sábado, 28 de março de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 01 — Capítulo 05

Volume 01: Aoi  Capítulo 05: Suas mentiras e verdades


— Escute, ainda faltam três dias para o aniversário da Aoi. Amanhã é sábado, então hoje será o grande dia. Vamos nos animar.

 

— Certo, Koremitsu.

 

Na manhã seguinte, uma sexta-feira, Koremitsu saiu de casa entusiasmado. Desembarcou no ponto de ônibus e seguiu pelo caminho que levava à escola.

 

— Asa pode estar planejando algo para se vingar de nós.

 

Hikaru falou preocupado.

 

— Ela transmite uma aura de maldade, e seu olhar é assustador. Acho que pode ser alguma chefe que ordena que delinquentes façam coisas perigosas ou algo assim.

 

— Não posso negar completamente, mas...

 

— Está falando sério? Ela é a mente por trás de tudo?

 

— Provavelmente não a esse ponto... Sim...

 

Hikaru gaguejou.

 

— Porém Asa é uma pessoa forte e sábia. É filha única, então trata Aoi como se fosse sua irmãzinha. E costuma dizer a Aoi que sou insincero. Ela gosta de ajudar os outros e é muito compreensiva.

 

— Diga-me, você não é muito protetor com as garotas? Tch... Espera aí, não me diga que também namorou aquela mulher arrogante?

 

Hikaru apenas respondeu à pergunta de um Koremitsu surpreso com serenidade.

 

— Não. Mesmo que eu seja o único homem que reste neste mundo, Asa não namoraria comigo. Mesmo que o mundo esteja prestes a acabar, não ficaríamos juntos.

 

Sua voz era delicada, embora inflexível.

 

— AKAGI...!

 

Koremitsu olhou na direção da voz e viu Honoka correndo em sua direção, completamente despreocupada com a saia desarrumada e os cabelos despenteados.

 

Seus olhos estavam arregalados e ela franziu a testa; demonstrava tanto sua leve raiva quanto sua fragilidade. De repente, segurou a mão de Koremitsu.

 

— O que... O que está fazendo, Shikibu?

 

— Graças a Deus! Você está bem!

 

— Hã? Do que está falando?

 

— Eu te liguei tantas vezes, e você não atendeu o telefone, então fiquei preocupada...

 

— Telefone?

 

Koremitsu vasculhou sua bolsa em busca do celular e descobriu que havia mais de 10 chamadas perdidas de Honoka.

 

Uma fila tão longa de chamadas recebidas era algo inédito para ele.

 

— Ah, eu desliguei.

 

— Que tipo de explicação é essa?

 

As sobrancelhas de Honoka se ergueram um pouco.

 

— Bem, na verdade, quase ninguém me ligou antes.

 

— Então por que tem um telefone, afinal? Não faz ideia de como me senti quando te ligue? Uuh?

 

— O que aconteceu?

 

Koremitsu perguntou atordoado; Honoka olhou para ele e respondeu com uma careta.

 

— A matriarca Asa me perguntou a seu respeito ontem.

 

— Matriarca Asa?

 

— Presidente Saiga.

 

— Saiga? Ah, Asa, então ela é a presidente, né?

 

— A-Asa! Você chamou a presidente de Asa...?

 

Honoka ficou estupefata.

 

— Por que está chocada?

 

Koremitsu não conseguia compreender a situação e olhou de soslaio para Hikaru, que pareceu demonstrar empatia ao dar de ombros. No entanto, essa reação só o deixou ainda mais confuso.

 

Honoka agarrou a gola de Koremitsu de forma precipitada e o puxou para si.

 

Fazendo beicinho, inflou as bochechas e o encarou.

 

— Sério, será que não entende a situação? Se estamos falando de Asai Saiga, a matriarca Asa do segundo ano, estamos falando da presidente do grêmio estudantil do ensino médio. Além do mais, ela já foi presidente do grêmio estudantil tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio! Alguém que pertence à elite da classe alta entre os “nobres” daqui, com poder extremo. Dizem que nem mesmo os professores ousam desafiá-la.

 

Furiosa, Honoka descreveu um boato de que um funcionário do departamento administrativo teria desafiado Asai e sido transferido, e outro que explicava como um professor em particular, insatisfeito com o comportamento de Asai, “pediu demissão” menos da metade do semestre do ano letivo tendo passado.

 

— Em vez de chamá-los de amigos próximos, poderia dizer que a presidente Saiga é como uma guardiã de Sua Alteza Aoi, e parecia que todos os rapazes que queriam se aproximar de Sua Alteza Aoi foram monitorados por ela. A presidente tinha uma expressão calma quando me perguntou a seu respeito, mas seus olhos estavam gélidos, e isso me assustou muito... Tenho certeza de que está de olho em você por não se afastar de Sua Alteza Aoi. E como não atendia o telefone quando te liguei, então pensei que...

 

Koremitsu observou os cílios de Honoka, lágrimas de incerteza ainda se agarravam a eles, apesar de sua imagem destemida.

 

Por que parece tão agitada e desesperada?

 

Koremitsu nunca havia estado tão perto de uma garota, e uma sensação anormal o dominou.

 

— A senhorita Shikibu está preocupada com você. Que menina boazinha.

 

Hikaru expressou isso delicadamente.

 

— Entendo, então está preocupado comigo? Obrigado.

 

Nem um segundo depois de as palavras saírem de seus lábios, o rosto de Honoka ficou vermelho. Suas mãos se soltaram da camisa dele com uma rapidez impressionante.

 

— O-O-O que está dizendo? Quem está preocupada... Você é só alguém que consegue se levantar mesmo depois de levar cem chutes. Só não quero te ver ser provocado pela presidente Saiga e te aconselhei; não, não estou preocupada de jeito nenhum... Só tenho medo de me envolver porque ela pode achar que sou sua cúmplice...

 

Ela se virou para Koremitsu e se afobou ao tentar se explicar.

 

— A senhorita Shikibu é mesmo uma gracinha.

 

Koremitsu, que observava Hikaru dar risadinhas, ficou perplexo.

 

— De qualquer forma, é melhor cooperar por enquanto.

 

— Isso é impossível. Nós acabamos de discutir ontem.

 

— HÃ?

 

Honoka voltou-se para Koremitsu; seus olhos estavam arregalados e sua expressão exagerada era digna de uma comediante.

 

— Nos encontramos no caminho para casa, e Asa me deu ordens como se fosse alguém importante. Perdi a paciência e gritei: “Quem vai te dar ouvidos, sua desgraçada?”.

 

— Por que respondeu assim...?

 

Seu olhar se desviou enquanto gritava.

 

— Não havia nada que eu pudesse fazer. Não podia recuar naquela situação.

 

A resposta de Koremitsu veio através de lábios franzidos.

 

— Você é mesmo um idiot...

 

— Se Saiga tentar fazer alguma coisa, eu te protegerei.

 

Idiota... Antes que Honoka pudesse terminar a frase, por algum motivo, ficou paralisada no mesmo lugar.

 

O sangue subiu-lhe ao rosto; tanto as orelhas como o pescoço estavam vermelhos. Ela desviou o olhar de Koremitsu.

 

O que está acontecendo? O que há de errado com ela? Por que o rosto está corado?

 

— Koremitsu, você não tem o direito de me chamar de mulherengo. Pelo contrário, tem um senhor talento aí.

 

Hikaru provocou.

 

Que absurdo está falando? Koremitsu pensou em protesto, porém reprimiu essas palavras para ouvir a resposta de Honoka.

 

— Seu idiota! Não precisa se preocupar comigo. Eu me protejo. Hum, não me subestime. Não preciso da sua ajuda, hum.

 

Honoka exclamou com seus olhos percorrendo o ambiente rapidamente.

 

— Sério? Agora não é hora de se preocupar com os outros. Será que não entende a sua própria situação? Por que está agindo com tanta calma, dizendo que vai me proteger ou algo assim... Não, meu rosto está todo vermelho. Todo mundo está olhando para nós!

 

Koremitsu, depois de se recuperar, percebeu que havia verdade nas palavras de Honoka; os alunos os olhavam surpresos enquanto passavam.

 

— Mantenha distância de mim quando estiver falando. Não quero que pensem que estudo junto com um delinquente.

 

Honoka desviou o olhar, escondendo o rosto delicado e corado, e disparou à frente de Koremitsu.

 

— EU NÃO SOU UM DELINQUENTE!

 

— NÃO FALE COMIGO!

 

Honoka aumentou ainda mais a distância entre eles.

 

— Ugh, eu realmente não entendo as mulheres...

 

Ele pensou que ela estivesse preocupada por causa da maneira como o abordou, contudo ficando irritada sem explicação; corando e sua expressão ficando, por um instante, vulnerável. No instante seguinte, estava amargurada de novo; suas oscilações de humor eram rápidas demais.

 

Koremitsu seguia Honoka, mantendo uma distância de alguns metros entre os dois, enquanto Hikaru tagarelava ao seu lado com muito ânimo.

