Capítulo 01: O Primeiro Dia na Ilha
Parte 1
— Receio que isto se transforme na mesma velha discussão enfadonha. — disse Ellery.
Ele era um jovem bonito, alto e magro.
— Na minha opinião, a ficção policial é, em sua essência, uma espécie de quebra-cabeça intelectual. Um jogo emocionante de raciocínio na forma de um romance. Um jogo entre o leitor e o grande detetive, ou entre o leitor e o autor. Nada mais, nada menos.
— Então, chega de realismo social cru, por favor. Uma funcionária de escritório é assassinada em um apartamento de um quarto e, depois de gastar as solas dos sapatos em uma investigação minuciosa, o detetive enfim prende o chefe da vítima, que acaba sendo seu amante. Chega disso! Chega da corrupção e dos negócios secretos do mundo político, chega de tragédias causadas pelo estresse da sociedade moderna e coisas do gênero. O que os romances policiais precisam, alguns podem até me chamar de antiquado, é de um grande detetive, uma mansão, um elenco de moradores suspeitos, assassinatos sangrentos, crimes impossíveis e truques nunca antes vistos aplicados pelo assassino. Podem chamar isso de meu castelo no céu, mas estou feliz enquanto puder desfrutar de um mundo assim. Porém sempre de uma maneira intelectual.
Eles estavam em um barco de pesca com cheiro forte de óleo, cercados pelas ondas tranquilas do mar. O motor fazia barulhos preocupantes, como se estivesse se esforçando demais.
— Bem, de minha parte, acho péssimo.
Carr, encostado no parapeito do barco, franziu a testa e empinou o queixo comprido e recém-barbeado.
— Sendo sincero, você e seu “de uma maneira intelectual”, Ellery. Tudo bem se considera a ficção policial um jogo, contudo não suporto vê-lo enfatizar esse “intelectual” toda vez.
— Isto é surpreendente vindo de você.
— É puro elitismo. Nem todo leitor é tão inteligente quanto você.
— É verdade. — disse Ellery com uma expressão impassível. — E é muito lamentável. Percebo muito bem só de andar pelo campus. Nem todos os membros do nosso clube são o que se poderia chamar de inteligentes. Há um ou dois que podem até ter dificuldades de aprendizado.
— Você está tentando arrumar briga?
— Eu não ousaria. — Ellery deu de ombros e continuou.
— Ninguém disse que você era um deles. O que quero dizer com “inteligente” é ter uma certa atitude em relação ao jogo. Não se trata apenas de ser esperto ou estúpido. Nesse quesito, não existe ninguém na face da Terra que não possua pelo menos um mínimo de inteligência. Da mesma forma, não existe ninguém na face da Terra que não goste de jogos. O que estou dizendo é que é preciso ter a capacidade de jogar mantendo uma abordagem intelectual.
Carr bufou e virou o rosto. Um pequeno sorriso zombeteiro surgiu no rosto de Ellery enquanto se virava para o garoto de feições juvenis e óculos redondos que estava ao seu lado.
— Além do mais, Leroux, a ficção policial evoluiu com base em seu próprio conjunto de regras, e se a considerarmos um universo único, na forma de um jogo intelectual, então devemos admitir que, nos tempos modernos, os alicerces desse universo foram severamente enfraquecidos.
Leroux pareceu hesitante. Ellery continuou.
— É um grande problema para os escritores de romances policiais modernos. Policiais diligentes desempenhando suas funções lenta, mas de forma segura; organizações sólidas e eficientes; as técnicas mais recentes em investigação forense: a polícia não pode mais ser considerada incompetente. São quase competentes demais. Sendo realístico, não há mais espaço para as façanhas dos grandes detetives de outrora, com suas pequenas células cinzentas como única arma. O Sr. Holmes seria motivo de chacota se aparecesse em uma de nossas cidades modernas.
— Acho que pode ser um exagero. Um Holmes moderno, adequado aos nossos tempos modernos, sem dúvida aparecerá.
— Tem razão, é claro. Fará sua entrada como um mestre das técnicas mais recentes em patologia e ciência forense. E explicará tudo ao pobre Watson, usando jargões e fórmulas complexas e especializadas que nenhum leitor jamais conseguirá compreender. Elementar, meu caro Watson, você nem sabia disso?
Com as mãos nos bolsos de sua capa de chuva bege, Ellery tornou a dar de ombros.
— Estou apenas levando o argumento ao extremo, entende? Apesar de este ilustrar meu ponto à perfeição. Não tenho a menor vontade de aplaudir a vitória das técnicas policiais pouco românticas sobre a magnífica lógica dos grandes detetives da Era de Ouro. Ainda assim, qualquer autor que deseje escrever uma história policial hoje em dia haverá de se deparar com esse problema.
— E a maneira mais simples de contorná-lo... Ou melhor, digamos que a mais eficaz... É o método do “chalé na nevasca” para criar um ambiente isolado.
— Entendo. — Leroux assentiu e tentou parecer sério. — Então, o que quer dizer é que, de todos os métodos usados na ficção policial clássica, o do “chalé na nevasca” é o mais adequado para os tempos modernos.
Era final de março, quase primavera, embora o vento que soprava sobre o mar seguisse estando frio.
Na Península S, na costa leste da Prefeitura de Oita, em Kyushu, ficava o Cabo J. O barco havia partido do rústico porto da Cidade S, nas proximidades, e seguia em direção ao mar, deixando para trás apenas seu rastro e a visão do cabo desaparecendo no horizonte. Seu destino era uma pequena ilha a cerca de cinco quilômetros do cabo.
Era um dia claro, mas, devido às tempestades de poeira tão típicas da primavera na região, o céu estava mais branco do que azul. A luz do sol que brilhava sobre as ondas ondulantes as tornava prateadas. A ilha se estendia à frente deles, envolta em um véu nebuloso de poeira trazido pelo vento do continente.
— Não vejo nenhum outro barco por aqui.
O homem corpulento, que fumava em silêncio encostado no parapeito do barco em frente a Ellery e os outros, falou de repente. Ele tinha cabelos escuros e despenteados e uma barba rala que cobria a metade inferior do rosto. Era Poe.
— A maré do outro lado da ilha é muito perigosa, então todo mundo evita. — respondeu o pescador idoso, porém enérgico. — Os pontos de pesca por aqui ficam mais ao sul, entende? Então não verá nenhum barco indo na direção da ilha, nem mesmo aqueles que acabaram de sair do cais. Aliás, vocês são uns universitários bem estranhos, não são?
— Será que parecemos mesmo tão estranhos assim?
— Bom, para começar, vocês têm nomes estranhos. Acabei de ouvi-lo usar nomes esquisitos como Lulu e Elroy e outros assim.
— Sim, bem, são meio que apelidos.
— Os universitários têm todos esses tipos de apelidos hoje em dia?
— Não, não é o caso.
— Então são mesmo um bando esquisito, hein?
As duas jovens, à frente do pescador e de Poe, estavam sentadas em uma longa caixa de madeira colocada no centro do barco, que servia como um banco improvisado. Incluindo o filho do pescador, que manejava o leme na parte de trás, o barco comportava oito pessoas.
Os seis passageiros, além do pescador e seu filho, eram todos estudantes da Universidade K, da Cidade O, na Prefeitura de Oita e também membros do Clube de Mistério da universidade. “Ellery”, “Carr” e “Leroux” eram, como “Poe” havia dito, algo como apelidos.
Nem é preciso dizer que os nomes foram inspirados nos escritores de mistério americanos, britânicos e franceses que todos eles tanto respeitavam: Ellery Queen, John Dickson Carr, Gaston Leroux e Edgar Allan Poe. As duas mulheres se chamavam “Agatha” e “Orczy”, sendo os nomes originais completos, é claro, Agatha Christie, a Rainha do Crime, e Baronesa Orczy, conhecida por “O Homem da Casa de Chá”.
