Capítulo 67: Sombras circundam a cidade dos ferreiros
Cinco estrondos altos ecoaram. Então, assim que a comoção cessou, sentei-me de novo e tomei um gole do meu chá ainda quente.
“Ngh... Hng...” no chão à minha frente jazia um dos brutamontes que eu acabara de derrubar. Ele estava de costas, se contorcendo, mas conseguiu levantar a cabeça para me olhar. “Que diabos... Você pensa... Que está fazendo?”
“O que estou fazendo?” era uma pergunta compreensível, porém pisquei uma vez e respondi. “Legítima defesa?”
“Como...? Não fiz... Nada... Com você...”
“Como assim?” sua total falta de remorso me fez suspirar. “Vocês veem um viajante saboreando sua refeição e usa a velha desculpa de ‘nunca te vi por aqui’ para cercá-lo com outros quatro caras e começar a importuná-lo. Aí, quando uma beldade delicada por perto te confronta, estende a sua mão para agarrá-la. Digo que com certeza fez algo.”
Parar para comer algo, ser abordada por brutamontes e ser forçada a subjugá-los depois que uma coisa levou à outra... Era o meu dia a dia na estrada, para ser honesta. Nem preciso dizer que não gostei nem um pouco.
O único ponto positivo era que, como o caos começou antes da comida chegar, meu almoço não foi comprometido no conflito.
“Beldade delicada por perto? Quem é essa...” começou meu companheiro de viagem, que estava perto, tentando desviar minha narrativa com mentiras deslavadas. Lancei-lhe um olhar. Entendendo a indireta, este se apressou em calar a boca. “Ah, deixa pra lá.”
Além do mais, meu camarada estava falando como se o ocorrido não tivesse nada a ver com ele... Contudo depois que derrubei o primeiro arruaceiro, ele eliminou o resto do bando enfurecido antes que pudessem me atacar. Veja bem, por causa do rosto bonito, do cabelo loiro comprido e do jeito descontraído do meu companheiro, algumas pessoas presumem que sua espada longa chamativa e sua armadura leve sejam apenas fachada. No entanto o cara em questão, Gourry Gabriev, era na verdade excepcional com uma espada. Os brutamontes, que derrotou num instante sem nem mesmo sacar a tal espada, sem dúvida aprenderam da pior maneira que era o cara errado para testarem a sorte.
“Enfim.” voltei meu olhar para o brutamontes caído que discutia comigo. “Se não quer perder brigas, tente não começar brigas.”
Entretanto, infelizmente, meu sábio conselho só fez o homem se entrincheirar.
“Nós não começamos uma briga! Estávamos apenas fazendo nosso trabalho como força de segurança local!”
“Hmph. É assim que chama os arruaceiros do bairro que ficam importunando as pessoas?”
“Eles são mesmo a segurança local!” disse uma nova voz. Virei-me para ver quem era.
Estávamos em uma hospedaria relativamente grande chamada Folha Prateada, na avenida principal da cidade... Sendo mais específica, estávamos no restaurante do primeiro andar. O lugar devia ficar lotado de velhos bêbados à noite, todavia com o sol da tarde entrando pelas janelas abertas, as únicas almas ali éramos eu e Gourry, os cinco membros da tal força de segurança, alguns clientes em mesas próximas e um homem barbudo na casa dos quarenta com olhar amigável atrás do balcão. Foi este último quem falou.
“Sério?” perguntei.
O velho assentiu.
“Sério.”
“Viu?” disse o brutamontes... Quer dizer, o membro da força de segurança local, com um sorriso presunçoso, embora seguisse deitado de costas.
Mas o velho nem sequer lhe lançou um olhar ao responder.
“Ainda assim, Randa, toda essa confusão começou por conta desse seu comportamento como um arruaceiro.”
“Argh...” o homem no chão gemeu de desgosto.
Aha. A gente ve isso de vez em quando, caras que ganham um pouco de autoridade e a interpretam como uma licença para serem uns idiotas com todo mundo ao redor. Esse tal de Randa deve se encaixar nessa categoria. Quer dizer, cercar nossa mesa com sua panelinha e começar com um ‘nunca te vi por aqui antes’? Que comportamento típico de arruaceiro.
O dono do restaurante desviou a atenção do abatido Randa.
“Bem, vocês dois parecem ser muito habilidosos.” disse o homem para mim e para Gourry. “E presumo que a moça ali seja uma feiticeira?”
“Bom, você sabe...” respondi sem me comprometer. Sabia que ia tentar me convencer a aceitar algum trabalho chato.
“Estava pensando, estariam dispostos a ficar aqui por um tempo como mercenários e ajudar a proteger a cidade dos bandidos.”
É, sabia que chegaríamos aí!
Gourry estava vestido como um espadachim típico, enquanto eu usava uma longa capa, uma bandana preta e acessórios com joias. Apesar da espada curta na minha cintura, é bastante óbvio que sou uma feiticeira. Além do mais, considerando que tínhamos acabado de derrotar cinco caras, nossa força ficou evidente. Era apenas natural presumir que éramos uma dupla de mercenários.
E, sim, tudo bem. Nós dois tínhamos um histórico de aceitar trabalhos em nossas viagens, só que não estávamos precisando de dinheiro no momento, então não estava nada animada com a ideia de uma missão secundária. Porém antes que um de nós pudéssemos responder...
“Espere um minuto, Mestre MacLyle!” Randa protestou. “Não precisamos da ajuda deles! Nós somos...”
“Randa!” disse MacLyle. Seu tom era baixo, contudo fez Randa se calar no mesmo instante. “Poderia, por favor, falar mais baixo?”
“D-D-D-Desculpe...” ele respondeu, pedindo desculpas e deixando a frase no ar.
Fiquei surpresa ao ver o brutamontes... Quer dizer, o segurança local, tão intimidado. Quem era esse tal de MacLyle?
“Para falar a verdade, nossa cidade tem sido assolada por bandidos esses últimos tempos.” começou MacLyle antes mesmo que pudesse perguntar.
Oh... É verdade.
Lembrei de ter sentido alguém nos observando quando entramos na cidade. A pessoa não parecia hostil, então fingi não notar. Seriam esses os bandidos a que MacLyle se referia? Exceto que sua presença... Aura, como queiram chamar... Não parecia muito com a de bandidos...
“Foram semanas de problemas sérios. Mercadorias a caminho de cidades próximas foram roubadas, oficinas e minas foram sabotadas... Reunimos uma equipe para resolver o problema, no entanto eles não parecem estar fazendo nenhum progresso.”
“E quanto aos soldados?” perguntou Gourry.
“Geralmente não há nenhum estacionado aqui na cidade.” respondi, sentando-me em um lugar próximo agora que parecia que o problema havia passado. “Embora alguns possam aparecer de vez em quando.”
“Por que não?”
“Vários motivos.”
“Como quais?”
“Er...” não queria dizer ‘não pergunte’, só que também tinha dúvidas se Gourry entenderia ainda se explicasse tudo em detalhes. “Como viu quando chegamos aqui em Atessa, a cidade fica bem no meio de uma floresta. Ela é conhecida como Floresta de Celcelas e se estende do Reino de Zephilia até o Reino Sagrado de Saillune, com algumas áreas onde se pode minerar ouro de alta qualidade. Então, com madeira e recursos minerais em abundância, Atessa se desenvolveu como um ponto de referência para a metalurgia, entretanto... Ei! Não durma no meio da minha explicação!”
Bang! Dei um golpe rápido na cabeça de Gourry.
“Mmah?” seu olhar se voltou para cima de repente e esticou o pescoço.
“Como pode deixar de ouvir? Foi você quem perguntou!”
“Ah, não, estou ouvindo. Ouvi tudo. Tem alguma coisa acontecendo na cidade, não é?”
“Mentiroso! Nem sequer terminei de contar! E se ‘algo acontecendo’ já é explicação suficiente pra você, nem se de ao trabalho de pedir detalhes!”
