Capítulo 70: Silenciosamente na floresta da discórdia
Uma forma alada passou pelo azul acima. Se eu não soubesse, teria confundido com algum tipo de pássaro.
“Já foi embora?” perguntou Zel, escondido atrás de uma árvore.
“Não consigo mais vê-la.” respondeu Gourry.
“Certo, vamos!” concluí.
O grupo assentiu em concordância e retomou a caminhada.
Já haviam se passado vários dias desde nossa parada furtiva na cidade. Tínhamos deixado o poço da mina que usávamos como base e estávamos nos embrenhando na floresta. O vento farfalhava na grama e nas folhas... De repente, o canto dos pássaros e o zumbido dos insetos cessaram.
Está vindo! Assim que pensei, um raio de luz voou em nossa direção à distância... O sopro laser de um Zanaffar! Atravessou meu peito.
No mesmo instante, Alaina ativou uma magia.
“Foggul!”
Sua magia preencheu o ar ao nosso redor com uma névoa branca, e eu (com o peito ainda perfurado) desapareci junto com o resto do nosso grupo.
Tenho certeza de que não preciso explicar, mas a Lina empalada era apenas uma ilusão.
Este era mais um dos truques de Alaina. Funcionando como uma miragem, o feitiço projetava objetos em outras dimensões. Era um truque bastante popular entre os elfos, que o usavam para projetar monstros gigantes falsos a fim de afugentar bandidos ou animais perigosos. As ilusões podiam até se mover, e embora fosse possível perceber algo estranho nelas de perto, eram bem convincentes à distância.
Para Tessius e os outros, parecia que tinham acabado de acertar um de nós com seu sopro laser e que tínhamos levantado uma cortina de fumaça para nos escondermos em resposta. E, como esperado, eles se aproximariam para confirmar a morte depois... Seria aí que atacaríamos. Afinal, o motivo de termos saído do nosso esconderijo hoje era atrair os Cães para um ataque.
No momento em que a área foi coberta por uma névoa branca, eu e meus três companheiros começamos a correr em direção ao ponto de origem do sopro laser.
Eis o resumo do que estava acontecendo. Asas nos avistou, os Cães nos cercaram à distância e então usaram aquele único ataque de longo alcance como sinal para nos atacar. Por sua vez, nossa contra estratégia era usar a ilusão de Alaina para atraí-los e, em seguida, conjurar sua névoa para nos proteger enquanto atacávamos cada um dos Cães, um por vez.
Nosso primeiro alvo era quem quer que tivesse atirado em nós. Sabia que os Cães tinham um atirador de elite... O cara que havia atirado em nós com um arco através da névoa antes... Então imaginei que o candidato mais provável fosse Sagan, o Ciclope.
Enquanto nós quatro corríamos em direção à sua localização, notei um movimento em minha visão periférica. Havia algo na névoa. Um pássaro? A pequena silhueta se movia como se estivesse voando paralelamente a nós...
“Desviem!” gritei, e todos nós saltamos para lados diferentes.
Vrm! Um clarão passou velozmente por onde tínhamos estado... Mais sopro laser!
“Gourry! Corte qualquer um daqueles pássaros estranhos que você vir!”
“Entendido!” o grandalhão pareceu avistar logo em seguida algo e desferiu um golpe lateral com sua espada. Uma luz roxa pálida traçou um rastro na névoa, e seja lá o que fosse, caiu com força no chão.
“O que você acabou de cortar?” gritei.
“Um... Pássaro cinza?” ele respondeu. “Porém não tem sangue!”
“Tudo bem! Corte qualquer outra coisa parecida que vir!”
“O que está acontecendo?” Zel perguntou.
“Acho que o Ciclope tem drones!” respondi. “Ele está os usando para nos localizar!”
Eu já havia me perguntado como Sagan conseguira atingir uma mira tão precisa através da densa neblina. A princípio, presumi que tivesse usado criaturas da floresta como familiares, escondendo-as nas árvores para determinar nossa localização. Contudo a forma como a armadura Zanaffar isolava seu usuário do plano astral tornaria impossível o uso de familiares dessa maneira. Cada Zanaffar élfico havia sido projetado para seu usuário, então imaginei que a de Sagan pudesse ter uma função semelhante embutida. ‘Drones’ artificiais poderiam substituir facilmente os familiares para fins de reconhecimento. Claro, tudo era especulação da minha parte... No entanto esse desenvolvimento parecia confirmar a teoria.
Continuamos a correr pela vegetação rasteira. Cada vez que Gourry brandia sua espada, um dos drones de Ciclope atingia o chão. Não tenho certeza se era mais difícil para Sagan mirar através das árvores ou se o ataque de Gourry aos drones estava funcionando, entretanto ainda não tínhamos visto uma segunda rajada de sopro laser.
De uma forma ou de outra, descobrir que Gourry conseguia cortar os drones, que deviam ser feitos do mesmo material que os Zanaffars. Foi uma grande vantagem para nós.
Sem aviso prévio... Whoom! Ouvimos uma explosão vinda de cima. Ciclope abriu fogo e disparou algo para o céu para avisar seus aliados que estava sob ameaça. Quanto ao que isso significava para nós...
“Por aqui!” apontei e corri em uma direção aleatória. Imediatamente entendendo minha sugestão, o resto do meu grupo seguiu o exemplo e Alaina gerou mais névoa para nos proteger dos nossos oponentes.
Veja bem, se tivéssemos continuado a caminho do Ciclope, é provável que este acabaria se escondendo... Nos deixando cair em uma emboscada de seus amigos Zanaffars. Foi por esse motivo que achei melhor mudar de rumo, mas assim que o fizemos...
Thunka-thunk-thunk! Thunka-thunk-thunk! Thunka-thunk-thunk!
Ouvimos algo se aproximando em grande velocidade pelo nosso flanco. O trovão rítmico dos passos lembrava um cavalo. Claro, não havia como um cavalo comum estar correndo pela floresta a essa hora. Era seguro presumir que se tratava de um Zanaffar equino.
“Zel, chão! Gourry, espada! Alaina, preparar!”
“Certo!”
“Entendido!”
“O quê? O quê?”
Todos, exceto Alaina, reagiram imediatamente. Zel e eu nos abaixamos atrás das árvores enquanto começávamos a entoar cânticos, enquanto Gourry se virava na direção dos cascos e preparava sua lâmina. Após um momento de pânico, Alaina se escondeu na vegetação rasteira próxima, e não foi um segundo cedo demais.
Thunk-thunk-thunk! Os passos estrondosos se aproximaram e uma figura emergiu da névoa. Tinha a silhueta de um centauro... Um grande cavalo com um torso humano no lugar da cabeça. Carregava uma arma semelhante a uma lança em cada uma das mãos. Quando este Centauro Zanaffar pôs os olhos em nós...
“Humaaanoooos!” uivou com uma voz masculina enquanto avançava ainda mais rápido do que antes! Nem mesmo a densidade das árvores ao nosso redor o deteve... Na verdade, acelerou à medida que se aproximava!
Aquela coisa é mais rápida do que imaginei! Coloquei a mão no chão e...
“Bepheth Bring!”
Bepheth Bring era um feitiço usado para cavar túneis, então, se o apontasse direto para o chão abaixo de você, criaria uma armadilha instantânea!
Então foi a vez de Zel.
“Dug Haute!” ele conjurou, seu feitiço criando torres de terra.
Pensei que poderíamos atrasar o Centauro o suficiente com nossa combinação de feitiços para que Gourry arrancasse uma de suas pernas... No entanto, é sempre importante esperar o inesperado, e o Centauro estava se aproximando muito mais rápido do que imaginamos!
Nunca me esquecerei do que aconteceu em seguida. A cena que se desenrolou diante de mim pareceu passar em câmera lenta, gravando-se em meu cérebro.
As patas dianteiras do Centauro atingiram o buraco no chão que meu feitiço havia criado. E assim que sua metade dianteira caiu para dentro, a torre de terra de Zel disparou para o estômago de cavalo. É claro, não foi forte o suficiente para perfurar a armadura de Zanaffar e, como resultado...
Wooow, que tempo de suspensão absurdo!
“Aaaah!” o Centauro gritou enquanto era arremessado para o ar, de cabeça para baixo!
“Espera! Hã? O quê?”
Até Gourry, chocado com o ocorrido, recuou depressa. Então, enquanto a armadura caía de volta para baixo... Slash! Gourry atacou.
O Centauro atingiu o chão atrás dele. Fwoomabangkrickle! O som daquele impacto, cara... Quer dizer, o cara era um inimigo nosso e tudo mais, mas mesmo assim não pude deixar de estremecer de pena.
Ficamos todos ali em silêncio por um momento.
Todavia o Centauro, aparentando seguir consciente, se moveu um pouco.
“Seu...!”
“Tome essa!”
Ah. Alaina com o golpe duplo!
Vwooosh! Uma lança gigante... Não, mais parecida com um aríete, surgiu do chão a seu comando e lançou o Centauro para o alto outra vez. Enquanto isso acontecia, vi o torso humano se desprender do resto da armadura.
O golpe de Gourry deve ter quase cortado a armadura, então a força do impacto, somada ao empurrão final de Alaina, terminou o serviço, despedaçando-a. Foi engraçado, de certa forma, entretanto estou com muita pena do cara para rir. Não tenho certeza se deveríamos considerar um golpe de sorte para nós ou um grande azar para o coitado. Estávamos lutando e tudo mais, porém, caramba...
