Capítulo 71: De repente, me vi em uma cidade desconhecida
“Hã?” resmunguei, atônita.
Prédios ladeavam a rua principal, pontilhados por barracas e lojas. Pessoas iam e vinham. Carroças chacoalhavam, suas rodas levantando nuvens de poeira.
Mas tudo estava errado. A arquitetura. A cor e a atmosfera das barracas. Até mesmo os desenhos e padrões das roupas que as pessoas vestiam. Nada me era familiar.
Dito isso... A julgar pelos olhares descarados que recebíamos dos transeuntes, parecia que éramos nós que estávamos fora de lugar. Não conseguia entender o que em nós parecia tão estranho.
Eu usava uma espada curta no cinto e toda a minha roupa era salpicada de amuletos cravejados de joias, porém no geral estava vestida com uma capa preta e uma bandana. Eu meio que me destacava em um lugar tão alegre e vibrante... Ou talvez o deixasse um pouco mais sombrio, contudo isso é basicamente o padrão para um feiticeiro.
Do outro lado, meu companheiro era alto, loiro e bonito. Gourry não tinha exatamente a aparência típica de um espadachim rude e destemido, no entanto sua cota de malha leve e espada longa eram impecáveis.
Algo além disso deve ter nos identificado como forasteiros.
“Diga, Lina... Só para constar...” Gourry murmurou baixinho. “Esta não é a Cidade de Latka?”
“Estou me perguntando a mesma coisa.” respondi, olhando para o nada.
“Não, esta é Latka.” uma voz antiga e com sotaque atrás de nós nos fez virar. Lá estava um velho sentado em um banco em frente a uma residência. “Desculpe-me por ouvir a conversa, entretanto esta é de fato a Cidade de Latka. E quem são vocês, viajantes? Suas roupas são curiosas e vocês parecem ter surgido do nada. De onde vieram?”
“De onde...?”
De Latka, é claro... Ou pelo menos era o que ia dizer, todavia me contive. Era verdade, claro, mas, para ser mais precisa, Gourry e eu tínhamos saído da Cidade de Latka rumo a um destino desconhecido antes de pararmos aqui.
Veja bem, tudo começou no início daquela tarde...
———
Guuulp... Hack-ack! Augh! Hack! Forcei-me a engolir o suco em vez de cuspi-lo, o que me levou a uma crise de tosse terrível.
“Whoa! Você está bem, Lina?” perguntou Gourry.
Demorou um bom tempo e engasguei bastante antes de conseguir responder, porém por fim consegui dizer as palavras.
“Ah, est... Estou b-bem!” respondi, antes de me virar para o idoso dono da loja. “Enfim, senhor!”
O grandalhão e eu estávamos em Latka, uma cidade perto de Zephyr, a capital de Zephilia. Tínhamos chegado pouco antes do meio-dia com a intenção de visitar mais algumas cidades antes de nos hospedarmos para a noite. Estávamos apenas parando para um almoço rápido.
Como ainda era tecnicamente manhã, o restaurante em que tínhamos entrado estava quase deserto. Então, aparentando não ter nada melhor para fazer, o proprietário decidiu conversar conosco enquanto comíamos. Não estava interessada, então ignorei o que ele dizia... Até que um comentário inocente me levou a todo o meu quase engasgo.
“Deixe-me ver se entendi...” comecei. “Um forasteiro simplesmente chegou à cidade e se instalou na casa do prefeito?”
“Sim!” confirmou o dono do restaurante.
“E toda a família do prefeito está agindo de forma estranha desde então?”
“Sim.”
“E qual era mesmo o nome desse andarilho?”
“Norst.” completou o velho.
“Hmmmm...” então ouvi direito, afinal.
“Lembra alguma coisa, Lina?” perguntou Gourry.
“Mais ou menos. Talvez. Pode ser só minha imaginação, mas...” respondi de forma vaga. Não tinha muita informação, e o que tinha era um palpite bem fraco. Mais um devaneio paranoico. Um ‘nossa, seria horrível se eu estivesse certa’. Porém se houvesse alguma chance da minha especulação estar correta, seria um presságio de coisas muito ruins por vir.
Um estranho se aproxima de alguma pessoa importante e, logo depois, essa pessoa importante começa a agir de forma estranha. Esse tipo de intriga era bastante comum. Minha primeira reação foi que não tinha obrigação nenhuma de me expor dessa forma, por mais ignóbil que fosse esse pensamento, e apesar da probabilidade de que eventualmente provocasse algum conflito, grande ou pequeno, se eu deixasse pra lá.
E, ainda assim... Uma coisa era quando a intriga era a maquinação de um humano vingativo, ganancioso ou sedento de poder. Contudo e se fosse um mazoku?
Mazokus eram criaturas que buscavam a destruição do mundo. Os inimigos mortais de todos os seres vivos. Seu líder era Olhos de Rubi Shabranigdu, que era servido por cinco tenentes: Mestre do Inferno, Dinasta, Grande Besta, Mar Profundo e Dragão do Caos. Cada um desses tenentes, por sua vez, tinha entre um e quatro mazokus de alta patente, conhecidos como Sacerdotes e Generais, fazendo seu trabalho sujo.
Ora, para a maioria das pessoas, tudo isto era coisa de lenda, historinhas. Algumas pessoas nem acreditavam que existissem. No entanto eu, pessoalmente, já tinha tido muitos encontros com esse tipo de ser.
Um desses encontros foi com um mazoku chamado Sherra, o General a serviço de Dinastia. Ao longo do nosso conflito, descobri que Dinastia tinha outros três subordinados, sacerdotes/generais, cujos nomes eram todos derivados do seu próprio nome, Dinastia Graushera. Pelo visto, isso acontecia porque Graushera via seus subordinados como peões sacrificiais que não valiam o esforço de considerar nomes criativo.
Então, caro leitor... Você entende onde quero chegar com todo esse papo? Sabia que havia mazokus de alta patente por aí com nomes semelhantes a ‘Dai’, ‘Nast’, ‘Grau’ e ‘Sherra’, e tinha acabado de ouvir falar de um cara chamado Norst causando problemas na cidade. Não é tão diferente de ‘Nast’, não é?
Além do mais, enquanto os mazokus de baixa patente assumiam formas monstruosas que eram fáceis de serem identificáveis, os de alta patente podiam parecer indistinguíveis de humanos. O que significava que era possível que um mazoku poderoso o suficiente assumisse forma humana e se infiltrasse em uma cidade em prol de algum plano.
