terça-feira, 31 de março de 2026

Por que há tigelas e xícaras de chá no rio Tamagawa?

Por que há tigelas e xícaras de chá no rio Tamagawa?


— Por que há tigelas e xícaras de chá no rio Tamagawa?

Com essa pergunta, nossa aventura de mistério a dois começou sob o cenário iluminado pelo luar de armazéns de paredes brancas.

Naquela noite de meados de fevereiro, em pleno inverno, eu, Aoi Yamane, caminhava com minha amiga Kotoko Kobayakawa pelo bairro dos armazéns de paredes brancas. Passava das 11 da noite e tudo estava completamente escuro. Parecia que os moradores já haviam se recolhido para dormir, pois quase não havia luzes acesas nas casas.

Caminhávamos devagar pela trilha que acompanha o rio Tamagawa, que flui de oeste para leste, atravessando o bairro dos armazéns. O Tamagawa é um rio artificial, com cerca de 3 metros de largura e 1 metro de profundidade, que serpenteia suavemente pela encosta. Essa trilha, que exibe uma típica paisagem japonesa, tornou-se uma rota popular para turistas, repleta de pessoas durante o dia.

Uma rajada de vento soprou e, instintivamente, me abracei. Não estava congelando, mas fazia muito frio. Estava usando jeans e botas, com um sobretudo curto por cima, porém se não estivesse usando minha camada térmica Heattech, teria tido muita dificuldade para suportar esse frio. Kotoko, caminhando à minha frente, usava uma saia longa forrada de lã com botas de pele de carneiro e um casaco de lã. Assim como eu, ela também devia estar bem agasalhada com Heattech. Os invernos em San’in são muito rigorosos.

Nós duas frequentamos uma faculdade de curta duração localizada em uma montanha perto da Estação Kurayoshi desde abril passado. Hoje, enfim terminamos as provas do segundo semestre, marcando o fim do nosso primeiro ano, e fomos a uma festa com amigos da mesma faculdade para comemorar. Depois de dez dias de provas, estávamos prontos para relaxar, e de fato comemoramos muito esta noite. Há pouco tempo, a festa acabou e agora estou voltando para casa com Kotoko, cuja casa fica perto daqui.

— Kotoko, é muito longe da estação até as paredes brancas. Com certeza estarei dolorida amanhã.

Chamei Kotoko, que estava a uns cinco metros à minha frente, com um tom um pouco ressentido. Apesar do frio, seus passos eram leves, como se estivesse dançando. Era evidente, apesar da distância entre nós, que estava gostando do nosso passeio noturno pela cidade.

— Numa noite com um ar tão puro, você precisa caminhar, Aoi-chan. Ainda mais por aqui, ninguém caminha à noite e não há iluminação pública, então é uma ótima recomendação. Parece que estamos entrando em outro mundo.

— Outro mundo, hein? Acho um pouco assustador com tão poucas pessoas por perto...

Olhei em volta da cidade iluminada pelo luar.

— Afinal, você é uma garota da cidade.

Kotoko é a única filha de uma pousada tradicional que existe em Kurayoshi há gerações. Para ela, esta área devia ser um lugar familiar onde brincava e ia desde a infância.

Em contraste, nasci na cidade de Kyoto e cresci sem nunca ter saído da província até o ensino médio. Quando chegou a hora de escolher meu caminho, busquei um ambiente diferente daquele ao qual estava acostumada. Pensei comigo mesma que queria morar no campo pelo menos uma vez na vida e reuni coragem para consultar meus pais. Eles concordaram, sugerindo Kurayoshi, onde morava um antigo amigo do meu pai, e vim para esta cidade para cursar a faculdade.

— Hoje à noite é lua cheia, então está bem claro. Numa noite de lua nova, fica muito escuro e parece que você viajou no tempo de volta ao período Edo.

— Wow, parece incrível.

Mesmo respondendo com desinteresse, secretamente fiquei um pouco animada. O coração do bairro dos armazéns ainda conserva a arquitetura tradicional de madeira dos períodos Edo a Meiji, o que lhe confere muita personalidade. Agora, com as ruas vazias à noite, o local começava a parecer um espaço especial.

