domingo, 8 de fevereiro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 01 — Capítulo 03

Volume 01: Aoi  Capítulo 03: Ainda que todos me considerem uma especialista no amor


— Ah, sério! Por que ninguém atende?


Honoka Shikibu, dentro de seu quarto, ficou nervosa enquanto segurava o telefone no ouvido.

 

Já estava no ônibus a caminho de casa quando percebeu que seu celular havia sumido. Ela estava pegando o aparelho para atualizar seu blog, como sempre fazia, mas só encontrou um bolso vazio na saia.

 

Ao notar, voltou em seguida para a escola e procurou por toda lugar: nas carteiras das salas de aula, nos corredores e em todos os outros lugares por onde tinha passado. Porém não conseguiu encontrar seu celular.


Até pediu para aqueles que ainda estavam na escola ligarem para o seu celular, contudo a única resposta que recebeu foi uma notificação de que este estava desligado ou fora de alcance.

 

O que eu faço? Ninguém trouxe para a sala dos professores também. Será que deixei cair naquela hora?

 

Depois da escola, alguém de repente a atropelou enquanto caminhava pelo corredor.

 

O culpado era aquele colega que se sentava ao seu lado na sala, o delinquente ruivo com aqueles olhos selvagens. Como se para piorar a situação, ele enterrou o rosto no peito dela! Aquele pervertido e bastardo idiota, Akagi Koremitsu!

 

Talvez ele ainda esteja bravo porque roubei o pão de yakisoba durante o intervalo do almoço e o deixei com fome.

 

Quanto mais pensava a respeito, mais queria lhe dar alguns bons chutes, e sua pele ficava agitada como se estivesse com uma erupção cutânea.

 

O celular poderia ter escorregado do bolso da saia quando o pisoteou mais cedo; era a única possibilidade que conseguia pensar.

 

Se alguém o pegasse e visse seu conteúdo...

 

Sua visão escureceu e sentiu como se sua garganta estivesse seca; seu pulso acelerou.

 

Não... Tudo menos isso!

 

Ela agarrou a cabeça e balançou de um lado para o outro. Seus cabelos brilhantes, cor de chá, batiam em seu rosto.

 

Vai ficar tudo bem. Alguém gentil pode ter pegado e levado para a sala dos professores. Mas... Mas e se for alguém desonesto como Akagi que pegou e viu o conteúdo... UWAAAHH, não, não, não quero pensar mais.

 

Shikibu tentou afastar esse pensamento da mente, contudo seu estômago continuava doendo; não conseguia comer muito da carne de porco agridoce que tanto amava.

 

No dia seguinte, Honoka correu para a sala dos professores no início da manhã e descobriu que seu celular ainda não havia sido devolvido e que não podia fazer nada além de ir para sua sala de aula.

 

— Você não parece muito bem, Hono. Aconteceu alguma coisa?

 

Sua boa amiga, a representante de classe de óculos que usava o cabelo em pequenas tranças, perguntou preocupada.

 

— ?Não... Não é nada.

 

Sua mão foi colocada sob a barriga e respondeu atordoada.

 

Nesse momento, Koremitsu Akagi entrou e sentou-se ao lado em silêncio.

 

Se o seu celular não tivesse desaparecido, poderia ter atacado com uma enxurrada de insultos como “pervertido”, “molestador” e qualquer outra coisa que lhe ocorresse, no entanto nada lhe veio à mente. Não queria demonstrar nenhum sinal de hesitação e estava prestes a fulminá-lo com o olhar, entretanto, por algum motivo, Koremitsu já estava a olhando!

 

Por um momento, o coração de Honoka quase parou de bater.

 

— Geh!

 

Ela desviou o olhar apressadamente.

 

Seu peito soava como um sino matinal.

 

P-P-P-P-P-Por que ele está olhando para mim?

 

Koremitsu a encarava com os olhos semicerrados, lábios selados e sobrancelhas franzidas; seu semblante demonstrava sua seriedade.

 

Seus joelhos tremeram de medo e não ousou olhar de volta depois disso.

 

Quando o período de aula terminou, Koremitsu sussurrou para Honoka.

 

— Seu bem precioso está comigo agora. Venha para o terraço durante o intervalo.

 

— !

 

Seu coração quase congelou de novo.

 

Koremitsu disse aquilo e ficou em silêncio mais uma vez.

 

Aquele delinquente e molestador pervertido, Koremitsu Akagi, definitivamente leu o conteúdo do telefone dela.

 

Não havia dúvida de que sabia o segredo de Honoka.

 

Durante o intervalo após o primeiro período, Koremitsu saiu da sala de aula.

 

Honoka foi para o telhado um minuto depois, parecendo doente como um paciente de hospital.

 

Acho que está planejando usar o telefone para me chantagear e ameaçar. Isso é o pior.

 

Que tipo de exigências indulgentes ele faria?

 

Honoka sentiu extrema apreensão ao tropeçar algumas vezes, e seu estômago doía como se algo duro estivesse sendo revirado dentro.

 

Ao abrir a porta do telhado, encontrou Koremitsu parado ali com as mãos nos bolsos.

 

Suas costas estavam arqueadas.

 

Seu cabelo ruivo bagunçado balançava com a brisa.

 

Ao notar a chegada de Honoka, este se virou para encará-la. Seu olhar afiado e vingativo parecia desafiar tudo neste mundo enquanto franzia a testa para Honoka.

 

Não importava como alguém olhasse para tal pessoa, todos o viam como um delinquente, uma pessoa perigosa.

 

Honoka quase desmaiou.

 

Entretanto, se lhe mostrasse qualquer sinal de fraqueza, com certeza seria devorada, com ossos e tudo.

 

Não havia como se submeter a tal pessoa.

 

Ela afastou o cabelo com uma das mãos e retribuiu a carranca de Koremitsu com um olhar furioso.

 

— O que você quer comigo? Estou muito ocupada.

 

— Este telefone é seu, certo?

 

Koremitsu apresentou o telefone a ela como o personagem principal de Mito Komon exibindo seu estojo de foca.

 

O coração de Honoka estava dolorido.

 

— I-I-I-Isso mesmo.

 

Pensou se deveria sorrir e agradecê-lo, ou se deveria ficar ressentida por ele não ter retornado o telefone mais cedo, durante a aula.

 

Antes que se decidisse, Koremitsu disse algo que a pegou desprevenida.

 

— Desculpe, eu vi aquilo sem querer.

 

— !

 

— A mensagem do e-mail com o nome Princesa Púrpura.

 

— !!!

 

— Eu li essa ‘Mansão da Princesa Púrpura’.

 

— E-E-E-E-E-E da...

 

Honoka queria manter a compostura e perguntar “E daí?”, no entanto sua língua não se submetia à sua vontade.

