sábado, 21 de fevereiro de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 00

Capítulo 00: Prólogo




















O mar à noite. Um momento de paz.

O som abafado das ondas subia das sombras infinitas, apenas para voltar a desaparecer.

Ele sentou-se no concreto frio do quebra-mar e encarou a escuridão profunda, seu corpo envolto pelo vapor branco de sua respiração.

Vinha sofrendo há meses. Vinha ruminando há semanas. Vinha pensando em apenas uma coisa há dias. E agora sua mente se concentrava em um único objetivo, claramente definido.

Tudo havia sido planejado.

Os preparativos estavam quase completos.

Tudo o que precisava fazer agora era esperar que caíssem na armadilha.

Sabia que seu plano estava longe da perfeição, mas nunca pretendera planejar tudo nos mínimos detalhes.

Por mais que se esforçasse, por mais que pensasse, o homem sempre seria apenas um homem, e nunca um deus.

E como alguém que não era um deus poderia prever o futuro, moldado como era pela psicologia humana, pelo comportamento humano e pelo puro acaso?

Mesmo que o mundo fosse visto como um tabuleiro de xadrez, e cada pessoa nele uma peça, ainda haveria um limite para o quão longe os movimentos futuros poderiam ser previstos. O plano mais meticuloso, traçado até o último detalhe, ainda poderia dar errado em algum momento, em algum lugar, de alguma forma. A realidade é repleta de coincidências e decisões tomadas por impulso, de modo que nem mesmo o esquema mais astuto teria sucesso a risca de seu planejamento.

O melhor plano não era aquele que limitava seus próprios movimentos, mas sim um plano flexível que pudesse se adaptar às circunstâncias: essa era a conclusão à qual havia chegado.

Não podia se permitir ser limitado.

Não era o enredo que era vital, e sim a estrutura. Uma estrutura na qual sempre fosse possível fazer a melhor escolha, dependendo das circunstâncias do momento.

Se conseguiria ou não, dependia de seu próprio intelecto, raciocínio rápido e, acima de tudo, sorte.

Sei que o homem nunca se tornará um deus.

Porém, de certa forma, estava prestes a assumir esse papel.

Julgamento. Sim, julgamento.

Em nome da vingança, iria proferir julgamento sobre eles... Sobre todos eles.

Um julgamento fora dos tribunais.

Não era um deus e, portanto, jamais poderia ser perdoado pelo que estava prestes a fazer... Tinha plena consciência disso. O ato seria considerado um “crime” por seus semelhantes e, se descoberto, ele próprio seria julgado de acordo com a lei.

Contudo, a abordagem convencional jamais teria satisfeito suas emoções. Emoções? Não, nada tão superficial assim. Absolutamente não. Não se tratava apenas de um sentimento forte em seu coração. Era o grito de sua alma, seu último elo com a vida, sua razão de viver.

O mar à noite. Um momento de paz.

Nenhum brilho das estrelas, nenhuma luz dos navios ao largo
¹ poderia perturbar a escuridão para a qual contemplava. Ponderou seu plano mais uma vez.

Os preparativos estavam quase concluídos. Em breve, eles, suas presas pecadoras, cairiam em sua armadilha. Uma armadilha composta por dez lados iguais e ângulos internos.

Chegariam lá sem suspeitar de nada. Sem hesitar ou temer, entrariam na armadilha decagonal, onde seriam sentenciados.

O que os aguardava lá era, é claro, a morte. Era o castigo óbvio para todos.

E não uma morte simples. Explodi-los todos de uma vez teria sido infinitamente mais fácil e certo, todavia não escolheria esse caminho.

Tinha que matá-los em ordem, um por um. Justo como naquela história escrita pela famosa escritora britânica... Pouco a pouco, um após o outro. Ele os mostraria. O sofrimento, a tristeza, a dor e o terror da morte.

Talvez tivesse se tornado mentalmente instável. Ele mesmo seria o primeiro a admitir isso.

Eu sei, não importa como tente justificar, o que estou planejando fazer não é sensato.

Sua cabeça balançou para o mar escuro e revolto.

Sua mão, enfiada no bolso do casaco, tocou algo duro. Agarrou o objeto e o tirou, segurando-o diante dos olhos.

Era uma pequena garrafa transparente de vidro verde.

Estava bem lacrada com uma rolha, e dentro dela estava tudo o que conseguira reunir de dentro do seu coração: o que as pessoas gostam de chamar de “consciência”. Algumas folhas de papel dobradas, lacradas. Nelas, havia impresso em letras pequenas o plano que estava prestes a executar. Não havia destinatário. Era uma carta de confissão.

Sei que o homem jamais se tornará um deus.

E justamente por entender, não queria deixar o julgamento final para um humano. Não importava onde a garrafa parasse. Só queria fazer a pergunta ao mar... A fonte de toda a vida... Se, no fim das contas, estava certo ou não.

O vento soprou mais forte.

Um frio cortante percorreu sua espinha e todo o seu corpo estremeceu.

Ele atirou a garrafa na escuridão.



Notas:
1. A expressão “navio ao largo” significa que o navio está em alto-mar ou longe da costa. Trata-se de um termo náutico que indica que a embarcação não está atracada em um porto ou próxima o suficiente da terra para ser facilmente avistada.

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