Primeira Temporada — Capítulo 13: Sozinha
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Treze: Sozinha
Jonathan Sims: Certo, vamos tentar.
Naomi: Sério? Essa coisa ainda funciona? Deve ter uns trinta anos.
Jonathan Sims: Eu sei, mas já tivemos sucesso usando-o para gravar depoimentos que nosso... Software de gravação digital não conseguiu gravar.
Naomi: É, bem, essa é uma forma de dizer. Vocês precisam de um equipamento melhor.
Jonathan Sims: Acredite, eu tenho tentado. Mesmo assim, o gravador parece funcionar bem como equipamento de apoio, e posso transcrevê-lo depois, então, por agora, se pudesse ser...
Naomi: Está falando sério? Realmente quer que eu conte minha história nessa sucata barulhenta? Agora entendo por que ninguém leva vocês a sério.
Jonathan Sims: Você não tem obrigação nenhuma de falar conosco.
Naomi: Não, eu só... Acho que estou desesperada. O último investigador paranormal que consultei riu de mim quando sugeri falar com vocês. Ainda assim, acho que vocês têm que acreditar em mim.
Jonathan Sims: Algo assim.
Naomi: Certo, de onde paramos?
Jonathan Sims: Provavelmente é melhor começar de novo. Nome, data, assunto, etc. Não estou otimista de que alguma das gravações anteriores possam ser aproveitadas.
Naomi: Ok. Meu nome é Naomi Herne e estou prestando depoimento sobre os eventos que se seguiram ao funeral do meu noivo, Evan Lukas. A data é 13 de janeiro de 2016. Para ser sincera, nem sei se deveria estar aqui. O que aconteceu foi estranho e, bem, não consigo pensar em uma explicação racional para aquilo, porém fiquei transtornada. Ainda estou. Eu deveria ir embora. Devo ter imaginado tudo. Ele se foi e é só isso.
Jonathan Sims: Certamente é possível. Pode ser tudo coisa da sua cabeça, embora haja a questão da pedra.
Naomi: Aquilo pode ser... Eu não sei. Já não sei o que pensar.
Jonathan Sims: Não tenha pressa.
Naomi: Espera, aonde você vai?
Jonathan Sims: Vou lhe dar um pouco de privacidade enquanto presta seu depoimento.
Naomi: Ok, é que... Poderia ficar, por favor? Não quero ficar sozinha.
Jonathan Sims: Muito bem. Vamos começar do começo.
NAOMI (Depoimento)
Certo. Suponho que o começo seria quando conheci o Evan. Nunca fui muito sociável. Sempre me senti mais confortável sozinha, sabe? Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos e minha mãe trabalhava tanto para nos sustentar que quase nunca a via. Não sofri bullying na escola nem nada do tipo. Quer dizer, para sofrer bullying precisa ser notado e me certifiquei de não ser. Foi a mesma coisa no ensino médio e até na universidade em Leeds. Quando todo mundo estava se mudando para casas compartilhadas no segundo ano, fiquei em um quarto aconchegante para uma pessoa na residência universitária. Sempre fui mais feliz sozinha.
Bem, talvez “mais feliz” não seja a palavra certa. Às vezes, me sentia um pouco sozinha. Ouvia risadas vindas de outros cômodos do meu prédio ou via um grupo de amigos conversando ao sol lá fora e talvez desejasse ter algo parecido, porém nunca me incomodou de verdade. Tinha a minha própria companhia e me sentia confortável com ela. Não precisava de outras pessoas e elas sem dúvida não precisavam de mim. A única pessoa que parecia se preocupar com isso era o Pastor David. Ele trabalhava na capelania e as vezes o via quando o trabalho ou o estresse começavam a me afetar. Minha mãe é metodista e me sentia mais à vontade conversando com ele do que com qualquer um dos conselheiros seculares. Era recorrente que me dissesse que não era natural as pessoas viverem isoladas, que éramos criaturas sociais por natureza. Lembro que sempre dizia que estava “preocupado que eu me perdesse”. Naquela época, não sabia o que queria dizer. Acho que agora sei. Enfim, a questão é que, quando me formei há três anos, saí de Leeds com uma nota máxima em Química e sem amigos de verdade. E para mim estava ótimo.