 

A temperatura do seu corpo oscilava, e não tinha certeza se seu rosto estava corando ou ficando pálido.

 

ELE LEU O BLOG!

 

Em outras palavras, navegou pelos romances e pelas conversas de amor.

 

— Então você é a “especialista em amor” de quem todo mundo fala.

 

Koremitsu aproximou seu rosto do de Honoka.

 

Honoka estava enraizada no chão.

 

O-O que está planejando? Esse delinquente! Molestador!

 

Ela realmente considerou chutá-lo do telhado se viesse a tocá-la.

 

Honoka se posicionou defensivamente, e os lábios de Koremitsu se curvaram em uma carranca. Ele ergueu as sobrancelhas e falou com uma postura séria...

 

— Primeiro, aquilo de ontem foi um acidente. Não sou um molestador, nem um pervertido. Voltando ao assunto principal.

 

O assunto principal? Será que vai pagar a dívida comigo?

 

Ela tragou saliva.

 

— Por favor, me ensine como persuadir garotas e abrir seus corações!

 

O delinquente ruivo abaixou a cabeça, e Honoka não pôde fazer nada além de encará-lo boquiaberta.

 

***

 

Na verdade, a própria Honoka não era boa em lidar com homens.

 

Isso aconteceu porque, em um dia de primavera, durante seu primeiro ano do ensino fundamental, ela conheceu um voyeur senil.

 

Honoka estava caminhando alegremente para casa depois da escola, e o sol ainda não havia se posto.

 

Ela avistou um homem usando óculos escuros e um casaco, ajoelhado na beira da estrada.

 

— Você está bem?

 

Surpreendida, tentou perguntar, porém o homem se levantou e abriu o casaco, expondo seu corpo completamente nu e aquela coisa ereta lá embaixo.

 

Honoka gritou e saiu correndo.

 

O quê?

 

O que era aquilo?

 

O que era aquela coisa nojenta na virilha?

 

Todos os homens são assim? Nããão! É nojento!

 

Desde então, essa cena ocasionalmente lhe vinha à mente, e era horrível o suficiente para fazê-la gritar.

 

Houve um tempo em que se lembrava daquele pervertido toda vez que olhava para os rostos de seus colegas homens; seu corpo ficava tenso e desviava o olhar, tentando agir como sempre, contudo se perguntando se encontraria o amor se não conseguisse esquecer aquele incidente.

 

Se não conseguisse gostar de homens, teria que aceitar que havia sido derrotada por aquele pervertido.

 

Honoka ficou perturbada com a ideia e orgulhosa o suficiente para não ceder.

 

Foi por essa razão que, para superar aquele pervertido, começou a treinar em uma academia de kickboxing, aprendendo técnicas que poderia usar caso se metesse em encrenca, e começou a escrever histórias de amor na tentativa de aumentar sua tolerância aos homens.

 

No início, exagerou com o quão irrealistas e enjoativamente doces as histórias eram. “Esse tipo de coisa não existe na vida real! Homens assim não vão dizer frases tão clichês.” Ela mesma comentava sobre elas, corando e rolando na cadeira. Com o passar dos dias, sua escrita melhorou.

 

O número de leitores aumentou com o tempo e, a cada atualização, recebia respostas como: “É muito interessante” e “A história de amor de Natsuno é realmente tocante”. Essas respostas enchiam Honoka de alegria, então começou a enviar histórias com mais frequência.

 

Alguém deixou um comentário no blog de Honoka pedindo ajuda com problemas amorosos e, quando respondeu, todos começaram a enviar suas próprias perguntas sobre amor.

 

Honoka tinha uma personalidade de “irmã mais velha” e adorava ajudar os outros a resolver seus problemas. Ela respondia a todas as perguntas que lhe eram feitas e, sem querer, ficou aclamada como a “Especialista do Amor”.

 

No entanto nunca tinha namorado um garoto antes.

 

***

 

— Por favor.

 

O delinquente estava diante dela, com as mãos nas coxas enquanto fazia uma profunda reverência.

 

— Por favor... Seja meu heliotrópio. Seja minha fragrância roxa.

 

Honoka ficou chocada com essas palavras repentinas, mas o garoto continuou a implorar, perguntando como poderia abrir o coração de Aoi Saotome e como poderia cortejar garotas.

 

Sério, você é um molestador. Por que está me perguntando isso com uma cara tão séria?

 

O suor frio escorria pouco a pouco de seus poros e descia por sua têmpora.

 

O que devo fazer agora? Parece que acredita de verdade que sou uma “Especialista em Amor”. Hum, eu fingi ser a mulher perfeita no meu blog, só que nunca namorei um cara antes. Como vou dizer uma coisa tão constrangedora?

 

Koremitsu continuou mantendo a cabeça baixa, como uma estátua.

 

Honoka só conseguia ver seu cabelo ruivo bagunçado com um redemoinho no centro.

 

As palmas das mãos dela estavam suadas, mas sua personalidade atenciosa a forçou a seguir em frente.

 

Ela pode ter tido alguma culpa por tê-lo chutado sem motivo no dia anterior...

 

Ele parecia um delinquente, porém no fundo podia ser inocente...

 

E ele viu o conteúdo do seu telefone, então tinha controle sobre a sua fraqueza...

 

— Se jurar não contar a ninguém que eu sou a Princesa Púrpura, talvez possa te ajudar.

 

E assim, por fim pronunciou essas palavras.

 

***

 

Assim, o aconselhamento amoroso de Honoka começou.

 

— Ela não quer ouvir uma única palavra sua? E jogou pincéis, baldes e paletes em você... Você é idiota? Sua Alteza Aoi do Segundo Ano é uma princesa de verdade, descendente de nobres de verdade. Muitas das pessoas no campus da nossa escola, matriculadas desde o jardim de infância, podem ser classificadas como “nobres”; contudo ela é considerada uma classe superior entre todos os demais. É óbvio que será rejeitado por esta flor em alturas tão elevadas! Ok... É um pouco antiquado, no entanto por que não tenta escrever uma carta de amor? Mostre quão sério está com uma carta apaixonada, uma carta intelectual que a surpreenda com o quão refinado pode ser.

 

— As meninas ficarão felizes quando receberem algumas palavras?

 

Koremitsu franziu a testa enquanto resmungava.

 

— Não palavras, uma carta! Um bilhete! Como alguém pode se contentar com palavras ditas às pressas, num impulso de momento?

 

Bem, como alguém vai ficar feliz com isso?

 

Depois de ouvir suas palavras, Koremitsu pensou consigo mesmo, desanimado, e sentou-se à mesa para escrever sua carta para Aoi.

