domingo, 29 de março de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 03 — Capítulo 32

Capítulo 32: Notícias do Norte


— Bem, rapaz... — disse Towser, empurrando outra garrafa pela mesa. — Você não poderia estar mais certo. Elas são problemáticas. Sempre serão.

Simon olhou com desconfiança para o velho bobo da corte, que de repente parecia o repositório de todo o conhecimento.

— Escrevem cartas para um sujeito. — prosseguiu, e tomou um gole generoso. — Cartas mentirosas.

O garoto colocou a taça de volta sobre a madeira e observou o vinho se mover de um lado para o outro, ameaçando transbordar.

Towser encostou-se na parede de seu quarto quadrado. Estava de camisa de linho e não se barbeava há um ou dois dias.

— Escrevem essas cartas mesmo. — continuou, balançando o queixo com a barba por fazer. — Às vezes, mentem sobre você para as outras damas.

Simon franziu a testa, pensando nisso. Talvez o tivesse feito, contando aos outros nobres de alta linhagem sobre o estúpido ajudante de cozinha que havia viajado com ela em um barco pelo rio Aelfwent. Deve ter sido uma história alegre circulando por toda Naglimund.

Tomou outro gole e sentiu o gosto amargo voltar, enchendo sua boca de bile e voltou a pousar a taça.

Towser estava se levantando com dificuldade.

— Veja, veja! — disse o velho, indo até um baú de madeira e remexendo lá dentro. — Droga, sei que está aqui em algum lugar.

— Eu deveria ter percebido! — Simon se repreendeu. — Ela me escreveu um bilhete. Como uma criada poderia... Saber soletrar melhor do que eu?

— Aqui está aquela corda de alaúde amaldiçoada! — Towser continuou a remexer.

— Mas Towser, ela me escreveu um bilhete... Pedia para que Deus me abençoasse! Me chamou de ‘amigo’.

— O quê? Bem, tudo bem, rapaz, tudo bem. Esse é o tipo de garota que quer, não uma daminha metida que vai te desprezar, como aquela outra. Ah! Aqui!

— Hã?

Simon havia perdido o fio da meada. Tinha quase certeza de que estava falando apenas de uma garota... A arqui-traidora, a Marya que mudava de identidade... Miriamele... Bom, não importava muito, não é?

“Porém ela adormeceu no meu ombro.”

Vagamente, embriagado, lembrou-se do hálito quente em sua bochecha e sentiu uma dor correspondente de perda.

— Veja isso, rapaz. — Towser estava parado sobre ele, cambaleando, estendendo algo branco. Simon observou, intrigado.

— O que é?

— Um cachecol. Para o frio. Está vendo?

O velho apontou com o indicador dobrado para uma série de caracteres bordados no fio branco azul-escuro. O formato das runas lembrou Simon de algo que provocou uma palpitação de frio, mesmo através da névoa do vinho.

— O que são? — perguntou, com a voz um pouco mais clara do que antes.

— Runas de Rimmersgardia. — disse o velho bobo da corte, sorrindo distraidamente. — Elas dizem ‘Cruinh’... Meu verdadeiro nome. Uma garota as teceu, teceu o cachecol. Para mim. Quando estive com meu querido Rei John em Elvritshalla.

Para sua surpresa, o velho bobo da corte começou a chorar, tateando o caminho de volta para a mesa para se deixar cair na cadeira dura. Em poucos instantes, o choro cessou, e lágrimas se acumularam em seus olhos vermelhos como poças depois de uma chuva de sol. Simon não disse nada.

— Deveríamos ter nos casados. — disse Towser por fim. — Contudo ela não queria deixar suas terras... Não queria vir para Hayholt. Tinha medo de costumes estrangeiros, medo de deixar sua família. Morreu anos atrás, coitada. — fungou alto. — E como eu poderia ter deixado meu bom John?

— O que você quer dizer? — inquiriu Simon. Não conseguia se lembrar onde tinha visto as runas de Rimmersgardia ultimamente, ou pelo menos não queria se dar ao trabalho de tentar se lembrar. Era mais fácil só sentar ali à luz de velas e deixar o velho falar. — Quando... Quando você esteve em Rimmersgardia? — perguntou.

— Oh, rapaz, anos e anos e atrás. — Towser enxugou os olhos sem constrangimento e assoou o nariz em um grande lenço. — Foi depois da Batalha de Naarved. No ano seguinte ao seu término, foi quando conheci a garota que fez isso.

— Qual foi a Batalha de Naarved?

Simon estendeu a mão para se servir de mais vinho, contudo logo desistiu. O que, ele se perguntou, estaria acontecendo no grande salão naquele momento?

— Naarved? — Towser arregalou os olhos. — Não conhece a Batalha de Naarved? Onde John derrotou o velho Rei Jormgrun e se tornou o Supremo Rei do Norte?

— Suponho que sei alguma coisa. — disse Simon, desconfortável. Quanta coisa havia para saber no mundo! — Foi uma batalha famosa?

— É claro! — os olhos de Towser reluziam. — John sitiou Naarved durante todo o inverno. Jormgrun e seus homens nunca pensaram que os sulistas, os habitantes de Erkynlandia, pudessem sobreviver às cruéis neves de Rimmersgardia. Eles tinham certeza de que John teria que suspender o cerco e recuar para o sul. No entanto John conseguiu! Não só conquistaram Naarved, como no ataque final, John escalou o muro da fortaleza interna e abriu a porta levadiça... Conteve dez homens até conseguir cortar a corda de sustentação. Então, quebrou o escudo de Jormgrun e o abateu diante de seu próprio altar pagão!

— Sério? E você estava lá? — Simon já tinha ouvido essa história, mais ou menos, todavia era emocionante ouvi-la de uma testemunha ocular.

— Tanto faz. Eu estava no acampamento de John; ele me levava para todo lugar junto, meu bom e velho rei.

— Como Isgrimnur se tornou Duque?

