quinta-feira, 19 de março de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 03

Capítulo 03: O Segundo Dia na Ilha


Parte 1


Mal havia dormido quando acordou.

Eles haviam se recolhido aos seus quartos às duas da manhã. Ela foi para a cama imediatamente, mas não conseguiu pegar no sono de imediato e, em vez disso, ficou deitada encarando o vazio escuro. Apenas não se sentia à vontade. Os eventos do dia trouxeram à tona más lembranças que se enroscaram em sua mente e não a deixavam ir embora.

Ellery, Van, Poe, Agatha, Leroux e Carr. Não era como se não gostasse desses seis. Na verdade, na maior parte do tempo, sentia algo parecido com afeição por todos, até mesmo por Carr. O único membro do grupo por quem não sentia afeição era por si mesma.

Em seu dia a dia, quando vivenciava algo deprimente, conseguia encontrar salvação apenas voltando para sua pensão, para o seu próprio quarto. Só precisava fugir para o seu pequeno mundo. Lá, poderia imaginar tudo o que quisesse e mergulhar nisso. Lá teria suas melhores amigas, seu amor ideal e até mesmo pessoas que a veneravam incondicionalmente.

Porém...

Esta era a primeira vez em sua vida que pisava nesta ilha, neste prédio, neste quarto. Apesar de enfim poder estar sozinha, sua mente seguia se sentindo inquieta.

Tinha se arrependido. Sabia que aconteceria. Talvez não devesse ter vindo. Contudo, para ela, esta viagem tinha um significado especial.

A Casa Decagonal em Tsunojima... Será que os outros notaram?

Ela sabia. Sabia que aquela era a casa da garota que havia morrido por causa da irresponsabilidade deles.

Nakamura Chiori era a única amiga que já tivera e a única pessoa para quem sentira que podia abrir seu coração. Elas eram da mesma faculdade, tinham entrado no mesmo ano e tinham a mesma idade... Sentiu que eram parecidas no momento em que se conheceram na sala de aula. Estava convencida de que Chiori se sentia da mesma forma. E se davam muito bem. Também haviam visitado o quarto uma da outra várias vezes.

— Meu pai é estranho e mora longe, em uma ilha chamada Tsunojima. — Chiori havia lhe contado uma vez. Também havia lhe dito que era algo que não queria que fosse revelado.

Chiori havia morrido. E agora tinham vindo até esta ilha, onde ela nasceu e onde seus pais morreram.

Não é uma intromissão... Estou prestando minhas homenagens.

Era o que repetia para si mesma.

Não tinha intenção de contar aos outros. Tudo bem se fosse a única, pensou. Se pudesse apenas lamentar a morte de Chiori sozinha; se pudesse apenas confortar o espírito de Chiori.

No entanto será que deveria mesmo ser ela a fazê-lo? Não seria presunçoso? Não seria desrespeitoso com os mortos vir à ilha assim?

Toda a preocupação acabou lhe trazendo um sono agitado. Sentia como se estivesse tendo um sonho após o outro, onde a realidade e a fantasia colidiam. Os cenários de seus sonhos eram todos imagens da ilha que vira hoje.

Por isso, mal havia dormido quando acordou.

Com apenas a fraca luz que entrava pela fresta entre as persianas como guia, olhou ao redor do quarto, entretanto não conseguia discernir se seguia sonhando ou se realmente havia acordado.

Um tapete azul no chão. A cama estava fixada à esquerda da janela. Na parede à direita da janela, havia uma escrivaninha, uma cômoda e um espelho de corpo inteiro.

Orczy se levantou devagar, saiu da cama e abriu a janela.

O ar lá fora estava frio ao toque.

O céu estava branco com algumas nuvens. Podia ouvir o som tranquilo das ondas.

Olhou para o relógio de pulso que havia colocado perto do travesseiro. Oito horas.

Por fim percebeu que já era de manhã.

Fechou a janela e se vestiu.

Uma saia preta, uma blusa branca e, por cima, um suéter vermelho-bordô com estampa de losangos. Como sempre, apenas lançou um olhar rápido para o espelho. Não gostava de encarar seu próprio reflexo.

Orczy pegou sua nécessaire
¹ e saiu do quarto.

Parecia que ninguém mais havia acordado ainda. O silêncio reinava no corredor decagonal, como se a emoção da noite anterior tivesse sido apenas um sonho.

