sábado, 21 de março de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 04

Capítulo 04: O Segundo Dia no Continente


Parte 1

O carro seguiu para oeste pela Rodovia Nacional 10.

Kawaminami ocasionalmente lançava olhares furtivos para Shimada Kiyoshi, sentado no banco do motorista. A cada olhar, Kawaminami tinha que reprimir a vontade de cair na gargalhada. Este excêntrico terceiro filho de um monge budista dirigia um Familia vermelho bem comum. Em contraste com a roupa de jeans e suéter do dia anterior, Shimada vestia um terno cinza-escuro e ostentava um par de óculos de sol elegantes azul-sax. De alguma forma, a personalidade de Shimada permitia que usasse aquela combinação inusitada com elegância.

O primeiro nome da esposa do jardineiro desaparecido era Masako, e ela ainda morava em Ajimu, segundo Shimada. Eles haviam conseguido descobrir o seu endereço naquela manhã e marcado um encontro para a mesma tarde.

O carro havia saído de Beppu em direção às montanhas e passado pela área das Termas de Myoban.

Estruturas semelhantes a tendas, feitas de palha, podiam ser vistas em ambos os lados da estrada estreita. Fumaça subia pelas frestas da palha. Os habitantes procuravam sal mineral deixado por fontes termais secas. O sal, conhecido como “flores de água quente”, era usado como aditivo na água do banho.

Por fim, chegaram à encosta que os levaria ao distrito de Usa.

— E como foi seu trabalho, Conan? — perguntou Shimada.

— Ah, desculpe, ainda não te contei.

Kawaminami, que estava debruçado na janela do passageiro observando a paisagem, coçou a cabeça e se endireitou no assento.

— Havia alguns com quem não consegui falar, porém acho que podemos presumir com segurança que todos que estavam na festa pós-evento receberam a carta.

— Certo. E quantos deles foram para a ilha?

— Alguns moram sozinhos, então não tenho certeza, contudo o mais provável é que sejam todos, exceto eu e Morisu, que saímos da festa mais cedo.

— Isso sugere que algo está mesmo acontecendo.

— Concordo. No entanto acho que Morisu questionaria essa suposição e diria que talvez estejamos olhando para a situação pelo lado errado.

— Pelo lado errado?

— Sim. Porque dificilmente é coincidência que os membros que estavam presentes na festa pós-evento sejam os mesmos que estão na ilha. Eles são membros que costumam se encontrar, e é por essa razão que foram juntos à festa e à ilha. Então, o fato de todos terem recebido as cartas e viajado para Tsunojima pode não significar nada.

— Essa é uma maneira peculiar de pensar sobre isso.

— Morisu é sempre cuidadoso. E também é muito determinado, o que o leva a agir com ainda mais cautela, ou algo assim.

— Entretanto ele assumiu o papel de detetive de bom grado ontem à noite.

— É verdade. O que mostra que até ele ficou surpreso com as cartas. Mas é realmente um cara muito inteligente.

Kawaminami Taka’aki e Morisu Kyoichi formaram uma ótima dupla durante o tempo em que o primeiro esteve no clube.

Kawaminami sempre transbordava curiosidade e energia. Se alguma coisa despertasse seu interesse, não conseguia ficar parado. Todavia também tinha plena consciência de que sua própria curiosidade abundante muitas vezes o impedia de analisar as situações com a profundidade necessária. Também sabia que, embora seu entusiasmo pudesse surgir num instante, este também podia perder o interesse com a mesma rapidez.

Morisu, por outro lado, podia se apaixonar pelas coisas de uma maneira diferente de Kawaminami, embora fosse raro ver esse seu lado em seu dia a dia. Era do tipo que guardava seus pensamentos para si, refletindo sobre tudo até ficar satisfeito antes de tomar qualquer atitude. Para Kawaminami, seu amigo Morisu era um conselheiro sábio, que o impediria de fazer suposições precipitadas ou tirar conclusões erradas.