Enquanto caminhava e conversava com Kotoko, avistei uma caixa de correio redonda retrô. Depois de passar pela graciosa caixa de correio vermelha que se destacava mesmo à noite, um espaço aberto se abriu diante de nós. À esquerda, uma parede branca; à direita, uma casa de madeira; e no centro, o rio Tamagawa. Este é o lugar mais pitoresco do bairro dos armazéns. O luar refletia na superfície da água, cintilando de forma linda, e me vi parando por um instante, cativada pela cena.

— O bairro dos armazéns à noite não é impressionante?

Kotoko se virou para mim com uma expressão meio presunçosa e sorriu.

— Sim, não é nada mal...

Talvez minha voz tenha demonstrado um toque de empolgação. De fato, estar com Kotoko me proporcionou experiências que jamais teria vivido sozinha. Não seria exagero dizer que, graças a ela, tenho conseguido aproveitar meus dias neste lugar desconhecido, Kurayoshi.

Conheci Kotoko em um grupo que se formou de forma um tanto espontânea dentro do mesmo departamento. Ela tem traços incrivelmente belos, com olhos grandes e nariz arrebitado, exalando elegância e um jeito delicado e afável, personificando a imagem de uma jovem refinada. Embora eu tenha crescido em uma família típica de assalariados em Kyoto, fiquei um tanto intimidada por sua presença e mantive distância a princípio.

No entanto, há cerca de seis meses, após um certo incidente, quando enfim conversamos, fiquei surpresa com o quão fácil pudemos nos conectar, e começamos a passar mais tempo juntas. Agora, posso dizer com segurança que Kotoko é minha amiga mais próxima em Kurayoshi.

— Ei, Kotoko?

Enquanto relembrava o passado, de repente percebi que Kotoko não estava mais na minha frente. Olhando um pouco à frente, vi-a se afastando.

— Kotoko! Você não pode ir sozinha. É perigoso. Sabe que houve incidentes por aqui nesses últimos dias, né?

— Estou bem, Aoi-chan. O incidente de que está falando foi só aquele bêbado que caiu no Tamagawa e se machucou, certo?

— Não, não, segundo o que o proprietário disse, aquele cara alegou ter sido atingido por trás por alguém.

— É apenas um mal-entendido. Aquele cara está sempre bêbado e costuma dormir por aqui.

— É verdade, a polícia acabou dizendo isso...

Segundo alguns rankings, Kurayoshi é considerada uma das dez cidades mais seguras do país. Moro nesta cidade há quase um ano e quase nunca me sinto em perigo. Todavia, há cerca de uma semana, essa situação mudou de maneira drástica. Um pouco a oeste do distrito dos armazéns, antes de chegar a Yodoya, um homem caiu no rio Tamagawa.

Segundo relatos da família, este havia saído para caminhar como de costume, embriagado, entretanto desapareceu. Preocupada, sua família o procurou e o encontrou inconsciente em Tamagawa, sangrando da cabeça. O homem tinha um corte que precisou de vários pontos, mas, por sorte, sua vida não corria perigo. Embora, quando o homem recuperou a consciência, começou a afirmar que havia sido atacado. Por um tempo, o bairro ficou em polvorosa. A polícia foi acionada e chegou a vir à minha casa, que fica a cerca de dez minutos a pé do local, para fazer perguntas.

Como essa área costuma ficar deserta à noite, a investigação se mostrou bastante desafiadora. Não havia testemunhas. Os únicos depoimentos coletados foram sobre a vítima que era vista com frequência embriagada, o que levou a polícia a concluir que apenas deve ter acabado caindo no rio.

Dito isto, não há garantia de que andar sozinha à noite seja seguro. Afinal, Kotoko é fofa, ao contrário de mim. Preciso ficar por perto e protegê-la.

— Espere, Kotoko...

Kotoko, rindo cheia de alegria, continuou a avançar com um andar cambaleante. Nesse ritmo, acabaria como aquele bêbado que caiu no rio. Se caísse e se machucasse, seria irreversível.

— Hehe, tente me pegar!

Seu tom de voz havia adquirido um tom brincalhão. Ela passou por uma loja de souvenirs com uma grande lanterna vermelha pendurada na frente e estava prestes a atravessar a rua. Corri atrás dela apressadamente. Enfim a alcancei logo depois que atravessou a rua, eu estava ofegante e, ao olhar para o rio, de repente me lembrei de algo. Era aquela pergunta que havia surgido quando alguns amigos, incluindo Kotoko, estavam estudando para as provas na biblioteca. Voltei a perguntá-la.