Mas então...

Orczy percebeu que algo que não vira antes havia sido colocado sobre a mesa no meio do corredor.

O objeto refletia a luz que entrava pela claraboia acima e a cegou por um instante.

Perplexa, Orczy caminhou lentamente em direção à mesa. Assim que percebeu o que havia sido colocado ali, engasgou e ficou paralisada.

O que é isso?

Ela estendeu a mão para a mesa, porém a recolheu em seguida.

Após alguns instantes de choque, esqueceu-se de lavar o rosto e correu para o quarto de Agatha.



Parte 2


Sete placas de plástico branco-leitoso, com quinze centímetros de largura e cinco de altura. Caracteres vermelhos estavam impressos em cada uma delas.

— Que tipo de brincadeira é essa?

Ellery piscou surpreso, contudo logo um sorriso se formou em seus lábios.

Apenas as mulheres já estavam vestidas. Os cinco homens haviam apenas colocado algo leve por cima dos pijamas. Todos tinham acabado de ser acordados por Agatha.

— Muito engraçado. Quem está por trás disso?

Ellery dirigiu a pergunta a todos.

— Não foi você, Ellery?

— Não fui eu, Leroux. Provavelmente Carr ou Agatha, certo?

— Não fui eu.

— Nem eu. — Agatha se enrijeceu e continuou. — E você, Van?

— Não fiz nada. — disse Van, esfregando as pálpebras inchadas.

— Foi você quem encontrou as placas, Agatha?

— Não, foi a Orczy. No entanto não acredito que seja ela a responsável.

— Não fui eu.

Orczy desviou o olhar como se quisesse fugir. Todos os olhares se voltaram para a única pessoa que restava. Todavia uma carranca surgiu no rosto barbudo de Poe.

— Estou dizendo, também não sei nada a respeito disso. — disse ele.

— Então, quem foi?

Ellery deu de ombros e continuou.

— Uma brincadeira é legal e tudo mais, mas isso já durou tempo demais.

Ninguém disse nada.

Os sete se entreolharam em um silêncio constrangedor.

— Ellery... — disse Poe. — Se me perguntar, diria que quem tem mais probabilidade de aprontar esse tipo de pegadinha é você ou a Agatha.

— Já disse, não fui eu! — protestou Ellery.

— E saiba que também não fui eu. — disse Agatha.

O salão voltou a ficar em silêncio sob a luz da manhã. O silêncio tornou-se opressivo. Cada um aguardava um sinal do outro, esperando que alguém caísse na gargalhada e confessasse o ato.

Um tempo dolorosamente longo se passou, durante o qual podiam ouvir o som distante das ondas.

— Juro que não fiz nada. — Ellery enfim falou com uma expressão séria no rosto. — Não há mesmo ninguém que vá admitir? Vou perguntar mais uma vez. Van?

— Não sei de nada.

— Agatha?

— Já disse que não fui eu.

— Carr?

— Não tenho nada a ver com isso.

— Poe?

— Não.

— E Leroux?

— Só pode estar brincando.

— Orczy?

Orczy balançou a cabeça com um olhar assustado.

Outra vez, o som das ondas chegou aos ouvidos do grupo. Ressonou e intensificou a onda de ansiedade que havia tomado conta dos sete imóveis.

— Muito bem, então! — disse Ellery, afastando a mecha da testa. — O criminoso... Posso usar a palavra, não posso? Tem que ser um de nós aqui. Considerando que ninguém confessou o crime, teremos que presumir que alguém está entre nós com intenções maliciosas... Ou talvez várias pessoas.

— O que quer dizer com intenções maliciosas? — perguntou Agatha.

— Como vou saber? Alguém está tramando alguma coisa! — respondeu Ellery sem rodeios.

— Não fique enrolando, Ellery. — disse Carr com um sorriso irônico. — Fale logo. Isto é um aviso de assassinato.

— Não se precipite, Carr!

Para surpresa de todos, Ellery elevou a voz e lançou um olhar fulminante para Carr.

— Vou perguntar mais uma vez. Realmente não há ninguém que admita ter feito isso?

Todos balançaram a cabeça em negação, entreolhando uns aos outros.

— Muito bem, então. — disse Ellery, recolhendo as sete placas da mesa e sentando-se em uma das cadeiras.