Consegui um emprego como técnica de laboratório em Woking. Não pagava bem, e os alunos eram um bando de idiotas mimados, contudo era o suficiente para viver e me mantinha perto o suficiente de Londres para que pudesse me candidatar aos vários empregos em laboratório que de fato tinha interesse. Foi em uma entrevista para um desses empregos que conheci Evan. Estávamos concorrendo à mesma vaga, assistente de laboratório em um dos departamentos de Bioquímica da UCL. Ele conseguiu o emprego no final, no entanto não me importei. Era tão diferente de qualquer pessoa que já tivesse conhecido. Ele puxou conversa comigo antes da entrevista, e me surpreendi por realmente responder. Quando me fazia perguntas, não me sentia desconfortável ou preocupada com as minhas respostas, apenas me vi contando tudo sobre mim para esse estranho, sem nenhuma timidez. Quando Evan foi chamado para a entrevista, senti uma pontada de perda como nunca havia sentido antes. Tudo por um estranho que havia acabado de conhecer há apenas dez minutos. Quando saí do prédio depois da minha própria entrevista, um tanto desastrosa, e o vi parado lá me esperando... Acho que nunca me senti tão feliz quanto naquele momento.
Saímos juntos e o namoro aos poucos se transformou em morar juntos. Eu já tinha tido dois namorados no passado, ambos relacionamentos curtos que terminaram de maneira abrupta. Em ambos os casos, eles disseram que foi porque nunca sentiram que eu realmente os queria por perto e, olhando para trás, era meio verdade. Com Evan foi diferente. Nunca pareceu que a sua presença me impedia de ser eu mesma ou invadia espaços que considerava meus. Tudo sobre estar com ele parecia tão natural que, quando me disse que me amava pela primeira vez, foi uma surpresa perceber que ainda não o tínhamos dito. Evan também tinha amigos, muitos amigos, como poderia não ter? E me levava para conhecê-los quando estava disposta, e quando não queria, me deixava em paz. Depois de um ano juntos, enfim tinha o que talvez pudesse ser chamado de vida social e, mais do que isso, não a odiava. Sempre revirei os olhos para as pessoas que diziam que seus entes queridos as “completavam”, mas honestamente não consigo pensar em outra maneira de descrever como era estar com o Evan. Eu o pedi em casamento depois de apenas dois anos, e ele disse sim.
Vou pular a parte sobre sua morte. Faz apenas um ano, e não quero passar uma hora chorando no seu toca-fitas vagabundo. Congênito, disseram. Algum problema no coração. Sempre esteve lá, porém nunca foi diagnosticado. Sem aviso prévio. Uma chance em um milhão. Blá, blá, blá. Ele se foi. Apenas desapareceu. E voltei a ficar sozinha.
Não havia ninguém com quem pudesse conversar a respeito. Todos os meus amigos tinham sido seus amigos, e depois que se foi, não me senti bem em vê-los. Estou ciente, tenho certeza de que eles não se importariam, diriam que também eram meus amigos, contudo nunca consegui me forçar a tentar. Parecia mais confortável, mais familiar, estar sozinha, como se Evan tivesse sido apenas um sonho maravilhoso do qual estava acordando.
Não me lembro da semana entre a sua morte e o funeral. Tenho certeza de que aconteceu, no entanto não tenho nenhuma lembrança disso. Depois de sair do hospital, a próxima coisa que está realmente clara na minha mente é entrar naquela casa grande e austera. Não me lembro onde era, em algum lugar em Kent, acho, e devo ter recebido o endereço de alguém da família de Evan que organizou o funeral. Foi estranho. Evan nunca falava muito sobre sua família, dizia que não se dava bem com eles porque eram muito religiosos, e nunca tinha sido. Nunca os tinha conhecido, visitado ou sequer me tinham dito os seus nomes, pelo que me lembro. Entretanto deviam me conhecer o suficiente para me convidarem, porque de alguma forma acabei no lugar certo. Ainda bem que assumiram a responsabilidade pelo funeral. Não me sentia em condições de organizar nada.