Hah, eu sabia que seria perda de tempo! Depois de gritar até ficar sem voz, me joguei sobre a mesa e...
“Nós produzimos muitas armas e armaduras nesta cidade, sabe?” continuou MacLyle. “Se algum dos reinos instalasse uma guarnição aqui, o outro poderia interpretar tal ação como um prelúdio para a guerra. Então, para evitar esse cenário, nenhum dos dois tem soldados oficialmente estacionados em Atessa. Nós cuidamos da nossa própria segurança localmente.”
“Ah, entendi.” Gourry assentiu, compreendendo, e então olhou para mim. “Essa teria sido uma explicação muito mais simples.”
“Foi você que se distraiu antes de eu chegar nessa parte!”
“Bem, se me permite...” MacLyle se reintegrou à conversa. “Falei que eram bandidos, entretanto eles não parecem ser bandidos comuns. Nossa força-tarefa local não consegue localizar o seu esconderijo, e os criminosos parecem mais interessados em vingança do que em dinheiro. Nesse sentido, talvez devesse chamá-los de saqueadores. Esperava que vocês pudessem oferecer alguma nova perspectiva sobre a situação.”
“Entendo...” devolvi um vago aceno em resposta.
Para ser honesta, nós dois não estávamos sem dinheiro, e esse trabalho parecia estar se tornando um verdadeiro pesadelo. Seria uma coisa se fosse apenas um trabalho de guarda-costas de alguns dias, ou apenas ir ao esconderijo dos bandidos para dar uma boa explodida. Todavia um objetivo vago como ‘fazer algo em relação a um bando de bandidos que nem sequer rastreamos’ era o tipo de trabalho que poderia se tornar uma enorme perda de tempo.
Supondo que aceitasse o trabalho... Se os bandidos atacassem a vila de frente e eu os eliminasse com um feitiço chamativo, acabaria com as coisas bem rápido. Mas, por outro lado, se os saqueadores já tivessem abandonado Atessa e ido para outro lugar, poderia acabar esperando para sempre em vão.
Não que tivesse algum lugar especial para ir. Estamos apenas em uma jornada sem rumo depois que minha irmã mais velha me disse para sair e ver o mundo. Já tinha visto mais do que a minha cota, então decidi que talvez fosse hora de arrumar as malas. Assim, eu e Gourry... Que encontrei pelo caminho... Estávamos a caminho da minha cidade natal, Zephyr, capital do Reino de Zephilia. Então, não era como se fosse me matar ficar retida aqui por alguns dias, porém... Sério, não quero ficar presa esperando sabe-se lá quantos tempo por um ataque que talvez nunca aconteça.
Atessa também fazia parte de Zephilia, e me sentia um pouco em dívida com meus compatriotas, então hesitei em só recusá-los. Dito isso, tinha a sensação de que os locais acabariam conseguindo lidar com tudo muito bem, mesmo sem nos envolvermos...
“Está sugerindo que sou incompetente?” veio uma nova voz carregada de raiva.
A mulher que se levantou era uma cliente qualquer sentada a alguns assentos de distância... Ou pelo menos era o que parecia até então. Ela vestia uma roupa marrom com calças que pareciam confortáveis e usava uma boina cinza na cabeça. O conjunto era bastante comum à primeira vista, porém tinha cabelos como ouro fiado e um rosto tão lindo que faria qualquer homem olhar duas vezes. Parecia ter uns vinte anos... Ou teria, se fosse humana. Sua verdadeira identidade foi revelada pelas grandes orelhas pontudas que apareciam debaixo do chapéu.
Os elfos eram seres que viviam em harmonia com a natureza, com vidas mais longas e maior poder mágico do que os humanos. Já havia tido alguns contatos com eles no passado. Cheguei até a lutar ao lado de uma contra um inimigo em comum. No geral, eles não se envolviam em assuntos humanos, contudo as palavras dessa mulher indicavam que trabalhava para a cidade.
“Oh, não, claro que não. Ficaremos felizes em deixar a floresta aos seus cuidados, Senhora Alaina.” assegurou MacLyle.
Suas palavras fizeram a elfa Alaina ficar roxa de raiva.
“Então por que vocês estão tentando contratar essas pessoas?”
“Não é óbvio? Ter uma perspectiva externa nos dará mais opções. Vocês conhecem as florestas, e esses dois parecem ter experiência com tais assuntos.”
“Experiência? Esses dois?” Alaina estreitou os olhos para nós enquanto cuspia as palavras. “Para mim, parecem mais crianças brincando de espada e feitiçaria!”
Crianças...?
“Ei!” gritei. Obviamente não podia deixar essa passar. “Crianças? Brincar de se fantasiar? Pode reclamar com o velho ou falar mal do Gourry o quanto quiser, no entanto é melhor não me envolver nisso!”
“Que coisa terrível de se declarar... E com tanto orgulho.” Gourry sussurrou incrédulo. Eu o ignorei.
Alaina nem olhou para mim quando me dirigi a ela. Apenas empalideceu e caminhou com pressa para a frente. Levantei-me da cadeira, esperando problemas, entretanto não estava vindo em nossa direção; estava indo em direção ao homem atrás do balcão, para quem começou a cochichar.
Ele ouviu por um tempo, depois se virou para nós.
“Ela disse: ‘Desculpe. Eu não quis dizer isso.’.”
“Hã?” franzi a testa, sem entender.
MacLyle sorriu com uma careta.
“Bem, a Senhora Alaina tem muito orgulho, embora este é atenuado por uma extrema ansiedade social.”
“Parece irritante!” pelo menos eu conhecia o tipo! “Será que está nervosa para trabalhar conosco porque sua ansiedade social a impede de conversar abertamente sobre as coisas?”
Nesse momento, Alaina se inclinou e falou baixinho com MacLyle por mais um tempo, às vezes tremendo e às vezes acenando com a cabeça. No fim, MacLyle se virou para nós e disse.
“Ela nega categoricamente.”
“Eu tenho toda razão!”
Ótimo, então Atessa estava nas mãos de uma ‘força de segurança’ de arruaceiros e uma elfa orgulhosa, além de introvertida... Que confusão.
Quando já estava começando a ficar preocupada, MacLyle voltou a falar.
“Bem, sei que está apenas de passagem e não gostaria de mantê-la aqui por muito tempo. Que tal o seguinte? Vamos contratá-la por dez dias a princípio. Se conseguir terminar o trabalho nesse prazo ou pelo menos fizer um progresso significativo, daremos um bônus. Se os dez dias passarem e nada estiver perto de ser resolvido, podemos renegociar.”
Alaina parecia estar desesperada discutindo com ele sobre algo enquanto Maclyle falava, mas ele nem pestanejou.
Hmm. Esse pequeno acordo parecia ter sido feito para que pudesse me dar um calote se nada acontecesse, contudo tinha a vantagem de não me prender por um longo período. Sendo assim... Dei um pequeno aceno de cabeça para Gourry e então me aproximei de MacLyle.
“Certo. Nessas condições, vamos tentar por dez dias.” estendi a mão por cima do balcão.
O velho estendeu a mão para responder ao meu cumprimento.
“Muito obrigado. Ah, e deixe-me apresentar. Meu nome é Gene MacLyle. Sou o dono da Folha Prateada e o líder da força-tarefa local.”
Aha. Foi por esse motivo que Randa estava se tremendo todo...
“Sou Gourry!” disse meu acompanhante sem rodeios.
“E eu sou Lina. Lina Inverse. Uma feiticeira, como supôs.”
Após as apresentações, fomos direto ao assunto... Negociar o preço!
———
A cidade era cercada por vegetação. O canto dos pássaros flutuava ao vento, e os sons da vida eram ricos ao nosso redor. Entretanto se desviasse um pouco o olhar, poderia ver uma muralha de pedra mais alta que uma pessoa circundando toda a cidade.
