmente quero
chorar quando te vejo com uma expressão tão calma.
Hikaru voltou a colocar a
mão no ombro de Koremitsu e respondeu com uma atitude calma e madura.
— Não consigo chorar...
Não me lembro de já ter chorado. Não sei chorar.
Hikaru olhou para
Koremitsu de olhos arregalados com um sorriso compassivo.
— Minha mãe era amante do
meu pai. Ela era frágil e morreu quando eu tinha 4 anos. Pouco antes de morrer,
minha mãe me disse o seguinte: “Hikaru, você precisa continuar sorrindo, não
importa o que aconteça. Se o fizer, todos vão te amar. Se alguém lhe fizer algo
ruim, encha seu coração de amor e sorria de volta...”
Hikaru narrou as palavras
de sua falecida mãe com uma voz clara e mostrou uma expressão profunda e
serena.
— Minha mãe sabia que não
viveria por muito tempo e queria me ensinar uma maneira de me relacionar com
meus parentes e a família paterna.
Ele fechou os olhos.
Ainda não havia nenhuma
lágrima caindo abaixo de suas longas sobrancelhas.
— Qual é a sensação de
deixar as lágrimas rolarem?
A pergunta veio com um
tom de expectativa.
— Por favor, continue
sorrindo, Hikaru.
— Encha seu coração de
amor.
Sua mãe morreu quando
tinha quatro anos, então como viveu depois disso... Em que casa estava
hospedado? Com quem estava morando?
As palavras de Hikaru não
deixaram dúvidas; ele nunca se acostumou com sua nova família e sua vida era
difícil. Apenas continuou a seguir o conselho da mãe e sorriu.
— Por favor, continue
sorrindo.
Certamente, um sorriso
era a única defesa de Hikaru.
Koremitsu refletiu sobre
a vida de Hikaru e como este a passou sozinho. Seu choro foi reforçado por isso
e, mesmo com todos os seus esforços, não conseguia parar.
Koremitsu esqueceu como
sorrir quando era jovem.
Ninguém ensinou Hikaru a
chorar.
— É difícil perceber pela
sua aparência, no entanto você realmente sabe chorar, Koremitsu. Que pena. Se
eu conseguisse chorar como você, o instinto maternal das meninas iria entrar em
ação e elas começariam a me confortar. A maioria com certeza vai me dar um
serviço maravilhoso também.
Hikaru falou com
indiferença e um sorriso afetuoso nos lábios.
Talvez quisesse animar
Koremitsu dessa forma.
— Seu pervertido.
Koremitsu respondeu com
rispidez e enxugou as lágrimas nas mangas.
O corredor em frente à
sala de aula vazia estava vazio, e o espaço místico tinha um ambiente
rejuvenescedor que amenizava o rosto escaldante de Koremitsu.
Conseguindo conter suas
lágrimas, no entanto ainda queria sentar-se ao lado de Hikaru por um tempo.
Sentiu uma complexa sensação de empatia e confiança enquanto tentava expressar
essa vaga emoção, abraçando os joelhos.
— E-Ei, eu não disse... Que
as flores murcham fácil e não são comestíveis antes... Elas não podem ser
usadas para nada...?
— Sim. Combinamos de
fazer um piquenique também.
— Que tipo de acordo é
esse...
— Haha, eu não mencionei
isso?
— Bom... Quando fui
hospitalizado pela primeira vez, Koharu me trouxe algumas flores.
— Heh.
— Eram flores brancas nos
caules... E os botões eram felpudos. Pensei que seria um pouco sinistro receber
flores brancas em um hospital, porém meu coração se acalmava sempre que as
olhava da cama... Quando estive ansioso por não poder ir à escola no início do
semestre, podia me acalmar pouco depois de olhar para elas... Senti que não
havia nada que eu pudesse realizar ficando tão ansioso.
Um sorriso surgiu nos
lábios de Hikaru e seus olhos se estreitaram.
Sua aparência exalava um
brilho feliz.
— Sim, as flores têm esse
tipo de poder. Ficamos felizes em vê-las.
— B-Bem... Podem
realmente ter esse tipo de poder. É por isso que... De vez em quando, presto
atenção em você falando de flores.
A disposição de Koremitsu
em ouvir Hikaru falar sobre flores o encantou, e ele abriu um sorriso
brilhante.
— Obrigado.
— Mas só de vez em
quando.
— Entendi. Então não vou
te incomodar. Por sinal, lembro que você foi hospitalizado porque foi
atropelado por um caminhão, certo? Como aconteceu? Vai me dar uma resposta se
eu perguntar agora?
— Uuh.
A pergunta deixou
Koremitsu perplexo.
Hikaru parecia uma
criança brincalhona enquanto esperava uma resposta, e Koremitsu sentiu que
Hikaru também esperava avaliar o quão próximos os dois haviam se tornado desde
sua primeira aparição como um fantasma.
Koremitsu respondeu
atordoado.
— Um velho queria
atravessar o cruzamento mesmo com o sinal vermelho... Falei para que parasse, contudo
ele correu em direção ao caminhão gritando “Ogro”. Corri atrás e fui atropelado
pelo caminhão.
Alguém, talvez o
motorista ou um transeunte, gritou para avisá-lo do perigo, no entanto
Koremitsu foi arremessado para longe antes que tivesse tempo de reagir.
Koremitsu acordou no
hospital e, no lugar do velho, Koharu estava ao lado de sua cama.
— Então você salvou o
velho, Koremitsu. Que heroico.
— Não foi. Não fale como
se fosse algo glorioso.
O velho fugiu ao avistar
seu rosto aterrorizante, e o próprio Koremitsu foi atingido pelo caminhão. A
catástrofe foi extremamente constrangedora, e não teve a audácia de se
autodenominar um herói.
Hikaru riu.
— Não é ótimo, herói? Seu
rosto está vermelho, herói. Você adora chorar e fica tímido com muita
facilidade, herói.
— Certo, já chega? Tch,
vamos para casa.
Koremitsu percebeu que
suas narrações o deixavam ainda mais perturbado, e elas só alimentavam o desejo
de Hikaru de provocá-lo. Diante dessa revelação, ficou sério e se levantou.
Então se afastou de
Hikaru e pretendia partir, todavia a risada de Hikaru foi substituída por um
tom sincero.
— Ei, herói, tem um lugar
onde quero passar. Poderia vir comigo? Vou te mostrar umas flores fofas que eu
tenho guardadas.
Notas:
1. Mito Komon é um drama histórico japonês onde o personagem principal resolve injustiças incorridas a distintos personagens, e cada episódio termina com um enfrentamento contra o vilão, que toma ciência da identidade de Mito Komon quando este revela o emblema Tokugawa.
2. Tsundere é um termo de origem japonesa para um tipo de personalidade que alterna entre ser agressivo, frio e distante (tsun tsun) e doce e amável (dere dere). Essa persona é comum em personagens de animes, mangás e jogos, e a mudança no comportamento geralmente acontece com uma pessoa por quem têm afeição romântica.


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