A casa era muito grande e muito antiga. Tinha um portão alto que a separava da estrada principal, com o nome “Residência Moorland” esculpido na pedra do poste. Fui lá sozinha, com o meu velho Vauxhall Astra de segunda mão reclamando o tempo todo. Lembra daquela tempestade que atingiu a região no final de março passado? Bem, quase não a notei. Pensando bem, não devia estar dirigindo, mas naquela altura mal me dei conta. As árvores estavam a curvar-se de forma ameaçadora quando por fim estacionei em frente à Residência Moorland, e logo em seguida perdi ao vento o único chapéu discreto que tinha. Evan tinha me dito uma vez que a sua família tinha muito dinheiro, e olhando para aquele lugar percebi por que o funeral estava sendo realizado ali. Consegui ver ao redor o que parecia ser um mausoléu bem conservado. O último lugar de descanso dos ancestrais de Evan e, em breve, imaginei, do próprio Evan. Esse pensamento me fez chorar outra vez, e foi nesse estado, chorando, com os cabelos ao vento e encharcada pela chuva, que vi a porta se abrir.
Não sei o que esperava do pai de Evan. Sabia que não poderia ser nada parecido com o homem simples e charmoso por quem me apaixonei, todavia o estranho de rosto duro que me confrontou na porta ainda foi um choque. Era como olhar para Evan, porém como se a idade tivesse drenado toda a sua alegria e afeto. Comecei a me apresentar, contudo ele apenas balançou a cabeça e apontou para dentro, para uma porta no corredor atrás, e disse as únicas palavras que já me disse.
— Meu filho está lá dentro. Ele está morto.
E então se virou e foi embora, me deixando abalada, sem outra opção a não ser segui-lo para dentro.
A casa estava cheia de pessoas que eu não conhecia. Nenhum dos rostos adoráveis e acolhedores que conhecia dos amigos de Evan estava entre as figuras austeras de sua família. Cada um tinha a mesma expressão dura que o pai, e talvez fosse impressão minha, no entanto juraria que, quando olhavam para mim, seus olhos estavam cheios de algo sombrio. Raiva, talvez? Culpa? Deus sabe que me sentia culpada o suficiente por sua morte, embora não tenha ideia do porquê. Nenhum deles falou comigo ou entre si, e a casa ficou tão silenciosa e imóvel que, às vezes, parecia que mal conseguia respirar sob o peso do silêncio.
Por fim cheguei à sala onde estava velado. Evan, o homem com quem ia me casar, estava deitado em um caixão de carvalho brilhante que parecia grande demais para ele, de alguma forma. O caixão estava aberto e podia vê-lo, vestido com um impecável terno preto sob medida. Percebi que nunca o tinha visto usar terno antes. Como tudo o mais em sua morte, parecia estranho à vida que havia criado para si mesmo. Lembro-me de ter ido ao funeral do meu pai quando era muito jovem. Lembro de vê-lo deitado lá, depois que os agentes funerários terminaram seu trabalho. Meu pai parecia sereno, em paz, como se tivesse aceitado calmamente a realidade de sua morte. Aquilo me confortou, quando criança, embora pouco tenha atenuado a profunda sensação de perda que sentia. Não havia nada disso no rosto de Evan. Na morte, parecia ter a mesma dureza e reprovação que reparava em cada um dos membros silenciosos da família que o reivindicaram como um dos seus.
Não sei quanto tempo fiquei ali parada. Pareceram segundos, todavia quando me virei, quase gritei ao ver dezenas de figuras vestidas de preto paradas ali, me encarando. O resto da família Lukas estava de pé, esperando em silêncio, como se eu estivesse entre eles e sua presa. O que, de certa forma, suponho que sim. Finalmente, um velho caminhou até mim. Ele era baixo e curvado pela idade, seu terno preto pendendo do corpo como retalhos de pele flácidos. Ele disse.
— É hora de você ir embora. O enterro é um assunto de família. Tenho certeza de que quer ficar sozinha.
