Capítulo 31: Os Conselhos do Príncipe
Embora estivesse com bastante fome enquanto caminhava pelos muros do castelo com Sangfugol, quando o Padre Strangyeard apareceu para levá-lo às cozinhas, cumprindo tardiamente sua promessa anterior, Simon descobriu que seu apetite havia desaparecido. O cheiro da queimada da tarde seguia impregnando suas narinas; quase podia sentir a fumaça enquanto caminhava atrás do arquivista do castelo.
Enquanto caminhavam de volta pelos campos enevoados, depois que Simon tentou, sem sucesso, comer um prato de pão e salsichas que uma cozinheira severa lhe impôs, Strangyeard fez o possível para puxar conversa.
— Talvez você esteja apenas... Apenas cansado, rapaz. Sim, deve ser isso. O apetite voltará em breve. Os jovens sempre têm apetite.
— Tenho certeza de que o senhor está certo, padre. — disse Simon. Estava cansado, e às vezes era mais fácil concordar com as pessoas do que ter de explicá-las. Além do mais, ele próprio não tinha certeza do que o fazia sentir-se tão mole, tão abatido.
Caminharam um pouco mais pelo pátio interno, ainda na penumbra.
— Ah! — disse o padre por fim. — Eu queria te perguntar... Espero que não ache que estou sendo inconveniente...
— Sim?
— Bem, Binbines... Binabik, quero dizer, ele me contou... Me contou sobre um certo manuscrito. Um manuscrito escrito pelo Doutor Morgenes de Erchester? Um homem tão grandioso, uma perda tão trágica para a comunidade acadêmica...
Strangyeard balançou a cabeça tristemente, depois pareceu esquecer o que estava perguntando, pois deu mais alguns passos em contemplação sombria. Simon se sentiu compelido a quebrar o silêncio.
— O livro do Doutor Morgenes? — insistiu.
— Ah! Ah, sim... Bom, o que queria perguntar era... E tenho certeza de que é um favor muito grande... Binbines disse que o manuscrito foi salvo, que veio com você na sua bolsa.
Simon disfarçou um sorriso. O homem demorou uma eternidade!
— Não sei onde está a bolsa.
— Oh, está debaixo da minha cama... Da sua cama, pelo menos por enquanto. Na verdade, pelo tempo que quiser. Vi o criado do Príncipe colocá-la lá. Não a toquei, garanto! — acrescentou com pressa.
— Quer lê-lo? — Simon ficou comovido com a sinceridade do velho. — Claro. Estou cansado demais para olhar para ele. Além do mais, tenho certeza de que o doutor preferiria que fosse examinado por um homem de saber, o que sem dúvida não sou eu.
— Sério? — Strangyeard parecia deslumbrado, mexendo nervosamente com o tapa-olho. Parecia que ia arrancá-lo e jogá-lo para o alto com um grito de alegria. — Ah! — o padre respirou fundo, recompondo-se. — Isso seria esplêndido.
Simon sentiu-se desconfortável, afinal o arquivista havia se mudado de seu próprio quarto para que ele, um estranho, pudesse usá-lo. Era constrangedor que se sentisse tão grato.
“Ah...” decidiu. “Mas não é a mim que é grato, suponho, e sim à oportunidade de ler a obra de Morgenes sobre o Rei John. Este é um homem que ama livros como Raquel ama sabão e água.”
Eles quase haviam chegado ao bloco baixo de quartos ao longo da parede sul quando uma forma apareceu... Um homem, irreconhecível na névoa e na pouca luz. Este fez um leve tilintar ao se colocar à frente dos dois.
— Estou procurando o Padre Strangyeard. — disse o homem, com a voz um tanto arrastada. Pareceu hesitar, e o tilintar veio outra vez.
— Sou eu! — disse Strangyeard, com um tom um pouco mais agudo que o normal. — Hmm... Isto é, eu sou ele. O que você quer?
— Procuro um certo jovem. — disse o outro, e deu alguns passos para mais perto. — É este?
Simon tensionou os músculos, porém não pôde deixar de notar que a figura que se aproximava não era muito grande. Além do mais, havia algo em seu andar...
— Sim. — Simon e Strangyeard falaram juntos, então o padre se calou, puxando distraidamente a faixa da cabeça enquanto Simon continuava. — Sou eu. O que foi?
— O Príncipe quer falar com você. — disse a pequena figura, aproximando-se a poucos metros, olhando para Simon. Outra vez soou o leve tilintar.
— Towser! — exclamou o jovem com alegria. — Towser! O que está fazendo aqui?
Sua mão estendeu e agarrou os ombros do velho.
— Quem é você, então? — disse o bobo da corte, assustado. — Eu te conheço?
— Não sei... Sou Simon! Aprendiz do Doutor Morgenes! De Hayholt!
— Hmm! — disse o bobo da corte, hesitante. De perto, cheirava a vinho. — Suponho que sim... Está tudo meio confuso para mim, rapaz, muito confuso. Towser está ficando velho, como o velho Rei Tethtain: ‘cabeça coberta de neve e desgastada como o distante Monte Minari’. — o velho entrecerrou os olhos. — E não sou tão bom em reconhecer rostos como antes. É você quem devo levar ao Príncipe Josua?
— Acredito que sim. — o humor de Simon havia melhorado. — Sangfugol deve ter falado com o Príncipe. — virando-se para o Padre Strangyeard. — Preciso ir. Não mexi naquela bolsa... Nem sabia que estava lá.
O arquivista murmurou um aceno de reconhecimento e saiu apressado em busca de seu prêmio. Simon deu uma cotovelada no velho bobo da corte enquanto eles voltavam pelo pátio comum.
— Whoosh! — disse Towser, tremendo; os sinos em sua jaqueta tilintaram novamente. — O sol estava forte hoje, contudo o vento está cortante esta noite. Tempo ruim para ossos velhos, não consigo entender por quê Josua me mandou.
O bobo da corte cambaleou um pouco, apoiando-se por um instante no braço de Simon.
— Não é bem assim... — continuou. — Ele gosta de me dar coisas para fazer. Não gosta muito das minhas brincadeiras e truques, sabe, no entanto acho que não gosta de me ver ocioso.
Eles caminharam por um tempo sem dizer uma palavra.