— A propósito, por que existem xícaras de chá e tigelas de arroz no Tamagawa?

Kotoko parou de repente e se virou aos poucos para me encarar.

— Ainda está pensando nisso? Você gosta mesmo desse tipo de coisa, não é, Aoi-chan?

— Claro, é intrigante. Quando observei o rio com atenção, encontrei pedaços de xícaras de chá e tigelas de arroz. Não se costuma encontrar esses tipos de coisas assim em um rio.

— Ainda que o diga, sabe, para mim, é uma cena familiar, então nunca pensei a fundo a respeito.

— Sério? Nunca vi nada parecido. Mas para você, é uma cena comum, hein? O que significa que devia haver fragmentos de cerâmica no rio há pelo menos vinte anos, certo?

Sempre tive um olhar atento para os pequenos mistérios que surgem no dia a dia. Quando algo desperta minha curiosidade, não consigo evitar de pensar nisso. Na maior parte do tempo escondo essa peculiaridade para não parecer estranha, porém depois de um incidente ocorrido há seis meses que me aproximou de Kotoko, ela descobriu. Para minha surpresa, achou minha curiosidade divertida e, desde então, se junta a mim na busca pelos mistérios que me cativam. Gosto de me imaginar como Sherlock Holmes, com Kotoko como minha Watson. Formamos uma ótima dupla, ou pelo menos é o que acredito.

— Vamos deixar a história da xícara de chá para amanhã e aproveitar nosso passeio hoje à noite, está bem, Aoi-chan?

Contudo, esta noite, meu Watson não pareceu muito entusiasmado.

— Vamos lá, me de um pouco de folga, Kotoko. Estive me segurando até as provas acabarem. Tenho certeza de que podemos resolver o mistério juntas se me ajudar a pensar.

Kotoko ponderou por um momento, cruzando os braços e soltando um pequeno murmúrio. Então, de repente, olhou para cima, encontrando meu olhar.

— Tudo bem. No entanto só por um tempinho.

— Obrigado, Kotoko. Você é mesmo a minha Watson.

— Watson? — Kotoko inclinou a cabeça, confusa, enquanto eu passava por ela e continuei caminhando pela rua.

— Primeiro, precisamos descobrir há quanto tempo os fragmentos de cerâmica estão em Tamagawa. Eles devem estar lá há pelo menos quinze anos, quando você tomou conhecimento deles pela primeira vez. Todavia, como seus pais não parecem surpresos com o fato, é possível que estejam lá há vinte ou trinta anos.

— É verdade, meus pais também não pareciam se importar muito.

Kotoko assentiu com a cabeça ao meu lado.

— Em seguida, precisamos considerar quem jogou os cacos de cerâmica no rio e por quê. Em termos de mistério, o “quem fez isso”... Quem é o culpado? E o “porquê fez isso”... Por que cometeram o ato?

— Hehe, Aoi-chan parece uma detetive.

Seu tom de voz me lembrou o de uma mãe cuidando do filho, e me senti um pouco constrangida, com o rosto corando. Respirei fundo e continuei.

— Quem foi o culpado? Quem jogou os cacos de cerâmica no rio? O que acha, Kotoko?

— Bem, talvez tenha sido alguém que trabalha com cerâmica.

Kotoko respondeu sem considerar muito, e me apressei em interrompê-la.

— Não, não, é cerâmica, então deve ser um oleiro. Não pode ser tão simples assim.

— Bem, tem uma loja de cerâmica bem ali.

— Ugh...

Fiquei sem palavras. De fato, como Kotoko apontou, havia um senhor idoso que morava atrás da loja de souvenirs, que fazia cerâmica e as vezes oferecia experiências de cerâmica aos turistas.

— Ele devia estar jogando fora seus trabalhos fracassados ​​no rio. Certo, isto resolve tudo. Fim da história!

— Espere, espere um minuto. Se estivesse jogando xícaras e pratos no rio o tempo todo, com certeza se meteria em problemas. Seria descarte ilegal de lixo.

— As pessoas deviam ser menos preocupadas naquela época.

Parecia plausível, e me vi perdida em pensamentos. Seguindo a regra de ouro dos mistérios de verificar o local quando se fica preso, peguei meu smartphone e liguei a lanterna. Ao iluminá-la sobre o rio, notei algo.

— Hã? Quase não há fragmentos de cerâmica.