O Centauro dividido ao meio caiu no chão com um estrondo. O grupo o encarou por um momento, e então...
“Urgh...” ouvimos seu portador gemer.
Ah, certo. O usuário estava apenas dentro do torso e das patas dianteiras do cavalo! Portanto, cortar o Centauro na cintura não havia ferido quem estava lá dentro.
Percebendo isso, nos preparamos para o combate novamente. Gourry correu em sua direção.
“Não me subestimem, humanoooos!” gritou a metade dianteira do Centauro enquanto... Continuava ali, estendido no chão e se contorcendo.
Assustado com a estranheza desse comportamento, Gourry diminuiu o ritmo da investida e manteve distância.
“Isto não é nada! Enquanto eu tiver... O poder de Zanaffar... Nunca... Ah, por que está tão pesado?”
Enquanto eu observava o cara se debater, percebi algo.
“Ei, cara dentro da armadura!” chamei.
Ele parou de se mover, então imaginei que tivesse me ouvido.
“Você sabe que o Zanaffar é um ser vivo, né? Portanto, quando a armadura bater as botas, você estará sem sorte!”
Em outras palavras, ele não ia a lugar nenhum, muito menos disparar mais seu sopro laser.
“O quê?” perguntou o cara, sem expressão.
Tentou se debater um pouco mais e então...
“Droga! Nesse caso...”
Krsh! A armadura se abriu. Pelo visto foi projetada com um mecanismo de liberação de emergência que poderia ser ativado mesmo se o Zanaffar morresse. Seu usuário, libertado de dentro, levantou-se devagar. Virando-se para nos encarar...
Splat! Acertei um chute voador bem no meio da sua cara!
Depois que derrubei o elfo, Zel o olhou.
“Cashdial?” gritou, chocado. Parecia ser alguém que conhecia da época em que se infiltrou nos Cães da Floresta.
“É um deles, certo?” perguntei.
“Sim. Alguém bastante habilidoso... Isso deve ser uma grande vergonha para ele.”
“É...”
Concordo plenamente.
Gourry pareceu um pouco confuso.
“Hmm... Então, o que fazemos agora? Não quero só, tipo, matar o cara.”
“Hmm. Tem razão.”
Também não tinha muita certeza do que fazer com ele. Sabia como Gourry se sentia, embora seria um saco se esse tal de Cashdial acordasse e começasse a lançar feitiços de ataque contra nós. Porém antes que pudéssemos discutir o assunto mais a fundo...
“Raspagem Mental!”
Thunk! Alaina atingiu o elfo inconsciente com uma dose de magia.
“Ei!”
“Erm, esse feitiço causa dano ao espírito.” ela explicou antes que eu pudesse argumentar. “Dessa forma não vai acordar por alguns dias, e quando acordar, não vai conseguir usar magia com facilidade.”
Aha, então é um pouco como o feitiço Lança Elemekia.
“Boa ideia, então!” fiz um sinal de positivo com o polegar.
Não sabia quantos Zanaffars estavam por aí no total, contudo esse era um a menos! Esperava que pudéssemos eliminar o resto da mesma forma, embora duvidasse que teríamos essa sorte. Ciclope devia estar observando toda a luta com seus drones, o que significava que nosso próximo movimento teria de ser...
“Estão vindo!” Gourry berrou antes que pudesse me decidir.
Segui seu olhar e avistei uma figura emergindo da névoa próxima. O som da infeliz queda do Centauro... Ou melhor, de sua trágica derrota em combate, digamos assim... Fez um de seus companheiros correr! Adoraria saudar o recém-chegado com um feitiço, no entanto o fato de magia não funcionar com esses caras me fez repensar meu plano infalível.
O que emergiu da névoa parecia uma armadura pesada ambulante. Seus braços eram grossos e sua cintura larga, com a cabeça quase toda submersa pela placa peitoral. Também estava totalmente coberta de espinhos. Não carregava escudo nem arma, entretanto se fosse fazer uma armadura para um ogro, é bem provável que seria assim.
Tinha que ser um Zanaffar, é óbvio. Era toda cinza, com quatro tentáculos saindo de suas costas, cada um terminando em um objeto semelhante a um rubi que eu só podia presumir servir como um disparador para seu sopro laser.
Este novo Zanaffar... Armadura Pesada... Parecia conseguir distinguir nossas silhuetas na névoa. Ele veio direto em nossa direção até que...
“O quê?” gritando em choque, Armadura Pesada parou de repente.
Não consegui ver o que havia chamado a atenção de seu usuário, todavia imaginei que fossem os restos da armadura de Centauro.
“Impossível! Cashdial foi...” seu choque ao ver seu camarada derrotado o deixou vulnerável!
“Nevoeiro Negro!” Zel lançou seu feitiço. Essa belezinha criava uma névoa negra suficiente para preencher um cômodo simples. Não tinha capacidade ofensiva direta e, embora costumasse se manifestasse ao redor de um alvo, Zel o havia invocado ao nosso lado.
A aparência da escuridão se aproximando quando Armadura Pesada já estava abalado foi, psicologicamente, bastante eficaz. Os ‘olhos’ da armadura se voltaram para aquela direção, e então a Armadura Pesada recuou com medo. Talvez esperasse um ataque de algo escondido na escuridão, entretanto aconteceu o contrário. Enquanto a Armadura Pesada estava distraída pela névoa negra, Gourry correu para contorná-la por trás! Quando se aproximou...
“Explosão da Vitória!”
Whoosh! A Armadura Pesada explodiu, e Gourry foi arremessado para trás junto com ela! Mais precisamente, pouco antes da explosão, Gourry saltou para trás em antecipação. Dois lasers atingiram seus pés quando aterrissou, forçando-o ainda mais para trás.
“Você está bem?” gritou Tessius, cujo Zanaffar de Chifres agora surgia da névoa. Ele devia ter visto Gourry avançando em direção à Armadura Pesada e atirou... Não em Gourry, mas na própria Armadura Pesada. Se tivesse mirado em Gourry, o grandalhão teria uma chance de escapar do ataque e continuar sua investida. Porém um ataque mágico centrado na Armadura Pesada não corria o risco de fogo amigo e fez Gourry pensar duas vezes antes de se aproximar demais. Uma estratégia inteligente, por mais que eu relutasse em admitir.
Contudo... Tessius acabara de lançar um feitiço de ataque. Então, me pergunto por que sua armadura de Chifres parecia não estar aberta.
“Estou bem! No entanto Cashdial foi derrotado!” relatou Armadura Pesada.
“Impossível! Um elfo do calibre de Cashdial? Usando seu Zanaffar?” exclamou Tessius, chocado.
O cara com a armadura de Centauro era aparentemente muito respeitado por seus camaradas. O que me fez parar para refletir sobre o que Zel havia dito antes. Talvez tivesse sido uma luta feia se tivéssemos nos enfrentado de frente.
“Eu... Vi!” disse o Ciclope Sagan, emergindo também da névoa. Sem dúvida tinha visto tudo acontecer através dos drones que Gourry ainda não havia destruído. “No momento em que os encontrou, eles usaram um trabalho em equipe indescritível. Mais rápido que um piscar de olhos...” sua voz tremia de medo.
Não diria que foi ‘trabalho em equipe indescritível’, e sim pura sorte, embora não tinha intenção de corrigir o cara. Se seus drones apenas transmitissem imagens, significava que não tinha ouvido o grunhido de incerteza de Gourry naquele momento. E sendo esse o caso...
“Fomos gentis com você até agora!”
Ataque quando eles estiverem abalados, esse é o meu lema! Então não perdi a oportunidade!
“Entretanto se não recuarem logo, não poderemos prometer mais misericórdia!”
Detalhes sobre intencionalidade à parte, o fato é que derrotamos Centauro sem perder um único membro do nosso grupo. Se os Cães da Floresta foram corajosos o suficiente para sair do esconderijo por causa de seus Zanaffars, ver um dos seus derrotado deve ter sido um golpe sério em seu moral.
De fato, minha ameaça causou um arrepio palpável em todo o grupo.
Todavia, de repente, Gourry saltou para a frente! Ele empurrou Alaina para o chão, rolando com ela, bem no momento em que um laser rasgou o lugar onde estava. Virei-me e vi uma silhueta cinza suspensa em uma árvore... O Zanaffar Aranha!
“Não vacilem!” gritou Lukoria, o elfo com a armadura de aranha. “Confiem nos meus Zanaffars! Eles podem ter um jeito de cortar a armadura, mas aposto que é só isso que têm! Seus feitiços continuam inúteis contra nós!”
Tch! Ele percebeu o blefe! Ainda assim, o que esse tal de Lukoria acabou de dizer sobre as armaduras de Zanaffars sugeria que ele mesmo as havia feito!
“Porém...” Lucida, a Zanaffar alada, pousou ao lado de Aranha.
Ela deve ter visto os outros se reunindo ali e vindo para o encontro. Um total de seis, o que, baseado no que Zel nos contou, significava que eram todos os Cães da Floresta. Também esperava que fossem todos os Zanaffars.
“Eles já derrotaram Cashdial! Nosso Cashdial!” Asas tagarelava em pânico.
“Mantenha a calma e lute!” Aranha berrou, tentando silenciá-la. “Apenas se alinhem e disparem uma parede sólida de sopro laser, e nós os mataremos facilmente!”
Droga! Isso seria bem difícil de desviar!
“E quanto as árvores?” Armadura Pesada argumentou.
Aranha o ignorou.
“O que você prefere, danificar parte da floresta agora ou entregá-la aos humanos e vê-los abusar dela?”