As coisas estavam tranquilas agora, embora Zephilia e Saillune haviam se desentendido por Atessa há muito tempo. A robusta muralha de pedra que circundava a cidade era uma relíquia do conflito. Claro, também era útil para manter afastados os ursos e javalis da floresta, sem mencionar o ocasional bando de goblins que aparecia farejando por perto. (Aliás, era tudo coisa que MacLyle havia me contado antes.)
Nós estávamos caminhando pela floresta sem estradas, no entanto não estávamos lá para passear. Estávamos tentando entender o terreno. Embora estivéssemos na mata, não havia muita vegetação rasteira para impedir nossos movimentos.
“Diga...” comecei enquanto caminhava, óbvio, para Gourry, que caminhava ao meu lado. “Lembra de quando alguém estava nos observando quando chegamos à cidade?”
“Sim, lembro de ter sentido a presença de alguém. Apesar de que não percebi nenhuma malícia. E imaginei que soubesse e estivesse ignorando, por isso não falei nada.”
Como suspeitei, Gourry também os havia percebido.
“Eles não lhe pareceram bandidos, não é?”
“É, não muito.” concordou Gourry.
Agora, tenho certeza de que alguns de vocês estão se perguntando: ‘Como pode saber isso com base em algo tão vago quanto a presença de alguém?’, porém o que posso dizer? Dá para perceber. É verdade que às vezes imagino coisas, contudo neste caso, Gourry concordou. Tinha a sensação de que estava certa.
“Ou será que é uma entidade diferente das pessoas que estão causando problemas na cidade? Parece improvável, claro, no entanto... Hmm...” murmurei para mim mesma.
Gourry se pronunciou, um pouco surpreso.
“É incomum te ver tão séria. Esperava que estivesse falando sobre como mal pode esperar para explodir os bandidos.”
“Quer dizer, claro, é sem dúvida onde toda essa bagunça vai dar. Entretanto se fossem apenas bandidos comuns, os moradores locais teriam resolvido sozinhos. O fato de não terem resolvido me diz que esses bandidos têm inteligência e habilidade. E...”
“E?” Gourry me incentivou enquanto eu fazia uma pausa.
Não queria admitir, todavia não havia como discutir com fatos concretos.
“Tenho muito menos feitiços à minha disposição do que antes.”
Esse comentário fez Gourry olhar para cima, pensativo, mas antes que pudesse abrir a boca...
“Deixe-me avisá-lo!” o interrompi. “Não é por causa da minha condição física! É que perdi meus talismãs de amplificação mágica na última batalha, e acabou afetando bastante meu repertório!”
“Ah, é?” disse Gourry casualmente.
Sim, sem esses talismãs, não conseguia usar meu antigo feitiço de lâmina do vazio. E quanto ao feitiço que permitia que a escuridão consumisse uma determinada área... Tecnicamente posso usá-lo se quiser, porém coisas ruins aconteceriam se perdesse o controle no meio do caminho. Digamos que não quero testar minha sorte. E entrar em uma situação em que ainda pudesse usar esses feitiços se realmente precisasse seria uma tremenda imprudência, então, para acabar com essa possibilidade, decidi apenas agir como se eles estivessem fora de questão. Dizer isso em voz alta era menos para explicar as coisas para Gourry e mais para lembra a mim mesma.
Claro, também era possível que a força de segurança local fosse só incompetente. Poderíamos estar lidando com bandidos comuns que se acovardariam assim que os encontrássemos. Contudo não apostaria nessa chance.
“De qualquer forma, precisamos de pistas sobre o paradeiro dos bandidos... E não estou vendo nenhuma por aqui.” falei.
Nesta região montanhosa, com apenas trilhas de animais como caminhos, era possível encontrar pegadas e galhos quebrados que indicavam que pessoas haviam passado por ali... Muitas, na verdade. Os moradores saíam para coletar lenha, a força de segurança fazia patrulhas... Mesmo que os saqueadores estivessem por perto, era impossível dizer quais pegadas eram deles.
“Pistas, hein?” Gourry pensou por um minuto. “Por que não perguntamos?”
“Perguntar a quem?”
“Ah, como é mesmo o nome? Você sabe. A garota...” disse Gourry, apontando casualmente. Segui seu dedo e vi uma figura nos observando de um galho de árvore a certa distância.
“Alaina?”
Ao meu chamado inesperado, um espasmo percorreu seu corpo e a elfa se apressou em se esconder atrás do tronco da árvore. Não era uma árvore grande, então, apesar de sua estrutura esguia, não conseguiu se esconder completamente de nós.
“Estava nos seguindo o tempo todo?” perguntei.
Alaina não respondeu.
Tenho que confessar... Não havia percebido sua presença até agora. Mesmo considerando que não demonstrava nenhuma hostilidade em relação a nós, foi surpreendente. Sabia que os elfos viviam em harmonia com a natureza, no entanto nunca imaginei que pudessem se camuflar na floresta a esse ponto.
“Tem algum assunto a tratar com a gente?” perguntou Gourry.
Alaina permaneceu em silêncio.
Nesse caso...
“Bem, não estaria nos seguindo se não quisesse alguma coisa. Sei que não está feliz por Mestre MacLyle ter pedido nossa ajuda... Entretanto espero que não esteja planejando nos matar na mata para nos eliminar do caminho.”
Em resposta à minha afirmação provocativa, ela desceu dos galhos sem fazer nenhum som. Ainda que não houvesse muita vegetação rasteira por perto, pousar daquela altura sem fazer barulho foi impressionante.
Com os olhos fixos em nós, ela tirou algo pequeno do bolso, colocou no chão e apontou para o objeto. Em seguida, pegou um dos dois chicotes enrolados presos em cada quadril (ela não os estava usando no restaurante) e o desenrolou, prendendo-o no galho de uma árvore atrás com um movimento suave e ondulatório. Então, impulsionou-se do chão, puxou o chicote e... Atraída por ele... Pousou graciosamente em um novo galho. Tudo foi executado com uma quietude inacreditável. Não diria que foi silencioso, mas se não estivesse observando, não teria conseguido distinguir o som dos outros sons da floresta.
Não sei o que está aprontando, porém...
Mantendo meus olhos fixos em Alaina, caminhei até lá e peguei o que havia deixado no chão. Era do tamanho de um punho e estava embrulhado em algum tipo de papel. O papel era mais fino que pergaminho, talvez feito de alguma planta. Abri e encontrei um pequeno pedaço de madeira dentro, parecido com um simples peso de papel. O papel que o envolvia estava rabiscado com tinta: ‘Eu não sabia como te abordar.’
“Que irritante!!!” me peguei gritando. Olhei para Alaina com raiva, fazendo-a se esconder atrás de uma árvore outra vez. “Entendo que esteja ansiosa, contudo poderia ao menos tentar falar como uma pessoa normal?”
Nesse momento, a elfa tirou outra coisa do bolso da jaqueta de gola alta e jogou na minha direção. Era outro pacotinho. Abri. O papel de embrulho dizia: ‘Quando fico nervosa, não consigo falar mais alto que um sussurro.’.”
“...”
O fato de ter tirado esses pacotinhos do bolso me disse que não eram de improviso. Já tinha preparado um monte de anotações prevendo perguntas que esperava receber. Que dedicação a um truque!
“Argh...” baguncei meu cabelo em frustração. “Ok, Alaina! Vou perguntar e apenas me responda. Para sim, faça um sinal de positivo com o polegar. Para não, acene com as mãos. Se não souber responder de nenhuma das duas maneiras, coloque as palmas para fora, como um sinal de ‘pare’. O que acha?”
Um sinal de positivo... Ou seja, um sim, surgiu de trás do tronco da árvore.
Excelente. Apesar de que continua irritante!
A essa altura, já me sentia exausta, todavia em vez de admitir, continuei.
“Certo, resumindo, você nos seguiu porque tem algo a dizer, e não sabe como quebrar o gelo, por isso ficou calada esse tempo todo?”
