sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 11

Primeira Temporada  Capítulo 11: Sonhador

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Onze: Sonhador



JONATHAN SIMS

Depoimento de Antonio Blake, referente aos seus sonhos recentes com Gertrude Robinson, ex-Arquivista-Chefe do Instituto Magnus. Depoimento original prestado em 14 de março de 2015. Gravação de áudio por Jonathan Sims, atual Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Primeiramente, devo admitir que menti para entrar aqui. Sei que seus critérios são muito claros: “Qualquer experiência ou encontro sobrenatural ou inexplicável que ocorra dentro dos limites da realidade aparente. Sem experiências fora do corpo, visões, alucinações ou sonhos”. E isto é sobre sonhos, não se engane, mas acredito que você precisa ouvir a respeito de qualquer maneira.

Se acreditam ou não, bem, é um problema seu. Apenas não me sinto à vontade para ir embora sem ao menos tentar me explicar. Vejam bem, eu sonhei com você. Sei como soa, e posso garantir que não nos conhecemos, mas o Instituto, o prédio, até mesmo esta sala... Eu os vi em meu sonho tão claramente quanto os vejo aqui diante de mim agora. Então, não, não tenho nenhuma história sobre um horror cambaleante na escuridão. Peço que continue a ler, pois este não é o tipo de sonho que se ignora.

Talvez devesse dar um pouco de contexto a meu respeito, em vez de apenas divagar sobre sonhos e profecias. Moro em Londres há quase uma década. Vim para cá para fazer minha graduação na Escola de Economia de Londres. Acabei aceitando um cargo no Barclays logo após me formar e me saí bem lá. Contudo não durou muito; mal consegui completar um ano antes que o estresse do meu novo emprego, sem mencionar alguns problemas na minha vida pessoal, me levassem a um colapso nervoso completo.

Eu havia terminado com Graham, meu namorado de seis anos, e tive que sair da casa que dividíamos, indo ficar com alguns dos poucos amigos que sobreviveram ao meu ano de explosões de estresse e constantes planos cancelados. Foi lá, dormindo no sofá da minha amiga Anahita, no auge da minha miséria, que comecei a ter os sonhos. Encontrei-me no topo do Canary Wharf, com vista para o edifício do Barclays, onde passei tantas horas odiosas. Atrás de mim, sentia a pulsação da luz que se ergue no alto daquela torre imponente; ela vibrava através de mim e podia ver o brilho percorrer minha pele como óleo, no entanto, por mais que tentasse, não conseguia me virar para olhá-la.

Arte por @cuewulfir.

Foi então que percebi que havia algo de errado com a cidade abaixo de mim. Estava escura, iluminada pelo brilho alaranjado e doentio dos postes de luz, e ali também alguma coisa pulsava de forma estranha. Olhando para baixo, pude ver uma teia de tentáculos escuros cruzando as ruas e subindo pelos prédios. Eram como vasos sanguíneos, grossos e escuros, alguns tão largos quanto estradas e outros tão finos quanto um fio de telefone, e todos pulsavam em sincronia com a batida da luz atrás de mim.

Eu precisava me aproximar. Sonhos lúcidos nunca foram uma habilidade que possuí e sempre fui levado pela correnteza de qualquer coisa que passe pela minha consciência adormecida.

Então foi uma surpresa quando meu desejo silencioso de me aproximar se manifestou e me movi para frente. Ainda mais surpreendente foi que meu movimento para frente me levou para além da borda do telhado do Canary Wharf e eu caí. Despenquei, não sei a que altura, até atingir o chão com um estalo. Esperava que aquilo me acordasse, entretanto em vez disso, apenas fiquei ali deitado, convulsionado pela dor onírica, sabe... A consciência da dor sem o ardor intenso dos nervos. Depois de algum tempo, quem pode dizer quanto tempo em um sono profundo, voltei a me levantar e comecei a me mover por aquela paisagem infernal alaranjada e venosa que sabia ser a cidade.

Enquanto me movia... Não direi caminhando, pois não seria totalmente correto... Via pessoas. Poucas, e imóveis, todavia estavam lá. Elas me encaravam como fotografias, superexpostas e desbotadas, capturadas e imortalizadas em um único instante. Cada uma tinha aqueles tentáculos enrolados em volta delas, pulsando contra sua imobilidade. Uma tinha uma fina veia negra que serpenteava em seus braços e parecia desaparecer onde seu coração estaria.

Outro, um senhor mais velho de terno azul-escuro, jazia no chão com uma massa pulsante do tamanho de um tronco de árvore esmagando suas pernas. No rosto de cada pessoa que vi, havia aquela mesma expressão de surpresa, dor e confusão aterrorizada. Nunca tinha sonhado assim antes, e sabia que havia algo além da minha própria consciência atordoada.