 

Sob a orientação de Honoka, colocou os pensamentos em palavras escritas, formulou frases a partir dessas palavras em parágrafos e incorporou o corpo do texto para formar a carta de Aoi, que Honoka revisou.

 

Honoka ficou impressionada com a caligrafia artística de Koremitsu.

 

Os traços de sua caneta eram facilmente legíveis, elaborados de forma meticulosa e continham certa firmeza e masculinidade em sua estrutura.

 

A composição da carta era como a de uma criança do ensino fundamental, e Honoka não pôde deixar de se perguntar se não haveria conserto. Contudo considerou como uma caligrafia tão bonita por si só poderia ser adequada para expressar amor.

 

A própria Honoka estava ansiosa e, depois de encontrar Koremitsu na manhã seguinte na estação, seguiram para a escola e colocaram a carta que Koremitsu havia copiado em casa no armário de sapatos de Aoi.

 

Os dois se esconderam para assistir, e uma Aoi de pele de marfim chegou.

 

O cabelo preto caído sobre seus ombros fazia a pele parecer muito mais pálida, e seu corpo parecia extremamente frágil.

 

Hm, agora que olho para ela, é realmente uma princesa que não se compara em nada ao Akagi. Bem, é a noiva do Lorde Hikaru, afinal...

 

Honoka se lembrou do semblante do menino batizado de “Lorde Hikaru” e de seu carisma, próprio de um comandante, pelo qual as meninas o exaltavam.

 

Honoka não gostava de homens delicados, entretanto sua expressão gentil e sorriso resplandecente geravam conflito dentro dela. Não importava o número de escândalos em que ele se envolvesse, sua grandeza e pureza eram perpétuas. Conseguia entender o afeto das garotas que se sentiam atraídas por tais personagens.

 

Havia um memorial para o Lorde Hikaru pendurado no quadro de avisos ao lado da escada, e mais cinco papéis coloridos foram colados nele pelas meninas, que ainda escreviam em seu memorial para expressar sua tristeza.

 

Qualquer cara parece feio quando comparado a um príncipe sorridente.

 

Todavia o casamento foi arranjado pelos seus pais, e Sua Alteza Aoi não parecia ter a menor intenção de concordar com aquilo. Talvez estivesse incomodada com o comportamento de Casanova do Lorde Hikaru. Nesse caso, teremos de mostrá-la nossa sinceridade.

 

Ao lado de Honoka estava Koremitsu, olhando fixamente para Aoi.

 

Sua intenção devia ser a de mostrar uma expressão austera, mas para Honoka, parecia que guardava um rancor eterno.

 

Uuh... Acho que ele está mais obcecado do que sendo sincero aqui.

 

Foi então que Aoi avistou a carta.

 

Sua testa franziu de leve.

 

Uma linha de palavras bem escritas ao lado do nome do remetente dizia. “Eu não sou um molestador”.

 

Ao ver aquilo, ela rasgou a carta.

 

— !

 

— !

 

Aoi empilhou os dois pedaços rasgados um sobre o outro, rasgou-os mais uma vez, jogou-os na lata de lixo e foi embora.

 

— Ei, “Especialista no Amor”, aquela maldita garota rasgou a carta sem ler.

 

— Pró-Próximo plano, então.

 

***

 

— Entendeu? Assim que Sua Alteza Aoi passar, vou te dar o sinal e você se aproximará naturalmente. Finja que deixou o caderno cair sem querer. Sua Alteza Aoi com certeza o pegará. Nesse caso, aproveite esta oportunidade para se desculpar como um cavalheiro.

 

— Oh, tudo bem.

 

Era o intervalo da segunda aula.

 

Os dois estavam à espreita, antecipando a mudança de Aoi da sua primeira sala de aula para a sala de biologia. Era um método antiquado, porém essa abordagem clássica funcionaria bem contra uma princesa tão delicada.

 

— Ela está vindo!

 

Honoka deu o sinal e Koremitsu saiu.

 

Por que você tem que colocar as mãos nos bolsos? Você é praticamente um delinquente agora!

 

Koremitsu planejou, com as mãos nos bolsos, deixar cair “por acidente” seu caderno de estudante.

 

Ahhh, sério! Não abaixe o queixo e arqueie as costas desse jeito! Por que está com esse olhar furioso e fazendo beicinho?

 

Com Honoka observando-o com desconfiança, Koremitsu deixou cair seu caderno.

 

Aoi caminhou na direção do caderno caído de Koremitsu.

 

Ela certamente pegaria seu caderno...

 

Ou não.

 

Em vez disso, Aoi pisou no caderno e foi embora.

 

— Ei, meu caderno novo agora tem uma marca de pegada.

 

— Próximo!

 

***

 

Assim, Koremitsu obedeceu às instruções de Honoka e tentou encontrar Aoi por coincidência, contudo parecia que Aoi estava firme em ignorar Koremitsu, não importando a situação.

 

Apesar das inúmeras tentativas para capturar sua atenção, ela o ignorava prontamente, olhando para a frente com um olhar vazio e desinteressado. Em seguida, se afastava dele.

 

Depois da escola, no telhado.

 

— Suas estratégias não são nada eficazes, “Especialista no Amor”.

 

A crítica de Honoka veio em resposta à reclamação de Koremitsu.

 

— Sua cara é muito selvagem, ok? Todos vão ficar desconfiados quando você se aproximar com essa cara!

 

— Você quer que eu faça uma cirurgia plástica?

 

— Uuuh, nesse caso, teremos que usar o feitiço reverso, fazendo de você um cara decente, apesar da sua aparência delinquente. Certo, vamos lá, delinquente tsundere²!

 

— EU NÃO SOU UM DELINQUENTE!

 

***

 

No dia seguinte, Koremitsu se equipou com uma variedade de coisas de gatinhos.

 

Ele tinha emblemas de gatinhos no peito e nos sapatos, suas meias tinham pegadas de gatinhos gravadas, a alça do chaveiro do seu telefone mostrava um mascote de gatinho e a cabeça de um gatinho de brinquedo saía de sua mochila.


 

Pelas informações que Honoka havia passado para Koremitsu, Aoi gostava de gatos. O protetor de tela do seu celular era uma foto do amado gato que ela mesma criou.

 

O nome deste querido gato era Shellblue, e pelo que parecia este foi encontrado em uma caixa de papelão no parque. O gato era de rua, no entanto Aoi demonstrava sua admiração por Shellblue, e os dois se aconchegavam na cama.

 

Depois de verificarem que Aoi ia para a escola de ônibus, Koremitsu e Honoka esperaram-na no ponto de ônibus e começaram sua empreitada.

 

Naquela manhã, o rosto de Aoi estava mais pálido que de costume, e dava a impressão de estar um tanto inquieta.