— Por enquanto, você terá que me permitir assumir o papel de detetive de poltrona. — disse ele.

Esse era o papel perfeito para Morisu, pensou Kawaminami. Não era de falsa modéstia, porém sabia que o papel de Watson combinava mais consigo. Morisu seria quem interpretaria Holmes.

Kawaminami olhou para Shimada Kiyoshi sentado ao seu lado.

Esse homem não se contentaria com o papel de Watson, nem de Lestrade.

A vista da janela era deslumbrante: encostas cobertas de grama alta se estendiam até as terras altas ao longe.

— A montanha à nossa esquerda é o Monte Tsurumi, certo? — perguntou Kawaminami.

— Sim. Tem sido um local popular para praticantes de asa-delta ultimamente.

— Qual a distância até Ajimu?

— Chegaremos ao distrito de Usa no sopé desta ladeira. Depois, teremos que subir outra para alcançar o Planalto de Ajimu. Já é uma e meia, então devemos chegar lá antes das três.

Kawaminami colocou as duas mãos na cintura e esticou as costas, bocejando.

— Cansado, Conan?

— Sou uma pessoa noturna, então tive dificuldade para acordar cedo hoje.

— Pode dormir se quiser. Eu te acordo quando chegarmos lá.

— Ah, desculpe, se não se importar.

Kawaminami reclinou o banco e Shimada pisou fundo no acelerador.



Parte 2

A mulher na porta da frente não era nada parecida com a pessoa que Kawaminami havia imaginado. Yoshikawa Masako parecia ser uma mulher reservada, contudo amigável, vestida com um quimono komon. Acreditando que iria conhecer a esposa de um homem que havia matado quatro pessoas por causa de algum tipo de amor doentio, Kawaminami esperava encontrar alguém muito mais reservada.

Ela tinha no máximo quarenta e poucos anos, no entanto a preocupação havia envelhecido suas feições e a deixado com uma aparência exausta.

— Meu nome é Shimada, liguei para você esta manhã. Peço desculpas por contatá-la de repente. — disse Shimada.

A esposa do jardineiro baixou a cabeça.

— Você disse que era amigo de Kojiro. Deve ter vindo de muito longe.

— Você parece conhecer Ko, quer dizer, Nakamura Kojiro.

— Sim. Devo muito a ele. Como já deve saber, trabalhei na mansão em Tsunojima antes de me casar com meu marido. Eu estava lá desde que Nakamura Seiji se mudou para a ilha. Foi Kojiro quem me recomendou para esse cargo.

— Ah, agora entendi. Então foi lá que conheceu seu marido?

— Sim. Meu marido também trabalhava na mansão na época.

— Esta é a casa da família dele?

— Sim. Moramos na Cidade O por um tempo depois do nosso casamento, todavia nos mudamos para cá por causa da saúde dos pais dele.

— Então tinha que viajar toda essa distância para trabalhar?

— Quando nos mudamos para cá, meu marido largou todos os empregos, exceto o da mansão em Tsunojima e o da casa de Kojiro em Beppu.

— Ah, então seu marido também era responsável pelo jardim de Kojiro?

— Sim.

— O motivo de termos vindo aqui hoje é esta carta... Ela foi enviada para meu amigo Kawaminami. — disse Shimada, mostrando a carta que Kawaminami lhe entregara mais cedo.

— O que é isso?

— É uma carta de alguém usando o nome do falecido Nakamura Seiji. Uma carta semelhante foi enviada para Kojiro.

— Que horror.

— Pensamos que a carta pudesse ter algo a ver com o que aconteceu em Tsunojima. E esperávamos que pudesse nos dizer algo que pudesse nos ajudar.

Masako parecia perplexa, entretanto acabou olhando para os dois homens.

— Entrem. E vocês teriam a gentileza de queimar um pouco de incenso para o meu marido...?