— Ah... — a mão de Towser, que estava torcendo o lenço branco, foi procurar a jarra de vinho e a encontrou. — Foi seu pai, Isbeorn, quem foi o primeiro Duque, entende? Foi o primeiro dos nobres pagãos de Rimmersgardia a se iluminar, a receber a graça de Jesuris Aedon. Sua casa foi feita por John como a primeira casa de Rimmersgardia. Então, o filho de Isbeorn, Isgrimnur, é o Duque agora, e seria difícil encontrar um aedonita mais piedoso.

— O que aconteceu com os filhos do Rei Jorg-sei-lá-o-quê? Nenhum deles quis se tornar aedonita?

— Oh! — Towser acenou com a mão, desdenhosamente. — Acho que todos morreram na batalha.

— Hmm. — Simon recostou-se, afastando a mente a confusão entre religião e paganismo para tentar visualizar a grande batalha. — O Rei John tinha Cravo Brilhante? — perguntou.

— Sim... Sim, tinha. — disse Towser. — Pela Árvore de Deus, era um homem belo de se ver em batalha. Cravo Brilhante brilhava tanto e se movia tão rápido... Era apenas um borrão de aço... Que às vezes parecia que John estava cercado por uma bela e sagrada luz prateada. — o velho bobo da corte suspirou.

— Então, quem era a garota? — perguntou Simon.

Towser o encarou.

— Que garota?

— Aquela que fez o cachecol para você.

— Ah! — Towser franziu a testa, fazendo uma careta. — Sigmar. — pensou por alguns longos instantes. — Bom, veja bem, nós não saímos de lá por quase um ano. Administrar um país conquistado é um trabalho árduo, sabe, muito árduo. Mais difícil do que lutar naquela maldita guerra, se me perguntar. Ela era uma moça que limpava o salão onde o Rei ficava, onde eu também ficava. Seus cabelos eram da cor do ouro... Não, mais claros, quase brancos. Eu a atraí para perto de mim, como quem doma um potro selvagem: uma palavra gentil aqui, um pouco de comida extra para a sua família ali. Ah, era uma gracinha!

— Você queria se casar com ela naquela época?

— Acho que sim. Já se passaram muitos anos, rapaz. Queria levá-la comigo, disso tenho certeza. Contudo ela não quis me acompanhar.

Nenhum dos dois falou por um tempo. Os ventos tempestuosos gemiam do lado de fora das grossas muralhas do castelo, como cães esquecidos por seu dono. A cera das velas pingava e crepitava.

— Se pudesse voltar no passado... — disse Simon. — Se pudesse estar lá de novo... — o garoto lutou com a difícil ideia. — Vo... Você a deixaria escapar uma segunda vez?

Não houve resposta a princípio. Justo quando Simon estava prestes a estender a mão e dar um leve chacoalham, o velho se mexeu e pigarreou.

— Não sei! — disse Towser lentamente. — Parece que Deus fez acontecer o que Ele queria que acontecesse, no entanto precisamos ter escolhas, não é, rapaz? Sem escolhas não há nada de bom. Não sei... Acho que não quero reviver muito o passado. Melhor do jeito que está, escolhas certas ou erradas.

— Mas as escolhas ficam mais claras com o tempo. — disse Simon, levantando-se com dificuldade.

Towser encarou a chama trêmula da vela.

— Quer dizer, na hora em que tem que decidir sobre as coisas, nunca sabe o suficiente. É só depois que se enxerga tudo.

De repente, se sentiu mais cansado do que bêbado, tomado por uma onda de fadiga. Agradeceu pelo vinho, depois deu boa noite ao velho bobo da corte e saiu para o pátio deserto sob a chuva oblíqua.



***



Simon se levantou e tirou a lama das botas, observando Haestan caminhar com passos pesados pela encosta úmida e fustigada pelo vento. As fogueiras da cidade lá embaixo lançavam sua fumaça para o céu gélido. Desembrulhando o pano que protegia sua espada, observou os raios brancos de sol que penetravam as nuvens no horizonte noroeste, feixes que poderiam significar tanto a presença de um lugar mais brilhante e melhor além da tempestade, quanto apenas o jogo impessoal da luz, indiferente ao mundo ou seus problemas. Simon olhou para cima, girando o bastão nas mãos, entretanto seu humor permaneceu inalterado. Sentia-se sozinho. De pé em meio à grama ondulante, poderia muito bem ser uma pedra ou o toco de uma árvore.

Binabik havia aparecido naquela manhã, o som de suas batidas na porta finalmente interrompendo o sono pesado de vinho de Simon. Ignorou as batidas e as palavras fracas do gnomo até que ambas cessaram, e pôde se virar e cochilar um pouco mais. Não tinha vontade de ver o homenzinho ainda, e estava grato pela porta impessoal entre eles.

Haestan riu impiedosamente do tom esverdeado que Simon ostentava ao ir para o quartel da guarda e, depois de prometer levá-lo para beber de verdade em breve, começou a fazê-lo suar até a exaustão. Embora a princípio Simon estivesse convencido de que sua vida estava sendo drenada do seu corpo, depois de uma hora ou mais, achou que podia sentir seu sangue voltar a fluir por suas veias. Haestan o fez suar muito mais do que no dia anterior, com a espada envolta em pano e o escudo acolchoado, porém Simon ficou grato pela distração: era um luxo submergir-se no ritmo implacável e pulsante da espada contra o escudo, do golpe, da esquiva e do contra-ataque.

Agora, com o vento cortando sua camisa encharcada de suor, pegou seu equipamento e começou a subir a encosta de volta para o portão principal.

Em uma caminhada penosa pelo pátio interno alagado pela chuva, desviando-se do esquadrão de guardas com grossos mantos de lã que saíam para substituir os sentinelas, pareceu-lhe que toda a cor havia sido drenada de Naglimund. As árvores doentias, as capas cinzentas dos guardas de Josua, as vestes sombrias dos sacerdotes, cada objeto à sua vista parecia ter sido esculpido em pedra; até mesmo os pajens apressados ​​eram apenas estátuas às quais fora dada uma espécie de vida transitória, contudo que em algum momento se desgastariam até a imobilidade novamente.