 

A dupla passou por ela, conversando alto o suficiente para serem ouvidos.

 

— Ei, Akagi. Os gatos que você salvou do afogamento no rio ontem, eles estão bem?

 

— É, foi uma noite bem tempestuosa. Os quatro gatos que estavam numa caixa de papelão boiando rio abaixo ainda estão cheios de energia.

 

— Ouvi dizer que salvou um gato de um corvo também.

 

— Ah, aquela gatinha malhada prenha? Eu ajudei a dar à luz.

 

— Você gosta mesmo de gatos, né? Admito que a culpa é minha por ter te chutado porque pensei que fosse um molestador. Não existe um amante de gatos que seja mau de coração. Ah, sim, ouvi dizer que você tem uma coleção de fotos de gatos?

 

— Ah, posso te emprestar quando quiser.

 

Por fim, Aoi, que estava caminhando atrás deles, interrompeu.

 

— Ei!

 

As orelhas de Koremitsu e Honoka se contraíram.

 

Está funcionando!

 

No entanto...

 

— Vocês poderiam, por favor, não atrapalhar? — sua voz fria perguntou.

 

— Ah... Desculpe.

 

Koremitsu se afastou apressadamente.

 

Aoi lançou um olhar que evocou medo nos dois ao passar.

 

— Ei, “Especialista no Amor”, fui ignorado de novo, certo?

 

Koremitsu gemeu.

 

***

 

— Ei, ouça o que estou dizendo... Não é melhor desistir?

 

Era hora do almoço.

 

Honoka e Koremitsu estavam no parapeito do telhado da escola, admirando a paisagem, e Honoka expressou seus pensamentos sobre os acontecimentos do dia.

 

— Sinto muito por não poder ajudá-lo, mesmo que tenha se curvado e me pedido, mas olhando para a resposta de Sua Alteza Aoi, sinto que é um tanto impossível.

 

Honoka estava relutante em dizer algo tão desanimador, e sentiu pontadas de remorso no coração quando as palavras saíram de sua boca.

 

— Você já se esforçou bastante. Pensei que você fosse só um molestador delinquente, um cara mau, porém na verdade foi impressionante te ver levando tão a sério a pessoa de quem gosta. Já que fez tudo o que podia, não acho que seja uma má ideia desistir.

 

Seria difícil para qualquer um se recompor depois de ser rejeitado por alguém de quem gostava. Todavia, Koremitsu continuou se levantando, não importava quantas vezes tivesse falhado.

 

Não importava o quão estranhas ou embaraçosas fossem as instruções de Honoka, ele as seguia com firmeza.

 

Mesmo sendo um molestador...

 

— Se não se importa, vou te apresentar algumas garotas solteiras.

 

Ela deixou isso escapar acidentalmente.

 

Isso é ruim... Quem eu o apresento? Mesmo que conheça muitas garotas que não têm namorado... Bem, talvez a Riko possa. Como ela gosta de filmes de terror, acho que teria alguma resistência a um rosto assustador...

 

Honoka estava pensando se conhecia alguma garota que não seria afetada pela aparência de Koremitsu quando foi interrompida.

 

— Ela é a única.

 

O olhar de Koremitsu caiu no corrimão enquanto falava.

 

Honoka voltou sua atenção para Koremitsu e o viu franzindo a testa, o rosto cheio de agonia e as mãos tremendo enquanto agarravam o corrimão.

 

Apesar dessa posição abatida, sob os cabelos ruivos bagunçados que caíam sobre sua cabeça baixa, seus olhos exibiam uma aura intensa.

 

— Eu nunca vou desistir, não importa o que aconteça.

 

Ele fez essa declaração lucidamente.

 

Honoka ficou hipnotizada tanto pelo olhar de soslaio quanto pela determinação em sua voz.

 

BA—DUM! Seu coração disparou e seu rosto ficou quente como se estivesse pegando fogo.

 

O-O que é isso?

 

Por que meu rosto está corando?

 

E meu peito está insuportável. O que é isso?

 

É por causa do Akagi?

 

Porque Akagi disse que não iria desistir?

 

Qualquer outro garoto teria desistido muito antes. Dizia-se que, após a morte de Hikaru, muitos garotos se aproximaram de Aoi, entretanto todos desistiram logo após serem rejeitados friamente.

 

Os garotos que tentaram cortejá-la eram todos bonitos, academicamente excelentes, ricos e cheios de autoconfiança... Filhos dos “nobres” que estavam naquela escola desde o jardim de infância.

 

Contudo, esse Koremitsu, que era famoso por ser um delinquente, que era considerado pior que um camponês, um cão selvagem... Que estava muito aquém deles, disse que não desistiria.

 

Koremitsu virou a cabeça para olhar para Honoka.

 

Sua tola expressão direta... Uma expressão resoluta... Encarava Honoka.

 

— Sinto muito por te fazer me ajudar quando está tão ocupada. Obrigado, no entanto vou tentar continuar sozinho.

 

Ele falou desajeitadamente.

 

Ao ouvi-lo, Honoka sentiu seu rosto queimar enquanto seu coração batia ainda mais forte.

 

— Mesmo que tente de novo, pode não ter sucesso.

 

Koremitsu também enrijeceu o rosto enquanto olhava para Honoka com convicção feroz.

 

— Ainda assim, tenho que tentar.

 

O vento balançava os cabelos ruivos de Koremitsu.

 

Honoka vacilou diante de sua determinação.

 

Mesmo sendo um delinquente, um molestador...

 

Ela murmurou em seu coração.

 

***

 

Por que estou tão preocupada com o Akagi?

 

Ele já disse que não precisa dos meus conselhos amorosos...

 

Depois que as aulas do dia terminaram, Honoka arrumou suas coisas desanimada.

 

A cadeira ao lado estava vazia, e era óbvio que Koremitsu havia corrido para Aoi.

 

Aquele idiota. Ele vai ser largado de qualquer jeito.

 

— Hono... Você tem se dado bem com Akagi ultimamente.

 

— HÃ?

 

A boa amiga de Honoka, com o cabelo trançado, Michiru, interrompeu de repente, e Honoka gritou de surpresa.

 

— Ah, eu sinto o mesmo! Você consegue falar com o Akagi. Não tem medo dele?

 

— Ouvi dizer que conseguiu puxar assunto com o Akagi no telhado. É verdade?

 

As meninas vieram abordá-la com um interrogatório entusiasmado.

 

As pontas de suas orelhas estavam queimando.

 

— D-Do que vocês estão falando? Como pode acontecer alguma coisa entre mim e aquele delinquente? Enfim, é impossível. Gosto daqueles que são inteligentes, tímidos... Certo, gosto daqueles garotos intelectuais.