— Como você chegou a Naglimund? — perguntou o rapaz, rompendo o silêncio.
— Na última caravana de carroças pela Estrada de Wealdhelm. Elias a fechou agora, aquele cão. A viagem foi difícil também... Tivemos que lutar contra bandidos ao norte de Flett. Tudo está desmoronando, garoto. Tudo está indo mal.
Os guardas na entrada da porta residencial os examinaram cuidadosamente à luz bruxuleante das tochas, depois bateram para que a porta fosse destrancada. Simon e o bobo da corte caminharam pelo corredor frio de lajes até chegarem a outra porta com vigas pesadas e outro par de guardas.
— Aqui está você, garoto. — disse Towser. — Vou para a cama, tive uma noite longa ontem. É bom ver um rosto familiar. Apareça qualquer hora para tomar um café comigo, me conte o que tem feito, sim? — Towser se virou e saiu arrastando os pés pelo corredor, o mosaico de suas roupas brilhando cada vez mais fraco até ser engolido pelas sombras.
O garoto se aproximou entre os guardas impassíveis e bateu na porta.
— Quem está aí? — perguntou uma voz juvenil.
— Simon de Hayholt, para ver o Príncipe.
A porta se abriu silenciosamente, revelando uma criança de rosto solene, de cerca de dez anos, vestida com a roupa de pajem. Quando este saiu do caminho, Simon passou por ele e entrou em uma antecâmara com cortinas.
— Entre! — chamou uma voz abafada. Depois de procurar um pouco, encontrou a entrada, escondida por uma cortina.
Era um cômodo austero, pouco mais bem mobiliado que o do Padre Strangyeard. O Príncipe Josua, de túnica e touca de dormir, estava sentado a uma mesa, segurando um pergaminho aberto com o cotovelo. Não olhou para cima quando Simon entrou, embora acenou para outra cadeira.
— Por favor, sente-se! — disse, interrompendo Simon no meio de sua reverência. — Só um instante.
Enquanto Simon estava sentado na cadeira dura e sem estofamento, viu um movimento no fundo da sala. Uma mão puxou a cortina para o lado, revelando uma fresta de luz de lamparina. Um rosto apareceu, de olhos escuros, emoldurado por grossos cabelos negros... A mulher que vira no pátio, observando o incêndio. Ela dirigiu um olhar atento para o Príncipe, contudo quando ergueu o olhar, seu olhar encontrou o de Simon e o sustentou, olhos raivosos como os de um gato encurralado. A cortina voltou ao lugar.
Preocupado, por um momento considerou dizer algo a Josua. Uma espiã? Uma assassina? Então percebeu por que aquela mulher estava nos aposentos do Príncipe e se sentiu muito tolo.
Josua olhou para Simon, que corava, deixando o pergaminho se enrolar sobre a mesa à sua frente.
— Agora, me perdoe. — ele se levantou e puxou a cadeira para mais perto. — Fui insensível. Espero que entenda que não tive a intenção de ofender aquele que me ajudou a escapar do meu cativeiro.
— Não... Não precisa se desculpar, Alteza. — gaguejou Simon.
Josua abriu os dedos da mão esquerda, com uma expressão de dor no rosto. Simon lembrou-se do que Sangfugol havia dito e imaginou como seria perder uma mão.
— Por favor. Me chame de ‘Josua’ nesta sala... Príncipe Josua, se preferir. Quando eu estudava com os irmãos Jesurianos em Nabban, eles me chamavam de ‘acólito’ ou ‘menino’. Não acho que tenha evoluído tanto desde então.
— Sim, senhor.
Os olhos de Josua desviaram-se, voltando-se para a escrivaninha; naquele momento de silêncio, Simon o examinou cuidadosamente. Na verdade, não parecia muito mais principesco do que quando o vira acorrentado nos aposentos de Morgenes. Parecia cansado, desgastado pelas preocupações tanto quanto uma rocha é desgastada pelo tempo. Em seu pijama, com a testa alta e pálida franzida em pensamento, parecia mais um arquivista auxiliar do Padre Strangyeard do que um Príncipe de Erkynlandia ou um filho do Preste John.
Josua se levantou e caminhou de volta para seu pergaminho.
— Os escritos do velho Dendinis. — disse, e bateu com o pergaminho em seu pulso direito com a proteção de couro. — Arquiteto militar de Aeswides. Sabia que Naglimund nunca foi conquistada por um cerco? Quando Fingil de Rimmersgardia desceu do norte, teve que destacar dois mil homens para manter este castelo sob cerco, para proteger seu flanco. — voltou a bater. — Dendinis a construiu bem.
Houve uma pausa. Por fim, Simon a preencheu, meio sem jeito.
— É uma fortaleza imponente, Príncipe Josua.
O Príncipe atirou o pergaminho de volta sobre a mesa, franzindo os lábios como um avarento contando seus impostos.
— Sim... Mas até mesmo uma fortaleza poderosa pode ser dizimada pela fome. Nossas linhas de suprimento são absurdamente longas, e onde podemos esperar encontrar ajuda?
Josua olhou para Simon como se esperasse alguma resposta, porém o jovem apenas ficou boquiaberto, sem saber o que dizer.
— Talvez Isgrimnur traga notícias animadoras... — continuou o Príncipe. — E talvez não. Corre a notícia do sul de que meu irmão está reunindo um grande exército. — Josua olhou para o chão, depois ergueu o olhar de repente, com os olhos brilhantes e atentos. — Mais uma vez, perdoe-me. Nesses últimos dias tenho me sentido imerso em pensamentos sombrios, e minhas palavras se sobrepõem ao meu bom senso. Uma coisa é ler sobre grandes batalhas, sabe, outra é tentar planejá-las. Você sabe quantas coisas há para se pensar? Reunir as tropas locais, trazer as pessoas e seus animais para o castelo, buscar suprimentos, reforçar as muralhas... E todas essas coisas são inúteis se ninguém lutar na retaguarda de Elias. Se ficarmos sozinhos, resistiremos por muito tempo... Contudo acabaremos caindo.
Simon ficou desconcertado. Era lisonjeiro que Josua fosse tão aberto em sua conversa, no entanto também havia algo assustador em um Príncipe tão cheio de presságios, um Príncipe que estava disposto a falar com um menino como se estivesse falando com seu conselho de guerra.