Outro sinal de positivo.
“Agora, quanto ao que queria nos dizer...”
Vejamos... Como faço para formular como uma pergunta de sim ou não? Enquanto pensava, Alaina mais uma vez tirou algo do bolso e jogou para mim. Era um pacote maior do que o anterior.
Abri e encontrei... Um mapa desenhado à mão? Apresentava um grande círculo assimétrico que parecia Atessa, com linhas que lembravam as estradas para Zephilia, Saillune e Kalmaart. No lado oposto ao grande círculo, havia quatro círculos menores. Também havia pequenos X espalhados, concentrados em sua maioria ao longo das linhas ou entre os círculos grande e pequeno.
“Isto é para nós?”
Outro sinal de positivo vindo de trás da árvore.
“O círculo grande é a cidade. Os círculos pequenos são minas. E os X são pontos onde ocorreram ataques. Estou certa?”
Outro sinal de positivo.
“Obrigada! No entanto por que nos deu este mapa?”
Lá no restaurante, ela deu a entender que não queria que nos envolvêssemos.
“Bem, suponho que não pode responder a essa com um sim ou um não. Nesse caso...”
Enquanto pensava no que perguntar em seguida, houve uma comoção entre os pássaros. Alaina reagiu de imediato. Espiando a floresta, pegou um chicote em cada mão, enrolou um no tronco de uma árvore na direção para a qual olhava e começou a se balançar de árvore em árvore dessa maneira.
“Algo está acontecendo.” disse Gourry. Em seguida, começou a correr, no entanto...
“Espere!” gritei.
Alaina estava se embrenhando na floresta muito mais rápido do que nós conseguiríamos a pé. Pela direção que estava tomando, devia estar indo para uma das minas. Só podia presumir que havia determinado que algo estava acontecendo lá com base no som dos pássaros, entretanto...
“Por aqui!” comecei a correr na direção oposta.
Gourry, logo atrás de mim, perguntou.
“Por que por aqui?”
“Instinto!” respondi. Seria muito trabalhoso explicar, mas havia uma lógica por trás.
Resumindo, supondo que fossem os saqueadores que tinham acabado de atacar a mina, era improvável que nos cruzássemos com eles se fôssemos direto para o local. Afinal, tinham conseguido escapar da guarda local durante todo esse tempo. Portanto, em vez disso, estávamos voltando para onde tínhamos sentido alguém nos observando quando chegamos à cidade.
Considerando o momento, parecia provável que a presença que tínhamos sentido fosse a dos saqueadores a caminho da mina, que por acaso nos viram no caminho. O que significava que havia uma boa chance de voltarem pela mesma rota.
Usar meu feitiço de voo rápido teria acelerado as coisas, porém manobrar na floresta era difícil. Havia um risco considerável de bater em uma árvore. E subir por cima da copa das árvores só nos atrasaria e nos exporia ao inimigo. Então, sem muita escolha, nós dois seguimos correndo pela floresta. E depois de um tempo...
“Lina!” disse Gourry. “Eles estão aqui.”
Diminuí o passo e olhei na direção para onde Gourry estava olhando. A luz do sol filtrando-se pelas árvores salpicava o chão coberto de musgo e grama, contudo fazia a escuridão da floresta além parecer ainda mais impenetrável. Não conseguia distinguir uma forma humanoide, e o que eu sentia não era forte o suficiente para ser chamado de presença, no entanto tinha a sensação palpável de que alguma coisa estava errada. Mais importante... Se Gourry disse que alguém estava lá, não tenho dúvida alguma de que estava.
Nós dois paramos.
“Ei! Acho que já nos encontramos antes!” gritei, elevando a voz.
A atmosfera mudou. Quem quer que estivesse por perto talvez não tivesse percebido que o tínhamos sentido antes, e não deve ter imaginado que o sentiríamos agora.
“Sei que vocês não são bandidos comuns! Entretanto já que continuam atrás da Atessa... Aposto que é aquilo que querem, não é?”
E por ‘aquilo’, eu obviamente queria dizer... Algo que inventei do mais absoluto nada! Estava tentando parecer inteligente, embora na verdade não tinha a menor ideia do que queriam.
Mesmo assim, minha afirmação deixou o outro lado com três possibilidades para considerar. Primeira, estou blefando. Segunda, de fato sei o que queriam. Terceira, sei algo que não sabem e vão assumir erroneamente que é o seu objetivo.
Se escolherem a Opção Um, vão me ignorar. Se escolherem a Opção Dois, ainda poderiam me ignorar sem problemas. Todavia se escolherem a Opção Três... Bom, quem sabe o que poderia acontecer então?
“Do que está falando?” perguntou uma voz masculina, incapaz de descartar a possibilidade da Opção Três.
Sim! Otário! Houve um movimento na floresta escura, e cinco silhuetas humanoides apareceram de dentro dela.
Aha... Não é à toa que não conseguíamos vê-los. Estavam vestidos com túnicas e calças verde-escuras, presas aqui e ali com cordões cor de areia. Seus rostos também estavam envoltos em tecido da mesma cor, revelando apenas os olhos. Não mostravam pele... Até mesmo a área exposta ao redor dos olhos estava toda manchada com extrato de grama e lama. Com uma camuflagem dessas, contanto que permanecessem imóveis entre as árvores, nunca os notaria, mesmo de perto. Os bandidos se misturavam tão bem com a folhagem que não conseguia identificar suas idades ou sexos. Nem tinha certeza se eram apenas cinco.
“O que você sabe?” perguntou o que estava mais à direita, o mesmo que havia falado comigo antes. A voz sugeria ser masculina, mas não tinha certeza se era sua voz verdadeira ou fingida.
“Estamos na mesma página, amigo.” respondi.
“Fale.”
“Não tenho certeza se essa é a melhor estratégia para obter informações de alguém. Talvez se você se curvar, entregar cem moedas de ouro e pedir com um pouquinho de educação...”
Minha ironia foi interrompida por quase uma dúzia de Flechas Flamejantes! Elas surgiram da palma estendida da figura mais à esquerda, que deve ter aproveitado nosso momento de conversa para conjurar o feitiço. Era um feitiço de ataque, é claro... Um que permitia conjurar e disparar vários projéteis flamejantes. O número exato era determinado pela habilidade do conjurador.
Gourry e eu saltamos para os lados! Ba-bwoosh! As flechas atingiram o chão em uma chuva de fogo.
Será que estão tentando nos separar? Em meio ao tumulto, conseguia ouvir o som de aço contra aço. Pelo visto, Gourry está lutando com alguém. Nesse caso...
Antes que pudesse me mover, vi o brilho de uma lâmina. Dei um salto para trás, levei a mão à espada no meu cinto e comecei um encantamento. Mal conseguia distinguir o atacante através da fumaça. Tudo o que conseguia ver era uma luz fraca emanando da lâmina em sua mão. Saquei minha espada curta, bloqueei o golpe e me esquivei. Logo, completei meu feitiço e...
De repente, senti uma sensação familiar. Não é...?
Interrompi o feitiço que estava entoando, me virei e comecei a entoar um novo enquanto corria. Estava tentando correr a toda velocidade, mas meu oponente me alcançou em instantes. Ele me atacou com uma joelhada, porém saltei para trás para desviar.
Com uma árvore atrás de mim, meu oponente e eu nos encaramos por um tempo. Então, investi com toda a minha força, lançando meu feitiço contra meu agressor!
“Iluminação!”
Houve um breve clarão branco na floresta. No geral, esse feitiço apenas fornecia luz, contudo fiz alguns ajustes para maximizar seu brilho em troca de uma duração mínima. Ser atingido em cheio poderia cegar alguém por um tempo.
Achei que meu oponente tivesse corrido direto para o feitiço, apesar de que se meu palpite estivesse certo, não deveria fazer muita diferença. Comecei a entoar meu próximo feitiço enquanto corria.