Shimada e Kawaminami foram conduzidos a um quarto de tatame mal iluminado. Através da porta de papel deslizante aberta, puderam ver um pequeno altar familiar atrás de Masako, que estava sentada em frente a eles na posição tradicional de seiza.

A nova lápide memorial parecia flutuar na escuridão.

— Como vocês sabem, meu marido desapareceu e nunca foi encontrado. No mês passado, com o Ano Novo, enfim desisti dele e fizemos uma cerimônia em particular.

Ela lutou contra as lágrimas enquanto falava.

— Mas não existe a possibilidade de seu marido ainda estar vivo?

— Se ainda estivesse vivo, teria entrado em contato comigo.

— Porém...

— Vou lhes dizer uma coisa: meu marido era absolutamente incapaz de fazer algo tão atroz. Estou a par dos rumores, contudo não acredito em nenhum deles. Todos que o conheciam dizem o mesmo.

O tom de Masako era desafiador. Shimada assentiu em silêncio.

— Ouvi dizer que seu marido partiu para a ilha três dias antes do incêndio na mansão. Quando foi?

— Partiu na madrugada do dia 17 de setembro.

— E por acaso não ligou para você entre essa data e a manhã do dia 20, quando o incêndio começou?

— Ligou uma vez, na tarde do dia em que partiu.

— Por telefone?

— Sim. Ligou para dizer que tinha chegado em segurança.

— E agiu de forma diferente do habitual?

— Era o mesmo de sempre. Mas disse que a patroa estava doente.

— Kazue?

— Meu marido não a viu por perto, então, quando perguntou a Seiji, este disse que a senhora havia adoecido e estava de cama.

— Aha.

Shimada fez um biquinho e coçou a ponte do nariz.

— Farei uma pergunta, sabendo que é muito indelicado, porém há alguma verdade nos rumores de que seu marido tem sentimentos por Kazue?

Masako empalideceu.

— Meu marido e eu éramos muito dedicados à patroa. — respondeu ela. — Contudo, como disse antes, meu marido jamais faria as coisas ruins que algumas pessoas sugerem. A acusação de que meu marido estava apaixonado pela patroa é um absurdo. E mais...

— Sim?

— Os rumores de que meu marido queria roubar a fortuna de Seiji também não passam de acusações infundadas. Não sobrou nada.

— Não sobrou nada? Não havia mais nada para roubar lá?

— Eu não deveria ter falado.

— Não, por favor. Entendo que esteja chateada.

Os olhos fundos de Shimada brilharam.

— Então não sobrou nada da fortuna de Seiji? — ele murmurou. Então, como se tivesse acabado de se lembrar de algo, acrescentou. — Ouvi dizer que Seiji e Kojiro não se davam bem como irmãos. Qual a sua opinião a respeito?

— Hmm... — Masako murmurou vagamente. — Seiji podia ser um pouco peculiar.

— Kojiro chegou a visitar a ilha?

— Visitava ocasionalmente quando eu ainda trabalhava lá, no entanto ouvi dizer que quase não ia mais depois que saí do emprego.

— Durante o tempo em que você trabalhava lá... Entendo.

— Com licença.

Kawaminami, que havia escutado em silêncio até então, interrompeu.

— Você sabe o que aconteceu com Nakamura Chiori? Eu a conheci na universidade. Foi por esse motivo que recebi a carta que o Sr. Shimada lhe mostrou.

— Senhorita Chiori?

Masako olhou para os tatames escuros.

— Ainda me lembro dela quando era pequena. Meu marido me contava histórias sobre ela de vez em quando, depois que saí da ilha... A pobre menina. Era tão jovem quando tudo aconteceu.

— Até que idade Chiori morou na ilha? — perguntou Shimada.

— Acho que se mudou para a casa do avô quando começou o jardim de infância. Meu marido disse que só voltava para a ilha esporadicamente e que era a sua mãe quem costumava ir até a Cidade O para vê-la. A patroa amava muito a filha.

— E Seiji?