Claro, havia a possibilidade de apenas estar pensando demais. Talvez fosse pura coincidência que esse andarilho tivesse um nome tão suspeito. Entretanto, por outro lado, e se ignorasse e acabasse estando certa? E se a situação levasse a algo ainda pior mais tarde? Tinha certeza de que me arrependeria de não ter cortado o mal pela raiz.
Além disso, Latka ficava perto da minha cidade natal. Eles estavam literalmente me atacando onde eu morava. Sendo esse o caso...
“O senhor poderia me dizer onde encontrar esse tal de Norst?” tive de perguntar.
———
Comum, essa era a única maneira de descrever a Cidade de Latka. Talvez os moradores discordassem dessa descrição, mas se perguntasse a dez viajantes, aposto que sete ou oito diriam o mesmo.
Prédios ladeavam a rua principal, pontilhados por barracas e lojas. Pessoas iam e vinham. Carroças chacoalhavam, suas rodas levantando nuvens de poeira.
Tínhamos chegado ao centro da cidade, com a estrada principal cortando-a. A casa do prefeito ficava escondida logo adiante. Era uma casa grande, embora não tão grande a ponto de chamá-la de mansão, cercada por uma cerca viva baixa com um gramado bem cuidado.
Então, como vou abordar isso? Enquanto estava parada do lado de fora da porta da frente, pensando...
“Diga, Lina.” interrompeu Gourry, que até então estava em silêncio.
“Sim?”
“O que estamos fazendo aqui, exatamente?”
“Oh.”
É verdade. Esqueci de explicar. Talvez eu devesse... Ehh, nah. Sei que não ia adiantar explicar as coisas para Gourry, o mestre em se fazer de desentendido até sobre assuntos que o próprio com certeza sabia. Sendo assim, respondi com despreocupação.
“Estou só... Investigando um palpite.”
“Hmm.”
Sem mais perguntas? Que ótimo! Em qualquer outro dia eu teria zoado ele por deixar a explicação por aí, porém o Gourry, que não fazia perguntas, facilitou bastante as coisas naquele momento. Então...
“Posso ajudar?” uma figura surgiu de trás de uma das árvores no gramado... Um senhor mais velho vestido com o macacão sujo, chapéu de palha e luvas de jardineiro. Presumi que estivesse trabalhando e só agora tivesse nos notado.
“Ah, sou uma feiticeira viajante chamada Lina. Ouvi dizer que Norst estava hospedado aqui e queria saber se ele poderia ser alguém que conheço.” falei, mentindo sem o mínimo descaro.
“Entendo.” o jardineiro assentiu, compreendendo. “Devo levá-la para conhecê-lo, então. Venha.”
E com essa deixa, o jardineiro se dirigiu para a porta.
Quê? Presumi que esse cara fosse um jardineiro, contudo pelo jeito que falava... De qualquer forma, sabendo que pareceria suspeito se desistisse agora, segui em frente.
“Hmm, você é...”
“O dono desta casa, sim.”
“Espere, você é o prefeito?”
“Essa é a conclusão óbvia, não é?”
“Bom... Obrigada pela sua ajuda, Sr. Prefeito.” eu disse, entrando em pânico por dentro.
Será que iríamos encontrar Norst naquele instante? Seria ótimo se fosse apenas um cara qualquer. No entanto... E se meu palpite estiver certo e for um dos subordinados diretos de Dinastia? Só havia eu e Gourry nesse momento... Não tínhamos a equipe que tínhamos quando enfrentamos Sherra antes. Também estava sem o reforço mágico que tinha naquela época, o que limitava muito a força e a variedade dos feitiços que posso usar. Se acabássemos entrando em combate, não tenho tanta certeza de que conseguiríamos vencer. O melhor que podia esperar agora era avaliar Norst, fingir de boba e dar o fora dali o mais rápido possível.
O prefeito nos guiou até uma sala de estar em um dos lados do salão de entrada.
“Se vocês não se importarem, por favor, esperem aqui.” pediu o homem, e então se afastou.
A sala de estar não era particularmente sofisticada em termos de decoração, embora era bastante espaçosa. Havia uma mesa grande e um conjunto de sofás. Parecia que o cômodo poderia acomodar dez pessoas ou mais, sem problemas.
Nós dois nos sentamos em um sofá e esperamos como combinado... Até que a porta se abriu com um estalo.
“Com licença.”
O homem que entrou parecia ter uns trinta e poucos anos. Era alto e magro, com o cabelo castanho-escuro, penteado de forma despretensiosa, que caía um pouco abaixo dos ombros. Vestia um robe verde-musgo bordado com fios de ouro, que parecia um número maior do que o necessário.
Gourry e eu nos levantamos do sofá para cumprimentá-lo.
O homem nos olhou com uma vaga confusão.
“Sou Norst, hóspede desta casa.” disse ele, fechando a porta atrás de si. “O prefeito disse que vocês poderiam ser meus conhecidos, mas... Lita, não é? Não tenho certeza se já tive esse prazer.”
Lita? O prefeito deve ter se enganado quanto ao meu nome... Tanto faz. Tinha assuntos mais importantes para resolver. Para ser sincera, não esperava um encontro cara a cara tão rápido. Como abordar o assunto, então?
“Hmm, é mais uma situação de amigo de um amigo, na verdade...” blefei, pensando rápido. “Entretanto eu mesma ainda não tenho certeza da conexão.”
“Ah, é? E qual seria o nome desse amigo em comum?” Norst perguntou.
Forcei minha voz a permanecer casual.
“Sherra.”
Assim que respondi, a porta atrás de Norst se deformou com um estalo.
Arfei em choque quando a porta, feita de uma série de painéis entrelaçados e ricamente decorados, começou a girar em espiral e se desfazer até deixar de ser um objeto identificável para se tornar um mero padrão abstrato que logo se espalhou pelas paredes, teto e chão. Ao mesmo tempo, as paredes também começaram a recuar. No instante seguinte, a mesa e os sofás haviam desaparecido, abrindo um espaço entre nós e Norst. As paredes continuaram a se afastar tanto que eu não conseguia mais vê-las, deixando-nos frente a frente com Norst em um vasto espaço composto apenas de chão e teto.
“Entendo!” disse Norst, com um meio sorriso nos lábios.
Direto ao ponto, hein? Imaginei que teríamos um pouco mais de conversa para nos conhecermos melhor, então esse desenvolvimento me pegou de surpresa. Além do mais, talvez seja óbvio, porém nenhum feiticeiro humano conseguiria fazer algo assim sem pelo menos um encantamento antes. Quase confirmei a sua identidade, o que era ótimo, todavia como diabos ia sair dessa agora? Entrar em pânico seria como admitir que não tenho um plano.