— Olhem ali. Já conseguem ver o prédio em Tsunojima. — gritou o pescador.
Os seis jovens se viraram para olhar a ilha que se aproximava cada vez mais.
Penhascos íngremes emergiam do mar, cobertos no topo por uma densa vegetação escura. A ilha tinha três cabos, ou “chifres”, que lhe renderam o nome de Tsunojima, ou “Ilha dos Chifres”.
Como havia penhascos em todos os lados da ilha, o barco só conseguia chegar à costa por uma pequena enseada, razão pela qual a ilha era visitada apenas ocasionalmente por pescadores amadores curiosos. Cerca de vinte anos atrás, alguém se mudou para lá e construiu um prédio estranho chamado Mansão Azul, que agora se encontrava desabitada.
— O que é aquilo no topo do penhasco? — perguntou Agatha, levantando-se do banco improvisado. Ela cerrou os olhos, encantada, enquanto passava uma das mãos pelos longos cabelos ondulados que dançavam ao vento.
— É o anexo que sobreviveu ao incêndio. Ouvi dizer que a mansão principal foi toda destruída pelo fogo. — gritou o pescador por cima do barulho do motor.
— Então essa é a “Casa Decagonal”, hein, senhor? — perguntou Ellery ao pescador. — Já esteve na ilha alguma vez?
— Entrei na enseada algumas vezes para fugir do vento, só que nunca pisei na ilha em si. Nem cheguei perto dela desde o incidente. É melhor vocês também tomarem cuidado.
— Cuidado com o quê? — perguntou Agatha, virando-se.
O pescador baixou a voz.
— Dizem que aparece na ilha.
Agatha e Ellery trocaram um olhar rápido, ambos intrigados com a resposta.
— Um fantasma. Sabe, o fantasma do homem que foi assassinado. Nakamura alguma coisa.
O rosto escuro e enrugado do pescador se contraiu em uma carranca, e então esboçou um sorriso diabólico.
— Ouvi dizer que dá para ver uma figura branca no penhasco ali se passar por aqui num dia chuvoso. É o fantasma daquele cara, o Nakamura, tentando atrair pessoas acenando com as mãos. Tem outras histórias também, como gente que viu uma luz no anexo abandonado, ou fogos-fátuos flutuando perto da mansão incendiada, ou até uma sobre um barco com pescadores que foi afundado pelo fantasma.
— Não adianta, senhor. — Ellery deu uma risadinha. — Não adianta tentar nos assustar com essas histórias. Só vamos ficar mais animados.
A única pessoa entre os seis alunos que pareceu ter ficado com medo, mesmo que um pouco, foi Orczy, que seguia sentada na caixa de madeira. Agatha não pareceu nem um pouco perturbada... Muito pelo contrário.
— Isso é incrível! — murmurou para si mesma, encantada. Ela se virou para a parte de trás do barco. — Ei, essas histórias são mesmo verdadeiras? — perguntou animadamente ao filho do pescador... Ainda um menino, que segurava o leme.
— É tudo mentira. — o garotou lançou um olhar para o rosto de Agatha e, desviando o olhar rapidamente como se estivesse deslumbrado, disse em um tom áspero. — Ouvi os rumores, mas nunca vi um fantasma.
— Nem uma vez? — disse Agatha, desapontada. Entretanto sorriu maliciosamente. — Mesmo assim, não seria tão estranho se houvesse um fantasma. — disse. — Não depois do que aconteceu lá.
Eram 11 horas da manhã de quarta-feira, 26 de março de 1986.
Parte 2
A enseada ficava na costa oeste da ilha.
Era ladeada em ambos os lados por penhascos íngremes. À direita, de frente para a enseada, havia uma superfície rochosa nua de aparência perigosa e essa parede do penhasco, com quase vinte metros de altura, continuava em direção à costa sul da ilha. No lado leste da ilha, onde as correntes eram muito fortes, a parede do penhasco chegava a atingir cinquenta metros de altura. Bem em frente a eles havia uma inclinação íngreme, quase outra parede de penhasco, com estreitos degraus de pedra subindo em ziguezague. Arbustos verde-escuros se agarravam à encosta aqui e ali.
O barco entrou lentamente na enseada.
As ondas lá dentro não eram tão violentas quanto as do mar. A cor da água também era diferente: um verde-escuro intenso.
À esquerda, dentro da enseada, havia um píer de madeira; mais atrás, um galpão de barcos decrépito e em mau estado surgiu à vista.
— Então eu realmente não preciso checar vocês nem uma vez? — perguntou o pescador aos seis enquanto os universitários pisavam no píer que emitia um perigoso ranger. — Acho que os telefones não funcionam aqui.
— Está tudo bem, senhor. — respondeu Ellery. — Temos até um médico em formação aqui. — acrescentou, colocando a mão no ombro de Poe, que fumava um cigarro sentado em uma grande mochila.
O barbudo Poe era um estudante do quarto ano da faculdade de medicina.
— Sim, o Ellery tem razão. — concordou Agatha. — Não é sempre que temos a chance de visitar uma ilha desabitada, e estragaria o clima se alguém ficasse vindo nos visitar.
— Vejo que também têm uma garotinha corajosa aí.
O pescador mostrou seus dentes brancos e fortes enquanto ria e desfazia a corda que estava amarrada a um poste do cais.
— Sendo assim, venho buscá-los na terça-feira da semana que vem, às dez da manhã. Tenham cuidado.
— Obrigado, vamos ter cuidado. Principalmente com fantasmas.
No topo da íngreme escadaria de pedra, a vista de repente se ampliou. Um gramado alto e descuidado parecia ser o jardim da frente de um pequeno prédio com paredes brancas e telhado azul, que se erguia ali convidativo, como se estivesse à espera dos estudantes.
As portas duplas azuis bem à frente deles deviam ser a entrada principal. Alguns degraus levavam à porta.
— Então esta é a Casa Decagonal.
Ellery foi o primeiro a falar, porém, depois de subir a longa escadaria de pedra, estava sem fôlego. Largou sua mochila de viagem bege-camelo no chão e ficou olhando para o céu.
— Agatha, o que você achou?
— Um lugar bastante encantador. — disse Agatha, levando o lenço à testa de pele clara, que brilhava de suor.
Leroux se aproximou em seguida, também sem fôlego. Seus braços estavam cheios de bagagem, incluindo a de Agatha.
— Bem... Eu esperava... Como posso dizer? Algo mais sinistro.
— Nem sempre podemos ter o que queremos. — respondeu Ellery. — Vamos entrar. O Van deveria ter chegado antes de nós, mas não o vejo.
Assim que Ellery terminou de falar, as persianas azuis da janela à esquerda da entrada principal se abriram e um homem apareceu.
— Olá a todos!
E assim Van Dine fez sua aparição, o sétimo membro do grupo de estudantes que iriam dormir e comer nesta ilha, e neste prédio, por uma semana. Seu nome, é claro, foi inspirado em S.S. Van Dine, o pai literário do grande detetive Philo Vance.
— Esperem um segundo, já vou sair. — disse Van com sua voz estranha e rouca, e fechou as persianas. Alguns instantes depois, saiu correndo pela entrada principal.
— Desculpem por não ter encontrado vocês no cais. Parece que estou ficando doente. Estou com um pouco de febre, então fiquei descansando um pouco. Contudo fiquei esperando o barco de vocês chegar.
Van havia chegado antes à ilha para preparar tudo.
— Está ficando doente? Nada sério, espero. — perguntou Leroux com um olhar preocupado, ajeitando os óculos que haviam escorregado pelo nariz suado.