— Vamos todos nos sentar. — ele esboçou seu sorriso habitual enquanto observava todos se acomodarem aos poucos. — Desculpe, Agatha, poderia nos fazer um café?

— Claro! — disse Agatha, indo sozinha para a cozinha.

Ellery alternava o olhar entre os rostos dos outros cinco ao redor da mesa e as placas em suas mãos. Ninguém parecia ter a menor ideia do que dizer.

Após um breve momento, Agatha retornou com uma bandeja de café para todos.

Ellery escolheu uma das xícaras fumegantes em formato de decagonal e tomou um gole.

— Certo, agora...

Ele colocou as duas mãos nos bolsos do cardigã verde-escuro que usava por cima do pijama e se virou para o grupo.

— Nós sete somos as únicas pessoas na ilha. Portanto, quem colocou essas placas aqui tem que ser um de nós. Tem que ser. Contudo todos nós alegamos não saber nada sobre elas. O que significa que um de nós está escondendo de propósito o fato de que as colocou aqui.

— Como vocês podem ver, essas placas são de plástico. Os caracteres estão impressos em uma fonte gótica. As palavras parecem ter sido pintadas com tinta vermelha, no entanto nada disso nos ajuda a identificar o culpado.

— Mas Ellery... — disse Leroux. — Essa tipografia ornamentada é tão simples que qualquer um consegue fazer? Precisa ter alguma experiência, não é?

— Quer dizer que Orczy é a principal suspeita.

— Não foi o que eu quis dizer.

— A única entre nós com alguma experiência em ilustração e escrita é a Orczy. Tem algo a dizer, Orczy?

— Não fui eu.

— Desculpe, entretanto não é suficiente.

Orczy levou as mãos ao rosto vermelho e olhou para cima.

— Hoje em dia dá para encontrar livros com estênceis para escrita em qualquer lugar. Qualquer um poderia ter usado um desses e um pouco de tinta spray.

— Exato! — concordou Ellery. — Qualquer um com um mínimo de talento artístico poderia tê-lo feito: eu, ou Poe, ou até mesmo Van.

Ellery, ainda sorrindo, terminou de beber seu café fumegante.

— E quanto às próprias gravuras? — perguntou Leroux, estendendo a mão e pegando uma delas. — As bordas não são muito lisas.

— Elas não vieram de uma prateleira. Devem ter sido cortadas no tamanho certo com uma serra tico-tico ou ferramenta similar.

— Será que foram usadas como forro ou algo assim?

— O culpado provavelmente deu uma passada na seção de bricolagem do supermercado local, Leroux. Eles têm placas de plástico de todos os tamanhos e cores.

Ellery pegou a placa de volta de Leroux e a arrumou com as outras, como um baralho de cartas.

— Vamos guardar isso por enquanto. — ele disse, levantando-se e indo até a cozinha. Os olhos dos outros seis o seguiram como se estivessem agarrados por um fio.

Através das portas duplas abertas, eles puderam ver Ellery parado em frente ao armário. Este encontrou uma gaveta aberta e jogou todas as placas lá dentro. Voltou para o corredor e bocejou com a elegância de um gato siamês.

— Meu Deus, estamos todos parecendo uns idiotas.

Abrindo os braços, olhou para o próprio corpo.

— Já estamos todos de pé, então vamos nos vestir.

Dito isso, Ellery desapareceu em seu quarto e, logo depois, a tensão que pairava no ar também se dissipou.

Com alguns suspiros, os outros seis se levantaram um a um. Os quatro homens voltaram separadamente para seus quartos, enquanto Agatha e Orczy se retiraram juntas para o quarto de Agatha.

Eles caminharam com passos ansiosos e ninguém deixou de dar uma olhada na gaveta da cozinha que continha as sete placas antes de sair do salão.

Quinta-feira, 27 de março. Seu segundo dia na ilha havia começado.



Parte 3

Já passava do meio-dia.

Ninguém na mesa do almoço mencionou os eventos daquela manhã.

Tinha sido sinistro demais para fazer piada ou falar sobre de forma leviana. Mas também era bizarro demais para ser discutido com seriedade. Cada um ainda tinha o conteúdo da gaveta da cozinha em mente e ninguém parou de tentar ler os pensamentos dos outros, porém todos agiam como se o evento não tivesse acontecido.