— Bom... — disse Simon por fim. — Bem... Certamente tudo acontecerá como Deus quer.
Ele se odiou por tamanha estupidez mesmo enquanto as palavras saíam de sua boca. Josua apenas riu, uma risada amarga.
— Ah, pego por um mero rapaz, como Jesuris no famoso espinheiro. Tem razão, Simon. Enquanto respiramos, há esperança, e devo isso a você.
— Apenas em parte, Príncipe Josua.
“Será que isso soou ingrato?” se perguntou o garoto.
A expressão gélida retornou ao rosto severo do Príncipe.
— Ouvi falar do doutor. Um golpe cruel para todos nós, no entanto ainda mais cruel para você, tenho certeza. Sentiremos falta de sua sabedoria... De sua bondade também, entretanto de sua sabedoria ainda mais. Espero que outros possam suprir parte de sua ausência. — Josua puxou a cadeira e se inclinou para a frente. — Haverá um conselho, e acho que deve ser em breve. Gwythinn, filho de Lluth de Hernystir, estará aqui esta noite. Já há outros que estão esperando há vários dias. Muitos planos dependem do que decidirmos aqui, muitas vidas. — Josua assentiu lentamente, pensativo.
— O Duque Isgrimnur está... Está vivo, Príncipe? — perguntou Simon. — Eu... Passei uma noite com seus homens na viagem até aqui, mas... Mas os deixei.
— Ele e seus homens estiveram aqui há alguns dias, parando antes de continuarem em direção a Elvritshalla. É por isso que não posso esperar... Podem ser semanas. — seu olhar tornou a desviar.
— Simon, sabe como manejar uma espada? — perguntou de repente. — Você foi treinado?
— Não exatamente, senhor.
— Então vá até o capitão da guarda e peça a ele que encontre alguém para ensiná-lo. Precisaremos de todos os braços, acredito, especialmente de jovens fortes.
— Claro, Príncipe Josua! — disse Simon.
O Príncipe se levantou e caminhou até sua mesa, virando as costas como se a audiência tivesse terminado. Simon ficou paralisado em sua cadeira, querendo fazer outra pergunta, sem ter certeza se seria apropriado. Por fim, também se levantou e recuou devagar em direção à porta com cortinas. Josua continuou a encarar o pergaminho de Dendinis. Simon estava prestes a sair quando parou, endireitou os ombros e fez a pergunta que vinha ponderando.
— Príncipe Josua, senhor... — começou dizendo, e o homem alto olhou por cima do ombro.
— Sim?
— A... A garota Marya... A garota que lhe trouxe a mensagem de sua sobrinha, Miriamele... — respirou fundo. — Sabe onde ela está agora?
Josua ergueu uma sobrancelha.
— Mesmo em nossos dias mais sombrios, não conseguimos desviar nossos pensamentos delas, não é? — o Príncipe balançou a cabeça. — Receio não poder ajudá-lo nisso, jovem. Boa noite.
Simon assentiu com a cabeça e saiu de costas pela cortina.
Enquanto caminhava de volta após sua perturbadora audiência com o Príncipe, se perguntava o que seria de todos eles. Chegar a Naglimund parecera uma grande vitória. Por semanas, não pensara em outro objetivo, não seguira outra estrela. Arrancado de seu lar, aquilo se tornara algo que o ajudava a manter as questões maiores sob controle. Agora, o que parecia um paraíso de segurança em comparação com a jornada selvagem era, de repente, mais uma armadilha. Josua praticamente dissera ‘se não fossem invadidos, morreriam de fome’.
Assim que chegou ao pequeno quarto de Strangyeard, se arrastou para a cama, porém ouviu os sentinelas anunciarem a hora mais duas vezes antes de adormecer.
***
Um Simon sonolento atendeu às batidas na porta, abrindo-a para se deparar com uma manhã cinzenta, uma loba grande e um gnomo.
— Estou surpreso por te encontrar na cama! — Binabik sorriu maliciosamente. — Apenas alguns dias fora da natureza selvagem e a civilização já fincou suas garras de preguiça em você!
— Não estou... — Simon franziu a testa. — Na cama. Não mais. Mas por que vocês não estão?
— Na cama? — Binabik perguntou, entrando no quarto e fechando a porta com o quadril. — Estou melhor... Ou melhor o suficiente. Há coisas a fazer. — seu olhar percorreu redor do quarto enquanto Simon afundava na beirada do colchão e contemplava seus próprios pés descalços. — Sabe onde está a bolsa que salvamos? — o gnomo perguntou por fim.
— Urrrh! — Simon resmungou, então acenou com a mão para o chão. — Estava debaixo da cama, porém acho que o Padre Strangyeard a pegou para ir buscar o livro de Morgenes.
— Deve estar aí ainda. — disse Binabik, abaixando-se com jeito até ficar de quatro. — O padre me parece um homem esquecido das pessoas, contudo que guarda as coisas no lugar quando termina de usá-las. — o homenzinho vasculhou debaixo da cama. — Aha! Aqui está!
— Não é ruim se mexer assim, com o seu ferimento? — perguntou Simon, sentindo-se culpado por não ter se oferecido para fazê-lo. Binabik recuou e se levantou, com muita cautela, como Simon notou.
— Gnomos têm cura rápida. — respondeu, com um largo sorriso, embora Simon ainda estivesse preocupado.
— Acho que você ainda não deveria estar de pé. — comentou o garoto enquanto Binabik revirava a bolsa. — Não é assim que vai melhorar.
— Vejo que seria uma ótima mãe gnomo. — disse Binabik sem levantar os olhos. — Vai mastigar minha carne também? Qinkipa! Onde estão aqueles ossos?
Simon ajoelhou-se para tentar encontrar suas botas, no entanto era difícil com a loba andando de um lado para o outro na câmara estreita.
— Qantaqa não pode esperar lá fora? — perguntou, enquanto seu flanco largo o esbarrava outra vez.
— Seus dois amigos ficarão felizes em ir embora se estivermos lhe causando incômodo, Simon! — disse o gnomo com ar formal. — Aia! Eles estavam guardados aqui!