Por fim, meu devaneio errante me levou de volta ao prédio do Barclays. Algo dentro de mim queria entrar, ver como era naquele cenário onírico rítmico e carnal. As luzes estavam acesas, mas eram de um laranja vapor de sódio como as de fora, e como todas as outras luzes, seu brilho pulsava naquele mundo vibrante, que parecia dominar todo aquele lugar.

As mesas estavam dispostas como sabia que estariam, porém não havia ninguém à vista. Peguei as escadas, pois a ideia de pegar o elevador me enchia de um frio pavor.

Eram 23 andares até o escritório onde eu trabalhava, contudo se eu tinha pernas naquele lugar, não foram elas que me carregaram escada acima. Foi lá que encontrei minha mesa, limpa e vazia como a havia deixado algumas semanas antes. Então, de repente, soube que havia algo no pequeno escritório ao lado. Senti isso no ritmo do meu sonho e me arrastei até lá para ver. Era o escritório do meu antigo chefe, John Uzel, e ele estava lá dentro. Uma das veias negras e escuras serpenteava pela janela e parecia ter suspendido John a sessenta centímetros do chão, enrolada levemente em seu pescoço. Como todos os outros, estava imóvel, uma imagem mantida no lugar, pendurada e suspensa por essa massa pulsante de alteridade.

Acordei nesse ponto. Qualquer outro pesadelo me deixaria suando frio e com os olhos arregalados, contudo naquela manhã me sentia revigorado. Percebi que, embora o sonho tivesse parecido um pesadelo em todos os sentidos, nunca havia sentido nenhum desconforto real. Até mesmo minha queda no início havia sido desprovida de qualquer angústia verdadeira. Tentei tirá-lo da minha cabeça enquanto procurava pelos sites de emprego, no entanto alguma coisa sobre o sonho persistia, como um odor fétido que você só sente quando para de pensar nele.

Não via John Uzel há vários meses. Ele havia deixado a empresa algum tempo antes do meu colapso e nunca o conheci muito bem, no entanto a imagem do seu rosto no meu sonho não me saía da cabeça, então resolvi descobrir por que havia retornado à minha mente de uma maneira tão estranha. Por algum motivo, a ideia de que pudesse não haver nenhuma causa para sua aparição, que pudesse ser totalmente incidental, nunca me ocorreu. Me ofereceram a oportunidade de retornar ao Barclays após minha saída bastante dramática, assim que minha saúde mental estivesse melhor, entretanto naquele momento eu não conseguia nem pegar o metro na Docklands Light, pois tinha um ataque de pânico sempre que o trem chegava em Poplar e a figura imponente do prédio do Barclays e do Canary Wharf apareciam. Recusei a oferta, todavia ainda mantinha contato com alguns dos meus ex-colegas, então enviei e-mails para alguns deles para ver se sabiam como entrar em contato com meu antigo gerente.

Não demorei muito para descobrir a verdade. John Uzel se enforcou após perder uma amarga batalha pela guarda do filho com sua ex-esposa. Tenho certeza de que não preciso dizer que aquilo me abalou profundamente. Novamente, não havia dúvida para mim de que poderia ter sido uma coincidência. Sabia, e ainda sei, que o que vi em meu sonho refletia deliberadamente seu destino.

Não me lembro dos meus sonhos nas noites seguintes, mas me lembro de ter tido o mesmo sonho outra vez no sábado seguinte. Era o mesmo em todos os detalhes, exceto que havia pessoas diferentes. Algumas permaneceram as mesmas, outras eram novas ou haviam desaparecido, e aquelas de que me lembrava haviam desbotado, como papel de parede deixado por muito tempo no sol. Mais uma vez, comecei no topo de Canary Wharf, com a luz pulsando atrás de mim, e assim que desci, me vi capaz de atravessar a cidade à vontade, observando todas as figuras envoltas naquelas veias pulsantes.

Voltei para onde John estivera e, com certeza, lá estava ele, embora desbotado a ponto de que, se eu já não soubesse quem era, não conseguiria identificá-lo. Os tentáculos que envolviam sua garganta estavam tão escuros como sempre estiveram. Sabendo agora o que sabia sobre John, pude perceber a morte de cada pobre alma que via enquanto vagava pelo sonho. As trepadeiras escuras agarravam a cabeça da vítima de derrame, os pulmões de um fumante com câncer e enterravam as vítimas de acidentes de carro sob a imensidão de seu volume. Não fui em direção ao hospital, pois tantas daquelas linhas grossas e elásticas levavam para lá que não conseguia ver nenhum espaço lá dentro que não estivesse sufocado por elas.