Continuei caminhando, mantendo a luz sobre o rio. À minha direita, estava a grande lanterna vermelha do Templo Daizenji e, à minha esquerda, passei pelas lanternas vermelhas que ladeavam a entrada de Benten.

— Este também é um local pitoresco, mas...

A voz de Kotoko soava um pouco triste, porém me recompus e fingi não ouvir enquanto continuava caminhando. Depois de uma curta distância, parei.

— Kotoko, olha aqui. Tem cacos, não é?

— Claro que sim. É disso que temos falado.

— Não, não. Eu realmente não tinha reparado antes, contudo na verdade, a quantidade de fragmentos de cerâmica varia de acordo com o local. Até agora, quase não havia nenhum, só que conforme fomos avançando, estamos começando a encontrar alguns.

Consegui ver vários pedaços de cerâmica no rio, iluminados pela luz. Alguns eram brancos, outros coloridos. Variam de peças que pareciam xícaras de chá a pratos. Todos estavam cobertos de musgo ou escurecidos, sugerindo que não haviam sido descartados recentemente. Recomecei a caminhar, com Kotoko me seguindo.

— A primeira vez que reparei nos fragmentos de cerâmica foi muito mais a oeste daqui. Havia muito mais fragmentos lá. Quer dizer que a quantidade de fragmentos de cerâmica em Tamagawa aumenta à medida que se desloca de leste para o oeste.

— Certo, e daí?

— Sugere que os fragmentos não foram descartados em vários locais ao longo do rio Tamagawa, e sim que devem ter sido levados pela correnteza de um ponto específico. Contudo, não acredito que tenha sido da oficina do oleiro. Afinal, quase não havia fragmentos naquela área. Se pudesse jogá-los no rio sem que ninguém percebesse, sem dúvida o faria perto de sua oficina. No entanto quase não havia fragmentos naquela área.

— Talvez tenham sido levadas pela correnteza do rio, do lugar onde o oleiro as descartou. Você sabe como fica durante as fortes chuvas de verão.

Era verdade; a correnteza do rio naquela época era incrível. Em um dia qualquer, o Tamagawa parecia um pequeno riacho serpenteando pelas montanhas, entretanto durante chuvas fortes, podia ser confundido com as Cataratas do Niágara, com a água transbordando para as calçadas. Essa região não costuma ter chuvas fortes com frequência, então elas acontecem apenas em raras ocasiões. Se for esse o caso, de fato é possível que os fragmentos tenham sido levados pela correnteza. Ainda assim, algo parecia estranho. Enquanto olhava para o rio, de repente percebi algo. Era sobre a direção da correnteza.

— Não, não faz sentido. O rio corre de oeste para leste, certo? Se é verdade que os fragmentos foram levados pela correnteza durante as fortes chuvas, deveria haver fragmentos a leste da oficina do oleiro também. Todavia quase não havia fragmentos no lado leste.

— Hmm...

Kotoko fez um biquinho, parecendo um pouco insatisfeita. Enquanto eu iluminava a superfície da água, continuei.

— Além do mais, o formato dos fragmentos de cerâmica tem aumentado gradualmente. A força da água durante chuvas fortes é suficiente para arrastar os pedaços menores, mas os fragmentos maiores não deveriam viajar muito longe. Em outras palavras, o local onde os fragmentos estão se acumulando deve ser logo à frente!

Levantei meu dedo indicador direito na direção de Kotoko, sentindo-me satisfeita, como se fosse uma detetive que acabou de identificar o culpado.

— Tem razão, Aoi-chan. Se for esse o caso, quem os jogou fora e por qual motivo? Foi um mistério ou é um simples caso de “porque sim”?

— Uh...

Sim, esse é o mistério. Quem, em sã consciência, jogaria cerâmica, como xícaras e pratos, no rio? Ou será que não havia nenhum motivo específico? Hmm, não consigo entender.

Enquanto refletia em silêncio, Kotoko continuou.

— Por exemplo, talvez alguém os tenha deixado cair enquanto lavava a louça no rio? Minha avó dizia que costumavam lavar coisas no rio Tamagawa.

Agora que penso, me parece que já vi uma foto em uma aula de história local de pessoas reunidas à beira do rio para lavar xícaras de chá e roupas.

— Ou talvez houvesse um monte funerário para os utensílios que eram estimados. Ouvi na aula outro dia que existem montes por todo o Japão em memória de ferramentas quebradas.