“...”
“Vamos fazer como falei!” ordenou Aranha.
“Marca de Dil!” conjurei assim que as palavras saíram da sua boca! Esse feitiço fez o chão entre nossos dois grupos inchar e se romper! Usei a nuvem de poeira criada para... “Corram!”
Com isso, nosso grupo partiu em disparada.
“Não os deixem escapar!” gritou Aranha atrás de nós. Senti uma malícia inescapável crescer atrás de mim... Uma saraivada de sopros laser! Usar minha Marca de Dil para criar uma cortina de fumaça antes que pudessem se posicionar impediu que mirassem com precisão, contudo, nesse ritmo, acabariam nos atingindo mais cedo ou mais tarde.
“Nevoeiro Negro!” Zel conjurou uma névoa negra atrás de nós para obscurecer ainda mais a visão deles. O feitiço tinha o poder de anular até mesmo a luz mágica, embora duvido que impedisse os sopros laser.
Nesse instante... Uma figura de branco apareceu na névoa à nossa frente!
“Aqua Kaleido!” enquanto a recém-chegada conjurava um feitiço, a paisagem ao nosso redor se distorceu por um breve instante e depois voltou ao normal. Um grito ecoou atrás de nós.
Uma parte de mim queria ver exatamente o que tinha acontecido, no entanto não conseguia desviar o olhar da cena à minha frente.
“Você está aqui?”
“Eu consegui!” Amelia Wil Tesla Saillune anunciou com uma pose elegante e um sorriso radiante.
Naquele momento eu vi.
A cidade de Atessa, inundada pelos sons da batalha vindos de fora de seus muros. Seu povo, entrincheirado em suas casas, tremendo de medo. Sabendo que estávamos lá fora lutando por eles, os soldados no terraço da pousada olhavam fixamente para a escaramuça invisível. Uma criada correu até eles e disse... “A princesa Amelia desapareceu de novo!” então, toda a equipe caiu de cara no chão.
Não pude deixar de sentir que algo parecido estava acontecendo naquele exato momento.
Depois de refletir sobre essa visão por um momento, voltei à realidade. Tinha percebido algumas nuances de quanto a princesa de Saillune havia amadurecido desde nossa última viagem juntas, no entanto parecia que seguia a mesma Amelia de sempre. Queria dar uma lição nessa garota sobre responsabilidade, só que realmente não era o momento.
Virei-me para ver o que havia acontecido atrás de nós. Espalhados pelo ar em uma área bastante ampla, havia fragmentos de azul, verde, branco e marrom que se moviam incessantemente. A melhor maneira de descrever seria como um caleidoscópio.
A razão pela qual a paisagem pareceu se distorcer ao nosso redor por um momento antes deve ter sido porque atravessamos o efeito. Acabou que não tive tempo de entender o fenômeno antes que tudo voltasse ao normal. Agora podia ver o que havia acontecido do outro lado...
O sopro laser do inimigo perfurou o Nevoeiro Negro de Zel, dispersando sua escuridão. E, além disso, os Cães da Floresta ficaram todos parados, olhando... Para o Zanaffar de Armadura Pesada com um buraco enorme no estômago.
“C-Como...?” sussurrou Asas, atordoada.
E como se suas palavras tivessem despertado... Thunk. O Zanaffar de Armadura Pesada caiu de joelhos e desabou.
“Londium!”
“Ei! Acorde!”
Os outros Cães gritaram por seu companheiro. Partes da armadura de Asas se abriram por um instante e se dobraram, transformando-se em uma cota de malha mais leve. Sua usuária, Lucida, correu até o Zanaffar de Armadura Pesada e começou a entoar um feitiço. Magia de cura não funcionaria em alguém todo envolto em um Zanaffar, entretanto dado o buraco no abdômen do Zanaffar de Armadura Pesada...
“O que está fazendo, Lucida? Não tire sua armadura!” Aranha a repreendeu.
“Temos que recuar!” sussurrou Ciclope, com os olhos cautelosamente fixos em nós.
“Não seja covarde!” Aranha rugiu de volta.
“Eles simplesmente refletiram nosso sopro laser!” Ciclope o repreendeu.
Espere...
“Você refletiu o sopro de laser?” sussurrei incrédula, lançando um olhar para Amelia.
“Na verdade, eu o refratei e difundi!” ela proclamou, ainda encarando os Cães da Floresta.
“Amelia... Você consegue usar um feitiço assim?” fiquei estupefata.
“Quando derrotamos aquele Zanaffar antes, pensei no risco potencial do método de criação ser descoberto! Então, depois que voltei para Saillune, colaborei com o conselho de feiticeiros para elaborar um feitiço para neutralizá-lo, caso acontecesse! É uma adaptação de um feitiço que controla o vento para criar ilusões, ao qual adicionei um pouco de magia da água para criar algo capaz de refratar e difundir o sopro laser!”
Ela elaborou um feitiço assim? Não pude deixar de ficar impressionada. Todavia algo me ocorreu. “Espere um minuto, Amelia. Como sabia que estávamos lutando contra os Zanaffars? Não contamos para ninguém na cidade...”
“Você disse que eles disparavam sopros lasers e eram imunes a feitiços de ataque! O que mais poderiam ser senão Zanaffars?”
Bem, a garota tinha razão! Amelia já havia lutado contra um Zanaffar conosco, então era lógico que seria capaz de identificá-lo pela descrição.
“E como tenho um feitiço que pode combater o sopro laser, sabia que tinha que ajudar! Não estava tentando refletir o ataque de volta para eles, porém parece que tive sorte com a refração e a difusão!”
Mais do que um pouco de sorte. Mesmo assim, para os Cães da Floresta, o fato de termos acabado de eliminar dois de seus Zanaffars com tanta facilidade deve ter sido um grande golpe para o moral. Também não vi nenhum sinal de reforços chegando enquanto nos preparávamos para a batalha, o que significa que eram todos eles.
“Temos que recuar, Tessius!” Ciclope o aconselhou outra vez. “Agimos cedo demais! Nesse ritmo, só vamos sofrer mais danos!”
Egoísta como sempre, pensei com desgosto. Vocês pegam seus brinquedinhos Zanaffar e ficam todos animados para atacar uma cidade. Aí, quando um dos seus é ferido, de repente a coisa toda passou dos limites e vocês querem parar? O que vocês são, crianças? Adoraria ter dito umas boas verdades para eles, contudo não era como se quisesse que se acalmassem e continuassem lutando, então decidi ficar calada.
“Não seja ridículo!” Aranha gritou. “Depois de tudo isto, espera que eu recue porque é muito arriscado? Esses malditos queimaram meu rosto! Violaram a floresta! Derrotaram Cashdial e Londium! E quer recuar? Nós podemos! E vamos continuar! Só precisamos dos Zanaffars que criei!”
“Mesmo sem o sopro laser?” Ciclope sussurrou amargamente.
“Lukoria...” disse Tessius em um tom de voz firme. “É hora de recuar.”
“Tudo bem!” respondeu Aranha, com a mesma firmeza. E então...
Armadura Pesada se sentou!
“O quê?” um arrepio percorreu o corpo de Ciclope.
“O q... O quê?” Tessius exclamou em pânico.
Lucida, que estava sentada ao lado de Armadura Pesada conjurando feitiços de cura, de repente viu sua armadura leve se transformar, abrir suas asas e envolvê-la. Então, enquanto gritava de surpresa, a armadura a cuspiu no chão. Ela se virou em choque e viu a armadura, agora sem mestre, assumir a forma do alado Zanaffar.
O que foi isso?
“Que assim seja. Lutarei sozinho!” declarou Aranha.
Foi nesse momento entendi tudo. Embora um tanto dissipada agora, a névoa branca ainda pairava na área ao nosso redor. Não tinha percebido a princípio por causa disso, no entanto agora podia ver que os incontáveis tentáculos que se estendiam de Aranha... Que parecia uma teia enquanto estava nas árvores... Haviam se lançado para agarrar Armadura Pesada, Ciclope, Chifres e Asas.
“O quê... Acha que está fazendo...?” Lucida falou trêmula.
Todos nós observamos enquanto os Zanaffars se juntavam, puxados pelos tentáculos de Aranha. Apenas a Armadura Pesada foi liberada, caindo no chão. Partes das outras quatro armaduras se abriram, permitindo que se unissem e se fundissem em uma única massa gigante. A mudança aconteceu tão de repente que Tessius e Sagan mal puderam fazer algo além de gritar de surpresa.
Uma vez que a fusão foi completa, a forma final... Não se assemelhava a nada em particular. Tinha quase a altura de uma casa de dois andares. Chifres e Ciclope estavam de costas um para o outro, com Aranha em pé sobre eles, formando uma espécie de cabeça retorcida. Algumas das pernas de Aranha estavam presas aos Zanaffars abaixo, enquanto outras se agitavam no ar. As asas haviam sido divididas em várias partes para plantar asas de vários tamanhos aqui e ali por toda a massa.
A armadura coletiva tinha as características de Aranha, Chifres, Ciclope e Asas, embora, no geral, era apenas uma abominação, sem qualquer lógica ou razão em sua forma.
“O que você fez?” Lucida gritou.
“Não é óbvio?” respondi. “O Aranha ali... Lukoria, não é? Assumiu o controle dos Zanaffars.”
O único motivo pelo qual havia se desfeito da Armadura Pesada era porque, independente do status do usuário, o próprio Zanaffar estava morto e, portanto, não podia ser integrado.