Em vez disso, olhei ao meu redor com uma indiferença estudada.
“Hmm... Algum tipo de barreira?”
Norst bufou.
“Você parece muito tranquila. Presumi que teria que bloquear qualquer possível rota de fuga, por isso criei um lugar que... Não é.”
“Um lugar que não é?”
“Sim. Atualmente, estamos em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo. O que significa que o exterior não pode nos influenciar, nem nós podemos influenciar o exterior. Vocês não poderão fugir daqui, e não há entradas ou saídas para onde fugir de qualquer maneira. Ainda se me derrotar e o feitiço for desfeito, não há garantia de que retornará ao lugar de onde veio. A natureza de estar em todos os lugares e em lugar nenhum ao mesmo tempo significa que, quando o feitiço for desfeito, vocês poderão acabar em alguma montanha distante, em uma cidade desconhecida ou até do outro lado do oceano. Claro, se conseguirem me derrotar.”
Merda, que situação irritante... Resumindo, era impossível escapar a menos que ele nos deixasse ir.
“Então, você disse que conhecia Sherra. De onde exatamente?” perguntou Norst.
“Antes de lhe contar, pode confirmar algo para mim? Você é um General ou Sacerdote de Dinastia, não é?”
“Você sabia disso e mesmo assim veio me confrontar, hein?” disse Norst com um sorriso discreto. “Coragem impressionante. Tem razão. Eu sou Norst, General de Dinastia. O que quer de mim?”
A hostilidade que emanava dele se espalhou ao nosso redor como sedimentos.
Certo, é, a situação estava ficando bem feia. Qual seria meu próximo passo?
“E agora, Lina? Ele está mesmo louco para começar!” disse Gourry, nervoso. E quando falou...
“Lina?” Norst repetiu, franzindo a testa. “Pensei que fosse Lita.”
“O prefeito acabou de se confundir com o nome dela!” falou Gourry.
“Espere...” Norst pensou por um momento e então olhou para mim, chocado. “Você é Lina Inverse?”
Isso não é bom! Se conseguiu deduzir minha identidade só pelo meu primeiro nome e pelo fato de que conheço Sherra, deve saber exatamente quem sou... Alguém com uma enorme rixa demoníaca. Se só ouvir o nome de Sherra já tinha sido suficiente para fazer esse cara abandonar toda a pretensão e nos prender nessa estranha barreira, não havia a menor chance de me deixar ir agora que tinha percebido quem eu era. E, claro, também não havia como eu só dizer ‘desculpe, você me confundiu com outra pessoa’.
Como sair daqui então? Antes que pudesse pensar em algo... Norst entrou em ação. Gourry e eu nos preparamos para a batalha!
Só que a grande jogada de Norst acabou sendo se ajoelhar, colocar as mãos no chão e gritar.
“Você só pode estar brincando comigo!” sua voz estava contrariada. “Não tem como! Não! De jeito nenhum! Muito bem, veja só! Sim, faço coisas ruins! Afinal, sou um mazoku! Um General, nada menos... Não é como se tivesse cotas, mas tenho que zelar pela minha patente e reputação! Não posso ficar parado sem fazer nada! Portanto aqui estou, preparando o terreno mais básico possível, sem nem mesmo fazer nada ainda. E bem quando começo a considerar fazer uma coisinha minúscula de maldade, de repente alguém bate na minha porta! ‘Olá! Lina Inverse aqui para chutar sua bunda, se não se importar!’ Acredita nisso? É absolutamente o pior cenário possível!”
Uh... Não sabia bem o que dizer. De fato não era a reação que esperei, ainda mais vinda de um mazoku de alta patente. Tenho que considerar a possibilidade de ser algum truque para me pegar desprevenida... Certo?
Como precisava estar pronta para conjurar um feitiço a qualquer momento, Gourry falou por mim.
“Lina é famosa entre vocês ou algo assim?”
“Hã?” Norst olhou para cima, um pouco irritado. “Lina é famosa entre nós?” parecia quase ofendido. “Ela derrotou a encarnação do nosso Lorde das Trevas, depois absorveu o Grande Ser em seu corpo e derrotou o Lorde Mestre do Inferno sem sofrer nenhum dano! Depois, derrotou o Lorde Dinasta e mais uma encarnação do nosso Lorde das Trevas! Que idiota não a conhece? Será que acha que nós, mazokus, não temos instinto de autopreservação? Que nunca compartilhamos informações?”
Pelo visto minhas lutas com os mazokus estavam dando resultado. Claro, quando alinha todas elas desse jeito, era difícil negar que, embora a sorte sem dúvida tenha desempenhado um papel enorme em tudo, eu realmente tinha causado um estrago nos mazokus, não é?
“Sim, é famosa! Infame, até! É um arauto da ruína para a raça demoníaca! A própria Caçadora de Mazokus! Os mazokus passam por ela com clara repulsa!”
“Clara repulsa?” me peguei gritando. Já tinha ouvido esse tipo de coisa sobre mim em relação aos dragões, mas mazokus?
“Clara repulsa!” Norst insistiu, estufando o peito por algum motivo. “Veja bem, existem alguns de nós que acham que deveríamos nos vingar. Porém alguns de nós, do grupo de maior hierarquia, eu incluso, achamos que nos esforçar para te enfrentar só significaria perdas ainda maiores! É melhor apenas te evitar.”
“Então... Não quer lutar com a gente?” Gourry perguntou.
“Claro que não!” Norst respondeu, furioso. “Se me perguntar, não é nem uma simples questão de força! Nós, mazokus, não somos um adversário à altura do ser conhecido como Lina Inverse!”
“O que isso quer dizer?” rosnei, sem conseguir evitar me sentir um pouco ofendida.
“Há quem acredite que, como o Absoluto habitara por um breve momento seu corpo, alguma medida desse poder ainda permanece em você... Mas e tudo o que aconteceu antes disso? A única resposta é que você possui alguma qualidade inexplicável... Algum tipo de predestinação ou propriedade que nem a lógica humana nem a demoníaca conseguem quantificar! Como vamos lutar contra algo tão nebuloso assim? Eu digo que não podemos, então a melhor estratégia é ficar longe! E aqui está você! Bem aqui! Sem aviso, sem ser chamada, sem motivo! Arrombando minha porta, feliz da vida! Que diabos devo fazer nessa situação?” depois de gritar até perder a voz, Norst de repente se endireitou e fez uma reverência profunda. “Então imploro, me poupem. Só desta vez! Por favor!”
“Hmm...”
Como devo responder a um mazoku tão poderoso que não tinha certeza se conseguiria derrotá-lo mesmo com um exército inteiro e um bando de feiticeiros me tratando como uma cliente insatisfeita e litigiosa?