 

Ela negou firmemente.

 

Que piada é essa? Tem um boato sobre mim e o Akagi?

 

— Veja, muitos garotos bonitos se confessaram para você antes, Honoka.

 

— Mas você rejeitou todos dizendo “vamos ser apenas amigos”. Não existe amizade entre meninos e meninas, certo?

 

— Certo.

 

Todos as colegas de classe, com exceção de Michiru, deram seu consentimento juntas.

 

Michiru olhou para Honoka através de seus grandes óculos e deu sua resposta tardia.

 

— Honoka, é melhor não ser tão exigente só porque é descolada. Tome cuidado para não passar os três anos do ensino médio sem namorado.

 

— É verdade. Que tal irmos juntos para uma festa? Vai ser fácil trazer os meninos se eles souberem que você vai junto.

 

— Desculpe, não estou com humor para isso agora.

 

Sua resposta foi abrupta.

 

— Não diga isso. Que tal tentar também, representante de classe?

 

Michiru respondeu à pergunta com um sorriso preocupado.

 

— Uma festa conjunta para mim é um pouco...

 

Foi então que uma voz que parecia inteligente soou da porta dos fundos da sala de aula.

 

— A Srta. Honoka Shikibu ainda está por aí?

 

Honoka se virou para a porta e, ao ver a origem da voz, levantou-se com pressa de seu assento.

 

Cabelos negros, longos e lisos, capazes de deixar uma impressão indelével, repousavam impecavelmente sobre os ombros de uma beldade alta, parada à porta. Seu próprio ser suprimia a atmosfera circundante em uma pausa cativante.

 

Seus olhos negros encararam Honoka em silêncio.

 

Não era um olhar penetrante, no entanto a inflexível Honoka sentiu seu peito apertar.

 

Por que a presidente...

 

Ela sentiu o suor escorrer pelas costas.

 

— Sou eu.

 

Só conseguia pensar em uma razão para ela, uma veterana cuja reputação era maior do que a de qualquer outro “nobre”, visitar uma aluna camponesa que só foi matriculada no ensino fundamental, e lembrar desse boato sobre Koremitsu e ela só serviu para fazer seu estômago doer mais.

 

A Presidente do Conselho Estudantil da Escola de Ensino Médio da Academia Heian, Asai Saiga... Apelidada de Matriarca Asa, falou com uma Honoka pensativa com calma e autoridade.

 

— Quero te perguntar uma coisa. Poderia vir até a sala do Conselho Estudantil?

 

***

 

Koremitsu estava preocupado enquanto estava na sala de artes.

 

Aoi virou as costas para ele e voltou a pintar.

 

Koremitsu, parado atrás dela, dava a impressão de um cachorro faminto; entretanto não importava o quanto sofresse com as coisas, não mudaria a situação.

 

— Domingo não é o seu aniversário?

 

Ele falou com ela sinceramente.

 

— ...

 

— Não pode me acompanhar por apenas um dia?

 

— ...

 

Aoi continuou a mover seu pincel sem dizer nada.

 

Na tela, havia uma escada na névoa dourada semitransparente. A pintura era tão calorosa, todavia as costas de Aoi, ao lado, pareciam tão frias quanto os flocos de neve esvoaçantes. Os outros membros do clube de arte estavam longe dos dois, remexendo-se em seus assentos, desconfortáveis ​​a ponto de ser preciso sentir pena delas.

 

Droga, como posso fazê-la olhar para mim?

 

Koremitsu já havia dito a Honoka que cuidaria do resto, mas conseguiria fazer Aoi mudar de ideia antes do seu aniversário?

 

Não restava muito tempo, e essa situação fez com que sua garganta secasse por causa da ansiedade.

 

Sua “namorada” é muito difícil de lidar.

 

Ele lançou um olhar amargo para Hikaru.

 

Hikaru respondeu com um olhar igualmente angustiado, porém demonstrou sua determinação sorrindo e passando por Koremitsu para ficar ao lado de Aoi.

 

— Senhorita Aoi.

 

Ele olhou para o perfil do rosto imóvel de Aoi com uma expressão gentil e a chamou em uma calma voz.

 

— Dar seus sete presentes de aniversário pode ser um ato imprudente para você, Srta. Aoi, contudo essa é uma promessa muito importante para mim.

 

Enquanto a luz quente e suave do sol brilhava pela janela, sua voz doce e sentimental fluía como uma fragrância pura.

 

— Continuarei aqui para cumprir a promessa que fiz a você, Srta. Aoi.

 

Aoi não conseguia ouvir as palavras de Hikaru...

 

No entanto depois de ver Hikaru falar de forma tão séria, Koremitsu prendeu a respiração.

 

A voz de Hikaru enfraqueceu um pouco.

 

— Então minha voz realmente não consegue alcançar os ouvidos da Srta. Aoi... Se me ouvir, mesmo que seja um pouco, por favor, coloque um dedo nos lábios para indicar isso.

 

Droga... Que expressão é essa?

 

Era provável que Hikaru soubesse há muito tempo que não importava se era sua voz ou sua silhueta, Aoi era incapaz de notá-la.

 

Mesmo sabendo que era impossível, continuou a ter esperança de que Aoi, que ainda pintava de costas para ele, se virasse e o visse.

 

Enquanto olhava para a pequena figura aparentemente distante que olhava sempre para frente, Koremitsu se lembrou de algo que havia esquecido há muito tempo.

 

A silhueta de um dorso, desaparecendo na escuridão sob a fraca iluminação de um poste de luz.

 

Durante sua adolescência, quando continuava a olhar pela janela sem expressão, não havia resposta, não importava o quanto gritasse.

 

Aquelas costas se sobrepunham às do Aoi.

 

Nenhuma delas se virou.

 

— Aoi.

 

A voz lânguida de Hikaru gritou mais uma vez e implorou por um milagre.

 

Na adolescência, Koremitsu rezava para que sua mãe sorrisse para ele, para que levantasse a cabeça e para que, mesmo com o menor sorriso, acariciasse sua cabeça.

 

Por favor, por favor.

 

Por favor, Deus.

 

Ele orou inúmeras vezes em seu coração.

 

Por favor, por favor, me ajude.

 

Tch, o que eu estava pensando naquela época?

 

Nove anos atrás, no aniversário de sua mãe, decidiu presenteá-la com sua palavra favorita. Depois de assistir à aula de caligrafia do avô, sentou-se na mesa de estudos, moeu um pouco de tinta e escreveu a palavra em papel japonês.

 

Sua caligrafia não era boa, então teve que reescrevê-la algumas vezes.

 

Enquanto escrevia, orava a Deus para que seu dom trouxesse alegria à sua mãe, e a tinta com que escrevia respingou em suas mãos e rosto.

