The Perfect Insider
Por que, então, os humanos fazem trocas? A razão está no cérebro. O cérebro é um órgão que troca informações. Ele possui analogias que lhe permitem trocar e equiparar coisas completamente diferentes. Ele pode ver e ouvir símbolos e linguagem. Em outras palavras, ondas eletromagnéticas e sonoras são convertidas de forma equivalente no cérebro para gerar nossa atividade simbólica. O “cheiro de dinheiro” não seria possível se comida e dinheiro não pudessem ser trocados e substituídos. O uso da analogia para simular o mundo-alvo deriva, na verdade, do cérebro humano, que se tornou grande e redundante. O circuito extra de uma resposta a um sinal cria um sujeito de comparação e um objeto a ser comparado, substituições ocorrem e simulações são tentadas. Assim, esse excedente tornou-se uma metáfora, deu origem à abstração e se tornou a forma de pensamento orientada a objetos.
Este trecho é de Introdução à Análise de Sistema Orientada a Objetos e Design (escrito por Atsushi Aoki).
Lista de Personagens:
[A família Magata]
Sachiro Magata: Doutor em Engenharia
Michiyo Magata: Linguista, esposa de Sachiro
Shiki Magata: Uma programadora genial, filha de Sachiro
Kishio Kurimoto: Colega de quarto de Shiki
Suma Sasaki: Colega de quarto de Shiki
Michiru Magata: Colega de quarto de Shiki
Miki Magata: Irmã mais nova de Shiki
Seiji Shindo: Diretor do Instituto de Pesquisa Magata, irmão mais novo de Sachiro
[Instituto de Pesquisa Magata]
Yumiko Shindo: Esposa de Seiji
Tomihiko Yuminaga: Um médico
Sumie Yuminaga: Enfermeira, esposa de Tomihiko
Yukihiro Yamane: Diretor Adjunto do Instituto de Pesquisa Magata
Chikara Mizutani: O programadora-chefe
Ayako Shimada: Uma programadora
Toshiki Mochizuki: Um guarda
Satoshi Hasebe: Um guarda
Débora: Sistema de Gestão do Instituto
Michiru: Um robô
P1: Um robô tipo vagão
[Outras pessoas]
Setsuko Gido: Uma jornalista de revista
Sohei Saikawa: Professor Associado, Departamento de Arquitetura, Faculdade de Engenharia, Universidade N
Momoko Kunieda: Pesquisadora Associada, Departamento de Arquitetura, Faculdade de Engenharia, Universidade N
Fukashi Hamanaka: Um estudante de pós-graduação, Departamento de Arquitetura, Faculdade de Engenharia, Universidade N
Moe Nishinosono: Uma caloura, Departamento de Arquitetura, Faculdade de Engenharia, Universidade N
Capítulo 01: A Entrevista Branca
Parte 1Agora é verão. Ela se lembrou disso.
Cercada por concreto impessoal, nenhum sinal da estação chegava à sala. Em nenhum lugar do prédio havia uma janela para olhar para o mundo exterior. A história e o tempo estavam inscritos artificialmente ali. Não fazia frio nem calor.
Talvez não haja criaturas não humanas, animais ou plantas, neste lugar, pensou ela.
De fato não havia nada naquela pequena sala, que era tão branca que chegava a ser brilhante demais. O ar era purificado e menos empoeirado. Não conseguia encontrar nada além de um silêncio artificial. Uma cadeira inorgânica feita de alumínio estava ali, e se sentou.
À sua frente, um grande monitor estava embutido na parede. A tela mostrava um espaço branco puro, semelhante à sala em que estava. Quando olhou para cima, uma pequena câmera a encarava como uma coruja.
As imagens na tela não eram daquela sala. Podia afirmar isso porque não estava na imagem.
Ela esperou um pouco, sem fazer nada. Sua bolsa foi deixada do lado de fora da sala. Dentro havia um notebook e uma câmera, mas o homem lá fora disse que era regra que ninguém podia entrar com nada naquela sala. O homem era o chefe do prédio. Era amigável, e sentiu simpatia por ele.
A imagem na tela mudou. Uma mulher vestida de branco entrou na sala mostrada na tela. O contorno da figura estava vago, em parte devido à brancura do cômodo. Conforme a íris da câmera se ajustava automaticamente, a figura logo ficou visível.
A mulher na tela sentou-se na cadeira e se virou para encará-la. A figura parecia muito mais jovem do que havia imaginado.
— Olá! — a voz da mulher soou pelos alto-falantes. — Qual é o seu nome, mocinha?
— Meu nome é Nishinosono. — respondeu. — Prazer em conhecê-la. Hmm, eu sou...
— Ah, eu sei seu sobrenome. Qual é o seu primeiro nome?
— Moe.
— Moe? Com quais caracteres kanji seu nome é escrito?
— Consiste nas letras que indicam “brotando” e “pintura”, respectivamente.
— Quantos anos você tem?
— Tenho quase vinte anos. — respondeu Moe. Tinha muitas perguntas preparadas, porém para sua surpresa a mulher na tela estava conduzindo a conversa.
— Como chegou aqui? — perguntou a mulher.
— Vim de helicóptero.
— O helicóptero do diretor, não é?
— Não, não era. — Moe balançou a cabeça. — Bem, Dra. Magata... Você conhece meu pai, não é?
— Qual é o resultado da multiplicação de 165 por 3.367? — perguntou a mulher de repente.
— É 555 mil e... 555. Seis números 5 seguidos. — respondeu Moe rapidamente. Então, ficou um pouco surpresa. — Por que me fez fazer esses cálculos?
— Eu a testei. Acho que é boa em cálculos. — a mulher esboçou um pequeno sorriso. — Contudo parece que multiplicar por sete não é o seu forte, já que demorou um pouco para chegar ao último dígito. Por quê?
— Não sou ruim nisso. Sete é o meu número favorito. — Moe cruzou as pernas para se acalmar.
— Não, acredito não tenha consciência. Quando aprendeu a tabuada, deve ter tido dificuldade com a coluna do sete. Foi no jardim de infância? Ou quando era mais nova? Claro, sete é um número único. Não tem irmãos, tem? De todos os números, só o sete é solitário.
Moe era de fato filha única.
— Hmm... Posso perguntar sobre a sua história? — Moe tentou acelerar o passo. — Quero dizer, sobre meu pai...
— Sua mente trabalha rápido. Também é decidida. E... — a mulher disse, encarando Moe. — Tem a capacidade de pensar e dar saltos de raciocínio. Esse é o seu maior talento. Então... Encontrei o Dr. Kyosuke Nishinosono quatro vezes, há dezesseis anos, uma vez nos Estados Unidos... Você estava lá conosco. Perguntei ao doutor o seu nome, no entanto ele não respondeu porque você começou a chorar. Lembro que estava usando um vestido vermelho e uma fita na cabeça. Foi há dezesseis anos, em 16 de março... O lugar era Champaign.