Ele pareceu interpretar minha falta de resposta como insatisfação e se apressou em voltar a falar.
“Já sei! Que tal isso? Vou te enviar sã e salva para Latka e vou arrumar minhas coisas e sumir da cidade! Além disso, prometo não encostar um dedo em humanos por cinco... Não, dez anos! Em troca, vocês me deixam ir embora sem lutar, e se por acaso nos cruzarmos em alguma outra cidade, nós dois apenas nos ignoraremos! Nem sequer faremos contato visual!”
Ele se comprometeu com esse acordo por conta própria. Quanto medo esse cara tem de mim? Aquilo estava começando a me irritar, porém não estava inclinada a insistir no assunto. Afinal, insistir em uma briga seria o oposto do que eu esperava conseguir ali.
“Ok. Combinado.”
“Viva!” exclamou Norst com uma expressão exagerada de alívio e uma pose comemorativa.
Grr...
“É uma boa eu ir embora enquanto posso...”
“Você é quem fala de ‘bom’.” retruquei sarcasticamente.
Ignorando meu comentário sarcástico, Norst... Não se moveu, exatamente, embora fosse claro que tivesse feito algo, porque os inúmeros padrões que giravam no teto e no chão começaram a se elevar diante de mim até consumirem por completo minha visão.
No instante seguinte, Gourry e eu nos encontramos em uma cidade desconhecida.
O vento soprava. Carroças chacoalhavam...
———
“Agora...” pensei por um minuto, então respondi ao velho no banco. “Esta não é a Latka perto da cidade de Zephyr, é?”
“Zephyr? Onde fica isso?” respondeu o senhor.
Ótimo, era o que faltava...
“Então, diga-me, em que reino estamos agora?”
“Que reino?” o velho franziu a testa, confuso. “Este sempre foi o domínio de Luzilte.”
Esse nome não me era familiar. Um membro menor da Aliança das Nações Costeiras, talvez?
“Cara... Ele nos pegou direitinho.” falei, coçando a cabeça.
“Como assim?” perguntou Gourry.
“Norst nos enganou!” expliquei, com um ar de quem já sabia de tudo. “Ele nos tirou do seu lugar perdido e nos mandou para uma cidade completamente diferente!”
“Mas... Ele não disse que nos mandaria de volta para onde viemos?”
“Não especificamente, não. Sua fala foi: ‘Vou mandar vocês para Latka’. Nos fazendo pensar que se referia à Cidade de Latka de onde viemos, e depois nos mandou para uma Latka diferente.”
Às vezes, cidades totalmente diferentes acabavam com o mesmo nome. Pelo jeito, este era um desses casos.
“Então se livrou da luta conosco, porém conseguiu nos atrasar... Droga.”
Eu tinha jogado um joguinho de tabuleiro quando criança, no qual era possível cair em uma casa pouco antes da linha de chegada e voltar direto para o começo... Contudo nunca imaginei que isso aconteceria comigo na vida real. Dito isto, não era como se estivesse com pressa para chegar em casa. Só estava indo para lá como parte da minha viagem tranquila.
Voltei a falar com o velho.
“Para falar a verdade, estamos bem perdidos... Será que existe algum conselho de feiticeiros nesta cidade?”
O velho nos encarou com uma expressão confusa por um instante.
“Nunca ouvi falar.”
“Então existe alguma cidade grande por perto que tenha um conselho de feiticeiros?” tentei perguntar.
“Desculpe...” a ruga na testa do homem se aprofundou, e sua voz assumiu um tom de desculpas. “No entanto não sei nada sobre conselhos de feiticeiros.”
“Ah, entendi.” enfim compreendi a natureza do mal-entendido.
Como o nome sugere, um conselho de feiticeiros era um grupo de feiticeiros criado para auxiliar outros da mesma profissão. A maioria das grandes cidades tinha uma filial, que lidava com itens mágicos e comunicações de longa distância com outras filiais. Todavia, embora um feiticeiro como eu se beneficiasse bastante desses conselhos, estes estavam além da compreensão da maioria das pessoas que não praticavam magia. Talvez esse senhor não se importava nem um pouco com quais cidades tinham ou não conselhos, então tenho que obter minhas informações em outro lugar.
“Então, existe alguma estalagem nesta cidade?” perguntei.
“Uma estalagem, você disse?” o velho finalmente sorriu e nos deu instruções detalhadas de como chegar lá.
———
Um restaurante/bar no térreo, aberto até tarde, com quartos para alugar no andar de cima... Era mais ou menos o que esperava de uma estalagem. Entretanto a tal estalagem em que Gourry e eu chegamos era uma casa civil perfeitamente comum, sem nenhuma diferença em atmosfera ou tamanho em relação às outras residências da região. A princípio, pensei que tínhamos ido ao lugar errado, mas perto da entrada havia uma pequena placa que dizia ‘Estalagem’ com uma letra que parecia a de uma criança que tinha acabado de aprender a palavra.
Então, devíamos estar no lugar certo. Porém ainda parecia uma casa comum que por acaso tinha um quarto vago para alugar para viajantes.
“O que foi, Lina?” perguntou Gourry atrás de mim enquanto meu olhar vagava pelo horizonte. “Por que estamos parados aqui? Não precisamos ir para a pousada?”
“Hmm, Gourry...”
“O quê?”
Olhei por cima do ombro e apontei, tremendo, para a casa.
“Acho que esta é a estalagem.”
Gourry abriu um sorriso largo e largo.
“Você está brincando.”
“Estou falando sério.”
O sorriso de Gourry congelou.
“Hã? Então vamos ficar aqui esta noite?”
“De jeito nenhum. O único motivo pelo qual queria encontrar uma estalagem era pra conseguir informações em um lugar com bastante gente.”
Era pouco depois do meio-dia, então, se houvesse uma cidade grande por perto, poderíamos ir andando sem problemas. Não precisávamos passar a noite em Latka. E quanto às informações...
“Mesmo se entrarmos aqui...”
“Vai estar deserto.” disse Gourry, sem nenhuma vergonha de dizer a dura verdade. Tinha razão, eu pensei a mesma coisa.
Então, sem muita escolha, nos afastamos da suposta pousada e caminhamos por uma rua próxima, repleta de barracas e lojas. Lá encontramos uma vendedora de frutas. Sua barraca não era grande, mas tinha uma variedade de produtos que nunca vi antes. Peguei algumas maçãs dentre elas.
“Duas dessas, por favor, senhora!” chamei a senhora idosa que atendia na barraca.