“Ele assumiu o controle deles? Pode fazer algo assim?” Lucida sussurrou incrédula.
Mas, para mim, a resposta era óbvia. Se Lukoria havia criado os Zanaffars...
“Ele construiu essa capacidade neles desde o início.” expliquei. “Para que pudesse sequestrar os outros se fosse necessário.”
Os tentáculos de Aranha não eram de fato feitos para se balançar pelas árvores, e sim para esse recurso de fusão.
“Isto é um absurdo!” gritou Lucida.
“‘Sequestro’? Calúnia.” disse Lukoria com desdém. “É um sistema de supressão que projetei para o caso de um Zanaffar perder o controle. Idealmente, eu teria dado a cada um a mesma função para que pudessem se controlar de forma mútua... Entretanto o usuário precisa entender a tecnologia para usá-la, então não a implementei nos demais.”
“E quanto a Tessius e Sagan? Eles estão bem?” perguntou Lucida.
Era uma pergunta justa. Os dois não tinham emitido um pio desde os gritos de surpresa iniciais quando suas armaduras foram arrancadas. Ou suas vozes não conseguiam penetrar a armadura, ou...
“Estão bem. Pare de se preocupar, Lucida, e cuide de Londium e Cashdial. Enquanto isso...”
Tive a sensação de que os olhos daquele amontoado disforme, onde quer que estivessem, tinham acabado de se voltar para nós. Sentimos a malícia emanando da nova armadura da Abominação e nos preparamos para a luta.
“Vou detê-los!” declarou Amelia, entoando em seguida um cântico.
Nesse instante, uma imagem residual cinza cruzou o ar! Amelia, Zel, Alaina e eu saltamos em direções diferentes, enquanto Gourry permaneceu firme e desferiu um golpe com sua espada. As asas espalhadas pelo corpo da Abominação se transformaram num piscar de olhos, tornando-se lanças cinzentas que dispararam direto contra nós. Gourry as cortou, deixando apenas as pontas das lanças cravadas no chão próximo!
“Oho!” a alegria transbordava na voz de Lukoria. “Essa espada é a chave, hein?”
Droga! Senti uma pontada de arrependimento. Os restos mortais do Centauro haviam revelado que tínhamos uma arma capaz de cortar a armadura Zanaffar. O objetivo do ataque da Abominação era descobrir qual era essa arma.
Enquanto Lukoria falava, Gourry avançou em grande velocidade, determinado a atacar o quanto antes. A parte circular da Abominação ergueu ambas as mãos... As aberturas de onde disparava seus sopros lasers. E então...
“Aqua Kaleido!” Amelia lançou seu feitiço de refração ao redor dos apêndices estendidos. Não havia como Lukoria arriscar disparar assim!
Gourry se aproximou e, quando o fez... A armadura Abominação saltou! Com uma leveza e agilidade que contradiziam sua forma arredondada e disforme, ela saltou por cima de Gourry, facilmente fora do alcance da espada, e atacou com seus tentáculos. Estes se agarraram às árvores próximas, permitindo que a massa acelerasse ainda mais e ajustasse sua postura no ar. Estava indo em direção a Alaina!
Enquanto Alaina apenas permanecia parada, lenta para reagir à investida inesperada da armadura...
“Dug Haute!” Zel conjurou espirais de terra que atingiram a Abominação voadora. Alaina usou a perturbação para ganhar alguma distância.
Embora Abominação devesse ter sido desviada de sua rota, a massa de armaduras pousou com facilidade. O gigante desajeitado, que na verdade deveria ter precisado de um momento para se orientar, começou a perseguir Alaina outra vez.
Então suas principais prioridades são a espada que pode cortá-lo e sua companheira elfa, enquanto nós, humanos, ficamos em terceiro plano? Por outro lado, da primeira vez que nos encontramos, Alaina foi quem destruiu a bola de fogo de Aranha e deu uma boa surra em Lukoria, então talvez o cara estivesse guardando rancor.
Porém bem antes que Abominação pudesse esmagar Alaina sob seus pés... Ela desapareceu de vista!
Um feitiço? Não... Ela havia enrolado seu chicote em uma árvore próxima, acelerando em uma direção totalmente nova. Abominação parou quando perdeu a perdeu de vista, e então...
“Aríete de Terra!” Alaina conjurou um aríete de terra para lançar Abominação pelos ares!
Sendo mais específica, nunca chegou a atingir o corpo principal de Abominação. Os braços e pernas de Ciclope, Chifres e Aranha se moveram para bloquear o aríete que atacava, e Abominação voou para trás pelo ar para mitigar o impacto. Os reflexos envolvidos eram quase absurdos... Nível Gourry, ou talvez até maiores, e eu duvidava que esses reflexos fossem de Lukoria.
Assim como os humanos, os elfos costumavam ter apenas dois braços e duas pernas. Não havia como o cérebro de Lukoria controlar Abominação, que tinha o dobro desse número, além de tentáculos aracnídeos e múltiplas asas. O mesmo valia para sua armadura aracnídea com múltiplas pernas e tentáculos antes da transformação, o que me indicava que Lukoria deixava os controles mais precisos da armadura para Zanaffar enquanto apenas dava ordens. Isso significava que, se conseguíssemos fazer Lukoria hesitar, poderíamos abrir uma brecha... Contudo os reflexos incríveis e as habilidades atléticas de Zanaffar não tornariam fácil a tarefa.
Enquanto Abominação ainda estava no ar, a parte que antes era a armadura do Ciclope se abriu e disparou vários projéteis. Uma chuva de balas cinzentas, do tamanho de pássaros canoros, voou em direção a Alaina. Mais drones que o Ciclope enviou na névoa para nos localizar? Eu havia presumido que essas coisas eram para vigilância e monitoramento, no entanto como extensões de um Zanaffar, deviam ser bastante resistentes por si só. Um golpe de um deles seria como ser atingido por uma pedra. Além do mais, Amelia não podia bloqueá-los com um feitiço como fazia com o sopro laser, e nossa magia seguia sendo inútil contra eles. Sendo assim...
“Vu Vrima!”
Coloquei minha mão no chão e conjurei um feitiço diferente!
Abominação, após pousar, pareceu estar em guarda enquanto recuava rapidamente. Então, em resposta às minhas palavras de poder, o chão entre Alaina e o enxame de drones que se aproximava inchou. Os drones entraram na nuvem de poeira ascendente, que os absorveu, agitou-se e assumiu uma forma humanoide gigante, grande o suficiente para rivalizar com Abominação!
Em outras palavras, criei um golem. Este obedecia a comandos simples e era robusto, entretanto não era muito rápido. Claro, não tinha chance contra Abominação, mas...
“Golem!” apontei na direção oposta a Atessa e dei minha ordem. “Velocidade máxima à frente, por ali!”
O golem respondeu com um rangido terroso e fez o que lhe foi ordenado. E embora não fosse rápido, era pelo menos um pouco mais rápido do que um humano normal correndo. Eis minha técnica secreta: o ataque relâmpago aos drones! Abominação teria que destruir o golem para recuperá-los, e o feitiço de Amelia bloquearia qualquer tentativa de usar seu sopro laser. Isso significava que teria que se aproximar para fazer o trabalho, ficando vulnerável a um ataque pelas costas! Esse era o meu plano para pegá-lo, todavia...
“Bam Plosion.”
Fwoom! Após o encantamento, um feitiço de ataque atingiu o golem!
Será que era...
“Tessius?” Lucida, que estava cuidando de seu companheiro, identificou a origem da voz.
Para mim também parecia ser Tessius, porém como era possível? Ele não deveria ser capaz de usar magia de dentro da armadura Zanaffar... A menos que estivesse aberta. Exceto que, mais cedo, quando Gourry tentou cortar a Armadura Pesada e Tessius usou um feitiço de ataque para repelir Gourry, fez aquilo enquanto sua armadura parecia fechada. Só consegui concluir que a abertura de Chifres foi projetada para ser difícil de perceber.
Agora, deixando a logística mágica de lado... Tessius insistiu em recuar mais cedo. Será que estava mesmo cooperando de repente com Lukoria, que o ignorou e o sugou para dentro do mega Zanaffar contra a sua vontade? Ou... Lukoria estava controlando Tessius através do Zanaffar, forçando-o a entoar feitiços? De qualquer forma, daqui pra frente teríamos que incluir feitiços surpresa em nossos planos de batalha.
Meu golem destruído caiu no chão em pedaços. Os drones espiões, armazenados por um momento em seu interior, voaram para fora e retomaram seu ataque contra Alaina. Contudo, a essa altura, Gourry já estava de volta à luta e desembainhou a espada! Houve um clarão, depois um segundo, um terceiro, um quarto... A cada golpe de sua lâmina, um drone caía no chão, partido ao meio.
Em resposta, a certa distância, Abominação ergueu as mãos e assumiu uma postura. Será que usaria seu sopro laser apesar dos riscos?
Amelia começou a entoar seu feitiço... Ela estava prestes a ativá-lo, no entanto hesitou.
Claro. Isto é...
“Desviem!” gritei.
Gourry e Alaina saltaram para o lado, mal conseguindo escapar da torrente de drones. Vendo aquilo, Abominação abaixou a mão e relaxou a postura.
Droga, isso é complicado. Abominação estava ameaçando um ataque duplo com seu sopro laser e drones. Se Amelia não usasse seu feitiço de refração para se defender, teríamos que desviar do sopro laser. Entretanto se o usasse, Gourry ficaria cego para a trajetória dos drones que se aproximavam.