Enquanto refletia, até mesmo apreciava, esses sentimentos sombrios, sua atenção foi atraída por um vislumbre de cor que apareceu de repente em um longo pátio aberto, cores cujo brilho saltava como o toque de uma trombeta em uma noite tranquila.

As sedas extravagantes pertenciam a três jovens mulheres que havia aparecido através de um arco, rindo e atravessando o pátio aberto. Uma vestia vermelho e dourado, outra um amarelo como um campo de feno recém-cortado; a terceira tinha um longo vestido brilhante em tons de cinza e azul. Bastou uma fração de segundo para ele reconhecer a última como Miriamele.

Ele já caminhava em direção ao trio que se afastava antes mesmo de perceber o que estava fazendo; um instante depois, começou a trotar enquanto elas desapareciam sob a longa passarela com colunas, o som de sua conversa voltando para ele como um aroma provocante para um mastim acorrentado. Em trinta passos longos as alcançou.

— Miriamele! — chamou, e saiu de sua boca muito alto, fazendo-o parar abruptamente, surpreso e envergonhado. — Princesa? — acrescentou sem jeito quando ela se virou. O reconhecimento foi ofuscado por outra emoção que veio logo em seguida, uma que lhe pareceu com um olhar de pena e compaixão.

— Simon? — questionou a garota, no entanto não havia dúvida correspondente em seus olhos.

Ambos ficaram de pé, com alguns passos de distância entre eles, frente a frente como se estivessem separados por um desfiladeiro. Por um momento, apenas se encararam, cada um esperando que a voz do outro cruzasse a distância com a resposta adequada. Por fim, Miriamele disse algo curto e baixo para suas duas companheiras, cujos rostos Simon não notou, exceto para registrar o que tinha certeza ser desaprovação em suas expressões; a dupla recuou, depois se virou e caminhou um pouco à frente.

— Eu... Me sinto estranho por não te chamar de Marya... Princesa.

Simon olhou para a lama respingada em suas botas, suas calças manchadas de grama, e em vez da vergonha que esperava, sentiu uma espécie de orgulho estranho e feroz. Talvez fosse um caipira; mas pelo menos era um caipira honesto.

A Princesa o examinou rapidamente, sem revelar nenhum sinal em seu rosto.

— Me desculpe, Simon. Não menti para você porque quis, foi porque precisei. — ela desfez o nó dos dedos num breve gesto de impotência. — Desculpe.

— Não... Não precisa se desculpar. É que... É que... —procurou as palavras, mantendo as próprias mãos agarradas firmes à bainha da espada. — Só torna as coisas estranhas, acho.

Agora que a observava com maior atenção, decidiu que o belo vestido... Que, notou, era listrado de verde, talvez em teimosa lealdade ao pai... Tanto acrescentava algo à Marya que se lembrava, quanto lhe tirava algo. Estava bonita, tinha de admitir: seus traços finos e marcantes agora estavam emoldurados, como uma pedra preciosa, por um tecido que os realçava adequadamente. Ao mesmo tempo, faltava algo, algo engraçado, terreno e despreocupado na Marya que compartilhara sua jornada pelo rio e a noite terrível na Escadaria. Não havia muito que o lembrasse disso em seu rosto sereno, contudo um indício ainda se escondia nas mechas de cabelo rente que apareciam na gola de seu capuz.

— Você pintou o cabelo de preto? — perguntou, rompendo o silêncio.

A Princesa sorriu, tímida.

— Sim. Decidi muito antes de fugir de Hayholt o que precisava fazer. Cortei meu cabelo... Era muito comprido. — acrescentou com orgulho. — E então pedi a uma mulher em Erchester que o usasse para fazer uma peruca. Leleth a trouxe para mim. Escondi meu cabelo cortado por baixo, que estava tingido de preto para que pudesse observar os homens ao redor do meu pai sem ser reconhecida, ouvir coisas que não ouviria de outra forma... Descobrir o que estava acontecendo.

Simon, apesar do desconforto, estava cheio de admiração pela astúcia da garota.

— Mas por que você estava me espionando? Não sou ninguém importante.

A Princesa continuou a entrelaçar e desentrelaçar os dedos.

— Eu realmente não estava te espionando, não a princípio. Estava ouvindo uma discussão que meu pai teve com meu tio na capela. Nas outras vezes... Bem, eu te segui. Pude te ver no castelo, sozinho, sem ninguém te dizendo o que fazer, onde estar, para quem sorrir ou com quem conversar... Estava com inveja.

— Ninguém me dizendo o que fazer! — Simon sorriu, com certo pesar. — Então nunca conheceu Raquel, o Dragão, garota! — ele se corrigiu. — Quero dizer, Princesa.

Miriamele, que também estava sorrindo, pareceu voltar a estar desconfortável. Simon sentiu a onda da raiva que o consumiu a noite toda. Quem era ela para se sentir desconfortável perto dele? Não foi ele quem a tirou de uma árvore? Ela não apoiou a cabeça no seu ombro?

“Sim, no entanto essa é outra questão, não é?” pensou.

— Preciso ir. — Simon ergueu a bainha como se quisesse mostrar a Miriamele algum detalhe de seu trabalho. — Passei o dia todo empunhando a espada. Tenho certeza de que suas amigas estão te esperando.

Seu corpo começou a se virar, entretanto parou e dobrou o joelho em sua direção. Sua expressão ficou, se possível, ainda mais desconfortável, mais triste do que antes.

— Princesa... — disse Simon, e se afastou. Não olhou para trás para ver se ela o observava partir. Manteve a cabeça erguida e as costas bem retas.



