domingo, 15 de fevereiro de 2026

Slayers — Volume 16 — Capítulo 68

Capítulo 68: Um reencontro de aliados em Atessa

A tensão na hospedaria era palpável.

Estávamos eu, Gourry, MacLyle e o prefeito. Entramos no prédio e seguimos para o interior. Os soldados em posição de sentido deveriam ter se lembrado de nós, mas nos encaravam com suspeita. Ninguém disse nada durante todo o tempo. Por fim, chegamos a uma porta.

“O senhor poderia explicar as coisas agora, prefeito?” perguntou MacLyle enfim, quando paramos. Tinha sido uma longa caminhada desde a hospedaria, porém não podíamos só falar sobre o sequestro de uma pessoa importante em plena luz do dia.

O prefeito assentiu, bateu na porta e a abriu sem esperar por uma resposta.

Lá dentro estava o quarto que tínhamos visitado no dia anterior. Tinha carpete, tapeçarias, uma grande mesa e escrivaninha, além de uma imponente cama com dossel nos fundos. Havia também várias criadas e cerca de seis soldados. Tudo parecia igual a antes, exceto pela ausência de Amelia.

“Quando amanheceu, a princesa não estava em lugar nenhum.” informou-nos o prefeito. Seu olhar percorreu os arredores para os soldados e as criadas. “Os soldados e as criadas do turno da noite disseram que de repente foram dominados pelo cansaço e desmaiaram. Existe magia que pode fazer as pessoas dormirem, não é?”

“Existe o feitiço do Sono.” respondi. “Contudo não costuma funcionar em pessoas que estão alertas, como no meio de uma luta...”

“Está sugerindo que não estávamos vigilantes?” um dos soldados gritou para mim.

Balancei a cabeça, negando sua acusação. “Não é o que quero dizer. Estou dizendo que devemos considerar outras possibilidades além da magia. Afinal, não havia a menor chance de um feitiço do sono ter coberto toda a hospedaria... Talvez houvesse algo nas bebidas. Ou algum tipo de soporífero à base de incenso. Ou qualquer um dos dois combinado com um feitiço do sono para potencializá-lo. Vocês notaram algo assim?”

Os soldados e as criadas trocaram olhares, no entanto minhas sugestões não pareceram fazer sentido.

O prefeito olhou para mim suplicante.

“Há alguma chance de a Princesa Amelia ter escapado sem avisar ninguém?”

“Bem... Duvido.” confessei. Conhecendo Amelia, ouvir falar dos saqueadores causando problemas para a cidade devia ter acendido seu forte senso de justiça. Ela poderia até estar ansiosa para punir alguém. Entretanto, mesmo assim, saberia que era inútil fugir sozinha quando nem sabia onde ficava o acampamento deles.

“Então... Isso significa...” a voz do prefeito foi diminuindo até desaparecer por completo.

Sem outras opções, completei sua frase.

“É razoável supor que foi sequestrada pelas pessoas que atacaram a cidade, sim.”

O rosto do prefeito empalideceu ainda mais.

“E-Então precisamos encontrá-la... Mobilizar a segurança local... Sim, também entrarei em contato com as autoridades...”

“Fique calmo!” eu disse, tentando tranquilizá-lo.

Nervoso, o prefeito continuou andando de um lado para o outro sem rumo.

“Calmo? Isto é uma crise para mim... Não, não só para mim! É uma crise internacional entre Zephilia e Saillune!”

“Acho que tudo vai se resolver de alguma forma.”

“Você não pode estar pensando... O quê?” o prefeito piscou algumas vezes. “Acha que isso vai dar certo de alguma forma?”

“Sim.”

“Como?”

“Não posso compartilhar os detalhes no momento, pois pode arruinar meus planos, então...” improvisei e olhei ao redor para as pessoas na sala. “Aguardem e verão.”

———

O vento agitava as folhas na imensidão verdejante, salpicada pela luz suave do sol. Eu estava sentada na base de uma grande árvore, olhando para cima, e os raios de sol filtravam-se caleidoscopicamente através das camadas ondulantes da folhagem. Teria sido o lugar perfeito para um piquenique, mas...

“Então, quanto tempo vamos esperar?” Gourry murmurou de onde estava sentado ao meu lado.

“Não sei!” respondi com naturalidade.

“Calma aí...” nem mesmo Gourry conseguiu ignorar essa. “Quer dizer que estava só blefando lá atrás? Acha mesmo que algo assim vai dar certo?”

“Enganar eles? De jeito nenhum. Sei muito bem o que estou fazendo!” insisti.

Depois de saber do sequestro de Amelia, aconselhei a todos, incluindo a equipe de segurança local, a agirem como se tudo estivesse normal. Entrar em pânico só beneficiaria o inimigo, foi o que sugeri, então os soldados de Zephilia e Saillune, em particular, precisavam ficar de prontidão na hospedaria caso chegasse um pedido de resgate.

Claro, ninguém ficou satisfeito com minha explicação brusca, porém a única alternativa era uma busca aleatória pela vasta floresta... O que todos sabiam que seria inútil. Sendo este o caso, por mais céticos que estivessem sobre meu plano, decidiram me ouvir.

Depois daquilo, Gourry e eu preparamos pão e bebidas para o almoço e partimos para a floresta. E aqui estávamos nós, sentados há um tempo, esperando.

“Na melhor das hipóteses, não vai demorar muito. E, no máximo... Será amanhã de manhã ou por aí.”

“Como assim ‘Ou’? Bom, te conheço bem o suficiente para saber que considerou a fundo sua ideia, contudo...” Gourry olhou ao redor. “Precisamos esperar aqui? Não podemos ficar na cidade?”

A grama ao nosso redor estava chamuscada, pois estávamos sentados onde havíamos lutado com os saqueadores no dia anterior.

“A cidade não está descartada, no entanto acho que este é o lugar ideal.”

“Se você diz.” respondeu Gourry.

Nossa conversa diminuiu e passamos mais um tempo sentados em paz até que...

“Ei.” Gourry se levantou de repente e olhou mais para dentro da floresta. “Você estava certa.”

Também me levantei e olhei na mesma direção. Havia duas figuras se aproximando de nós por entre as árvores.

Uma delas correu até nós enquanto gritava.

“Lina! Mestre Gourry!”

Acho que não preciso dizer quem era... A própria suposta sequestrada, Amelia. E logo atrás vinha um homem de branco com o capuz abaixado sobre os olhos.