— Não, nada sério... Pelo menos espero que não. Só um resfriado, acredito.
Um arrepio percorreu o corpo esguio de Van, enquanto ria sem jeito.
Guiados por Van, o grupo entrou na Casa Decagonal.
Atravessando as portas duplas azuis, entraram em um grande salão de entrada... Embora logo percebessem que era menor do que parecera à princípio, seu formato irregular criava uma ilusão de ótica à primeira vista. Observando com atenção, perceberam que a parede à sua frente era mais baixa do que a de trás. O salão de entrada tinha o formato de um trapézio, ficando menor à medida que avançavam, com outro conjunto de portas duplas na parede oposta que levava mais para dentro do prédio.
Todos, exceto Van, estavam intrigados com a estranha disposição do cômodo, que brincava com sua percepção de perspectiva, no entanto assim que atravessaram o segundo conjunto de portas e chegaram ao salão principal do prédio, começaram a entender. Eles estavam em uma sala decagonal, cercada por dez paredes, todas da mesma largura.
Para compreender a estrutura da chamada Casa Decagonal, provavelmente é melhor observar uma planta baixa simples.
A característica distintiva da Casa Decagonal é, como o nome indica, que as paredes externas formavam um decágono equilátero. Dentro desse decágono externo, dez blocos separados são dispostos lado a lado, circundando o decágono interno que compõe o salão principal. Em outras palavras, um decágono interno equilátero cercado por dez cômodos trapezoidais de tamanho igual. O salão de entrada pelo qual acabavam de passar era um desses cômodos.
— Bem? Bizarro, não é?
Van, que estava liderando o caminho, virou-se para os outros.
— Aquelas portas duplas ali, em frente à entrada, levam à cozinha. À esquerda ficam o banheiro e o lavabo. Os sete cômodos restantes são os quartos de hóspedes.
— Um prédio decagonal e um salão decagonal.
Enquanto olhava ao redor do interior, Ellery caminhou em direção a uma grande mesa no centro da sala. Ele bateu nela com os dedos.
— Isto também é decagonal. Que surpresa. Será que o assassinado Nakamura Seiji sofria de monomania¹?
— Talvez. — respondeu Leroux. — A mansão principal, que foi incendiada, chamava-se Mansão Azul, e dizem que tudo lá dentro era pintado de azul: os pisos, os tetos e todos os móveis.
O nome da pessoa que se mudou para a ilha e construiu a Mansão Azul há cerca de vinte anos era Nakamura Seiji. E a Casa Decagonal, que era o anexo do prédio principal, também foi construída por ele.
— De toda forma... — disse Agatha para ninguém em particular. — Será que vou conseguir distinguir todos esses cômodos?
A entrada e o portal para a cozinha, do outro lado, tinham portas duplas, ambas decoradas com vitrais emoldurados em madeira lisa. Quando as portas estavam fechadas, não havia como diferenciá-las. As quatro paredes de cada lado de cada conjunto de portas duplas tinham portas que davam para os outros cômodos. Essas portas de madeira lisa também eram difíceis de distinguir. Não havia móveis no salão principal que pudessem servir de guia, então as preocupações de Agatha eram bastante naturais.
— Você tem razão. Eu mesmo me confundi com os quartos várias vezes esta manhã.
Van esboçou um sorriso irônico. Suas pálpebras pareciam inchadas, talvez por causa da febre que havia mencionado.
— Que tal fazer algumas plaquinhas com os nomes e pendurá-las nas portas? Orczy, você trouxe seu caderno de desenho?
Orczy ergueu os olhos ansiosamente ao ouvir seu nome ser chamado.
Era uma mulher pequena. Consciente de sua figura um tanto rechonchuda, sempre usando roupas escuras, embora isso só a fazia parecer fora de moda. Era o completo oposto da brilhante Agatha e sempre desviava o olhar com olhos tímidos. Todavia era muito habilidosa em seu passatempo, pintura tradicional.
— Sim. Eu o tenho comigo. Devo pegá-lo agora?
— Não, pode ser mais tarde. De uma olhada nos seus quartos por enquanto. São todos iguais, então vocês não precisam brigar por eles. Já estou usando este quarto. — Van apontou para uma das portas. — Me deram as chaves, então as deixei nas fechaduras.
— Certo, entendi. — respondeu Ellery, animado.
— Ótimo, acomodem-se e depois vamos explorar a ilha.
Parte 3
Os quartos foram rapidamente divididos.
Contando a partir da entrada principal, Van, Orczy e Poe ocupavam os quartos à esquerda, e Ellery, Agatha, Carr e Leroux, os da direita.
Depois que os seis desapareceram em seus quartos com suas bagagens, Van encostou-se à porta do seu próprio quarto, tirou um cigarro Seven Stars de seu casaco de penas cor marfim, colocou-o na boca e encarou o corredor decagonal pouco iluminado.
As paredes eram de gesso branco. O chão era coberto com ladrilhos azuis grandes e, ao contrário da maioria das casas japonesas, era possível entrar de sapatos. O teto se elevava diagonalmente a partir das dez paredes e, no centro, havia uma claraboia decagonal, de onde a luz beijava as vigas expostas antes de incidir sobre a mesa decagonal branca. Dez cadeiras com tecido azul cobrindo sua estrutura de madeira branca rodeavam a mesa. Essas eram as únicas decorações no cômodo, além do abajur redondo pendurado nas vigas como um pêndulo.
Não havia eletricidade. A luz natural proveniente da claraboia era a única fonte de iluminação, razão pela qual, mesmo durante o dia, uma atmosfera misteriosa permeava o salão.
Depois de um tempo, Poe, vestido com jeans desbotados e uma camisa azul clara, saiu languidamente do quarto.
— Hoh, você é rápido. Espere um pouco, vou fazer um café agora.
Com o cigarro meio fumado entre os dedos, Van foi até a cozinha. Como cursava o terceiro ano da faculdade de ciências, significava que era um ano mais novo que Poe, que cursava o quarto ano de medicina.
— Obrigado. Deve ter sido um transtorno trazer as coisas grandes, como os cobertores.
— Nem um pouco. Algumas pessoas me ajudaram.
Agatha também apareceu na porta, ocupada prendendo o cabelo comprido com um lenço.
— Estes quartos são bem bons, Van. Esperava algo muito pior... Café? Eu faço.
Agatha se adiantou alegre na cozinha, onde viu um pote de vidro com um rótulo preto sobre a bancada.
— Café instantâneo?
Pegou o pote com uma expressão de desagrado e o sacudiu.
— Não seja exigente. — respondeu Van. — Não estamos num hotel resort, estamos numa ilha deserta.
Agatha fez beicinho com seus lábios rosados.
— E a comida?
— Na geladeira. No entanto não está funcionando, já que a eletricidade e as linhas telefônicas caíram no incêndio. Espero que não tenha problema.
— Ah, bem, deve durar. Tem água né, espero?
— Sim, já liguei a água. Também liguei o botijão de gás propano que trouxe, então pode usar o aquecedor a gás e a caldeira. Não recomendo, mas você pode até usar a banheira.
— Ótimo. Hum, ainda tem algumas panelas e utensílios de mesa, pelo que vejo. Ou você trouxe também?
— Não, já estavam aqui. Três facas de cozinha também. Porém tem bastante mofo nesta tábua de cortar.
Timidamente, Orczy se juntou aos demais.
— Orczy, venha ajudar também. — disse Agatha com firmeza. — Por sorte, tem muita coisa aqui, só que precisamos limpar tudo primeiro.
Agatha deu de ombros e tirou sua jaqueta de couro preta. Ela se virou para Van e Poe, que estavam atrás de Orczy, espiando a cozinha.