Surpreendido, o garoto encarou o gnomo. Binabik era corajoso, inteligente, gentil, havia sido ferido ao lado de Simon... E mesmo sem essas qualidades, não tinha motivos para se irritar. Simon fez um som de desgosto e frustração e rastejou até ele.
— Para que precisa desses ossos? — olhou por cima do ombro de Binabik. — Minha flecha ainda está aí?
— A flecha, sim. — respondeu seu amigo. — Os ossos? Porque estes são dias de decisão, e eu seria um tolo se ignorasse qualquer conselho sábio.
— O Príncipe me convocou ontem à noite.
— Fiquei sabendo. — Binabik sacudiu os ossos para fora do saco e os pesou na mão. — Estive conversando com Josua esta manhã. Os hernystiros chegaram. Haverá um conselho esta noite.
— Ele te contou isso? — Simon ficou um pouco decepcionado ao descobrir que não era o único confidente de Josua, entretanto também um pouco aliviado por ver a responsabilidade compartilhada. — Você vai lá?
— Como o único homem do meu povo a entrar nos muros de Naglimund? Como aprendiz de Ookequk, o Homem Cantor dos gnomos de Mintahoq? Claro que irei. E você também irá.
— Eu? — ele se sentiu pego de surpresa. — Por que? O que diabos farei em um... Um conselho militar? Não sou soldado. Nem sou um homem adulto!
— Certamente não está com pressa de se tornar um. — Binabik fez uma careta zombeteira. — Mas não poderá lutar contra a maturidade para sempre. Além disso, seus anos não significam nada nisso. Você viu e ouviu coisas que podem ser importantes, e o Príncipe Josua gostaria que estivesse lá.
— Gostaria? Ele pediu que eu participasse?
O gnomo soprou impacientemente os cabelos que lhe caíam na testa.
— Não é bem assim... No entanto me pediu, e o levarei. Josua não sabe tudo o que viu em sua jornada.
— Pelo Sangue de Deus, Binabik!
— Por favor, não me xingue com imprecações aedonitas. Só porque tem barba... Quase... Não significa que seja homem o suficiente para amaldiçoar. Agora, por favor, me de um pouco de silêncio para jogar os ossos, depois terei mais notícias para contar.
Simon recostou-se, preocupado e chateado. E se lhe fizessem perguntas? Seria chamado para falar diante de Barões, Duques, generais e todos os outros? Ele, um mero ajudante de cozinha fugitivo?
O homenzinho cantarolava baixinho para si mesmo, agitando os ossos como um soldado jogando dados em uma taverna. Eles tilintaram e caíram no chão de ardósia. Examinou a posição deles, depois os pegou e os jogou mais duas vezes. Franziu os lábios e encarou atento o último osso por um tempo.
— Nuvens na Passagem... — disse por fim, pensativo. — Pássaro sem Asas... Fenda Negra. — esfregou os lábios com as costas da manga e bateu com a palma da mão no peito. — O que devo concluir de uma história dessas?
— Significa alguma coisa? — perguntou Simon. — Quais são as palavras que você acabou de dizer?
— São os nomes de algumas posições, certos padrões. Jogamos três vezes, e cada lançamento significa algo diferente.
— Eu não... Eu... Você pode explicar? — pediu o jovem, e quase caiu para a frente quando Qantaqa passou como um furacão para apoiar a cabeça na coxa atarracada de Binabik.
— Veja aqui... — disse o gnomo. — Primeiro: Nuvens na Passagem. Significa que, de onde estamos agora, é difícil enxergar longe, entretanto além há algo muito diferente do que está atrás.
— Eu poderia ter lhe dito isso.
— Calado. Será que por acaso deseja permanecer um tolo para sempre? Agora, o segundo era Pássaro Sem Asas. O segundo é vantajoso, todavia aqui parece que nossa impotência pode ser útil, ou assim estou interpretando os ossos hoje. Por último, do que devemos estar cientes...
— Ou temer?
— Ou temer! — concordou Binabik calmamente. — Fenda Negra... Essa é estranha, uma que nunca vi sair antes. Pode significar traição.
Simon respirou fundo, lembrando-se.
— Como ‘falso mensageiro’?
— É verdade. Porém tem outros significados, significados incomuns. Meu mestre me ensinou que também pode ser algo vindo de outros lugares, irrompendo por outros lados... Então, talvez alguma coisa sobre os mistérios que descobrimos... As nornas, seus sonhos... Está entendo?
— Um pouco.
O garoto se levantou e se espreguiçou, depois começou a procurar sua camisa.
— E as outras notícias?
O gnomo, que acariciava meditativamente as costas de Qantaqa, levou um instante para olhar para cima.
— Ah! — disse, e enfiou a mão na jaqueta. — Tenho algo para você ler.
Ele tirou um rolo de pergaminho achatado e entregou.
Simon sentiu sua pele nua formigar.
Estava escrito em uma caligrafia nítida, embora delicada, um punhado de palavras em meio à folha desenrolada.
Para Simon
Aqui estão os agradecimentos por sua bravura em nossa jornada. Que o Bom Deus sempre lhe de sorte, amigo.
Estava assinado apenas com a letra “M”.
— Dela. — concluiu. Não sabia se estava desapontado ou encantado. — É da Marya, não é? Foi só isso que mandou? Você a viu?
Binabik assentiu com a cabeça. Parecia triste.
— Eu a vi, no entanto foi só por um instante. Ela disse também que talvez a víssemos mais vezes, entretanto que havia coisas a serem feitas primeiro.
— Que coisas? Ela me deixa com raiva... Não, não é isso que quero dizer. Marya está aqui em Naglimund?
— Ela me deu o recado, não foi?
Binabik se levantou cambaleante, mas por ora Simon estava absorto demais para prestar muita atenção. Ela havia escrito! Não havia o esquecido! Porém a verdade é que não havia escrito muito, e não viera vê-lo, conversar, fazer nada...
“Por Jesuris, será que isso é estar apaixonado?” perguntou-se de repente. Não era nada parecido com as baladas que ouvira cantar... Era mais irritante do que inspirador. Pensara que estava apaixonado por Hepzibah. Certamente pensara muito a seu respeito, contudo em sua maior parte em sua aparência, em seu jeito de andar. Com Marya, de fato se lembrava de sua aparência, no entanto também se perguntava o que pensava.