“Claro. Quatro corsenas, por favor.” disse ela. Também tinha um leve sotaque, assim como o velho antes.
Estou bastante familiarizada com a moeda local da maioria dos reinos, porém nunca tinha ouvido falar de corsenas.
“Vocês aceitam moedas de cobre de outros reinos?” perguntei.
“Você é uma viajante, né? Receio que não...”
“Então posso pagar em prata e receber o troco?”
“Isso serve.”
E assim concluímos a transação. Era comum que diferentes países chamassem suas moedas nacionais por nomes diferentes, e as moedas de cobre de algumas nações não eram aceitas além de suas próprias fronteiras. Contudo moedas de ouro e prata, onde o próprio material tinha valor, eram bastante universais. Entreguei-lhe a prata e examinei as moedas de cobre que me devolveu de troco. Eram moedas desconhecidas, com algum tipo de concha inscrita em uma das faces.
“A propósito, senhora, tenho uma pergunta. Suponho que estejamos atualmente na Aliança das Nações Costeiras. Poderia me dizer mais ou menos onde estamos?”
“Hã?” a mulher perguntou de volta, sem expressão. Repeti minha pergunta, e sua testa franziu em um silêncio estudado. “Desculpe, o quê? O que é uma Aliança Naxões Corteias?” ela perguntou finalmente.
“Hã?” agora foi a minha vez de encará-la sem expressão.
Alguém sem interesse em política talvez não soubesse o nome de lugares distantes. No entanto não saber o nome da aliança em que vive? Com certeza não é algo normal.
“Erm, é um grupo de países perto do oceano... Este não é um deles?” perguntei.
“Bem, não sei muito sobre o nosso reino, entretanto nunca ouvi dizer que fazemos parte de algum grupo maior.”
Hã? Um arrepio repentino percorreu minha espinha, e um pensamento me ocorreu. Na esperança de refutá-lo, falei.
“Certo, então já ouviu falar de algum destes países? Ralteague, Zephilia, Saillune, Lyzeille...”
A mulher balançou a cabeça em sinal de desculpas.
“E-Então... Poderia me dizer o nome de todos os países que conhece?”
Ela estreitou os olhos, desconfiada, mas respondeu.
“Tudo bem, só que não conheço muitos. Vejamos...”
Os nomes que começou a recitar... Nunca ouvi falar, nunca ouvi falar, nunca ouvi falar. Quanto mais falava, mais eu sentia o sangue fugir do meu rosto.
“Mas este domínio é conhecido como Luzilte...” ela parou de repente. “Diga, você está bem? Seu rosto está branco como um lençol!”
“Ah... Estou bem!” murmurei.
“Tem certeza de que está bem, Lina? O que houve?” Gourry olhou para mim com preocupação.
“Acabei de perceber o que está acontecendo.” respondi, com a voz rouca.
“O que está acontecendo?”
A cidade desconhecida. As frutas estranhas. Os sotaques peculiares. Tudo dentro do esperado. Porém não conhecia nenhum dos países que a mulher mencionou, nem ela conhecia nenhum dos países que mencionei. O que sugeria algo que nem queria considerar...
Expliquei a situação francamente absurda para Gourry.
“Estamos em um mundo muito além do Deserto da Destruição... Fora da barreira dos mazokus.”
———
Diz a lenda que, há muito tempo, deuses e mazokus lutaram pelo controle do nosso mundo. De um lado estava Ceifeed, o Dragão Chamejante. Do outro, Shabranigdu, Olhos de Rubi. Ceifeed queria proteger o mundo, enquanto Shabranigdu queria destruí-lo. Eles lutaram e, com o tempo, seu duelo terminou em empate. O exausto Ceifeed dividiu seu poder em quatro entidades, criando os quatro Lordes Dragões como pilares representando fogo, terra, água e ar. O exausto Shabranigdu foi dividido em sete fragmentos e reencarnado em seres humanos, sua consciência selada, contudo aguardando uma chance de renascer.
Então, há quase mil anos, os mazokus se ergueram para desafiar Aqualord, protetor das Montanhas Katart, no norte. Aqualord foi então colocado contra um fragmento renascido do Lorde das Trevas. Quatro de seus tenentes demoníacos... Mestre do Inferno, Dinastia, Grande Besta e Golfinho das Profundezas... Formaram uma barreira ancorada nas terras ao redor de Katart para diminuir o poder de Aqualord e impedir a intervenção dos outros Lordes Dragões. Esse plano significou a ruína de Aqualord, no entanto o Lorde das Trevas revivido foi selado no gelo. E assim as Montanhas Katart foram transformadas de um lugar sagrado em um lugar demoníaco.
Este conflito ficou conhecido como a Guerra das Encarnações. Desde então, as terras em que vivíamos... Incluindo minha terra natal, Zephilia, a Aliança das Nações Costeiras, Saillune, etc... Foram isoladas pela barreira do Mestre do Inferno no Deserto da Destruição, na fronteira do Império Elemekia. Isso tornou todas as terras além inacessíveis, e o mesmo valia em outras direções. Nossas rotas marítimas (se é que alguma vez existiram) também foram cortadas pela barreira dos mazokus. Estávamos completamente isolados das ‘terras exteriores’.
Ou talvez devesse dizer que tínhamos sido isolados. Porque, naquele momento, aquelas terras exteriores eram o único lugar onde eu conseguia nos imaginar.
———
“Sério?” perguntou Gourry. Tínhamos nos sentado em algumas caixas de madeira ao lado da barraca da vendedora de frutas para saborear nossas maçãs à beira da estrada.
“Sério!” sussurrei sem ânimo enquanto terminava a minha.
“Não fique triste, Lina. Você está agindo como aquele cara, Norst!” respondeu Gourry ao meu lado, com a maçã ainda fresca na boca.
“Eu não ligo para isso...”
“Entretanto entrar em pânico não vai te levar a lugar nenhum, vai?”
Soltei um suspiro profundo.
“Você só não entende, Gourry.”
“Entender o quê?”
“Estamos fora da barreira dos mazokus... Além do Deserto da Destruição, acredito.”
“É, você mencionou antes!” disse ele, dando de ombros.
“Não sei a que distância estamos, nem mesmo em que cidade estamos!”
“Claro.”
“Não tenho a mínima ideia de como voltar para onde viemos!”
“Imaginei.”
Ele não entende. Não entende nada...
“Escuta aqui!” declarei. “Peixes-milsa de dar água na boca e cogumelos nigi de outono saborosos! Pargo-do-mar que tem um gosto divino quando salteado, e patinho mineva repleto de delícias saborosas! Nunca mais vamos comer nada disso!”