 

Naquela noite, antes que pudesse oferecer o presente à mãe, ela abandonou o jovem Koremitsu e fugiu de casa.

 

Sua figura esguia desapareceu na escuridão e nunca mais voltou.

 

— Sinto muito. Sinto muito mesmo, Mitsu.

 

Ele continuou a escrever, esforçando-se ao máximo, tentando conter as lágrimas que escorriam do rosto da mãe enquanto ela se desculpava, e também fazê-la sorrir. No fim, nunca lhe entregou seus escritos.

 

No dia seguinte à partida da mãe, desenhou cruzes em cada papel em que havia escrito. Ranho escorria de seu nariz enquanto desenhava cruz após cruz.

 

Enquanto olhava para Aoi, sentiu que não eram as suas costas que estava vendo, mas as de sua mãe. A sensação durou apenas um momento.

 

Deus nunca respondeu às orações de Koremitsu.

 

Quando Hikaru lhe mostrou aquela expressão de oração tão familiar, Koremitsu não pôde deixar de orar por ele também.

 

Mesmo que seja por pouco tempo, realize o desejo desse cara. Eu consigo vê-lo tão claramente; você não pode deixar Aoi ouvir um pouquinho também?

 

Assim que o peito de Koremitsu começou a doer como se estivesse sendo esmagado, Aoi mergulhou seu pincel na cor marrom escura em sua paleta.

 

O pincel fez uma longa linha preta diagonalmente para baixo a partir do canto superior esquerdo da tela.

 

A expressão de Hikaru congelou na hora.

 

Koremitsu sentiu como se estivesse sendo cortado pela frente.

 

Aoi desenhou uma linha diagonal a partir do canto superior direito.

 

A grande cruz preta que havia desenhado quando criança veio à mente de novo, e sentiu como se seus olhos estivessem em chamas.

 

— O que você está fazendo?

 

Koremitsu berrou enquanto agarrava Aoi pelo braço.

 

Os outros membros olhavam com expressões horrorizadas; os membros que estavam fazendo permanente no cabelo e fazendo as unhas umas das outras deixaram cair seus modeladores de cachos e esmaltes.

 

Havia uma cruz grande e feia na tela que continha um sopro de luz.

 

— Por favor, não me toque.

 

Aoi sacudiu a mão de Koremitsu.

 

Sua pele era de uma palidez medonha, e seus olhos demonstravam raiva e ressentimento.

 

— Você... Por que fez isso com a pintura?

 

— Não posso... Falar com você. Foi o que Asa me disse.

 

Droga! Essa Asa de novo?

 

Aoi virou o rosto para longe de Koremitsu enquanto soltava essas palavras com força, parecendo conter suas emoções internas.

 

Aoi se afastou de Koremitsu enquanto falava com firmeza, contudo suas verdadeiras emoções pareciam estar contidas.

 

— É por isso que estou apenas murmurando para mim mesma... Aquele Hikaru...

 

Hikaru estava parado ao lado de Aoi, sem entender nada, no entanto, ao ouvir seu nome, seus ombros se contraíram.

 

Koremitsu ficou apreensivo e prendeu a respiração.

 

O que ela vai dizer? Algo pior?

 

— Até onde sei... Hikaru...

 

Seus lábios macios pareciam doloridos quando pronunciou essas palavras, e suas mãos tremiam.

 

— É a pessoa mais desonesta... Deste mundo...

 

Seu rosto endureceu e um brilho implacável surgiu em seus olhos. Hikaru, que estava parado à sua frente, franziu as sobrancelhas e olhou para Aoi com dor nos olhos.

 

Não. Já chega, não diga mais nada.

 

— O pior... Mentiroso.

 

Os olhos de Hikaru estavam tingidos com a cor da agonia.

 

O coração de Koremitsu parecia ter sido cortado.

 

Hikaru entendeu o quão insincero havia sido com Aoi, e ainda assim, as palavras ditas na sua frente e a cruz desenhada na tela engoliram seu coração por inteiro; a agonia de ser rejeitado por uma pessoa tão preciosa levou sua alma ao lamento.

 

— Você não precisa ser tão cruel, mesmo que o próprio Hikaru seja um mulherengo.

 

Aoi cruzou os braços e murmurou.

 

— De qualquer forma, isso é um fato... Eu odiava o Hikaru mais do que qualquer outra pessoa neste mundo. Ele me irritava o tempo todo e mentia para mim com frequência. Não existe outro cara pior. É um homem completamente podre por dentro, apesar da sua aparência requintada por fora.

 

— O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ DIZENDO?

 

Aoi menosprezar Hikaru perturbou Koremitsu, e isto o lembrou de suas preces não atendidas e das emoções que experimentara na infância: dor e desespero. Essas falas lhe arrancaram esses sentimentos do fundo do coração, e o sangue subiu à cabeça; suas veias pulsavam de raiva, que subia muito abaixo do seu ventre.

 

— Koremitsu.

 

Hikaru tentou acalmar Koremitsu, no entanto a raiva que o devorava só aumentou. Aoi mordeu os lábios e respirou fundo, embora continuou culpando Hikaru.

 

— Não sei exatamente com quantas mulheres o Hikaru saiu, mas é porque não consigo contar todas. Sempre estando com mulheres diferentes, e quando pergunto “Quem é essa pessoa?”, ele responde “uma conhecida” ou “uma amiga” com aquele sorriso santo no rosto. De toda forma, só me respondia com um sorriso gentil, mesmo quando estou com raiva... Ele sorri e pratica aquelas desonestidades com outras garotas.

 

Seu pálido rosto estava tingido de vermelho.

 

Hikaru deu apoio a Aoi e continuou a implorar a Koremitsu, dizendo-lhe.

 

— Estou bem!

 

— É por essa razão que esse canalha merece minha retribuição!

 

Ao ouvir aquilo, Koremitsu soltou um rugido.

 

— NÃO OUSE DIZER ISSO COMO SE FOSSE UM FATO!

 

Seu ataque sacudiu a janela e assustou Aoi.

 

— Calma, Koremitsu! Estou bem aqui! Certo? Veja, todo mundo está com medo agora.

 

Hikaru tentou o que pôde para parar Koremitsu, porém suas emoções transbordantes não puderam ser contidas.

 

— HIKARU NÃO É UM LIXO! ELE ESTÁ SE ESFORÇANDO AO MÁXIMO PARA CUMPRIR A PROMESSA QUE FEZ COM VOCÊ, MESMO AGORA!

 

Ele disse que era uma promessa muito importante.

 

Disse que era uma garota muito importante.

 

Mesmo agora, olhava para Aoi com tanta paixão, tanta ternura, tanta melancolia! Continuou a falar com ela em vão, esperando que o notasse.