***



Binabik, vestindo o que pareciam ser suas melhores roupas, uma jaqueta de pele de veado branca e um colar de crânios de pássaros, o encontrou em seu caminho de volta para o quarto. O garoto o saudou com frieza; em seu íntimo, ficou surpreso ao constatar que onde havia uma vasta reserva de raiva poucas horas antes, agora existia apenas um estranho vazio de espírito.

O gnomo esperou enquanto raspava mais lama das botas na soleira da porta, depois o seguiu até o quarto enquanto trocava de camisa, vestindo a outra que Strangyeard amavelmente havia lhe proporcionado.

— Tenho certeza de que está com raiva agora, Simon. — começou Binabik. — Quero que entenda que eu não sabia sobre a Princesa até que Josua me contou na noite anterior à retrasada.

A camisa do padre era comprida, até para a estrutura esguia de Simon; colocou-a dentro das calças.

— Por que não me contou? — perguntou, satisfeito com a leveza e a tranquilidade com que se sentia. Não havia motivo para que se preocupasse com a má-fé do homenzinho; já havia se virado sozinho antes.

— Foi porque uma promessa foi feita. — Binabik pareceu muito infeliz. — Eu concordei antes mesmo de saber com o quê. Todavia foi apenas um dia até que você mesmo viesse a saber... Teria feito alguma diferença? Ela deveria ter nos contado pessoalmente, é o que penso.

Havia verdade no que o homenzinho disse, mas Simon não gostou de ouvir Miriamele ser criticada, embora o próprio a culpasse por crimes maiores, porém mais sutis.

— Não é importante agora. — foi tudo o que disse.

Binabik esboçou um sorriso forçado.

— Espero que seja o caso. Por ora, o importante é o Raed. Sua história precisa ser contada, e acho que esta noite será a noite. Com sua partida de mais cedo, você não perdeu muita coisa, na maior parte foi apenas o Barão Devasalles buscando garantias do Príncipe Josua, caso os nabbanos se comprometessem a ajudá-lo. Contudo esta noite...

— Não quero ir. — ele arregaçou as mangas, que pendiam até a metade de suas mãos. — Vou ver Towser, ou talvez Sangfugol. — mexeu em um punho. — A Princesa estará lá?

O gnomo pareceu preocupado.

— Quem pode dizer? No entanto você é necessário, Simon. O Duque e seus guardas de Rimmersgardia estão aqui. Chegaram há menos de uma hora, praguejando, sujos e com seus cavalos soltando espuma. Haverá uma discussão sobre assuntos importantes esta noite.

Simon olhou para o chão. Seria mais simples encontrar o harpista e beber; parecia que isso ajudava a esquecer esse tipo de problema. Sem dúvida, alguns de seus novos conhecidos da guarda também seriam uma boa companhia. Todos poderiam ir até Naglimund, que ainda não tinha visto direito. Seria muito mais fácil do que ficar sentado naquela sala grande, aquela sala pesada, com o peso das decisões e do perigo sobre todos eles. Deixe que outros discutam, se preocupem... Ele era um mero ajudante de cozinha e estava perdido há muito tempo. Não era melhor assim? Não era?

— Eu vou! — cedeu, por fim. — Mas só se conseguir decidir se quero conversar ou não.

— De acordo! — disse Binabik, oferecendo um sorriso, embora Simon não estava com vontade de retribuir. Vestiu sua capa, agora limpa, porém que seguia com as cicatrizes da estrada e da floresta, e deixou Binabik guiá-lo em direção ao grande salão.



***



— É isso aí! — exclamou o Duque Isgrimnur de Elvritshalla. — Que provas mais alguém precisa? Logo terá todas as nossas terras!

Isgrimnur, assim como seus homens, sequer havia se dado ao trabalho de tirar as roupas de viagem. A água escorria de seu manto encharcado, formando uma poça no chão de pedra.

— E pensar que um dia acalentei um monstro tão desprezível em meu colo!

Ele agarrou o peito, apoplético, procurando apoio em seus homens. Todos, exceto o inexpressivo e de olhos semicerrados Einskaldir, assentiram com a cabeça em muda comiseração.

— Duque! — Josua chamou, erguendo a mão. — Isgrimnur, por favor, sente-se. Está gritando desde o momento em que arrombou a porta, e ainda não entendo o que...

— O que seu irmão, o Rei, fez? — Isgrimnur ficou roxo e pareceu que ia agarrar o Príncipe e jogá-lo sobre um joelho largo. — Roubou minhas terras e as entregou a traidores, e eles aprisionaram meu filho! O que mais espera que faça para ser considerado um demônio?

Os lordes e generais reunidos, que haviam se levantado de um salto quando os rimmerios entraram cambaleando e gritando na sala, começaram a se recostar nas duras cadeiras de madeira, resmungando com raiva, enquanto o aço deslizava de volta para uma dúzia de bainhas com um chiado melodioso.

— Devo pedir ao seu homem que fale por você, bom Isgrimnur? — perguntou Josua. — Ou você poderá nos dizer o que aconteceu?

O velho Duque lançou um olhar furiosa para o Príncipe por um momento, depois ergueu aos poucos a mão e a passou pelo rosto, como se para enxugar o suor. Por um momento perigoso, Simon teve certeza de que Isgrimnur choraria... O rosto vermelho do Duque se contorceu em uma máscara de desespero impotente, seus olhos os de um animal atordoado. Ele deu um passo para trás e se sentou.

— Minhas terras foram entregues para Skali Nariz Afiado. — respondeu por fim, e quando a arrogância deixou a voz de Isgrimnur, o vazio soou claro. — Não tenho mais nada, e não tenho para onde ir a não ser para cá. — sua cabeça balançou.

Ethelferth de Tinsett se levantou, seu rosto largo cheio de compaixão.

— Conte-nos o que aconteceu, Duque Isgrimnur. — disse. — Aqui todos compartilhamos uma dor ou outra, contudo também compartilhamos uma longa história de camaradagem. Seremos a espada e o escudo uns dos outros.

O Duque olhou para ele com gratidão.