— Ainda se lembra disso? Ou... — Moe perguntou surpresa.
— Ou, já que veio aqui hoje, eu poderia ter feito minha pesquisa com antecedência... É o que está pensando, correto? — a mulher respondeu sem perder o ritmo. — Essa é uma pergunta sem sentido.
— Há quantos anos está aqui? — Moe se forçou a fazer outra pergunta.
— Não faça perguntas sobre o que já sabe. — a mulher voltou a sorrir. — Essa introdução é inútil em uma conversa comigo. Não precisa usar conjunções. Não me interessa o contexto. — dizendo isso, a mulher penteou os longos cabelos para trás com uma das mãos.
— É verdade que matou seus pais? — Moe imediatamente fez outra pergunta.
— Então é rápida em responder. Também é muito perspicaz e observadora. — a mulher comentou em um tom lento. Era uma voz baixa, sem inflexão, embora nítida. — E seus pais? Como eles eram?
Moe imediatamente tentou esconder sua expressão.
— Sei que seus pais faleceram. — a mulher continuou indiferente. — Você acredita que veio me ver por causa disso. Mas não tenho nenhuma informação sobre seus pais que a satisfaça se lhe contasse. O Dr. Nishinosono era gentil. Nunca conheci a sua esposa. Estou perguntando como seus pais eram. Você viu o avião cair, não viu?
— Você parece ser capaz de ler a minha mente. — Moe escolheu suas palavras com crescente cautela em relação à oponente.
— Não existe tal coisa como uma mente. — a mulher sorriu de novo. — Está tentando falar sobre a psique humana. Muito bem, vamos conversar um pouco a respeito...
— Posso perguntar quem você é? — Moe expressou a honesta pergunta que lhe veio à mente de repente.
— Ah... Que surpresa. Você de fato tem uma mente brilhante. — ao dizer isso, a mulher arregalou um pouco os olhos e ficou em silêncio por um momento. — É isto que chamamos de perspicácia do pensamento humano. Deve ter pensado nisso agora mesmo, não é? É maravilhoso... É algo que uma máquina não consegue fazer. Nenhuma inteligência artificial jamais conseguiria formular uma pergunta como “quem eu sou?”. Porém você me conheceu e conversou comigo, e em apenas algumas dezenas de segundos, intuiu a diferença entre mim e a mulher chamada Shiki Magata que havia construído previamente, e inconscientemente proferiu essa pergunta. Essa rapidez de acesso não pode ser imitada por uma máquina. É importante. Sou Shiki Magata. Não sou outra personalidade que possa considerar suspeita.
— Dra. Magata, por que assassinou seus pais? — Moe repetiu a mesma pergunta.
— Não posso responder à pergunta “por quê”? — respondeu a Dra. Magata com um sorriso. — Contudo posso lhe dizer como eles foram mortos. Quer dizer, porque eu testemunhei...
— Por que não pode responder?
— Porque não sei. Posso imaginar, no entanto nenhuma das respostas parece apropriada. Gostaria que perguntasse à pessoa que os matou.
— Doutora, está dizendo que não os matou? — Moe inclinou-se para a frente.
— Não, não matei. Pelo menos, na minha consciência, essa é a verdade. Quando seus pais morreram no acidente, se interessou em saber por que aconteceu? Estava então...
— Eu tinha dezesseis anos. — Moe mencionou calmamente. — Não me interessa a causa daquele acidente. Meu pai e minha mãe não voltariam ainda se descobrisse.
— Meus pais morreram quando eu tinha quatorze anos. — não havia a menor sombra no rosto da Dra. Magata. — As pessoas parecem pensar que matei meus pais. Todavia, é certo dizer que isso não era impossível. Estava coberta de sangue com a arma do crime que tirou a vida dos meus pais... Como bem disse, nada se cria, mesmo que se investigue a causa.
— Você não se lembra? — Moe cerrou um olho.
— Não é preciso. Me lembro sim. Lembro-me de tudo sobre como alguém os matou. — a Dra. Magata respondeu com uma expressão gentil. — Foi a boneca. Sabe, eu vi.
— Foi a boneca? — Moe repetiu. — Que tipo de boneca era? Foi aquela boneca que cometeu o assassinato?
— Não sei. Ela foi embora. — a Dra. Magata penteou o cabelo para trás outra vez. — Entendo que as pessoas não acreditam nessa história. Entretanto a verdade não tem nada a ver com a compreensão dos outros.
A Dra. Shiki Magata deveria ser muito mais velha que Moe. Porém, a mulher na tela à sua frente parecia uma adolescente. Seu queixo fino, traços esculpidos e pele clara lhe davam uma aparência tipicamente japonesa. Seu longo cabelo preto era liso e arrumado, escondendo um pouco seus ombros esguios. A tela mostrava apenas uma pequena parte da imagem.
— Bem, isso significa, em resumo... Doutora, sua outra personalidade cometeu o assassinato? — perguntou Moe.
— Essa também deve ser uma ideia errônea. — respondeu a Dra. Magata rapidamente. — De fato, existem outras personalidades em mim. Mas, Nishinosono, sabe de uma coisa? As outras personalidades em mim não conhecem meus pais.
— Como pode saber?
— Porque converso com elas o tempo todo. Literalmente, o tempo todo. Sei disso. Divida os números de um a dez em dois grupos. E multiplique todos os números em ambos os grupos. Os dois produtos podem ser iguais?
— Isso não é possível. — respondeu Moe. — Um grupo contém sete, então o produto é um múltiplo de sete. Contudo o outro grupo não tem sete, então eles não são iguais.
— Viu? Só o sete é solitário, não é? — disse a Dra. Shiki Magata. — De todas as minhas personalidades, só eu, Shiki Magata, tenho um motivo para matar meus pais. Portanto, se meu corpo físico matou meus pais, como posso não me lembrar? Só eu sou o ser como o sete... E B e D também.
B e D...? Moe não entendeu o significado das palavras da doutora.
— Hmm, qual é o seu motivo? — perguntou Moe.
— Talvez eu quisesse brincar lá fora... — respondeu a dra. Shiki Magata na tela. — Com base nas diversas evidências apresentadas, diria que tal motivo é razoável. Realmente acha que coisas como motivos têm algum significado? Você veio até aqui para me perguntar isso?
— Não, não acho.
— Agora, vamos ao assunto principal... — disse a Dra. Magata, desviando o olhar pela primeira vez. — Você tem dezessete minutos e quarenta segundos restantes.
Parte 2
Agora é verão. Moe se lembrou.
A garota na tela (sim, ela merecia ser chamada assim), quando Moe olhou atentamente, usava um suéter branco e luvas finas nas mãos, às vezes visíveis. Talvez estivesse trabalhando. Não, não há estação do ano neste lugar, para começar. Sem dúvida, como uma lancheira Tupperware, este lugar deve ser hermeticamente fechado.