Zing! Ouvi um leve assobio no vento e parei de repente.
Minha sombra, que se arrastava atrás de mim no chão salpicado de sol, foi atravessada por uma pequena faca. Conhecia esse truque. Captura de Sombra era um feitiço para imobilizar os movimentos de um alvo no plano astral. Ser capaz de prender alguém no lugar pode parecer poderoso, entretanto não era muito eficaz contra quem soubesse como contra-atacar... Como euzinha!
“Iluminação!” usando o mesmo feitiço de antes para conjurar uma esfera de luz, libertei minha sombra da amarra. E assim que me virei para encarar meu oponente...
Fweeeee! Um assobio ecoou pela floresta.
Ao que parece eles tinham um vigia que os havia chamado de volta. Ao ouvir o sinal, os homens ao meu redor se viraram e correram para o meio da mata. Até mesmo os caras que estavam lutando com Gourry começaram a recuar.
“Devemos segui-los?” perguntou Gourry de longe.
“Melhor não!” falei, juntando-me a ele. Esta não era uma gangue de bandidos qualquer. Conheciam o terreno e não sabíamos quantos eram. Persegui-los nessas condições era uma má ideia. “Todavia fico imaginando por que recuaram tão de repente...”
Quando olhei ao redor, a resposta ficou clara. Dois homens, diferentes dos bandidos florestais, apareceram do lado da floresta mais próximo da estrada. Estavam usando armaduras de prata fina que brilhavam à luz do sol através das árvores como peixes deslizando pela superfície da água. Os dois formavam um par idêntico em termos de equipamento, o que sugeria que deviam ser soldados.
“Quem são vocês? Contra quem estavam lutando?” perguntou um deles ao nos avistar.
Aha...
Deviam estar passando por perto e vieram investigar quando ouviram os sons da batalha. Os bandidos... Ou melhor, os saqueadores, pressentiram sua aproximação e recuaram.
“Fomos contratados como mercenários!” levantei as mãos enquanto falava para mostrar que não lhes faria mal. Gourry também embainhou a espada. “Encontramos alguns saqueadores e entramos em uma escaramuça! Mas eles fugiram quando vocês chegaram! Podem confirmar nossa história em Atessa!”
Os soldados se entreolharam e trocaram algumas palavras sussurradas. Então, por fim, disseram.
“Muito bem! Você nos acompanhará até a cidade?”
“Claro! Posso abaixar as mãos agora?”
“Se quiser... Mas não tente nada engraçado.” disse o soldado cauteloso.
“Não vou!” respondi, despreocupada.
Os dois soldados então nos escoltaram, a mim e a Gourry, para fora da floresta e de volta à estrada principal.
“Ohh?” exclamei.
Havia algumas dezenas de outros homens vestidos com a mesma armadura que os soldados. E, no centro de suas fileiras impecáveis, estavam três carruagens elegantes puxadas por cavalos e duas carroças muito bem-feitas. Era uma força maior do que estava esperando.
E eu fico me perguntando...
Levantei um pouco a voz para perguntar ao Soldado nº 1.
“Ei, vocês são figurões?”
“Vamos verificar suas credenciais primeiro, depois conversamos.” ele respondeu.
Porém, nesse instante, uma das pequenas janelas da carruagem se abriu e um rosto familiar surgiu...
“Lina! Mestre Gourry! Achei que reconhecia essas vozes!”
“Ei, faz tempo!”
“É! Faz mesmo!”
O Soldado nº 1 piscou surpreso com nossa conversa.
A porta da carruagem se abriu de par em par e uma garota vestida com trajes brancos...
“Pare, pare! Não arrume problemas para seus guardas! Podemos conversar quando voltarmos para a cidade, senhorita Amelia!” gritei, tentando impedi-la de sair da carruagem.
Ela apenas respondeu.
“Só Amelia está ótimo! Até mais, Lina!”
E com isso, voltou para dentro.
Os soldados ao nosso redor ficaram atônitos. Finalmente, o Soldado nº 1 se virou para mim, sua armadura tilintando.
“Parece que você... Er, que é uma conhecida da nossa princesa, senhorita?”
“Pode-se dizer que sim!” respondi com uma piscadela.
A garota na carruagem era Amelia Wil Tesla Saillune. Dado o nome, não era difícil deduzir que fazia parte da família real de Saillune. Gourry e eu viajamos com ela por um tempo, algum tempo atrás.
E caso esteja se perguntando se éramos seus acompanhantes, a resposta é não. Amelia era um pouco mais jovem do que eu e ainda tinha um ar um tanto infantil, contudo conhecia magia xamânica e magia branca e era uma lutadora excepcional. Por várias vezes se juntou a nós como igual em batalha. Depois de uma verdadeira montanha-russa de aventuras juntos, nos separamos quando Amelia teve de retornar a Saillune.
Durante uma dessas aventuras, Gourry e eu conhecemos vários membros da família real de Saillune. Reconheci os soldados da nação pelos brasões em suas armaduras e, dado o comportamento do grupo, deduzi que a carruagem transportava uma pessoa importante. Tinha um pressentimento de que poderia ser algum conhecido, e foi por esse motivo que falei tão alto. No entanto nunca imaginei que fosse a própria Amelia!
E assim, nós três e a brigada de Saillune voltamos para a cidade.
———
Hás uns anos atrás, parei por aqui com minha mãe durante uma viagem, e conhecia a história geral da cidade. Esse reconhecimento da ferraria, construída tanto na grande floresta quanto nas minas locais, já fora objeto de uma disputa territorial entre Zephilia e Saillune. Naquela época, a cidade tinha um senhor e uma guarda considerável, entretanto agora que os reinos haviam feito as pazes, qualquer presença militar era mantida no mínimo e a segurança era feita em grande parte pelos moradores locais. O senhor também havia sido transferido para outro domínio, e a cidade agora tinha um prefeito para representá-la. (Apesar de que, ao que tudo indica, o prefeito é um parente do antigo senhor.)
É claro que não significava que não havia soldados em Atessa. A mansão do antigo senhor agora era usada como hospedaria, e havia cerca de vinte soldados zephilianos estacionados lá sob o pretexto de ‘administração’. Dois destes nos receberam na entrada da cidade e, em seguida, escoltaram Amelia e o grupo de Saillune (mais eu e Gourry) até a mansão.
Bem, chamo de mansão, todavia era óbvio que havia sido projetada para servir como uma fortaleza, se necessário. Era feita de rocha robusta e de decoração simples.
Ao entrarmos pelo portão principal, encontramos cerca de uma dúzia de pessoas... Pareciam ser figurões locais... Entre os soldados, todos em pé em frente à porta principal, em uma fila organizada. Um desses figurões era MacLyle, em seu uniforme de gala. Quando nos viu, suas sobrancelhas se ergueram um pouco, porém não estava em posição de dizer nada.
Enquanto todos reunidos permaneciam em posição de sentido, um assistente colocou um banquinho desnecessariamente ornamental aos pés da carruagem, e a porta finamente decorada se abriu. A pessoa que saiu era ninguém menos que...
Um suspiro de espanto ecoou da multidão.
Ela usava um vestido branco puro, decorado com fios de ouro e renda, e sua tiara cerimonial de prata, simples e marcante, contrastava com seus cabelos negros. Óbvio que ela usava roupas de viagem quando nos aventuramos juntas, embora vestida assim, dava para perceber que era uma princesa de verdade. Parecia que também tinha crescido um pouco desde a última vez que a vi.
Ao descer para o caminho de pedra da entrada, se virou para as figuras importantes e levantou a barra da saia em uma reverência.
“É uma honra conhecê-los, povo de Atessa. Sou Amelia Wil Tesla Saillune, enviada especial de Saillune. Peço desculpas por incomodá-los, mesmo que por este breve momento.”
Após a apresentação de Amelia, o prefeito de Atessa deu um passo à frente. Após um longo discurso de autoelogio, falou.