— Obrigado, Lorde Ethelferth. Você é um bom camarada e um bom nortenho. — Isgrimnur se voltou para os outros. — Perdoem-me. É vergonhoso o jeito como estive agindo. Também não é uma maneira decente de dar notícias. Deixe-me contar-lhes algumas coisas que vocês devem saber.

Isgrimnur pegou um jarro de vinho perdido e o esvaziou. Vários dos outros homens, antecipando uma longa história, pediram que suas taças fossem reabastecidas.

— Muito do que aconteceu já deve ser do conhecimento de todos, pois Josua e muitos outros aqui já sabiam. Disse a Elias que não ficaria mais à sua mercê em Hayholt, não enquanto nevascas matassem meu povo e soterrassem nossas cidades, e enquanto meu jovem filho tivesse que governar os rimmerios em meu lugar. O Rei resistiu a mim por meses, no entanto finalmente disse sim. Peguei meus homens e parti para o norte.

— A primeira coisa que aconteceu foi que fomos emboscados em São Hoderund; antes mesmo de cairmos na armadilha, os emboscadores mataram os guardiões daquele lugar sagrado. — Isgrimnur ergueu a mão e deu um tapinha na madeira que balançava contra seu peito. — Lutamos contra eles e eles fugiram, escapando quando fomos atrasados ​​por uma tempestade repentina.

— Ouvi sobre o ocorrido. — disse Devasalles de Nabban, encarando Isgrimnur com um olhar contemplativo. — Quem os emboscou na abadia?

— Não sei. — respondeu o rimmerio, com desgosto. — Não conseguimos capturar um único prisioneiro, embora tenhamos enviado muitos para o inferno. Alguns pareciam ser de Rimmersgardia. Na época, tinha certeza de que eram mercenários... Agora não tenho tanta certeza. Um dos meus parentes caiu pelas mãos deles.

— A segunda coisa a ocorrer foi quando acampávamos não muito ao norte da Batida, fomos atacados pelos imundos bukken, um grande enxame, e em campo aberto, para piorar a situação. Atacaram um acampamento armado inteiro! Lutamos contra os malditos também, no entanto não sem grandes perdas... Hani, Thrinin, Utë de Saegard...

— Bukken? — era difícil dizer se a sobrancelha arqueada de Devasalles era um sinal de surpresa ou de desprezo. — Está me dizendo que seus homens foram atacados pelo pequeno povo da lenda, Duque Isgrimnur?

— Uma lenda no sul, talvez. — zombou Einskaldir de seu assento. — Uma lenda nas cortes brandas de Nabban; no norte, sabemos que são reais e mantemos nossos machados afiados.

O Barão Devasalles se irritou, mas antes que pudesse lançar uma resposta raivosa, Simon sentiu um movimento ao seu lado e uma voz soou.

— Há muita incompreensão e ignorância tanto no norte quanto no sul. — disse Binabik, de pé em sua cadeira com uma mão no ombro de Simon. — Os bukken, os escavadores, não estão estendendo seus buracos muito além das fronteiras do norte de Erkynlandia, porém o que é boa sorte para aqueles mais ao sul não deve ser confundido com uma verdade universal.

Devasalles arregalou os olhos, boquiaberto de espanto, e não foi o único.

— E este é um dos próprios bukken, vindo como emissário para Erkynlandia? Agora eu já vi de tudo debaixo do sol e morrerei feliz!

— Se sou a coisa mais estranha que já viram, antes de um ano se passar... — Binabik começou, quando foi interrompido por Einskaldir, que saltou de seu assento para ficar ao lado do surpreendido Isgrimnur.

— É pior que um bukka! — rosnou. — É um gnomo... Um espectro infernal! — ele tentou passar pelo braço do Duque que o segurava. — O que esse ladrão de bebês está fazendo aqui?

— Algo mais útil do que você, seu idiota barbudo e enorme! — Binabik retrucou.

A assembleia desmoronou em gritos e confusão generalizada. Simon agarrou a cintura do gnomo, pois o homenzinho havia se inclinado tanto para a frente que ameaçava cair sobre a mesa manchada de vinho. Finalmente, a voz de Josua pôde ser ouvida acima do clamor, exigindo ordem com raiva.

— Pelo Sangue de Aedon, não tolerarei isto! Vocês são homens ou crianças? Isgrimnur, Binabik de Yiqanuc está aqui a meu convite. Se seu homem não respeitar as regras do meu salão, que experimente a hospitalidade de uma cela na torre! Exijo um pedido de desculpas!

O Príncipe inclinou-se para a frente como um falcão em mergulho, e Simon, agarrando-se à jaqueta de Binabik, ficou impressionado com a semelhança com o falecido Supremo Rei. Ali estava Josua, como deveria ser!

Isgrimnur curvou a cabeça.

— Peço desculpas pelo meu súdito, Josua. Ele é impulsivo e não se deixa seduzir por uma companhia agradável. — o rimmerio lançou um olhar feroz para Einskaldir, que se sentou de volta, resmungando baixinho em sua barba, com os olhos fixos no chão. — Nosso povo e os gnomos são inimigos ancestrais. — explicou o Duque.

— Os gnomos de Yiqanuc não são inimigos de ninguém. — respondeu Binabik, com um ar de superioridade. — São os rimmerios que estão tão assustados com nosso tamanho e força que nos atacam onde quer que nos vejam... Até mesmo no salão do Príncipe Josua.

— Basta. — Josua acenou com a mão em sinal de desgosto. — Este não é lugar para discutir velhos rancores. Binabik, você terá a sua vez. Isgrimnur, você ainda tem uma história para terminar.

Devasalles pigarreou.

— Só me permita dizer uma coisa, Príncipe. — ele se virou para Isgrimnur. — Diante do homenzinho de... Yiqanuc? Acho sua história sobre bukken mais plausível. Perdoe minhas dúvidas, bom Duque.

A carranca de Isgrimnur suavizou-se.