Depois de comerem os sanduíches que Agatha e Orczy haviam preparado para o almoço, eles se levantaram da mesa um a um.

Carr foi o primeiro a se levantar. Saiu sozinho, carregando alguns livros de bolso e coçando o queixo comprido e recém-barbeado. Poe e Van se levantaram um a um e foram para o quarto de Poe.



— E de volta ao trabalho... — disse Poe com sua voz grave enquanto se sentava no chão.

Os sete quartos de hóspedes da Casa Decagonal tinham todos a mesma planta. No centro do tapete azul do quarto de Poe, estavam as peças espalhadas de um quebra-cabeça que acabara de começar.

— Duas mil peças? Você consegue terminar durante nossa estadia?

Evitando pisar no quebra-cabeça, Van caminhou até o fundo do quarto e sentou-se na beirada da cama.

Um sorriso surgiu por trás da longa barba de Poe.

— Espere para ver. Eu termino.

— Contudo você também quer ir pescar, não é? E temos a matéria para a revista do clube, pra não esquecer.

— Há tempo de sobra. No entanto, primeiro, preciso encontrar o nariz desse cara.

O contorno do quebra-cabeça já estava completo e ocupava quase um tatame, ou um por dois metros. Ao lado, estava a tampa da caixa do quebra-cabeça com a ilustração do quebra-cabeça completo. Poe remexeu entre as pecinhas enquanto olhava fixamente para a ilustração.

Era uma fotografia de seis raposas brincando em um campo. Uma raposa adulta cercada por cinco filhotes fofos. O nariz de um dos cinco era o problema com o qual Poe estava lidando naquele momento.

— Hum? O que foi, Van? — perguntou Poe, ansioso, ao notar que a cabeça de Van estava caída, cansada, e suas mãos repousavam sobre os joelhos. — Ainda se sentindo mal?

— Sim, um pouco.

— Tenho um termômetro na minha bolsa. Meça sua temperatura. Pode se deitar, se quiser.

— Obrigado.

Van colocou o termômetro debaixo do braço e deixou seu corpo esguio afundar na cama. Passou as mãos pelos cabelos castanhos e macios enquanto olhava para Poe.

— Então... O que acha?

— Hmm... Ah, aqui está. Consegui! — disse Poe, pegando uma pequena peça do quebra-cabeça. — Ótimo, ótimo. O que disse, Van?

— O que aconteceu esta manhã. O que acha?

A mão de Poe parou no ar. Ele se endireitou.

— Quer dizer sobre aquilo...

— Foi mesmo só uma brincadeira?

— Acredito que sim.

— Nesse caso por que ninguém admitiu?

— Pode haver mais por vir.

— Mais?

— Sim. A pegadinha ainda não acabou.

Os dedos de Poe desapareceram em sua barba enquanto acariciava o queixo.

— É só uma ideia que eu tive. Por exemplo, hoje à noite, um de nós pode encontrar o café com sal. E essa seria “a Primeira Vítima”.

— Ahá.

— E com um sorriso malicioso no rosto, nosso “Assassino” cometerá um crime após o outro. Sendo assim, é só um grande jogo de assassinato.

— Ah, um jogo de assassinato.

— Pode ser uma ideia estúpida, entretanto faz muito mais sentido do que todos nós nos encolhermos de medo porque achamos que uma série de assassinatos reais foi anunciada com antecedência.

— É verdade. — concordou Van. — Não é como se fôssemos personagens de uma história. Assassinatos não acontecem assim do nada. Sim, tenho certeza de que tem toda razão. Mas Poe, quem você acha que está por trás disso?

— Bem, o mais provável a ter tal ideia de um jogo desses é o Ellery, claro. Porém ele parece estar assumindo o papel de “Detetive”.

— Agora que mencionou, lembro do Ellery gritando “Alguém quer me desafiar?” ontem? Isto pode ser uma resposta para isso.

— Não sei. — disse Poe. — Se estiver certo, significaria que “o Assassino” é uma das três pessoas que estavam lá quando Ellery disse isso: você, eu ou Leroux. Porém aquelas placas de hoje de manhã devem ter sido feitas com antecedência, não é?

— Entendo o que quer dizer. E as únicas pessoas além do Ellery que poderiam planejar uma pegadinha dessas são Leroux ou Agatha...