Tentei responder, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Todos ficaram ali, esperando que respondesse ou fosse embora, e percebi que o velho tinha razão. Queria ir embora, ficar sozinha. Não me importava para onde fosse, porém tinha que ir, para escapar daquele lugar horrível com seus estranhos observadores silenciosos. Passei correndo por eles e saí para a tempestade. Dentro do meu carro, apenas liguei o motor e comecei a dirigir. Não sabia para onde estava indo e mal conseguia enxergar por causa das lágrimas e da chuva torrencial, contudo não importava. Contanto que continuasse, contanto que não precisasse parar para pensar no que tinha acabado de acontecer. Olhando para trás, a única coisa que me surpreende no acidente é que não foi grave o suficiente para me matar.
Quando me dei conta, percebi que estava no meio de um campo, a uma distância considerável da estrada. As marcas atrás de mim mostravam onde eu havia derrapado na terra. Por sorte, não bati em nada nem capotei, contudo a fumaça saía do motor do meu pobre e velho Astra, e ficou claro que eu não ia a lugar nenhum. Estava escuro, e o relógio no painel marcava 23:12. Meu celular marcava a mesma coisa. Cheguei à Residência Moorland às 6 horas, conforme as instruções. Será que estava dirigindo há horas, ou será que passei ainda mais tempo com o corpo de Evan do que imaginava? Não tinha batido em nada, então não poderia ter ficado inconsciente. Será que havia ficado sentada lá dentro do meu carro fumegando esse tempo todo?
Não importava. A chuva estava caindo forte e precisava de ajuda. Tentei ligar para o serviço de emergência ou usar o GPS do meu celular, no entanto a tela só mostrava “SEM SERVIÇO”. Respirei fundo, tentando conter o pânico, e saí do carro. Fiquei toda encharcada em menos de dez segundos, enquanto lutava contra o aguaceiro em direção à estrada. Não conseguia ouvir nenhum som, exceto o vento uivante, e não havia faróis à vista. Sem ter ideia de onde me encontrava, decidi virar à direita e comecei a andar. Tentei usar meu celular de novo, todavia quando peguei minha bolsa, percebi o quanto a chuva a tinha encharcado. Apertar o botão liga/desliga só confirmou o que já suspeitava: meu celular não estava funcionando. Uma onda de raiva me invadiu, e toda a amargura e fúria que se acumularam durante os piores dias da minha vida explodiram em mim, e joguei o pedaço inútil de plástico no chão. O canto se estilhaçou ao atingir a estrada, depois ricocheteou na lateral e desapareceu na lama espessa.
De repente, senti muito frio enquanto estava ali parada na estrada. A chuva caía forte, as lágrimas corriam soltas e fiquei completamente sozinha. Continuei andando, na esperança desesperada de ver faróis à distância, entretanto não havia nada além de escuridão e o som constante da chuva caindo sobre quilômetros de campo vazio em todas as direções. Não tinha relógio, então, sem meu celular, não tenho ideia de quanto tempo caminhei. O frio penetrava minhas roupas encharcadas de luto e eu tremia, caindo de joelhos e quase desistindo. Nenhum carro vinha e não tinha a menor ideia de para onde estava indo.
Foi então que percebi que a chuva havia parado. Enxugando as lágrimas dos meus olhos, vi que uma névoa se formara ao meu redor e não conseguia mais enxergar além de alguns metros à minha frente. Continuei caminhando, pois a névoa persistente me fazia sentir ainda mais frio. A névoa parecia me seguir e girava em torno de mim com um movimento estranho e deliberado. Você provavelmente vai me achar uma idiota, mas parecia quase... Maliciosa. Não sabia o que ela queria, só que de alguma forma tinha certeza de que queria alguma coisa. Não havia presença nela, contudo... Não era como se outra pessoa estivesse ali, era... Me fez sentir totalmente abandonada. Comecei a correr, seguindo o máximo da estrada que conseguia ver na esperança de chegar ao outro lado, no entanto parecia não haver fim.
Não sei bem quando o asfalto duro da estrada se transformou em terra e grama, entretanto percebi depois de alguns minutos que havia me desviado do caminho. Tentei voltar, só que a estrada havia desaparecido. Tudo o que restava era a neblina e os contornos esqueléticos de árvores entremeadas. Suas linhas escuras se curvavam para longe de mim em ângulos agudos, porém se tentasse me aproximar, em vez de se tornarem mais nítidas, as árvores desapareceriam na noite nebulosa e eu as perderia de vista. Me ajoelhando, fiquei surpresa ao perceber que o chão sobre o qual estava não estava molhado. A terra compactada estava úmida devido à névoa rastejante, mas não parecia ter sido atingida pela chuva. O desespero que sentia logo se transformou em medo, e continuei avançando, adentrando mais fundo na neblina.