— Não diga nada, Barão... — resmungou. — Eu já esqueci, assim como tenho certeza de que você se esqueceu do discurso tolo de Einskaldir.

O nobre fez uma pausa para organizar seus pensamentos dispersos.

— Bem, como estava dizendo, essa era a estranheza de tudo. Mesmo na Marca Gelada e nos ermos do norte, os bukken são raros... E agradecemos a Deus por isso. Que eles ataquem uma companhia armada do nosso tamanho é simplesmente inédito. Os bukken são pequenos... — seu olhar pousou por um momento em Binabik e deslizou para Simon. Surpreso, o Duque franziu a testa, encarando-o. — Pequenos... São pequenos... Contudo ferozes e perigosos quando atacam em grande número. — balançando a cabeça, como se quisesse afastar a perturbadora familiaridade de Simon, Isgrimnur voltou sua atenção para os outros reunidos ao redor da longa mesa curva.

— Depois de escapar dos habitantes dos buracos e chegarmos aqui em Naglimund, reabastecemos rapidamente e seguimos para o norte outra vez. Estava ansioso para ver minha casa de novo, meu filho e minha esposa.

— A Estrada Superior de Wealdhelm e a Estrada da Marca Gelada não são lugares seguros nesses dias. Aqueles de vocês cujas terras ficam ao norte daqui sabem do que estou falando, sem necessidade de mais explicações. Ficamos felizes em ver as luzes de Vestvennby abaixo de nós na noite do sexto dia de viagem.

— Na manhã seguinte, fomos recebidos diante do portão por Storfot, Thane de Vestvennby... O que vocês chamariam de Barão, suponho, e cerca de cinquenta de seus guardas. No entanto teria ele vindo dar as boas-vindas ao seu Duque?

— Envergonhado... E com razão, o cão traiçoeiro me disse que Elias me declarou traidor e entregou minhas terras a Skali Nariz Afiado. Storfot disse que Skali queria que eu me rendesse e que ele, Storfot, me levaria para Elvritshalla, onde meu filho Isorn já estava detido... E que Skali seria justo e misericordioso. Justo! Skali de Kaldskryke, que matou o próprio irmão numa briga de bêbados! Me concederia misericórdia sob meu próprio teto!

— Se meus homens não tivessem me impedido... Se não tivessem... — o Duque Isgrimnur teve que parar por um momento, torcendo a barba em raiva irritada. — Bem... — prosseguiu. — Vocês podem imaginar que estive totalmente a favor de estripar Storfot naquele mesmo instante. Melhor morrer com uma espada nas minhas entranhas, pensei, do que me curvar a um porco como Skali. Mas, como Einskaldir apontou, o melhor de tudo será retomar meu salão e fazer Skali provar meu aço.

Isgrimnur trocou um sorriso breve e amargo com seu súdito, depois voltou-se para a assembleia e bateu na bainha vazia.

— Então, isso eu prometo. Se tiver que rastejar com minha velha e gorda barriga até Elvritshalla, juro pelo Martelo de Dror... Por Jesuris Aedon, quero dizer... Com seu perdão, Bispo Anodis, que estarei lá para cravar minha boa espada Kvalnir em suas entranhas.

Gwythinn, Príncipe de Hernystir, que estivera estranhamente silencioso, bateu com o punho na mesa. Suas bochechas estavam coradas, porém não, pensou Simon, apenas por causa do vinho, embora o jovem ocidental estivesse bebendo bastante.

— Ótimo! — disse o Príncipe. — Contudo veja, Isgrimnur, veja... Não é este Skali que é seu maior inimigo... Não, é o próprio Rei!

Um murmúrio percorreu a mesa, no entanto desta vez pareceu ser em sua grande parte de aprovação. A ideia de ter suas terras tomadas e entregues a um rival de sangue atingiu um ponto sensível e ameaçador em quase todos.

— O hernystiro tem razão! — gritou o gordo Ordmaer, erguendo-se da cadeira com dificuldade. — É óbvio que Elias só o manteve em Hayholt por tanto tempo para que Skali pudesse tramar sua traição. Elias é o inimigo por trás de tudo.

— Enquanto usou seus instrumentos mais do que dispostos, Guthwulf, Fengbald e os outros, para pisotear os direitos da maioria de vocês aqui! — Gwythinn estava com a língua afiada agora, e seu discurso ganhava força. — É Elias quem está tentando nos esmagar a todos, até que não haja resistência ao reinado da desgraça, até que o resto de nós seja levado à pobreza por impostos, ou esmagado sob os calcanhares dos cavaleiros de Elias. O Supremo Rei é o inimigo, e devemos agir!

Gwythinn se virou para Josua, observando os acontecimentos como uma estátua cinzenta.

— Cabe a você, Príncipe, nos mostrar o caminho. Seu irmão sem dúvida tem planos para todos nós, como demonstrou tão claramente com você e Isgrimnur! Ele não é nosso verdadeiro e mais perigoso inimigo?

— Não! Não é!

A voz estridente estalou como um chicote de vaqueiro pelo grande salão de Naglimund. Simon, como todas as outras almas na sala, se virou para ver quem havia falado. Não era o Príncipe, que estava tão perplexo quanto todos os outros.

Por um instante, pareceu que o velho havia se materializado do ar insubstancial, tão repentinamente avançou das sombras para o brilho do aplique de parede. O homem era alto e de uma magreza extrema; a luz da tocha projetava sombras profundas nas cavidades de suas bochechas e sob a crista óssea de sua testa. Usava uma capa de pele de lobo e sua longa barba branca estava enfiada no cinto; para Simon, parecia um espírito selvagem da floresta de inverno.

— Quem é você, ancião? — perguntou Josua. Dois de seus guardas avançaram para ficar de cada lado da cadeira do Príncipe. — E como veio parar em nossos conselhos?

— É um dos espiões de Elias! — sibilou um dos lordes do norte, e outros repetiram o que dissera.

