Primeira Temporada — Capítulo 12: Primeiros Socorros
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Onze: Primeiros Socorros
JONATHAN SIMS
Depoimento de Lesere Saraki, a respeito de um turno noturno no Hospital St. Thomas, em Londres. Depoimento original prestado em 11 de fevereiro de 2012. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Sou enfermeira no Hospital St. Thomas, em Lambeth, perto da Estação Waterloo. Tecnicamente, hoje em dia trabalho na Fundação NHS de Guys e St. Thomas, mas o Hospital Guys fica em um local diferente, do outro lado de Londres, então, para maior clareza, trabalho no St. Thomas. O Natal é uma das piores épocas para se trabalhar em um hospital, e no setor de Emergência é ainda mais desagradável. Aposentados que não têm condições de aquecer suas casas de maneira adequada, foliões bêbados que exageram na bebida e se machucam, até mesmo pessoas que simplesmente não olharam por onde andavam e escorregaram em um pedaço de gelo. O Natal desperta o lado das pessoas que sempre parece levá-las ao hospital, então fiquei aliviada no ano passado quando recebi minha escala de plantão e descobri que meu último plantão no pronto-socorro da temporada seria no dia 23, dois dias inteiros antes do próprio Natal. Essa era a boa notícia. A má notícia era que o dia 23 também era a sexta-feira logo antes do grande dia, e isso significava que as pessoas estavam terminando o trabalho e indo para as festas de comemoração. Quando você trabalha no pronto-socorro, há poucas palavras que enchem seu coração de tanto pavor quanto a palavra “comemoração”.
Aquela noite não foi tão ruim quanto algumas que eu já tinha visto, alguns ossos quebrados e alguns ferimentos causados por drogas, porém sem brigas ou bêbados raivosos, o que foi uma bênção. Devia ser por volta de uma e meia da manhã quando a ambulância chegou. Eles tinham avisado por rádio e sabíamos que tínhamos dois pacientes com queimaduras graves a caminho, então estávamos o mais preparados possível. Eu estava indo ao encontro da ambulância quando notei que a sala de espera do pronto-socorro estava silenciosa. Olhei ao redor e lá estavam todas as pessoas que esperava encontrar, algumas com ferimentos visíveis, contudo nenhuma delas emitiu um único som. Continuavam olhando para seus celulares, lendo livros, consolando umas às outras, no entanto nenhuma delas falou. Não tive muito tempo para refletir sobre o que estava vendo, pois, naquele instante, ouvi a ambulância chegar e corri para atender o paciente.
Quando cheguei, já estavam levando um dos feridos para fora e a médica avaliava suas queimaduras. O nome da doutora era Kayleigh Grice e era médica residente no Hospital St. Thomas. Ela começou a dar algumas instruções para mim e para os paramédicos, todavia me chamou a atenção o quão baixo falava comigo. Não sussurrava, mas cada palavra era dita em voz baixa, como se fosse um esforço real pronunciá-las. Ninguém mais pareceu notar, então, na hora, presumi que o efeito se devia à minha própria falta de sono. Sempre tive dificuldade em me adaptar às noites em claro e desta vez tinha sido bastante difícil. Terminamos de transferi-lo para uma sala de tratamento, a única disponível naquela noite, e a médica e os paramédicos voltaram para buscar o outro paciente enquanto comecei a cuidar das queimaduras do primeiro.
Tenho 48 anos e trabalho como enfermeira há quase toda a minha vida, então já vi um bom número de queimaduras. Estava preparada para algumas cenas profundamente desagradáveis quando a ligação chegou, já que queimaduras graves podem ser algumas das lesões mais horríveis que se ve trabalhando em um hospital. Estas me surpreenderam. Eram de segundo grau, o que é grave, embora no geral não seja a ponto de exigir hospitalização, exceto pelo fato de que pareciam cobrir todo o seu corpo. Cada centímetro de pele exposta mostrava sinais dessa queimadura e, ao cortar suas roupas, ficou evidente que o dano também havia se espalhado por ali. Qualquer coisa quente o suficiente para causar esse tipo de efeito deveria ter danificado suas roupas ou até mesmo as derretidos na pele em alguns lugares, entretanto elas estavam intactas, como se ele tivesse sido vestido depois de ter sido queimado ou como se o calor tivesse passado por suas roupas sem tocá-las.