“O que ela pensa?” ele estava enojado de si mesmo. “Eu nem sei de onde vem, muito menos como pensa! Não sei nem a coisa mais simples a seu respeito... E se gosta de mim, não é sequer algo que se deu ao trabalho de escrever nesta carta.”
E essa era a única verdade, ele sabia.
“Todavia disse que sou corajoso. E me chamou de amigo.”
Ergueu os olhos do pergaminho e viu Binabik o observando. A expressão do gnomo era sombria, embora Simon não tinha certeza do porquê.
— Binabik... — começou, mas então não conseguiu pensar em nenhuma pergunta cuja resposta clareasse seus pensamentos confusos. — Bem... — disse por fim. — Você sabe onde está o capitão da guarda? Preciso pegar uma espada.
***
O ar estava úmido e um céu cinzento e pesado pairava sobre eles enquanto caminhavam para o pátio externo. Uma multidão de pessoas passava pelo portão da cidade, alguns carregando vegetais, linho e outras coisas para vender, muitos puxando carroças precárias que pareciam estar abarrotadas com a miserável totalidade de seus bens materiais. Os companheiros de Simon, o pequeno gnomo e a enorme loba de olhos amarelos, causaram uma grande impressão nesses recém-chegados. Alguns apontavam e gritavam perguntas ansiosas em dialeto rústico, outros recuavam, fazendo o sinal protetor da Árvore em seus peitos cobertos por trajes grosseiros. Em todos os rostos havia sinais de medo... Medo do diferente, medo dos dias ruins que haviam chegado a Erkynlandia. Simon se sentia dividido entre o desejo de poder ajudá-los e o desejo de não ter que ver seus rostos simples e aflitos.
Binabik o deixou na guarita, parte do edifício do portão da ala externa, e então foi visitar o Padre Strangyeard na biblioteca do castelo. Simon logo se viu diante do capitão da guarda, um jovem abatido e de aparência exausta, que estava há vários dias sem se barbear. Ele estava de cabeça descoberta, seu elmo cônico cheio de pedras de contagem com as quais contava o contingente das milícias das terras externas que chegavam ao castelo. Disse-lhe que esperava Simon, que ficou devidamente lisonjeado por o Príncipe ter se lembrado dele, e entregou o jovem aos cuidados de um guarda erkyno do norte, um corpulento homem chamado Haestan.
— Ainda não cresceu tudo, não é? — Haestan rosnou, coçando a barba castanha encaracolada enquanto observava a figura esguia de Simon. — Um arqueiro, sim, é isso. Vamos te arranjar uma espada, porém não será grande o suficiente para fazer muita coisa. O arco é a solução.
Juntos, caminharam ao redor da muralha externa até à armaria, uma sala comprida e estreita atrás da ferraria ruidosa. Enquanto o guarda de armas os guiava por fileiras de armaduras desgastadas e espadas enferrujadas, Simon ficou triste ao ver o que restava do armamento do castelo, uma proteção frágil contra as legiões brilhantes que Elias sem dúvida enviaria para o campo de batalha.
— Não sobrou muita coisa. — observou Haestan. — Não é nem metade do que temos em primeiro lugar. Espero que os impostos das terras distantes tragam algo além de forcado e arado.
O guarda mancando finalmente encontrou uma espada embainhada que o guarda considerou ter a espessura adequada para o tamanho de Simon. Estava manchada de óleo seco, e o guarda teve dificuldade em disfarçar sua expressão de desagrado.
— Limpe-a. — disse. — E ficará uma bela peça.
Uma busca mais minuciosa revelou um arco longo que só não tinha corda, contudo que, de resto, estava em bom estado, e uma aljava de couro.
— Obra dos Thrithings. — disse Haestan, apontando para os veados e coelhos de olhos arregalados gravados no couro escuro. — Os homens dos Thrithings fazem belas aljavas.
Simon teve a impressão de que o guarda se sentia um pouco culpado pela espada sem graça.
De volta ao posto da guarda, seu novo tutor conseguiu uma corda de arco e meia dúzia de flechas do intendente, e então mostrou a Simon como limpar e cuidar de suas novas armas.
— Afie bem, rapaz, afie bem! — disse o guarda corpulento, fazendo a lâmina deslizar sobre a pedra de amolar. — Senão vai virar menina antes de ser homem.
De alguma forma, contrariando a lógica, encontrou um brilho de aço verdadeiro sob a ferrugem e a sujeira.
Simon esperava começar em seguida com o manejo da espada, ou pelo menos com alguns tiros ao alvo, porém em vez disso, Haestan tirou um par de varas de madeira acolchoadas com pano e levou Simon para fora do portão da cidade, até a encosta acima da cidade. Simon logo aprendeu o quão pouco parecido com um treino de soldados de verdade seu jogo com Jeremias, o aprendiz do candeeiro, tinha sido.
— Treinar com lanças seria mais útil. — disse Haestan enquanto Simon se sentava na grama, ofegando e sentindo um peso no estômago. — Contudo, como está, não temos nenhuma sobrando. É por isso que flechas serão a sua especialidade, garoto. Mesmo assim, é bom saber um pouco de esgrima para combate corpo a corpo. É aí que vai agradecer ao velho Haestan cem vezes mais.
— Por que... Não... O arco...? — Simon ofegou.
— Amanhã, garoto, para arco e flechas... Ou depois de amanhã. — Haestan riu e estendeu uma mão larga. — Levante. A diversão está apenas começando por hoje.
Cansado, dolorido, moído como trigo até achar que podia sentir a palha escorrendo pelos ouvidos, Simon comeu feijão e pão na refeição da tarde dos guardas, enquanto Haestan continuava a parte verbal de sua educação, a maior parte da qual Simon perdeu devido a um zumbido baixo e contínuo em seus ouvidos. Ele foi finalmente dispensado com um aviso para estar pronto bem cedo na manhã seguinte. Cambaleou de volta para o quarto vazio de Strangyeard e adormeceu sem nem mesmo tirar as botas.
***
A chuva entrava pela janela aberta e o trovão murmurava à distância. Simon acordou e encontrou Binabik o esperando como naquela manhã, como se a longa e exaustiva tarde não tivesse acontecido. Essa ilusão se dissipou em instantes quando se sentou, cada músculo estava rígido. Sentia como se tivesse cem anos.