Isgrimnur se levantou.

— Ele está aqui porque eu o trouxe, Josua. — explicou o Duque. — Ele estava nos esperando na estrada para Vestvennby... Sabia para onde estávamos indo e sabia, antes mesmo de nós, que voltaríamos para cá. Disse que, de um jeito ou de outro, viria falar com você.

— E que seria melhor para todos se eu chegasse o mais rápido possível. — concluiu o velho, fixando seus luminosos olhos azuis no Príncipe. — Tenho coisas importantes para lhe contar... Para lhe contar tudo. — o ancião percorreu a mesa com seu olhar perturbador, e o murmúrio cessou em seguida. — Pode ouvir ou não, a escolha é sua... Essa é sempre a escolha em assuntos como este.

— São charadas de criança. — zombou Devasalles. — Quem é você e o que sabe sobre as coisas que debatemos? Em Nabban... — ele sorriu para Josua. — Mandaríamos esse velho tolo para os irmãos vilderivanos, cuja especialidade é cuidar de lunáticos.

— Não estamos falando de assuntos do sul aqui, Barão. — replicou o ancião, com um sorriso frio como uma fileira de pingentes de gelo. — Ainda que em breve o sul também sentirá os dedos gélidos em sua garganta.

— Chega! — gritou Josua. — Fale agora, ou mandarei acorrentá-lo como um espião de verdade. Quem é você e o que tem a ver conosco?

O velho assentiu rigidamente.

— Com licença. Faz muito tempo que não pratico os costumes da corte. Meu nome é Jarnauga, ex-morador de Tungoldyr.

— Jarnauga! — disse Binabik, subindo de volta em sua cadeira para observar o recém-chegado. — Que surpreendente! Jarnauga! Ei, sou eu, Binabik! Fui aprendiz de Ookequk por muito tempo!

O ancião encarou o gnomo com seus olhos brilhantes e penetrantes.

— Sim. Conversaremos, e em breve. Contudo primeiro tenho assuntos a tratar neste salão, com estes homens. — ele se endireitou, encarando a cadeira do Príncipe. — O Rei Elias é o inimigo... Ouvi o jovem hernystiro dizer, e ouvi outros repetirem o mesmo. Vocês são todos como ratos, que falam em sussurros sobre o terrível gato e sonham nas paredes em se livrar dele algum dia. Nenhum de vocês percebe que o problema não é o gato, e sim o mestre que o trouxe para matar ratos.

Josua inclinou-se para a frente, demonstrando um interesse relutante.

— Está dizendo que Elias é um peão de alguém? De quem? Daquele demônio Pryrates, suponho?

— Pryrates se atreve a praticar o mal. — zombou o velho. — No entanto é só uma criança. Estou falando de alguém para quem a vida dos reis são meros instantes fugazes... Alguém que levará muito mais do que suas terras.

Os homens começaram a conversar entre si.

— Será que esse monge louco invadiu nosso espaço para nos dar uma lição sobre as obras do Diabo? — exclamou um dos barões.

— Não é segredo para nós que o Arquidemônio usa os homens para seus propósitos.

— Não estou falando do seu demônio Aedonita. — disse Jarnauga, voltando seu olhar para a alta cadeira do Príncipe. — Estou falando do verdadeiro demônio de Osten Ard, que é tão real quanto esta pedra. — agachou-se e bateu com a palma da mão no chão. — E tão parte integrante de nossa terra.

— Blasfêmia! — gritou alguém. — Expulsem-no!

— Não, deixem-no falar!

— Fale mais alto, velho!

Jarnauga ergueu as mãos.

— Não sou nenhum santo louco e meio congelado que veio salvar suas almas em perigo. — ele apertou os lábios num sorriso sombrio. — Venho a vocês como um membro da Liga do Pergaminho, alguém que viveu sua vida ao lado... E passou essa vida observando... A montanha mortal chamada Pico das Tormentas. Nós, da Liga do Pergaminho, como o gnomo pode confirmar, mantivemos vigília por muito tempo enquanto outros dormiam. Agora venho cumprir um voto feito há muito tempo... E para lhes contar coisas que desejarão nunca ter ouvido.

Um silêncio nervoso pairou sobre o salão enquanto o velho atravessava a sala e empurrava a porta que dava para o pátio. O uivo do vento, que antes era apenas um gemido fraco, soava alto nos ouvidos de todos.

— Estamos no mês de junen! — disse Jarnauga. — Faltam apenas algumas semanas para o Solstício de Verão! Escutem: pode um rei, mesmo o Supremo Rei, fazer isso?

Um redemoinho de chuva passou por ele como fumaça.

— Há hunën vestidos de peles, gigantes e caçadores de homens em Wealdhelm. Bukken rastejam da terra fria para atacar soldados armados na Marca Gelada, e as forjas do Pico das Tormentas, no norte, queimam a noite toda. Eu mesmo vi o brilho contra o céu e ouvi os martelos de gelo! Como acha que Elias causou tudo isto? Você não ve que um inverno negro e cruel está caindo sobre vocês fora de época, além de toda a sua capacidade de compreensão?

Isgrimnur se levantou outra vez, o rosto redondo pálido, os olhos semicerrados.

— Então, homem, o quê? Está dizendo, que Udun o Torto me ajude, que estamos lutando... Contra as raposas brancas das lendas antigas?

Atrás de Isgrimnur, um coro de perguntas sussurradas e murmúrios chocados ecoava.

Jarnauga encarou o Duque, e seu rosto marcado por rugas suavizou-se com uma expressão que poderia ser de pena ou tristeza.

— Ah, Duque Isgrimnur, por mais terríveis que as raposas brancas, que alguns conhecem como as nornas, por mais terríveis que elas sejam, seria uma bênção para nós se fosse esse o caso. No entanto lhe digo que Utuk’ku, a própria Rainha das Nornas, senhora da terrível montanha do Pico das Tormentas, não é mais quem um peão, tal como Elias.