“O que está acontecendo, Lina?” perguntou Gourry, inclinando a cabeça.

“É uma longa história!” disse o homem de vestes, levantando o capuz. Seu rosto revelado era bonito, embora sua pele era dura, azul e artificial. Seus cabelos prateados brilhavam com um brilho metálico sob a luz solar irregular.

Zelgadis Greywords. Nosso primeiro encontro foi como inimigos, todavia as circunstâncias o levaram a se juntar ao nosso grupo. Ele também conhecia Amelia.

“Ei, faz tempo!” disse Gourry, acenando.

“Faz mesmo... Espera, Gourry, ainda se lembra de mim?” disse Zel em tom de brincadeira.

Gourry sorriu despreocupado em resposta. “Ah, qual é. Claro que me lembro!”

“Ok, só para ter certeza, qual é o meu nome?”

“Eu sei o seu nome!”

“Então diga.” insistiu Zel.

Gourry coçou a cabeça, sem jeito.

“Qual é, me dá um tempo.”

“Te dar um tempo?” Zel, Amelia e eu gritamos em uníssono. A resposta do meu companheiro foi assim de absurda!

Nem mesmo Zel conseguiu evitar perder a calma.

“Espera aí, Gourry! Sério? Esqueceu mesmo meu nome? Fala! Nem estou pedindo meu nome completo! Só meu primeiro nome! Até um apelido serve!” ele parecia um pouco desesperado... Embora eu entendesse o porquê.

Por sua vez, Gourry sorriu.

“Claro que lembro. Não se preocupe. Você só quer que eu diga, né? Vou deixar a Lina fazer isso por mim.”

“Por que eu?”


“Ele esqueceu...” Zel sussurrou, com o rosto tomado pelo desespero.

Gourry acenou com as mãos apressadamente em resposta.

“Estou brincando! Sério, me lembro. É Zel-alguma coisa, né?”

“Oh... Então lembra.” disse Zel, aliviado.

...

“Espere um minuto, Zel! Vai ficar satisfeito com esse ‘Zel-alguma coisa’?” perguntei, indignada.

Mas sua resposta foi calma.

“Claro que sim.”

“Por quê?” perguntei.

“Pense bem. É o Gourry. É impressionante que se lembre de tanta coisa.”

“Quer dizer... Contanto que você esteja de boa com isso, acho que tudo bem. Enfim, vamos para a cidade. Agora não é hora para papo furado, né?”

Com isso, começamos a caminhada para Atessa. Amelia comentou no caminho.

“Então... Não faço a menor ideia do que está acontecendo.”

Hmm, por onde começar...

“Ok, vou te contar o que sei. A verdade é que, quando estávamos lutando contra os saqueadores ontem, percebi que Zel era um deles.”

Não tinha conseguido ver o seu rosto, porém ele usou os mesmos golpes que tentou em mim quando lutamos pela primeira vez, há muito tempo atrás... Assim, revidei para mostrar que o reconheci.

“Você está trabalhando com os saqueadores para ajudar a encontrar uma maneira de restaurar seu antigo corpo, estou certa?”

“É tão óbvio?” Zel respondeu com um leve encolher de ombros.

Antes de nos conhecer, Zelgadis trabalhava para um feiticeiro chamado o Sacerdote Vermelho Rezo, que o transformou em uma fusão quimérica de daemon, golem de pedra e homem para saciar sua sede de poder. Pelo que entendi, Zelgadis agora estava em uma jornada errante na esperança de descobrir uma maneira de restaurar sua humanidade. Eu já havia deduzido que ele se juntara aos saqueadores com esse objetivo, e esperava não ter que revelar tudo até ter certeza absoluta do que estava acontecendo...

“Contudo a enviada de Saillune chegou. Aposto que os saqueadores pensaram que poderiam sequestrá-la e usá-la para fazer exigências.” olhei na direção de Zel. “Só que, quando a trouxeram de volta para o acampamento, você teve uma grande surpresa. E sabia que ela entraria em fúria assim que acordasse...”

“Ei!” Amelia gritou, fazendo beicinho. “Falando desse jeito me faz parecer uma espécie de berserker!”

“Ok, me deixe perguntar uma coisa. Se tivesse acordado e se visse cercada por vilões, o que faria?”

“O que mais?” ela respondeu, cerrando o punho. “Faria justiça com as próprias mãos!”

“Exatamente o que a Lina disse!” Zel resmungou.

Um leve estremecimento surgiu em meu sorriso.

“Zel sabia que isso arruinaria tudo, não lhe deixando outra escolha a não ser salvar Amelia. Ele também sabia que os saqueadores o perseguiriam logo, então ir direto para a cidade significaria ser pego ou dar aos saqueadores tempo para armar uma emboscada em outro lugar. Além do mais, percebeu que eu também estaria prevendo toda essa situação. Então, precisávamos nos encontrar em algum lugar que ambos conhecêssemos. Algum lugar onde ninguém mais pensaria em procurar. E onde poderia ser mais perfeito do que onde lutamos ontem?”

“Entendo! Faz sentido!” disse Amelia, radiante.

“Aha...” Gourry murmurou distraído, assentindo com a cabeça. Ficou claro que continuava sem fazer a mínima ideia do estava acontecendo.

Amelia então inclinou a cabeça.

“Nesse caso, como fui sequestrada? Havia soldados de guarda, e mesmo que todos tenham adormecido, a maioria das pessoas acorda quando sente uma intenção maligna por perto.”

Bem, não acho que a maioria das pessoas acorde. Mas você, Amelia? Acredito nessa possibilidade.

Decidindo não dizer minha opinião em voz alta, respondi.

“Os soldados e as empregadas parecem achar que um feitiço do Sono foi lançado sobre toda a casa de hóspedes. Talvez seja esse o motivo pelo qual você não acordou.”

“Dormindo?” Amelia perguntou com cautela. Ela era habilidosa em magia branca e xamânica. E sabia como o feitiço funcionava e devia compartilhar das minhas dúvidas sobre a teoria do Sono.

“Oh, isso? Suspeito que...” Zel começou. Porém naquele momento...

“Espere um segundo.” Gourry interrompeu o grupo.

Estávamos a alguma distância de Atessa. Não diria que estávamos muito longe, contudo era longe o suficiente para que a cidade estivesse encoberta pelas árvores.