Binabik precisou de um esforço considerável para convencê-lo a sair da cama.
— Simon, esta não é uma noite de diversão para escolher ir ou recusar. Estas são coisas das quais nossas vidas dependerão.
Simon havia voltado a se deitar de costas.
— Eu acredito em você... No entanto se me levantar, vou morrer.
— Chega! — o homenzinho segurou seu pulso, apoiou os calcanhares no chão, fazendo uma careta enquanto puxava Simon aos poucos de volta para a posição sentada. Ouviu-se um gemido profundo e um baque quando um dos pés calçados de Simon tocou o chão, seguido por um longo silêncio antes que o outro pé se juntasse.
Longos minutos depois, mancava para fora da porta ao lado de Binabik, em direção aos ventos fortes e à chuva fria.
— Teremos que jantar também? — perguntou o garoto. Pela primeira vez na vida, se sentia dolorido demais para comer.
— Acho que não. Josua é peculiar nesse sentido; não gosta muito de comer e beber com sua corte. Ele tem um desejo de solidão. Então, imagino que todos já comeram antes. É assim que estou convencendo Qantaqa a ficar no quarto. — o gnomo sorriu e deu um tapinha no ombro de Simon, que fez uma careta em resposta. — Tudo o que teremos para nos banquetear esta noite será preocupação e discussão. Péssimo para a digestão de gnomos, homens ou lobos.
Enquanto a tempestade rugia lá fora, o grande salão de Naglimund estava seco, aquecido por três enormes lareiras abertas, iluminadas pelas chamas de incontáveis velas. As vigas inclinadas do teto desapareciam na escuridão lá no alto, e as paredes estavam cobertas por tapeçarias religiosas sombrias.
Dezenas de mesas haviam sido juntadas, formando uma enorme ferradura; a cadeira de madeira alta e estreita de Josua estava no ápice do arco, com a inscrição do Cisne de Naglimund. Meia centena de homens já havia se instalado em diferentes pontos ao longo da borda da ferradura, conversando avidamente entre si... Homens altos, vestidos com os mantos de pele e bugigangas vistosas da pequena nobreza em sua maioria, mas alguns usando as roupas rústicas de soldados. Vários olharam para cima quando a dupla passou, observando-os com olhos avaliadores antes de voltarem às suas discussões.
Binabik cutucou o quadril de Simon com o cotovelo.
— Eles talvez estejam pensando que somos os acrobatas contratados.
O homenzinho riu, porém Simon não achou que parecesse nada divertido.
— Quem são todas essas pessoas? — Simon sussurrou enquanto se sentavam na extremidade de um dos extremos da ferradura. Um pajem colocou vinho diante deles e acrescentou água quente antes de se encolher nas longas sombras da parede.
— Senhores de Erkynlandia leais a Naglimund e Josua... Ou pelo menos ainda indecisos quanto à sua lealdade. O corpulento de vermelho e branco é Ordmaer, Barão de Utersall. Ele conversa com Grimstede, Ethelferth e alguns outros senhores. — o gnomo ergueu seu cálice de bronze e bebeu. — Hmmm. Nosso Príncipe não está sendo perdulário com o vinho, ou talvez queira que apreciem a excelente água local.
O sorriso travesso de Binabik reapareceu; Simon recostou-se na cadeira, temendo uma reaparição semelhante da pequena e afiada cotovelada, contudo o homenzinho apenas olhou por cima do seu ombro, para o alto da mesa.
O garoto tomou um longo gole de vinho. Estava aguado; ele se perguntou se era o senescal ou o próprio Príncipe que estava responsável. Mesmo assim, era melhor do que nada e poderia servir para aliviar suas dores nos membros. Quando terminou, o pajem correu para frente e voltou a encher seu cálice.
Mais homens foram entrando aos poucos, alguns conversando animados, outros observando friamente aqueles que já haviam chegado. Um homem muito, muito velho, com suntuosas vestes religiosas, entrou de braço dado com um jovem padre robusto e começou a arrumar vários objetos brilhantes perto da cabeceira da mesa; a expressão em seu rosto era de claro mau humor. O homem mais jovem o ajudou a sentar-se em uma cadeira e então se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido. O mais velho respondeu com uma duvidosa civilidade; o padre, com um olhar de amargura dirigido ao teto, saiu da sala.
— É o Leitor? — perguntou Simon em voz baixa.
Binabik balançou a cabeça.
— Parece-me muito improvável que o chefe de toda a sua igreja aedonita esteja aqui, no covil de um Príncipe fora da lei. É provável que seja Anodis, o Bispo de Naglimund.
Enquanto Binabik falava, um último grupo de homens entrou, e o gnomo parou para observar. Alguns, com os cabelos em tranças finas pelas costas, vestiam as túnicas brancas com cinto dos hernystiros. Seu aparente líder, um jovem intenso e musculoso com longos bigodes escuros, conversava com um sulista, um sujeito muito bem-vestido que aparentava ser apenas um pouco mais velho. Este, com os cabelos cuidadosamente cacheados e vestes em delicados tons de urze e azul, estava tão impecavelmente arrumado que Simon tinha certeza de que até Sangfugol ficaria impressionado. Alguns dos velhos soldados ao redor da mesa sorriam abertamente para a afetação de seu traje.
— E estes? — perguntou o garoto. — Aqueles de branco, com o ouro no pescoço... Hernystiros, certo?
— Correto. O Príncipe Gwythinn, e sua embaixada. O outro, eu diria, seria o Barão Devasalles de Nabban. Tem fama de ser muito espirituoso, embora um tanto apegado a fantasias. Um guerreiro corajoso também, me disseram.
— Como você sabe de tudo isso, Binabik? — perguntou Simon, desviando sua atenção dos recém-chegados para o amigo. — Está escutando atrás das fechaduras?
O gnomo se endireitou com altivez.
— Não morei sempre no topo de montanhas, sabia? Além disso, encontrei Strangyeard e outros recursos aqui, enquanto você estava aí, mantendo sua cama quentinha.
— O quê?