 

— A senhorita Shikibu é mesmo uma gracinha. Sua personalidade forte e inocente é a combinação perfeita. Tão adorável. Agora você deveria ir até ela, pegar sua mão e dizer “Quero que nós dois estudemos juntos”. Tenho certeza que vai corar ainda mais. Ahh, quero tanto ver isso.

 

Sério, seu... E a Aoi?

 

Koremitsu lançou um olhar condescendente para Hikaru.

 

Sinceramente, por que estou me estressando tanto?

 

Honoka seguiu em frente com pressa, seu coração em total desordem.

 

Meu rosto está todo vermelho agora.

 

No dia anterior, quando Asai Saiga convocou Honoka à sala do conselho estudantil, esta a interrogou minuciosamente sobre Koremitsu.

 

Porque você parece próxima dele, Srta. Shikibu, ela disse.

 

Seus belos olhos emanavam uma pressão que fez Honoka estremecer de consternação.

 

— O Akagi pode parecer um delinquente, contudo na verdade é um cara sério e trabalhador, e se dedica de verdade à garota de quem gosta! Não é violento com garotas, e com certeza é um cavalheiro! Ele gosta de gatos, não sei se isso é verdade ou não, no entanto é alguém articulado e leva seus trabalhos a sério...

 

Se Honoka defendesse Koremitsu, sem dúvida seria considerada cúmplice. Fazer de Asai sua inimiga seria tolice.

 

Tinha ciência disso, todavia não conseguiu se conter.

 

— Koremitsu Akagi é um homem decente que tem uma aparência muito melhor do que aparenta!

 

Por que raios falei uma coisa dessas? A presidente não disse nada depois de me ouvir. Foi muito assustador.

 

Sem considerar...

 

— Se não houver mais nada, irei embora.

 

Falou com coragem e se despediu.

 

Não acredito que realmente fiz aquilo.

 

Suas ações foram ridículas; havia provocado a matriarca Asa.

 

Não tinha moral nenhuma para chamar Koremitsu de idiota.

 

A presidente não vai se conter agora, aconteça o que acontecer. Se fizer alguma coisa comigo...

 

— Eu vou te proteger.

 

Honoka se lembrou das palavras que acabara de ouvir, da expressão séria em seu rosto e da sua própria expressão de dor. Nunca teria esperado que a típica fala de um herói cruzasse a linha entre uma história de amor e a realidade.

 

— Eu vou te proteger...

 

UWWAAAAHHH. NÃO! NÃO FAÇA ISSO!

 

Ela chegou ao corredor, perturbada.

 

Hã?

 

Honoka percebeu algo incomum.

 

Havia uma multidão no corredor.

 

As meninas, com os olhos cheios de lágrimas, disseram coisas como: “Isso é demais” e “Quem poderia ter feito tal coisa?”.

 

O que aconteceu?

 

Ela trocou de sapatos às pressas e caminhou em direção à multidão.

 

— Hono.

 

Sua amiga de cabelos trançados, entre outras, a cumprimentou.

 

— O que aconteceu, Michiru?

 

Michiru lançou um olhar furioso enquanto resmungava.

 

— É horrível... Alguém corte os pedacinhos de papel colados ao lado do boletim de notícias do Lorde Hikaru...

 

Honoka voltou sua atenção para o quadro de avisos.

 

Os papéis coloridos, repletos de notas memoriais e mensagens para Hikaru Mikado, tinham grandes cruzes entalhadas.

 

O que houve?

 

Koremitsu estava no fundo da multidão, com uma expressão muito séria. Seus olhos encaravam o boletim de notícias e os jornais coloridos.

 

O boletim e os jornais tinham cruzes entalhadas.

 

— Obrigada.

 

— Até a próxima.

 

— Eu te amo muito.

 

As palavras, gravadas em pedaços de papel picado com tinta preta, estavam penduradas ao lado da foto de Hikaru.

 

Koremitsu olhou ofegante para Hikaru, que encarava os bilhetes escritos para ele, agora cobertos de grandes cruzes.

 

O que exatamente está acontecendo? Quem fez isso?

 

Koremitsu abriu caminho em meio à multidão, seguindo em frente.

 

Aqueles que viram a expressão rígida e cruel de Koremitsu se afastaram do seu caminho.

 

Um caminho se abriu à sua frente, e o ambiente ao seu redor se acalmou. Com a multidão o observando, se aproximou do quadro de avisos e parou.

 

Ele encarou as anotações e os papéis coloridos com os lábios franzidos.

 

Talvez foram cortadas com um canivete. A superfície não era irregular, mas muito lisa.

 

A semelhança entre essas cruzes e a cruz desenhada naquela tela pesava em seu coração.

 

Duas linhas pretas se projetam ao longo da escadaria banhada de luz solar.

 

Duas linhas pretas.

 

Ele sentiu a superfície cortada das notas com os dedos gelados, e um pequeno objeto caiu de dentro do envelope, aterrissando em cima do seu pé direito.

 

— ?

 

Ao se ajoelhar para pegá-la, era uma pequena estrela prateada, com metade do tamanho de um grão de arroz.

 

Hikaru inclinou-se para examiná-lo.

 

— Isto é...

 

Assim que começou a falar.

 

— Akagi.

 

Koremitsu se virou na direção da voz e viu um professor de aparência rígida, com uma jovem professora da turma ao seu lado.

 

A professora responsável da turma hesitou, porém o outro professor falou com firmeza.

 

— Por favor, venha conosco.

 

Pelo semblante preocupado da professora responsável da classe e pela voz severa do professor, percebeu que nada de bom resultaria daquilo.

 

— Este é o Chefe do Corpo Docente, Sr. Nishidera.

 

Hikaru falou com voz tensa.

 

A voz de Koremitsu se seguiu.

 

— Oh.

 

Com essa resposta, eles seguiram o chefe do departamento.

 

Os olhares curiosos dos espectadores os cutucavam como agulhas.

 

Pelo canto do olho, Koremitsu viu Honoka observando-o partir com preocupação.

 

— Ele é o culpado? Já que foi chamado à diretoria pelo chefe do departamento, sabe?

 

Atrás deles, era possível ouvir uma algazarra desse tipo.

 

— Um aluno se apresentou como testemunha, dizendo que foi você quem cortou o papel colorido com uma faca.

 

Koremitsu foi conduzido à apertada sala de aconselhamento, e o chefe do corpo docente falou em tom de repreensão do outro lado da mesa de conferência.

 

— Hã? Quem?

 

As palavras o deixaram surpreso e atordoado.

 

O chefe do corpo docente falou em um tom severo.

 

— Não posso dizer quem eram, contudo foram três alunos, não apenas um, que o denunciou, dizendo que o viram cortando os papéis coloridos com uma faca.

 

O quê?

 

Ele teve uma revelação repentina.

 

Foi a Saiga quem fez aquilo, não foi?

 

Se não o tivesse feito, por que três pessoas teriam testemunhado tê-lo visto cortar as notas, sendo que era inocente?

 

Honoka já havia dito que a presidente Saiga não perdoaria seus inimigos e que todos os estudantes que se opunham à presidente desapareciam sem motivo aparente.

 

Caramba, isso é muito desprezível, Asai Saiga. É seu modus operandi incriminar as pessoas?

 

Seu rosto enrijeceu e seu peito ferveu.

 

Hikaru, após notar as sobrancelhas trêmulas e os olhos cheios de fúria de Koremitsu, ofereceu alguns conselhos.

 

— Você não fez aquilo, Koremitsu. Posso garantir por você, já que estamos juntos 24 horas por dia, então, por favor, se acalme. Apenas aguente firme por enquanto e ouça o Chefe do Corpo Docente.

 

Koremitsu respirou fundo para se acalmar.

 

Não fosse pela intervenção de Hikaru, a situação teria piorado.

 

Talvez tivesse gritado para o chefe do corpo docente trazer tanto os alunos que o incriminaram quanto a presidente do grêmio estudantil, Saiga.

 

— Não foi eu quem fez isso.

 

Concluiu, encarando o chefe do corpo docente.

 

Tanto o professor chefe do corpo docente quanto a professora da turma ficaram um pouco surpresos com a sua calma negação.

 

— No entanto ouvi dizer que você gritou com as alunas que estavam colando os bilhetes no quadro alguns dias atrás, não foi?

 

— Bem... Não estava gritando com elas e não tenho nada a ver com isso.

 

— Então, quer dizer que as testemunhas estavam enganadas.

 

— Não sei, já que não sou eles, entretanto sei muito bem o que fiz ontem. Saí da escola antes do horário limite, então, se de fato viram o culpado, não fui eu. Além do mais, eu não faria esse tipo de coisa de qualquer maneira.

 

— Nesse caso, existe alguém que possa provar que você saiu a escola nesse horário?