O motivo de Gourry ter nos parado, no entanto, ficou claro em seguida. Todos paramos e observamos com mais atenção para dentro da mata. No instante seguinte, Gourry estava com a mão na espada, pronto para desembainhá-la.

Logo, uma figura surgiu das sombras da floresta. Vestia a mesma túnica e calças verde-escuras dos saqueadores com quem havíamos nos desentendido no dia anterior. Seus cabelos e pescoço estavam cobertos por um tecido cor de areia, no entanto seu rosto estava exposto. Talvez estivesse com muita pressa para encontrar Zel. Ou talvez tivesse decidido que cobrir o rosto não valia a pena. Talvez ambos.

Seu rosto era bastante atraente, embora não conseguisse identificar seu gênero. Entretanto, quando falou, era a mesma voz masculina com quem troquei algumas palavras no dia anterior.

“O que pensa que está fazendo, Zelgadis?”

“Por acaso, conheço essa garota. Não posso deixar que vocês a sequestrem.”

Zel gesticulou na direção de Amelia.

“E apesar da sua aparência, é um membro da realeza de Saillune. Se não tiver cuidado, vai virar um reino inteiro contra você.”

“Como se eu me importasse!” retrucou o homem .

Zel soltou um suspiro profundo e respondeu.

“Sabia que diria isso, Tessius. Você é imprudente demais.”

“E sua cautela é exagerada, Zelgadis. Agindo com tanta superioridade, mas sempre optando pelas táticas mais covardes. Acabei me submetendo as suas ideias o tempo todo, e veja agora onde isto me levou.”

Normalmente, teria aproveitado a oportunidade enquanto os dois conversavam para lançar um feitiço e atacar Tessius de um ângulo inesperado, porém naquele momento, não conseguia fazer nada. Esperava, em parte, que se o deixasse falar, Tessius se descuidasse e revelasse alguma informação útil, todavia, mais importante, ainda não tinha descoberto o que de fato estávamos enfrentando. Conseguia sentir várias presenças misturadas à floresta ao redor, contudo não conseguia dizer quantas eram ou suas localizações exatas. Só provocar Tessius de imediato não nos adiantaria muito nessas circunstâncias, e corria o risco de irritar seus amigos.

“Mesmo assim...” disse Tessius com um suspiro. “Apesar de repudiar seu egoísmo, tal aversão não é um bom motivo para nos envolvermos em destruição mútua. Portanto, se concordarem com meus termos, concordarei em deixar todos vocês irem.”

Hein? Que mudança...

“Que atitude incomum da sua parte.” respondeu Zel sarcasticamente, ainda em guarda.

Tessius deu de ombros num movimento desinteressado.

“É que percebi que te matar não nos aproximará do nosso objetivo.”

“Então, quais são as suas condições?”

“Primeiro, não fiquem no nosso caminho.” começou Tessius. “Diria que não é sequer uma ‘condição’ e mais um ‘pré-requisito’. Tenho certeza de que entende. Ninguém em sã consciência deixaria um oponente escapar sabendo que este pretende ser uma pedra no sapato. Uma vez que concordem em recuar, não, antes que lhe diga minhas condições...” a voz calma de Tessius flutuou no vento que farfalhava as folhas. “Zelgadis, acho que já sabe, contudo vou explicar nosso real objetivo. Não quero nenhum mal-entendido, e tenho certeza de que há algumas coisas que não pode julgar a menos que saiba ao certo o que estamos buscando...”

Perto e longe, as folhas dançavam... Nesse instante, Gourry cortou o ar com sua espada, produzindo um som agudo!

“O quê?” Tessius gritou, dando um salto para trás, com a surpresa estampada no rosto.

“Ei, Gourry! O que está fazendo?” gritei, despertando do meu torpor sonolento.

Espere, torpor sonolento?

“O que você fez?” Gourry rosnou.

“Como percebeu?” Tessius exigiu, parecendo abalado.

“O quê...? O que aconteceu?” Amelia perguntou, incerta.

“Acho... Que foi um feitiço do sono.” respondi. “Ele ofereceu um acordo razoável para baixarmos a guarda enquanto alguém lançava Sono em nós à distância, aposto.”

Gourry percebeu sua tática e desembainhou a espada para criar uma tensão repentina que anulou os efeitos do feitiço. Se não tivesse agido... Bom, mesmo que não tivéssemos adormecido, teríamos ficado desprevenidos.

“É claro que não senti que estava baixando a guarda.” acrescentei. No entanto não podia negar que o feitiço estava me afetando.

“Então era isso que estava tramando... Fiquem vigilantes, pessoal! Seus conjuradores são muito superiores!” Zelgadis gritou. “Tessius, pensei que estivesse sendo excepcionalmente razoável... Entretanto se esse é o seu jogo, não haverá negociações!”

“Tch!” Tessius estalou a língua e deu um salto para trás.

Nesse momento, quatro figuras apareceram da vegetação rasteira atrás de Tessius. As novas figuras lançaram algo em nossa direção que uivou pelo ar. E então...

“Vento de Diem!” Vwoosh!

Amelia se adiantou entoando o feitiço enquanto Zel e eu conversávamos, e não hesitou em lançá-lo! Vento de Diem não fez nada além de criar uma forte rajada de vento, todavia foi o suficiente para desviar os projéteis desconhecidos. A maioria foi levada pelo vento, e quanto aos poucos que continuaram vindo...

Zing! Gourry os rebateu no ar com sua lâmina. Avistei um deles pelo canto do olho enquanto caía no chão, inofensivo... Era como um objeto escuro, semelhante a uma faca.

As quatro novas figuras avançaram como se fossem dar cobertura a Tessius. Zel e eu começamos a entoar o feitiço.

“Foggul.” Tessius ativou um feitiço próprio um instante antes de terminarmos. Não o reconheci, mas... Bwash! Com uma explosão de som e pressão, uma névoa branca engoliu de repente meu campo de visão.

Uma cortina de fumaça? exclamei surpresa. A névoa começava a obscurecer a figura de Tessius quando...

“Flecha Flamejante!” Zel conjurou. Uma dúzia de dardos flamejantes cortou a névoa branca que pairava no ar... Ou não. Na verdade, a névoa se enrolou ao redor dos dardos e os extinguiu sem emitir nenhum som.

O fenômeno do cancelamento mútuo? Ele usou seu feitiço para anular ambos... Foi o que pensei, porém a névoa permaneceu no lugar.

“O quê?” Zel reagiu, chocado.