“Sério?” disse Gourry, desabando no chão sem forças.
“Sério!”
Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
Você está chorando, cara?
“Lina, eu... Não sei o que fazer...”
De alguma forma, ver Gourry ainda mais deprimido do que eu com relação às nossas perspectivas futuras de comida despertou em mim uma estranha veia de otimismo.
“Ei, vamos lá, cara... Sei como se sente. Mas é muito cedo para se entregar ao desespero.”
Lentamente, levantei-me.
“Fiquei bastante abalada, admito... Porém nem tudo está perdido.”
Gourry apenas me encarou, sem expressão.
Fiz um aceno firme para tranquilizá-lo... E também para me tranquilizar.
“É verdade! Vamos tentar ver essa situação de outra forma. Afinal, podemos experimentar todos os tipos de comidas deliciosas que só encontraremos aqui!”
“Oh!”
O brilho voltou aos olhos de Gourry.
“Vamos viajar pela terra experimentando novas delícias! Além do mais, ainda podemos encontrar o caminho de casa! Vamos andar enquanto tivermos chão sob nossos pés e, se o chão acabar, é só pegar um barco!”
“Ótimos pontos!” Gourry se levantou com vigor renovado. Ele olhou direto nos meus olhos. “E... Eu não estou sozinho! Porque tenho você, Lina!”
“...”
Espere... O que diabos ele está dizendo? Senti meu rosto arder de vergonha.
Depois de um instante, Gourry continuou.
“Enquanto você estiver aqui, não preciso me preocupar com dinheiro! Porque você é muito confiável com essas coisas! Espera, o que foi? Por que está me olhando desse jeito?”
“Ah, uh... Certo.”
Era isso que queria dizer? Soltei um suspiro silencioso.
“Enfim! Não tem segredo, é só fazer! Vamos perguntar por aí e traçar um plano com base no que descobrirmos!”
“É isso aí! Você cuida das perguntas e do planejamento!” proclamou Gourry, mais do que feliz em deixar o trabalho pesado para mim.
Ainda assim, naquele momento, estávamos focados no ritmo! Por isso, optei por não gritar com ele!
E assim, depois de sermos arremessados para as terras exteriores por um idiota ardiloso, nós dois retomamos nossa jornada de volta para casa.
———
Tanto nas terras interiores quanto nas exteriores, as pessoas continuavam sendo pessoas. Exerciam as mesmas profissões. O que significa...
“Muito bem, pessoal! Tirem a roupa! Deixem as roupas onde estão e pouparemos suas vidas! Entenderam?”
Sim, bandidos que atacavam viajantes, cuspindo as mesmas frases clichês de sempre e brandindo suas espadas... Também havia esse tipo de gente por aqui. Vai entender.
Gourry e eu tínhamos ouvido dizer que, se saíssemos de Latka e seguíssemos a estrada principal, chegaríamos à cidade relativamente grande de Maricida ao pôr do sol. Tínhamos partido pouco depois, contudo mal tínhamos avançado muito em nossa caminhada pela estrada praticamente deserta quando fomos surpreendidos por um grupo de uns dez homens.
O Sr. Mohawk, nu da cintura para cima e com uma tatuagem na bochecha, brandiu sua espada curta e zombou.
“E aí? O que vai ser?”
Saco. O que vai ser, hein? Tente adivinhar, idiota...
“Bola de Fogo.”
Kra-koooom! A bola de luz que lancei caiu bem no meio do bando de bandidos, explodiu e os lançou para longe. (Eu tinha entoado o feitiço enquanto o Sr. Mohawk repetia o mesmo roteiro batido de sempre, entende?)
Pronto... Depois de garantir que todos os caras à nossa frente estivessem fora de combate, me virei. Não muito longe dali estava outro grupo de cinco ou seis bandidos.
Hah, sabia. Imobilize sua presa e continue falando sem parar para manter a atenção dela enquanto um destacamento se aproxima para cercá-la por trás. Em teoria é uma estratégia de emboscada eficaz. No entanto, depois de me ver dizimar a força principal deles com um único feitiço, a coluna flanqueadora não estava fazendo muita coisa além de ficar parada, em choque. Estava prestes a começar outro encantamento, todavia antes que pudesse...
“E-E-Espere um minuto!” um membro do destacamento, vestido com uma pele de urso, falou apressadamente. “Vimos o quão poderosos vocês são! Vamos deixá-los em paz! Então, por favor...”
“‘Então, por favor, nos deixem continuar nossa onda de violência em outro lugar’? É isso?” insisti.
Parecendo perceber a agressividade no meu tom, o homem empalideceu.
“N-Não é assim! Não é como se quiséssemos ser bandidos! Eu tive pais horríveis que me batiam quando era criança...”
“Aha. Agora que mencionou, sim, tenho certeza de que ninguém quer se tornar um bandido.”
“C-Certo?”
“E entendo seu passado.”
“Então...”
“Mas não sinto pena de ninguém que, em vez de se recusar a ser como as pessoas que os machucaram, decide se tornar um abusador.”
“Hã?”
Mostrei um sorriso radiante, e...
O rugido de uma segunda Bola de Fogo ecoou pela floresta.
———
“E então? O que faremos agora, Lina?” Gourry me perguntou durante o café da manhã no dia seguinte.
Mais uma vez, porém, não conseguimos encontrar uma pousada decente. Chegamos a Maricida, e embora o lugar fosse de fato bastante grande, era bem sonolento. Parecia menos uma cidade planejada e mais duas ou três vilas coladas umas às outras.
Depois de chegarmos na tarde anterior, demos uma rápida olhada em busca de hospedagem, contudo, ao contrário das cidades do interior, havia pouquíssimas casas com segundo andar, e apenas algumas delas tinham algum tamanho. Não havia grandes lojas, apenas algumas lojinhas aqui e ali, como as que tínhamos visto em Latka.
O que mais me incomodava era que, ao contrário de casa, não havia muitas instalações para viajantes. A ‘estalagem’ que encontramos em Maricida não era tão pequena quanto a de Latka... Quero dizer, tinha alguns quartos extras em vez de apenas um. Não havia comodidades adicionais, então tivemos que encontrar jantar e café da manhã em outro lugar.
Ter um restaurante no térreo de uma pousada permitia que os viajantes fossem diretos para seus quartos depois do jantar, descansassem e tomassem café da manhã assim que acordassem. Havia me acostumado tanto com essa estrutura que a falta dela foi frustrante. Por sorte, havia várias barracas do lado de fora da pousada que ficavam abertas até tarde da noite e de manhã cedo, então pelo menos não passamos fome.