 

— Encontrei a presidente Saiga quando fui ao apartamento de Hikaru. A presidente deveria ser capaz de comprovar.

 

Só o nome já o irritava.

 

Ele fez o possível para reprimir a raiva que lhe subia ao peito enquanto falava, todavia o Chefe do Corpo Docente lançou um olhar arrogante para Koremitsu e disse, sem hesitar.

 

— Já perguntei a Saiga a respeito.

 

O quê?

 

— Você se diz amigo de Hikaru Mikado, mas ficou furioso quando Saiga apontou que isto seria impossível.

 

Isso era absolutamente verdade.

 

Parecia que Koremitsu estava mentindo sobre ser amigo de Hikaru e que era uma lunático incapaz de distinguir entre fantasia e realidade. Saiga definitivamente insinuou isto quando falou com a Chefe do Corpo Docente.

 

— Talvez ela tenha se preocupado que você fizesse algo exagerado porque estava muito alterado. Disse que você poderia voltar para a escola depois e que teria tempo suficiente para fazer algo assim.

 

— O quê...

 

QUE TIPO DE PIADA É ESSA? Ele quase explodiu.

 

— Aguenta firme, Koremitsu!

 

Hikaru o conteve.

 

— Eu entendi, já entendi, tá bom?

 

Koremitsu conseguiu se acalmar, mas seu coração estava acelerado e sua cabeça fervilhava.

 

Sua respiração estava irregular.

 

O chefe do corpo docente e a professora responsável de sua classe deviam ter ficado surpresos com a fúria demonstrada em seus olhos e com a falta de ar que o paralisou.

 

— Eu não fiz isso. Hikaru é meu amigo; não vou rasgar mensagens destinadas a um amigo.

 

Sua voz rugia de fúria, e sua garganta ardia.

 

— Você realmente não fez?

 

O chefe do corpo docente perguntou de novo, em tom irritado, e Koremitsu quase perdeu a paciência, porém foi contido mais uma vez por Hikaru.

 

— Nunca.

 

O chefe do corpo docente suspirou e disse.

 

— Falarei com você novamente assim que conversar com Asai.

 

Koremitsu foi liberado e o sino que indicava o fim do primeiro período tocou.

 

— Ouvi dizer que Akagi foi chamado à sala dos professores pelo chefe do corpo docente porque foi ele quem recortou o jornal e o papel colorido.

 

— Então, depois de tudo, foi obra daquele delinquente.

 

— Eu já tinha imaginado. Seu rosto estava todo zangado quando gritou com as meninas no corredor. Ele também tinha essa expressão assustadora no rosto esta manhã.

 

— Como alguém assim pode ser amigo do Lorde Hikaru? Os dois são tão diferentes, é como se fosse um príncipe e um escravo.

 

— É, ninguém vai acreditar em tal besteira...

 

— Por falar nisso, se não me engano, ele compareceu ao funeral?

 

— Sim, mas e daí? É um perseguidor fantasma? Com ​​certeza cortou os papéis porque estava irritado por todos o ignorarem quando falou que era amigo do Lorde Hikaru.

 

— Ele é o pior.

 

Esses devaneios, e outros semelhantes, vinham de pouco a sua frente.

 

— Tch! Aquela maldita mulher... Não vou te perdoar, Asai Saiga.

 

Seus dentes cerraram com força e seguiu pelo corredor até a sala de aula.

 

Ela me incriminou como o vândalo, então estou completamente isolado, porém está sendo muito ingênua. Eu já estava isolado desde o início. Já estou acostumado com esse tipo de calúnia.

 

— Será que Asa realmente fez isso?

 

Ao seu lado, Hikaru fechou os olhos ligeiramente e murmurou, pensativo.

 

— Fazer esse tipo de coisa não é o estilo da Asa.

 

— O que está querendo dizer?

 

Koremitsu falou em voz baixa.

 

Parecia algo que uma mulher de sangue frio faria, contudo o rosto quase sempre sereno de Hikaru estava sombrio.

 

— É típico da Asa te incriminar, Koremitsu, no entanto... Quem fez o vandalismo pode ter sido outra pessoa. A Asa só o usou a seu favor.

 

— Outra pessoa...

 

— Porque se Asa soubesse quem o fez, com certeza não te difamaria, tenho toda certeza. Asa não faria uma coisa tão perigosa.

 

O fervor nos olhos de Hikaru estava desaparecendo rapidamente, até desaparecer por completo.

 

Parecia estar absorto em seus próprios pensamentos, buscando uma resposta; seu semblante gélido era o de um completo estranho para Koremitsu.

 

Para Koremitsu, ver o rosto de Hikaru com qualquer expressão que não fosse um sorriso era desconcertante, e ao se lembrar da cruz desenhada naquela tela, seu peito doía como se estivesse sendo dilacerado.

 

Honoka correu em sua direção.

 

— Akagi, você está bem?

 

Ela parecia estar numa mistura de perturbada e preocupada enquanto olhava para Koremitsu.

 

— Sim. — ele respondeu.

 

— O chefe do corpo docente estava te procurando?

 

— Ele perguntou se eu era o culpado, no entanto eu não fiz nada.

 

Ele ainda estava furioso com Asai e o chefe do corpo docente, todavia fez o possível para parecer apático e não preocupar Honoka; entretanto, ainda tinha a cara de um canalha.

 

Honoka fez beicinho, demonstrando estar visivelmente envergonhada.

 

— É mesmo? Então nada aconteceu. — ela murmurou num tom frio.

 

— Por que você está conversando com o delinquente Akagi, Shikibu?

 

— Que decepção. Pensar que você também se tornou uma delinquente, Shikibu.

 

Koremitsu ouviu algumas pessoas murmurarem.

 

E no instante seguinte, berrou.

 

— TÁ BOM, AQUELE CARA QUE DISSE DELINQUENTE! PODE ME CHAMAR DE UM, MAS A SHIKIBU NÃO É UMA!

 

— O que está fazendo, Akagi...

 

Os olhos de Honoka se arregalaram e tentou impedir Koremitsu.

 

Hikaru, que estava absorto em seus próprios pensamentos, se apressou em aconselhar Koremitsu também.

 

— Koremitsu, sei que é típico seu ficar com raiva pela Honoka, mas vai causar problemas para a senhorita Shikibu também se piorar mais a situação!

 

— ...

 

Koremitsu parou.

 

— O que está fazendo? Agora está com raiva da gente?

 

— Ele é o culpado por cortar o jornal no boletim do Lorde Hikaru.

 

Outras vozes soaram, e Koremitsu cerrou o punho trêmulo enquanto suas veias na têmpora pareciam prestes a explodir.

 

Neste momento...

 

— Isso não é verdade. Não foi ele quem cortou os jornais e as notícias!

 

Koremitsu duvidava dos seus próprios olhos e ouvidos.

 

Hikaru também ficou ali parado, imóvel.

 

Quem exclamou com o rosto pálido foi Aoi.

 

Por que Aoi faria isso?

 

Koremitsu prendeu a respiração, e a voz de Aoi continuou a ecoar.

 

— Não! Ele não fez aquilo...! Não foi ele. Não foi!

 

Seu corpo trêmulo e delicado parecia prestes a se partir, e seus olhos estavam cheios de angústia enquanto continuava a contar-lhes.

 

Seu rosto pálido e seus longos cabelos negros e lisos estavam completamente despenteados.

 

Sua voz estava ficando mais fraca, e ela se encolheu, aparentemente com frio, e baixou a cabeça.

 

O sinal da segunda aula tocou pelo corredor silencioso.

 

Os braços de Koremitsu estavam caídos, fracos, enquanto permanecia ali, e pouco depois lhe veio à mente a imagem da grande cruz na tela e de Aoi a desenhando.

 

***

 

Durante o intervalo do almoço, enquanto Koremitsu subiu ao telhado com o bento embalado, ouviu rumores sobre o ataque.

 

— Ouvi dizer que foi a noiva do Lorde Hikaru quem fez aquilo.

 

— Sua Alteza Aoi vinha menosprezando Lorde Hikaru há muito tempo, e até mesmo naquele dia...

 

Hikaru, que estava ao lado de Koremitsu, permaneceu em silêncio com uma expressão rígida.

 

Os dois chegaram ao telhado, e Koremitsu sentou-se com as pernas esticadas.

 

— O que você acha? Será que Aoi foi a responsável?

 

Ele sussurrou hesitante.

 

— Não sei. Mas a senhorita Aoi tem um motivo.

 

Hikaru franziu a testa ao responder com pesar.

 

Aoi não disse que foi ela quem cortou o papel, tudo que disse foi “não foi ele”... Soou como se estivesse tentando proteger Koremitsu, ou melhor, como se ela se sentisse culpada pelo crime.

 

Se foi mesmo a Aoi quem cortou tudo, quem sabe o quão cruel isto será para o Hikaru...?

 

O que faria com os presentes de aniversário que prometeu dar a Aoi no domingo? A expressão de Hikaru era sombria, e Koremitsu ficou sem palavras.