Abominação recolheu o enxame de drones para preparar o mesmo ataque outra vez, quando...
“Vigas Gaia!” Zel lançou um feitiço que causou tremores no chão. Não feriria a armadura gigante, todavia o desestabilizaria. Graças a essa abertura, escapamos de outro ataque duplo de drone e laser, embora quanto mais tempo essa luta durasse, pior seria para nós. Portanto...
“Pessoal! Vamos recuar por enquanto!” gritei, e todos... Com Amelia logo atrás, saíram correndo. Mas não em direção à cidade.
“Você acha que pode escapar de mim?” Abominação uivou. Então, bem na sua frente...
“Aqua Kaleido!”
O feitiço de refração de Amelia se condensou! A maneira mais rápida de sair era simplesmente atravessá-lo, porém Abominação parecia preocupado com a possibilidade de uma emboscada esperando do outro lado da distorção, então hesitou e deu a volta.
Alaina assumiu a liderança enquanto entoava.
“Foggul!”
Mais névoa extintora de chamas rodopiava ao nosso redor.
Imediatamente depois veio a voz de Tessius.
“Explosão de Ar!”
Whoom! Houve uma explosão repentina no ar. A onda de choque que produziu passou por cima de nós, apesar de que não doeu. Aquele feitiço não era tanto um ataque, e sim uma tentativa de limpar o ar e nos encontrar. Como consequência, diluiu a névoa, embora não o suficiente para desobstruir por completo nossa visão.
Nosso inimigo estava em alerta máximo para os ataques de Gourry através da névoa, contudo não podia se dar ao luxo de nos perder de vista. Afinal, Abominação... Ou melhor, Aranha Lukoria... Havia se fundido à força com Ciclope, Chifres e Asas. Não poderia permanecer ativo por muito tempo assim, e com certeza precisaria comer ou defecar em algum momento. Teria que tirar a armadura em algum momento. Uma vez que o fizesse e Tessius e Sagan fossem libertados, a única desculpa remotamente aceitável para seu comportamento seria se tivesse conseguido nos eliminar antes disso. Se tudo o que tivesse a dizer fosse ‘Hehe, eles escaparam! Desculpe...’... Seus amigos colocariam sua cabeça numa bandeja.
Por outro lado, a vitória para nós significava mais do que apenas nos livrar de Lukoria. Se o abandonássemos, ele se sentiria compelido a atacar Atessa para que tudo valesse a pena. Em outras palavras, tínhamos que derrotá-lo.
Meu chamado de retirada anterior tinha sido, na verdade, o sinal para colocar em prática uma pequena estratégia que havíamos combinado com antecedência. Eu a discuti com todos, exceto com Amelia, que não estava conosco quando a elaboramos, mas ela pareceu sacar mesmo assim.
Os ataques em enxame dos drones do Ciclope cessaram. Nosso oponente estava concentrado em nos rastrear para nos manter em seu radar. Continuamos correndo, as vezes disparando uma rajada para trás ou renovando o feitiço de cortina de fumaça. E então...
“Pessoal! Escutem!” comecei a explicar o plano em voz baixa o suficiente para que nosso perseguidor, Lukoria, não pudesse ouvir.
———
Atessa, a cidade dos ferreiros, era abastecida pela Floresta de Celcelas, porém seu povo há muito tempo seguia um pacto de plantar uma nova árvore para cada uma que cortassem. Quem ignorasse o acordo tinha que pagar uma multa. Contudo onde há regras, sempre há quem as quebre.
Não sabia a história exata por trás, no entanto escondida a certa distância da cidade, havia uma área onde as árvores tinham sido colhidas sem serem replantadas, resultando em uma clareira ampla.
Foi para lá que atraímos a Abominação.
Tivemos que correr bastante para chegar lá, todavia graças à névoa umectante que Alaina lançou várias vezes para nos cobrir, conseguimos nos manter camuflados o tempo todo. Abominação lançou alguns feitiços de ataque no caminho, entretanto talvez graças à densa cobertura de árvores, tivemos a sorte de evitar qualquer impacto direto. Gourry também golpeou com sua espada aqui e ali, talvez respondendo a drones ou ataques astrais.
“Alaina!”
Devolvendo um pequeno aceno em resposta ao meu sinal, Alaina arremessou uma faca com um topázio no cabo. Esta cravou-se fundo em um toco podre próximo. Ela acenou de novo com a cabeça... E estávamos prontos para partir!
“Zel! Amelia!”
Ao meu chamado, meus antigos companheiros de viagem começaram a entoar o cântico conforme o plano que havíamos combinado.
Então, nosso grupo se dividiu em quatro direções. Quando nos separamos... Abominação apareceu, atravessando a névoa ao nosso redor!
Naquele instante, Zel e Amelia lançaram seus feitiços!
“Flecha Congelante!”
Quase cem flechas gélidas voaram em direção a Abominação! Seu imenso corpo desviou para o lado com uma velocidade inimaginável, mas a saraivada era grande e densa demais para escapar de todos os projéteis. Cerca de uma dúzia das flechas o atingiu em cheio, e essas belezinhas eram projetadas para congelar tudo o que atingissem! Elas envolviam tudo o que atingiam com uma fina camada de gelo que causava queimaduras de frio e dificultava os movimentos. O problema era que estávamos lidando com um Zanaffar. O pior que poderiam fazer era causar um arrepio... Porém o contra problema era que era tudo o que precisávamos agora!
Afastando-me um pouco do nosso oponente, conjurei.
“Visão Frang!”
Bwoosh! Respondendo às minhas palavras de poder, uma névoa densa se expandiu tão rápido que era possível ouvi-la. Aquilo era diferente do feitiço de extinção que Alaina usou, pois apenas invocava uma névoa sem nenhuma propriedade especial.
“Uma cortina de fumaça?” Lukoria sibilou e então...
“Algwin.”
Vwoosh! A voz de Tessius trovejou e um vento poderoso surgiu. Mal consegui me manter de pé para não ser levada pelo vento.
A rajada provavelmente serviu para dissipar a névoa e melhorar a visibilidade. Como planejado, a névoa diminuiu, contudo a névoa branca de Alaina permaneceu. Ela então lançou um feitiço como uma tempestade de inverno.
“Nevasca de Cristal!”
Zel seguiu o exemplo, mirando outra vez em Abominação.
“Flecha Congelante!”
“Vocês acham mesmo que podem me congelar?” a voz zombeteira de Lukoria ecoou. “Ou acham que pode congelar a pessoa dentro da armadura? Vão em frente e tentem!”
Vwoosh! Outra rajada de vento purificadora soprou, e conjurei mais névoa para compensar.
“Basta!” Abominação uivou enquanto Amelia o atingia com ainda mais magia gélida. “Por que... Vocês...” a voz monótona de Tessius entoou. “Valtrain!” e um clarão de luz surgiu, permeando por um instante o mundo nebuloso ao nosso redor.
Será que isso... É um feitiço de relâmpago indiscriminado em área? Dezenas de tentáculos de eletricidade percorreram a névoa, queimando o chão como que vindos do céu. Por sorte, escapei de ser atingida, apesar de estar no enorme alcance do feitiço, no entanto dada a sua ferocidade, era otimista demais pensar que o resto do meu grupo tivesse tido a mesma sorte! Queria ter certeza de que todos estavam bem, entretanto...
Ainda que tivesse diminuído a velocidade, seguia podendo ver Abominação se movendo pela névoa.
“Maldita névoa infernal...” Lukoria praguejou, e isso me disse que era hora do show.
“Zel! Amelia! Agora!” gritei.
“Vu Vrima!” os dois entoaram em uníssono.
Instantaneamente, brotos de terra desabrocharam ao nosso redor. O chão ao redor de Abominação se abriu. Este era o mesmo feitiço de criação de golens que utilizei antes. Zel e Amelia haviam invocado golens de cada lado de Abominação, engolindo-o à medida que tomavam forma.
“Mas o que é essa coisa?”
O motivo do choque de Lukoria era óbvio: os golens que surgiam do chão eram enormes! Abominação podia ter escapado sem dificuldade do golem que invoquei antes, todavia estes eram quase o dobro do seu tamanho. A terra agitada agarrou as pernas e a cintura de Abominação enquanto continuava a inchar para cima.
É provável que Lukoria não tenha percebido, porém estávamos dentro do gigantesco círculo de amplificação mágica que Alaina havia criado.
Para ser mais exata, alguns dias antes, havíamos secretamente montado alguns círculos mágicos incompletos perto da cidade. O toque final? O topázio na faca que Alaina havia jogado antes. O círculo em que estávamos agora era tão grande quanto alguns quarteirões da cidade, e essas gracinhas amplificavam a magia em proporção direta ao seu tamanho.
Se Lukoria não tivesse sido separado do plano astral por seu Zanaffar, teria sido capaz de ‘ver’ o círculo. Talvez também potencializaram o feitiço de relâmpago de Tessius, embora mesmo que Tessius tivesse ‘visto’ o círculo quando abriu a armadura para conjurar, provavelmente não tinha os meios para comunicar isso enquanto estava sendo controlado.
E depois de tudo, o próximo movimento de Lukoria foi...
“Não me subestimem!” ele soltou um uivo e disparou vários feixes de luz contra os golens que seguiam tomando forma.
Sopro laser! Os golens incompletos sofreram danos o suficiente para interromper sua formação. Contudo então...
“Caixão Noturno!”
O feitiço de gelo de Alaina atingiu os golens que haviam envolvido Abominação como uma grande flor de terra. A umidade do solo congelou, prendendo Abominação em uma gaiola resistente!