— Se vocês não vão nos ajudar, por favor, vão embora. Vão explorar a ilha ou algo assim. Vocês não vão tomar café antes de terminarmos.
Colocando as mãos na cintura, ela os encarou. Van sorriu sem graça e se retirou, junto com Poe.
— E não se esqueçam das plaquinhas de identificação. — gritou Agatha atrás deles. — Não vou deixar que entrem nos nossos quartos enquanto estivermos nos trocando!
A essa altura, Ellery e Leroux também já tinham saído de seus quartos para o corredor.
— Expulsos pela Rainha, pelo visto! — disse Ellery, rindo.
— Bingo! — respondeu Van.
— Então sugiro que sigamos as ordens de Sua Majestade e demos uma volta na ilha!
— Essa deve ser a melhor opção... Espera, onde está o Carr? Ainda no quarto?
— Ele saiu. Sozinho. — disse Leroux, lançando um olhar para a entrada.
— Já? — perguntou Poe.
— Ele gosta de se fazer de difícil. — disse Ellery, com ironia.
Uma fileira de pinheiros altos crescia ao norte da Casa Decagonal. Havia uma interrupção na fileira, e os galhos dos pinheiros negros de ambos os lados se conectavam, formando um arco, pelo qual os quatro passaram para chegar às ruínas da Mansão Azul.
Tudo o que restava no local eram as fundações, junto com alguns blocos de pedra sujos. O jardim frontal desolado havia sido coberto por uma espessa camada de cinzas negras, e a visão das árvores ao redor, chamuscadas pelo fogo e apodrecendo onde estavam, era impressionante.
— Foi toda destruída pelo fogo. Deve ter sido um incêndio tremendo. — disse Ellery, soltando um suspiro enquanto observava a cena desoladora.
— Não sobrou nada. — acrescentou Van.
— Então, Van, esta também é a sua primeira visita? — perguntou Ellery.
Van assentiu.
— Meu tio me contou muito sobre a ilha, contudo hoje é a primeira vez que estou aqui. Tive que carregar toda a bagagem esta manhã e, com a febre, achei melhor não explorar a ilha sozinho.
— Sensato. No entanto não sobrou nada além de cinzas e tijolos.
— Acho que um cadáver teria te deixado feliz, Ellery? — Leroux sorriu.
— Deixa pra lá. Isso é mais a sua cara, não é?
Uma pequena trilha se abria para um pinhal a oeste. Levava direto aos penhascos. Do outro lado do vasto mar azul, eles conseguiam distinguir a sombra negra que era o Cabo J.
— O tempo está ótimo hoje. O mar está quase tranquilo.
Ellery se virou para o mar e se espreguiçou. Envolvendo as mãos na barra de seu moletom amarelo, Leroux também virou seu pequeno corpo em direção ao mar.
— Tem razão, Ellery. — concordou Leroux. — É quase inacreditável que apenas seis meses atrás, neste mesmo lugar, tenha ocorrido um incidente tão horrível...
— Horrível... Essa é a palavra. Um misterioso quádruplo homicídio, bem aqui na casa de Nakamura Seiji, a Mansão Azul.
— Estou bastante acostumado com quíntuplos, até mesmo décuplo homicídios em livros, no entanto este foi real e aconteceu relativamente perto também. De alguma forma, o fato de Nakamura ser um sobrenome tão comum tornou todo o incidente mais estranho. Fiquei muito chocado quando vi no noticiário. — disse Leroux com um arrepio.
— Se não me engano, aconteceu na madrugada do dia 20 de setembro? Um incêndio começou e o prédio foi todo destruído. Quatro corpos foram encontrados nos escombros: o de Nakamura Seiji, o de sua esposa Kazue e os corpos do casal de empregados que moravam lá. — Ellery continuou, com a voz calma e distante.
— Uma quantidade significativa de sonífero foi encontrada nos quatro corpos, entretanto a polícia também descobriu que não morreram pela mesma causa. Os dois empregados foram amarrados com corda em seus quartos e tiveram suas cabeças esmagadas com um machado. O chefe da família, Seiji, foi encharcado com querosene e queimado vivo. Sua esposa, Kazue, que foi encontrada no mesmo quarto, foi estrangulada com um objeto semelhante a uma corda. Além do mais, sua mão esquerda foi cortada no pulso com um instrumento afiado. A mão não foi recuperada dos escombros do incêndio. Acho que esses foram os principais pontos do caso, Leroux?
— Acho que também havia um jardineiro que desapareceu.
— Ah, tem razão. A polícia não conseguiu encontrar o jardineiro, que supostamente havia chegado à ilha alguns dias antes para trabalhar lá. Parece ter desaparecido por completo.
— Sim.
— Há duas versões a respeito. Uma é que o jardineiro era o assassino e por isso desapareceu. A outra é que outra pessoa era o assassino, e há outra explicação para o seu desaparecimento. Por exemplo, o jardineiro pode ter estado fugindo do assassino e acabado caindo por acidente do penhasco e sido levado pela correnteza.
— A polícia parece ter optado pela teoria de que o “jardineiro é o assassino”. Apesar que não sei quais foram os resultados das investigações posteriores. O que acha do caso, Ellery?
— Bom. — Ellery afastou uma mecha de cabelo que ondulava com o vento que soprava do mar. — Infelizmente, temos poucos dados. Tudo o que sabemos são as informações que nos foram dadas nos poucos dias em que a mídia estava em cima do caso.
— Não é típico seu estar tão inseguro.
— Qualquer um deveria estar. É fácil elaborar uma hipótese razoável, todavia há poucos dados para provar qualquer teoria e declarar um culpado. Neste caso específico, a investigação policial também foi conduzida de forma bastante inadequada. Mas, por outro lado, isto é tudo o que restou da cena do crime. E não havia outros sobreviventes na ilha. É bastante natural que a polícia considere o jardineiro desaparecido o criminoso.
— Verdade.
— Então a verdade está escondida sob essas cinzas.
Ellery se virou e caminhou de volta para os blocos de pedra restantes, pegando um pedaço de madeira. Agachando-se, olhou para o que havia embaixo.
— O que foi? — perguntou Leroux, intrigado.
— Não seria interessante se eu tivesse encontrado a mão da esposa aqui? — disse Ellery com a maior seriedade. — Ou talvez encontremos o esqueleto do jardineiro sob o piso da Casa Decagonal.
— Está louco! — interrompeu Poe, que ouvira a conversa em silêncio. Sua mão acariciou a barba, parecendo preocupado. — Você tem um senso de humor bastante peculiar, não é, Ellery?
— Concordo... — acrescentou Leroux. — É como vocês disseram no barco: se algo acontecesse nesta ilha amanhã, seria como o “chalé na nevasca” que Ellery tanto ama. Como ele ficaria feliz se houvesse uma série de assassinatos como em “E Não Sobrou Nenhum”.
— E seria o primeiro a ser morto.
Poe falava muito pouco, mas às vezes soltava algumas palavras duras.
Leroux e Van se entreolharam e riram.
— Uma série de assassinatos em uma ilha remota. Parece perfeito. — disse Ellery com elegância. — Justo o que precisamos. E então assumo o papel de detetive. E aí? Alguém quer desafiar a mim, Ellery Queen?
Parte 4
— Quando se trata de algo assim, nós, mulheres, sempre levamos a pior, não é? Eles acham que somos suas empregadas. — resmungou Agatha enquanto lavava a louça rapidamente. Orczy ficou ao seu lado, observando os dedos brancos e flexíveis que trabalhavam com agilidade, até perceber que não estava fazendo nada.
— Vamos colocar os meninos para trabalhar na cozinha também. Eles não devem pensar que estão livres só porque nós duas estamos aqui. Não concorda?
— É, s-sim.
— Seria divertidíssimo ver o Ellery usando um avental e segurando uma concha com aquela expressão indiferente. Até que ficaria bonitinho.
Agatha riu com alegria. Orczy lançou um olhar rápido para seu belo perfil e suspirou.
Um rosto radiante com um nariz bem torneado. Olhos realçados por um leve toque de sombra violeta. Cabelos longos e ondulados bem cuidados.
Agatha era sempre alegre e confiante. Parecia gostar dos olhares que recebia dos homens que a rodeavam por sua beleza glamorosa.
Comparada a ela, eu sou apenas...
Um nariz pequeno e redondo. Bochechas vermelhas infantis cobertas de sardas. Olhos grandes e expressivos, porém não estavam em harmonia com o resto do rosto, o que lhe dava uma constante expressão ansiosa. Mesmo que pudesse usar maquiagem como Agatha, sabia que não combinaria. Detestava sua própria timidez, sua preocupação constante e o fato de que, apesar de tudo, também era muito alheia ao que acontecia ao seu redor.
Sempre fora assim. Agatha e ela, como as únicas mulheres do grupo, sempre acabavam juntas, e aquilo incomodava Orczy.
Não deveria ter vindo, ela até começou a pensar.
Nunca quisera vir a esta ilha. Parecia... Desrespeitoso. Contudo também fora tímida demais para recusar o convite dos amigos.
— Orczy, que anel lindo! — disse Agatha, olhando para o dedo médio da mão esquerda de Orczy. — Você sempre o teve?
— Não.
— Foi um presente de alguém especial?
— Não, nada disso.
Orczy havia refletido bastante antes de decidir vir à ilha. A viagem não era uma intromissão: estava prestando suas homenagens. “Vou à ilha para prestar minhas homenagens aos mortos. E era por isso que eu precisava vir.”
— Orczy, você é sempre assim, não é?
— O quê?
— Sempre guardando seus pensamentos para si mesma. Nos conhecemos há dois anos e sinto como se não soubesse quase nada a seu respeito. Tudo bem, claro, mas mesmo assim, é tão estranho.
— Estranho?
— Sim. Às vezes me sinto desse jeito quando leio as histórias que você escreve para a revista do clube. Há sempre essa atmosfera animada e vibrante em suas próprias histórias.
— Porque esse é um mundo fictício.
Orczy desviou o olhar de Agatha e sorriu sem jeito.
— Não me dou muito bem com a realidade. Não gosto muito de mim mesma.
— Do que está falando? — Agatha riu e passou os dedos pelos cabelos curtos e bem penteados de Orczy. — Precisa ter mais autoconfiança. Sabe, você é bonita. Só não sabe disso. Pare de ficar olhando para os seus pés o tempo todo e tenha orgulho de si mesma.
— Obrigada, Agatha. Você é muito gentil.
— Vamos limpar essa bagunça rapidinho e almoçar, ok?
Ellery, Leroux e Van seguiam no que restava da Mansão Azul. Poe tinha ido sozinho para o bosque do outro lado das ruínas.
— Escutem, Ellery, e você também, Van... — começou Leroux. — Vamos ficar aqui por sete dias, então gostaria muito de pedir uma coisa... — Por trás de seus óculos redondos de aro prateado, que ele próprio não achava nada engraçados, os olhos de Leroux brilhavam. — Não estou pedindo cem páginas, porém pelo menos cinquenta.
— Diz que está brincando, Leroux?
— Estou sempre falando sério, Ellery.
— Contudo é totalmente inesperado. Não viemos aqui para escrever, não concorda, Van?
— Concordo com o Ellery.
— Já expliquei isso para vocês antes. Quero publicar a nova edição da Dead Island um pouco mais cedo do que o normal, por volta de meados de abril. Podemos usá-la para atrair novos membros, e também seria uma edição especial para comemorar o décimo aniversário do nosso Clube de Mistério. Serei o novo editor-chefe em breve, então quero me dedicar ao máximo. Não posso lançar uma revista de clube qualquer como primeira edição no meu novo cargo.
Leroux, um estudante de literatura do segundo ano, assumiria o cargo de editor-chefe da revista do clube, Dead Island, a partir de abril.
— Mas, Leroux...
Ellery tirou um maço novo de cigarros Salem do bolso de sua camisa vinho e removeu o lacre. Ellery estava no terceiro ano de Direito. Também era o atual editor-chefe da Dead Island.
— Carr é quem terá de bajular. Não vou comentar sobre a qualidade do seu trabalho, no entanto é ele o escritor mais produtivo do Clube de Mistério. Desculpe. Van, tem um isqueiro?
— Não é comum vocês dois brigarem tão feio. — disse Van.
— Não foi minha culpa. Foi o Carr que começou.
— Agora que mencionou, o Carr parece estar de mau humor mesmo. — concordou Van.
Ellery deu uma risadinha e soltou a fumaça pela boca.
— Tem motivos para estar.
— Hã, por quê?
— Há um tempo atrás, o nosso pobre Carr deu em cima da Agatha e foi imediatamente rejeitado.
— Ele tentou algo com a Dama Agatha? Wow, quanta coragem.
— E... Acho que pode ter sido por despeito, porém também tentou a sorte com a Orczy, entretanto nem ela estava interessada.
Van franziu a testa.
— Orczy também? — murmurou.
— E assim, nosso grande escritor não está nada contente. — concluiu Ellery.
— Bem, é claro que não estaria contente. — concordou Leroux. — Junto sob o mesmo teto com as duas garotas que o rejeitaram.
— Exatamente. Portanto, meu caro Leroux, se quer algo de Carr, terá de ser bom de lábia.
Naquele momento, eles viram Agatha vindo da direção da Casa Decagonal. Ela parou sob o arco de pinheiros negros e acenou para os três homens.
— O almoço está pronto... Onde estão Poe e Carr? Vocês não estavam juntos?
O pequeno caminho levava ao pinhal atrás da Casa Decagonal.
Ele havia começado a caminhar por ali para dar uma olhada nos penhascos da costa leste, contudo o caminho tinha se tornado cada vez mais estreito à medida que avançava. Também era cheio de curvas e contracurvas, então não tinha percorrido nem cinquenta metros quando perdeu o senso de direção.
Estava escuro e sombrio sob os pinheiros. Os longos brotos de bambu sasa que cresciam entre as árvores se agarravam às suas roupas a cada passo, e o chão era irregular. Por várias vezes quase tropeçou.
Considerou voltar, no entanto também não estava com vontade. Era uma ilha pequena. Não havia como se perder.
A gola da blusa de gola alta preta que usava por baixo da jaqueta estava encharcada de suor, entretanto continuou. Quando já estava ficando insuportável, o caminho por fim o levou para fora do bosque.
Havia chegado no topo dos penhascos. O reflexo brilhante da água ofuscou seus olhos. Um homem grande já estava parado no topo do penhasco, olhando para o mar... Era Poe.
— Hmm? Ah, é você, Carr.
Poe se virou ao ouvir os passos, todavia quando viu que se tratava de Carr, voltou a olhar para o mar.
— Esta é a costa norte. Acho que aquela ali é a Ilha do Gato. — comentou, apontando para algumas rochas que se projetavam das ondas.
Considerando seu tamanho, mal podia ser chamada de ilha. Apenas alguns arbustos cresciam em sua superfície árida. Como o nome sugeria, lembrava um animal escuro agachado no mar.
— Qual é o problema, Carr? Por que essa cara triste?
— Estou começando a me arrepender de ter vindo aqui. — disse Carr, franzindo a testa. — Só porque algo aconteceu aqui no ano passado não significa que haja algo interessante aqui agora. Vim na esperança de que estimulasse minha imaginação, mas só de pensar que ficarei olhando para esses mesmos rostos todos os dias durante uma semana inteira... Imagino que também esteja com essa mesma cara triste.
Assim como Ellery, Carr era um estudante de direito do terceiro ano. Porém como Carr havia sido reprovado nos exames de admissão da universidade em seu primeiro ano, tinha a mesma idade de Poe, que era um ano mais avançado.
Carr tinha altura e porte físico médios. Embora parecesse menor do que era porque se curvava e tinha um pescoço curto.
— E o que está fazendo sozinho num lugar como este? — perguntou.
— Nada em particular.
Poe cerrou os olhos, seus pequenos olhos espiando por baixo das sobrancelhas grossas. Tirou um cigarro da cigarreira de madeira de bétula que pendia de sua cintura e o colocou na boca. Estendeu a cigarreira para Carr.
— Quantas caixas você trouxe? Oferecendo cigarros para os outros assim, sendo que você mesmo é um fumante inveterado.
Poe deu de ombros.
— O suficiente. Eu só gosto de fumar. Mesmo estudando medicina.
— E sempre cigarros Lark. Não é uma marca para intelectuais.
Apesar desse comentário, Carr ainda aceitou a oferta.
— Contudo pelo menos são melhores do que os mentolados do jovem Mestre Ellery.
— Carr, não deveria deixar o Ellery te afetar o tempo todo. Suas brigas afetam a todos nós, sabia? Mesmo se tentar brigar com ele, ele só vai rir e tirar sarro por isso.
Carr usou seu próprio isqueiro no cigarro e se virou.
— Olha quem fala.
Poe não pareceu se importar. Apreciava seu cigarro em silêncio.
Depois de um tempo, Carr jogou seu cigarro Lark meio fumado no mar. Sentou-se em uma pedra próxima e tirou um frasco de uísque. Tirou a tampa com um puxão e tomou um gole.
— Bebendo durante o dia?
— Não é da sua conta.
— Não posso dizer que aprovo.
O tom de Poe tornou-se severo.
— Você realmente deveria beber menos, sabia? Não só durante o dia...
— Hah. Você ainda está pensando nisso?
— Sim, então como pode ver...
— Não, não vejo. Quanto tempo já se passou? Não podemos ficar pensando no que aconteceu.
Ignorando o olhar silencioso e reprovador de Poe, Carr tomou outro gole.
— Não é só o Ellery que me deixou chateado. De quem foi a ideia de trazer mulheres para cá, para uma ilha desabitada?
— Pode até estar desabitado, mas não estamos em uma viagem de sobrevivência.
— Hmm. Ainda assim, não gosto de ficar confinado com alguém tão arrogante quanto a Agatha. E tem a Orczy também. Nós sete nos tornamos, de alguma forma, o que se poderia chamar de “um grupo unido” nesses últimos dois anos, então não posso dizer na frente de todo mundo, porém aquela garota é pura melancolia, sem nenhuma qualidade redentora e, para piorar, totalmente insegura.
— Agora está sendo injusto.
— Ah, claro. Esqueci que você e a Orczy são amigos de infância.
Com um ar de desagrado, Poe jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé. Em seguida, como se tivesse acabado de se lembrar de algo, olhou para o relógio de pulso.
— Já é uma e meia. Se não voltarmos logo, não vamos almoçar.
— Antes de comermos, tenho um anúncio a fazer. — usando óculos delicados, dourados e de lentes lisas, Ellery discursou para o grupo.
— Nosso próximo editor-chefe tem algo a nos dizer.
O almoço já estava posto na mesa decagonal. Bacon e ovos, uma salada simples, baguetes e café.
— Hmm, desculpe por atrasar a refeição. — disse Leroux, levantando-se da cadeira. — Gostaria apenas de me apresentar como o novo editor-chefe... — ele parou e tossiu para limpar a garganta antes de continuar.
— Conversamos sobre ir à Casa Decagonal na festa de Ano Novo do clube. Claro, ninguém imaginava que naquela época que de fato fosse acontecer. Contudo então Van nos contou que seu tio havia se tornado dono da ilha e nos ofereceu o generoso convite para visitá-la.
— Não foi como se eu tivesse convidado vocês. — objetou Van. — Apenas disse que poderia perguntar ao meu tio, se vocês quisessem vir.
— Não seja modesto. Enfim, como todos sabem, o tio do Van é corretor de imóveis na Cidade S. Também é um empreendedor talentoso e tem grandes planos para transformar Tsunojima em um resort de férias para jovens. Certo, Van?
— Não acho que seus planos sejam tão ambiciosos assim.
— Bem, de qualquer forma, estamos aqui hoje também como uma espécie de grupo de teste. Van veio aqui esta manhã para fazer os preparativos para nossa estadia, então precisamos agradecê-lo primeiro. Todos nós apreciamos o gesto. — Leroux fez uma profunda reverência à Van.
— E agora, para o meu anúncio principal...
— O bacon com ovos está esfriando. — interrompeu Agatha.
— Estou quase terminando... Ah, que diferença faz, a comida vai esfriar. Por favor, almocem enquanto falo.
— O talento de todos os presentes foi reconhecido pelos veteranos do nosso clube, que já se formaram, e nós sete herdamos seus nomes. Esta é uma reunião do núcleo do nosso Clube de Mistério.
Era tradição do Clube de Mistério da Universidade K, desde a sua fundação, que os membros se chamassem por apelidos. Dez anos atrás, os membros fundadores decidiram dar a todos nomes retirados de escritores famosos da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, uma ideia que nasceu da infantilidade inata dos fãs de romances policiais. Claro que, com novos membros ingressando a cada ano, cada vez menos nomes estavam disponíveis. A solução para esse problema foi a “herança”, um sistema pelo qual os membros graduados passavam seus nomes para um membro júnior de sua escolha.
Com o tempo, os sucessores dos nomes passaram a ser escolhidos com base em suas contribuições para a revista do clube. Portanto, os sete presentes, que carregavam os nomes dos escritores de mistério mais famosos, eram considerados o núcleo do clube e frequentemente se reuniam em diversas ocasiões.
— Nós, membros principais, ficaremos aqui nesta ilha por uma semana a partir de agora, sem nada para nos distrair. Sugiro que todos aproveitemos bem este tempo. — Leroux olhou ao redor da mesa. — Trouxe papel para escrever e gostaria de pedir a cada um de vocês que escrevesse uma história para a próxima revista do clube, em abril.
— Ah! — exclamou Agatha. — Então é por isso que você trouxe tanta bagagem. Estava planejando nos pegar de surpresa!
— Sim, esse é o meu plano. Por favor, escreva alguma coisa, Agatha, e você também, Orczy.
Leroux fez uma leve reverência e acariciou as bochechas redondas, dando uma risadinha. Parecia um boneco fukusuke² da sorte, só que de óculos. Sorrisos amargos surgiram nos rostos do resto do grupo.
— Você só vai receber histórias de “assassinato em uma ilha remota”, Leroux. O que fará então? — perguntou Poe.
— Nesse caso direi que esse é o tema desta edição. — disse Leroux desafiadoramente, estufando o peito. — Melhor ainda, vamos começar com esse tema desde o início. Seria ainda melhor. O título da revista, Dead Island³, foi tirado da primeira tradução japonesa da obra-prima da Dama Agatha.
— Receio que tenhamos subestimado nosso novo editor-chefe. — sussurrou Ellery para seu vizinho, Van.
Parte 5
O primeiro dia terminou sem incidentes.
O grupo não tinha outros compromissos além de trabalhar nas histórias que Leroux havia pedido. Eram, em sua maioria, pessoas solitárias, de maneira que, conforme a noite se aproximava, cada um seguiu seu próprio caminho.
— Ellery, o que está fazendo com essas cartas de baralho sozinho? — perguntou Agatha, saindo do quarto. O lenço amarelo-vivo que prendia seus longos cabelos contrastava com a combinação monocromática de blusa branca e calça de couro preta.
— Ah, só uma coisinha com a qual tenho brincado ultimamente.
— Brincando com o quê? Deixe-me adivinhar: adivinhação?
— Só pode estar brincando. Não me interesso por essa bobagem.
Ele embaralhou as cartas na mesa decagonal e continuou.
— Truques de mágica, é claro.
— Mágica com cartas?
Por um segundo, Agatha pareceu confusa, no entanto logo assentiu com um olhar compreensivo.
— Entendo. É bem o tipo de coisa que você gosta.
— Por quê? O que quer dizer?
— Quero dizer que você gosta de desconcertar as pessoas!
— Você fala como se fosse algo ruim.
— É mesmo? — Agatha riu. — Então me mostre algo. Nunca vi muitos shows de mágica.
— Que surpresa. É raro alguém que se interessa por romances policiais não se interessar também por truques de mágica.
— Não é que não me interesse. É que não tive muitas oportunidades de ver. Vamos, me mostre.
— Certo. Venha aqui e sente-se.
O sol estava se pondo, deixando o salão da Casa Decagonal em um crepúsculo. Agatha sentou-se na cadeira em frente a Ellery. Este juntou suas cartas, arrumou-as sobre a mesa e tirou outro baralho do bolso do casaco.
— Aqui tenho dois baralhos com versos diferentes: um vermelho e um azul. Nós dois usaremos um baralho cada um. Qual gostaria de usar?
— Azul! — respondeu Agatha imediatamente.
— Certo. Fique com estas cartas.
Ellery passou o baralho azul para a outra pessoa do outro lado da mesa.
— Primeiro, veja se não há nada de estranho nelas e depois embaralhe-as como quiser. Eu embaralho as vermelhas.
— Certo. Parecem cartas comuns para mim. Dos Estados Unidos?
— Cartas de baralho com o verso desenhado por um ciclista. Há uma ilustração de um anjo andando de bicicleta no verso, consegue ver? São o tipo de carta mais popular por lá.
Ellery colocou seu baralho cuidadosamente embaralhado sobre a mesa.
— Agora vamos trocar os baralhos. Você me dá o azul e te dou o vermelho. Certo. Em seguida, pegue uma carta do baralho e memorize-a. Também vou pegar uma carta do seu baralho e a memorizo.
— Qualquer carta que eu quiser?
— Sim. Terminou? Agora coloque a carta de volta no topo do baralho. E agora corte o baralho uma vez, assim como fiz. Agora a metade de baixo do baralho foi trocada com a metade de cima. Sim, sim, desse jeito. Repita mais duas ou três vezes.
— Estou fazendo certo?
— Está perfeito. E agora trocamos nossos baralhos mais uma vez.
O baralho azul voltou para as mãos de Agatha. Ellery olhou diretamente nos olhos dela e perguntou.
— Tudo bem? Então, resumindo o que acabamos de fazer: cada um de nós pegou uma carta de um baralho embaralhado, memorizou a carta, devolveu-a e embaralhamos o baralho de novo.
— Sim.
— Agora, Agatha, por favor, pegue a carta que memorizou do seu baralho e coloque-a virada para baixo sobre a mesa. Vou pegar a minha carta deste baralho.
Duas cartas, uma vermelha e uma azul, apareceram sobre a mesa. Ellery respirou fundo e então pediu a Agatha que virasse as duas cartas.
— Ah... Como?
Agatha gritou de surpresa. As cartas eram do mesmo naipe e número.
— O Quatro de Copas! Como sabia?
Ellery riu satisfeito.
— Truque bacana, não acha?
Depois que o sol se pôs, a antiga lamparina a óleo que ficava no centro da mesa decagonal foi acesa. Van a havia trazido, sabendo que não havia eletricidade na casa. Também havia trazido várias velas grossas para cada um dos quartos de hóspedes.
Já passava das sete quando eles terminaram o jantar.
— Ellery, por que não explica o truque de mágica que acabou de fazer? — disse Agatha, com a mão no ombro dele. Ela acabara de trazer café para todos.
— Não adianta ficar me pressionando. É tabu revelar truques de mágica. É aí que a mágica difere da ficção policial. Não importa o quão misterioso seja o truque, só vai te decepcionar quando descobrir como este é simples.
— Então Ellery te mostrou um dos seus truques, hein? — interrompeu Leroux.
— Ah, então você também sabe da mágica do Ellery!
— Sabe? Tenho sido sua cobaia o mês inteiro. Tive que manter segredo até que melhorasse. Ele pode ser bem infantil às vezes.
— Leroux! — reclamou Ellery.
— Qual truque mostrou para ela? — perguntou Leroux.
— Só um ou dois simples.
— Então eram simples? — Agatha ficou irritada. — Sendo assim não tem problema me contar como são feitos, certo? Continue.
— É justamente por serem tão simples que não posso explicar como foram feitos. O primeiro que lhe mostrei, em particular, é muito elementar, até crianças conseguem aprender. Entretanto a mágica não se resume ao truque, trata-se de performance e de desviar a atenção.
— Performance?
— Sim. Por exemplo...
Ellery pegou sua xícara e tomou um gole de seu café preto.
— Há uma cena no filme ‘Magic’ em que Anthony Hopkins, que interpreta um mágico, realiza quase o mesmo truque para seu antigo amor. Todavia no filme não é apresentado como um truque de mágica normal, e sim como um experimento de percepção extrassensorial. O mágico seduziu a moça dizendo que, se fossem almas gêmeas, escolheriam a mesma carta.
— Oh. E você não tinha a intenção de me seduzir com o mesmo truque?
— Não ousaria! — disse Ellery, dando de ombros e tentando esboçar um sorriso. — Por azar, no momento, não tenho coragem de seduzir nossa rainha.
— Que jeito engraçado de o dizer.
— Obrigado. Aliás... — Ellery ergueu a xícara de café que segurava e a encarou com atenção. — Mudando de assunto: sobre aquele Nakamura Seiji de quem estávamos falando hoje à tarde, você sabia que ele tinha mais do que a sua cota de obsessões? Me arrepiei quando olhei bem para esta xícara mais cedo.
Era uma xícara verde-musgo chique, parte da louça que havia sido deixada na cozinha. Mas era o seu formato que é significativo. Assim como o prédio, esta xícara também é decagonal.
— É provável que as tenha mandado fazer sobre encomenda. Este cinzeiro e os pratos que usamos são todos iguais. Tudo é decagonal. Alguma ideia, Poe?
— Nenhuma.
Poe colocou o cigarro meio fumado no cinzeiro.
— Claro, é excêntrico, porém sabe como são os ricos. Adoram brincar.
— Só os ricos brincando, hein? — Ellery apertou a xícara com as duas mãos e olhou atentamente para dentro. Embora fosse decagonal, seu tamanho pequeno a fazia parecer quase redonda a olho nu.
— De qualquer forma... — prosseguiu. — Acho que valeu a pena vir até esta ilha, mesmo que seja só por esta Casa Decagonal. Quase quero fazer um brinde àqueles que morreram aqui.
— Ellery! — disse Agatha. — A Casa Decagonal pode ser um sucesso para todos, contudo não há mais nada na ilha. Apenas um monte de pinheiros sombrios.
— Você está equivocada. — interviu Poe. — Há um trecho rochoso sob os penhascos a oeste das ruínas, e uma escadaria, então podemos chegar até o mar. Talvez eu consiga pescar um pouco.
— Agora que mencionou... — disse Leroux. — Notei que você carregava alguns equipamentos de pesca mais cedo. Com sorte, poderemos comer peixe fresco amanhã.