 

Porcaria. Eu bem que podia ser o culpado!

 

Frustrado, ele mordeu o Inarizushi¹ extremamente grande.

 

De repente, algo brilhou ao lado de Koremitsu.

 

“!”

 

E então, um sino tocou e uma garota apontou sua câmera bem na sua frente.

 

A menina tinha cabelo curto e despojado, e embora tivesse uma constituição física delicada, suas coxas sedosas e o busto saliente sob a blusa a tornavam encantadora.

 

— Desculpe, Akagi! Posso tirar uma foto, por favor? Deste ângulo.

 

Sem permissão, ela se colocou na frente dele, e a tela do celular piscou de novo. Um som de risada estridente ecoou, indicando que a sessão de fotos havia terminado.

 

— O que está fazendo?

 

— Olá, meu nome é Hiina Oumi, sou do clube de jornalismo e a segunda garota da turma 1-4. Meu tipo sanguíneo é AB, meu aniversário é dia 3 de fevereiro e sou do signo de Aquário. Quanto aos meus gostos para namorados, prefiro os intelectuais de óculos. Estou disposta a tudo para conseguir um furo de reportagem, seja usar um maiô da escola, orelhas de gato ou limpar o banheiro. Minha comida favorita é macarrão, e prefiro com bastante queijo em vez do molho de carne napolitano. Acho que o macarrão napolitano com queijo é o melhor, não é? Tem um café chamado “April Fools” em frente à estação, e o combo completo, que inclui café, chá vermelho, chá de ervas ou sorvete de menta caseiro, custa 850 ienes. É a melhor opção para mim. Tem mais alguma pergunta?



Ela estava falando muito rápido na metade da frase, contudo  as últimas palavras foram tão rápidas que a mente de Koremitsu se perdeu por completo.

 

Vestindo um maiô escolar, limpando o banheiro, ou qualquer outra coisa, o que estava acontecendo? Não, antes disso...

 

— Por que você tirou uma foto minha se eu não permiti?

 

E nessa situação?

 

Ele a encarou de volta como uma fera, no entanto a garota pareceu não se importar.

 

— Perguntei se podia tirar uma foto.

 

— Só que eu não permiti que tirasse.

 

— Bom, não vamos nos preocupar com coisas tão triviais. Agora, o assunto da nossa reportagem exclusiva: Akagi, você é amigo do Lorde Hikaru, certo?

 

— E daí?

 

Talvez dissesse algo como “não consigo acreditar”.

 

— Estou investigando algo relacionado ao Lorde Hikaru. Por isso, estou coletando todo tipo de informação.

 

— Você ainda vai escrever uma homenagem à Hikaru em meio a essa confusão toda?

 

— Ah, você teve muito azar esta manhã, não é, Akagi? Mas não tenho intenção de me concentrar nessa questão trivial de um ato de vingança pessoal. Bem, uma cena de confissão de Sua Alteza Aoi certamente é emocionante, porém não passa de um ato de terceira categoria. O que estou investigando é a questão da “verdade por trás da morte do Lorde Hikaru”, sabe.

 

— Qual é a verdade por trás da morte de Hikaru?

 

Enquanto Koremitsu permanecia perplexo, Hiina sorriu e disse.

 

— É só... Um pequeno boato, entretanto diz que Lorde Hikaru não morreu em um acidente, e que na verdade foi assassinado por alguém.

 

— !

 

Koremitsu soltou um leve suspiro.

 

Será que Hikaru foi morto por alguém?

 

O que está acontecendo, Hikaru?

 

Ele se virou para o próprio homem e viu Hikaru lançar um olhar sombrio e gélido para o céu, uma expressão que poderia ter congelado a atmosfera ao redor deles. Hikaru mordeu os lábios, que quase sempre exibiam um sorriso gentil; seu rosto estava impassível e seus olhos, penetrantes.

 

Koremitsu ficou arrepiado.

 

Era verdade?

 

— Ei, Akagi? Por que você está olhando para trás?

 

Enquanto Hiina chamava por Koremitsu.

 

— Então você está aqui, Akagi!

 

Honoka abriu a porta do telhado e exclamou com um tom de desespero.

 

— O que foi, Shikibu?

 

— Sua Alteza Aoi está em apuros! Ela foi pega pelas fãs do Lorde Hikaru! A situação é muito ruim!

 

— Aoi!

 

Hikaru exclamou.

 

— Ahh, Sua Alteza Aoi vinha falando mal do Lorde Hikaru até agora, deixando suas fãs muito infelizes. Com esse incidente, a situação vai passar dos limites.

 

Hiina falou com certa expectativa. Koremitsu largou seu bento e correu até Honoka.

 

— Para onde elas foram, Shikibu?

 

— Para a floresta!

 

Koremitsu desceu as escadas correndo.

 

— Ah! Espere um momento! Akagi! Eu ainda não recebi meu material...!

 

Hiina correu, seguindo-o com o peito balançando.

 

***

 

É melhor que nada te aconteça, Aoi!

 

Ele não esperava ver estudantes sendo incitadas à vingança pessoal nesta prestigiosa escola de princesas e jovens senhores. Se as mulheres ficassem histéricas, quem sabe o que poderiam fazer.

 

Enquanto Koremitsu descia as escadas correndo, Hikaru exclamou em tom de êxtase.

 

— Escute, Koremitsu. Acredito que não foi a senhorita Aoi quem cortou o papel. Ela pode ter um “motivo” para fazer, porém não é do seu feitio “executar o ato”. Claro, também não foi a Asa. Mesmo que a Asa saiba que a senhorita Aoi desenhou uma cruz na tela, não suspeitará da senhorita Aoi.

 

Koremitsu disparou pelo corredor e saiu correndo do prédio da escola sem trocar de sapatos. Nesse meio tempo, Hikaru continuou com uma expressão séria.

 

— Isso mesmo, Asa definitivamente não sabia que a Srta. Aoi havia desenhado uma cruz na tela. É por esse motivo que, quando houve o incidente do corte, ela achou que poderia usar esse evento a seu favor e te incriminar.

 

Koremitsu ofegou, olhou em volta e correu direto para a floresta.

 

A voz de Hikaru ficou mais tensa.

 

— O ponto crucial desta situação é por que o culpado desenharia deliberadamente uma grande cruz no memorial. Se não for coincidência, deve haver uma intenção por trás do seu ato, e o culpado aparecerá. A senhorita Aoi não é a culpada, e não é Asa. O que significa...

 

Uma voz soou, como se rasgasse o ar bruscamente.

 

— Você só está prometida em casamento porque seus pais decidiram por essa união!

 

Ele virou a cabeça na direção de onde vinha a voz e viu Aoi encostada em um tronco grande. Ela mordia os lábios com força e franzia a testa, com o rosto pálido.

 

Havia 10 meninas ao seu redor.

 

E pelo visto estavam se revezando para repreendê-la.

 

— Mesmo que não fosse amada por Lorde Hikaru, é vergonhoso que ainda o odeie após a sua morte e rasgue os papéis!

 

— O Lorde Hikaru certamente é digno de pena por ter uma mulher tão perversa como você como noiva. Não admira que tenha saído por aí flertando.

 

Por mais que fosse repreendida, Aoi permanecia em silêncio com uma expressão rígida. Seus olhos brilhavam com firmeza, e seus lábios cerrados não pronunciavam uma única palavra.

 

— O que está olhando? Diga alguma coisa? Está nos menosprezando porque se acha uma “nobre” que está na escola desde o jardim de infância?

 

A garota que estava irritada com a atitude de Aoi levantou a mão.

 

— Eu sempre tive antipatia por você, há muito tempo.

 

Koremitsu correu até lá gritando.

 

— PARE AÍ MESMO...!

 

Aoi arregalou os olhos.

 

E as outras garotas olharam para Koremitsu.

 

Koremitsu abriu caminho entre elas e parou na frente de Aoi, protegendo-a.

 

— Não encoste um dedo nela! É uma pessoa muito importante! Se quer descontar sua raiva, venha para cima de mim! Eu levo uma surra sua por ela.

 

Certo! A Aoi é uma pessoa muito importante para o Hikaru. É por isso que tenho que protegê-la!

 

Ao verem Koremitsu, com sua aparência selvagem e cabelos vermelhos despenteados, ofegando enquanto gritava, as garotas ficaram paralisadas de medo.

 

— VENHA ME BATER!

 

Koremitsu rugiu para a garota que levantou a mão.

 

— O que... O que está fazendo? Ela não te ignorou todo esse tempo, te molhou com a água do pincel e rasgou os papéis que todos escreveram para o Lorde Hikaru? E ainda quer protegê-la depois de tudo? Será que é idiota por acaso?

 

A garota lançou um olhar tímido para Koremitsu.

 

Neste momento...

 

Hikaru, que estava ao lado deles, falou com firmeza.

 

— Não, a senhorita Aoi não fez isso.