“Espero que vocês aproveitem a estadia em nossa pousada depois da longa viagem. Posso mostrar tudo para vocês, se quiserem, contudo... Ah...” ele lançou um olhar para mim e para Gourry. “Posso perguntar quem são esses dois? Não parecem fazer parte da sua comitiva...”
“São meus amigos!” disse Amelia com um sorriso. “Nos encontramos por acaso na floresta. Ouvi dizer que estão ajudando as forças de segurança locais. Tenho muito o que conversar com os dois, então espero que não se importem se os levar comigo por um tempinho.”
Ao ouvir aquilo, o prefeito disse.
“Sim, claro. Fiquem à vontade.”
Afinal, o que mais poderia dizer?
———
Depois das apresentações, Amelia e sua comitiva receberam acomodações, e o tempo livre entre o jantar e o banquete daquela noite foi tudo o que nos foi concedido para conversarmos.
“A verdade é que vim a Zephilia como enviada especial para entregar uma mensagem... E ela diz respeito a vocês dois.” disse Amelia, tomando um gole de seu chá aromático e soltando um suspiro.
“Hmm... Podemos falar sobre essa mensagem aqui?” perguntei, instintivamente mantendo a voz baixa.
Amelia havia recebido um quarto bem grande. Claro, como se tratava de uma hospedaria, era muito bem decorado com um tapete grosso, tapeçarias nas paredes, mesas e escrivaninhas grandes e uma bela cama com dossel nos fundos... Embora tudo parecesse um pouco antigo.
A mesa onde estávamos sentados estava posta com chá para três, servido pela empregada da hospedaria. A mulher estava por perto, junto com seis soldados que acompanhavam Amelia... Um em cada canto e dois na porta. Era óbvio que se Amelia explicasse seus negócios aqui, todos ouviriam. Fiquei me perguntando se seria um problema, no entanto...
“Oh, não se preocupe.” declarou com um sorriso. “Quanto mais pessoas souberem, melhor. O reino deseja compartilhar esta informação amplamente... Pois diz respeito à existência de mazokus.”
“Mazokus?” sussurrei.
Tenho certeza de que não preciso lembrá-lo, mas mazokus são monstros que se alimentavam das emoções negativas dos seres vivos e buscavam destruir o mundo. Demônios inferiores e demônios de bronze eram comuns, entretanto havia histórias de mazokus... Em especial uma entidade conhecida como o Lorde das Trevas (que, segundo a lenda, foi dividido em sete partes) e tinha seus cinco tenentes: Mestre do Inferno, Dragão do Caos, Dinastia, Grande Besta e Mar Profundo.
E... Bom, acho que devo dizer logo de cara. Eu, Gourry, Amelia e um outro amigo nosso tínhamos destruído um desses tenentes: o Mestre do Inferno Fibrizo.
Sim, Já sei. Estou perfeitamente ciente. Faça uma afirmação dessas e todos vão pensar que está aplicando um golpe.
Alguns feiticeiros nem acreditavam que o Lorde das Trevas e seus tenentes fossem reais. Eles usavam feitiços que invocavam os nomes dos mazokus, todavia em vez de invocar os próprios seres, interpretavam a prática como canalizar uma fonte de poder mais nebulosa... Ou talvez as próprias leis da natureza. A ideia de que tínhamos encontrado um tenente do Lorde das Trevas e até o destruído... Não posso culpar ninguém por duvidar de tal coisa.
Na verdade, quando relatei o incidente ao conselho de feiticeiros, esperava ser recebida com incredulidade. E a reação que recebi foi... Sim, justo a mais pura e crua descrença. Muitas sobrancelhas arqueadas. As perguntas que recebi foram menos do tipo ‘isso é verdade?’ e mais como ‘ela está se gabando, enganando ou é louca?’.
Sua perturbação era compreensível, claro. No lugar deles me sentiria da mesma forma. Porém juro que aconteceu!
“Isto é sobre... O Mestre do Inferno, certo?” perguntei a Amelia. “Acha que alguém vai acreditar em você?”
“É importante que as pessoas saibam que mazokus existem de fato e que um destes foi destruído!” ela respondeu. “Embora a maioria não vai acreditar apenas na minha palavra, então expliquei as coisas em casa e pedi ao conselho de feiticeiros para provar.”
“Provar? Como?”
“Eles confirmaram que feitiços que invocam o Mestre do Inferno não funcionam mais. Deve ser prova suficiente de que a fonte de poder conhecida como Mestre do Inferno não está mais acessível. É verdade que não prova que mazokus sejam seres independentes que assumem forma humana, muito menos que um destes tenha sido destruído por um humano. Contudo ninguém pode mais descartar essa ideia de imediato. Nosso futuro depende de que o maior número possível de pessoas saiba quais ameaças existem neste mundo e que forma elas assumem, então estou viajando por vários reinos para apresentar nossas descobertas. Só que como os testes levaram bastante tempo, só estou conseguindo fazê-lo agora...” Amelia então sorriu e disse. “Fiquei preocupada que demorasse tanto que vocês já tivessem derrotado outro mazoku de alto escalão nesse meio tempo, sabe? Ahaha...”
“Ahahahaha!” eu ri roucamente.
“Ahahahaha!” Amelia riu junto comigo. Então, ainda sorrindo, disse. “Vejo que não tem mais seus talismãs, Lina... O que me faz supor que andou se metendo em algum problema. E acho que sua risada agora confirmou minhas suspeitas.”
Erk! Malditos sejam seus poderes de observação, Amelia! Vejo que cresceu mesmo!
Não havia como me fazer de desentendida depois daquilo. Cocei a nuca e confessei.
“É, tem razão!”
“Leve isso a sério!” ela gritou por algum motivo, e me senti um pouco envergonhada.
“Ei, fique calma, Amelia. Não é como se eu tivesse saído por aí arrumando briga de propósito. De qualquer forma, não é como aquela coisa do Mestre do Inferno que torna certos feitiços inutilizáveis, então não deve afetar sua mensagem. Não se preocupe.”
Amelia me encarou em silêncio por um tempo, depois me deu um sorriso forçado.
“Sendo assim, Lina, o que exatamente você fez dessa vez?”
Desviei o olhar.
“Ah, bem... Nós demos um golpe bem pesado no Dinasta Graushera e derrotamos outro avatar do Lorde das Trevas...”
Ouvi um baque surdo e, quando me virei para olhar, encontrei a princesa debruçada sobre a mesa.
“Ei! T-Tudo bem aí, Amelia?”
“Bem... Acho...” ela se sentou cambaleante e pressionou os dedos contra as têmporas. “Que vou fingir que nunca ouvi nada do que acabou de me dizer... Ok, não consigo, no entanto parece uma longa história, então vamos deixar para depois. Há outra coisa que quero confirmar primeiro. Quem vocês estavam enfrentando na floresta?”
“Hmm... Para ser honesta, só aceitamos o trabalho hoje. Pelo visto, alguns saqueadores estranhos estão atacando Atessa há algum tempo, causando todo tipo de caos.”
“Saqueadores?” Amelia repetiu, com dúvida.
“O cara que nos contratou os chamou de bandidos, mas...”
“Não podem ser.” disse ela com naturalidade, sem mudar a expressão.
“O que te faz pensar isso?”
“Bom, é óbvio...” respondeu Amelia, surpresa. “Se tivesse havido alguma fatalidade, meus soldados teriam trazido os corpos ou relatado o ocorrido. O fato de não o terem feito me indica que não houve baixas, e o fato de essas pessoas terem escapado vivas de uma luta com vocês dois me diz que não podem ser meros bandidos.”
Sua lógica era sólida. Dei um sorriso sem graça e dei de ombros.
“Sabe. concordamos com a ideia, porém...” olhei para Gourry. “O que achou dos caras com quem lutamos na floresta?”
“Hmm...” Gourry tomou um gole de chá enquanto pensava. “Senso de moda sem graça.”