Como esperado da Kotoko. Apesar de as vezes parecer um pouco distraída, ela presta atenção nas aulas. É um contraste gritante comigo, que me perco com frequência em devaneios.

— Além disso, talvez alguém tenha deixado cair uma pilha de pratos enquanto os transportava para um restaurante sobre uma ponte.

Também parece plausível. Existem várias pontes de pedra sobre o rio Tamagawa, que ligam à entrada dos fundos das lojas, onde armazéns de paredes brancas alinham-se no quintal. Pelo visto, antigamente, as mercadorias eram trazidas por aqui.

— Hmm, pode ser que haja um local mais adiante onde descartem cerâmica e lixo não incinerável... Se não, significaria que alguém espalhou intencionalmente cacos de cerâmica no rio, mas isto não beneficiaria ninguém. Se fosse uma história de mistério, seria para criar um álibi para o culpado.

Levantei as mãos entrelaçadas para o céu e me espreguicei, respondendo com certo desdém. Esperava que houvesse um motivo especial, porém parecia que nada de significativo viria à tona. Nesse instante, Kotoko, que caminhava atrás de mim, murmurou algo baixinho.

— Se a arma usada pelo culpado fosse um fragmento de cerâmica, a polícia teria muita dificuldade em encontrar provas.

— Hã? Você disse alguma coisa?

— Não, não é nada. Tudo bem, vamos encerrar esta conversa por aqui. Já estamos quase em casa, então vamos aproveitar nosso passeio noturno!

Com essas palavras, Kotoko me deu um leve empurrão por trás e retomamos a caminhada.

Contudo, minha mente não estava tranquila. Fingi não ouvir, no entanto o que Kotoko acabou de dizer? “Se a arma usada pelo culpado fosse um fragmento de cerâmica, a polícia teria muita dificuldade em encontrar provas”. Naquele instante, vários fragmentos de informação em minha mente se conectaram de repente.

Normalmente, quando falo sobre essas coisas, Kotoko me ajuda de boa vontade a desvendar o mistério. Entretanto hoje, algo parecia estranho. Ela parecia determinada a encerrar a conversa sobre os cacos de cerâmica. Em outras palavras, não queria falar a respeito. Da mesma forma, houve outro assunto que tentou encerrar de forma abrupta: a história do vizinho que havia sido atacado por um bandido.

Recordando o que o senhorio havia dito, o vizinho sofrera um ferimento grave ao cair no rio Tamagawa e bater com a nuca num “caco de cerâmica”. Se não tivesse escorregado e caído no rio sozinho, e sim sido atingido na nuca por um caco recolhido do rio, o que o fez cair... E se essa cerâmica tivesse sido jogada de volta no rio...

Lembro de Kotoko ter mencionado antes que havia sido abordada algumas vezes por homens bêbados enquanto caminhava para casa ao longo do rio Tamagawa. Quando soube, aconselhei-a a evitar a margem do rio, que é pouco iluminada e tem poucas pessoas, e a seguir pela estrada principal, por onde passam os carros. Mas Kotoko respondeu que gostava daquele caminho e não queria mudá-lo.

E se, em vez de mudar de rota, Kotoko tivesse optado por eliminar os obstáculos? E se tivesse chegado a esse método com base na história do fragmento de cerâmica que mencionei durante nossas sessões de estudo? Não, é absurdo; minha mente está uma confusão. Oscilei entre o pensamento de que Kotoko jamais faria algo assim e o raciocínio baseado nas evidências circunstanciais que se acumularam.

Enquanto caminhava, absorta em pensamentos, nos aproximamos do fim da trilha ao longo do rio Tamagawa. No final da rua, a estrada se divide para a esquerda e para a direita, o que significa que nossa caminhada à beira do rio terminaria ali. O rio corre entre as casas a partir desse ponto. A essa altura, a trilha havia se estreitado. Essa área tinha pequenas ruínas de fábricas e terrenos baldios, tornando-a menos visível para os transeuntes. E era ali que os cacos de terra no rio eram mais abundantes. Era também mais ou menos ali que a casa do vizinho havia desabado.

As lembranças do último ano com Kotoko passaram pela minha mente como um show de slides. Nossos primeiros encontros desajeitados, como nos aproximamos depois daquele incidente e como nosso tempo juntas aumentou. Agora, passar tempo com Kotoko havia se tornado incrivelmente importante para mim. Meus dias em Kurayoshi eram agradáveis ​​porque Kotoko estava lá.