Esses sonhos têm sido uma parte regular do meu sono por cerca de oito anos. Mesmo quando a vida melhorou e encontrei um novo emprego e um lugar para morar, acredite ou não, agora trabalho vendendo cristais e cartas de tarô em uma loja de magia, eles continuaram a aparecer algumas vezes por mês. Se há uma vantagem em trabalhar onde trabalho, é que pude ler todos os livros sobre sonhos esotéricos já escritos, porém nenhum deles chega perto do que experimentei.

Tentei fazer as pazes com os sonhos por algum tempo, raciocinando que, enquanto não me causassem desconforto, eram inofensivos. Isso funcionou bem até que vi meu pai no sonho, caminhando pela rua Oxford, com as veias pulsantes subindo pela perna e subindo até o peito. Tentei avisá-lo, é claro... Fiz perguntas capciosas sobre sua saúde e como vinha se sentindo, se estava cansado esses últimos dias. Cheguei até a marcar uma consulta médica para ele, para seu grande desgosto. Contudo não adiantou nada... Dez dias depois, meu pai sofreu um ataque cardíaco e, apesar da rápida resposta dos paramédicos e de eu ter em mãos todas as informações sobre seu histórico médico, não houve nada que pudesse fazer para salvá-lo. Ele morreu na véspera de Ano Novo e, com o fim de 2014, também se foi qualquer esperança que eu tivesse de que meus sonhos pudessem fazer bem ao mundo.

Levou um mês e meio para a imagem do meu pai desaparecer do brilho alaranjado dos postes de luz na Londres dos meus sonhos. E, segundo meus cálculos, sua figura apareceu cerca de dez dias antes de sua morte. Conto isto porque acho que você tem o direito de saber com que tipo de prazos estamos lidando aqui. Receio não ter tido muitas oportunidades de experimentar ou observar algo mais específico. Há tantas pessoas que morrem em Londres, e conheço tão poucas delas. No entanto reconheço você. Enquanto escrevo estas palavras, consigo vê-la no outro cômodo, com os olhos fixos em qualquer livro com o qual esteja se distraindo; te reconheço dos meus sonhos. Disseram na recepção que vocês revisam todas os depoimentos por escrito, então só posso esperar que reserve um tempo para ler este atentamente.

Permita-me explicar com um pouco mais de detalhes. Foi na noite retrasada que o sonho se repetiu. Começou como sempre, comigo no topo do Canary Wharf, entretanto logo depois senti que alguma coisa havia mudado. O brilho alaranjado e opaco que pulsava de baixo parecia abafado de alguma forma, e uma sensação opressiva me invadia, a certeza de que algo estava profundamente errado. Olhando para baixo, pude ver que as veias, cuja dominação na paisagem onírica fora apenas parcial até então, haviam engrossado e agora pareciam cobrir quase toda a extensão de cada rua.

Arte por 008maxi.

Elas ainda pulsavam como antes, todavia em vez de bombear sua carga escura e desconhecida de forma invisível, agora, às vezes, uma luz vermelha escura percorria seu interior. Achei ter visto essa luz vermelha iluminar rostos e sombras dentro daqueles tentáculos, mas se movia rápido demais para que pudesse ter certeza de qualquer detalhe além da direção. Isso não era algo que tivesse visto acontecer antes nesses sonhos, e sabia que tinha duas opções: seguir a luz para onde quer que me levasse ou me virar e retornar ao mundo real. Decidi seguir o caminho daquele brilho escarlate, embora percebesse que estava flutuando a certa distância do chão, tão densas eram as vinhas abaixo. Segui-as por algum tempo; quanto tempo ao certo, não saberia dizer. Nunca me pareceu que viajasse mais rápido do que a velocidade de uma caminhada nesses sonhos, e mesmo assim as distâncias que percorria enquanto atravessava o crepúsculo alaranjado dessa outra Londres pulsante pareciam muito maiores do que o tempo que levava para atravessá-la. Assim são os sonhos, suponho.

Tudo o que sei com certeza é que percebi, depois de algum tempo, que a luz vermelha estava me guiando em direção a Vauxhall e ao Tâmisa. Havia menos pessoas visíveis ali... Será que os ricos morriam menos? Ou talvez apenas tivessem maior controle sobre onde morriam? Ou talvez eles só não pudessem ser vistos, lutando contra a morte por tanto tempo que, quando ela finalmente chega, seus tentáculos gélidos cobriram cada centímetro de seus corpos. Atravessei o Tâmisa, e a ponte estava repleta de trepadeiras reluzentes. Uma ou duas delas pareciam atravessar o próprio rio, e um lampejo vermelho ocasional podia ser visto sob a água, porém a maioria estava estendida sobre a ponte.