— Doutora, seu confinamento neste quarto já dura quinze anos, não é? — Moe se lembrou das perguntas que guardava na cabeça. — Que mudanças presenciou nesses quinze anos vivendo em um lugar sem estações do ano, sem dia e noite? Que mudanças lhe ocorreram devido à morte repentina de seus pais?
— Antes de mais nada, quero assegurar-lhe desde já que não estou nesta sala por vontade própria desde o início. Portanto, qualquer mudança na minha forma de pensar sobre o meu ambiente atual não pode ser positiva. No entanto, muitas coisas se tornaram independentes em mim. Isso, de certa forma, me estabilizou e me ancorou na realidade. — respondeu a Dra. Magata. — Gostaria de saber como essa pergunta se relaciona com a sua vida?
— Não tenho certeza. Eu... Fiquei na cama por um tempo depois que meu pai e minha mãe faleceram. Tudo parecia sem sentido e perdi o interesse pela sociedade humana. Doutora, sua opinião pode servir como dados de amostra para eu criar um modelo elementar na minha simulação de vida. — respondeu Moe, escolhendo as palavras com cuidado.
— Vejo que tem um ponto interessante.
— Doutora, é a sua habilidade que torna muitas coisas independentes? — continuou Moe.
— Eu já tinha experenciado o mundo exterior por quatorze anos antes de ser confinada aqui. Portanto, a nostalgia pelo mundo exterior me controla. Isto não é uma habilidade natural. Os dados que obtém de mim são muito específicos para se adequarem ao seu modelo, Nishinosono. Sua pergunta não é precisa. Imagino que o professor Saikawa tenha lhe dito para se encontrar comigo, certo?
— Não, vim aqui por vontade própria. — respondeu Moe, olhando para baixo. — Vim aqui porque estava interessada na sua pessoa, Doutora. Foi mentira que queria ouvir um episódio sobre meu pai.
— Uma pessoa honesta. — a Dra. Magata sorriu. — Você cresceu em uma família rica. Seu pai era rigoroso? Então, por isso, gosta do professor Saikawa, certo?
— Minha resposta é sim para ambas as perguntas. — Moe assentiu. — Doutora... Como um dos seus estudos, a tecnologia de realidade virtual, pode ser útil?
— Seus tópicos mudam um após o outro. A realidade virtual eventualmente se tornará apenas realidade. — respondeu. — Se pensar no que a realidade faz pelos humanos, responderá à sua pergunta agora.
— O que exatamente isso significa?
— A realidade interfere em nós, seja útil ou não. Lavamos roupa porque as roupas ficam sujas. Se é útil ou não, é subjetivo. Pelo menos, é útil para quem lava roupa. Essa é a realidade. Em outras palavras, é uma ilusão que percebemos depois. Esta conversa parece uma entrevista para uma revista. Não precisa fazer anotações?
— Estou bem. Tenho boa memória. Não se preocupe. — Moe sorriu. — Quais são os problemas com a tecnologia de realidade virtual?
— No atual momento, existem três obstáculos principais. O primeiro é a falta de poder de processamento do hardware. O segundo é a questão moral da prontidão dos humanos para aceitá-lo. E o terceiro são os efeitos biológicos desconhecidos que surgirão após a aceitação humana. O primeiro problema está sendo resolvido gradualmente. Já se passaram dez anos desde que me envolvi com essa tecnologia, e a capacidade de hardware dos computadores está se aproximando da meta. O segundo problema é mais sério, embora ainda aceitável para uma geração que, como a mencionada antes, nasceu e cresceu em um ambiente de realidade virtual. Os humanos são mais flexíveis do que os programas. O problema das reações humanas também será resolvido quando a geração mudar. O terceiro problema são as síndromes mentais e físicas que sempre aparecem em qualquer reforma. Este não é o meu campo de atuação, e não me interesso por esse aspecto. Para ser franca, é uma questão trivial.
— Eu me matriculei no Departamento de Arquitetura da minha universidade. Em um futuro como esse, como a arquitetura e as cidades serão transformadas? Como as definiria no futuro? — perguntou Moe.
— A arquitetura pode ser uma protetora em uma rede, e uma cidade é um sistema. Ambos são conceitos que se transformam de hardware em software. — respondeu a Dra. Magata sem hesitar. — Arquitetura e cidades não são mais do que programas. Apenas a vontade coletiva e o fluxo de informações são os conceitos da cidade, ou, em outras palavras, aproximam-se do próprio conceito de rede. O professor Saikawa escreveu a mesma coisa. Você leu, não é? Quando mencionei o nome do professor Saikawa, você perguntou de repente sobre realidade virtual. E quando perguntei se gostava do professor Saikawa, respondeu com um modesto sim.
— O acesso material será eliminado? — perguntou Moe, ignorando a segunda parte da explicação da Dra. Magata.
— Sim, será. É provável que se tornará um item de luxo, como uma joia. Até mesmo apertar a mão de outra pessoa será especial. Qualquer oportunidade que coloque as pessoas em contato umas com as outras é um item de luxo. Tem que ser por causa das questões energéticas. A energia que resta para o futuro da humanidade é muito limitada. Os humanos terão que entrar no mundo eletrônico. Se quisermos proteger o meio ambiente global, as pessoas não devem se mover. Devem ficar em seus quartos, como eu. Por que não quer falar sobre o professor Saikawa? Está com vergonha?
— Então eles não poderão matar pessoas, certo? — disse Moe o que lhe veio à mente.
— Excelente percepção. — a Dra. Magata sorriu elegantemente. — Tem razão, Moe Nishinosono. Por que você passou a gostar tanto do professor Saikawa?
Essa pergunta é o seu contra-ataque, pensou Moe. Ela rapidamente reconstruiu seu arsenal teórico. Tinha a sensação de que seu baluarte talvez não fosse capaz de deter a onda avassaladora da Dra. Magata.
— O professor Saikawa foi aluno do meu pai. — Moe respirou fundo e respondeu. — Foi o último aluno do meu pai. Portanto... Eu o observo desde criança. É uma pessoa muito inteligente e suas ideias são flexíveis. É uma pessoa digna de respeito.
— Essa não é uma resposta, Nishinosono. — a Dra. Magata encarou Moe nos olhos. — Quando conheceu o professor Saikawa pela primeira vez? Você se lembra?
— Lembro. Foi quando estava na quinta série. — Moe deu uma resposta honesta.
— Naquela época, o que pensou do professor Saikawa? — perguntou a Dra. Magata em voz baixa.
— Fiquei surpresa por existir um adulto mais inteligente do que eu. — respondeu Moe. — Nunca tinha conhecido um adulto, incluindo meu pai, que fosse mais inteligente do que eu.