Ele era um homem alto, corpulento, com o tipo de físico que associo a um homem atlético de meia-idade. Qualquer cabelo que pudesse ter tido havia desaparecido, aparentemente queimado, e suas roupas eram um terno preto discreto e uma camisa branca. Ele não gritou, chorou ou gemeu de dor e, na verdade, a médica teve que verificar seu pulso quando chegou para confirmar que seguia com vida. Estava vivo, porém, pelo que pude perceber, parecia estar dormindo um sono tranquilo.
Tinha acabado de começar o tratamento quando o segundo paciente foi trazido. Sua condição era quase idêntica ao primeiro, exceto pelo fato de que as queimaduras pareciam parar no pescoço, ao longo de uma linha nítida. Era como se estivesse usando uma gargantilha que o dano não conseguia ultrapassar, contudo seu pescoço estava descoberto. Seu porte era menor que o primeiro homem e mais jovem, diria que na casa dos trinta e poucos anos. Estava barbeado, no entanto tinha cabelos longos tingidos todo de preto. Levava um terno semelhante ao do homem mais velho, exceto que por cima usava um longo casaco de couro preto, tão intacto quanto o resto. Parecia novo, e me senti muito mal por ter que cortá-lo, todavia tínhamos que confirmar a extensão de seus ferimentos. Como o primeiro, estava completamente coberto por queimaduras de segundo grau quase uniformes, exceto pelo que a princípio pensei serem pequenas marcas pretas de queimadura. Olhando mais de perto, vi que eram olhos. Pequenos olhos tatuados em todas as suas articulações: joelhos, cotovelos e até mesmo nos nós dos dedos, além de uma tatuagem logo acima do coração. Eu esperava que as queimaduras tivessem destruído tatuagens tão pequenas, entretanto, em vez disso, elas estavam intactas e a pele a cerca de um centímetro de cada uma também não parecia ter sido afetada.
Dizer que fiquei incomodada com aquilo seria um eufemismo. Mal percebi quando o Dr. Grice e os paramédicos voltaram. Pareciam estar conversando normalmente agora e discutindo quem eram aquelas duas pessoas. Ao que parecia, os bombeiros haviam respondido a relatos de um incêndio em um canteiro de obras perto do cemitério da igreja de Santa Maria e, ao chegarem, encontraram os dois homens inconscientes. Não havia fogo, embora o chão onde estavam deitados apresentasse várias marcas de queimadura e uma barra de metal próxima parecesse ter se dobrado um pouco, como se tivesse sido atingida por um calor intenso. Os bombeiros chamaram uma ambulância, que trouxe os homens para cá. Pelo visto, o mais velho não tinha nada consigo: nenhum documento de identidade, nenhum celular, nenhuma chave, nada. Já o mais jovem tinha apenas um isqueiro Zippo com um desenho de olho semelhante ao que tinha tatuado por todo o corpo e um passaporte antigo que o identificava como Gerard Keay. Não cheguei a ver o passaporte, mas pelo jeito que os paramédicos falavam sobre, deduzi que o homem era um viajante experiente.
Foi nesse momento que os paramédicos tiveram que atender outra ocorrência, e a Dra. Grice e eu começamos a tratar os dois homens, deixando de lado por um momento a estranheza da situação. Do ponto de vista médico, não havia nada de anormal nas queimaduras, e não demorou tanto quanto temia para limpá-las e enfaixá-las adequadamente. Durante todo o processo, os dois não se mexeram, e me perguntei se estariam em coma, porém esse tipo de diagnóstico exigiria muito mais exames, o que é pouco provável que acontecesse naquela noite. Assim, depois de terminarmos de prestar o tratamento possível, os homens foram transferidos para uma das poucas enfermarias com vagas e voltei a trabalhar no pronto-socorro. E, por cerca de uma hora, esqueci-me dos estranhos que jaziam inconscientes a poucos metros de distância.
Só voltei a notá-los quando precisei passar por aquela enfermaria a caminho do depósito próximo para pegar mais gaze. Ao passar, percebi um som vindo da cama da vítima de queimadura mais velha. Nunca descobri o seu nome. Caminhei devagar em sua direção, aguçando os ouvidos para ouvir o que dizia. Era tão baixo que era quase inaudível, contudo não tinha dúvidas de que eram palavras, as mesmas palavras repetidas várias vezes; quanto mais as ouvia, mais parecia que a maioria não era em inglês. A primeira soava como “Asak” ou “Asag”, depois “Veepalach” e, por fim em inglês, “A chama sem luz”. A última parte era muito clara, e presumi que estivesse falando sobre o que quer que o tivesse queimado, contudo dizia com tanta intensidade que as palavras me deixaram bastante desconfortável. Seus olhos seguiam fechados e seus lábios mal se moviam. Comecei a sentir calor, como se uma febre estivesse se espalhando rapidamente pela minha pele. Não era a primeira vez que tinha uma reação assim, então parei um momento para me concentrar e a sensação diminuiu.