Shimada se inclinou um pouco para a frente.

— Como Seiji tratava a filha?

— Ele...

Masako teve dificuldade em expressar seus pensamentos.

— Acho que não gostava muito de crianças.



Parte 3

No total, eles conversaram por quase duas horas.

Eles saíram da residência Yoshikawa em Ajimu depois das cinco. No caminho de volta, pararam para jantar, então quando chegaram em Beppu já passava das nove.

Shimada estava naturalmente cansado por causa da longa viagem. De vez em quando, estalava a língua para os semáforos do trânsito que vinha em sua direção.

— Tudo bem se fizermos um desvio pela casa do Ko? — perguntou de repente.

— Não me importo. — respondeu Kawaminami, embora não estivesse com vontade, se sentia desanimado desde que saíram de Ajimu.

Isto se devia em maior parte à falta de sono e ao cansaço físico. Entretanto também se sentia decepcionado e mentalmente exausto.

Mesmo tendo ido tão longe, não conseguiram descobrir nada significativo, pensou. Não esperava encontrar uma resposta definitiva, embora esperava pelo menos alguma informação nova.

Por exemplo...

E ele se odiava por ter essa esperança.

Eu teria ficado satisfeito se Yoshikawa Masako também tivesse recebido uma carta assinada por Nakamura Seiji.

Sabia que se empolgava com facilidade e perdia o interesse com a mesma facilidade. De certa forma, ainda era apenas uma criança. Como uma criança que sempre quer brinquedos novos, também estava sempre em busca de algum novo estímulo. E quando a empolgação inicial passava, ficava entediado e desistia.

Os dois chegaram por fim à casa de Kojiro em Kannawa.

Era uma noite tranquila. O céu estava cheio de nuvens finas. A lua brilhava pálida como osso na escuridão.

Shimada tocou a campainha. Podiam ouvi-la tocar lá dentro, porém mesmo depois de uma longa espera, não houve resposta.

— Que estranho. As luzes ainda estão acesas.

Shimada tossiu e tocou a campainha mais algumas vezes, além de bater na porta uma ou duas vezes.

— Talvez já tenha ido dormir? — Shimada começou a contornar o prédio em direção à entrada dos fundos, contudo, ao ver Kawaminami encostado no poste do portão com a cabeça baixa, mudou de ideia.

— Ah, esquece. Voltaremos outro dia. Desculpe, Conan, por te trazer até aqui à toa. Você parece muito cansado. Vamos, vamos embora.



Eles voltaram para a Rodovia Nacional rumo à Cidade O.

Shimada abriu um pouco a janela. A brisa da noite entrou no carro, trazendo consigo o cheiro do mar.

— Com frio, Conan?

— Não, não muito.

Ele ainda se sentia desanimado e chateado consigo mesmo.

— Desculpe, te fiz subir e descer desde de manhã.

— Não, eu é que deveria me desculpar... Por estar aqui jogado desse jeito.

— Tudo bem. Você só está cansado.

Shimada não pareceu se importar nem um pouco. Ele tirou a mão esquerda do volante e massageou a têmpora.

— Acho que, por um lado, não saiu bem como esperávamos, contudo, por outro, conseguimos obter algumas informações importantes.

— O que quer dizer?

— É claro que esperávamos descobrir mais sobre o paradeiro de Yoshikawa Sei’ichi. Se ainda estivesse vivo de alguma forma, poderia estar em contato com a esposa. No entanto não parece ser o caso.

— Mas, Sr. Shimada, o senhor não acha estranho que já tenham realizado uma cerimônia fúnebre, mesmo tendo se passado apenas seis meses desde o seu desaparecimento?

— Talvez, só que não acho que Masako seja do tipo que mentiria. Parecia ser uma mulher gentil e honesta.

— Oh.

Shimada sorriu.

— Tenho um bom olho para pessoas, sabe? Digamos que seja instinto de sacerdote. Enfim, aquilo não saiu como queríamos, mas... Conan, poderia me passar um cigarro?