— Nunca tive uma oportunidade como essa. Você teve sorte. E? Se apaixonou pelo professor Saikawa? Não gostava dele?
— Não posso afirmar com certeza. — Moe olhou para baixo.
— O que aconteceu? Na época.
— Fiz um truque de cartas. Era boa com truques de mágica. — Moe olhou para os sapatos, mas depois levantou a cabeça e começou a falar. — O truque foi elogiado por todos a quem mostrei, e ninguém conseguiu identificá-lo, porém o professor Saikawa não se surpreendeu. Eu... Perguntei por que não estava surpreso. O professor não respondeu. Contudo o professor percebeu meu truque.
— Então, o que achou?
— Fiquei tão frustrada que inventei um novo truque. — respondeu Moe. Enquanto falava, se lembrava vividamente do momento.
— Não, estou perguntando o que achou do professor Saikawa. — a Dra. Magata encarava Moe. Seus olhos eram castanhos e pálidos.
— Acho que provavelmente não gostava dele.
— No entanto agora gosta, não é? Em que momento seus sentimentos mudaram? — a Dra. Magata fez a seguinte pergunta.
— Bem... — Moe olhou para baixo e para os sapatos outra vez. — Bem, não me lembro disso. Uma coisa dessas. Doutora, por que me faz tantas perguntas?
— Você se lembra do dia em que seus pais morreram? — a Dra. Magata continuou a pergunta.
— Sim, me lembro bem.
— Você chorou?
— Chorei.
— O acidente aconteceu à noite, certo?
— Certo. Fui ao aeroporto encontrar meus pais. O acidente aconteceu pouco antes do pouso.
— O professor Saikawa também estava lá, não estava?
— Estava.
— Nishinosono. O que estava vestindo naquele dia?
— Não me lembro. — depois de responder isso, Moe tentou se lembrar.
Parte 3
Parecia estar quente lá fora. O prédio de pesquisa de oito andares do outro lado da rua tinha unidades externas de ar-condicionado feias saindo de todas as janelas, claramente sombreadas pelas paredes irregulares. Cerca de um terço das janelas estavam fechadas por estantes de livros ou prateleiras de aço cheias de equipamentos de laboratório. Pelo menos a Faculdade de Engenharia de uma universidade nacional parecia não se importar com as aparências.
Sohei Saikawa encarava com olhar distraído o lado de fora. Dentro da sala de conferências, estava acontecendo a última reunião da comissão da tarde, e cerca de vinte membros da comissão estavam reunidos de cada departamento da Faculdade de Engenharia. Saikawa era um representante do Departamento de Arquitetura.
A discussão estava relacionada à solicitação de orçamento ao Ministério da Educação para o próximo ano fiscal, que discutia o estabelecimento de uma instalação educacional de última geração na Faculdade de Engenharia. Palavras batidas como “rede” e “multimídia” eram usadas, contudo Saikawa mal as ouvia. Há cerca de dois meses, vários membros do comitê universitário visitaram o MIT, nos Estados Unidos. Por que uma visita seria necessária em uma era em que as redes conectam o mundo? Saikawa não conseguia entender. Em resumo, parecia que o Ministério da Educação não aprovaria a visita a menos que demonstrassem, na prática, que estavam investigando e examinando o assunto com diligência. Lamento pelo transtorno. Tenho certeza de que outro relatório extenso será produzido. Quantos relatórios realmente relevantes existem no mundo? Pensou consigo mesmo.
Isso significa, em outras palavras, que a cúpula está atrasada.
Pensando nisso, Saikawa assentiu para si mesmo.
Se há orçamento para construir salas de aula com computadores, ar-condicionado deveria ser instalado em todas elas antes, e, em primeiro lugar, não há salas de aula suficientes. Antes de tudo, deveriam aumentar o número de salas de aula. Será que essas demandas básicas não estão sendo aprovadas pelo Ministério da Educação...?
As discussões absurdas continuaram indefinidamente. Quantos professores aqui utilizam a rede? Se pudessem usar e-mail, não haveria necessidade desta reunião. Não haveria necessidade de atas ou cópias de documentos volumosos. Recursos finitos, mentes brilhantes e, acima de tudo, tempo precioso, estão sendo desperdiçados dessa forma.
— E você, professor Saikawa, do Departamento de Arquitetura? Tem alguma opinião? — o chefe do departamento de repente perguntou a Saikawa.
— Bem, não tenho objeções em geral. — respondeu Saikawa, sem expressão. — É importante dar aos alunos o máximo de contato possível com esse assunto. No entanto, não tenho certeza sobre a ideia de criar uma nova disciplina para educação em informação. Prefiro pensar que precisamos incorporar a educação em informação às disciplinas atuais...
Assim que Saikawa expressou sua opinião, ele imediatamente a esqueceu. Só recentemente ele conseguia expressar uma opinião tão vaga com uma expressão séria, envolta em palavras que pareciam fazer sentido. Também havia aos poucos compreendido, embora de maneira instintiva, que o jeito de viver é nunca expressar seus verdadeiros sentimentos. Era como tentar enganar um carro para que funcionasse mal. Contanto que chegasse ao seu destino, era tudo o que importava.
A reunião terminou após duas horas, e Saikawa fez a penosa caminhada de volta para o prédio de pesquisa pelo corredor do prédio das salas de aula.
Não trancou a porta da sala. Quando abriu a porta, uma onda de ar frio o envolveu.
Havia apenas uma planta na sala de Saikawa. Ela alcançava o teto baixo do cômodo. Não tinha nenhum interesse em plantas. Aliás, preferia folhas a flores. A planta, chamada Pachira, não era algo que havia trazido para cá.
Saikawa usava duas mesas lado a lado, uma das quais tinha um monitor de 21 polegadas. Agora, um padrão psicodélico, como uma ameba, se movia na tela. Este aparecia automaticamente para evitar que o monitor queimasse, e um programa chamado protetor de tela o exibia.
Saikawa colocou os arquivos da comissão de volta em uma prateleira de aço. Em seguida, pegou uma lata de refrigerante da pequena geladeira no canto da sala e sentou-se em uma cadeira. Antes de abrir a lata, acendeu um cigarro.
Se a comissão não estivesse na universidade, talvez a pesquisa avançasse duas vezes mais rápido.
Saikawa suspirou.
Ouviu alguém falando na sala ao lado. A sala ao lado era a de Momoko Kunieda, uma assistente de pesquisa do curso de Saikawa. A assistente de pesquisa Kunieda não falava em um tom de voz que pudesse ser ouvido na sala ao lado. Era provável que estivesse no meio de uma aula com um aluno.
Saikawa decidiu beber o refrigerante enquanto fumava um cigarro. Por mais estranho que pareça, os dois pareciam se separar de forma natural, mesmo tendo entrado pela mesma boca.
Houve uma batida na porta, e ele atendeu.
— Com licença. — Moe Nishinosono entrou na sala.