Gourry e eu paramos em uma dessas barracas para tomar café da manhã e estávamos comendo algum tipo de macarrão achatado à base de farinha, coberto com um vegetal sem graça e pegajoso e carne finamente marmorizada. Não se parecia muito com o que estávamos acostumados, no entanto chamavam de saury. Tinha um sabor caseiro, entretanto o cardápio não era muito variado (afinal, era uma barraca) e as porções eram pequenas.
Sentados em cima dos caixotes de madeira que serviam de assento, saciamos nossos estômagos roncando com duas tigelas cada. Então, por fim, chegou a hora de decidir o que fazer.
“Hmm, temos opções.” falei, pensando por um momento. “Podemos pedir uma terceira tigela, só que acho que gostaria de experimentar outras barracas primeiro. Frango frito é sempre bom, todavia não é como se eu nunca tivesse comido antes... Nesse caso vamos experimentar comidas que pareçam diferentes. Claro, existe a possibilidade de encontrarmos algo que não gostemos, mas só saberemos se experimentarmos.”
Ok, não riam do fato de ainda estarmos falando de comida!
Dormir e comer são os elementos mais importantes para a sobrevivência! Ao visitar um lugar novo, é importante aprender sobre a culinária local!
A comida aqui era diferente da de casa em vários aspectos, sabe, e havia muitos ingredientes que nunca vi antes. Então, quando nós dois inevitavelmente acabássemos passando perrengue na estrada, poderíamos acabar comendo veneno se não fossemos cuidadosos. Porém se conseguíssemos nos ater mais ou menos ao que víamos à venda nas barraquinhas, sabia que ficaríamos bem. Então, para poder tomar as decisões certas, precisava explorar ao máximo o cenário gastronômico local.
“Contudo depois que terminarmos com isso...” comecei, antes de parar abruptamente.
Havia uma tensão no ar. Quando percebi e olhei na direção mais provável, vi um grupo armado caminhando à beira da estrada um pouco à frente.
A guarda da cidade, talvez?
Era uma força de quase vinte homens que parecia um bando bem heterogêneo. Apenas cinco deles pareciam soldados de verdade, com capacetes, armaduras e lanças adequadas. Quanto ao resto, pareciam estar carregando quaisquer armas e armaduras que conseguissem encontrar. Era evidente, pela maneira como se comportavam, que não tinham nenhum treinamento de combate genuíno. Mesmo assim, seus rostos eram sombrios e prontos para a batalha.
Isso é...
“Vamos, Gourry. Passaremos pelas barracas mais tarde.”
Tínhamos pago antecipadamente quando fizemos nosso pedido, então Gourry se levantou para se juntar a mim e logo começamos a nos mover na direção do grupo armado.
“Isto não é típico seu, Lina!” disse ele. “Você costuma não gostar de se meter na vida dos outros.”
“Para ser clara, ainda não gosto... No entanto é melhor ganhar a confiança dos moradores locais, certo?” meu envolvimento exato dependeria da natureza do conflito, é claro. Entretanto esta era uma oportunidade de ouro para quebrar o gelo. “Com licença!” chamei ao me aproximar do grupo.
Os homens pararam e olharam para trás.
“O que foi?” respondeu o que estava na frente. Ele tinha barba ruiva e parecia ter uns trinta anos.
“Somos uma feiticeira viajante e um mercenário.” baixei a voz para um sussurro. “Aconteceu... Alguma coisa?”
O soldado da frente nos examinou com um olhar avaliador.
“Um feiticeira... Uma maga, você quer dizer?” sua expressão sombria suavizou um pouco.
Pelo jeito, o termo ‘feiticeiro’ não era muito comum por aqui. “Mais ou menos.” respondi, mesmo assim.
“Perfeito! Por favor, nos ajude! Seríamos muito gratos!”
“Conte-nos os detalhes primeiro.”
“Explicarei no caminho. Precisamos nos apressar!” disse o soldado, e voltou a caminhar.
“Claro!” respondi e comecei a segui-lo.
“Eu sou Bronco, capitão da guarda desta cidade. Aqueles atrás de mim são meus homens.”
Parecem ser, em sua maioria, novatos, pensei, todavia guardei para mim.
“Eu sou Lina. Lina Inverse. E meu companheiro aqui é o Gourry. Estamos numa jornada meio perdida, e vocês parecem estar em apuros, então resolvemos ver o que está acontecendo. Então, o que houve?”
Minha pergunta provocou um silêncio grave de Bronco.
“Não sei bem como contar... É complicado. Venham comigo. É possível que vocês saibam mais sobre isso do que nós.”
“É sério?”
“Espero estar enganado, mas...” disse Bronco, tentando disfarçar a expressão, embora parecendo bastante pálido. “Pode ser o fim da Cidade Maricida.”
———
No momento em que vimos, todos paramos.
“O que é aquilo?” alguém sussurrou atordoado, com a voz trêmula de medo. A visão diante dele devia ter sido chocante.
“Não sei.” a resposta de Bronco foi igualmente trêmula. “Contudo... Há algum tipo de monstro na área. Podemos afirmar isso com certeza.”
“Sabe, meu avô me contou uma história uma vez...” outro soldado falou. “Disse que, quando era criança, muito antes de Maricida ficar tão grande, um mazoku maligno apareceu e atacou a cidade. Centenas de soldados foram enviados da capital para destruí-lo e conseguiram matar o mazoku, no entanto metade deles pereceu na batalha e Maricida foi quase destruída. Acha... Que talvez o mazoku tenha voltado?”
“Não seja absurdo!” Bronco gritou. “Já ouvi essa história antes! Não... Pode ser possível!”
“Então nos diga, Capitão Bronco! O que mais poderia ter feito isso?”
Enquanto ouvia a conversa... Fui tomada pelo arrependimento.
Os soldados continuaram.
“O que mais poderia destruir com tamanha facilidade os bandidos que nos atormentavam? E... Queimar o próprio chão? Que tipo de monstro poderia fazer tal coisa?”
Sinto muito. A culpa foi toda minha.
O assustado Bronco... Quer dizer, Capitão Bronco... E seus homens nos levaram, a mim e a Gourry, pela estrada entre Latka e Maricida, onde lancei duas Bolas de Fogo nos pobres bandidos de ontem. Escusado será dizer que ainda havia duas grandes crateras queimadas no chão.
Todo o grupo ficou agitado com especulações temerosas sobre o ‘mazoku lendário’ ter ressuscitado. A julgar por suas reações, presumi que o feitiço Bola de Fogo não era comum por essas bandas. Nas terras do interior, não era tão universal a ponto de todos os feiticeiros saberem como conjurá-lo, entretanto seu nome era amplamente conhecido. Não era incomum enfrentar um inimigo que pudesse usá-lo. Até mesmo os soldados rasos e mercenários pelo menos sabiam que era um feitiço que envolvia disparar uma bola de luz que explodia ao impacto.