 

Sua mãe virou as costas e foi embora.

 

Aoi desenhou a grande cruz na tela.

 

Continuou implorando e praticando para fazê-la feliz.

 

Por que tinha só ignorado e abandonado isso de forma tão leviana?

 

Depois de perceber que os membros do clube de arte estavam amontoadas com medo, Koremitsu cerrou os dentes com força.

 

— ...

 

Reconsiderou sobre a explosão que teve depois de se perder, no entanto foi devido à raiva incontrolável que sentiu pelas palavras de Aoi.

 

— Tudo bem, já chega.

 

Ele lançou a Aoi seu pior olhar depreciativo.

 

— Você não tem o direito de aceitar os sentimentos do Hikaru. Quem estaria disposto a fazer tal coisa? É um desperdício apresentá-los a alguém como você.

 

Aoi mordeu os lábios enquanto grandes lágrimas escorriam de seus olhos, e tentou se afastar de Koremitsu.

 

— Então... Que assim seja. Ainda que estivesse vivo, Hikaru não cumprirá essa promessa de qualquer maneira. Tratará essa promessa como se não fosse nada.

 

Aoi soltou um som baixo de engasgo, lançou um olhar frio para Koremitsu e continuou a falar com a voz rígida.

 

— Foi apenas um impulso de momento, como antes.

 

Koremitsu não aguentou mais a recusa de Aoi em responder a Hikaru, e também não estava disposto a deixar Hikaru ouvir mais, abriu a porta com um puxão e saiu da sala de artes.

 

— Anda logo, esquece esse tipo de mulher e vá para o céu! É como o vovô dizia, as mulheres são as piores!

 

Koremitsu gritou com a voz trêmula enquanto caminhava pelo corredor.

 

Estava furioso o suficiente para ignorar os olhares que o fitavam. Seu peito parecia ter sido cortado ao meio e sua cabeça parecia ferver. Seus olhos estavam quentes e seu nariz estava entupido.

 

— Você está chorando, Koremitsu?

 

Hikaru perguntou em seu estado de admiração.

 

— É-É por isso que disse... Não sei como atrair as mulheres. Elas ficam tristes, ficam bravas sempre que querem, não falam quando não querem, vão embora quando querem...

 

Apesar de seus esforços para impedir, ranho vazava de seu nariz, e não conseguia impedir que as lágrimas rolassem por suas bochechas.

 

— É por isso que odeio me envolver com mulheres de qualquer forma... Não brinque comigo. Droga, ela nem tentou entender a intenção dos outros... Só pode estar brincando.

 

Seu peito queimava, e lágrimas amargas e salgadas escorriam pelo seu rosto.

 

Suas mãos cobriram o rosto para abafar os soluços; para ele, um homem chorar era constrangedor.

 

— Koremitsu, vamos até lá.

 

Seguindo a sugestão de Hikaru, Koremitsu cambaleou até um corredor mais vazio e agachou-se em um canto. Ele expressou seu arrependimento, e Hikaru silenciosamente o consolou.

 

— Desculpe, Koremitsu. A culpa é minha por te confiar esse trabalho. Você se machucou por minha causa.

 

Não é sua culpa. Koremitsu queria responder.

 

A raiva que sentia por Aoi não era culpa de Hikaru. As experiências traumáticas que viveu na infância eram a fonte de sua raiva, e só piorou a situação ao jogar essa raiva em Aoi.

 

A voz de Hikaru era suave demais e, como uma mão quente, acalmou o coração de Koremitsu. Depois de se acalmar, falou inadvertidamente.

 

— Não peça desculpas nem nada agora.

 

— Mas...

 

— Odeio quando as pessoas pedem desculpas. O que pode mudar quando o faz? Pode resolver alguma coisa? É porque nada pode ser mudado que pedimos desculpas, certo...? Então não peça desculpas para mim.

 

Até recentemente, receber pedidos de desculpas de outras pessoas era algo desconhecido para Koremitsu.

 

Desculpe.

 

Desculpe.

 

Mitsu.

 

Desculpe.

 

O rosto pálido de sua mãe estava voltado para o jovem Koremitsu; suas bochechas estavam molhadas, e por várias vezes ela se desculpou com uma voz fraca. “Desculpe, desculpe.”

 

Seu rosto estava borrado, e Koremitsu não conseguia se lembrar.

 

Porém, as lágrimas que rolavam por aquele rosto, a voz terna que pedia desculpas continuamente, o corpo esguio que desaparecia. Por vezes se lembrava da cena, e seu coração parecia ter sido despedaçado.

 

— Sinto muito, Sr. Akagi.

 

— Desculpe.

 

Seus colegas de classe se desculpavam com ele, com terror evidente em seus rostos.

 

Eles então saíam com uma aparência horrível.

 

Nunca pensou em fazê-los pedir desculpas.

 

Essas palavras feriram seu ser mais profundo e criaram cicatrizes que nunca poderiam curar.

 

É por isso que eu realmente odeio quando você pede desculpas! Não termine tudo com desculpas!

 

Koremitsu não conseguia controlar suas emoções crescentes e fez beicinho como uma criança irracional, cobrindo-se enquanto chorava. Hikaru gentilmente colocou a mão no ombro de Koremitsu.

 

Koremitsu olhou para a mão de Hikaru e viu que ela afundava em seu ombro. Hikaru gentilmente abaixou o olhar e se aproximou da outra metade do corpo de Koremitsu.

 

Um fantasma não deveria ter calor corporal, contudo Koremitsu sentiu um calor vindo do ombro que a mão tocou; esse calor, junto com a expressão gentil de Hikaru, acalmou seu coração.

 

Esta foi a primeira vez que foi consolado por outra pessoa.

 

Nunca teve um amigo para ouvir suas reclamações, mesmo que esse amigo fosse apenas “temporário”.

 

— Eu... Não sou uma garota que está chorando.

 

Seu protesto foi seguido por uma fungada.

 

— Hm, eu já sabia que você não é uma papoula lamentável.

 

Hikaru sussurrou com gentileza.

 

— Então, por que... Preciso ser consolado por você? Aoi já disse todo tipo de coisa insuportável a seu respeito, e você está morto; deveria estar sofrendo pelo menos cem vezes mais do que eu. Nesse caso, eu é que deveria confortá-lo. Agora realmente quero chorar quando te vejo com uma expressão tão calma.

 

Hikaru voltou a colocar a mão no ombro de Koremitsu e respondeu com uma atitude calma e madura.

 

— Não consigo chorar... Não me lembro de já ter chorado. Não sei chorar.

 

Hikaru olhou para Koremitsu de olhos arregalados com um sorriso compassivo.