“Gourry! Alaina!” chamei.
“Certo!”
“Bem aqui!”
Ambas as respostas vieram de perto.
Então, afinal, todos estão a salvo! Lukoria não teve nenhum sucesso na sua empreitada com aqueles raios. Ou talvez Tessius tenha resistido um pouco, reduzindo a precisão deles.
Nós três nos reunimos. Alaina pegou a mão de Gourry com a direita e a minha com a esquerda.
“Lei Asa!”
Lei Asa era um feitiço de voo em alta velocidade que eu mesma usava bastante. Era difícil de controlar e fácil de atingir o limite de peso, no entanto com o poder mágico élfico e o campo de amplificação, Alaina podia nos carregar sem grandes dificuldades! De cima, podíamos ver Ciclope e Chifres enterrados até o pescoço nos golens semi-formados, fazendo Abominação parecer uma aranha presa no fundo de uma cratera. Conforme nos aproximávamos da tal aranha, comecei meu encantamento!
Lâmina forjada do vazio negro congelante,
Seja libertada sob o selo do céu...
Estava trabalhando em um feitiço que conjurava uma lâmina de escuridão... Uma que eu não conseguia usar sem a amplificação mágica proporcionada pelo círculo de Alaina. Era poderosa sem dúvida, apesar de também drenar meu poder mágico de forma absurda. Imaginei que conseguiria conjurá-la ali, entretanto não tinha ideia de quanto tempo conseguiria mantê-la ativa depois de invocá-la.
Abominação percebeu nossa aproximação e virou sua única perna livre em minha direção...
“Mantenha-se em frente!” gritou Gourry. Alaina continuou avançando sem se preocupar em desviar! O sopro laser que Abominação disparou de sua perna apenas roçou a barreira de vento ao nosso redor!
Muito bem! Como eu esperava, ele não consegue nos enxergar muito bem agora! Tínhamos bombardeado o Zanaffar com ataques congelantes, sabendo que, mesmo que não o danificassem, reduziriam bastante sua temperatura superficial. Nos movimentarmos pela névoa daquela forma fez com que a condensação se espalhasse pela armadura... Inclusive na superfície dos olhos de Aranha. Lukoria só percebeu a névoa ficando mais densa, e sua visão comprometida reduziu sua precisão.
A perna aracnídea se moveu, mirando de novo...
“Solte-o!” ao meu comando, Alaina empurrou Gourry para fora da barreira de vento!
Nós duas recuamos um pouco para equilibrar.
Uma rajada de sopro laser queimou o ar entre nós e Gourry! Ele continuou a despencar, aterrissando em cima de um dos golens congelados e semi-formados. Então, saiu correndo!
Nesse meio tempo, eu também soltei a mão de Alaina e aterrissei no segundo golem que flanqueava Abominação. Corri em direção à parte aranha, entoando meu feitiço.
Torne-se minha, torne-se parte de mim...
Causemos destruição como um...
Esmague até mesmo as almas dos deuses...
Abominação parecia estar se preparando para atacar Gourry. Seus tentáculos se contorceram e suas asas mudaram de forma, transformando-se em chicotes e lâminas que açoitaram o espadachim loiro. E se isto não fosse desafio suficiente, o terreno que tentava cobrir tinha o formato de um forno de argamassa gigante, um aspirante a golem congelado em uma forma aleatória. Atravessá-lo devia ser como correr em uma encosta de montanha desconhecida...
Apesar da situação precária, Gourry disparou em direção a Aranha com a mesma facilidade com que saltaria por um campo vazio! Se acertasse esse golpe, tudo estaria acabado! Sua lâmina cortou os chicotes de tentáculos e as lanças de asas, e então... Um drone voando de trás de uma asa cortada investiu na sua direção!
“Geh!”
Gourry mal conseguiu cortar o drone com o golpe de recuo, entretanto o impulso da investida o manteve em movimento e... Crash! Os restos atingiram Gourry bem no peitoral!
“O quê?”
Empurrado para trás em terreno instável, Gourry perdeu o equilíbrio e se viu caindo do forno-golem! Enquanto isso acontecia, Abominação virou suas asas em minha direção para outro ataque!
Droga... Esperava que Lukoria me descartasse como uma mera feiticeira humana ou algo assim, mas pelo jeito era pedir demais!
Enquanto avançava, obviamente, também estava em guarda. Não tinha certeza se era ágil o suficiente para desviar dos ataques das asas neste terreno instável. Bem... É tudo ou nada!
“Lâmina Ragna!”
Pronunciei as palavras de poder, e uma lâmina escura do comprimento de uma espada curta apareceu em minhas mãos. Consegui conjurar o feitiço, contudo percebi que estava drenando minha magia muito rápido.
O feitiço Lâmina Ragna tomava emprestado o poder do Senhor dos Pesadelos, mencionado na lendária Bíblia Claire. Estava empregando a versão imperfeita no momento. A versão verdadeira era muito mais poderosa, no entanto não aumentava o alcance da arma e consumia minha magia e vigor muito mais rápido. Então, como estou mais preocupada com a duração do que com a força agora, a versão imperfeita estava ótima para mim!
Com um único golpe desta lâmina de escuridão sem peso, cortei uma asa transformada ao meio. Todavia, ao fazê-lo, instantaneamente atrai toda a atenção de Abominação. Mais asas e tentáculos transformados chicotearam em minha direção, e a perna livre de Aranha se virou para me atacar!
Porcaria!
Mas, nesse instante, Gourry apareceu voando! Levei um segundo para perceber que Alaina havia segurado o cabeça-dura em queda com seu feitiço de voo em alta velocidade e o impulsionado. Abominação hesitou apenas por um momento, porém foi tudo o que meu homem precisava! A mão direita de Gourry cortou o ar!
Será que Lukoria percebeu que Gourry havia arremessado a sua espada? Independentemente de ter percebido ou não, os reflexos de Zanaffar responderam e a armadura assumiu uma postura defensiva com suas pernas, asas e tentáculos.
Embora nada disso importou. O círculo mágico de Alaina amplificou todo o poder mágico dentro dele, o que, por sua vez, aumentou a afiação da Espada Explosiva...
Sem um som, a lâmina perfurou pernas, asas e tentáculos antes de mergulhar direto no núcleo de Aranha, até o cabo.
Silenciosamente, muito silenciosamente, Abominação parou. As pernas de Aranha cederam, depois ficaram moles, caindo no chão. Lukoria já deve ter morrido antes mesmo de perceber o que havia acontecido.
Gourry recuperou sem esforço a espada enterrada fundo na armadura. As pernas da armadura tremeram um pouco. Será que algum dos Zanaffars seguia se mexendo?
Gourry e eu nos preparamos para a luta, contudo...
“Lukoria?” a voz veio de Ciclope. Aranha deve ter perdido o seu controle, permitindo que Sagan voltasse a falar. Ele não parecia muito consciente do que havia acontecido.
“Ele se foi!” disse Gourry.
Após um breve silêncio...
“Entendo...” sussurrou Sagan, parecendo intuir seu significado.
“Você ainda quer lutar?” perguntou Gourry, com leveza.
“Não!” respondeu Sagan, em voz baixa. “Perdemos. Vamos entregar os Zanaffars.”
E assim a luta chegou ao fim.
———
A luz havia se apagado nos olhos de Tessius. Ele estava vivo, todavia já não respondia a nenhum dos nossos chamados.
Após a confissão de derrota de Sagan, destruímos os Zanaffars Asas e quebramos a terra congelada que aprisionava Abominação... Ou melhor, que aprisionava Ciclope e Chifres. Assim que Ciclope foi libertado, Sagan removeu seu Zanaffar. Foi a primeira vez que o vi de perto sem sua armadura, e parecia ser, em termos humanos, um homem bonito na casa dos trinta, de altura mediana. Talvez até um pouco musculoso para os padrões dos elfos.
Mas Chifres permaneceu completamente imóvel depois que o libertamos de Abominação. Sagan chamou Tessius, que estava lá dentro, porém, sem obter resposta, e teve de libertar seu camarada do seu Zanaffar. Mesmo depois de ser libertado, Tessius continuou sem reação.
“Por quê?” Sagan sussurrou.
“Tessius estava conjurando feitiços durante nossa luta. Se o Zanaffar o estava forçando a fazer isso, pode ter tido algum efeito em sua mente. É apenas especulação, claro, no entanto...” respondi
“Droga.” Sagan praguejou. “Por quê? Como isto pôde acontecer? Estávamos apenas tentando proteger a floresta.”
“Sabe...” falei cansada, antes de soltar um suspiro. “Você realmente não faz ideia de como chegaram nesse ponto? É porque sua maneira de lidar com toda a situação estava equivocada.”
“O quê?”
“Proteger a floresta? Objetivo nobre. Então, para alcançá-lo, vocês conseguem essas armas poderosas conhecidas como Zanaffars e atacam um assentamento humano na floresta. Depois, quando os humanos ameaçam queimar a floresta em retaliação, decidem continuar lutando na floresta para matá-los. Logo, um de vocês decide sacrificar alguns de seus próprios companheiros para que possam continuar lutando na floresta. Que diabos pensavam que estavam protegendo? Não era a floresta, e com certeza não eram seus aliados. Na verdade, diria que erraram em tudo. Por que estavam protegendo a floresta, afinal?”
Sagan respondeu hesitante.
“Os elfos têm uma ligação especial com a floresta...”