“Não estou perguntando sobre as roupas deles! Quero dizer, o que você achou de lutar contra eles?”
“Hã, isso? Além dos que vieram direto para cima de mim, os outros estavam jogando facas à distância para me manter sob controle. Tive que me virar para desviar...”
Nem preciso dizer que as habilidades do Gourry estavam em outro nível para ele se defender em uma luta de quatro contra um. Entretanto, normalmente, ainda teria conseguido encontrar uma brecha na defesa do oponente e romper. O fato de não ter conseguido desta vez me indicou que seus oponentes fizeram uma rápida análise sua e contra-atacaram de acordo.
“Certo, eram quatro contra um, porém mesmo assim, é impressionante que tenham conseguido enfrentá-lo de igual para igual.” comentei.
“Imagino que tudo vai ser um tanto complicado...” Amelia franziu a testa enquanto ouvia nossa história.
———
O sol se punha no horizonte oeste. Quando Gourry e eu saímos da hospedaria, era tarde demais para ser tarde, e cedo demais para ser noite.
Explicamos os detalhes gerais da história para Amelia, e foi tudo. Não tivemos tempo de nos aprofundarmos sobre Dinastia e o Lorde das Trevas, e também não sabíamos muito sobre a situação na cidade. Tínhamos várias coisas menores para conversar, todavia não queríamos ficar muito tempo e incomodar seus guarda-costas, então decidimos encerrar a conversa por ali.
“Então, o que fazemos agora?” perguntou Gourry.
“Hmm... Acho que algo aconteceu mais cedo, então gostaria de descobrir o quê, porém...” respondi pensativamente. Ainda tínhamos um tempo antes do pôr do sol, contudo não o suficiente para sairmos da cidade e investigarmos. “Certo. Vamos voltar para a casa do Mestre MacLyle e...”
“Comer?”
“Isso também! No entanto primeiro, tenho algumas coisas que quero perguntar a ele.”
Para nossa hospedagem, estávamos na hospedaria Folha Prateada, do MacLyle. Parte da razão era que, quando decidimos aceitar o trabalho, este se ofereceu para nos deixar ficar de graça e nos deu 20% de desconto nas refeições. Entretanto MacLyle também era o chefe da segurança local, o que fazia do lugar nossa base para relatar nossas descobertas. Era conveniente para nós montar acampamento lá.
Já era a hora em que a maioria das pessoas estava na rua fazendo compras para o jantar, então havia gente indo e vindo por toda a cidade. O som de metal batendo de perto e de longe era uma parte natural do ambiente na cidade dos ferreiros. As pessoas que viviam em cidades como essa tendiam a ser do tipo temperamental, embora a atmosfera agora estava longe de ser alegre. A presença dos invasores devia ter lançado uma sombra sobre tudo.
No caminho de volta para a hospedaria, tive uma ideia e fiz um desvio para fazer algumas compras. Quando enfim retornamos a Folha Prateada...
“Olá!” MacLyle nos cumprimentou quando entramos pela porta. Ainda era um pouco cedo para o jantar, então não havia clientes no restaurante do primeiro andar. As lâmpadas internas não estavam acesas, e o sol fraco do final da tarde, entrando pelas janelas, projetava sombras nas colunas, cadeiras e mesas antigas. MacLyle estava atrás do balcão. O aroma de um delicioso ensopado, ou algo parecido, pairava pelo restaurante enquanto se preparava para o jantar. “Bem-vindos de volta. Terminaram a conversa?”
“Mais ou menos. Não entramos em detalhes, mas abordamos o essencial. O senhor não vai ao banquete, Mestre MacLyle?” perguntei.
Ele me lançou um sorriso sem jeito enquanto Gourry e eu nos sentávamos à mesa.
“Não. Só alguns figurões selecionados têm acesso. Eles só me colocaram aqui para as boas-vindas para dar a impressão de que era mais importante. Devo dizer que não fazia ideia de que vocês dois eram amigos da família real de Saillune...”
Dei-lhe um sorriso forçado.
“E eu não fazia ideia de que um VIP de Saillune ia aparecer por aqui... Apesar de que, como chefe da segurança local, imagine que você soubesse.”
Ele se ocupou com algo atrás do balcão e não pareceu nada constrangido com a minha insinuação.
“É, desculpe por não ter mencionado. Fiquei preocupado que a notícia chegasse aos bandidos se a contasse.”
“O quê? Acha que alguém na cidade está vazando informações?”
“Eles anteciparam nossos planos vezes demais para pensarmos o contrário. É melhor presumir que seja esse o caso.”
Aha. Não posso culpá-lo por ser cauteloso, nesse caso...
“A propósito, Mestre MacLyle, falando em bandidos... Nós os encontramos na floresta.”
“O quê?” o homem gritou em choque.
“Porém acabaram fugindo quando os caras de Saillune chegaram.” acrescentou Gourry.
“E-E-Espere um minuto!” MacLyle começou a se mover com pressa e saiu de trás do balcão carregando três canecas de madeira... Bebidas para nós, pelo que pude ver. Colocando as canecas na nossa frente, sentou-se em uma cadeira vazia à mesa. “Vocês se depararam com os bandidos?”
“Aconteceu alguma coisa hoje, não é? Um ataque, talvez? Foi logo depois, então aposto que estão relacionados.” sugeri.
“Poderia me contar mais?” perguntou MacLyle. “Como eram?”
“Seus rostos estavam escondidos, então não consegui nem dizer se eram homens ou mulheres, contudo...” dei um gole na bebida, algum tipo de suco de maçã. Em seguida, fiz um resumo do nosso encontro com os saqueadores e concluí. “Isso cobre tudo. Agora, presumimos que algo aconteceu lá fora, no entanto não sabemos o quê. Estávamos nos perguntando se você ouviu alguma coisa e, se ouviu, se poderia nos dar alguma pista.”
“Eu mesmo só ouvi fragmentos até agora. Houve um desabamento em uma das minas, e as pessoas acharam que poderiam ser os bandidos... Ou melhor, os saqueadores... Usando um feitiço de ataque. Recebi o relatório e enviei minha equipe para busca e resgate, entretanto ninguém retornou ainda, então não sei...”
Ra-ring. A campainha interrompeu MacLyle. Todos olhamos para a porta aberta para ver...
“Senhora Alaina!” MacLyle a cumprimentou.
A elfa abriu a boca... Logo depois nos notou, a mim e a Gourry, moveu os lábios silenciosamente e os fechou. Acho que disse alguma coisa. Sua voz estava baixa demais para ouvirmos.
“Bem-vinda de volta. Momento perfeito. Gostaria de nos contar o que aconteceu lá fora?” perguntou MacLyle.
Após um momento de hesitação, como um gato de rua cauteloso investigando a comida oferecida, ela se aproximou com timidez, seus olhos fixos em mim e em Gourry, e sussurrou algo atrás de MacLyle.
“Er...” MacLyle, parecendo constrangido, virou-se para encará-la. “Poderia, por favor, dizer em voz alta para que todos possam ouvir?”
Whew... Alaina respirou fundo, tremendo, e começou a vasculhar os bolsos.
“Ah. Espere um minuto!” falei, e tirei do bolso da minha túnica o que havia comprado na cidade. Para a maioria das pessoas, pareceriam apenas duas moedas grandes de uma moeda desconhecida. Lancei um feitiço simples em uma delas e a entreguei a Alaina. “Pode ficar com isto. Comprei no conselho de feiticeiros local. É um item mágico conhecido como Disco de Regulus, e vai fazer com que possamos ouvir sua voz perfeitamente. Você parece ter dificuldade para falar em um volume normal cara a cara, mas se sussurrar aqui, ainda conseguiremos ouvi-la.”
Alaina estendeu a mão sem jeito... Agarrou o Disco de Regulus e se escondeu debaixo da mesa mais próxima num instante.
“Teste. Teste... Teste, teste. Ah, estou audível!”