— Um cigarro? — Kawaminami reagiu surpreso. Nunca tinha visto Shimada fumar antes.

— Tenho Seven Stars. — respondeu, entregando o maço a Shimada. Mantendo os olhos na estrada à frente, Shimada habilmente tirou um cigarro da carteira usando apenas uma mão.

— Eu fumava muito até alguns anos atrás. Porém meus pulmões pioraram e quase parei de fumar. Um por dia agora. Posso levar uma vida desregrada e preguiçosa, só que essa é a única regra que tento seguir.

Shimada acendeu o cigarro e soltou uma baforada de fumaça, satisfeito.

— Quanto aos frutos do nosso trabalho... Em primeiro lugar, o fato de que não sobrou muito da fortuna de Seiji. Se for verdade, então sim, a teoria de que “Yoshikawa é o assassino” fica seriamente enfraquecida.

— E quanto ao fato dele estar apaixonado por Kazue?

— Não acreditei nessa teoria desde o início. Parecia forçada. Uma vez conversei com Ko e me disse que Kazue não era o tipo de mulher que sairia por aí seduzindo jardineiros. Também tinha a mesma opinião de Masako, de que o jardineiro era um homem honesto que jamais pensaria em se apaixonar por uma mulher casada.

— Então não acha que Yoshikawa seja o assassino.

— Não acho muito provável.

Com certo pesar, Shimada apagou o cigarro que havia fumado rapidamente no cinzeiro.

— E pelo que ouvimos hoje, tenho a impressão de que o motivo pelo qual os dois irmãos não se davam bem era Kazue.

— Kazue?

— Se Kazue estava tendo um caso, talvez não fosse com o jardineiro, e sim com Ko.

— Kojiro e Kazue?

— Sim. Agora me lembro... No ano passado, depois do incidente, Ko ficou trancado em casa por uma ou duas semanas e estava arrasado. Suspeito agora que não foi por causa da morte de Seiji, e sim por causa da morte de Kazue.

— No entanto Sr. Shimada, isso significaria que o assassino é...

— Tenho uma pequena ideia. Conto para você depois, primeiro precisa relatar o progresso de hoje para Morisu, certo?

— Agora que mencionou, sim.

Kawaminami olhou para o relógio do painel. 22:40.

A Rodovia Nacional costeira em direção a Cidade O estava menos movimentada agora. Entre as luzes traseiras vermelhas espalhadas à frente, estava a carroceria preta de um caminhão. E na linha férrea paralela à estrada, um trem iluminado passou...

— Ele nos disse para ligar, entretanto já que estamos dirigindo mesmo, vamos dar uma passada por lá.

As sugestões de Shimada animaram um pouco Kawaminami. Como se pressentisse isso, Shimada sorriu.

— Morisu. Sim, ele também tem um nome maravilhoso.



Parte 4

— Te conhecendo, esperava que já estivesse farto de bancar o detetive depois de um dia. — disse Morisu em tom de deboche, enquanto servia água quente da chaleira nas xícaras com saquinhos de chá. — Mas, para minha surpresa, não parece estar. Talvez seja porque o Sr. Shimada esteve te acompanhando?

— Como adivinhou? — Kawaminami riu, sem graça.

— Então, por favor, me de o relatório de suas investigações, Sr. Detetive.

Kawaminami informou Morisu sobre os fatos que haviam descoberto naquele dia.

— Então é isso que vocês andaram fazendo.

Morisu serviu-se de uma segunda xícara de chá e, sem adicionar açúcar, bebeu-a de um só gole.

— E aí? Quais são seus planos para amanhã, Watson?

— Estou decidindo ainda.

Kawaminami se espreguiçou no chão e depois se sentou, cansado, com a cabeça apoiada nos joelhos.