O homem queimado ainda sussurrava; poderia até chamar de cântico, e não tinha muita certeza do que fazer, então verifiquei suas bandagens para garantir que não precisassem ser trocadas e saí para continuar meu turno. Se eu visse a Dra. Grice, o que era bem provável, poderia lhe dizer que nossa misteriosa vítima de queimadura havia começado a falar. Na verdade, só queria sair daquela sala o mais rápido possível.
Foi quando voltei à recepção principal do pronto-socorro que as coisas começaram a ficar realmente estranhas. E por estranhas, quero dizer que a recepção estava vazia. Não importa o quão tarde seja, e a essa altura já eram quase três da manhã, a sala de espera do pronto-socorro está sempre cheia, ainda mais em uma noite como essa. Quer dizer, eu tinha estado lá dentro não fazia nem cinco minutos e havia mais de trinta pessoas, no entanto agora estava toda deserta. Até mesmo a equipe da recepção tinha ido embora. Sendo franca, fiquei assustada, e comecei a verificar todas as salas de exame, as enfermarias ao lado e os quartos individuais dos pacientes. Tudo vazio, exceto pelos pacientes fisicamente feridos demais para se moverem ou conectados a soro intravenoso. Eles estavam deitados, dormindo, e uma parte de mim queria acordá-los, só para ouvir o som de outro ser humano, para não ficar sozinha, todavia como disse, eram três da manhã e, por mais estranho que tudo aquilo fosse, não conseguiria justificar acordar pacientes só para me tranquilizar. Cheguei ao ponto de fazer o máximo de barulho possível bem em frente aos quartos, entretanto eles continuaram dormindo. Foi quando voltei à sala de espera pela terceira vez em três minutos que ouvi. Parecia o rosnado de um animal, um som grave e raivoso, e percebi que o chão estava tremendo, bem de leve. Olhei em volta procurando a origem do barulho, ficando cada vez mais desesperada a cada segundo, e então vi. Enfileiradas contra a parede da sala de espera, havia duas máquinas de venda automática. Não costumava lhes dar atenção, já que havia opções melhores na sala dos funcionários e uma ou ambas costumavam estar quebradas. Mas agora via que a da esquerda, uma máquina com a frente transparente que vendia refrigerantes em garrafa, estava tremendo violentamente. Ao me aproximar, entendi o motivo: em cada garrafa, em cada fileira da máquina, as bebidas pareciam estar fervendo em ebulição. Coca-Colas, limonadas e sucos de frutas chacoalhavam e borbulhavam, antes de, uma a uma, as garrafas explodirem, cobrindo a parte interna da frente de plástico transparente com um líquido que continuava a soltar vapor e chiar. Não deve ter levado mais de trinta segundos para todas estourarem, e então a sala de espera voltou a ficar em silêncio.
Nesse momento, estava quase pronta para abandonar meu turno e sair do hospital. Fosse o que quer que estivesse acontecendo lá, não queria ter nada a ver com aquilo. Corri em direção à porta que dava para o frio da noite de dezembro, algo que jamais imaginaria que um dia desejaria. Ao me aproximar, porém, notei que o plástico em cada extremidade das maçanetas de metal estava ligeiramente deformado. Aproximei a mão nelas com cuidado e a retirei logo em seguida... Nem precisei tocar para sentir o calor intenso que emanava da porta. Quase chorei. Se fosse sair dali, não seria por aquela porta.
Comecei a voltar pelos corredores, em direção a outra saída, contudo ao passar pude ouvir o homem queimado ainda murmurando para si mesmo, agora mais alto, de modo que seu estranho cântico era audível mesmo do lado de fora do quarto. Aquilo estava começando a me afetar. Entrei; não sei o que pretendia fazer, só precisava fazê-lo calar a boca de alguma forma. Seus olhos estavam abertos agora, injetados de sangue por trás das bandagens, e ele encarava o teto com um olhar vago. Naquele momento, decidi que o faria calar a boca, ainda que tivesse que segurá-la à força. Aproximei-me devagar e estendi a mão em direção ao seu rosto. No segundo antes que pudesse tocá-lo, uma mão se estendeu e agarrou meu pulso. Virei-me e vi a outra vítima de queimaduras, cujo passaporte o identificava como Gerard Keay, de pé e balançando a cabeça.