 

Koremitsu se virou em seguida para Hikaru.

 

Sua expressão era tão firme quanto sua vontade, irrestrita, e olhou para as garotas que cercavam Aoi.

 

Elas não conseguiam ver Hikaru.

 

E não conseguiam ouvir a voz dele.

 

Mas Koremitsu conseguia ouvi-lo.

 

Foi por esse motivo que...

 

— Não foi a senhorita Aoi quem recortou os jornais coloridos e as notícias.

 

Foi por esse motivo que teve que transmitir as palavras de Hikaru.

 

Precisava proteger a Aoi que Hikaru tanto amava.

 

As garotas arregalaram os olhos em choque, e Aoi, que estava atrás, ficou surpresa.

 

Hikaru parecia um arcanjo enviado por Deus enquanto apontava um dedo comprido para uma das garotas.

 

— Você é a culpada.

 

— Foi você quem fez aquilo.

 

Koremitsu agarrou a mão da garota para quem Hikaru apontou e a ergueu.

 

— Não!

 

A garota que vinha importunando Koremitsu até então soltou um grito baixo.

 

Honoka deu um suspiro de espanto, e Hiina pegou o celular enquanto se preparava.

 

A unha polida do dedo indicador da mão direita caiu quando Koremitsu a agarrou, e os fragmentos de vidro em forma de estrelas e flores brilhavam.

 

Eram as mesmas estrelas que caíram nos dedos dos pés de Koremitsu.

 

Hikaru falou baixinho...

 

— Por que há grandes cruzes nos jornais? Quanto ao significado de tal ato, significa que a culpada estava sem dúvida na sala de artes e viu a Srta. Aoi desenhar a cruz na tela. Por não gostar da Srta. Aoi, fez aquilo para incriminá-la.

 

Koremitsu assimilou o significado das palavras de Hikaru enquanto rosnava.

 

— Você é do clube de artes, não é? E me viu sendo repreendido pela Aoi assim como também a viu desenhar aquela cruz enorme na tela. É por essa razão que cortou os jornais e revistas em grandes cruzes de propósito para desviar a suspeita para ela.

 

A garota agarrada pela mão congelou abruptamente e, em seguida, debateu-se como um peixe mordendo o anzol, tentando se libertar da mão de Koremitsu. Contudo, ao perceber que não conseguiria escapar, sua expressão se contorceu, e pareceu desejar que Koremitsu não dissesse mais nada.

 

— É-É que... Eu não consegui perdoá-la.

 

A garota demonstrou medo e apreensão no rosto enquanto movia os lábios ressecados.

 

Essa pessoa não parava de chamar Lorde Hikaru de inútil, um verme entre os homens, e chegou a dizer algo como se ele merecesse aquilo pelo que fez.

 

Seus olhos, que pareciam hesitantes, revelavam raiva e tristeza enquanto dizia “essa pessoa”, e rosnou essas palavras.

 

— Q-Quando Lorde Hikaru estava por perto, eu não conseguia me aproximar dele porque estava muito nervosa... Mas aquela pessoa, mesmo tendo se tornado sua noiva tão facilmente, disse coisas tão... Tão exageradas... Se eu fosse ela, teria arrancado minha língua e não teria dito nada... Se eu fosse a noiva de Lorde Hikaru, com certeza o valorizaria mais do que aquela pessoa. Agradeceria a Deus todos os dias... No entanto essa pessoa continua a menosprezá-lo, e é a sua noiva.

 

Quando terminou, a garota desabou em lágrimas.

 

Koremitsu enfraqueceu, sem saber o que fazer.

 

Quando Aoi desenhou a grande cruz na tela, Koremitsu também não conseguiu conter sua raiva e gritou.

 

Ele compreendia muito bem os sentimentos da garota que Aoi magoou.

 

Koremitsu soltou sua mão e logo depois a menina se ajoelhou, com a saia estendida na grama irregular enquanto soluçava fracamente.

 

— Lorde Hikaru... Sempre foi meu ídolo. Sempre me contentei em apenas observá-lo de longe, mas agora ele está morto... Não... Não poderei vê-lo de novo...

 

Hikaru também demonstrou um semblante triste e se ajoelhou para segurar as mãos da garota, aparentemente se desculpando por não conseguir aceitar seus sentimentos.

 

— M-Me desculpe.

 

Embora a pessoa que esperava encontrar estivesse bem na sua frente, não sentiu ele apertar sua mão e continuou soluçando.

 

— Eu já sabia... É só inveja da minha parte... Porém... Dói muito... Não consegui me controlar... Me desculpe... Me desculpe.

 

As outras meninas também se desculparam, baixando a cabeça.

 

— Desculpe.

 

— Por favor, me perdoe.

 

Koremitsu, que já estava apreensivo com a possibilidade de receber um pedido de desculpas, estava suando frio enquanto sua cabeça começava a esquentar e gritou.

 

— Suas idiotas! Não venham me pedir desculpas nem nada! Vocês não deveriam ter feito isto se soubessem que iam se desculpar desse jeito!

 

De repente, uma voz rouca veio de trás.

 

— É verdade.

 

Aoi, parada atrás de Koremitsu, continuou a resmungar.

 

— Por favor, não... Faça isso também. Por favor, não... Se desculpe.

 

Ele se virou e viu que a expressão de Aoi estava mais pálida do que antes. Seus olhos estavam fechados e parecia se contorcer enquanto respirava.

 

— Eu... Não fui quem cortou os papéis, contudo... Já tinha pensado em fazê-lo.

 

Assustado, Koremitsu ficou com a voz presa na garganta. Hiina observava com uma expressão calma, enquanto Honoka e as outras garotas assistiam à cena em choque.

 

E então, uma tonalidade de agonia começou a se espalhar pelos olhos de Hikaru. A cada instante em que Aoi falava, seus ombros delicados tremiam, e a agonia se intensificava.

 

— Como você disse, Hikaru nunca me amou. Estava sempre atrás de outras garotas... E o desprezei por causa disso. Ele enganava as pessoas desse jeito e morreu dessa maneira... Não se importou com os sentimentos dos outros até o fim.

 

Aoi, de repente, não conseguiu mais continuar. Sua expressão contorcida mostrava que estava prestes a chorar, e já havia revelado a tristeza e a amargura que carregava dentro de si.

 

— Sempre pensei em rasgar aqueles jornais coloridos para não ter que me lembrar deles... Sempre que vejo aquelas coisas relacionadas ao Hikaru todas as manhãs, não consigo evitar a vontade de rasgá-las... Então, foi por isso que, quando vi as notícias e os jornais rasgados... Eu erroneamente pensei que tinha feito aquilo...

 

O corpo delicado de Aoi parecia mais frágil do que antes, e seu rosto empalideceu. Seus grandes olhos fervilhavam de agonia.

 

— Pensei que seria ótimo se todas as minhas lembranças de Hikaru desaparecessem!

 

No momento em que ela gritou, Koremitsu sentiu como se tivesse ouvido o som do coração de Hikaru se partindo.

 

Hikaru, que antes atuava como uma espécie de promotor, ficou ali parado como um condenado sendo julgado por crimes graves.

 

Ele não argumentou ao fechar os lábios, e seus olhos tristes demonstraram impotência.

 

Aoi então baixou a cabeça e fugiu.

 

— Espere!

 

Koremitsu a seguiu.

 

— Não me siga! Os sentimentos de Hikaru por mim são como estrelas caindo no céu; não existem!

 

Aoi exclamou enquanto corria.

 

Essas palavras marcaram o coração de Koremitsu.

 

Por que continua dizendo essas coisas?

 

Hikaru estava certamente ao lado da Aoi.

 

Até permaneceu neste mundo para cumprir a promessa que lhe fizera.

 

E ela chegou a dizer algo como “seria ótimo se ele desaparecesse”... Que não conseguiria evitar estragar tudo. Por que tinha que deixar escapar uma voz tão desolada, uma expressão tão dolorosa, por quê?

 

Ele sentia o peito apertado e tinha dificuldade para respirar, pois seu corpo doía.

 

Hikaru disse que você é a sua esperança! Mesmo assim...

 

— Por favor! Espere! Aoi Saotome! Me escute!

 

Aoi correu do pátio para o corredor, e Koremitsu fez o possível para alcançá-la. Sentiu a presença de Hikaru atrás dele, sua dor, e continuou a persegui-la.

 

Não há tempo suficiente.

 

O aniversário da Aoi é no domingo, daqui a dois dias. Se Koremitsu não conseguisse abrir o coração dela até lá, não conseguiria entregar os 6 presentes de aniversário restantes, e nem transmitir os sentimentos de Hikaru para Aoi!

 

Ainda que essa já fosse a última chance de Hikaru!

 

Hikaru mal podia comemorar o aniversário de Aoi junto!

 

— Pare aí mesmo! Aoi Saotome! Tenho algo que quero te dar!