“E os humanos nunca vão entender, certo? Não é o que quero dizer. Os seres vivos são fundamentalmente simples. Elfo, humano ou animal, todos nós estamos apenas tentando encontrar o máximo de felicidade possível. Desse ponto de vista, seu manifesto sobre proteger a floresta se resume a ‘Não estou feliz em ver pessoas destruindo a floresta. Quero impedi-los para que eu possa ser feliz novamente.’ Em outras palavras, tudo era um meio para um fim. Entretanto qual era o preço? Até onde teria que ir para conseguir o que queria? E de fato conseguiria? Não pensou em nada, então acabou no caminho para um futuro onde não havia vitória. Mesmo se tivesse nos derrotado, não teria terminado feliz. É o que penso.” declarei.
Sagan ficou em silêncio por um tempo.
“Então, o que deveríamos fazer?” ele enfim perguntou em resposta.
“Como vou saber?”
“Isso foi rápido!” Alaina interrompeu por algum motivo (ainda falando através dos Discos de Regulus).
“Bem, o que esperava? Ninguém pode te dizer o que vai te fazer feliz ou como deve chegar lá. Tem que se perguntar o que é importante para você e, então, continuar pensando em como viver sua vida da melhor maneira possível sem perder esse objetivo de vista. Não existe uma resposta definitiva. É tudo o que qualquer um de nós pode fazer. Embora, claro, seja mais fácil falar do que fazer.”
Não tenho certeza se Sagan aceitou minhas palavras ou não, todavia ele apenas suspirou e ficou em silêncio. Parecia se arrepender do que tinha feito, mas não tinha certeza se sentia algum remorso. De qualquer forma, precisava fazer os Cães pagarem Atessa por tudo o que tinham feito.
Porém naquele momento...
“Parede Rachada!”
Sentimos uma presença, ouvimos uma voz e recuamos num salto!
Krakabwoobwoobwoosh! Em seguida, uma série de pequenas explosões. Toda a área se encheu de fumaça densa.
“Sagan! Vamos recuar!” a voz que gritou pertencia à elfa que usava a armadura Asas, Lucida! Seu feitiço parecia nada mais do que uma distração barulhenta e uma cortina de fumaça, porém nos impediu de nos orientarmos.
Sagan já havia se rendido, então não tinha certeza se ele lutaria se o perseguíssemos. Contudo Lucida, que não sabia o que tinha acabado de acontecer, era outra história.
Preparei um feitiço.
“Vento de Diem!”
No entanto quando lancei minha rajada mágica, Sagan e Tessius já tinham ido embora. Tudo o que deixaram para trás foram duas armaduras leves, Ciclope e Chifres, como se dissessem que estavam desistindo delas. Sem dizer uma palavra, Gourry caminhou até as duas, brandiu sua espada... E assim, o último dos Zanaffars foi destruído.
“Devemos perseguir os Cães?” perguntou Zel.
“Não.” respondeu Alaina. “Vou assumir daqui. Seria difícil para humanos perseguirem elfos tentando fugir pela floresta. Voltarei para nossa vila, explicarei as coisas lá e organizarei uma força de busca. Vou garantir que eles paguem por seus crimes contra Atessa. Embora, deixando esse assunto de lado...” seu olhar percorreu ao redor, interrogativa, e então se virou para mim. “Há... Outro de vocês aqui?”
Essa foi uma pergunta estranha, e ainda assim...
“Sim, há.” a resposta imediata veio de Gourry, de todas as pessoas. Eu, Zel e Amelia nos viramos para ele, intrigados, enquanto este gritava. “Você está aí, não é? É melhor se mostrar, Xellos!”
“Erk!” todos nós gritamos em choque.
“Oh, vocês me notaram?”
Ouvi sua voz quando uma presença surgiu de repente atrás de mim.
Dei um pulo, virando-me em resposta a súbita aparição.
“Xellos?”
Cabelos e vestes negras. Uma expressão serena pontuada por um sorriso radiante. À primeira vista, parecia um sacerdote tranquilo típico... Todavia um sacerdote tranquilo típico não aparece do nada assim.
“Você esteve aqui o tempo todo?” perguntei.
“Sim. O tempo todo!” respondeu ele com desdém.
Alaina caiu no chão.
“Lina! L-L-Lina! Aquele homem...” disse ela com a voz rouca, tremendo.
“Er...” hesitei por um momento, então decidi ser honesta. “Sim, ele é um mazoku conhecido nosso.”
“O quê?” a voz de Alaina falhou.
Para ser justa, entrar em pânico era uma reação normal. Tínhamos conhecido Xellos durante o incidente anterior com os Zanaffar e este esteve viajando conosco por um tempo, entretanto, apesar das aparências, era um mazoku de altíssima patente. Durante a Guerra das Encarnações, mil anos atrás, dizia-se que Xellos, Sacerdote da Grande Besta Zellas Metallium, havia destruído sozinho um exército inteiro de dragões. Se Alaina conseguia ‘ver’ a verdadeira forma astral de Xellos, podia entender perfeitamente seu pânico.
Mas Xellos sorriu para Alaina e disse.
“Não precisa se preocupar. Não tenho intenção de causar problemas.”
“Eek!” Alaina recuou correndo e se encolheu atrás das minhas pernas. “Um estranho falou comigo...”
Espera, é só ansiedade social? Eu presumi que estivesse com medo porque Xellos era um mazoku de alta patente, porém... Claro que era só isso.
“Suponho que esteja aqui por causa dos Zanaffar, certo?” perguntou Zelgadis.
“Dedução brilhante!” confirmou Xellos com um aceno de cabeça. “Como já deve saber, minha ordem permanente é destruir os manuscritos da Bíblia Claire... Embora parece que o conhecimento vazado do último conseguiu chegar aos Cães da Floresta. Fiquei bastante perdido. Vários elfos controlando Zanaffars... Como achei que seria muito problemático lidar com tudo sozinho... Deveria fazer umas horas extras para cuidar desse assunto pessoalmente, ou fingir que nunca vi nada e aceitar a bronca depois? Enquanto ponderava essas duas opções, um grupo de rostos familiares apareceu, então pensei, por que não aproveitar a situação? Apesar de que tenha ajudado vocês em segredo uma ou duas vezes.”
Bem, admita logo que você se aproveitou de nós, por que não?
“Sua ética de trabalho deixa muito a desejar, sabia?” murmurei com um vago desgosto.
Xellos ergueu um dedo em tom de repreensão.
“Prefiro dizer que sou eficiente e lógico. Ou talvez...” seu olhar se voltou para Amelia. “Como a senhorita Amelia diria, me levantei para salvar meus antigos aliados em sua hora de necessidade!”
Em resposta a esse comentário sarcástico, Amelia exclamou.
“Oh, que emocionante!” com os olhos brilhando, ela cerrou os punhos com entusiasmo. “Você não pôde deixar de ajudar os amigos em perigo com quem lutou um dia! Apesar de seus protestos em contrário, seu coração de fato arde de justiça! Portanto, para ajudar seus antigos aliados, transcendeu sua natureza de mazoku e...”
“Por favor, não, retiro tudo o que disse! Estou sendo irônico aqui!” Xellos vociferou, gesticulando apressadamente. Mais uma vez, ele subestimou o zelo de Amelia por tudo que é justo. “M-Mas estou impressionado por ter me notado, Mestre Gourry.”
Ah, a boa e velha estratégia de mudar de assunto...
“Bem, sabe como é...” disse Gourry, coçando a cabeça. “Enquanto eu lutava, aquela coisa que puxava minha espada... Como é que chama mesmo? O plano axtrau? Aquelas coisas de ataque sumiram aleatoriamente algumas vezes. Não conheço muitos caras que conseguiriam fazer algo assim.”
“Isso explica tudo!” comentei, enfim entendendo. “Estive pensando que nossa sorte estava sendo boa demais pra ser verdade. Então você esteve ajudando nos bastidores, hein? Teve a anulação de ataques astrais que o Gourry mencionou, a sorte que tivemos quando o Centauro atacou, o jeito que o feitiço de refração da Amelia ricocheteou direto na Armadura Pesada, o fato daquele feitiço de relâmpago massivo ter conseguido errar todos nós...”
Ao ouvir minha especulação, Xellos coçou a bochecha sem jeito.
“Bem... Estive envolvido na maior parte do que disse, porém não no incidente com o Centauro. Aquilo foi pura sorte.”
“Então foi só um acidente...”
“Com certeza foi, não foi?”
“Bem, essas coisas acontecem, acho.”
“Espero que quem estava lá dentro tenha uma vida longa depois daquilo! Apesar de que não o vi, então não faço ideia!”
“Que absurdo... Er, ahem!”
Comentários constrangidos vieram de todos os presentes.
“Bem, estou feliz que todos os Zanaffars foram destruídos e que a pessoa com o conhecimento do manuscrito está morta. E vocês devem estar felizes por ter eliminado a ameaça à cidade. É bom para todos, não concorda?” disse Xellos com seu tom casual e despreocupado.
“Será possível...” comecei a perguntar enquanto o pensamento me ocorria. “Xellos, aquele arremesso final da espada de Gourry acertar o Aranha em cheio, foi obra sua? Para se livrar de Lukoria, o único elfo com o conhecimento da Bíblia Claire...”
Nesse momento, Xellos simplesmente balançou o dedo para mim.
“Isso é... Um segredo.”
Ahh. Imaginei que ele diria isso. Claro que não pude evitar me sentir um pouco manipulada.
Xellos lançou um último olhar para o nosso grupo e disse.