Por fim, vi o destino do brilho avermelhado. Um pequeno prédio, isolado do outro lado da ponte, perto do aterro. Não saberia dizer o nome da rua; a Londres dos meus sonhos não tem placas de rua. Era antigo, com colunas e uma dignidade silenciosa. Era neste prédio que todas as veias convergiam: cada porta, cada janela, estava repleta delas. Quando os raios de luz vermelha o atingiam, todo o edifício brilhava em tom carmesim. Vi uma placa de bronze ao lado da porta, coberto em parte. Na placa se lia: Instituto Magnus, Londres. Fundado em 1818. Entrei, embora não soubesse explicar como. As veias bloqueavam por completo todas as entradas possíveis, e ainda assim me vi movendo-me através delas. Vi os corredores, esses corredores, sufocados por aquela carne sombria, e os atravessei, seguindo aquela luz vermelha que agora pulsava com tanta intensidade que eu sabia que, se a visse acordado, teria sido cegado. A luz me levou a uma sala, cuja placa seguia estando visível, e dizia “Arquivo”.

Arte por kazoosnow.

Entrei e vi paredes cobertas de prateleiras e armários que se estendiam até onde a vista alcançava. Essas prateleiras estavam cobertas por um alcatrão preto e pegajoso, que soube naquele instante ser o sangue espesso e viscoso que pulsava em cada uma daquelas veias. Na frente da sala havia uma escrivaninha, e as veias a envolviam de forma tão apertada e espessa que eu sabia que devia ser ali onde terminavam.

Ao me aproximar, percebi que havia uma pessoa sentada naquela mesa e era para ela que toda aquela luz escarlate fluía. Não conseguia ver nada do corpo da figura sob a carne que a envolvia, no entanto, ao me mover ao redor, vi que o rosto estava descoberto. Era o seu rosto e a expressão nele estampada era muito mais assustadora do que qualquer outra que vi nos oito anos em que vaguei por esta cidade crepuscular. Foi então que acordei. Estou bem ciente de que nem sequer sei seu nome e não tenho a responsabilidade de tentar impedir o destino que a aguarda. Com base na minha experiência anterior, tal coisa deve ser impossível de qualquer maneira, entretanto depois do que vi, não conseguiria viver comigo mesmo se não tentasse ao menos. Fiz o máximo de pesquisa possível sobre o seu Instituto e marquei uma consulta para prestar depoimento sobre um suposto encontro sobrenatural. Mesmo assim, me disseram que a Arquivista só revisa os depoimentos por escrito depois de colhidos, então aqui estou, despejando minha história insana no papel na esperança de que você possa lê-la em algum momento.

Se você ler até aqui a tempo, para ser honesto, não sei o que mais lhe dizer. Tenha cuidado. Algo está vindo em sua direção e não sei o que é, mas é muito pior do que qualquer coisa que eu possa imaginar. No mínimo, você deveria considerar nomear um sucessor. Boa sorte.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Tenho certeza de que não preciso dizer o quão perturbador foi encontrar esse depoimento nos arquivos recentes. Não tenho... Certeza se devo ou não mencioná-lo para Elias. Quando ele me contratou, foi vago sobre o que aconteceu com minha antecessora, Gertrude Robinson. Perguntei se ela estaria disponível para me treinar para a transição, porém tudo que me disse foi que ela havia falecido e para eu não me preocupar muito com isso. Na verdade, agora que penso a respeito, a frase exata que disse foi “morreu em serviço”, o que presumi que significava ter sofrido um derrame em sua mesa ou algo semelhante. Acredito que fosse bastante idosa.

Quer dizer, é óbvio que não acredito no poder preditivo dos sonhos, todavia ainda assim, é uma descoberta bastante perturbadora. Pedi para o Tim investigar, já que não confio totalmente nos outros e não descarto a ideia de que escreveram isso como uma brincadeira e arquivaram. Sem surpresa, Tim não encontrou nada. Antonio Blake é um nome falso e todos os dados de contato que forneceu eram igualmente fraudulentos. É quase certo se tratar de uma piada, talvez uma brincadeira de mau gosto com o novo chefe? Acho melhor não dar atenção a isso.

Ainda assim, posso conversar com a Rosie para garantir que eu receba uma cópia de quaisquer novos depoimentos assim que forem feitos, e não apenas quando os pesquisadores terminarem. Ela pareceu muito aberta à ideia de gravá-las, então espero que também esteja disposta a fazê-lo. Se for verdade, bem, não tenho ideia se Gertrude teve a chance de ler este depoimento antes de falecer, contudo se alguém aparecer reclamando de ter sonhado com a minha morte, então quero muito ouvir falar sobre isso.

Fim da gravação.

***

Link para o índice de capítulos: The Magnus Archives

Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.

Chave PIXmylittleworldofsecrets@outlook.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário