Capítulo 02: O Primeiro Dia no Continente
Parte 1
Minha filha Chiori foi assassinada por todos vocês.
Kawaminami Taka’aki franziu a testa enquanto estava esparramado na cama no meio de seu pequeno quarto. Eram onze horas da manhã. Ele havia encontrado a carta em sua caixa de correio agora mesmo, ao retornar para casa.
Havia passado a noite jogando mahjong na casa de um amigo e voltado para casa sonolento, o barulho das peças ainda ecoando em seus ouvidos como de costume, porém a carta o despertou imediatamente.
— O que... O que é isso?
Esfregando os olhos, pegou o envelope que continha a carta e a examinou outra vez. Era um envelope marrom comum, com carimbo postal de ontem, 25 de março. Tinha sido enviado da Cidade O. A única coisa peculiar era que tudo havia sido escrito com um processador de texto.
Não havia endereço do remetente. O verso do envelope dizia apenas “Nakamura Seiji”.
— Nakamura Seiji. — murmurou o nome. Nunca tinha ouvido falar. Não, espere, já tinha ouvido em algum lugar.
Ele se sentou, cruzou as pernas e olhou para a carta. Ela também havia sido escrita em um processador de texto. O papel era de alta qualidade, tamanho B5.
— Minha filha Chiori foi assassinada por todos vocês.
Lembrou-se do nome Chiori. A carta devia se referir a Nakamura Chiori. E este Nakamura Seiji seria o seu pai.
Aconteceu há mais de um ano, na festa de Ano Novo do Clube de Mistério da Universidade K... Do qual Kawaminami era membro na época. Nakamura Chiori era sua caloura, um ano abaixo. Kawaminami estava no terceiro ano agora. Começaria o quarto ano em abril, no entanto havia saído do Clube de Mistério na primavera do ano passado.
Porque na festa pós-Ano Novo, Nakamura Chiori morreu.
Kawaminami havia saído da festa mais cedo por causa de um compromisso. O “acidente” aconteceu depois de sua saída. Uma intoxicação aguda por álcool, juntamente com uma doença crônica, levou a um ataque cardíaco. Já era tarde demais quando a ambulância a trouxe para o hospital.
Kawaminami também compareceu ao funeral.
Chiori morava na Cidade O com seu avô materno. A cerimônia foi realizada lá. Todavia o nome do principal enlutado não era Seiji. Era um nome muito mais antiquado. Não era seu pai, e sim seu avô. Agora que pensava a respeito, não tinha visto ninguém que pudesse ser o pai de Chiori lá.
Entretanto por que alguém que se dizia pai de Chiori lhe enviara aquela carta... Alguém que nunca vira ou com quem nunca falara?
“Seiji” alegava em sua carta que Chiori havia sido assassinada. Sua filha morrera por causa do álcool que fora obrigada a beber na festa. Kawaminami conseguia entender que, aos seus olhos, sua filha havia sido assassinada. Mas o que estava pensando ao escrever esta carta mais de um ano depois do ocorrido?
Kawaminami endireitou-se de repente.
Nakamura Seiji... Ahá!
Havia encontrado a pista certa em meio às suas memórias.
Ele se levantou de um salto, foi até a estante de metal encostada na parede e puxou algumas pastas. Estavam cheias de recortes de jornal interessantes que havia colecionado.
Acho que foi por volta de setembro do ano passado...
Depois de procurar um pouco, encontrou o artigo.
A MANSÃO AZUL EM TSUNOJIMA EM CHAMAS. UM MISTERIOSO QUÁDRUPLO HOMICÍDIO?
Kawaminami sentou-se no chão e abriu a pasta. Tamborilou os dedos sobre os caracteres grandes da manchete.
— Uma acusação feita por um homem morto?
— Com licença, esta é a residência Higashi? Meu nome é Kawaminami, da Universidade K. Hajime está aí?
— Kawaminami, você disse? — a mulher do outro lado da linha devia ser a mãe de Hajime.
— Hajime saiu para uma viagem esta manhã. Com alguns amigos do seu clube.
— O Clube de Mistério?
— Sim. Ele disse que ia para uma ilha desabitada.
— Uma ilha desabitada? Por acaso você sabe o nome?
— Hmm, acho que era Tsunojima. Em algum lugar perto da Cidade S.
— Tsunojima...
Kawaminami sentiu a respiração falhar e apertou o telefone com força.
— Hajime recebeu uma carta, por acaso?
— Uma carta?
— Uma carta de alguém chamado Nakamura Seiji.
— Eu não...
Ela hesitou por um momento, porém pareceu perceber a urgência na voz de Kawaminami. Pediu que esperasse um minuto e largou o telefone. O som de música de órgão chegou aos seus ouvidos. Depois de um tempo, ela voltou e disse, um tanto ansiosa.
— Sim, uma carta de um tal de Nakamura Seiji foi entregue. Aconteceu alguma coisa?
— Está lá? Está mesmo lá?
— Sim.
De repente, sentiu suas forças se esvaírem. Seus ombros caíram e não sabia o que fazer.
— Ah, sim, obrigado... Não é nada. Desculpe incomodá-la.
Kawaminami recolocou o telefone no gancho e encostou-se na parede. Era um prédio antigo e as paredes rangiam se alguém colocasse muito peso nelas. Através da janela malfeita, podia ouvir o zumbido de uma máquina de lavar quase quebrada.
Uma carta de Nakamura Seiji também foi entregue na casa de Higashi.
Ele piscou seus olhos injetados de sangue várias vezes.
Seria apenas uma brincadeira?
Procurou a lista de endereços do clube, anotou todos os membros que estiveram na festa pós-evento e fez várias ligações. Todos tinham ido embora e, como a maioria eram estudantes internos, não conseguiu descobrir se também haviam recebido cartas. Agora, todos estavam viajando juntos. Para Tsunojima, de todos os lugares, o local daquele incidente horrível. Seria apenas uma coincidência?
Após um momento de reflexão, pegou a lista de endereços de novo e procurou o número de telefone da falecida Nakamura Chiori.
Parte 2
A Cidade O ficava a trinta minutos de ônibus e mais quarenta minutos de trem da cidade S, de onde os membros do Clube de Mistério haviam partido para Tsunojima. A distância entre as cidades era de menos de quarenta quilômetros em linha reta. Kawaminami desceu do trem em Kamegawa, quatro estações depois da Cidade O, e caminhou rapidamente pela estrada que levava às montanhas.
Tendo ligado para a casa do avô de Nakamura Chiori, uma senhora simpática de meia-idade, talvez a governanta, atendeu o telefone e Kawaminami se apresentou como amigo de Chiori da época da universidade.
Teria sido estranho ligar de repente e começar a interrogar a mulher, mas, com tato e paciência, conseguiu confirmar que o pai de Chiori era de fato Nakamura Seiji, o mesmo do incidente de Tsunojima, e também conseguiu obter o endereço de Nakamura Kojiro, o irmão mais novo de Seiji. Ele soube da existência de Kojiro enquanto lia artigos de jornal sobre o incidente.
Kojiro morava no distrito de Kannawa, em Beppu. Era professor em uma escola de ensino médio lá e, como eram as férias de primavera, era provável que estivesse em casa¹.
A casa da família de Kawaminami também ficava em Beppu. Poderia chegar lá sem problemas, pensou, à medida que sua curiosidade aumentava.
Sequer considerou fazer uma ligação antes, decidiu ir direto para a casa de Kojiro.
Kannawa abriga várias das famosas fontes termais de Beppu, conhecidas como “Infernos”. No céu amplo e claro, podia ver colunas brancas de vapor subindo das fileiras de casas e das sarjetas das ruas inclinadas. À esquerda, podia ver as encostas negras do Monte Tsurumi.
Passando por uma pequena área comercial, as ruas logo ficaram silenciosas. O bairro estava repleto de pousadas, albergues e casas de aluguel para visitantes de curta e longa duração, que vinham às fontes termais para fins medicinais. Como lhe haviam dado o endereço exato por telefone, conseguiu encontrar seu destino sem problemas.
Era uma bela casa térrea. Do outro lado de uma cerca viva baixa, flores como giesta amarela, ulmária branca e marmelo rosa já exibiam as cores da primavera.
Kawaminami passou pelo portão com janelas em treliça e seguiu os degraus de pedra pelo jardim da frente. Respirou fundo e tocou a campainha. Momentos depois, uma voz grave e profunda veio do outro lado da porta.
— Quem é?
O homem que apareceu não combinava em nada com aquela casa japonesa tradicional. Ele vestia uma camisa branca de gola aberta por baixo de um cardigã marrom e calças cinza-carvão. Seu cabelo estava penteado para trás de forma casual e tinha mechas grisalhas.
— Com licença, o senhor é Nakamura Kojiro?
— Sim.
— Hmm... Meu nome é Kawaminami. Eu era do mesmo clube universitário que a Nakamura Chiori. Me desculpe por aparecer aqui assim, do nada.
Por trás de seus óculos de aros grossos, o rosto austero de Kojiro suavizou-se.
— Um membro do Clube de Mistério da Universidade K? E você está aqui por quê?
— Recebi esta carta hoje.
Kojiro pegou a carta. Depois de examinar a fileira ordenada de caracteres que soletravam o nome do remetente, suas sobrancelhas se ergueram e voltou a olhar para Kawaminami.
— Por favor, entre. Um amigo está aqui, contudo não se preocupe com ele. Receio que, como moro sozinho, não possa lhe oferecer muita comida.
Kawaminami foi conduzido a um quarto tradicional com tatames nos fundos da casa. O quarto tinha formato de L, consistindo em dois quartos de seis tatames unidos. Os painéis de papel que originalmente separavam os quartos foram removidos para formar um quarto de doze tatames. A parte da frente era usada como sala de estar e área de recepção. Sobre um tapete verde-escuro, havia um conjunto de sofás da mesma cor. A parte dos fundos dava para um jardim à direita e estava sendo usado como escritório. Kawaminami podia ver várias estantes que iam até o teto e uma grande escrivaninha. Os cômodos estavam tão arrumados que era difícil acreditar que um único homem morasse ali.
— Shimada, temos uma visita.
O amigo a quem Kojiro se dirigia estava sentado em uma cadeira de balanço de vime na sala da frente, de frente para o jardim.
— Este é Kawaminami, do clube de ficção policial da K—U. E este é meu amigo Shimada Kiyoshi.
— Ficção policial? — perguntou Shimada, pulando da cadeira. No processo, a cadeira de balanço bateu em suas pernas e, gemendo baixinho, ele caiu de volta nela.
— Eh, na verdade eu saí do clube no ano passado.
— Hmm.
Shimada esfregou as pernas com uma careta e disse.
— Então, o que o traz aqui ao querido e velho Ko?
— Isto! — disse Kojiro, e entregou a carta de Kawaminami a Shimada, que parou de esfregar as pernas ao ver o nome do remetente e olhou fixamente para Kawaminami.
— Posso ler?
— À vontade.
— Para falar a verdade. — disse Kojiro. — Recebi uma carta parecida.
— O quê?
Kojiro caminhou até a escrivaninha no fundo da sala, pegou uma carta que estava sobre um tapete marrom-avermelhado e entregou a Kawaminami.
Kawaminami examinou a frente e o verso do envelope. O mesmo envelope, o mesmo carimbo postal, as mesmas letras digitadas que apareciam na carta que havia recebido. E o remetente também era “Nakamura Seiji”.
— Posso dar uma olhada?
Kojiro assentiu em silêncio.
“Chiori foi assassinada.”
Era só isso. Embora o texto fosse diferente, também havia sido digitado em um processador de texto no mesmo papel de alta qualidade, tamanho B5.
Kawaminami, com os olhos fixos na carta, ficou sem palavras. Uma carta misteriosa vinda dos mortos. Ele havia imaginado que todos os membros presentes na festa pós-evento do ano passado tivessem recebido a mesma carta, mas até este homem, Nakamura Kojiro, havia recebido uma.
— O que isso poderia significar?
— Não faço ideia. — respondeu Kojiro. — Estou tão chocado quanto você. Agora há pouco estava justamente dizendo para o Shimada que devia ser uma pegadinha de muito mau gosto, e como algumas pessoas têm tempo de sobra. E então você apareceu.
— Não fui o único. Outros membros do clube também receberam a carta.
— Ora, ora.
— Será possível que este Nakamura Seiji... Desculpe, seu irmão, ainda esteja vivo?
— Impossível. — Kojiro balançou a cabeça com convicção. — Como sabe, meu irmão morreu no outono passado. Fui eu quem teve que identificar o corpo. Foi horrível... Desculpe, mas não quero falar sobre esse assunto.
— Nesse caso, significa que esta carta é apenas uma brincadeira?
— Não consigo pensar em outra explicação. Meu irmão morreu há seis meses. Essa é a pura verdade. E receio que não acredito em fantasmas.
— O que você acha do conteúdo da carta?
— Bem, eu...
Uma expressão preocupada surgiu no rosto de Kojiro.
— Estou ciente do que aconteceu com a Chiori, porém, pelo que me consta, foi apenas um acidente infeliz. Ela era minha sobrinha, então é óbvio que me sinto como se ela tivesse sido tirada de nós injustamente, contudo não te odeio pelo que aconteceu. O que de fato não posso perdoar é que alguém esteja usando o nome do meu irmão e enviando essas cartas como uma espécie de piada de mau gosto.
— É mesmo só uma piada? — murmurou Kawaminami. Não estava convencido de que fosse. Assentiu sem muita convicção e lançou um olhar furtivo para Shimada, que estava sentado na cadeira de vime com um cotovelo apoiado nas pernas cruzadas e, por algum motivo, o observava entretido.
— A propósito... — disse Kawaminami enquanto devolvia a carta para Kojiro. — Você sabia que alguns membros do Clube de Mistério estão em Tsunojima agora?
— Não. — respondeu Kojiro, desinteressado. — Herdei a ilha e a mansão após a morte do meu irmão, no entanto a vendi para um corretor imobiliário na Cidade S no mês passado. Ele baixou bastante o preço, entretanto não tinha intenção de voltar àquele lugar de qualquer forma. Não sei o que fizeram com ela depois daquilo.
Parte 3
Kojiro ainda tinha trabalho a fazer naquele dia, então Kawaminami sentiu-se na obrigação de ir embora.
Pouco antes de sair da sala, Kawaminami perguntou sobre as estantes de livros cheias ao fundo que lhe chamaram a atenção. Kojiro explicou que, além de seu trabalho como professor de estudos sociais em uma escola secundária próxima, também estava pesquisando sobre budismo. Com um sorriso tímido, explicou que estava pesquisando o “vazio do coração” no budismo Mahayana primitivo.
— “Vazio do coração”? — perguntou Kawaminami, intrigado.
Shimada levantou-se da cadeira de balanço para explicar.
— Já ouviu falar do Sutra do Coração, certo? Aquele que diz “A Forma é o Vazio e o Vazio é a Forma”? O Ko está pesquisando o significado desse “vazio”. — ele se aproximou de Kawaminami com passos leves e devolveu a carta que estava examinando.
— Como você escreve seu sobrenome com kanji, Kawaminami? — perguntou.
— O caractere para “rio”, como quando se escreve “Rio Amarelo”, combinado com o caractere para sul.
— Aha, então kawa e minami... Que nome maravilhoso. Ko, vou te deixar sozinho também. Vamos embora juntos, Kawaminami.
Os dois saíram da casa de Kojiro e caminharam pela rua vazia. Shimada entrelaçou os dedos e esticou os braços. Ele vestia um suéter preto e jeans, o que fazia seu corpo esguio parecer ainda mais alto e magro.
— Conan. Sim, esse é sem dúvida um nome maravilhoso. — disse Shimada, erguendo os braços atrás da cabeça. Estava usando as leituras alternativas para os caracteres kawa e minami para ler o nome Kawaminami como Conan.
— Por que saiu do Clube de Mistério? Chutaria que a cultura não combinava com a sua pessoa.
— Está certo. Bom palpite.
— Percebi pela sua cara. — Shimada sorriu. — Então não foi porque perdeu o interesse em romances policiais?
— Não, ainda gosto de ler romances policiais.
— Que bom. Também gosto de um bom mistério, mais do que de textos budistas. Nada tão simples quanto uma história policial. Bem, Conan, que tal tomarmos um café juntos em algum lugar?
— Tudo bem. — respondeu Kawaminami, e riu.
A estrada descia. A brisa leve que soprava da orla marítima trazia o espírito da primavera.
— Você é um homem interessante, Conan.
— Sou?
— Você veio até aqui só por causa de uma carta que bem poderia ter sido uma brincadeira.
— Não era tão longe assim.
— Hmm. Na verdade, eu teria feito o mesmo se estivesse no seu lugar. Tenho bastante tempo livre, sabe?
Shimada colocou as duas mãos nos bolsos da calça jeans preta e sorriu.
— E você? Acha que tudo não passa de uma piada elaborada também?
— Kojiro parece achar que sim, mas não faz sentido. — respondeu Kawaminami. — Claro, não estou dizendo que um fantasma escreveu essas cartas. Alguém está usando o nome do homem morto. Porém houve muito esforço envolvido nisso tudo para ser uma simples brincadeira.
— Como o quê, por exemplo?
— Por exemplo, todas as cartas foram digitadas em um processador de texto. Conseguir um processador de texto só para uma brincadeira parece um pouco...
— Contudo o autor pode só ter o seu próprio processador de texto. Eles se tornaram populares nos últimos anos. Ko também tem um em casa. Só comprou a máquina este ano, no entanto já se tornou bastante habilidoso.
— É verdade que se tornaram populares. Vários dos meus amigos também têm. E há um em cada sala de escritório na universidade para os alunos usarem livremente. Embora sigo achando que não é tão comum usar um processador de texto para escrever cartas.
— É verdade.
— Um processador de texto evita deixar amostras de caligrafia, entretanto por que precisaria evitar a caligrafia se fosse apenas uma brincadeira? E o texto. Era só aquela linha. Não acha que é muito curto? Se quisesse assustar as pessoas, teria inventado coisas mais alarmantes para dizer. A carta de Kojiro também era assim. Portanto, não consigo evitar a sensação de que há um significado mais profundo por trás de tudo isso.
— Um significado mais profundo, hein?
Ao chegarem ao final da ladeira, depararam-se com um calçadão. Barcos de todos os tamanhos navegavam pelo mar, que brilhava à luz do sol.
— Ali! — apontou Shimada. — Vamos lá. É um lugar bonito.
Do outro lado da rua, havia um telhado vermelho com um catavento. “Mamãe Ganso” estava escrito na placa do café em letras elegantes. Kawaminami não conseguiu conter o sorriso ao ver a cena.
Parte 4
Depois de se sentarem um de frente para o outro em uma mesa perto da janela, Kawaminami observou atentamente o homem que acabara de conhecer.
Parecia ter mais de trinta anos, talvez bem mais.
Suas bochechas pareciam ainda mais fundas do que realmente eram por causa de seus cabelos macios na altura dos ombros. Kawaminami era alto e magro, todavia Shimada era muito mais alto que ele. Um nariz adunco adornava seu rosto moreno e seus olhos eram um pouco caídos.
Era o tipo de homem que parecia estranho à primeira vista. Parecia sombrio e mal-humorado, mas a peculiar discrepância entre sua aparência e seu jeito de falar era algo que Kawaminami achava bastante agradável. Até pensou que lhe parecia familiar de alguma forma.
Já passava das quatro da tarde. Kawaminami lembrou-se de que não havia comido nada desde a manhã, então pediu uma pizza com torrada e café.
Dirigiu o olhar pela grande janela para o mar azul, que formava um arco gigante do outro lado da Rodovia Nacional 10. Era a Baía de Beppu. A loja era o tipo de lugarzinho aconchegante que se esperaria encontrar nos arredores de uma cidade cheia de estudantes. As pinturas e bonecas inspiradas na Mamãe Ganso, espalhadas pela loja, deviam ser um passatempo do dono.
— Então, Conan, vamos continuar nossa conversa. — disse Shimada, descontraído, enquanto servia uma xícara de chá Earl Grey do bule que acabara de chegar.
— Quer dizer sobre as cartas?
— Claro.
— Mas eu já lhe contei tudo o que penso... Posso fumar?
— Fique à vontade.
— Obrigado.
Ele acendeu um cigarro e a fumaça ardeu em seus olhos.
— Como disse, não acho que seja apenas uma brincadeira. Porém se me perguntar o que significa, não tenho nenhuma resposta. Para ser honesto, não consigo pensar em nenhum motivo pelo qual alguém faria tal coisa. Contudo...
— Contudo?
— Talvez tente adivinhar.
— Por favor, tente.
— Bem, se analisar a carta que me enviaram, por exemplo, e tentar decifrar a intenção do remetente, acho que consigo detectar três mensagens diferentes. Primeiro, a carta é, acima de tudo, uma acusação: ‘Chiori foi assassinada’. A segunda mensagem decorre da primeira: eu te odeio, vou me vingar de você porque ter matado Chiori. Portanto, é uma ameaça. O nome “Nakamura Seiji” foi usado para assinar a acusação/ameaça porque teria o melhor motivo para fazê-lo.
— Entendo. E a terceira mensagem?
— Para a terceira mensagem, temos que analisar a carta de um ângulo diferente: o significado oculto por trás do envio das cartas, por assim dizer.
— O significado oculto?
— Sim. Por que o remetente está usando o nome de Nakamura Seiji, um homem falecido, agora? Pode parecer assustador à primeira vista, no entanto ninguém hoje em dia acreditaria nisso. Consegue imaginar um fantasma usando um processador de texto? Sendo assim, acho que pode estar nos dizendo, de forma indireta, para analisarmos bem o incidente que aconteceu há um ano em Tsunojima. Ou será que estou pensando demais a respeito?
— Não, é muito interessante.
Os olhos de Shimada brilharam de entretenimento e voltou a pegar sua xícara.
— Realmente interessante. Mais uma análise do incidente de Tsunojima. Acho que esse caso precisa de mais atenção. O que você sabe sobre o ocorrido, Conan?
— Apenas o que li nos jornais.
— Então é melhor eu lhe contar o que sei primeiro.
— Por favor, conte.
— Presumo que se lembre do resumo do caso, certo? Aconteceu em setembro do ano passado. Local, a casa conhecida como Mansão Azul em Tsunojima. As quatro vítimas foram Nakamura Seiji, sua esposa Kazue e o casal de empregados. O jardineiro desapareceu. O incêndio que começou após os assassinatos destruiu a mansão. O assassino não foi pego.
— Acredito que a polícia tinha o jardineiro como principal suspeito.
— Sim, entretanto não havia provas conclusivas. Suponho que foi considerado suspeito simplesmente por ter desaparecido. E agora, os detalhes do caso...
Shimada falou em voz baixa.
— Primeiro, preciso contar mais sobre o dono da mansão, Nakamura Seiji. Ele era três anos mais velho que Ko, então tinha quarenta e seis anos na época. Já estava aposentado, todavia antes de se retirar era um arquiteto genial, muito respeitado por quem entendia do assunto.
— Nakamura Seiji era o primogênito dos Nakamuras, uma família de posses que vivia em Usa, na província de Oita. Depois de se formar no ensino médio, Seiji se mudou sozinho para Tóquio. Ganhou um prêmio em um concurso nacional enquanto estudava arquitetura na Universidade T, e chamou a atenção de todos na área. Depois de se formar, seu orientador o aconselhou fortemente a fazer pós-graduação, mas a morte repentina de seu pai o obrigou a voltar para casa.
— Seu pai havia deixado uma grande fortuna para a família Nakamura. Tendo herdado o dinheiro junto com seu irmão Kojiro, Seiji construiu uma mansão de seu próprio projeto em Tsunojima e se aposentou lá.
Sua esposa Kazue, cujo nome de solteira era Hanabusa, era sua amiga de infância durante o tempo em que morou em Usa. Dizem que seus pais arranjaram o casamento dos dois ainda jovens. Eles se casaram por volta da época em que Seiji partiu para Tsunojima.
— E fez algum trabalho arquitetônico depois disso?
— Um pouco, porém Ko disse que Seiji fazia isso mais como seu próprio entretenimento. Apenas aceitava encomendas que o interessavam, e mesmo assim, apenas quando tinha vontade. Tinha um amor peculiar por projetar os edifícios mais bizarros. Embora esses edifícios, por sua vez, eram amados por outras pessoas com gostos incomuns. Muitos clientes vinham de longe para a ilha. Contudo Seiji vinha recusando quase todos os pedidos nos últimos dez anos e raramente deixava sua ilha.
— Que figura.
— O próprio Ko também é um pouco estranho, estudando budismo como passatempo, no entanto até ele concorda que seu irmão era esquisito. Por outro lado, tive a impressão de que os dois não se davam muito bem.
— De qualquer forma, o casal Kitamura, os empregados, também morava na mansão em Tsunojima. O marido fazia pequenos trabalhos pela casa e pilotava o barco a motor que ligava a ilha ao continente. Sua esposa cuidava das tarefas domésticas. E então tínhamos aquele jardineiro. Seu nome era Yoshikawa Sei’ichi e morava em Ajimu. Ele vinha uma vez por mês e ficava vários dias. Aconteceu de ter chegado à ilha três dias antes do incêndio. E essa é a minha apresentação do elenco de personagens.
— Agora, sobre as circunstâncias do caso. Quatro corpos foram descobertos no total. Estavam carbonizados pelo fogo, então a perícia teve bastante dificuldade com eles. Por fim descobriram os seguintes fatos.
— O casal Kitamura morreu em seu quarto com a cabeça esmagada. O mais provável é que a arma do crime tenha sido o machado encontrado no mesmo cômodo. Ambos os corpos apresentavam sinais de terem sido amarrados com corda. A hora estimada da morte de ambos foi na tarde de 19 de setembro, um dia antes do incêndio.
— Nakamura Kazue foi estrangulada até a morte, na cama de seu quarto, com um objeto semelhante a uma corda. A mão esquerda do corpo estava faltando do pulso para baixo e foi cortada após a morte. O paradeiro da mão segue desconhecido. A hora estimada de sua morte é entre 17 e 18 de setembro.
— Nakamura Seiji foi completamente encharcado com querosene e queimado vivo no mesmo quarto que Kazue. Grandes quantidades de um sonífero foram encontradas em seu corpo, e o mesmo ocorreu com as outras três vítimas. A hora estimada da morte foi na madrugada de 20 de setembro, quando o incêndio começou.
— Acredita-se que o incêndio tenha começado na cozinha. O assassino espalhou querosene por toda a mansão e depois ateou fogo na cozinha.
— Como sabe, a polícia está focada na teoria de que o jardineiro desaparecido seja o assassino, no entanto ainda há pontos que permanecem obscuros.
— Por exemplo, o problema da mão esquerda de Kazue. Que motivo Yoshikawa teria para cortar a mão da senhora e levá-la consigo? E há o problema de sua rota de fuga. O único barco a motor na ilha ainda estava na enseada. É improvável que possa ter matado quatro pessoas e depois nadado pelo mar até o continente no final de setembro. A polícia, é claro, também investigou a possibilidade de o assassino ser alguém de fora, todavia essa teoria parecia se encaixar cada vez menos à medida que a investigação avançava. O esboço geral do caso, conforme proposto pela polícia com base na teoria de que “Yoshikawa é o assassino”, é... Não se importe comigo... Por favor, coma.
— O quê... Ah, sim.
A torrada com pizza e o café de Kawaminami foram trazidos durante a explicação de Shimada. Não foi por educação que se recusou a tocá-los, estava tão intrigado com a história de Shimada que se esqueceu de comer.
— Motivos. A mim me ocorrem dois. O primeiro era que queria a fortuna de Seiji, ou seja, roubo. O outro é que ele tinha uma obsessão por Kazue, ou que eles tinham um relacionamento secreto. Talvez foi uma combinação dos dois.
– Yoshikawa primeiro nocauteou todos com comprimidos para dormir antes de começar sua onda de crimes. Ele amarrou Kazue, fez o mesmo com Seiji e o trancou em outro lugar. Depois, levou Kazue para o quarto e se satisfez com ela. Kazue foi a primeira a ser morta, e estima-se que sua morte tenha ocorrido um ou dois dias antes da das outras três vítimas. Embora não haja provas definitivas, parece que estuprou Kazue após sua morte. Os Kitamura foram assassinados em seguida. Talvez ainda estivessem dormindo por causa da droga. E Seiji foi o último. Yoshikawa jogou querosene em Seiji enquanto dormia e depois foi para a cozinha atear fogo.
— Mas, Sr. Shimada... — interrompeu Kawaminami, parando com seu café frio no ar. — Por que o assassino manteve Seiji vivo até então? O mesmo o casal Kitamura. Se ia matá-los de qualquer maneira, não teria sido mais seguro fazê-lo de uma vez?
— Pode não ter planejado matá-los desde o início. Pode ter entrado em pânico depois de matar Kazue. O fato de ter deixado Seiji por último reforça a ideia de que o motivo foi roubo.
— Por quê?
— Por causa das características de Nakamura Seiji como arquiteto.
— Como assim?
— Bem, te disse agora mesmo que Seiji era um pouco peculiar. Há uma certa monomania, um toque infantil, uma ludicidade em todos os edifícios que Nakamura Seiji projetou, incluindo a Mansão Azul e seu anexo, a Casa Decagonal. Todos eles são uma vitrine de seus gostos peculiares. Um deles sendo o que você poderia chamar de amor por artifícios.
— Artifícios?
— Sim. Só posso chutar um número, porém a Mansão Azul incendiada estava cheia de artifícios como salas secretas, armários e cofres. Só Nakamura Seiji sabia a localização de todos.
— Nesse caso, se alguém estivesse atrás do seu dinheiro, precisaria obter essa informação de Seiji.
— Sim. Portanto, o jardineiro não teria matado Seiji imediatamente. — Shimada fez uma pausa e apoiou um cotovelo na mesa. — E isto é tudo o que se sabe sobre o caso e a investigação. A polícia ainda está procurando o jardineiro desaparecido, Yoshikawa. Contudo não parece provável que o encontrem. Tem alguma pergunta, meu caro Conan?
— Deixe-me pensar.
Kawaminami tomou os últimos goles de seu café de uma só vez e se perdeu em pensamentos.
Com base no que Shimada lhe dissera, a linha de investigação que a polícia estava seguindo parecia ser a melhor. No entanto tudo não passava de conjecturas circunstanciais. Em outras palavras, não era nada mais do que uma tentativa de dar sentido à situação confusa.
O maior obstáculo no caso era o fato de a Mansão Azul ter sido destruída pelo fogo. Por causa disso, a cena do crime tinha ainda menos pistas a oferecer do que o normal. E não havia mais ninguém vivo para contar o que havia acontecido durante o incidente, ou no período que o antecedeu.
— Você parece muito sério, Conan! — disse Shimada, umedecendo os lábios. — Agora é minha vez de lhe fazer uma pergunta. Embora não está diretamente relacionada ao caso de Tsunojima.
— Sim?
— Quero perguntar sobre aquela garota, Chiori. Sei que Ko tinha uma sobrinha e que estava hospedada na casa dos pais de Kazue por causa da escola. Também ouvi dizer que ela morreu em um acidente infeliz no ano passado, entretanto não sei nenhum detalhe. Que tipo de garota era Nakamura Chiori?
Imediatamente, uma expressão de tristeza cruzou o rosto de Kawaminami.
— Uma garota quieta. Não era de se destacar e sempre tinha uma aura triste ao seu redor. Eu quase não conversava com ela. Todavia era sempre uma garota muito agradável. Sempre ajudando de bom grado com pequenos trabalhos durante festas e coisas do tipo.
— E como morreu?
— Aconteceu em janeiro do ano passado, na festa de Ano Novo do Clube de Mistério. Ela morreu de intoxicação alcoólica aguda.
Enquanto relatava os acontecimentos, os olhos de Kawaminami vagaram inconscientemente para a janela.
— Na maioria das vezes, quando dávamos festas, Chiori ia embora depois da primeira sessão, mas naquela noite tivemos uma after-party e a importunamos para vir. Éramos um bando enorme. Ela sempre teve pouca tolerância ao álcool. Porém todos se empolgaram e a fizeram beber demais...
— A fizeram beber?
— Sim. Eu mesmo fui à after-party, contudo tinha outros compromissos e saí mais cedo com um amigo meu, Morisu. O acidente aconteceu um tempo depois. Não...
Kawaminami colocou a mão sobre a carta no bolso do paletó.
— Não, não foi um acidente. Talvez tenhamos sido nós que a matamos.
Pensando na morte de Chiori, Kawaminami sentiu alguma responsabilidade. Se não tivesse saído mais cedo, poderia ter impedido que os outros fizessem Chiori beber demais.
— Você está livre esta noite?
Como se tivesse pressentido os sentimentos sombrios no coração de Kawaminami, Shimada fez a súbita pergunta num tom alegre.
— Que tal? Vamos comer e beber alguma coisa em algum lugar.
— Mas...
— Por minha conta. Porém, em troca, quero conversar com você sobre romances policiais. Pro meu azar, não tenho amigos com quem conversar sobre. Me faça esse favor.
— Tudo bem, com prazer.
— Certo. Vamos para a Cidade O então.
— Contudo Sr. Shimada...
— Sim?
— Ainda não lhe perguntei, no entanto como você e Kojiro se conheceram?
— Ah, é verdade. Ko era meu veterano na universidade.
— Universidade? Você também estudou budismo?
— Bem, de certa forma.
Com um olhar envergonhado, Shimada coçou o nariz.
— Na verdade, minha família administra um templo budista nos arredores da Cidade O.
— Ah, então é um monge budista?
— Não, sou o caçula de três irmãos e, mesmo nesta idade, estou só vagando por aí, então não posso ficar chamando os outros de estranhos. Meu pai tem mais de sessenta anos, e ainda está cheio de energia, então a única vez que consigo recitar um sutra para os mortos é quando alguém morre em um romance policial que estou lendo. — disse Shimada, e juntou as mãos solenemente.
Parte 5
Minha filha Chiori foi assassinada por todos vocês.
Morisu Kyoichi pegou a carta da mesinha de vidro mais uma vez e soltou outro suspiro. Ele estava encostado na lateral da cama e suas duas pernas cansadas estavam esticadas sobre o grosso tapete cinza.
— Minha filha Chiori foi assassinada por todos vocês.
Ele leu as letras alinhadas, escritas com um processador de texto. Seus pensamentos eram indescritíveis.
A festa pós-Ano Novo do Clube de Mistério, janeiro do ano passado. Morisu e seu colega de classe, Kawaminami Taka’aki, saíram da festa mais cedo. A morte aconteceu depois que os dois partiram.
O nome do remetente no verso do envelope era “Nakamura Seiji”. O homem que foi assassinado seis meses atrás em Tsunojima. Alguém que Morisu nunca tinha visto ou com quem nunca tinha falado.
O quarto de Morisu ficava no quinto andar do Tatsumi Heights, um prédio de apartamentos de um cômodo do outro lado da rua principal, em frente à Estação da Cidade O, perto do porto.
Colocou a carta de volta no envelope e pegou o cigarro Seven Stars sobre a mesa, balançando a cabeça. Nesses últimos dias, não vinha apreciando tanto seus cigarros como antes. Mas a vontade de fumar não havia passado.
O que será que o grupo de Tsunojima estaria fazendo naquele exato momento?
Enquanto esse pensamento lhe passava pela cabeça, Morisu olhou ao redor de seu quarto arrumado. Perto da parede, havia um cavalete com uma pintura a óleo em andamento. Várias estátuas de Buda em pedra, com o olhar perdido no tempo, cercadas por árvores com cores desbotadas. Havia descoberto essa paisagem na Península de Kunisaki, em algum lugar em uma montanha que ninguém visitava. Tinha acabado de começar a adicionar um pouco de cor ao esboço a carvão.
A fumaça irritou sua garganta. Quase se engasgou e jogou o cigarro que havia tragado apenas uma ou duas vezes no cinzeiro cheio de água.
Tinha um mau pressentimento. Como se algo inesperado estivesse prestes a acontecer.
Naquele momento, seu telefone tocou.
Olhou para o relógio. Era quase meia-noite.
Só existe uma pessoa que me ligaria a esta hora...
Após alguns segundos de espera, Morisu atendeu.
— Ei, você está aí, Morisu?
Era a voz familiar de Kawaminami Taka’aki, como esperava. Morisu sentiu alívio.
— Oi, Doyle.
— Já te disse para parar de me chamar assim. Tentei ligar para você hoje à tarde.
— Fui dar uma volta de moto até Kunisaki.
— Kunisaki?
— Sim, eu te disse que estava pintando lá, não disse?
— Hah. A propósito, Morisu, recebeu uma carta estranha hoje?
— Enviada por Nakamura Seiji? Sim. Liguei para sua casa uns vinte minutos atrás para te fazer a mesma pergunta.
— Então também recebeu uma.
— Sim. Onde você está agora? Pode vir aqui?
— Foi por isso que liguei. Estou aqui perto. Precisamos conversar sobre esta carta. Preciso da sua opinião.
— Não tenho inteligência suficiente para isso.
— Duas cabeças pensam melhor do que uma, e três são ainda melhores. Quer dizer, posso trazer alguém comigo?
— Claro. Estarei esperando.
— Achei que a carta fosse só uma piada de muito mau gosto, embora não tenha entendido bem o significado. — disse Morisu, comparando as duas cartas colocadas lado a lado sobre a mesa. — Contudo dizia “todos vocês”, então suspeitei que não era o único a receber uma.
— A sua parece ser uma cópia. Acho que a que chegou aqui em casa é a original.
Kawaminami pegou sua própria carta.
— Uma carta semelhante foi entregue na casa de Higashi. Já verifiquei por telefone. E embora a mensagem estivesse redigida de forma um pouco diferente, outra carta assinada por Nakamura Seiji foi entregue a Nakamura Kojiro.
— Nakamura Kojiro? — Morisu franziu a testa.
— Quer dizer o irmão mais novo de Nakamura Seiji?
— Sim. Sua carta dele dizia “Chiori foi assassinada”. Fui a Beppu hoje para visitá-lo. Foi lá que conheci o Sr. Shimada.
Morisu fez outra pequena reverência ao homem que acabara de conhecer. Kawaminami e Shimada haviam bebido antes de chegarem e o rosto magro e moreno deste último estava bastante vermelho. Kawaminami também parecia ter bebido muito, pois sua respiração estava irregular e seus olhos, carmesins.
— Explique-me tudo desde o início. — disse Morisu.
Kawaminami inclinou-se para a frente e rapidamente relatou o que havia acontecido naquele dia. Seu hálito cheirava muito a álcool.
— Como sempre, você é uma verdadeira curioso sem freios. — disse Morisu quando Kawaminami terminou, olhando para ele com espanto. — Então não dormiu nada desde ontem?
— Agora que mencionou, não. Enfim, é misterioso, não é? Quem escreveu todas essas cartas e com que propósito? Alguma ideia?
Morisu levou a mão à testa e fechou os olhos.
— Uma acusação, uma ameaça e um apelo para reconsiderar o caso em Tsunojima. Sim, acho que está no caminho certo. Principalmente a parte sobre o caso Tsunojima. Parece um pouco forçado, no entanto com certeza é interessante. Também acho que há algo mais a ser descoberto ali. Com licença, Sr. Shimada.
Shimada estava cochilando, encostado na parede. Acordado por Morisu, levantou-se e esfregou o rosto como um gato.
— Sr. Shimada, há uma coisa que gostaria de lhe perguntar.
— Ah, sim. Por favor, pergunte.
— Onde estava Nakamura Kojiro quando o incidente aconteceu em Tsunojima?
— Está pedindo pelo seu álibi?
Um sorriso surgiu no rosto sonolento de Shimada.
— Direto ao ponto, entendo. Quem se beneficiaria mais com a morte de Seiji e sua esposa Kazue? Ko, é claro.
— Sim. Lamento ter de dizer, entretanto acredito que este Kojiro é a primeira pessoa que devemos suspeitar.
— Todavia, meu caro Morisu, a polícia não é boba. É óbvio que o paradeiro de Ko foi verificado. Mas, para o azar deles, ele conseguiu fornecer um álibi perfeito.
— Qual?
— Da noite de 19 de setembro até a manhã seguinte, Ko esteve na minha companhia. Ele me ligou e me convidou para tomar uns drinques, o que foi bem incomum. Bebemos a noite toda em Beppu e fiquei na sua casa. Eu também estava lá de manhã quando ele recebeu a notícia do que tinha acontecido.
— Um álibi perfeito, como você diz.
Shimada assentiu.
— Gostaria de ouvir mais das suas ideias, Morisu.
— Certo. Isto não é algo que me ocorreu agora. É algo que venho pensando desde que li sobre o caso nos jornais.
— Sim?
— Não sei explicar o porquê, é apenas uma coisa que senti instintivamente. — tendo avisado os dois com antecedência, Morisu continuou. — Acho que a questão mais importante neste caso é a mão esquerda de Kazue, que desapareceu da cena do crime. Tenho a sensação de que teremos resolvido tudo quando encontrarmos essa mão.
— A mão, de fato.
Tanto Morisu quanto Shimada olharam para as próprias mãos e permaneceram em silêncio.
— A propósito, Morisu, você sabia que muitos membros do Clube de Mistério foram para Tsunojima? — perguntou Kawaminami.
— Sim. — Morisu sorriu secamente. — Também fui convidado, embora acabei recusando. Não tenho interesse em um lugar tão macabro.
— Quando eles voltam?
— Disseram que daqui a uma semana.
— Uma semana inteira. Em barracas?
— Eles deram um jeito. Estão hospedados na Casa Decagonal.
— Kojiro disse que se livrou da ilha. Porém tem um ponto que não me parece certo... Eles indo para uma ilha dos mortos, justo quando chega uma carta dos mortos.
— Seria uma coincidência muito bizarra.
— Acha que é uma coincidência?
— É provável que não. — Morisu fechou os olhos mais uma vez. — Contudo se quisermos investigar, primeiro precisamos verificar se, além de Higashi, as outras pessoas que estavam na festa também receberam uma carta.
— Tem razão.
— Você vai fazer isso?
— Vou fazer. São as férias de primavera, então não tenho nada para fazer por agora. Não tem como ser pior do que bancar o detetive.
— É a sua cara. Já que está nisso, que tal dar uma olhada no caso Tsunojima também?
— Uma olhada em quê, exatamente?
— Por exemplo, que tal visitar a família de Yoshikawa, o jardineiro que desapareceu?
— No entanto...
— Conan... — interrompeu Shimada. — Essa é uma ótima ideia. Eu te disse que Yoshikawa Sei’ichi morava em Ajimu, certo? Acho que sua esposa segue morando lá, e ela trabalhava para a família Nakamura em Tsunojima. Então é a única pessoa viva que sabe sobre a vida privada dos Nakamura. Vale a pena tentar.
— Você sabe o endereço?
— Não vai demorar muito para eu encontrar.
Shimada riu alegremente enquanto dava tapinhas nas bochechas.
— Que tal, Conan? Amanhã de manhã verificamos quem mais recebeu as cartas, e depois vamos para Ajimu no meu carro à tarde.
— Certo. E você, Morisu, vem também?
— Eu gostaria, mas tenho trabalho a fazer. Te disse que estava pintando, não disse?
Morisu apontou para a tela no cavalete.
— As estátuas de Buda de Kunisaki? Lembro que me disse que gostava delas. Vai participar de algum concurso de arte?
— Não, nada disso. Só queria pintar aquele lugar antes que as flores desabrochem. Tenho ido lá nos últimos dias.
— Nossa.
— E nunca fui do tipo ativo como você. Nem gosto de conversar com pessoas que não conheço. Porém volte amanhã à noite, ok? Não importa a que horas. Também estou interessado em saber como o caso termina.
Morisu recostou-se cansado na cama e acendeu um cigarro que sabia que não lhe daria prazer.
— Por agora, terá que me permitir assumir o papel de detetive de poltrona.
Notas:
1. O ano letivo no Japão começa em abril e termina em março do ano seguinte. A semana de férias de primavera do ensino médio costumar ser ao final de março, enquanto as férias de primavera das universidades costumam começar ao final de fevereiro e duram até o início do novo curso acadêmico em abril.
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