— Contudo ainda pode ser o próprio Ellery. Pense em todas aquelas tramas em que o detetive acaba sendo o assassino.

— A maneira como Ellery assumiu o controle da situação hoje de manhã foi impressionante ...

— Hum... E o termômetro, Van?

— Ah, eu me esqueci.

Van endireitou-se e tirou o termômetro de debaixo do cardigã.

Ele olhou para o aparelho, franziu a testa e o entregou a Poe.

— Você realmente está com febre.

Poe olhou para o rosto de Van.

— Seus lábios também parecem ressecados. Como está sua cabeça?

— Dói um pouco.

— Precisa descansar hoje. Tem algum remédio?

— Tenho alguns remédios sem receita para resfriado.

— Servem. É melhor você ir para a cama cedo hoje. Não queremos que piore durante a viagem.

— Farei como o senhor diz, doutor. — respondeu Van com a voz rouca, enquanto se jogava na cama e olhava fixamente para o teto.



Depois de arrumarem a cozinha após o almoço, Agatha e Orczy prepararam um chá e descansaram no corredor.

— Ufa, será que vai ser assim por seis dias? Não imaginei que cozinhar para sete desse tanto trabalho.

Agatha recostou-se na cadeira.

— Olha, Orczy, minhas mãos estão ásperas por causa do detergente.

— Tenho creme para as mãos.

— Eu também. Adoro esse negócio.

— Você tem mãos de dama mesmo.

Agatha sorriu e afrouxou o lenço que prendia o cabelo. Orczy retribuiu o leve sorriso, pegou a xícara decagonal em suas pequenas mãos e tomou um gole.

— Orczy.

Agatha olhou na direção da cozinha e mudou de assunto de repente.

— O que acha que essas placas significam?

Orczy estremeceu e balançou a cabeça em silêncio.

— Foi realmente assustador esta manhã. — continuou Agatha. — Porém depois que pensei com mais calma, pode ser apenas uma brincadeira. O que acha?

— Não sei. — Orczy olhou em volta ansiosamente. — Todo mundo diz que não sabe de nada, mesmo que não haja nada a esconder se for apenas uma brincadeira...

— Esse é o ponto.

— O quê...?

— Talvez tenhamos levado a sério demais. Em outras palavras, quem fez isso se sentiu culpado por ter pregado uma peça.

— Não sei.

— Bem, quem você acha que é o culpado?

— ...

— Pode ser o Ellery... — continuou Agatha. — Contudo não é do tipo que se sente culpado por nada, então podemos descartá-lo. Talvez seja o pequeno Leroux.

— Leroux?

— Sabe como ele é. A cabeça do Leroux está sempre cheia de histórias de detetive. Deve ter pensado que seria engraçado nos assustar com uma brincadeira dessas.

Orczy desviou o olhar, sem concordar nem discordar. Ela se encolheu desconfortavelmente na cadeira.

— Estou com medo! — murmurou, tão baixinho que parecia estar falando sozinha.

Esses eram seus verdadeiros pensamentos. Aquelas placas... Não conseguia acreditar que fosse apenas uma brincadeira inocente. Pressentia algum tipo de malícia por trás.

— Afinal, não deveríamos ter vindo para esta ilha.

— Não diga essas coisas.

Agatha riu alegremente.

— Vamos sair e tomar um pouco de ar fresco depois do chá. Este salão é sombrio, mesmo à tarde. Há uma atmosfera peculiar aqui, por causa dessas dez paredes ao nosso redor. Faz a gente se preocupar mais do que o necessário com pequenas coisas.



Sentado no cais da enseada, Ellery olhava para as profundezas.

— Ainda acho estranho, não acha, Ellery? — disse Leroux, que estava ao seu lado.

— O quê?

— Você sabe o que quero dizer. Aquelas placas esta manhã.

— Oh.

— É você o responsável por isso?

— Pare de brincar.

Eles estavam assim há algum tempo. Leroux dizia algo e Ellery respondia de maneira vaga, sem nem se dar ao trabalho de olhar em sua direção.

— No entanto seria bem a sua cara preparar aquelas placas, mesmo para “o Detetive” e “o Assassino”.

— Não sei nada sobre elas.

— Não fique tão bravo. Só estou comentando que seria a sua cara.

Leroux deu de ombros e se agachou.

— Entretanto é provável que tenha sido só uma brincadeira. Não acha?