 

— Minha mãe era amante do meu pai. Ela era frágil e morreu quando eu tinha 4 anos. Pouco antes de morrer, minha mãe me disse o seguinte: “Hikaru, você precisa continuar sorrindo, não importa o que aconteça. Se o fizer, todos vão te amar. Se alguém lhe fizer algo ruim, encha seu coração de amor e sorria de volta...”

 

Hikaru narrou as palavras de sua falecida mãe com uma voz clara e mostrou uma expressão profunda e serena.

 

— Minha mãe sabia que não viveria por muito tempo e queria me ensinar uma maneira de me relacionar com meus parentes e a família paterna.

 

Ele fechou os olhos.

 

Ainda não havia nenhuma lágrima caindo abaixo de suas longas sobrancelhas.

 

— Qual é a sensação de deixar as lágrimas rolarem?

 

A pergunta veio com um tom de expectativa.

 

— Por favor, continue sorrindo, Hikaru.

 

— Encha seu coração de amor.

 

Sua mãe morreu quando tinha quatro anos, então como viveu depois disso... Em que casa estava hospedado? Com ​​quem estava morando?

 

As palavras de Hikaru não deixaram dúvidas; ele nunca se acostumou com sua nova família e sua vida era difícil. Apenas continuou a seguir o conselho da mãe e sorriu.

 

— Por favor, continue sorrindo.

 

Certamente, um sorriso era a única defesa de Hikaru.

 

Koremitsu refletiu sobre a vida de Hikaru e como este a passou sozinho. Seu choro foi reforçado por isso e, mesmo com todos os seus esforços, não conseguia parar.

 

Koremitsu esqueceu como sorrir quando era jovem.

 

Ninguém ensinou Hikaru a chorar.

 

— É difícil perceber pela sua aparência, no entanto você realmente sabe chorar, Koremitsu. Que pena. Se eu conseguisse chorar como você, o instinto maternal das meninas iria entrar em ação e elas começariam a me confortar. A maioria com certeza vai me dar um serviço maravilhoso também.

 

Hikaru falou com indiferença e um sorriso afetuoso nos lábios.

 

Talvez quisesse animar Koremitsu dessa forma.

 

— Seu pervertido.

 

Koremitsu respondeu com rispidez e enxugou as lágrimas nas mangas.

 

O corredor em frente à sala de aula vazia estava vazio, e o espaço místico tinha um ambiente rejuvenescedor que amenizava o rosto escaldante de Koremitsu.

 

Conseguindo conter suas lágrimas, no entanto ainda queria sentar-se ao lado de Hikaru por um tempo. Sentiu uma complexa sensação de empatia e confiança enquanto tentava expressar essa vaga emoção, abraçando os joelhos.

 

— E-Ei, eu não disse... Que as flores murcham fácil e não são comestíveis antes... Elas não podem ser usadas para nada...?

 

— Sim. Combinamos de fazer um piquenique também.

 

— Que tipo de acordo é esse...

 

— Haha, eu não mencionei isso?

 

— Bom... Quando fui hospitalizado pela primeira vez, Koharu me trouxe algumas flores.

 

— Heh.

 

— Eram flores brancas nos caules... E os botões eram felpudos. Pensei que seria um pouco sinistro receber flores brancas em um hospital, porém meu coração se acalmava sempre que as olhava da cama... Quando estive ansioso por não poder ir à escola no início do semestre, podia me acalmar pouco depois de olhar para elas... Senti que não havia nada que eu pudesse realizar ficando tão ansioso.

 

Um sorriso surgiu nos lábios de Hikaru e seus olhos se estreitaram.

 

Sua aparência exalava um brilho feliz.

 

— Sim, as flores têm esse tipo de poder. Ficamos felizes em vê-las.

 

— B-Bem... Podem realmente ter esse tipo de poder. É por isso que... De vez em quando, presto atenção em você falando de flores.

 

A disposição de Koremitsu em ouvir Hikaru falar sobre flores o encantou, e ele abriu um sorriso brilhante.

 

— Obrigado.

 

— Mas só de vez em quando.

 

— Entendi. Então não vou te incomodar. Por sinal, lembro que você foi hospitalizado porque foi atropelado por um caminhão, certo? Como aconteceu? Vai me dar uma resposta se eu perguntar agora?

 

— Uuh.

 

A pergunta deixou Koremitsu perplexo.

 

Hikaru parecia uma criança brincalhona enquanto esperava uma resposta, e Koremitsu sentiu que Hikaru também esperava avaliar o quão próximos os dois haviam se tornado desde sua primeira aparição como um fantasma.

 

Koremitsu respondeu atordoado.

 

— Um velho queria atravessar o cruzamento mesmo com o sinal vermelho... Falei para que parasse, contudo ele correu em direção ao caminhão gritando “Ogro”. Corri atrás e fui atropelado pelo caminhão.

 

Alguém, talvez o motorista ou um transeunte, gritou para avisá-lo do perigo, no entanto Koremitsu foi arremessado para longe antes que tivesse tempo de reagir.

 

Koremitsu acordou no hospital e, no lugar do velho, Koharu estava ao lado de sua cama.

 

— Então você salvou o velho, Koremitsu. Que heroico.

 

— Não foi. Não fale como se fosse algo glorioso.

 

O velho fugiu ao avistar seu rosto aterrorizante, e o próprio Koremitsu foi atingido pelo caminhão. A catástrofe foi extremamente constrangedora, e não teve a audácia de se autodenominar um herói.

 

Hikaru riu.

 

— Não é ótimo, herói? Seu rosto está vermelho, herói. Você adora chorar e fica tímido com muita facilidade, herói.

 

— Certo, já chega? Tch, vamos para casa.

 

Koremitsu percebeu que suas narrações o deixavam ainda mais perturbado, e elas só alimentavam o desejo de Hikaru de provocá-lo. Diante dessa revelação, ficou sério e se levantou.

 

Então se afastou de Hikaru e pretendia partir, todavia a risada de Hikaru foi substituída por um tom sincero.

 

— Ei, herói, tem um lugar onde quero passar. Poderia vir comigo? Vou te mostrar umas flores fofas que eu tenho guardadas.

 



Notas:
1. Mito Komon é um drama histórico japonês onde o personagem principal resolve injustiças incorridas a distintos personagens, e cada episódio termina com um enfrentamento contra o vilão, que toma ciência da identidade de Mito Komon quando este revela o emblema Tokugawa.
2. Tsundere é um termo de origem japonesa para um tipo de personalidade que alterna entre ser agressivo, frio e distante (tsun tsun) e doce e amável (dere dere). Essa persona é comum em personagens de animes, mangás e jogos, e a mudança no comportamento geralmente acontece com uma pessoa por quem têm afeição romântica.

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