— Calma aí, homem, cale-se por um instante. — Devasalles levantou-se de um salto furioso, com as vestes esvoaçando. — Príncipe Josua, perdoe-me, mas já é ruim o suficiente esse louco entrar e interromper o conselho, monopolizando a palavra sem nenhuma explicação sobre quem ou o que ele é, agora, como emissário do Duque Leobardis, devo perder meu tempo ouvindo contos de terror do norte? Isso é insuportável!

À medida que o burburinho da discussão voltava a aumentar, Simon sentiu um arrepio estranho e excitante. Pensar que ele e Binabik estiveram no centro de tudo, no meio de uma história que deixaria qualquer coisa que Shem Horsegroom pudesse inventar empalidecida! Contudo enquanto pensava na história que poderia contar ao lado da lareira um dia, lembrou-se dos focinhos dos cães e dos rostos pálidos na montanha escura de seus sonhos e, novamente, não pela primeira nem pela última vez, desejou de todo coração estar de volta à cozinha de Hayholt, que nada tivesse mudado, que nada jamais mudasse.

O velho Bispo Anodis, que observava o recém-chegado com o olhar atento e feroz de uma gaivota confrontando um forasteiro em seu território favorito de busca por alimento, levantou-se.

— Devo dizer, e não me envergonho de admitir, que não tenho uma opinião muito boa sobre este... Este Raed. Elias talvez tenha cometido erros, porém Sua Santidade o Leitor Ranessin se ofereceu para mediar, para tentar encontrar uma maneira de trazer a paz entre os aedonitas, incluindo, é claro, seus honrados aliados pagãos. — ele acenou de forma superficial na direção de Gwythinn e seus homens. — No entanto tudo o que ouvi foi falar de guerra e derramamento de sangue aedonita em vingança por insultos insignificantes.

— Insultos insignificantes? — Isgrimnur vociferou. — Você chama o roubo do meu ducado de um insulto insignificante, Bispo? Deixe você voltar para casa e encontrar sua igreja... Reduzida a um maldito estábulo de hirkas, ou um ninho de gnomos, e veja se ainda achará um ‘insulto insignificante’!

— Ninho de gnomos? — disse Binabik, levantando-se.

— E isto só prova o que falei. — retrucou Anodis, brandindo a Árvore em sua mão nodosa como se fosse uma faca para afastar bandidos. — Veja, como grita com um clérigo quando este tenta corrigir seus maus hábitos. — sua postura se endireitou. — E agora... — acenou com a Árvore para Jarnauga. — Agora este... Este... Eremita barbudo vem contar histórias de bruxas e demônios, e semear mais a discórdia entre os únicos filhos do Supremo Rei! A quem isso beneficia, hein? A quem Jarnauga serve, hein?

Corado e trêmulo, o Bispo desabou em sua cadeira, pegando o frasco de água que seu acólito trouxera e bebendo com sede.

Simon estendeu a mão e puxou o braço de Binabik até que seu amigo se sentasse.

— Ainda quero uma explicação para ‘ninho de gnomos’. — resmungou baixinho, embora ao ver a carranca de Simon, franziu os lábios e se calou.

O Príncipe Josua ficou olhando fixamente por um tempo para Jarnauga, que o encarava com a calma de um gato.

— Já ouvi falar da Liga do Pergaminho. — disse Josua por fim. — Não tinha ideia de que seus seguidores tentassem influenciar os costumes de governantes e estados.

— Nunca ouvi falar dessa tal Liga... — disse Devasalles. — E acho que já está na hora de esse velho estranho nos dizer quem o enviou e o que nos coloca em perigo... Se não for o Supremo Rei, como muitos aqui parecem pensar.

— Desta vez concordo com o nabbano! — exclamou Gwythinn de Hernystir. — Que Jarnauga nos conte tudo, para que possamos decidir se acreditamos em suas palavras ou o expulsamos do salão.

Na cadeira mais alta, o Príncipe Josua assentiu. O velho rimmerio olhou em volta para os rostos expectantes, depois ergueu as mãos num gesto estranho, tocando os dedos nos polegares como se segurasse um fio fino diante dos olhos.

— Ótimo! — começou. — Ótimo. Assim, estamos nos primeiros passos da jornada, a única jornada que possivelmente nos levará para fora da sombra negra da montanha.

Jarnauga abriu os braços, como se esticasse o fio invisível ao máximo, e depois abriu as mãos.

— A história da Liga é apenas uma pequena história. — continuou o ancião. — Todavia se encaixa dentro de uma história maior. — outra vez, caminhou até a porta, que um pajem havia fechado para manter o calor no salão de teto alto. Jarnauga tocou a pesada moldura. — Podemos fechar esta porta, entretanto não fará a neve e o granizo desaparecerem. Da mesma forma, vocês podem me chamar de louco... Isso também não fará com que aquele que os ameaça desapareça. Ele esperou cinco séculos para retomar o que considera seu, e sua mão é mais fria e forte do que qualquer um de vocês pode compreender. A sua é uma larga história, dentro da qual o conto da Liga está aninhado como uma velha ponta de flecha presa em uma grande árvore, sobre a qual a casca cresceu até que a própria flecha ficou escondida.

— O inverno que nos assola agora, o inverno que destronou o verão de seu devido lugar, é dele. É o símbolo de seu poder enquanto estende a mão e começa a moldar as coisas à sua vontade.

Jarnauga olhou fixamente, e por um longo momento não houve som algum além do canto solitário do vento além das muralhas.

— Quem? — perguntou Josua. — Qual é o nome deste poderoso ser, velho?

— Pensei que você pudesse saber, Príncipe... — respondeu Jarnauga. — Você é um homem que aprendeu muitas coisas.

— Seu inimigo... Nosso inimigo... Morreu há quinhentos anos; o lugar onde sua primeira vida terminou fica sob os alicerces do castelo onde sua vida começou. Ele é Ineluki... O Rei da Tormenta.

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Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair

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