A voz de Simon saiu mais alta do que pretendia; percebeu que estava pelo menos um pouco bêbado. O homem sentado ao lado se virou com um olhar curioso; Simon se inclinou para frente para continuar sua defesa em um tom mais baixo.
— Eu estive... — começou a dizer, então as cadeiras começaram a ranger por todo o salão enquanto seus ocupantes se levantavam de repente. Simon olhou para cima e viu a figura esguia do Príncipe Josua, vestido com seu habitual cinza, entrar no fundo do salão. Sua expressão era calma, no entanto sem sorrir. A única indicação de sua posição era a tiara de prata em sua testa.
Josua acenou para a assembleia e então se sentou; os outros o seguiram e fizeram o mesmo. Enquanto os pajens se aproximavam para servir vinho, o velho Bispo à esquerda de Josua... Gwythinn de Hernystir estava sentado à sua direita... Se levantou.
— Por favor, agora... — o Bispo soou amargo, como um homem que faz um favor que sabe que não terá bom resultado. — Inclinem suas cabeças enquanto pedimos a bênção de Jesuris Aedon sobre esta mesa e sua deliberação.
Dito isso, ele ergueu uma bela Árvore de ouro trabalhado e pedras azuis e a segurou diante de si.
— Aquele que veio a este mundo, mas não é totalmente da nossa carne, ouve-nos agora.
— Aquele que era um homem, porém cujo Pai não era homem, e sim o Deus que respira, dá-nos conforto.
— Vigia esta mesa e aqueles que aqui se sentam, e coloca a Tua mão no ombro daquele que está perdido e em busca.
O velho respirou fundo e olhou ao redor da mesa com um olhar fulminante. Simon, esforçando-se para observar com o queixo afundado no peito, pensou que ele parecia querer pegar sua Árvore cravejada de joias e esmagar todos eles.
— Além disso... — concluiu o bispo apressadamente. — Perdoa os presentes por qualquer tolice condenável e orgulhosa que possa ser dita aqui. Somos Teus filhos.
O ancião cambaleou e se deixou cair na cadeira; houve um murmúrio de conversa baixa ao redor da mesa.
— O que acha, Simon, o Bispo está feliz por estar aqui? — sussurrou Binabik.
Josua se levantou.
— Obrigado, Bispo Anodis, por suas... Orações sinceras. E obrigado a todos que vem a este salão. — seu olhar percorreu ao redor da câmara alta e iluminada pela lareira, a mão esquerda sobre a mesa, a outra escondida nas dobras de sua capa. — Estes são tempos difíceis. — entoou, movendo o olhar de um rosto para o outro.
Simon sentiu o calor da sala subir até si e se perguntou se o Príncipe diria algo sobre seu resgate. Piscou, abrindo os olhos a tempo de ver o olhar de Josua percorrer por um momento seu corpo e retornar ao centro da sala.
— Tempos difíceis e preocupantes. O Supremo Rei de Hayholt... E sim, é meu irmão, claro, entretanto para os nossos propósitos aqui, é o Rei.... Parece ter virado as costas para as nossas dificuldades. Os impostos foram aumentados a ponto de se tornarem punições cruéis, mesmo enquanto a terra sofre com uma seca feroz em Erkynlandia e Hernystir e tempestades terríveis açoitam no norte. Ao mesmo tempo em que Hayholt se esforça para tomar mais do que jamais tomou sob o reinado do Rei John, Elias retirou as tropas que antes mantinham as estradas abertas e seguras, e que ajudavam a guarnecer as terras mais desertas da Marca Gelada e Wealdhelm.
— É verdade! — exclamou o Barão Ordmaer, batendo um caneco na mesa. — Deus o abençoe, é a pura verdade, Príncipe Josua!
O Barão se virou e acenou com o punho para que os outros pudessem ver. Houve um coro de concordância, contudo também houve outros, entre eles o Bispo Anodis, que balançaram a cabeça ao ouvir palavras tão precipitadas tão cedo.
— E assim... — disse Josua em voz alta, silenciando a assembleia... — Nos deparamos com um problema. O que devemos fazer? É por isso que os convoquei aqui e, presumo, por isso que vieram. Para decidir o que podemos fazer. Para manter essas correntes... — Josua ergueu o braço esquerdo e mostrou a algema ainda presa ali. — Fora de nossos pescoços, correntes que o Rei nos colocaria.
Houve alguns gritos de aprovação. O murmúrio de conversas sussurradas também aumentou. Josua acenava com o braço acorrentado pedindo silêncio quando um clarão vermelho surgiu na porta. Uma mulher entrou na sala, um longo vestido de seda como a chama de uma tocha. Era ela quem Simon vira nos aposentos do Príncipe, de olhos escuros e ar imperioso. Em instantes, ela alcançou Josua, os olhos dos homens seguindo-a com interesse evidente. Josua parecia desconfortável, enquanto a mulher se inclinava para sussurrar algo em seu ouvido, ele manteve o olhar fixo em sua taça de vinho.
— Quem é aquela mulher? — Simon sibilou, e não era o único a perguntar, a julgar pela enxurrada de sussurros.
— Seu nome é Vorzheva. É a filha de um senhor dos clãs do Thrithings, além de ser a... O quê? Mulher do Príncipe, suponho. Dizem que possui grande beleza.
— E possui. — Simon continuou a encará-la por um momento, depois voltou-se para o gnomo. — ‘Dizem’! O que quer dizer com ‘dizem’? Está parada bem ali, não está?
— Ah, mas estou com dificuldade em julgar. — sorriu Binabik. — É que não gosto da aparência de mulheres altas.
A Senhora Vorzheva havia terminado de transmitir sua mensagem. Ouviu a resposta de Josua e, um instante depois, deslizou rapidamente para fora do salão, deixando apenas um último brilho escarlate na escuridão da porta.
O Príncipe olhou para cima e, por trás de seu rosto plácido, Simon achou que detectou algo que parecia... Constrangimento?
— Então... — começou Josua. — Nós estávamos...? Sim, Barão Devasalles?
O dândi¹ de Nabban se levantou.
— Vossa Alteza estava dizendo que deveríamos considerar Elias apenas como Rei. Porém é óbvio que isto não é verdade.
— O que quer dizer? — perguntou o senhor de Naglimund, acima de um murmúrio de desaprovação de seus súditos.