Ele lambeu os lábios.
— Não espere muito de mim. — riu Poe, acariciando a barba.
— Você viu que há algumas cerejeiras em flor bem atrás desta casa? — continuou ele. — Os botões estão maduros, então elas podem florescer em alguns dias.
— Que maravilha! — exclamou Agatha. — Vamos fazer uma festa para admirar as flores de cerejeira, então!
— Parece ótimo! — concordou Leroux.
— Flores de cerejeira, hein? — disse Ellery. — O que será que as flores de cerejeira têm de tão especial na primavera no Japão? Na minha opinião, acho que as flores de pêssego e ameixa são muito mais agradáveis aos olhos.
— É só a sua tendência de nunca ser como ninguém. — retrucou Leroux.
— É mesmo? Sabia que nossos ancestrais mais ilustres preferiam a ameixa à cereja, Leroux?
— Sério?
— Claro. Acho que estou certo. Orczy?
Orczy estremeceu com o choque de ser interpelada de repente. Seu rosto corou e ela assentiu hesitante.
— Bem? — incentivou Ellery. — Gostaria de explicar?
— Sim... Tudo bem. — gaguejou Orczy. — Nos poemas do Manyōshū4, a ameixeira e a grama-prateada-do-Amur são as plantas mais mencionadas. Há mais de cem poemas sobre cada uma delas, contudo apenas cerca de quarenta sobre a flor de cerejeira.
Tanto Orczy quanto Leroux eram estudantes do segundo ano de literatura. Sua especialização era literatura inglesa, no entanto ela também tinha conhecimento sobre literatura clássica japonesa.
— Que interessante, nunca ouvi falar disso. — disse Agatha, impressionada. Como estudante do terceiro ano de farmácia, não sabia nada sobre o assunto. — Conte-nos mais, Orczy.
— T-Tudo bem. — respondeu Orczy sem muita convicção. — Durante o período em que o Manyōshū foi compilado, a tendência era imitar o continente... A China, então pode ter sido um reflexo das preferências chinesas. O número de poemas sobre flores de cerejeira só aumentou após a criação do Kokin Wakashū5... Mas muitos deles eram sobre a queda das flores.
— O Kokin Wakashū, então significa o período Heian, suponho? — perguntou Ellery.
— Foi durante o reinado do Imperador Daigo. Início do século X...
— Será que foi por causa da visão de mundo pessimista daquela época que havia muitos poemas sobre flores caindo?
— Acredito que sim. O período em que as flores de cerejeira começam a cair também é a estação em que as epidemias prosperam. Dizem que as flores de cerejeira atraem doenças, então costumavam realizar o festival Hanashizume toda primavera para afastar as doenças. Então pode ter alguma relação com isso... — Orczy parou de falar.
— Entendo.
— O que há de errado com você, Van? — disse Poe. — Está tão quieto.
Van estava sentado ao lado de Poe, com a cabeça baixa.
— Não está se sentindo bem?
— Não, minha cabeça dói um pouco.
— Você também não parece bem. E está com febre.
Van mexeu os ombros para relaxá-los e respirou fundo.
— Desculpe, mas acho que vou para a cama agora.
— Sim, é melhor repousar.
— Certo. Bem...
Van colocou as duas mãos sobre a mesa e se levantou devagar.
— Vocês podem fazer o barulho que quiserem aqui fora. Não me importo.
Eles se despediram e Van voltou para o quarto. A porta se fechou e, por um segundo, o corredor pouco iluminado ficou em silêncio. Eles ouviram o clique metálico da fechadura sendo girada.
— Igualzinho a ele. — disse Carr. Até aquele momento, estivera inquieto, mexendo os joelhos em silêncio. Seus olhos estavam arregalados, como se estivesse ansioso com alguma coisa. — Que medroso. Quem se preocupa em trancar a porta quando está hospedado na casa com conhecidos?
— Esta noite está clara.
Fingindo não ouvir Carr, Poe olhou para a claraboia decagonal.
— Acho que era lua cheia há dois dias. — observou Leroux. Nesse instante, um raio de luz cruzou o céu rapidamente. Vinha do farol no Cabo J, e alcançava até lá.
— Olha... — disse Agatha. — Tem um halo em volta da lua. Significa que vai chover amanhã.
— Isso é só superstição. — zombou Ellery.
— Não seja tão grosseiro, Ellery. De qualquer forma, não é só superstição. Tem a ver com o vapor de água no ar.
— A previsão do tempo dizia que o céu estaria limpo a semana toda. — insistiu Ellery.
— Hmm. Bem, de qualquer forma... — continuou Agatha. — É mais científico do que todas aquelas histórias sobre um coelho na lua6.
— Um coelho! — Ellery bufou, rindo. — Sabe, nas Ilhas Miyako, eles veem um homem carregando um balde na Lua. Já ouviu a história por trás disso?
— Ah, conheço essa. — o rosto jovial de Leroux se iluminou. — Ele foi enviado ao mundo humano por Deus, carregando um balde com o elixir da imortalidade e outro com o elixir da morte. Porém acabou os trocando e deu o elixir da imortalidade para a serpente e o elixir da morte para a humanidade. Como punição, o homem tem que carregar o balde por toda a eternidade.
— Interessante.
— Os Khoikhoi têm uma lenda semelhante. — disse Poe. — Contudo na história deles, era uma lebre que foi enviada à Terra. A lebre não conseguiu transmitir as palavras do Deus da Lua e, em sua raiva, o deus atirou um graveto nela. Foi aí que a lebre acabou com o lábio rachado.
— As pessoas contam as mesmas histórias no mundo todo. — Ellery apoiou seu corpo no encosto azul e cruzou os braços. — A história do coelho na lua é conhecida na China, na Ásia Central, na Índia...
— Tão longe quanto a Índia? — perguntou Poe.
— A palavra sânscrita para “lua” é śaśin, que se traduz como “com as marcas de uma lebre”.
— Hoh!
Enquanto estendia a mão para pegar sua carteira de cigarros sobre a mesa, Poe olhou mais uma vez para a claraboia. A lua amarelo-brilhante flutuava no céu.
Tsunojima, a Casa Decagonal.
As sombras dos presentes eram projetadas nas paredes ao redor pela luz fraca da lâmpada.
Lentamente, a noite avançou.
Notas:
1. Monomania é um termo psiquiátrico do século XIX que descreve uma obsessão ou fixação mental em uma única ideia, pensamento ou objeto, absorvendo completamente as faculdades mentais do indivíduo, que, de outra forma, poderia estar são.
2. Fukusuke são bonecos tradicionais associados à boa sorte no Japão, representados por um homem ajoelhado em posição seiza, com uma cabeça grande e um coque no topo da cabeça. Originalmente, era uma boneca venerada em casas de chá ou bordéis no período Edo para trazer boa sorte. Naquela época, acreditava-se que Fukusuke traria “juventude eterna, riqueza e honra”. A boneca costuma ser vestida com um kataginu, um tipo de colete com ombros exagerados.
3. A obra de Agatha Christie “E Não Sobrou Nenhum” (1939) foi publicada pela primeira vez no Japão em 1939 com o título de “A Ilha dos Mortos” (Shininjima), traduzido por Shimizu Shunji (1906-1988).
4. O Manyōshū (lit. “Coleção de Dez Mil Folhas”) é a antologia de poesia japonesa mais antiga que existe, compilada no século VIII. Suas 4.500 entradas mencionam mais de 150 espécies de ervas e árvores.
5. O Kokin Wakashū (lit. “Coleção de poemas japoneses da era antiga e moderna”) é uma antologia imperial de poesia waka japonesa, compilada no início do século X.
6. Referência a uma lenda japonesa que diz haver um coelho vivendo na lua.
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