“Como não tenho nada a ver com os elfos restantes, vou deixá-los em suas mãos. Contudo agora que prestei minhas homenagens, preciso ir.”
E com isso, ele desapareceu.
———
O vento soprou, dispersando o último resquício de névoa e fumaça que pairava no campo de batalha. As folhas verdes das árvores da floresta farfalhavam na brisa.
E assim, a paz retornou a Atessa... Ou será que não? Enquanto a cidade dos ferreiros permanecesse, haveria elfos que se oporiam à sua presença. Ainda assim, era evidente que os Cães da Floresta haviam abandonado sua causa por ora, como demonstrado pela forma como abandonaram seus Zanaffars.
Retornamos aos locais onde Centauros e Armadura Pesada haviam sido derrotados e encontramos as carcaças de suas armaduras, contudo nenhum corpo. Não sabia o que havia acontecido com seus portadores. Além do mais, Xellos havia dito que ‘todos os Zanaffars’ foram destruídos, então duvido que houvesse mais algum à espreita.
A ameaça, por ora, havia passado.
———
Amelia e seu enviado partiram de Atessa dois dias após nossa batalha final contra os Cães da Floresta. O motivo do atraso era provar ao prefeito e seus guarda-costas que estava sã e salva.
No momento, havia uma grande multidão no portão, nos arredores da cidade, reunida para observar a partida da comitiva de Saillune. Havia alguns seguranças locais, os figurões da cidade e nós, sem mencionar os soldados de Zephilia que estavam estacionados lá regularmente e o grupo habitual de curiosos. Alaina era a única ausente, pois havia fugido da cidade no dia anterior. Ela disse a MacLyle (e a nenhum de nós) que formaria um grupo com seus camaradas e retornaria com os conspiradores sob controle, e então partiu.
Não posso negar que fugir escondida porque não consegue lidar com uma despedida adequada pareceu algo bem típico da Alaina, no entanto Amelia ficou bastante decepcionada. Ela queria conversar com o elfa, pelo jeito para aprender a usar chicotes para viajar de forma rápida até lugares altos, então talvez tenha sido melhor assim.
Amelia desceu de sua carruagem para falar com algumas pessoas na multidão. Ela dirigiu algumas palavras de despedida ao prefeito por cortesia e então se virou para mim.
“Vocês têm certeza de que não vão vir conosco?” perguntou.
Era verdade que estávamos indo para o mesmo lugar, entretanto... Dei de ombros.
“Melhor não. Vocês já vão ter de lidar com muitas pessoas importantes aonde vão, e seus guarda-costas terão que se preocupar conosco se formos junto. Prefiro ir com calma, deixar a porta aberta para desvios quando eu quiser.”
“Entendo. E você, Mestre Zelgadis?”
“Vou ficar aqui mais um pouco!” respondeu Zel. “Mesmo que tivesse meus motivos, é fato que a princípio estive conspirando com os Cães para danificar a cidade. Acho que preciso me redimir.”
As cicatrizes do ataque seguiam visíveis em Atessa, então tenho certeza de que a ajuda seria bem-vinda. Tinha ouvido do prefeito que os soldados já estavam a caminho quando contataram a capital de Zephilia para avisá-los de que as coisas haviam sido resolvidas, portanto eles seriam realocados para ajudar na reconstrução e nos reparos. Talvez não demorasse muito, afinal.
“Muito bem. Espero que nos encontremos de novo em algum lugar, algum dia.” disse Amelia.
“Eu também!” respondi.
“Até lá!” disse Gourry.
“Espero que em circunstâncias menos difíceis.” acrescentou Zel.
“Bem, obrigada por toda a ajuda. Adeus a todos.” Amelia fez uma reverência para nós e então embarcou em sua carruagem.
Os soldados de Saillune se endireitaram e a carruagem começou a se mover novamente.
“Até logo!”
“Não sejam tão rigorosos com a justiça, ouviram?”
“E tome cuidado com as alturas!”
Enquanto nos despedíamos dela com vários adeus, seu cortejo seguiu pela estrada. Assim que desapareceu atrás das árvores, os figurões, soldados e turistas reunidos começaram a voltar para a cidade.
“Bem...” olhei para Zel, MacLyle e Randa, um de cada vez. “Acho melhor irmos também.”
Gourry e eu já tínhamos nos preparado para partir também.
MacLyle até nos pagou nossa taxa de serviço com um generoso bônus. “Vocês foram de grande ajuda. Obrigado por tudo!” disse ele.
Ao lado de MacLyle, Randa disse.
“Agradeço toda a ajuda. Você me disse para compensar minhas falhas agindo... Mas no final das contas não consegui fazer nada.”
Havia um tom de autorrecriminação em sua voz. Respondi com um sorriso.
“Ah, qual é. Nunca disse que tinha que ser na luta com os Cães da Floresta, disse? Só compense com pequenas ações pela cidade de agora em diante.”
“Isso mesmo. Não ultrapasse os limites e faça o que puder, pouco a pouco.” acrescentou MacLyle com um sorriso. “Como abrir mão do descanso e trabalhar só por um pão velho ou algo assim.”
“Poupe-o disso. Por favor.” fui obrigada a dizer. As palavras de MacLyle tinham um tom de verdade além da piada óbvia.
“Bem, se cuida, Zel.”
“É. Vocês também. E Gourry, por favor, não se esqueça do meu nome.”
“Pode deixar! Pelo menos vou me lembrar dele por um mês ou mais!”
Com essa deixa, nós dois partimos e deixamos a cidade de Atessa para trás.
Posfácio:
Cena: O Autor (Hajime Kanzaka) e L
L: Eu te disse! Enquanto a alma chuni¹ viver dentro dos corações das pessoas, Slayers sempre retornará!
Au: Você disse mesmo! No posfácio da antologia!
L: A humanidade e a alma chuni são coisas insondáveis! Mesmo que as linhagens de ‘vidas passadas’ e ‘habilidades especiais’ desapareçam e sofram mutações, a doença chuni em si prevalecerá!
Au: Bem, não tenho certeza se esse é um assunto que deveríamos estar falando aqui... Enfim, já faz um tempo, né, pessoal? Este foi o volume especial de Slayers, ‘Um Encontro Casual em Atessa’!
L: Um volume especial, é? Não é só o volume 16?
Au: Bem, a minha intenção era que fosse um volume especial para demonstrar gratidão aos nossos apoiadores de longa data pelo trigésimo aniversário da Fantasia Bunko e da Dragon Magazine, mas... Percebemos que seria meio estranho lê-lo fora de contexto, então, cronologicamente, decidimos que tinha que ser o volume 16.
L: De fato tem uma vibe de ‘reencontro da turma’. E você o intitulou ‘Um Encontro Casual’.
Au: Queria que parecesse um encontro casual na rua entre os antigos fãs e a história de Slayers.
L: Você sabe se vai continuar depois disso?
Au: Sendo franco, depende da reação do público, dos sentimentos do autor, do ritmo, se houver um bom videogame lançado na época e do clima!
L: Esses são padrões bem flexíveis!
Au: Pode apostar que são flexíveis! Como panquecas com toneladas de merengue! Não houve um momento na minha vida em que não tenha vivido momentos flexíveis!
L: Credo! Ouvir um velho descrever a própria vida como uma panqueca me irrita um pouco!
Au: Ainda que diga isso, existem algumas coisas boas que têm essa maciez de velho.
L: Essa maciez de velho? Hmm... Oh! Tipo bolinhas em um suéter que não foi lavado!
Au: Acho que isso é coisa de velho... Bom, estou falando sério sobre a parte do clima. Parece que só tivemos furacões enormes nos últimos trinta e cinco anos. Me recomendaram fazer caminhadas para a minha saúde, porém realmente preciso de menos dias seguidos em que eu morro se sair de casa por causa do que está acontecendo com o meio ambiente.
L: Ah. É verdade, Autor, você pega o trem para um lugar com shoppings subterrâneos e caminha por lá. Apesar de os trens não funcionarem durante os furacões.
Au: Sempre acabo inventando desculpas para não caminhar à noite, ou caminho durante o dia quando não está muito quente, contudo... Quando a caminhada termina, fico com aquela sensação de ‘ufa, foi um dia inteiro de trabalho’.
L: No entanto você não trabalhou! Nem um pouquinho!
Au: Bem, é óbvio.
L: Então, mãos à obra! Uma página por dia!
Au: Não seja ridícula! Talvez escritores mais rápidos do que eu consigam escrever nesse ritmo, entretanto tenho a mesma idade que o Namihei Is*n*²!
L: Não seja bobo! O Namihei-san fechou milhões de negócios fazendo um pouquinho por dia!
Au: Isso é demais! Claro, ele pode comprar uma casa em Setagaya, então talvez faça tudo isso mesmo...
L: E você também.
Au: Tenha piedade! Dito isto, espero fazer mais. Com sorte, o tempo vai se acalmar de novo.
L: É, só agradeçam que as diferenças de temperatura não são tão ruins quanto na superfície da lua. Enfim, espero que todos se cuidem! Estamos ansiosos para vê-los novamente!
Posfácio: Fim
Notas:
1. Conhecido também como ‘Síndrome do Segundo Ano do Fundamental’ é um termo coloquial japonês tipicamente usado para descrever adolescentes com delírios de grandeza. Acredita-se que esses adolescentes desejam desesperadamente se destacar e se convencem de que possuem conhecimento oculto ou poderes secretos.
2. Referência ao personagem Namihei Isono do anime Sazae-san.
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Link para o índice de capítulos: Slayers
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