— Com licença, Príncipe, contudo o que quero dizer é o seguinte: se fosse apenas Rei, não estaríamos aqui, ou pelo menos o Duque Leobardis não teria me enviado. O senhor é o único outro filho do Preste John. Por que mais viajaríamos tão longe? Caso contrário, aqueles que tinham queixas contra Hayholt viajariam para o Sancellan Mahistrevis, ou para Taig em Hernysadharc. No entanto o senhor é seu irmão, não é? Irmão do Rei?
Um sorriso gélido surgiu nos lábios de Josua.
— Sim, Barão, sou. E entendo o que o senhor quer dizer.
— Obrigado, Alteza. — Devasalles fez uma pequena reverência. — Agora resta a pergunta. O que você deseja, Príncipe Josua? Vingança? O trono? Ou apenas um acordo com um Rei ganancioso, que o deixará em paz aqui em Naglimund?
Ouviu-se então um rosnado estrondoso dos erkynos presentes, e alguns se levantaram, com as sobrancelhas franzidas e os bigodes tremendo. Entretanto antes que qualquer um deles pudesse aproveitar o momento, o jovem Gwythinn de Hernystir saltou de pé, inclinando-se sobre a mesa em direção ao Barão Devasalles como um cavalo arisco.
— O cavalheiro de Nabban quer dizer uma resposta, certo? Bem, então, aqui está a minha. Lutar! Elias insultou o sangue e o trono de meu pai e enviou a Mão do Rei ao nosso Taig com ameaças e palavras duras, como um homem castigando crianças. Não precisamos ponderar sobre isso e aquilo... Estamos prontos para lutar!
Várias pessoas aplaudiram as palavras ousadas do hernystiro, todavia Simon, olhando vagamente ao redor da sala enquanto terminava os últimos goles de mais uma taça de vinho, viu ainda mais pessoas com semblantes preocupados, conversando baixinho com seus companheiros de mesa. Ao seu lado, Binabik franzia a testa, espelhando a expressão que pairava no rosto do Príncipe.
— Ouçam-me! — Josua elevou a voz. — Nabban, na pessoa do emissário de Leobardis, fez perguntas difíceis, mas justas, e eu as responderei. — ele dirigiu seu olhar frio para Devasalles. — Não tenho nenhum desejo de ser Rei, Barão. Meu irmão sabia, embora mesmo assim me capturou, matou vinte dos meus homens e me manteve em suas masmorras. — ele brandiu a algema novamente. — Por isso, sim, desejo vingança... Porém, se Elias governasse bem e com justiça, eu sacrificaria a vingança pelo bem de Osten Ard, e pela minha amada Erkynlandia. Quanto a um acordo... Não sei se é possível. Elias tornou-se perigoso e difícil; alguns dizem que às vezes beira a loucura.
— Quem diz isso? — perguntou Devasalles. — Senhores que se incomodam com sua mão, reconhecidamente pesada? Falamos de uma possível guerra que dilacerará nossas nações como pano apodrecido. Seria uma pena se começasse por causa de rumores.
Josua recostou-se e chamou um pajem, sussurrando-lhe uma mensagem.
O rapaz voou para fora do salão.
Um homem musculoso e barbudo, vestido com peles brancas e correntes de prata, se levantou da mesa.
— Se o Barão não se lembra de mim, eu o lembrarei... — disse o homem, visivelmente desconfortável. — Sou Ethelferth, Lorde de Tinsett, e desejo dizer apenas isto: se meu Príncipe diz que o Rei perdeu o juízo, bem, essa palavra me basta. — sua testa franziu e voltou a sentar-se.
Josua levantou-se, o corpo esguio, vestido de cinza, desenrolando-se como uma corda.
— Agradeço, Lorde Ethelferth, por suas gentis palavras. Contudo... — ele lançou um olhar ao redor da assembleia, que se aquietou para observá-lo. — Ninguém precisa acreditar em mim ou nas palavras de outros dos meus súditos. Em vez disso, trago-lhes alguém cujo conhecimento em primeira mão dos costumes de Elias vocês, tenho certeza, acharão fácil de confiar.
Acenando com a mão esquerda em direção à porta próxima do salão, aquela por onde o pajem havia desaparecido. O rapaz havia reentrado; atrás deste, na porta, estavam duas figuras. Uma era a senhora Vorzheva. A outra, vestida de azul-celeste, passou por Vorzheva e entrou no foco de luz ao redor do aplique de parede.
— Meus senhores... — disse Josua. — A Princesa Miriamele, filha do Supremo Rei.
E Simon, boquiaberto, fitou as mechas curtas e repicadas de cabelo dourado que apareciam sob o véu e a coroa, livres de seu disfarce sombrio... E, encarando o rosto tão familiar, sentiu um grande tremor em seu corpo. Quase se levantou, como os outros, no entanto suas pernas fraquejaram e o fizeram cair de volta na cadeira. Como? Por quê? Este era o segredo dela... Seu segredo sórdido e traiçoeiro!
— Marya... — murmurou, e enquanto ela se sentava na cadeira, Gwythinn se rendeu a ela, reconhecendo seu gesto com um aceno de cabeça preciso e gracioso, e enquanto todos os outros se sentavam outra vez, conversando em voz alta, maravilhados, Simon enfim se levantou cambaleando.
— Você... — disse ele a Binabik, agarrando o ombro do homenzinho. — Você... Sabia?
O gnomo pareceu prestes a dizer algo, mas em vez disso fez uma careta e deu de ombros. Simon olhou para cima, através do mar de cabeças, e encontrou Marya...
Miriamele... Olhando para ele com olhos arregalados e tristes.
— Maldito seja! — sibilou, então se virou e saiu apressado da sala, com os olhos cheios de lágrimas de vergonha.
Notas:
1. Um dândi é um homem que se veste com extrema elegância, requinte e afetação, exibindo um senso estético apurado, muitas vezes beirando o extravagante, e um comportamento sofisticado, focando na beleza e nos detalhes da aparência, sendo um ‘cavalheiro perfeito’ que desafia o vulgar. O termo vem do inglês dandy, surgido no século XVIII, descrevendo homens que, independentemente da origem, emulavam um estilo aristocrático, valorizando a forma de viver e a arte de se apresentar, como Oscar Wilde.
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