— Não! — respondeu Ellery em um tom seco, enfiando as mãos nos bolsos do casaco. — Gostaria muito de pensar que foi, mas não acho.

— Então por que acha que não foi?

— Porque ninguém admitiu.

— É verdade.

— E deram muito trabalho.

Ellery se virou e olhou Leroux nos olhos.

— Seria diferente se tivessem sido escritas a lápis em pedaços de papel. Todavia alguém se deu ao trabalho de cortar essas placas de plástico no mesmo tamanho, preparar os moldes para as letras e pintar as placas com tinta vermelha. Eu não teria feito tudo isso só para te dar um sustinho.

— Porém... — Leroux tirou os óculos e começou a limpá-los, sem jeito. — Está insinuando que haverá assassinatos?

— Acho que há uma grande possibilidade.

— Contudo... Como afirmá-lo com tanta calma? Um assassinato... Significa que alguém vai morrer. Alguém vai ser morto. E não apenas uma pessoa. Se essas placas estão anunciando todos os nossos assassinatos com antecedência, então haverá cinco vítimas. É inacreditável.

— Soa ridículo, não é?

— É ridículo. Isto não é um filme nem um romance. Essas placas têm o mesmo papel que as infames estatuetas indígenas, certo? Se “o Assassino” matar “o Detetive” e cometer suicídio no final, então será igual como em “E Não Sobrou Nenhum”.

— Aparentemente.

— E por que deveríamos ser assassinados, Ellery?

— Por que me pergunta?

Depois disso, os dois ficaram olhando em silêncio para as ondas quebrando nas rochas. As ondas estavam mais agitadas e barulhentas do que no dia anterior. A água também estava mais escura.

Por fim, Ellery se levantou.

— Leroux, vou voltar. Está frio aqui fora.



Parte 4

O barulho das ondas ressoava na escuridão acima deles, soando como o ronco áspero de um gigante. Isto só aumentava a ansiedade e a sensação de desgraça iminente.

O sombrio salão decagonal onde acabavam de jantar estava escuro sob a fraca luz da lamparina a óleo.

— Elas me dão náuseas. — disse Agatha depois de servir café a todos. — Essas paredes. Meus olhos doem só de olhar para elas.

As dez paredes brancas brilhavam à luz de uma única lâmpada. Em teoria, formavam um ângulo de 144 graus entre si, contudo, dependendo da luz, os ângulos às vezes pareciam maiores e às vezes menores. Em contraste, a mesa no centro da sala sempre mantinha seu formato decagonal, o que fazia as paredes parecerem ainda mais distorcidas.

— Sério, elas me deixam tonta.

Van esfregou os olhos vermelhos.

— Vá para a cama cedo, Van. Seu semblante não me parece muito bem. — advertiu Poe.

— Ainda se sentindo mal? — Agatha colocou a mão na testa de Van. — Está com febre. Precisa ir para a cama, Van.

— Estou bem. São só sete horas.

— Não está tudo bem. Estamos em uma ilha deserta. Não temos um médico de verdade conosco. E se a sua febre piorar?

— Tudo bem.

— Você tomou algum remédio?

— Vou tomar antes de ir para a cama. Dá sono.

— Tome agora e vá dormir depois. Melhor prevenir do que remediar.

— Certo.

Van se levantou a contragosto, como uma criança obedecendo à mãe. Agatha trouxe uma jarra de água e um copo da cozinha e entregou a ele.

— Bom, boa noite! — disse Van, e caminhou até a porta do seu quarto.

Mas então...

— O que pretende fazer, se escondendo nesse seu quartinho escuro tão cedo?

Era a voz grave e profunda de Carr. A mão de Van, que se estendia em direção à maçaneta, parou no ar. Ele se virou.

— Vou dormir, Carr.

— Bem. E eu pensando que ia afiar sua faca.

— O que está querendo insinuar?

Carr deu uma risadinha diante da pergunta irritada de Van.

— Sabe, acho que foi você quem anunciou nossos assassinatos esta manhã.

— Van, ignore-o e vá dormir. — disse Ellery.

— Espere, Ellery. — continuou Carr com uma voz bajuladora. — Considerando as circunstâncias, não acha normal suspeitar de Van?

— Por quê?