Percebi depois que a noite deveria estar escura demais para ver a neblina. Não havia luzes para revelá-la, e a lua estivera encoberta por nuvens de tempestade a noite toda, porém, apesar disso, podia vê-la claramente. Mutável, cinza-ardósia e sem cheiro algum. Enquanto caminhava, vi mais formas por perto. Lajes escuras de pedra, saindo do chão, inclinadas e quebradas. Lápides. Elas se espalhavam em todas as direções, e o leve embaçamento da névoa não suavizava o peso duro de sua presença. Não parei para lê-las.
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| Arte por u/Level-Bullfrog7027. |
Continuei andando até chegar ao centro do que só posso presumir ser um pequeno cemitério, e lá encontrei uma capela. O topo de sua torre estava perdido na penumbra e as janelas estavam escuras. Comecei a sentir alívio, como se finalmente tivesse encontrado algum sinal de vida. Comecei a circulá-la, movendo-me para onde acreditei estar as portas da frente. Conforme avançava, notei que havia vitrais nas janelas, contudo, sem nenhuma luz vinda de dentro, não conseguia distinguir o desenho. Enfim cheguei à frente do prédio e quase perdi a esperança. Enrolada nas maçanetas da entrada havia uma grossa corrente de ferro. Não encontraria nenhum refúgio ali.
Cheguei muito perto de tomar uma decisão precipitada naquele momento. Comecei a gritar, a berrar por socorro, só que o som parecia abafado e desaparecia quase assim que saía da minha garganta. Ninguém me ouviu, no entanto continuei gritando por algum tempo, apenas para ouvir o barulho, mesmo que parecesse morrer assim que tocasse a névoa. Foi inútil, e quando terminei, senti a umidade irritante entrando e saindo dos meus pulmões. Era sufocante e pesado, e decidi que precisava fazer alguma coisa. Comecei a procurar no chão a pedra mais pesada que conseguisse encontrar. Ia entrar naquela igreja, mesmo que tivesse que quebrar uma janela para conseguir. Qualquer coisa para sair da neblina. Tinha certeza de que alguma hora alguém me encontraria.
Notei que uma das sepulturas havia sido ligeiramente danificada pelo tempo, e um pequeno pedaço dela podia ser visto no chão. Tinha uma cruz gravada e o pesado pedaço de pedra agora jazia enterrado no solo do cemitério. Inclinei-me para levantá-lo, todavia ao fazê-lo, vi algo que me paralisou. A sepultura estava aberta. E estava vazia.
Não estava exatamente escavada. O buraco era limpo, quadrado e profundo, como se estivesse pronto para um enterro. No fundo havia um caixão. Estava aberto e não havia nada dentro. Recuei e quase caí em outra cova aberta atrás de mim. Comecei a olhar ao redor do cemitério com crescente pânico. Todas as covas estavam abertas e vazias. Mesmo ali, entre os mortos, eu estava sozinha.
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| Arte por kazoosnow. |
Enquanto olhava, a névoa começou a me pesar. Ela se enrolou em mim, sua umidade informe se agarrou a mim e começou a me arrastar suavemente, lentamente, em direção à cova que me aguardava. Tentei recuar, entretanto o chão estava escorregadio de orvalho e caí. Meus dedos se cravaram na terra macia do cemitério enquanto olhava desesperada ao redor em busca de algo que pudesse usar para me salvar, e minha mão se fechou sobre aquele pedaço pesado de lápide. Foi preciso todo o meu autocontrole para manter a firmeza naquela âncora, enquanto me arrastava aos poucos para longe da beira da minha cova solitária. Fluindo ao meu redor, o próprio ar me impulsionava para dentro, mas lutei para me levantar. A imagem da família de Evan de repente me veio à mente, e prometi a mim mesma que eles não seriam o último contato humano que eu teria.