Como de costume, estava vestida de forma chamativa. Usava uma regata rosa vibrante, jeans cinza-claro e um colete branco transparente. Carregava uma grande bolsa amarela a tiracolo. Seu cabelo era curto e liso, e usava um brinco rosa que combinava com a blusa. Ao observá-lo mais de perto, percebeu que o brinco era de vidro e tinha o formato de um elefante.
Em abril, ela havia acabado de ingressar no Departamento de Arquitetura, ao qual Saikawa pertencia. No geral, os alunos do primeiro ano da graduação raramente iam ao escritório do professor. Eles só eram orientados para suas teses a partir do quarto ano, e a maioria dos funcionários do escritório eram alunos de pós-graduação. Todavia Moe Nishinosono era filha do Dr. Kyosuke Nishinosono, mentor de Saikawa e ex-reitor da Universidade N. O Dr. Nishinosono e sua esposa morreram em um acidente de avião três anos antes. Saikawa tinha tido a oportunidade de visitar a casa do Dr. Nishinosono com frequência antes do acidente e conhecia Moe bem desde que era criança. Ela visitava o seu escritório com frequência desde que entrou na Universidade N.
— Professor, você parece cansado. — Moe olhou para o rosto de Saikawa e disse. — Teve outra reunião de comitê?
Saikawa assentiu. Não tinha energia para responder.
— Gostaria de um café? — Moe perguntou enquanto colocava sua grande bolsa no chão.
— Não, obrigado, estou bebendo refrigerante... Nishinosono, se quiser café, pode preparar. — disse Saikawa. Ele costumava chamá-la de “Moezinha”, entretanto achou inapropriado chamar uma aluna de seu departamento dessa maneira, então passou a chamá-la dessa forma agora.
— Eu quero café, então vou preparar.
Moe colocou o filtro na cafeteira e ligou a máquina de café. Ela gostava de café preto tanto quanto Saikawa, embora nunca tinha visto Moe beber café, pelo menos não na casa da família Nishinosono. Ela devia ter experimentado bebidas mais adultas durante a faculdade. Depois que seus pais morreram em um acidente, sua mudança foi notável. Até o ensino médio, Moe tinha cabelos longos, sempre usava saias e, como a Sra. Nishinosono, falava em voz baixa e suave. Hoje em dia, sempre usava jeans e, às vezes, um boné de beisebol. Seu jeito de falar também havia mudado muito.
Saikawa observou as costas de Moe por alguns instantes.
Todo mundo muda tanto assim quando entra na universidade, pensou. Quanto à aparência das mulheres, Saikawa não tinha experiência em expressar seus sentimentos sobre elas. No entanto, mesmo desconsiderando os comentários condescendentes, Moe podia ser considerada uma mulher bonita. Sendo mais preciso, havia se tornado muito mais bonita nos últimos três anos.
— O que há de errado? Você está realmente deprimido, professor. — disse Moe, olhando para o outro lado.
— Bem, essas coisas acontecem. — respondeu Saikawa com um suspiro. — Como sabe que não estou bem?
— Oh, nunca percebeu? — Moe olhou para trás e sorriu. — Professor, você acabou de voltar para esta sala, não é? Porque a tela está mostrando um protetor de tela e não há nada na sua mesa. E não está trabalhando. Os arquivos de comitê sem graça serão guardados na prateleira assim que voltar. Além do mais, quando volta para este escritório de bom humor, o primeiro que faz é tomar um café. E bebe refrigerante direto da lata quando está cansado e não quer fazer nada.
— Entendo... Você está me observando muito bem. — Saikawa sorriu.
Moe sentou-se na cadeira ao lado da mesa e cruzou as pernas.
— Mais do que tudo... Você nem perguntou sobre minha visita a Dra. Magata.
— Ah, isso me lembra... — Saikawa fechou os olhos e virou o rosto para cima. — Eu tinha me esquecido disso. Poderia me contar? Sobre aquela hora... Vou tomar uma xícara de café, afinal.
— Já fiz o suficiente para nós dois. — com essas palavras, Moe sorriu alegremente.
Ao ver seus lábios encantadores, Saikawa ficou um pouco mais animado.
— Então, conseguiu conhecer a Dra. Shiki Magata? — perguntou Saikawa.
— Claro! — Moe assentiu com satisfação, inclinando a cabeça e penteando o cabelo para trás.
— Oh, que ótimo! — Saikawa recostou-se na cadeira. — Que ótimo! — repetiu a mesma frase.
Saikawa se perguntava quantas pessoas no Japão teriam permissão para se encontrar com a Dra. Shiki Magata.
Não conseguia imaginar o poder político da prestigiosa família Nishinosono que Moe Nishinosono havia usado. Sabia bem que seu tio era o chefe da Polícia da Prefeitura de Aichi e sua tia era a esposa do governador da prefeitura. Seu falecido pai foi o ex-reitor da Universidade N, uma das antigas Universidades Imperiais. Outros parentes da família Nishinosono, espalhados por diferentes partes do país, estavam no auge do status e da riqueza em seus respectivos campos. A própria Moe Nishinosono herdara a vasta fortuna de seus pais e pagava impostos muitas vezes superiores ao salário de Saikawa.
Com a ajuda da família Nishinosono, talvez ela pudesse... Ele até havia imaginado isso.
Ainda assim, encontrar a Dra. Shiki Magata era difícil. Desde a adolescência, Shiki Magata era uma programadora genial, no auge da ciência da computação. Ela era filha do Dr. Sachiro Magata, um dos maiores especialistas em engenharia da informação, e da Dra. Michiyo Magata, uma das maiores autoridades em linguística. Era uma figura mítica em sua área, e seu nome seguia sendo muito conhecido em diversos campos, desde um programa de computador chamado Interpreter e desenvolvimento de sistemas operacionais até softwares de jogos. Ela recebeu um mestrado pela Universidade de Princeton aos nove anos e um doutorado pelo MIT aos onze. Também se tornou engenheira-chefe na empresa MF, onde estava em plena atividade aos doze anos. Era impossível que tal carreira não fosse considerada um mito. Eram essas as histórias que Saikawa ouvira quando estava no ensino médio. O avô materno de Shiki Magata era alemão, então não era puramente japonesa. No entanto, afinal, foi a primeira japonesa a ser chamada de “gênio” e a ser destaque na mídia. A expressão “menina prodígio” foi cuidadosamente criada para descrevê-la. De fato, quando estava no jardim de infância, conseguia resolver multiplicações de 10 dígitos imediatamente e fazer cálculos mentais de raízes cúbicas em instantes. Seus talentos se limitavam em sua maior parte à matemática, todavia até mesmo pessoas comuns conseguiam perceber que suas habilidades eram extraordinárias. Sem mencionar que seus pais eram pesquisadores renomados no mundo acadêmico. Suas habilidades seriam cada vez mais desenvolvidas em um ambiente adequado para elas.