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| Arte por @gretaghost. |
Seu aperto no meu pulso era muito mais forte do que jamais esperaria de alguém tão ferido, e podia sentir um calor através de sua mão enfaixada, como se sua pele ainda estivesse queimando de alguma forma.
Gritei. Por que não? Já tinha me certificado de que não havia ninguém por perto para me ouvir. Ele imediatamente soltou minha mão e pediu desculpas, dizendo que só estava tentando me proteger. Perguntei de quê, e gesticulou para o homem queimado, que seguia deitado imóvel em sua cama, repetindo seus lamentos. Lançando um olhar rápido para seu próprio corpo enfaixado, disse-me que tocar o homem teria sido uma “má ideia”. Parecia estar sentindo muita dor enquanto falava, no entanto fez o possível para escondê-la.
Eu não disse mais nada. Queria perguntar o que estava acontecendo e parecia que ele estava esperando que fizesse essa perguntar, todavia algo me impediu. Alguma coisa me dizia que, se houvesse uma explicação coerente para tudo o que havia acontecido desde a chegada da ambulância, eu não estaria em melhor situação por saber qual era. Após alguns segundos de silêncio constrangedor, Gerard falou. Me perguntou se os paramédicos haviam trazido algum objeto. Especificamente, queria um pequeno livro encadernado em couro vermelho e um pingente de latão que estava usando. Não disse qual era o desenho do pingente, embora imaginei que fosse um olho. Respondi que nenhum dos dois havia sido trazido e ele ficou em silêncio por um longo tempo.
Depois dos últimos dez minutos em que desejei desesperadamente conversar com outro ser humano, deveria ter me sentido aliviada com a companhia de Gerard. Mas observá-lo, de pé e caminhando apesar das queimaduras que cobriam oitenta por cento do seu corpo, apesar da enorme quantidade de analgésicos que lhe tínhamos dado, só me deixou com muito medo. Por fim, fez um aceno com a cabeça, como se estivesse me dispensando, e mancando passou pelo corredor, em direção ao armário de suprimentos. Eu o segui e perguntei o que estava fazendo. Não obtive resposta, porém ele parecia saber o código da porta; e entrou, procurando algo nas prateleiras. Viu o que procurava e pegou um pequeno objeto embrulhado em papel e plástico. Reconheci na mesma hora como um bisturi esterilizado. Ele ia matar o homem que cantava; podia sentir isso no jeito como olhava para além de mim enquanto estava parada na porta.
Voltou a caminhar em minha direção. O depósito não era grande e levou pouco mais de um segundo para estar na minha frente, porém foi o segundo mais longo que já vivi, enquanto tentava decidir se arriscaria minha própria vida pela do estranho queimado, que entoava sua oração perturbadora sem expressão. Atrás de Gerard, vi frascos de soro fisiológico começarem a borbulhar e ferver. Dei um passo para o lado.
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| Arte por @gretaghost. |
Ele assentiu em agradecimento e disse algo que me lembro muito bem, embora ainda não me faça sentido. Ele disse: “Sim. Para você, melhor a contemplação do que a chama sem luz”.
Não tentei impedi-lo quando voltou para a enfermaria. Apenas fiquei ali parada, observando-o pegar o bisturi, murmurar algumas palavras que não consegui entender e cravar a lâmina no centro da garganta do homem que entoava a oração. Naquele momento, ouviu-se um chiado e sentiu um cheiro de carne podre na grelha. Observei a carne ao redor da ferida começar a escurecer e rachar, as bandagens se enrolarem e se desintegrarem, e a pele queimada se espalhar por seu corpo como água. Não havia fogo e não senti calor, contudo ao longo de vinte segundos, vi o corpo daquele homem se cremar até virar cinzas. Até o bisturi havia sumido.
Gerard Keay caminhou até a cama e, pegando o urinol vazio que estava embaixo, delicadamente varreu as cinzas para dentro da bacia de metal e me entregou, pedindo que a descartasse. Peguei-a e saí atordoada, indo em direção a uma lixeira de resíduos médicos. Enquanto caminhava pelo corredor, notei uma figura na outra extremidade. Era a Dra. Grice. Não tenho vergonha de admitir que chorei de alívio enquanto corria para a sala de espera e a via, mais uma vez, cheia de pessoas reclamando e resmungando. Quando terminei e voltei para o quarto, Gerard estava deitado em sua própria cama, aparentemente dormindo. Considerei lhe perguntar o que havia acontecido, no entanto naquele momento outra ambulância chegou com três membros de uma festa de Natal que havia saído perigosamente do controle e, assim, o resto do meu turno acabou.