 

Aoi subiu as escadas correndo.

 

A luz do meio-dia invadiu as janelas da escada.

 

— Ei! Aoi Saotome! Saotome! Aoi! Senhorita Aoi!

 

Senhorita Aoi.

 

No instante em que a chamou, Aoi parou imediatamente.

 

No entanto, não olhou para trás e ajoelhou-se, sem forças.

 

Ela estava fora do seu normal.

 

Koremitsu correu em direção a ela.

 

Hikaru também.

 

— Senhorita Aoi! Senhorita Aoi!

 

Aoi ainda estava grogue quando fechou os olhos, exausta de tudo, respirando com dor. Mesmo quando Koremitsu a carregava, não demonstrou nenhuma reação. Koremitsu ficou surpreso ao perceber quão leve seu corpo era.

 

— Hikaru, onde fica a enfermaria?

 

— Primeiro andar!

 

— Mostre o caminho.

 

Ele carregou Aoi enquanto corria para a enfermaria.

 

No caminho de volta, Koremitsu passou por Honoka e Hiina, que o alcançaram.

 

— Espere! O que está acontecendo? O que houve com Sua Alteza Aoi?

 

— Wow, uma princesa sendo carregada! Posso tirar uma foto?

 

— Idiota! Eu te mato se você ousar tirar uma!

 

Ele gritou essas palavras enquanto saía correndo.

 

***

 

Koremitsu deixou Aoi deitar-se na cama da enfermaria e, por fim, soltou um suspiro de alívio.

 

Seus cabelos e roupas estavam encharcados de suor a ponto de conseguir torcê-lo.

 

— Esforço excessivo, falta de sono e desnutrição.

 

A professora da enfermaria franziu a testa.

 

Koremitsu soube que Aoi se sentiu mal durante uma aula alguns dias atrás e foi até a enfermaria para descansar.

 

— Naquela época, enfatizei que precisava dormir e se alimentar, nem que fosse apenas um pouco. Parece que ainda está pensando no Hikaru, sério, quem pode culpá-la...?

 

Disse a professora, com angústia. Hikaru baixou os cílios, aparentemente aceitando a bronca.

 

Assim que o intervalo para o almoço terminou, Koremitsu foi aconselhado pela professora a retornar à sala de aula, e este insistiu.

 

— Quero ficar com ela!

 

Sua atitude foi inesperadamente inflexível, e ele se jogou na cama com força.

 

— Professora, por favor, deixe o Akagi ficar aqui.

 

A professora cedeu por fim, seja por causa do pedido de Honoka, seja porque estava apavorada com a intensidade de Koremitsu.

 

— Obrigado, Shikibu.

 

— Não precisa agradecer. Sua Alteza Aoi... Será ótimo se ela se recuperar.

 

Ela sussurrou algo e saiu da enfermaria.

 

Koremitsu olhou para Aoi, que estava deitada na cama.

 

Falta de sono? Esforço excessivo? Desnutrição? Que coisa!

 

— Essa pessoa... Sempre tenta bancar a durona, mas é sempre tão imprudente.

 

Ela continuou insistindo em ir à escola e continuou ficando na sala de artes para pintar depois das aulas... Parecia que estava vivendo a mesma vida que tinha quando Hikaru ainda estava vivo, porém, na verdade, não era o caso.

 

Ela sofreu muito durante todo esse tempo.

 

Aoi vinha tentando se forçar a parecer forte, talvez porque não quisesse que os outros percebessem a dor que sentia.

 

Uma lágrima escorreu do canto da pálpebra fechada de Aoi.

 

Hikaru ajoelhou-se ao lado da cama, com os olhos cheios de arrependimento ao olhar para o rosto adormecido de Aoi.

 

— A senhorita Aoi percebeu, sem dúvida, que quem cortou as notícias e os jornais era do clube de artes... Sentiu que tinha um motivo para fazê-lo, e por essa razão continuou se culpando... Esse é o tipo de garota que ela é.

 

—Não! Ele não fez isso...! Não foi ele. Não foi ele!

 

Aoi parecia estar quase em lágrimas enquanto repetia essas palavras no corredor.

 

Naquele momento, Aoi estava certamente defendendo Koremitsu.

 

Mesmo que isso tenha sido motivado por sua própria culpa.

 

— Eu... Sempre pensei em rasgar aqueles papéis coloridos para não ter que me lembrar deles...

 

Essas palavras também refletiam os verdadeiros pensamentos de Aoi.

 

— Quando vi os jornais e revistas rasgados... Eu... Pensei erroneamente que tinha feito aquilo...

 

PENSEI QUE SERIA ÓTIMO SE TODAS AS MINHAS LEMBRANÇAS DE HIKARU DESAPARECESSEM!

 

Aoi estava tremendo naquele momento.

 

Ela nunca teve qualquer sentimento por Hikaru, para começo de conversa.

 

Koremitsu pensou no estado de espírito de Aoi quando disse isso, e nos sentimentos de Hikaru ao ouvir tais palavras, e sentiu um calor no coração.

 

— A senhorita Aoi sempre foi assim. Sempre que ficava muito triste, sempre que sentia vontade de chorar, ela se forçava a dizer “não há nada de errado”, e fazia uma careta para desviar o olhar...

 

Hikaru disse com melancolia.

 

Aoi parecia zangada por fora, mas por dentro estava triste.

 

Ela se via como alguém que não era amada por Hikaru, o que a deixava triste e a fazia chorar de melancolia.

 

Koremitsu lembrou como, em sua juventude, desenhava muitas cruzes no papel de carta quando sua mãe o deixou.

 

Aoi era como ele.

 

Assim como Koremitsu, ela protegeria seu íntimo negando tudo.

 

No álbum de fotos, Aoi dava uma olhada rápida em Hikaru quando estava um pouco afastada.

 

Porém quando os dois estavam juntos, seus olhos desviavam.

 

Hikaru sabia melhor do que ninguém o quão desastrada Aoi era, a dor que sentia. Foi por essa razão que, quando Aoi desabafou, o coração de Hikaru pareceu ter sido dilacerado.

 

Ele baixou os olhos enquanto olhava para Aoi com tristeza.

 

Queria usar os dedos para enxugar as lágrimas do rosto choroso de Aoi, contudo seus dedos atravessaram a pele.

 

O rosto de Hikaru estava tomado pela angústia.

 

Koremitsu observou a cena, e seu coração pareceu se despedaçar.

 

Queria muito contar para Aoi que Hikaru estava ali.

 

Queria dizer que Hikaru estava preocupado com ela.

 

No entanto, por mais que Hikaru tentasse tocá-la, falhava, e só conseguia retrair a mão de forma desolada.

 

Mordendo seus lábios, exibiu um olhar deprimido enquanto olhava para Aoi com saudade, sorriu, aparentando tentar suportar a dor... E disse, em um suave tom...

 

— Koremitsu... Tem uma máquina de venda automática em frente à enfermaria. Poderia pegar uma lata de milk-shake para a senhorita Aoi tomar quando acordar?

 

— Oh, pode deixar.

 

O sinal que indicava o fim do 5º período tocou.

 

Koremitsu levantou-se da cadeira e saiu em silêncio da enfermaria.

 

Seu coração seguia doendo causa do sorriso que viu no rosto de Hikaru.

 

Por um instante, hesitou, colocou uma moeda na máquina de venda automática e se virou para Hikaru, ansioso.

 

— Bem... Acho que não deveria estar perguntando isso nesta situação.

 

Tentou manter a calma enquanto apertava o botão que indicava a opção “milk-shake”, todavia sua garganta tremia e seus dedos estavam pingando com suor.

 

— Você... Foi mesmo... Morto por alguém?

 

GATAN. ​​O som da lata de milk-shake caindo ecoou.

 

Hikaru exibiu uma expressão anormalmente calma enquanto olhava para o amigo em silêncio.

 

— Quero dizer, por causa do que a garota do Clube de Notícias falou.

 

— ...

 

— Posso ignorar se for invenção.

 

— Não tenho muita certeza.

 

Hikaru respondeu com um tom adulto.

 

— Sou um príncipe mulherengo que sai por aí conquistando garotas... Então acho que deve haver muitas garotas que querem me matar.

 

Ele evitou esse assunto de maneira muito vaga.

 

Por que queria evitar esse assunto?

 

Koremitsu refletiu a respeito e sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

 

Que “boato” era exatamente aquele que Hiina Oumi ouviu?

 

Hikaru ficou em silêncio.

 

Justo quando sentiu algo gelado preso na garganta.

 

— Akagi.

 

Asai Saiga estava ali parada com uma expressão de repreensão.

 

— Ouvi dizer que Aoi desmaiou.

 

— Ela está descansando em uma cama agora.

 

Ele respondeu enquanto tirava a lata de milk-shake do bolso.

 

A lata ainda estava escaldante e seus dedos estavam quentes.

 

— Milk-shake...?

 

Asai franziu a testa de repente.