— Muito bem, já me decidi!

Sussurrei para mim mesma. Guardaria isso para mim. Se o silêncio fosse um pecado, então carregaria esse pecado junto com ela. Porque Kotoko é minha querida amiga. Pode parecer estranho dizê-lo de repente, porém queria reafirmar que Kotoko sempre seria minha amiga. Nesse instante...

Um farfalhar. Ouvi um som vindo de trás, como se alguém estivesse remexendo em uma bolsa. Depois, um barulho de peças de cerâmica se chocando. Espera, será que ela achou que eu tinha percebido e estava tentando me silenciar? Kotoko, está tudo bem. Estou preparada para levar a verdade para o túmulo. Não posso deixar que mais pecados se acumulem. E com determinação, me virei.

— Aqui está, Aoi-chan, meu presente para você!

Com isso, Kotoko estendeu as duas mãos em minha direção. Em suas palmas repousava um objeto envolto em uma elegante sacola com cordão. Aceitei-o em silêncio.

— Abra!

Kotoko me incentivou com um sorriso radiante. Desamarrei o cordão que fechava a sacola e retirei o objeto envolto em material absorvente de impacto, descolando a fita adesiva que estava bem presa. Dentro havia uma xícara de chá fofa com fundo branco e uma estampa de flor de aoi¹. Enquanto permanecia ali, boquiaberta, sem palavras, Kotoko continuou sorrindo.

— Aoi-chan, você mencionou que quebrou sua xícara de chá há pouco tempo. Ouvi dizer que estava planejando comprar uma nova depois das provas, contudo encontrei esta por acaso em uma loja que visitei.

Ainda estava atordoada.

— Achei a estampa tão fofa, e quando perguntei ao vendedor, ele me disse que era uma flor de aoi. Pensei que era o destino e decidi na hora. O que acha? Gostou?

Ao perceber minha falta de reação, Kotoko pareceu um pouco ansiosa, franzindo a testa enquanto me olhava. Dominado por uma mistura de alívio pela minha tensão e felicidade pelos sentimentos de Kotoko, senti lágrimas brotarem em meus olhos enquanto respondia.

— Sim. Adorei. Obrigada, Kotoko.

— Hã? Não é nada demais. E-Espera, Aoi-chan!

Kotoko entrou em pânico com minhas lágrimas repentinas, agitando as mãos um tanto sem jeito. Era a primeira vez que a via tão perturbada, e me peguei pensando que aquilo era uma cena bastante rara enquanto enxugava minhas lágrimas com a ponta do meu dedo indicador.

— Sim, estou bem, de verdade.

— Você está mesmo bem?

Kotoko olhou para mim com preocupação.

— Aliás, fiquei muito surpresa quando começou a falar de xícaras de chá de repente. Estava planejando te surpreender com isso no final. Estava tão nervosa, pensando que poderia ter percebido. Você não mudava de assunto de jeito nenhum.

Foi por esse motivo que Kotoko ficou tão ansiosa para encerrar a conversa sobre o caco de cerâmica. Eu li a situação toda errada. Kotoko, me desculpe por ter duvidado da sua pessoa.

No fim, não descobri por que havia cacos no Tamagawa, todavia algo de bom resultou disso, e decidi pensar nesse mistério outro dia enquanto guardava a xícara de chá na minha bolsa. Quando estava prestes a começar a andar de novo, Kotoko disse.

— Realmente não sei por que existem tantos fragmentos de cerâmica em Tamagawa, no entanto no final das contas, acaba nos levanto a isto, Aoi-chan.

Na parede junto à margem do rio, para a qual Kotoko apontou, havia um slogan afixado por um grupo de voluntários locais.

— Não jogue fora nem lave; vai ficar sujo.

— É, não devemos jogar coisas no rio.

Prometi a mim mesma que definitivamente participaria do próximo dia de limpeza do rio.



Notas:
1. Aoi em japonês se refere à flor ou plantas da malva-rosa da família da malva. Simboliza longevidade, fertilidade e ambição. Frequentemente chamada de “flor dos deuses”, é famosa por seu uso histórico como emblema do clã Tokugawa e por sua representação no Festival Anual da Malva-rosa de Kyoto (Aoi Matsuri).

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