Olhei em direção à capela e vi, com um sobressalto, que a porta estava aberta, a pesada corrente jogada nos degraus em frente. Corri o mais rápido que pude, gritando por socorro, porém quando cheguei à soleira, parei e só consegui olhar horrorizada. Através daquela porta, onde deveria estar o interior da capela, havia um campo. Estava banhado por um luar doentio, e a neblina roçava o chão. Parecia se estender por quilômetros, e sabia que poderia vagar por ali durante anos sem nunca encontrar outra pessoa. Virei-me de costas para aquela porta, contudo ao olhar para trás quase chorei... Além da borda do cemitério, estendia-se aquele mesmo campo. Percorrendo o horizonte.
Tinha que fazer uma escolha, então comecei a correr daquela capela para o campo atrás de mim. Quase caí em uma cova faminta, embora mantive o equilíbrio o suficiente para ultrapassá-la. A neblina parecia estar ficando mais densa, e mover-me através dela estava ficando mais difícil. Era como se estivesse correndo contra o vento, só que o ar estava completamente parado. Mal conseguia respirar enquanto o inalava. E então, quando me vi no meio daquele campo aberto e desolado, ouvi alguma coisa. Foi a coisa mais estranha, no entanto enquanto tentava correr, juro que ouvi a voz de Evan me chamando. Ele disse.
— Vire à esquerda.
Só isso. Foi tudo o que disse. Sei que parece ridículo, mas foi o que me disse para fazer. E eu fiz. Virei bruscamente para a esquerda e continuei correndo. E então... Nada.
Jonathan Sims: Foi quando o carro te atropelou?
Naomi: Sim. Me lembro de um vislumbre com os faróis e depois nada até acordar no hospital.
Jonathan Sims: Entendo.
Naomi: Então, o que você acha? Foi real?
Jonathan Sims: Bem, precisaremos investigar alguns detalhes que mencionou, entretanto, à primeira vista, diria que foi real apenas na medida em que um trauma pode ter um efeito muito real na mente. Além do mais, é difícil provar de qualquer forma, todavia sugiro que deixe a pedra conosco para que possamos estudá-la. E isso provavelmente ajudará você a superar esse incidente desagradável. Algum tempo com um profissional de saúde mais... Qualificado também pode ser útil.
Naomi: Certo. Eu realmente não sei o que esperava.
Jonathan Sims: Nós avisaremos se encontrarmos algo.
Naomi: Ah, isso é ridículo! Não acredito que perdi meu tempo...
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JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
Após a declaração da Sra. Herne, fizemos o máximo de apurações possíveis, que, reconhecidamente, não foram muitas. Evan Lukas de fato faleceu de insuficiência cardíaca em 22 de março de 2015, e seu corpo foi levado por sua família para o sepultamento. Todos os pedidos de informações ou entrevistas feitos à família Lukas foram rejeitados com bastante firmeza.
Por volta de uma da manhã do dia 31 de março, a Sra. Herne se envolveu em uma colisão com um homem chamado Michael Getty. Ela aparentemente atravessou a estrada correndo na frente do carro do Sr. Getty perto de Wormshill, em Kent Downs. Ela foi levada em seguida para um hospital e tratada por concussão e desidratação. Seu carro foi encontrado abandonado em um campo a oito quilômetros de distância.
Não há cemitérios que correspondam à descrição da Sra. Herne perto da estrada onde foi encontrada, nem poderia haver neblina, considerando os fortes ventos durante a tempestade naquela noite. Eu seria tentado a atribuir isso a uma alucinação causada por estresse e trauma, não fosse o fato de que, quando foi atingida, a Sra. Herne foi encontrada segurando um pedaço de alvenaria. Parece ser um bloco de granito esculpido com um desenho de cruz gravado. O tamanho e o estilo correspondem ao que seria encontrado no topo de uma lápide, embora não tenhamos conseguido rastrear sua origem. Ainda preso a ele está um pequeno fragmento do que podemos presumir que teria sido a própria lápide. O único texto que pode ser identificado apenas diz “esquecida”. Providenciei sua transferência para o armazenamento de artefatos do Instituto.
Fim da gravação.
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