Mais do que isso, um evento sensacional a tornou ainda mais famosa mundialmente.
De que outra forma poderia ter ficado mais famosa?
O mundo inteiro ficou atônito.
Quando tinha quatorze anos, Shiki Magata foi presa sob suspeita de assassinar seus pais, o Dr. Sachiro Magata e a Dra. Michiyo Magata.
— Sobre o que conversaram? Como ela era? — o cansaço de Saikawa desapareceu.
— Bem, conseguimos conversar por uns trinta minutos, mas foi meio... — Moe parecia estar relembrando o tempo em que conversaram. — Ela tinha um ar um pouco assustador. Porém não fazia ideia de que se interessava tanto pelas pessoas. Sim, ela era incrivelmente bonita...
Moe contou a Saikawa em detalhes sobre sua visita à Dra. Magata.
Um dos alunos de pós-graduação de Saikawa, sob sua supervisão, estava trabalhando em sua pesquisa de mestrado sobre a influência da realidade virtual no futuro da arquitetura. Ao visitar o escritório de Saikawa, Moe fez amizade com o aluno de pós-graduação e descobriu que a Dra. Shiki Magata era uma pioneira nessa área no Japão. Então se lembrou de que seu pai era amigo da Dra. Shiki Magata. Em julho, Moe anunciou de repente que iria vê-la. A princípio, o estudante de pós-graduação que conversava com Moe não a levou a sério, pensando que era apenas um capricho seu. Contudo quando de fato começou a fazer planos, ele relatou isso a Saikawa.
Shiki Magata foi absolvida em seu julgamento pelo assassinato de seus pais. Isto porque foi considerada insana. Desde então, Shiki Magata desapareceu da vista do público. Ninguém sabia onde estava.
E foi esquecida pelo público.
No entanto, na verdade, Saikawa sabia o paradeiro de Shiki Magata. Era o que ouvira de um amigo do Departamento de Engenharia da Informação, e era de conhecimento geral na área que ela estava em um certo instituto de pesquisa em sua região, ou seja, na província de Aichi. Shiki Magata estava em um instituto de pesquisa privado na Ilha Himaka, na Baía de Mikawa. O instituto de pesquisa foi construído com o patrimônio de seus pais e uma doação de uma fundação relacionada, e Shiki Magata vinha conduzindo pesquisas lá desde o incidente. A Dra. Magata continuou publicando dois artigos por ano, sob seu próprio nome, em periódicos americanos com revisão por pares.
Saikawa teve que tirar o chapéu para Moe por sua energia. Uma estudante universitária havia conhecido a mundialmente famosa Dra. Shiki Magata. Por outro lado, ele seguia sem saber por que Moe havia decidido encontrá-la. Talvez não fosse uma razão lógica que Saikawa pudesse compreender.
— Entendo. Parece que foi entrevistada mais vezes do que entrevistou. Talvez aquela doutora enfim tenha se interessado por outras pessoas. Suponho que sim... — disse Saikawa. O relato de Moe sobre seu encontro com a Dra. Shiki Magata lhe proporcionou a maior empolgação do ano. — De qualquer forma, foi incrível. Que ótimo. Eu te invejo... Gostaria de tê-la conhecido também.
— Ela te conhecia, professor. — acrescentou Moe.
— Isso porque você ia visitá-la, então deve ter feito pesquisa preliminar. — Saikawa sorriu amargamente. — Apenas deve ter dito por educação.
— Acha que ela é o tipo de pessoa que faria uma coisa dessas? — disse Moe, segurando sua xícara de café com as duas mãos.
De fato, não conseguia acreditar que um gênio como ela se importasse com algo assim. De repente Saikawa ficou feliz por ela ter lido seu artigo.
— Quão incrível era aquele instituto de pesquisa? — perguntou Saikawa.
— Bom, era um enorme instituto de pesquisa. Era o único prédio naquela ilha. Visto de cima, é um prédio quadrado comum com um design simples. Não sei muito sobre o interior. Sabe, não vi tudo...
— Visto de cima?
— Sim, fui lá de helicóptero. — respondeu Moe, como se fosse óbvio. — Tem um heliporto naquele telhado.
— Oh, de helicóptero... Parece legal. — Saikawa assentiu. A família Nishinosono tinha seu próprio helicóptero particular. Pessoas ricas não costumam usar aviões. — Imagino por qual razão a Dra. Magata não encontra pessoas pessoalmente.
— Parece ser alérgica a humanos. — disse Moe, olhando para o teto. Era um hábito que tinha com frequência. — Essa foi a coisa mais decepcionante. Só consegui vê-la na TV. Eu fui até... Ouvi dizer que nunca conheceu ninguém.
— Gostaria de pelo menos poder mandar um e-mail. — Saikawa cruzou os braços sobre a cabeça e recostou-se na cadeira.
— Ela parece não se comunicar com o mundo exterior. — acrescentou Moe.
— O que você quer dizer com aquela... Boneca? — Saikawa fez outra pergunta.
— Hmm, também não tenho certeza. — respondeu Moe. — Na verdade, ela disse que foi uma boneca que matou seus pais. E a boneca foi para algum lugar...
Parte 4
Alguém bateu na porta e Fukashi Hamanaka, um estudante de pós-graduação que Moe conhecia bem, entrou no escritório do professor. Era um aluno do primeiro ano do mestrado, trabalhando com pesquisa em realidade virtual. Um jovem pequeno, de aparência feminina.
— Hmm, professor Saikawa, tem algo errado com meu computador. O senhor poderia dar uma olhada, por favor? — disse Hamanaka em voz alta. — Ah, Nishinosono, já voltou?
Moe sorriu alegremente.
Saikawa apagou o cigarro em um cinzeiro e se levantou.
— A Kunieda está ausente?
— A professora Kunieda está no meio de um seminário. — Hamanaka virou-se para o lado e respondeu. Eles não conseguiam ver o interior da sala adjacente, todavia era na direção do escritório da pesquisadora Kunieda. — É um pouco difícil para mim perguntar pra ela.
Hamanaka, uma pessoa tímida, sempre tentava ficar longe de Momoko Kunieda. A pesquisadora Kunieda era temida pelos alunos.
— Nishinosono, espere aqui um momento.
Saikawa saiu do escritório com Hamanaka. A sala dos alunos de pós-graduação ficava no andar de baixo do escritório de Saikawa. Moe já havia entrado lá várias vezes. Tinha a impressão de que era um lugar muito bagunçado e sem lei.
Moe tomava café frio sozinha no escritório de Saikawa, que cheirava a cigarro. Gostava de café preto naquela temperatura porque sua língua não tolerava nada quente.