“Flecha Congelante!”

Agora era minha vez de lançar um feitiço, e conjurei a versão gélida das Flechas Flamejantes que Zel havia disparado. Em vez de desaparecerem, as minhas voaram em direção a Tessius. Se o atingissem, seu frio abaixo de zero causaria desde queimaduras de frio até congelá-lo no lugar. Imaginei que isso o atrasaria de alguma forma.

Mas, em resposta, Tessius lançou um feitiço de vento que dispersou minha saraivada de projéteis gélidos.

“Vento de Diem!”

Esse babaca! Ele sabe mesmo como conjurar rápido! Ainda assim, Gourry estava no encalço das minhas Flechas Congelantes. Porém antes que pudesse se aproximar...

“Ziglous!” uma nova voz entoou atrás de Tessius. Através da minha visão ainda turva, pude ver alguns rastros surgirem do chão.

O quê?

Pareciam lanças apontando para cima... Contudo atingiram um ápice e descreveram um arco de volta para nós.

Zel, Amelia e eu abafamos gritos de surpresa e nos movemos para desviar do ataque iminente. Pelo canto do olho, vi um deles vindo direto para Gourry. Este parou para golpeá-lo com sua espada, despedaçando-o.

As hastes semelhantes a lanças então se contorceram e se agitaram como chicotes ou tentáculos, como se buscassem uma presa para aprisionar. Agora podia ver que elas haviam crescido a partir dos projéteis anteriores. Será que o conjurador usou facas como intermediário para invocar os tentáculos? Outro feitiço do qual nunca ouvi falar?

Não conseguia me livrar da sensação de que algo estranho estava acontecendo. Claro, não conheço todos os feitiços do mundo... No entanto seguia com essa sensação de que havia alguma coisa errada. A forma estava completamente fora do lugar. Entretanto poderia me dedicar a descobrir qual era o feitiço mais tarde!

Amelia deu um passo para o lado.

“Lança Elemekia!” ela gritou, lançando seu dardo brilhante em direção a Tessius.

Todavia Tessius não ia ficar parado e deixar o ataque atingi-lo. Seu corpo desviou sem esforço com um grande salto para trás. A luz passou na sua frente enquanto saltava... E acertou um de seus aliados!

Devia ser a razão pela qual Amelia havia mudado de posição. Havia alinhado uma trajetória que cruzava dois alvos, de modo que, mesmo que Tessius desviasse, atingiria o cara atrás. E como Tessius estava bloqueando a visão do amigo, este não pôde ver o ataque vindo até ser tarde demais. Ele cambaleou um pouco e então... Se dissipou sem fazer barulho!

“Hã?” Amelia soltou um grito de surpresa. A Lança Elemekia causava dano direto ao espírito do oponente. Não podia ferir fisicamente o alvo, embora o deixaria inconsciente. Não era o tipo de feitiço que vaporizava alguém.

Tessius continuou a recuar, mantendo distância de Gourry, enquanto as três figuras restantes avançavam para tomar seu lugar.

Foi nesse momento que lancei meu próximo feitiço!

“Explosão de Cinzas!”

Vrrrm! Com um estrondo grave, produzi uma esfera negra. Mas, em vez de arremessá-la em Tessius e seus amigos, lancei-a a uma altura de cerca de um joelho em uma árvore um pouco distante. A escuridão se expandiu até a largura do tronco e então desapareceu, levando consigo aquela seção do tronco. Sem nada para sustentá-la, a árvore começou a inclinar...

Krshfshfshfsh! As folhas da árvore em queda tremeram com força enquanto esta se chocava contra os três amigos de Tessius. Meu plano era abatê-los um por um enquanto tentavam se esquivar... Porém eles nem se mexeram. Apenas deixaram a árvore esmagá-los e então se levantaram outra vez como se nada tivesse acontecido!

O quê? Obviamente, nenhum humano comum seria capaz de fazer uma coisa dessas.

O pior cenário possível era que estivéssemos lidando com mazokus puros. Mazokus puros eram essencialmente seres astrais que podiam ser pulverizados por feitiços que causavam dano espiritual e resistir a danos físicos, como, por exemplo, uma árvore caindo em suas cabeças. Contudo eu já havia lutado contra muitos mazokus puros antes, e esses caras não me pareciam ser desse tipo. Ainda assim, também não eram seres de carne e osso...

Assim que comecei a juntar as peças, uma voz falou de longe.

“Olglous.”

Desta vez, inúmeros tentáculos brotaram dos aliados de Tessius e nos atacaram! Seus aglomerados eram densos e numerosos demais para serem todos evitados.

Zelgadis se agachou, colocou uma das mãos no chão e entoou.

“Dug Haute!”

A terra plana abaixo cedeu ao seu chamado. Logo depois se elevou, produzindo inúmeras torres de terra e pedra. Zel havia ativado o feitiço entre nós e o inimigo, conjurando uma grande parede para nos proteger dos tentáculos que se aproximavam. Dug Haute implorou aos bephemoths, espíritos da terra, que moldassem o solo ao seu redor. Zel devia ter entoado o feitiço com a intenção de usá-lo em um ataque, e essa pequena manobra defensiva foi improvisada.

A maioria dos tentáculos que se aproximavam foi detida pelas torres, seja atravessando-as ou sendo forçada a contorná-las. Alguns tentáculos até conseguiram romper a parede, no entanto com seu número reduzido de maneira drásticas, não eram nem de longe tão assustadores. Pelo canto do olho, pude ver Gourry e Zel cortando-os enquanto Amelia se esquivava. Saquei minha espada curta e ataquei um que vinha em minha direção também. De perto, eles pareciam mais flora do que fauna. Então, são vinhas em vez de tentáculos?

A parede de terra entre nós e o inimigo limitava seus movimentos, todavia também nos impedia de avançar em linha reta.

“Para a esquerda!” gritei, e todo o grupo correu comigo.

As figuras que haviam liberado as vinhas tentaram nos perseguir, entretanto...

“Lança Elemekia!”

Amelia disparou um segundo dardo brilhante e destruiu mais um deles. Os dois restantes, por sua vez, não diminuíram o passo.

Enquanto isso, Tessius não demonstrava nenhum sinal de um ataque subsequente. Ele estava envolto em sua névoa branca como antes, então esperava que ele simplesmente se dispersasse. Por mais que quisesse acabar com tudo ali mesmo, nosso objetivo mais urgente era levar Amelia de volta à cidade em segurança.