 

— É para a Aoi beber quando acordar.

 

Assim que falou aquilo, a expressão de Asai tornou-se mais séria.

 

— Você ouviu isso do Hikaru? Que a Aoi gosta mais de milk-shake do que de café.

 

— Sim.

 

Koremitsu estava prestes a retornar à enfermaria, quando foi impedido pelo tom severo de Asai.

 

— Akagi, por favor, volte para a sala de aula. Eu cuidarei da Aoi.

 

— Ainda tenho algumas coisas que quero dizer a ela.

 

— Sua presença só pioraria o estado de saúde de Aoi. Aliás, Aoi não desmaiou por sua causa?

 

A expressão de Hikaru congelou.

 

Koremitsu também parou abruptamente.

 

Era verdade que Koremitsu foi quem perseguiu Aoi, fazendo com que esta acabasse na enfermaria.

 

Além do mais, o motivo pelo qual a garota do clube de artes culpou Aoi pelo rasgo no papel foi porque Koremitsu ia à sala de artes todos os dias, e Aoi vivia falando mal de Hikaru.

 

Koremitsu continuou correndo para expressar os sentimentos de Hikaru, embora nunca considerou as consequências e não percebeu que Aoi não estava se alimentando direito, não estava dormindo bem e estava em agonia o tempo todo.

 

Ele ficou furioso com as palavras de Aoi e proferiu comentários descabidos contra ela.

 

Ela deve ter ficado apavorada ao ver um cão selvagem de aparência feroz a perseguindo e gritando. O que Koremitsu fez pode ter reaberto ainda mais as cicatrizes dentro de Aoi.

 

Bem ao lado de Koremitsu estava Hikaru, que baixou a cabeça, triste.

 

Koremitsu agarrou a lata de milk-shake, com a pele quase queimada, pois não conseguia argumentar.

 

Será que eu empurrei Aoi ao desespero?

 

Asai demonstrou desagrado no rosto.

 

— A culpa é minha por não ter cuidado da Aoi e tê-la deixado sozinha hoje. Preciso refletir sobre isso. A partir de agora, não permitirei que nenhum fã da Hikaru machuque a Aoi.

 

— Essas garotas também têm seus problemas. Não as castigue. Se a Aoi souber, com certeza vai se culpar.

 

Koremitsu encarou Asai de volta.

 

— Não quero receber conselhos seus sobre a Aoi.

 

Asai retrucou em tom de repreensão.

 

Ela então olhou para Koremitsu com um olhar gélido.

 

— Mesmo que você seja amigo do Hikaru, não pode usar isto como desculpa para magoar a Aoi verbalmente. Tenha certeza, não vou reconhecer alguém como você como representante do Hikaru.

 

Todas as suas palavras penetravam o peito de Koremitsu.

 

Sua mão, que segurava o milk-shake, começou a ficar dormente.

 

— Mais uma coisa, Koremitsu Akagi, é impossível para você expressar os sentimentos de Hikaru. Ninguém conseguiria.

 

Ele precisava dizer alguma coisa.

 

Era o verdadeiro representante de Hikaru e precisava revidar.

 

Certo, preciso dizer algo p...

 

Ele mergulhou em profundos pensamentos enquanto suportava a dor de ter as entranhas dilaceradas, procurando palavras que pudesse dizer.

 

Nesse instante, uma voz suave soou...

 

— Koremitsu... Já chega.

 

Ele não conseguia acreditar que aquelas palavras viessem diretamente de Hikaru.

 

Hikaru ficou entre Koremitsu e Asai, esboçou um leve sorriso no rosto e balançou a cabeça negativamente.

 

— Esqueça isso.

 

Esquecer?

 

O que você está dizendo, Hikaru?

 

Quando Koremitsu estava prestes a cair de joelhos, Asai disse.

 

— Vou comemorar o aniversário da Aoi com ela para que se esqueça de vez do Hikaru. Aliás, o fardo de ser noiva do Hikaru já era muito para lidar.

 

Enquanto Hikaru ouvia essas palavras, seu rosto se contorceu em amargura.

 

— Pensei que seria ótimo se todas as minhas lembranças de Hikaru desaparecessem!

 

Koremitsu viu a expressão de sofrimento de Hikaru enquanto este tentava convencê-lo a concordar, e não conseguiu refutar o argumento de Asai.

 

Maldição!

 

Ele entregou a lata de milk-shake quente para Asai.

 

— Entregue para a Aoi.

 

Ele resmungou ao sair da enfermaria.

 

Seu corpo parecia dilacerado ao pensar em como não havia terminado a tarefa.

 

Hikaru permaneceu em silêncio enquanto o seguia de lado. Era uma existência frágil, quase desprovida de substância.

 

Eles estavam prestes a chegar à sala de aula.

 

Koremitsu sussurrou algo para Hikaru enquanto continuava caminhando.

 

— Você acha de verdade que isso é o melhor?

 

Hikaru ficou em silêncio por um momento e então falou.

 

— Asa pode estar certa...

 

Sua expressão vazia estava repleta de desespero, e pronunciou palavras de arrependimento.

 

— Continuei magoando a senhorita Aoi até agora. É tarde demais para tentar salvar alguma coisa. Talvez eu esteja apenas tentando me satisfazer cumprindo essa promessa... E fiz minha amada senhorita Aoi chorar de novo.

 

Seus cílios baixos tremeram, e sua voz estava repleta de uma dor incontrolável.

 

Ao erguer a cabeça, sorriu com uma expressão angustiada.

 

— E Koremitsu, não posso mais dar felicidade à senhorita Aoi como um fantasma. Talvez seja hora de lhe dar um novo começo.

 

— ...

 

— Na sala de artes, quando eu disse à senhorita Aoi para mexer os lábios se conseguisse ouvir minha voz... Ainda tinha aquela pequena esperança, mesmo sabendo que era impossível... Mesmo que a senhorita Aoi estivesse zangada, ainda desviasse o olhar com raiva... Porém ela nunca me notou, nem um pouco.

 

Naquela época, Hikaru e Aoi eram quase inseparáveis.

 

Os débeis olhos de Hikaru pareciam implorar para que Aoi o visse.

 

Contudo Aoi não olhou para trás e continuou a desenhar a grande cruz na tela.

 

Ela disse que Hikaru era o pior mentiroso.

 

A mão de Koremitsu, que havia segurado a lata de milk-shake, ainda estava quente.

 

Estava insatisfeito, angustiado e tinha dificuldade para respirar.

 

Não suportou ver o sorriso de Hikaru outra vez enquanto abaixava a cabeça.

 

O que Asai disse era verdade.

 

Para a séria Aoi, era demais suportar o fardo de ser a noiva de Hikaru. Devia estar magoada, vendo Hikaru flertar com tantas garotas a ponto de ficar conhecido como um mulherengo.

 

Contudo Hikaru seria esnobe demais ao dizer que só queria expressar seu amor no momento da morte.

 

Koremitsu também suportou o crime como representante, defendendo Hikaru mesmo sabendo do ocorrido.

 

Continuou insistindo em sua abordagem unilateral, o que causou o incidente e levou Aoi ao desespero.

 

De fato, queria cair de joelhos em arrependimento.

 

Ainda assim, será que desistir dessa forma era realmente aceitável?

 

Será que está tudo bem em deixar o aniversário da Aoi passar em branco?

 

E vou ficar assistindo o Hikaru desistir assim sem dizer nada?

 

Ele chegou em frente à sala de aula.

 

Honoka estava visivelmente preocupada com Koremitsu enquanto esperava dentro da sala de aula.

 

Ela se levantou, colocou a cabeça para fora da porta traseira, olhou ao redor do corredor e perguntou.

 

— Como está Sua Alteza, Akagi?

 

— Está bem.

 

Honoka soltou um suspiro de alívio e, no instante seguinte, abriu os olhos nervosa.

 

— Espere, aonde você vai?

 

— Dar uma volta.

 

Koremitsu rosnou e passou pela porta da sala de aula.

 

O sinal da sala de aula tocou lá de cima.

 

— ESPERA! AKAGI! VOLTA PARA A AULA! A SEXTA AULA AINDA NÃO ACABOU! AKAGI! AKAGI!

 

Honoka gritou de trás.

 

Contudo Koremitsu não se importou e correu para a frente a passos largos.

 

— Koremitsu? O que houve? Você acabou de passar pela sala de aula, sabia?

 

Hikaru disse, perplexo.

 

Koremitsu subiu as escadas em silêncio.

 

Cerrando os dentes, subiu um passo pesado após o outro.

 

— Koremitsu, olá, Koremitsu? Está me ouvindo?

 

Ele subiu até o último andar e abriu a porta que dava para o telhado.

 

O vento soprava de frente em direção a Koremitsu, e seus cabelos ruivos esvoaçavam.

 

Subiu no telhado, fechou a porta e rugiu.

 

— ESTOU OUVINDO!

 

Os olhos de Hikaru se arregalaram.