— Pense bem. Em casos onde várias pessoas se reúnem em um lugar e são mortas uma a uma, a pessoa por trás costuma ser o anfitrião ou organizador.

— Isso só acontece em histórias de mistério.

— E aquelas placas anunciando nossos assassinatos não passavam de adereços para esta história de mistério em particular. Van é o responsável. É o nosso culpado. Qual o problema em presumir que é exatamente como acontece nos livros?

Carr ergueu o queixo.

— Algo a dizer, nosso querido anfitrião Van?

— Chega de piadas. — segurando a jarra e o copo nas mãos, Van bateu o pé no chão. — Não convidei vocês todos aqui. Só disse que meu tio comprou o lugar. A primeira pessoa a mencionar foi o nosso futuro editor-chefe, Leroux.

— Tem razão. Leroux me contou e fui eu quem teve a ideia de virmos todos para cá. — disse Ellery, irritado. — Se quer suspeitar do Van, precisa suspeitar de mim e do Leroux também. Senão, seu raciocínio não faz sentido.

— Bem, não gosto de “grandes detetives” que só começam a deduzir coisas depois que alguém já foi morto. — disse Carr.

Ellery estalou a língua com desdém e continuou.

— E o seu tema de que o anfitrião é o assassino é clichê demais. Com certeza não vai te ajudar a encontrar um “grande criminoso”. Se eu fosse o culpado, teria apenas aproveitado o convite que nos foi enviado.

— Que bobagem! — exclamou Poe, apagando o cigarro meio fumado com violência. — Grandes detetives, grandes criminosos... Vocês não conseguem separar a ficção da realidade? Van, não precisa ouvir maluquice. Vá dormir.

— Maluquice? — o olhar de Carr endureceu e ele bateu o pé. — Quem é o louco?

— Tente usar um pouco de bom senso.

Com uma expressão azeda no rosto, Poe acendeu um novo cigarro.

— Em primeiro lugar, esta discussão é absolutamente inútil. Esta não é a primeira vez que nós sete nos reunimos em algum lugar. Claro que é possível que Van seja o culpado e que nos tenha atraído para cá com a deliciosa isca da Casa Decagonal. Também pode ter sido Ellery ou Leroux, que tiveram a ideia da viagem. Ou você, Carr, pode estar apenas esperando o momento certo para executar seus planos. Se ficarmos apenas discutindo possibilidades, poderíamos continuar por horas.

— Poe tem razão! — disse Agatha. — Essa discussão não vai levar a lugar nenhum.

— Além do mais... — disse Poe, soltando uma baforada de fumaça calmamente. — Todos vocês presumem que aquelas placas indicavam um assassinato, contudo não acham isso um absurdo? Todos nós adoramos o jogo chamado ficção policial e estamos reunidos em uma ilha com uma história sangrenta. Por que não podem apenas considerar aquelas placas como parte do quadro geral?

Poe então discorreu sobre a teoria que havia proposto a Van em seu quarto naquela tarde.

— É isso aí, Poe! — Leroux bateu palmas animadamente.

— Sal no nosso café? — Ellery colocou as duas mãos na cabeça e se recostou na cadeira. — Se terminar com uma simples pitada de sal, tiro o chapéu para o nosso criminoso pelo seu senso de humor.

— Que bom que ainda conseguem ser tão otimistas. — Carr se levantou com um olhar sombrio e voltou furioso para o seu quarto.

Van disse... — Boa noite! — com a voz rouca e então também desapareceu em seu quarto.

— Estou curiosa para saber a identidade do nosso assassino. — Agatha sorriu para Orczy.

— Si-Sim! — respondeu Orczy com os olhos baixos.

Ellery tirou as cartas azuis de baralho do bolso e as espalhou sobre a mesa.

— Muito bem, quem será “a Primeira Vítima”? Este jogo ficou interessante.

Talvez fosse apenas uma fuga do medo. Todos se sentiram aliviados com a teoria de Poe. A ansiedade sufocante que pairava no ar desde a manhã havia se dissipado.

No entanto, havia uma pessoa na ilha que sabia que as palavras nas placas significavam exatamente o que diziam.



Notas:
1. Nécessaire é uma pequena bolsa ou estojo, de origem francesa (significando “necessário”), usada para guardar e organizar itens essenciais como produtos de higiene, maquiagem e acessórios, facilitando seu transporte para o dia a dia.

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