Estávamos fazendo um desvio para chegar lá... Quando uma sensação de malícia percorreu a área. Um momento depois, ouvi o som fraco de algo assobiando no ar à minha esquerda.

Flechas?

Antes que pudesse reagir... Clink! Gourry já havia se aproximado e cortado a flecha com sua espada. Ficou bem claro que eu era o alvo. Se Gourry não tivesse me protegido, não tenho certeza se conseguiria desviar.

Talvez houvesse um arqueiro escondido, alguém além de Tessius, que havia chegado ao nosso flanco. Mas como eles estavam nos mirando com a visibilidade comprometida pela névoa? Essa luta era excepcional em muitos aspectos, porém, apesar de tudo, meu foco tinha que permanecer em sair dali o mais rápido possível!

Zel disparou uma Lança Elemekia enquanto mantinha um olho nas figuras que seguiam nos perseguindo. Da minha parte, preparei um novo feitiço.

“Bola de Fogo!”

Para onde estava mirando? Para onde a flecha tinha vindo, é claro! O feixe de luz que disparei cortaria o ar e explodiria em uma grande labareda ao atingir algo. Não conseguia ver o arqueiro, contudo atingir qualquer coisa em sua proximidade deveria mantê-lo ocupado.

Pelo menos, essa era a teoria. Só que antes que meu feixe de luz pudesse ir a qualquer lugar, foi envolvido pela névoa e desapareceu.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

Enfim percebi o que de fato aquela névoa branca era. Não era uma cortina de fumaça ou uma distração, e a razão pela qual as Flechas Flamejantes de Zel falharam antes não era apenas um cancelamento mútuo coincidencial. A névoa suprimia a ativação de magias do tipo fogo. Obscurecer nossa visão devia ser apenas um efeito colateral útil.

Mesmo assim... Algo desse tipo era realmente possível? Era óbvio que nosso oponente tinha alguma magia maluca na manga. Zel havia sugerido essa possibilidade antes, mas droga.

Senti outra onda de malícia. É provável que o atirado estivesse mirando em mim de novo. Nesse instante, Gourry trocou sua espada para a mão esquerda e brandiu a direita sem cerimônia.

“Geh!” veio um grito da direção onde o arqueiro estava escondido.

Espere um segundo...

“Você o acertou?” não consegui evitar gritar em choque quando processei o que havia acontecido.

“Parece que sim.”

Gourry deve ter acertado o cara com uma pedra ou uma faca de arremesso... O que parecia impossível. A área estava coberta por uma névoa branca densa. Não tínhamos visibilidade. E não se podia arremessar uma pedra tão longe quanto uma flecha. Mesmo assim, sem falhar, Gourry tinha...

“Como isso é possível?” Amelia exclamou, igualmente chocada.

Entretanto o grandalhão só respondeu, como se não fosse nada demais.

“Eu só arremessei na direção de onde a flecha veio.”

Caramba... Sabia que o Gourry era um espadachim de primeira linha, mas essa habilidade era realmente surreal. Nossos oponentes devem ter ficado ainda mais chocados do que eu. Preciso aproveitar a vantagem!

No momento em que esse pensamento me ocorreu, de repente, sem aviso prévio... A névoa desapareceu e pude enxergar sem problemas.

“O quê?” Tessius gritou.

Com a névoa dissipada, as torres de terra, as vinhas que as envolviam, nossos dois perseguidores restantes e Tessius a alguma distância estavam todos visíveis.

“O que você fez?” ele gritou em pânico.

Sorri em resposta.

“Quer saber?”

Na verdade, não tinha a mínima ideia de porquê a névoa havia se dissipado. Porém não me impediria de blefar até não poder mais. Antes que pudesse ir mais longe...

“Lança Elemekia!” Zel lançou em uma das duas figuras perseguidoras.

Fwsh! A lança explodiu em uma chuva de folhas e vinhas! Ah, então eram plantas animadas e controladas por magia. Golems de plantas, digamos assim. Conheço os golems de madeira, claro, contudo esta foi a primeira vez que vi um que era apenas uma massa de folhagem.

“Tessius! Recue!” alguém gritou da direção presumida do arqueiro. Quando olhei na direção, tudo o que vi foi um véu verde. Ele estava se escondendo atrás de algo ou tinha uma camuflagem muito boa.

“Tch!” Tessius estalou a língua e recuou rapidamente para dentro das árvores. “Não tão rápido!” gritei, no entanto não os persegui, claro.

Deixá-los fugir seria como admitir que também estávamos com dificuldades, então pensei que um pouco de bravata os assustaria de vez. Todos os outros pareceram perceber o que eu estava tramando, porque permaneceram imóveis no mesmo lugar. E, sem espaço para dúvidas, as presenças hostis logo desapareceram da cena.

“Parece que eles se foram.” disse Zel com um suspiro de alívio, embainhando a espada para marcar o fim da luta. “Como você dissipou aquela névoa, Lina?”

Tessius parecia convencido de que alguém tinha feito aquilo, todavia...

“Não fui eu!” respondi, dando de ombros.

“Quem, então?” perguntou Amelia, confusa.

Respondi com um sorriso indomável.

“Por que vocês não saem logo?” gritei.

Essa foi mais uma demonstração de bravata que não esperava que desse certo, embora seria legal se desse. Os outros, por sua vez, pareciam ter percebido, pois todos estavam parados olhando na minha direção.

“Ok...” disse Amelia, com os olhos fixos em mim. “Quem é aquela?”

“Quem é o quê?” olhei para trás... E lá estava Alaina. “Bwuh!”

“Bwah!” após ser surpreendida pela minha exclamação de espanto, Alaina começou a mexer os lábios silenciosamente, como um peixe fora d’água.

Maldita Alaina! Você se aproximou tanto de mim com sua presença completamente oculta?

“O que está fazendo aqui?” me peguei perguntando.

Ela tocou em algo parecido com botões em cada lado da gola e começou a sussurrar. Ah... Os Discos de Regulus. Vendi eles para Alaina com desconto de amigo, e ela os prendeu à gola como fechos. Talvez tenha apenas sussurrado o encantamento de ativação.

“A floresta estava em um alvoroço.” a elfa enfim respondeu através dos discos enquanto se levantava. Não consegui entender bem se aquilo era uma resposta ou não, mas acho que seus sentidos élficos lhe diziam quando e onde as coisas estavam acontecendo na floresta.