A sala de Professor Associado tinha cerca de trinta metros quadrados, quase um quadrado perfeito. Originalmente, a sala era destinada a um pesquisador associado e tinha apenas metade da área da sala normalmente usada por um professor titular e um professor associado. Moe ouvira dizer que, quando Saikawa foi promovido a professor associado no ano retrasado, permaneceu ali porque teve dificuldades para transportar seus livros e móveis. A sala grande para um professor associado, que Saikawa deveria usar, ficava no mesmo quarto andar. Agora, era ocupada por alguns alunos que se preparavam para suas teses de conclusão de curso na disciplina de Saikawa. Moe nunca tinha estado naquela sala.
O escritório de Saikawa, com prateleiras de aço desajeitadas cobrindo todas as paredes, estava repleto de livros técnicos e arquivos em fileiras apertadas. Havia duas mesas, uma com dois Macintoshes em cima. Não havia impressora nesta sala. Era raro Saikawa imprimir algo, quando precisava, usava a impressora na sala dos alunos através da rede. Uma das peculiaridades da sala era uma única planta que Moe havia trazido. As paredes eram quase invisíveis, entretanto havia várias fotos de aviões fazendo acrobacias coladas na parte interna da porta de entrada. Moe nunca tinha ouvido Saikawa falar sobre aviões, mas imaginava que ele gostasse deles.
Atrás do vidro das prateleiras de aço, no pequeno espaço em frente aos livros enfileirados, havia todo tipo de coisa. Estavam realmente desorganizadas e também extravagantes. Uma imitação de parfait de frutas, um modelo de caça furtivo, um bumerangue australiano, uma antiga cabeça de fonte de máquina de escrever IBM, uma boneca de barro chinesa, um caractere chamado Kyoro-chan para o chocolate Choco Ball, um amperímetro antigo e uma câmera reflex de duas lentes. Tinham duas coisas em comum. Uma era que nenhuma delas tinha nada a ver com a pesquisa ou arquitetura de Saikawa. A outra era que todas eram coisas de que Moe gostava.
— Sohei. — a porta se abriu silenciosamente, sem bater, e Moe ouviu a voz de uma mulher. Moe se assustou e se levantou. Uma mulher de cabelos longos entrou na sala com um sorriso no rosto.
— Oh... Me desculpe! — disse a mulher com uma voz baixa e rouca. — Você é uma estudante, mocinha?
— Sim, senhora. O professor Saikawa voltará em breve. — respondeu Moe.
A mulher entrou na sala e olhou ao redor com curiosidade. Seus longos cabelos ondulados balançavam e ela exalava perfume. Aparentemente, não era uma estudante. Sua saia curta e justa era azul-marinho. Tinha sardas sob os olhos e o batom era vermelho escuro. Era um pouco mais alta que Moe, talvez por causa dos saltos. Uma beleza esbelta e de pele clara, porém Moe não conseguiu determinar sua idade, talvez perto dos trinta.
— Bem, então, poderia entregar isto a ele para mim? — a mulher entregou uma sacola de papel a Moe.
— Hmm, senhora, posso saber seu nome, por favor? — perguntou Moe educadamente.
— Você poderia... Talvez ser... Nishinosono? — a mulher falou com tom de voz baixo e com um leve ceceio. Moe imaginou que falava daquele jeito de propósito para parecer incompetente. A sacola de papel que recebeu continha uma caixa embrulhada. Quando Moe não respondeu, a mulher pareceu convencida de que sua especulação estava correta. Ela começou a rir baixinho.
— Sou Nishinosono. Com licença, posso perguntar quem é você? — Moe ficou um pouco irritada e sua voz se elevou.
— Eu sou... Humph... Setsuko Gido. — então os olhos da mulher se estreitaram de tanto rir.
— Sra. Gido... Quem é você?
— Eu sou... A propósito... Você le livros como o Man’yoshu? — perguntou Setsuko Gido.
— Não... — Moe balançou a cabeça. Não estava confortável com o ritmo da conversa da outra. — Há algo de errado com o Man’yoshu?
— Você é... Aquela Nishinosono... Hehe... — Gido não respondeu à pergunta de Moe. Seu olhar se fixou nela. — Por que não... Deixa o cabelo crescer? Aposto que ficaria muito bem.
— Bom, como sabe sobre mim? — Moe estava começando a ficar bastante irritada.
— Hum, porque o Sohei fala de você o tempo todo... — Gido voltou a rir.
Moe ficou ainda mais irritada por ela ter chamado o Professor Associado Saikawa pelo primeiro nome. Saikawa era de uma escola só para garotos, e Moe tinha ouvido dizer que todos os seus colegas do ensino médio o chamavam de Sohei...
Qual é a sua relação com o professor?
Moe estava prestes a perguntar, contudo não conseguiu pensar em uma maneira mais delicada de dizer, então ficou em silêncio.
— Desculpe incomodá-la. Tem um táxi esperando lá fora. — Setsuko Gido disse com um sorriso e colocou a mão na maçaneta. — Nishinosono, você gosta de quebra-cabeças?
— Não... — Moe respondeu. — Por quebra-cabeças... Está se referindo a jogos de encaixe ou algo assim?
— Sim, essas coisas me agradam. Sabe, eu adoro... Com certeza voltarei a me juntar a vocês em algum momento. Então, por favor, mande lembranças para o Sohei e diga que a Setsuko esteve aqui.
Setsuko Gido saiu da sala.
Moe ficou parada por um momento, olhando para a porta fechada. No fim das contas, sentiu que estava fora de sintonia com a frequência de Setsuko Gido.
Por que estava falando sobre quebra-cabeças...?
Moe lavou as xícaras de café dela e de Saikawa e as guardou no armário. A xícara de Saikawa ainda tinha meio café, contudo jogou fora. Por essa ação, percebeu que Saikawa estava de mau humor.
Ela saiu do escritório para ir até a sala dos estudantes de pós-graduação no terceiro andar, onde Saikawa estava. Saikawa estava logo abaixo, e deveria ter avistado Setsuko Gido. Por que não percebi algo tão óbvio? Pensando nisso, Moe desceu as escadas.
Parte 5
— O mais importante é evitar colocar disquetes de origem desconhecida no Macintosh. — explicou Saikawa a Hamanaka. — Você não deve receber disquetes de jogos ou qualquer coisa do tipo de ninguém.
Quatro dos seis Macintoshes na sala dos alunos de pós-graduação estavam infectados com um vírus de computador. Um verificador de vírus revelou que se tratava de um vírus de origem francesa que havia se espalhado rapidamente pelo mundo cinco anos antes. No entanto, o número de arquivos danificados era muito pequeno para ser contabilizado. Por sorte, Hamanaka percebeu logo no início que algo estava errado com seu computador. Saikawa conseguiu concluir a maior parte do trabalho relacionado ao vírus.
— Além disso, deve ter cuidado ao trazer softwares da rede para o seu computador. — Saikawa se virou para Hamanaka enquanto retirava um disquete. — Se possível, não traga nada. É melhor comprar softwares apenas para o que de fato precisa.