“Nós... Nós estamos perdidos...” os soldados caíram de joelhos, chorando.
“Lina.” enquanto tal cena se desenrolava, Gourry colocou uma mão firme no meu ombro. “Acho melhor você dizer logo.”
“Tem razão...” não tinha escolha. Timidamente, levantei a mão e disse. “Escutem, eu...”
O Capitão Bronco engasgou.
“Espere um minuto! Sei que ver algo assim pode te fazer querer fugir! Não vou pedir que lute conosco. Mas, por favor, se souber de alguma coisa, compartilhe conosco!”
“Hmm, é meio difícil de dizer, só que...”
“Não me importo! Estamos prontos para qualquer verdade que possa nos revelar!”
“Na verdade... Fui eu que fiz isso. Eu.”
O Capitão Bronco congelou por alguns instantes e murmurou.
“O quê?” ele me encarava. Com muita intensidade.
Me vi desviando o olhar enquanto continuava.
“Bom, veja bem... Ontem, eu e o Gourry estávamos aqui... E bandidos atacaram... E usei uma magia de ataque que... Sabe... Explodiu.”
“Ahh...” como se tivesse chegado a alguma conclusão, o olhar do Capitão Bronco suavizou-se de repente. “Está tentando me tranquilizar. Se ao menos todos pudessem acreditar numa mentira tão gentil... Contudo tenho o dever de proteger Maricida. Mesmo... Mesmo que estejamos lidando com um monstro. Ainda que seja uma batalha perdida.” seu olhar melancólico se voltou para o horizonte.
Então é o tipo de cara que precisa ver para crer, hein? Saiba que você provocou isso. Recitei o encantamento e mirei num ponto a uma distância segura do grupo.
“Bola de Fogo!”
———
Toda a força-tarefa se prostrou diante de mim.
Sinto muito... De verdade, sinto muito...
———
O bar estava tão barulhento que provavelmente devia ter recebido reclamações dos vizinhos. Era tão estridente que não havia um momento sequer sem uma risada constrangida de algum bêbado.
Depois que esclarecemos todo o mal-entendido sobre o renascimento de algum mazoku, deixei claro para a guarda da cidade que era a responsável pelas crateras, os homens logo começaram a comemorar a derrota dos bandidos. Assim, retornamos a Maricida e iniciamos uma festa regada a bebida e comida. Ainda não era noite... Na verdade, nem era hora do almoço. Só que, pelo visto, eles tinham sido tão massacrados pelos bandidos que a bebida era a prioridade.
O Capitão Bronco chamou o resto de seus soldados (brigada de segurança, seja lá o que fossem) que estavam de guarda, elevando o número total para quarenta ou cinquenta. Éramos muitos para caber dentro de um prédio, então metade dos caras estava bebendo do lado de fora. Fiquei preocupada que estivéssemos perturbando a paz da vizinhança.
“Ora, ora! Senhora Lina! Sua magia é verdadeiramente incrível!” bradou o Capitão Bronco.
Com o capacete fora do rosto, pude ver que ele tinha cabelos ruivos despenteados, combinando com a barba. Anos na profissão lhe conferiram um olhar intimidador, e era um homem grande e musculoso. Em outras palavras, tinha um ar meio de rufião. Se o encontrasse na estrada à noite sem conhecê-lo, com certeza o atacaria na hora com um feitiço e sussurraria para mim mesma: “Ufa, por pouco.”
“‘Bola de Fogo’, foi como chamou, certo?” continuou o capitão. “Pensar que um único feitiço pode fazer tanto! Nem mesmo os magos da capital são capazes de tal façanha!”
Gourry mordiscava uma coxa de frango enquanto ouvia Bronco se entusiasmar.
“A magia da Lina é tão especial assim?”
“Pode apostar que sim!” disse o capitão. “Uma magia tão poderosa poderia... Ah, Mestre Gourry, tenho certeza de que o senhor já se acostumou com a magia da Senhora Lina depois de passar tanto tempo junto, no entanto eu nunca vi um feitiço tão poderoso! A maioria das pessoas nunca veem magia, a menos que conheçam um mago da corte! Eu mesmo só vi uma vez, quando era jovem, e não era nada tão incrível! Apenas transformaram as listras horizontais de um lenço em verticais.”
Chama isso de ‘magia’? Deixe-me dizer uma coisa... Tenho opiniões sobre isso. Mas, de qualquer forma, a verdadeira magia era aparentemente muito rara aqui nas terras distantes. Até mesmo o Capitão Bronco, que ganhava a vida no campo de batalha, não sabia quase nada a respeito, o que me dizia que nunca havia lutado contra ninguém que pudesse usá-la.
“Diga, você mencionou feiticeiros da corte... Quer dizer, magos da corte...” enquanto hesitava com as palavras certas, perguntei ao Capitão Bronco. “Então, se formos à capital, poderíamos encontrar um conselho de feiticeiros... Quer dizer, algum tipo de associação ou escola de magia?”
“Uma associação ou escola de magia, hein?” uma ruga se formou na testa do Capitão Bronco. “Nunca ouvi falar de tal coisa... Porém não significa que não exista. Há rumores de que os sumos sacerdotes de Ceifeed podem invocar milagres divinos, embora não seja exatamente uma organização ou escola.”
Ele estava certo. Maricida tinha um templo dedicado a Ceifeed, que visitei no dia anterior, contudo os sacerdotes e sacerdotisas de lá não podiam usar nenhum feitiço. De onde venho, a maioria dos sacerdotes aprendia um feitiço básico de Recuperação como uma maneira fácil de conceder bênçãos. Apenas presumi que as igrejas daqui funcionassem de forma diferente, no entanto descobri que havia mais do que isso.
“Hmm... Nesse caso, Capitão Bronco, poderia nos dizer o caminho para a capital?” perguntei.
“Claro! Vou dar a vocês um mapa simples para Palbathos. Ah, e por falar nisso, tenho um conhecido na guarda de lá. Vou escrever uma carta de apresentação!”
Aquilo soou ótimo, e fiquei muito grata... Entretanto Gourry e eu ainda não tínhamos nenhuma pista de como voltar para casa.
O que aprenderia nessa capital? Lutando contra a ansiedade, decidi aproveitar a noite para conversar com a tripulação do Capitão Bronco e experimentar todos os tipos de comidas desconhecidas.
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