“Espere, se acabou de chegar... Foi você quem dissipou aquela névoa?”

“Bem... Sim...” respondeu, sem se comprometer.

Nesse momento, Zel comentou com um tom curioso na voz.

“Uma elfa?”

“É, e daí?” perguntei.

“Certo, ainda não te contei.” respondeu Zel, mantendo um olhar atento em Alaina. “Tessius e seu bando são elfos tentando expulsar os humanos da floresta.”

“São elfos?” gritei.

“Sim!” disse Alaina, interrompendo-me. “E o motivo de eu estar aqui... É para tentar impedi-los.”

———

A princípio, só se ouvia gritaria. O que era perfeitamente compreensível. O sequestro de Amelia, uma princesa de Saillune e enviada oficial, era um incidente internacional. Mesmo assim, Gourry e eu tínhamos feito algumas declarações vagas, saído para procurá-la e voltado como se nada tivesse acontecido. Além do mais, Zelgadis parecia super suspeito.

Entre os presentes estavam o prefeito, MacLyle, o capitão da guarda de Saillune, o capitão dos soldados zephilianos estacionados na antiga mansão do lorde, o segurança local chamado Randa ou algo assim, as criadas e alguns outros. Depois, havia nós quatro e Alaina. Estávamos todos reunidos em um quarto na casa de hóspedes... O de Amelia, para ser exato... Quando a gritaria começou.

“Isso é sua responsabilidade!”

“Foi negligência!”

“Com a autoridade de quem?”

“Gostariam de creme azedo nos seus scones?”

“É uma questão de disponibilidade, pessoal!”

Perguntas, reclamações, resmungos, sermões... Todos gritavam uns com os outros com tanta rapidez e fúria que era difícil distinguir quem falava com quem.

Esperei até que começassem a se cansar dos gritos antes de bater palmas para chamar a atenção de todos.

“Muito bem! É hora de resolvermos esse problema. Vamos falar com uma pessoa de cada vez. Preparados?”

“Quem te deu o direito de comandar?” o prefeito vociferou.

“Permita-me assumir o comando, então.” declarou Amelia, cortando o prefeito. Havíamos conversado no caminho de volta para a cidade sobre como eu encontraria uma oportunidade para que Amelia liderasse a discussão. Seu olhar percorreu ao redor da sala, fazendo contato visual com cada pessoa presente, uma a uma, e então disse. “A primeira coisa que precisamos fazer é garantir que todos estejam na mesma página sobre a situação. Depois, descobriremos o próximo movimento do inimigo e como contra-atacá-lo. Aceitarei perguntas e sugestões, porém não tolerarei mais reclamações ou acusações. Críticas à segurança por causa do meu sequestro também estão fora de questão. Entendido?”

Essa é uma verdadeira realeza... Disse tudo de forma tão direta e clara que era possível sentir a autoridade emanando.

Assim que falou que apontar o dedo estava fora de questão, o prefeito e os capitães da guarda não disseram mais nada. Os seguranças locais também se calaram. E assim que o silêncio tomou conta da sala...

“Gostariam de creme azedo nos seus scones?”

“Sim, bastante, por favor!” respondeu Amelia, grandiosamente.

As criadas se apressaram e começaram a preparar cadeiras e mesas para a multidão. Amelia sentou-se e os demais começaram a segui-la. Enquanto as criadas começavam a servir chá e scones, Amelia voltou a falar.

“Agora, vamos começar as apresentações.” prosseguiu, gesticulando para Zel. “Este é meu agente secreto pessoal, Mestre Zelgadis.”

“Agente... Secreto... Pessoal?” alguém sussurrou.

Um murmúrio percorreu a sala, contudo Amelia o ignorou e continuou.

“Manter a justiça exige o grande poder dos estados e exércitos! No entanto o fato é que existem lugares que nem eles conseguem alcançar! É por esse motivo que dei a este homem carta branca para conduzir investigações secretas, farejando várias atividades nefastas nas proximidades de Saillune.”

Essa era a estratégia que eu havia inventado... Ou melhor, que havia proposto a Amelia no caminho de volta para a cidade. Claro, era uma grande bobagem. Se contássemos a verdade sobre Zelgadis para a cidade, o prefeito e os outros cidadãos ou explodiriam de raiva contra ele ou o fariam ser preso. Independente de seus motivos, e mesmo que estivesse do nosso lado agora, o fato é que havia participado do ataque a Atessa. É claro que dificilmente começariam a apontar o dedo enquanto estivesse trabalhando ativamente para nós, e sabia que não podíamos nos dar ao luxo de perder Zel como lutador. Essa era uma forma de o protegermos, e pela qual poderia nos recompensar com seu conhecimento, sua espada, seu trabalho e seu dinheiro.

A questão é que a história meio que desmoronava se você parasse para pensar. Afinal, um investigador particular não teria autoridade fora de seu próprio país. Mas quando Amelia, vítima de um sequestro e membro da família real, fez tal anúncio, ninguém iria discutir com suas palavras.

Ela continuou.

“Foi uma grande sorte que estivesse infiltrado nas fileiras dos saqueadores quando cheguei. Agora, vou pedir que nos conte mais sobre eles.” ela pigarreou. “Porém antes de prosseguirmos, pedi que se refira a mim sem título no dia a dia, para que faça o mesmo durante as missões. Ele fará isso também durante sua explicação, então não o critiquem por fazê-lo.”


Amelia teve que avisar de antemão para evitar que o prefeito e os soldados se sentissem obrigados a repreender Zel por ser desrespeitoso. Esse tipo de coisa era um grande incômodo para todos, contudo era o tipo de coisa com que a realeza tinha que lidar.

“Então vou começar!” disse Zelgadis, tomando a palavra.

Assim, nos contou a versão resumida no caminho para Atessa, embora houvesse detalhes que ainda não sabíamos. Estava curiosa para ouvir o resto da história.

“Eles se autodenominam Cães da Floresta. São um bando de elfos liderado por um homem chamado Tessius Crosaius. Têm alguns simpatizantes e apoiadores, no entanto apenas uns cinco ou seis membros ativos. Seu objetivo é, pelo que pude descobrir, expulsar os humanos desta cidade e retomar a Floresta de Celcelas, que pertenceu aos elfos há muito tempo.”

“Elfos? Retomar a Floresta de Celcelas?” enquanto alguns dos presentes cochichavam, seus olhares naturalmente se voltaram para Alaina, a elfa.