— Para ser honesto, estou me sentindo um pouco para baixo agora. O feriado de primavera é longo, sabe? E tenho passado todas as noites jogando mahjong. E então chegou aquela carta dos mortos. Eu só não consegui ignorá-la. E, como sempre, fiquei todo animado, porém agora...

— Poupe-nos da sua autoanálise. Esta entediando o Sr. Shimada.

Contudo Shimada apenas sorria enquanto acariciava o queixo pontudo.

— Não acho que haja nada de errado em ficar sem fazer nada de vez em quando. É muito mais saudável do que deixar a imaginação definhar por causa da vida agitada que leva. Sou como o Conan. Se não tivesse tempo livre, um homem da minha idade jamais teria se envolvido em algo desse tipo. No entanto, por outro lado, sou um cara curioso por natureza. A propósito, Morisu...

— Sim?

— Gostaria de saber o que o nosso “detetive de poltrona” está pensando.

— Achei que nunca fosse perguntar.

Morisu umedeceu os lábios secos com a língua e sorriu.

— Na verdade, tenho uma pequena suspeita desde que me contou tudo ontem à noite. Embora não é uma dedução, apenas um palpite, então não leve muito a sério.

— Como disse o Conan, você é um homem cauteloso.

— Para alguém cauteloso, essa é uma ideia bastante ousada. Até suspeito que o senhor, Sr. Shimada, possa ter pensado o mesmo.

— É possível.

— Certo, é isso.

Morisu olhou de Shimada para Kawaminami.

— Acho bastante surpreendente que você não tenha pensado nisso. Resumindo, o caso de Tsunojima não é o mesmo que Francis Nevins Jr. chama de “Gambito de Birlstone
¹”?

Kawaminami exclamou.

— Quer dizer que uma das supostas vítimas do assassinato continua viva?

— Não estou afirmando que seja verdade. Apenas aponto a possibilidade. E acredito que só poderia ser Seiji.

Morisu continuou sua explicação lentamente, enquanto servia sua terceira xícara de chá.

— As cabeças dos corpos identificados como sendo dos Kitamuras foram esmagadas com um machado, entretanto ainda depois dos restos mortais terem sido queimados, não acho que um deles conseguiria se passar pelo corpo de outra pessoa. Havia muitas marcas identificadoras restantes. O mesmo vale para o corpo de Kazue. Esse também seria identificável, apesar de estar sem a mão esquerda. O que deixa apenas o corpo que se acredita ser o de Seiji. Pense bem. O cadáver foi encharcado com querosene e incendiado. O rosto estava, como sabemos, irreconhecível, além do mais feridas antigas ou vestígios de cirurgia também não seriam fáceis de encontrar. Não sei como a polícia identificou o corpo, mas existe a possibilidade de ser de outra pessoa que não Seiji. E então temos o desaparecimento do jardineiro que estava na ilha na época... Sr. Shimada?

— Sim, detetive?

— Por acaso você verificou se Seiji e Yoshikawa Sei’ichi tinham idade e porte físico semelhantes?

— Haha. Você é esperto. — Shimada riu, entretido. — Yoshikawa tinha a mesma idade que Seiji, quarenta e seis anos. Ambos tinham estatura e porte físico medianos. E ambos tinham sangue tipo A. O corpo queimado, é claro, também tinha sangue tipo A.

— Como descobriu tudo isso? — Kawaminami perguntou surpreso, ao que Shimada coçou a bochecha, envergonhado.

— Ah, não te contei? Conheço algumas pessoas na polícia. Morisu, supondo que Nakamura Seiji e Yoshikawa Sei’ichi de fato trocaram de lugar, como você explica os eventos do caso?

Morisu colocou a mão na testa e ficou olhando para o nada.