Ouvi sua voz emanando do Disco de Regulus que ficou em minha mão.
“Vocês humanos realmente criam ferramentas úteis de vez em quando! Se tinha uma dessas, por que não me deu antes?”
“Heh. Está entrando no modo dominadora, porém se controle ou vou te puxar pela gola e te obrigar a falar bem na minha frente, ok?”
“Ah... Desculpe... Não queria dizer... Vou tentar ser cuidadosa, então, por favor, não me faça falar assim, de perto...”
Hmm... Ela tinha ideias muito extremas sobre manter distância dos outros.
“Contudo... Isto é realmente muito conveniente. Posso ficar com ele? Eu pago, é claro.”
“Hmm...” enquanto ponderava se deveria vendê-lo a preço de custo ou enganá-la...
“Desculpe, no entanto podemos deixar a negociação para mais tarde? Agora, quero saber o que aconteceu na mina.” interrompeu Mestre MacLyle.
“Ah, sim. Pode falar.” concordei.
Ele então disse a Alaina.
“Agora, acredito que você mesma foi ao local. O que viu lá?”
Nesse momento, Alaina respondeu com naturalidade.
“O local era a segunda mina. Houve um desabamento. Houve feridos, embora não houve nenhum morto ou desaparecido. Voltei mais cedo para relatar, entretanto Randa está liderando a operação de resgate e toda a equipe de segurança está ajudando. Eles esperam que a operação termine antes do anoitecer, todavia levará pelo menos alguns dias para que a mina volte a funcionar. E uma inspeção do local sugere que a clara influência de espíritos da terra bephemoth causou o deslizamento de terra.”
Foi um excelente resumo da situação. Uma pena que tenha tido que fazê-lo escondida debaixo da mesa...
Só que tinha uma pergunta.
“Quem é Randa?”
“O homem que você nocauteou quando chegou aqui!” MacLyle me informou.
Ahh, o segurança com cara de durão. Tinha esquecido o seu nome. Porém se era ele quem estava no comando... Caramba, eles devem estar com falta de pessoal. Ou talvez essa fosse a única coisa em que o cara não era ruim?
“Só para ter certeza, existe alguma chance de um dos mineiros ter lançado o feitiço que causou o deslizamento de terra?” perguntei, considerando a possibilidade de ter sido um trabalho interno.
“Não!” Alaina negou com firmeza. “Encontrei o ponto de origem do feitiço, e estava do lado de fora, a alguma distância.”
“Encontrou o ponto de origem do feitiço? Consegue fazer isso?”
Me peguei gritando.
Existiam alguns feitiços e situações em que era possível rastrear a magia até o local onde foi ativada. Só que este havia causado um deslizamento de terra, que costumava eliminar todos os vestígios...
Mas ela apenas disse que sim, com a maior naturalidade possível.
“Bem, é óbvio se procurar por vestígios de interferência com os bephemoths, não é?”
“Vestígios de interferência...?” repeti, murmurando a expressão desconhecida.
“Sim. É possível que os humanos não consigam vê-los.”
“Quer dizer que os elfos conseguem?”
“Nós os sentimos mais do que os vemos, mas... Sim.”
Eu era amiga de uma elfa, porém essa foi a primeira vez que ouvi falar disso... Claro, não é como se o assunto de como os elfos percebem o ambiente ao seu redor tivesse surgido entre nós. Sabia que humanos e elfos diferiam muito em habilidade mágica, contudo não sabia que eles podiam ver as coisas de maneira diferente.
“Mesmo assim não consegui encontrar os bandidos.”
“Ah, sobre isso...” disse MacLyle. “Nossos dois amigos aqui parecem tê-los encontrado.”
“O quê?”
Pude sentir Alaina tremer debaixo da mesa.
“Você os encontrou, Anciã Lina?”
“Sim, mais ou menos. Espera, o que é esse papo de ‘anciã’ do nada? Pode me chamar só de Lina.”
“Lina... Só que se não usar um título, vai significar que eu tenho uma posição superior à sua?”
“Ainda pode me considerar sua anciã. Só tire o título.”
“Ah... Vou fazer assim. Me desculpe.”
Essa distância que demonstrava em relação aos relacionamentos interpessoais também era irritante! Por que uma de nós tinha que ter uma posição superior à outra? Apenas presumi que éramos iguais... Embora tivesse quase certeza de que, se dissesse isso, Alaina voltaria ao seu modo dominadora.
“Certo... Como eles eram?” Alaina perguntou.
“Havia pelo menos seis, se não me engano, cobertos de pano da cabeça aos pés. Sequer conseguia dizer se eram homens ou mulheres.”
“E sentiu mais alguma coisa?”
“Eram lutadores muito bons e conseguiram escapar no final. Apesar de todos os chamarem de bandidos, não acho que possam ser bandidos quaisquer.”
Com isso, Alaina ficou em silêncio.
“Se não são bandidos... Quem são e o que estão procurando?” MacLyle falou em seu lugar.
Dei de ombros.
“Quem me dera saber. Não pareciam ser do tipo que conta todos os planos para pessoas que acabam de conhecer. Tenho uma vaga ideia da direção para onde correram, no entanto duvido que encontraríamos sua base apenas com essa informação.”
“Ainda assim, este é um grande passo na direção certa. Não tínhamos conseguido localizá-los antes. Continuem o bom trabalho amanhã, por favor!”
“Claro, faremos o nosso melhor.”
Ou pelo menos foi o que falei, entretanto parecia que as coisas estavam saindo um pouco do controle. Fazia apenas um dia... Ou melhor, meio dia... Desde que chegamos a Atessa, e já tinha sido bastante agitado.
Dei outro gole no meu suco de maçã, resistindo à vontade de suspirar.
———
A manhã chega cedo em uma cidade de ferreiros, ou seja, fui acordada pelo som dos ferreiros batendo em suas bigornas. Se fosse o canto dos pássaros, teria continuado dormindo em paz. Mas martelos batendo em aço? É, não podia ignorar algo assim. Os moradores da cidade já deviam estar acostumados, porém eu com certeza não estava.
Incapaz de voltar a dormir, levantei-me, desci até o restaurante no primeiro andar e encontrei Gourry já lá. O barulho deve tê-lo acordado também.
Depois de um café da manhã leve com salada, pão, bacon, ovos, purê de batatas, sopa minestrone, risoto, gratinado, torta de maçã, frutas, leite e suco, tomei um gole silencioso do meu chá pós-refeição. E assim que soltei um suspiro profundo... Ouvi a campainha da porta da pousada tocar alto.
“Ei! Aí está você!” virei-me na direção da voz em pânico e vi um homem mais velho com uma aparência familiar parado ali. O homem veio caminhando direto em nossa direção. “Você conhece a Princesa Amelia, não é?”
De repente, me lembrei do cara, era um dos homens que havia recebido a delegação de Saillune na pousada ontem. O prefeito.
“Er, sim?” respondi.
O prefeito então olhou em volta, correu até nossa mesa e falou em voz baixa.
“A princesa Amelia não está aqui, está?”
“Não, não está...”
Que pergunta peculiar. Afinal, Amelia era uma enviada especial de Saillune. Ela deveria ter guarda-costas a acompanhando o tempo todo, e só porque nos conhecíamos não significava que podia só aparecer aqui para passar um tempo quando quisesse. O prefeito sem dúvida também sabia disso, então a única razão pela qual me perguntaria uma coisa dessas era...
“Amelia não está... Desaparecida, está?” perguntei, mantendo a voz baixa.
Com essas palavras, o semblante do prefeito ficou visivelmente pálido.
“Hmm.” ele abriu a boca para falar, contudo mudou de ideia e a fechou. Tentou mais uma ou duas vezes, depois disse. “Acho que ela foi sequestrada...”
...
“Como é que é?” o grito simultâneo meu e de Gourry enviou uma onda de choque pelo ar da manhã ao nosso redor.
***
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