Sob a pressão dos olhares, ela se levantou com calma, depois se agachou e se escondeu debaixo da mesa. Com essa reação, todos... Incluindo Zel e Amelia, com exceção de Gourry e eu, que a conhecíamos bem o suficiente... Ficaram em silêncio, atônitos.

“Ah!” começou MacLyle, sem jeito. “Ela tem ansiedade social severa, então, por favor, não fiquem a encarando, ok?”

Um instante depois, com muitos revirar de olhos implícitos, todos se voltaram para Zel.

“Espere um minuto. Você disse que eram um bando de elfos, entretanto...” Randa, do grupo local, interrompeu. “Como conseguiu? Como entrou, então? Você não é... Um elfo, é?”

“Não.” Zel deu de ombros. “Como acabei nessa forma é uma longa história, mas tecnicamente ainda sou humano. Conheci o líder dos Cães da Floresta, Tessius, há muito tempo.”

Imaginei que estivesse se referindo à época em que trabalhava para o Sacerdote Vermelho, porém não pedi detalhes.

“Ouvi rumores de que seus Cães da Floresta estavam tramando algo, então entrei em contato. Presumi que me rejeitariam, contudo acabaram me aceitando com surpreendente pouca resistência... Embora pareça que só queriam que eu fizesse o trabalho sujo e depois me dispensassem quando chegasse a hora. Na verdade, me pediram para matar algumas pessoas na cidade, é claro que sempre encontrei desculpas para recusar.”

“Queriam que você matasse pessoas?” o prefeito empalideceu.

“Esperava induzi-los a se moderarem... Acho que acabaram ficando impacientes. Assim, sequestraram Amelia sem nem me consultar.” explicou Zel. “Não sei se pretendiam mantê-la como refém ou iniciar uma guerra entre Saillune e Zephilia, de qualquer forma, não podia deixar isso acontecer. Então a salvei, e aqui estamos.”

“G-Guerra?” o rosto do prefeito empalideceu ainda mais. “Por... Por quê? Por que agora? Quer dizer, sempre soube que elfos viviam na floresta há muito tempo... No entanto ouvi dizer que eles entregaram a floresta aos humanos e foram embora. Até me disseram que o costume da cidade de plantar uma nova árvore para cada uma que cortamos fazia parte do acordo que tínhamos com os elfos. Mesmo que estivessem descontentes com o acordo, nada aconteceu por décadas ou mais... Por que estão vindo atrás de nós agora?”

“Sobre isso...” falei, chamando a atenção dos demais. Esperei para ter certeza de que todos estavam olhando para mim antes de continuar. “Mantenham os olhos bem onde estão. Acho que a explicação mais rápida virá de alguém incapaz de falar se a atenção estiver voltada para ela. Então, faça o que fizerem, continuem olhando para mim.” outra expressão de irritação passou pelos rostos da multidão, todavia assim que deixei meu ponto claro, falei. “Alaina, poderia explicar? Ninguém está olhando agora.”

“Eles realmente não estão olhando?”

“Sim.”

“Se eles olharem, vou fugir, entendeu?”

Nossa, ter ansiedade social é uma coisa, mas isso já está ficando absurdo...

Dessa vez, a irritação no rosto de todos não diminuiu.

“Está bem. Agora nos conte o que sabe sobre os Cães da Floresta de Tessius.”

“Por onde começo? Elfos costumavam viver na Floresta de Celcelas. Quando os humanos se mudaram para lá, coexistimos no início, mas as coisas mudaram quando eles começaram a derrubar árvores e a forjar. A floresta é preciosa para nós, elfos, porém os humanos não podiam abrir mão de seu sustento. Houve um período de lutas, logo os elfos decidiram deixar a floresta para os humanos se concordassem em plantar uma nova árvore para cada uma que derrubassem. Isto foi há cerca de cento e cinquenta anos.”

“Cento e cinquenta...” alguém sussurrou vagamente.

“Contudo nem todos concordavam. Havia um grupo que se opunha ao acordo e queria ver a floresta de volta às mãos dos elfos... Os Cães da Floresta. Apesar de serem poucos, sabiam que se tentassem fazer alguma coisa, enfrentariam humanos e elfos. Até muito recentemente, eram uma resistência apenas de nome. Só que ouvi dizer que houve uma mudança de liderança, e se tornaram mais extremistas desde então. Se fosse verdade... E se conseguissem ferir humanos... Poderiam inflamar uma guerra não apenas entre eles e esta cidade, como entre humanos e elfos em geral. Foi por essa razão que fui enviada para cá... Para tentar controlar as coisas antes que chegassem a um ponto crítico e antes que os Cães da Floresta fossem expostos como elfos.”

Aha... Alaina queria deter o bando de Tessius por conta própria antes que suas identidades fossem reveladas. É por esse motivo que se opôs a princípio que eu e Gourry ajudássemos as forças de segurança locais. Claro, mesmo que tivesse conseguido fazer contato antes de nós, dada a sua timidez, duvido que teria convencido alguém.

“Então eles querem nossas terras?” perguntou o prefeito. “Mesmo que tomem a cidade, não conseguiriam administrá-la, muito menos a floresta inteira, com tão poucos membros.”

“Não acho que queiram as terras exatamente.” disse Alaina. “Não é que queiram explorar seus recursos. Como devo explicar... A floresta é especial para os elfos. Muitos de nós apenas não suportam a ideia de humanos a perturbando. Ainda que vocês concordem em replantar o que cortarem na floresta, os elfos não gostam do fato de que as árvores estão sendo derrubadas. E alguns humanos não replantam de qualquer forma, então alguns elfos sentem que o acordo não foi cumprido.”

Ao ouvir suas palavras, o prefeito franziu a testa, demonstrando desagrado.

“Bem, concordo que se algumas pessoas não estão replantando, isso é uma quebra do acordo. Contudo ainda estamos replantando, e não está prejudicando vocês, elfos, de forma alguma. Estão causando todo esse problema por uma coisa tão insignificante?”

“Não é insignificante para os elfos!” explicou Alaina.

O prefeito franziu mais a testa.

“O que quer dizer?”

“Não sei bem como explicar... É difícil colocar em palavras, para nós, elfos... Simplesmente não podemos deixar isso acontecer.”

“Como vou entender se não explicar?”