— Kazue foi a primeira a ser assassinada. Estima-se que sua morte tenha ocorrido entre os dias 17 e 18. O jardineiro havia chegado à ilha e chamado sua esposa, Masako, na tarde do dia 17, então Kazue provavelmente já havia sido morta. Quando o jardineiro achou estranho não ter visto Kazue, Seiji disse que sua esposa estava doente e acamada. Na verdade, já teria lhe dado uma poção para dormir e depois a estrangulado. Então, temendo ser descoberto, Seiji decidiu assassinar também os Kitamuras e Yoshikawa. Ele drogou os três e os amarrou. Matou o casal com um machado no dia 19. Em seguida, levou Yoshikawa, que seguia dormindo por causa da droga, para o quarto onde havia matado Kazue antes. Desamarrou Yoshikawa, vestiu-o com suas próprias roupas e derramou querosene sobre seu corpo. E logo incendiou a mansão e fugiu da ilha.

— E assim a troca entre o assassino Nakamura Seiji e a vítima Yoshikawa Sei’ichi estava completa. Um exemplo clássico do que é conhecido nos círculos de ficção policial como o truque do “cadáver sem cabeça”. Porém mesmo essa teoria deixa algumas perguntas sem resposta. Consigo pensar em quatro, de imediato.

— Ah, é? E quais seriam? — Shimada insistiu.

— Primeiro, o motivo. Que razão Seiji teria para matar a mulher que esteve ao seu lado por mais de vinte anos? Poderíamos só dizer que estava louco, contudo até os loucos têm seus motivos.

— Segundo... E já o mencionei ontem à noite, é a mão esquerda desaparecida. Por que Seiji cortaria a mão esquerda de sua esposa? E o que fez com ela?

— Terceiro, o intervalo de tempo entre os assassinatos. Ele matou primeiro a esposa no dia 17 e, por fim, o jardineiro na madrugada do dia 20. O que Seiji estava fazendo durante esses três dias?

— E, por fim, como Seiji fugiu da ilha depois de cometer esses crimes? E onde está escondido desde então?

— Eu estava pensando quase a mesma coisa no caminho para cá. — disse Shimada. — E acho que, das perguntas que listou, posso pelo menos responder à primeira.

— Um motivo para matar Kazue?

— Sim. Claro, como você disse, isso não passa de um palpite.

— Ciúme? — tentou Morisu com cautela. Shimada franziu os lábios e assentiu.

— Até mesmo emoções normais podem se transformar em loucura se conseguirem permanecer por tempo suficiente no coração de um gênio como Seiji.

Shimada se virou para Conan.

— O que quer dizer? — perguntou este último.

— Você se lembra do que Yoshikawa Masako disse sobre Nakamura Chiori?

— Sim, claro.

— Ela disse que Chiori raramente voltava para a ilha. Também disse que Kazue adorava a filha, embora quando perguntamos sobre Seiji...

— Disse algo sobre Seiji não gostar de crianças.

— Exato. Seiji não amava muito a filha.

— E me lembro que, no funeral de Chiori, ele não foi o principal enlutado.

— Entende o que estou tentando lhe dizer, não é?

Kawaminami olhou alternadamente para Morisu e Shimada. Este último devolveu um leve aceno. Morisu franziu a testa e desviou o olhar.

— Está suspeitando que Chiori não era filha de Seiji.

— Isso mesmo, Conan.

— Contudo então, de quem era filha?

— De Nakamura Kojiro. Segundo Masako, Ko visitava a ilha ocasionalmente quando trabalhava lá e antes de se casar com Yoshikawa. O que significa que nem sempre houve ressentimentos entre os irmãos. E acho que o período em que Ko parou de ir à ilha data da época em que Chiori nasceu. O que acha, Morisu?

— Não faço ideia.

Morisu estendeu a mão para pegar os cigarros que estavam sobre a mesa.

— Então foi por essa razão que passamos pela casa do Kojiro na volta. — disse Kawaminami.

— Sim. Queria ver o que conseguia arrancar de Ko.

— Sr. Shimada... — interrompeu Morisu. — Acho melhor o senhor reconsiderar a ideia.

— Oh, e por quê? — Shimada ficou surpreso.