Gerard Keay foi tratado por mais quatro dias no hospital antes de receber alta e ficar sob os cuidados de sua mãe. Tentei conversar com ele sobre o que aconteceu, todavia este estava sob efeito de muitos analgésicos e nunca pareceu perceber a minha presença. Talvez tenha sido fingido, suponho, entretanto no final o resultado foi o mesmo. Desde então, tenho tentado não pensar nisso. Consegui trabalhar quase trinta anos como enfermeira antes que uma coisa dessas acontecesse, então, com sorte, já estarei aposentada há muito tempo quando algo parecido acontecer outra vez.
Às vezes, porém, me preocupo. Nos últimos meses, quando estou sozinha nas enfermarias, tenho a sensação de estar sendo observada. Não ameaçada ou julgada, apenas observada. Evito aquele depósito, em particular.
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
É óbvio que há muito o que analisar aqui, então vamos começar com o que é comprovável. Sasha conseguiu acesso aos registros hospitalares desse período e eles listam a internação de Gerard Keay e de um homem desconhecido por queimaduras semelhantes às descritas pela Sra. Saraki. Além disso, existem apenas os documentos de alta de Gerard Keay e um breve boletim de ocorrência sobre o desaparecimento da segunda vítima de queimaduras. Nenhuma evidência de crime foi encontrada e nenhum caso oficial de pessoa desaparecida foi aberto.
Quanto ao cântico do homem misterioso, se de fato era “Asag” o que estivera dizendo, então é bastante interessante. Asag é o nome de um demônio na mitologia suméria associado a doenças e corrupção, o que não parece ter muita relevância para esta declaração, exceto pelo fato de que também era lendário que Asag era capaz de ferver peixes vivos em seus rios. É verdade que, no mito sumério, isto acontecia porque ele era monstruosamente feio, mas ainda assim é uma coincidência curiosa. “Veepalach” também pode ser uma interpretação errônea da palavra polonesa “wypalać”, segundo Martin, que significa cauterizar ou marcar. É verdade que, se Martin fala polonês da mesma forma que “fala latim”, então pode estar falando bobagens novamente, contudo pesquisei e parece fazer sentido. Não consigo encontrar nada conclusivo sobre a expressão “a chama sem luz”, no entanto; ela aparece em muitos contextos diferentes em várias literaturas esotéricas.
Não passou despercebido que esta é a segunda vez que Gerard Keay aparece neste Arquivo. Gostaria muito de obter seu depoimento, entretanto infelizmente parece que este faleceu de um tumor cerebral no final do ano passado. Estamos fazendo mais pesquisas a seu respeito e, se tivermos sorte, talvez já tenhamos um depoimento seu guardado em algum lugar nesses malditos arquivos.
Entramos em contato com a Sra. Saraki para ver se gostaria de fazer uma declaração complementar, porém ela recusou. Pelo visto, ainda tem a sensação de estar sendo observada as vezes, mas, fora isso, não houve outras ocorrências anormais em sua vida profissional ou pessoal.
Uma última observação: Sasha conseguiu acessar as imagens das câmeras de segurança do hospital da noite de 23 de dezembro de 2011, e elas mostram algo bastante surpreendente. Eu havia presumido que havia um elemento alucinatório significativo na história da Sra. Saraki e, de fato, a ala onde Gerard Keay foi internado não tinha uma câmera, embora a sala de espera do pronto-socorro tivesse uma. Às 03:11:22, as imagens mostram todos na sala, que eu pessoalmente contei como 28 pessoas, levantando-se e saindo calmamente pelas portas. Depois disso, a Sra. Saraki pode ser vista entrando e saindo três vezes, uma vez parando por um minuto para olhar para algo abaixo da câmera, que presumo ser a máquina de venda automática. O restante da equipe e dos pacientes só retornam às 03:27:12, mais de 15 minutos depois de terem saído, quando voltam a entrar pelas mesmas portas. As imagens não contêm nenhum som e nenhum alarme de qualquer tipo foi gravado, então não posso arriscar nenhum palpite sobre por que saíram ou o que estavam fazendo nesse meio tempo.
Há, no entanto, mais uma coisa que Sasha destacou. Às 03:22:52, a transmissão é interrompida por menos de um segundo e é substituída por um único frame por um close de um olho humano, olhando fixamente através da tela de vídeo.
Fim da gravação.
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