 

Koremitsu ergueu o olhar e deixou escapar todas as emoções que guardava dentro de si, como uma torrente.

 

— EU VIM AQUI PORQUE QUERO FALAR COM VOCÊ! NÃO ME OLHE COM ESSA CARA DESPREZÍVEL! VOCÊ NÃO ME ASSOMBROU PARA TRANSMITIR SEUS SENTIMENTOS PARA AOI? SEI QUE ESTÁ MORTO, E MESMO ASSIM POSSO OUVIR SUA VOZ! EU CONSIGO OUVIR SUAS PALAVRAS COM CERTEZA!

 

Ele bateu violentamente no peito.

 

Hikaru ficou maravilhado com a declaração.

 

O espírito inabalável de Koremitsu podia ser percebido em sua expressão facial.

 

Era uma expressão que dizia, “Vai mesmo desistir agora?”

 

Os sentimentos que demonstrou ao olhar para o álbum eram de tão pouco valor?

 

Seu olhar para Aoi com tanta paixão na sala de artes... Pode só ignorar os sentimentos que demonstrou naquela época?

 

— A AOI NÃO É A SUA AMADA? NÃO FOI O QUE ME DISSE ANTES? NÃO ME DIGA QUE ERA MENTIRA? NÃO JUROU QUE NÃO TRAIRIA E QUE FICARIA COM ELA PARA SEMPRE? TUDO AQUILO ERA MENTIRA?

 

O rosto de Hikaru empalideceu, e os cantos de seus lábios se curvaram para cima.

 

Ele sorriu. Não era mais um sorriso caloroso, e sim um sorriso tenso que insinuava uma dor lancinante por dentro.

 

— Não estou mentindo. Sempre amei a senhorita Aoi.

 

— Então... Temos que contar esses sentimentos para a Aoi, custe o que custar. A Aoi sempre achou que você nunca a amou.

 

— Para mim, o afeto genuíno é como estrelas no céu caindo na terra... Não é real!

 

A voz de Aoi ecoou em sua mente.

 

Qual era a probabilidade de um meteoro cair? Por que tinha essa crença?

 

— NÃO DISSE QUE NÃO DEIXARIA UMA GAROTA CHORANDO SOZINHA? QUE REGARIA UMA FLOR MURCHA? ENTÃO DIGA A ELA, DIGA À AOI O QUANTO VALORIZA ESSA PROMESSA! VOU TRANSMITIR SUAS PALAVRAS, SEUS SENTIMENTOS! APENAS DIGA “POR FAVOR”, PORQUE SOMOS AMIGOS... EU DEFINITIVAMENTE TRANSMITIREI OS SENTIMENTOS! SE AS LÁGRIMAS DA AOI NÃO PUDEREM SER ENXUGADAS, USAREI UM LENÇO PARA LIMPÁ-LAS POR VOCÊ! AINDA VAI DIZER “ESQUECE ISSO” AQUI?

 

Koremitsu rugiu alto, sentindo como se sua garganta fosse explodir, e continuou pensando.

 

Diga em voz alta.

 

Basta dizer a palavra “por favor”.

 

Se desistir assim, Aoi nunca saberá dos seus sentimentos por ela.

 

Vai apenas pensar que não é amada porque não sabe como você se sente, e vai achar que está ali apenas para ser noiva.

 

A mãe de Koremitsu abandonou sua família sem dizer uma única palavra ao filho.

 

Koremitsu não conseguiu dar um presente para sua mãe.

 

Todavia Hikaru deveria ter algo que quisesse dar a Aoi.

 

Aoi deveria ter o privilégio de aceitar o presente de Hikaru.

 

Por isso, diga para mim...

 

Hikaru cerrou os lábios de leve e franziu a testa ao olhar para Koremitsu.

 

Seus olhos claros estavam cheios de amargura e angústia.

 

Aqueles lábios trêmulos, lábios que proferia com suas palavras.

 

— Por favor... Koremitsu.

 

Essa frase foi suficiente para ele.

 

Naquela noite, depois que Koremitsu saiu do apartamento, Hikaru gritou para o céu noturno escuro que os dois eram amigos, e Koremitsu sentiu uma crescente sensação de alegria e constrangimento.

 

Essas palavras por si só me permitem superar todas as dificuldades e realizar todos os seus desejos.

 

Por favor.

 

Posso concordar com essas palavras sem pedir nada em troca.

 

Em nome de um “amigo”, posso fazê-lo com confiança.

 

— Muito bem, deixe comigo!

 

Seu peito se encheu de alegria.

 

A alegria brotou do fundo do seu estômago, e exclamou ao sair correndo.

 

Honoka estava encostada na lateral do telhado, sentindo-se extremamente nervosa.

 

Ela faltou à aula e seguiu Koremitsu até o telhado porque estava preocupada com ele.

 

E ouviu um rosnado do outro lado da porta.

 

Ele estava discutindo? Com ​​quem?

 

No instante em que colocou a mão na maçaneta da porta, uma voz calorosa soou em seus ouvidos.

 

— Muito bem, deixe comigo!

 

Os passos se aproximaram e Honoka se escondeu atrás da porta. A porta então se abriu e um Koremitsu alegre saiu correndo com seus cabelos ruivos ao vento.

 

Hein? Espera aí, o que está acontecendo?

 

Seu rosto rígido demonstrava extrema dor quando voltou da enfermaria, mas agora parecia radiante e deslumbrante, como se uma luz brilhasse sobre ele enquanto saía disparado como uma bala.

 

O inesquecível cabelo vermelho vivo, a atitude confiável, porém imprudente, de um rei mimado, e a expressão de invencibilidade faziam seu coração palpitar.

 

Foi como se tivesse se apaixonado por um romance à primeira vista na noite passada.

 

Koremitsu desceu as escadas correndo como um cão selvagem recém-libertado.

 

E atravessou o corredor correndo, sem hesitar.

 

Aparentemente, tinha asas presas aos pés, pois não se sentia cansado de forma alguma.

 

Ele enfiou a mão no bolso.

 

Tinha o segundo presente que comprara na bilheteria dois dias antes.

 

Talvez fosse a primeira vez que comprava algo assim, e o atendente ficou surpreso quando ele, envergonhado, perguntou com rispidez.

 

— Por favor, me de dois.

 

O objeto que tocou emitiu um som ondulante de dentro do seu bolso.

 

Aoi saiu da enfermaria com Asai a amparando.

 

Seu rosto delicado seguia pálido.

 

Queria conter as lágrimas enquanto mordia os lábios e baixava a cabeça.

 

Koremitsu a chamou.

 

— Aoi!

 

Aoi ergueu imediatamente a cabeça, chocada.

 

Asai se colocou na frente de Aoi, aparentando tentar escondê-la, contudo Koremitsu não se importou, tirou o objeto do bolso e o entregou a Aoi.

 

— Este é o segundo presente!

 

Aoi pareceu ainda mais surpresa.

 

O envelope dobrado estava amassado, pois havia permanecido em seu bolso durante todo esse tempo. Ele o colocou nas mãos de Aoi.

 

— É um ingresso para o parque temático! Vamos lá no domingo!

 

Ele olhou para Aoi, que permanecia imóvel, e falou com firmeza para enfatizar.

 

— Nos encontraremos às 13h na estação perto da escola! É uma promessa!

 

— Vou comemorar o aniversário da Aoi.

 

Asai falou num tom gélido e tentou arrancar o ingresso da mão de Aoi.

 

No entanto Aoi agarrou o envelope com o bilhete com firmeza.

 

Isso fez com que a expressão de Asai congelasse.

 

Aoi mordeu os lábios com dor, sem indicar se iria ou não.

 

Ao olhar nos olhos de Aoi, Koremitsu acenou com a cabeça, confiante.

 

— Estarei esperando! Com certeza! Você definitivamente precisa vir! Entregarei os 5 presentes restantes!

 

Segurando o bilhete, as pontas dos seus dedos tremeram levemente, num espasmo.

 

— Você não precisa ouvi-lo, Aoi.

 

Asai segurou a mão de Aoi e caminhou ao lado de Koremitsu.

 

Todavia Aoi manteve um olhar fixo em Koremitsu.

 

— Precisa vir se quiser saber os sentimentos do Hikaru! Aoi!

 

Chocada, Aoi deu um pulo ao se virar e olhar para frente.

 

Koremitsu observou Aoi seguir em frente com a cabeça baixa e gritou por ela em seu coração.

 

Você definitivamente deve vir, Aoi. Você tem o privilégio de aceitar o que Hikaru quer lhe dar.

 

Ao mesmo tempo, Hikaru...

 

Ao lado de Koremitsu, absorto pela intensidade do momento, falava consigo mesmo.

 

— Estarei esperando, Srta. Aoi.

 

Notas:

1. Sushi de tofu frito recheado com arroz.


***

Link para o índice de capítulos: When Hikaruwas on the Earth...

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