— Pode não ser da minha conta, no entanto mesmo que você e Kojiro sejam bons amigos, não acho que possa trazer muitos benefícios se você se intrometer em assuntos tão privados.

Morisu encarou Shimada em silêncio.

— Não há nada de errado em conversarmos sobre o caso aqui. Entretanto não acho certo agir puramente com base em palpites e invadir a privacidade de outras pessoas, ainda mais quando se trata de um segredo tão delicado quanto esse.

— Mas Morisu, foi você quem sugeriu que visitássemos a esposa de Yoshikawa. — retrucou Kawaminami. Morisu suspirou baixinho.

— Passei o dia todo me arrependendo de ter dito algo tão descuidado. Porém até eu cometo erros quando minha curiosidade entra em conflito com minha consciência. E ontem à noite, me deixei levar pelo momento. Não deveria ter dito aquilo só porque achei o caso intrigante. Me senti muito pior pensando nisso enquanto encarava os Budas de pedra. — ele olhou para o cavalete perto da parede. Uma camada espessa de tinta havia sido aplicada à tela com uma espátula.

— Pode parecer egoísmo da minha parte, Sr. Shimada, contudo estou saindo do jogo neste momento. Expliquei minhas deduções e agora estou renunciando ao cargo de “detetive de poltrona”. — disse Morisu.

Shimada não pareceu se ofender.

— Então, sua conclusão final é que Seiji segue vivo?

— Conclusão é uma palavra muito forte. Apenas apontei uma possibilidade que talvez não tenha recebido a devida atenção antes. Se me perguntar se de fato acho que Seiji segue com vida, então terei que responder que não.

— E a carta? O que pensa dela?

— Deve ser só uma brincadeira de alguém que foi para a ilha... Gostaria de mais chá?

— Não, obrigado.

Morisu se serviu de uma quarta xícara.

— Suponha que Seiji ainda estivesse vivo, ele estaria fazendo acusações sobre a morte de Chiori, uma filha que não amava e talvez até odiasse?

— Hmm.

— E também acho que manter um sentimento extremo, como a vontade de assassinar alguém, aceso por muito tempo é muito mais difícil do que você imagina.

— Se Seiji fosse o responsável pelo incidente de seis meses atrás e quisesse matar não só Kazue, como também os responsáveis ​​pela morte de Chiori, além de seu irmão Kojiro, não teria ido atrás de Kojiro e dos outros logo depois de matar Kazue? Não acho que sua vontade de matar pudesse ter sido tão forte se tivesse se escondido por seis meses primeiro e depois reiniciado sua vingança enviando um monte de cartas ameaçadoras.

— ...

— Tem mais água quente para mim? — perguntou Kawaminami, tentando ajudar Shimada, que parecia sem palavras.

— Não tem mais.

— Vou ferver um pouco.

— Não, tudo bem. Já comi o suficiente mesmo.

Kawaminami deitou-se de costas e cruzou os braços.

— O Sr. Shimada e eu temos muito tempo livre, então, embora você tenha direito à sua opinião, é claro, acho que vamos continuar investigando um pouco mais.

— Olha, não estou te dizendo para parar.

O rosto de Morisu suavizou.

— Porém acho que deveria evitar desrespeitar os segredos que as pessoas vêm tentando manter escondidos, sem se importar com os sentimentos delas.

— Tudo bem.

Kawaminami bocejou e murmurou.

— Imagino como estão os caras em Tsunojima.



É claro que eles não faziam ideia.

Nenhuma ideia de que, naquela pequena ilha não muito longe do continente, do outro lado do mar, o desfile da morte estava prestes a começar.



Notas:
1. O Gambito Birlstone é um famoso artifício narrativo de mistério, popularizado por Arthur Conan Doyle, onde a vítima de um assassinato, com o rosto desfigurado, na verdade é outra pessoa, e o verdadeiro criminoso (que se faz passar por uma testemunha) usa essa troca para encobrir sua identidade e cometer o crime perfeito.


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