“Faz sentido para mim.” interrompi enquanto Alaina se esforçava para encontrar as palavras. “Não é uma comparação perfeita, mas todos aqui conhecem os mazokus, certo? Inimigos da criação, buscadores da destruição absoluta? Então, perguntem-se: por que os mazokus buscam a destruição? Se pedissem a um mazoku para explicá-lo, é bem provável que receberiam uma resposta semelhante. Da mesma forma, se um mazoku perguntasse por que não buscamos a destruição, tudo o que vocês conseguiriam dizer seria ‘não queremos ser destruídos’, certo? Se insistirmos... Bom, acho que chegaríamos ao mesmo tipo de impasse. Porém ainda que seja impossível nos expressarmos com perfeição, podemos tentar nos entender. E o que não conseguirmos entender, ainda podemos tentar aceitar. Isso inclui os sentimentos dos elfos pela floresta. O importante não é entender porquê a floresta é importante para os elfos, e sim respeitar o fato de que ela é importante para eles.”

“Hmm...”

Eu não tinha certeza se ele aceitava ou não, contudo o prefeito lançou um olhar rápido para a mesa onde Alaina estava encolhida.

“Mesmo que seja assim que os elfos se sentem em relação à floresta, por que quebrar o acordo agora, depois de mais de um século?”

“Isto é mais do que uma vida inteira para vocês, humanos... No entanto para nós, elfos, temos uma vida longa, e muitos de nós estávamos vivos quando o acordo foi forjado. Nossos anciãos se lembram de como era a vida antes, quando eram crianças. Para nós, não faz tanto tempo assim. Suspeito que o motivo pelo qual o grupo de Tessius começou a agir seja mais do que apenas uma mudança de liderança.”

“Concordo!” acrescentou Zelgadis. “Tessius não é do tipo que age sem nenhuma esperança de vitória. Algo acendeu uma chama na sua vontade. Embora signifique que precisamos ser mais cautelosos por enquanto.”

“Caso eles fiquem sérios?” perguntou MacLyle.

Zel assentiu.

“O grupo de Tessius talvez veja as coisas assim: ‘Zelgadis, aquele que nos disse para sermos cautelosos em nossas ações, era um traidor. A melhor maneira de desferir um golpe contra nosso inimigo é fazer o oposto do que o traidor queria... Fazer um movimento ousado o quanto antes.’.”

“Hã? Os elfos, como raça, não são... Pacíficos, cavalheirescos e pacifistas?” perguntou Randa, com a voz trêmula.

Eu não podia negar que os métodos da gangue de Tessius estavam bem longe da imagem que a maioria dos humanos tinha dos elfos. Eu mesma havia lutado ao lado de uma elfa contra mazokus não faz muito tempo, então também tinha minhas reservas em relação a me envolver com eles agora.

“Existem humanos bons e maus.” acrescentei. “Então faz todo o sentido que os elfos também tenham seus tipos. Há aqueles que cumprem a lei e aqueles que a desprezam, aqueles que evitam o conflito e aqueles que o desejam ardentemente. Ah, e também existe o estereótipo de que os humanos são mais fortes e resistentes do que os elfos. Apesar de não estar de todo errado, é óbvio que não passa de uma generalização grosseira. Além do mais, eles são adversários formidáveis ​​quando se trata de magia. Na noite em que sequestraram Amelia, por exemplo, a razão pela qual todos na hospedaria adormeceram em um sono profundo se deve ao fato de terem usado uma magia do Sono aprimorada, cortesia da magia élfica. Um feiticeiro humano jamais conseguiria conjurá-la em uma área tão ampla, e seria quase impossível usá-la em pessoas em estado de alerta máximo. Esses elfos possuem versões mais poderosas de qualquer magia que conhecemos, além de algumas que nunca vimos antes. Aliás, acabamos nos envolvendo em uma pequena briga com os Cães da Floresta no caminho de volta para a cidade com Amelia. No seu repertório, tinham uma magia que poderia anular toda a magia de fogo, e uma para fazer crescer vinhas animadas a partir do que pareciam facas de arremesso. Alaina, você tem alguma ideia do que sejam esses feitiços?”

“Vamos ver... Aquele que impediu sua magia de fogo é uma modificação de um feitiço usado para apagar incêndios florestais. As coisas que pareciam facas de arremesso são sementes de uma planta conhecida como ballud, projetadas para brotar e crescer em pouco tempo quando um feitiço é lançado sobre elas.”

A sala ficou em silêncio por um momento enquanto ela explicava tudo com tamanha naturalidade. Qualquer pessoa que não soubesse muito sobre magia devia ter ficado confusa, mas aqueles que entendiam do assunto ficariam bastante surpresos. Modificar um feitiço de extinção de incêndio para negar toda a magia de fogo? Mais fácil falar do que fazer. Até mesmo humanos poderiam encontrar maneiras de cancelar feitiços individuais, porém, de modo geral, não era possível suprimir vários feitiços em sequência em uma área ampla sem um círculo mágico que exigisse um grande ritual ou uma grande quantidade de itens mágicos.

Contudo a maior surpresa foram as sementes de crescimento rápido. Para facilitar algo assim, seria necessário fornecer umidade e energia constantes para estimular o crescimento, o que exigia um controle muito complexo e delicado. E conseguir tudo isto num piscar de olhos... Para ser franca, era desumano. Nós não tínhamos esse tipo de poder mágico, muito menos essa velocidade ou precisão. Por sua vez, Tessius e seu bando estavam lançando esses feitiços sem problema algum.

Essa é realmente a parte mais assustadora. Até feitiços como esses são truques de salão para eles. Se começarem a canalizar esse talento mágico para uma aplicação de combate real...

Nesse instante... Bwoom! Um som pesado sacudiu a sala. Todos congelaram enquanto olhavam ao redor.

“Vou ver o que aconteceu! O resto de vocês, esperem aqui!” anunciou um dos soldados de Zephilia na porta enquanto saía correndo. Podíamos ouvir passos blindados ecoando pelo corredor antes de retornarem com pressa com um companheiro.

“Relatando!” anunciou o soldado recém-chegado com uma voz quase gritando. “A cidade foi atingida por um ataque!”

Nem um segundo depois... Bwoom! Outro rugido ecoou. O prefeito empalideceu, e o soldado esclareceu.

“Correção! A cidade ainda está sendo atacada!”

Já estão aqui? Enquanto o prefeito permanecia sentado, branco como um fantasma, Gourry, eu, Zel e Amelia saímos correndo da sala.

***

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