— Desculpe, professor! — disse Hamanaka com um olhar apologético. Ele contou a Saikawa que havia copiado um jogo cerca de três dias antes.
Moe Nishinosono entrou na sala dos alunos de pós-graduação. Na sala bagunçada estavam presentes apenas Saikawa e Hamanaka.
— Professor, o senhor teve uma visita. — disse Moe enquanto se aproximava dos outros dois.
— Quem era? — perguntou Saikawa, olhando para o visor. Estava sentado na mesa de Hamanaka com um cigarro na boca. Hamanaka estava atrás de Saikawa.
— Era uma pessoa chamada Setsuko Gido... — relatou Moe em tom formal. — Mas ela já foi embora. Trouxe uma pequena lembrança para você... Acho que deve ser alguma caixa de bolo barata...
— Oh, é mesmo... — Saikawa não mudou sua expressão. — Hamanaka, você não transferiu há alguns dias alguns arquivos em um disquete da sala dos alunos de pós-graduação para o Macintosh na sala dos alunos do quarto ano? Deveria verificar se há vírus lá também.
— Bem... Com o FTP (Protocolo de Transferência de Arquivos) no UNIX, não precisamos de disquetes. Então, acredito que não haja problema... — respondeu Hamanaka.
— Já descobriu como se livrar dos vírus, não é? — Saikawa perguntou e Hamanaka assentiu.
— Com licença... — perguntou Moe. — Especificamente, o que é um vírus? Vocês já se livraram dele? Eu gostaria de tê-lo visto... Se possível.
— Isto não é algo que se possa ver. — Saikawa olhou para Moe. — Com o software certo, poderia descobri-lo. Ele não se torna visível da maneira usual e está secretamente anexado a algum software ou dado. Às vezes, um vírus está escondido desde o início dentro de um programa que funciona corretamente. É o que chamamos de Cavalo de Troia...
— Como vocês se livram dele? — perguntou Moe.
— Existe um programa antivírus chamado vacina. O que acabamos de encontrar era um tipo de vírus mais antigo. Então, estava dentro da proteção da vacina. — disse Saikawa enquanto se levantava. — Porém se for um vírus mais recente do que o software da vacina, não funcionará bem.
— O que um vírus faz? — perguntou Hamanaka.
— Várias coisas. Alguns não fazem nada, apenas ocupam a memória do computador, enquanto outros podem corromper todos os arquivos do seu disco rígido. Os vírus que não fazem nada de relevante são os que levam mais tempo para serem descobertos. Então, sim... Chama-se período de incubação e, na maioria das vezes, não fará nada por um tempo. Portanto, quanto menos sintomas imediatos tiver, mais inofensivo o vírus parecerá. Durante o período de incubação, ele infecta outras máquinas. É como uma doença humana. Se os sintomas fossem graves a princípio, o paciente seria colocado em quarentena. Dessa forma, há menos chances de se espalhar para outros humanos.
— Será que o vírus pensa nessas coisas durante a incubação? — perguntou Hamanaka.
— Não faço ideia... Não sei sobre vírus de verdade, contudo pelo menos os vírus de computador são criados por humanos. No caso do UNIX, a estrutura de arquivos é complexa e a rede está sempre conectada mundialmente, então é um paraíso para vírus. Antigamente, vírus de computador não eram um grande problema. Bastava desligar o computador e ele morria. Uma vez morto, o vírus desaparecia. No entanto hoje em dia, os computadores têm grande capacidade de disco rígido e estão totalmente conectados em rede.
— Por que essas pessoas criariam vírus? — perguntou Hamanaka, levando a mão à boca.
— Hackers os criam, certo? — apontou Moe.
— Hacker não é uma palavra com má conotação. A mídia está usando o termo de forma errada. Programadores que criam vírus são chamados de crackers. Entretanto acho que deve ser interessante criar uma forma de vida que se multiplica usando um computador. Aposto que é... — Saikawa acendeu um cigarro. Então, exalou a fumaça. — Se um programa que você criou está se multiplicando pelo mundo todo, bem, é sem dúvida interessante de certa forma, não é?
— O público em geral parece pensar que vírus de computador são vírus vivos de verdade. — disse Moe. — Quando eu era criança, também pensava assim. Não achava que era apenas um programa. Acreditava que computadores podiam ficar doentes como as pessoas...
— Não, essa não é necessariamente uma percepção falsa. — Saikawa soltou outra baforada de fumaça. — Quero dizer, até mesmo a tecnologia inventada no século XIX deve ter parecido uma extensão da magia para as massas. Aliás, como acha que a vida, ou seja, o estar vivo, é definida?
— Algo que um dia vai morrer está vivo? — Hamanaka ofereceu sua opinião com um olhar sério.
— Isso não é suficiente, Hamanaka. — Moe olhou para Hamanaka, seu veterano, e disse em complemento. — Antes de definirmos a morte, primeiro precisamos definir a vida. Minha opinião é... Sabe, acho que viver é se reproduzir.
— Se for assim, os vírus de computador são organismos vivos. — Saikawa curvou os lábios num sorriso irônico. — Embora raro, algumas formas de vida são incapazes de gerar descendentes.
— Tem que ser feito de matéria orgânica. Sim, todos os seres vivos são orgânicos, certo?
— As definições de orgânico e inorgânico já são muito vagas hoje em dia. — respondeu Saikawa. — Originalmente, chamávamos de orgânicas as substâncias que compõem os organismos vivos... Então, não pode ser usado como definição, assim como a morte de um organismo vivo.
Após pensar por um momento, Moe perguntou.
— Professor, existe uma resposta para essa pergunta?
Fukashi Hamanaka também assentiu em silêncio.
— Então, minha percepção é... A definição de organismo ainda é vaga. — Saikawa segurou o cigarro na mão direita e girou a ponta. — A capacidade de se defender, se reproduzir e, eu acho, conversão de energia, é basicamente isso... Mas imagine, por exemplo, um adorável bichinho de pelúcia feito de madeira?
— Bichinho de pelúcia? — Hamanaka repetiu. Se alguém repetisse as palavras do oponente, quase sempre se podia presumir que precisava de tempo para entender o que foi dito e que seu raciocínio havia parado.
— Escute. É orgânico. Sabe, é feito de madeira. Então tem a capacidade de se defender. Ele se levanta mesmo se for derrubado... E converte energia potencial em energia cinética.
— Ele não se reproduz sozinho... — Moe observou.
— Todavia o brinquedo é muito fofo. Então, as pessoas que o veem o desejam. Portanto, cada vez mais são produzidos. Em outras palavras, eles se auto propagam com sua própria capacidade de serem fofos.
— Porém são as pessoas que os fazem, certo? Não é autorreprodução.
— Existem muitos organismos no mundo que não conseguem se reproduzir sem a ajuda de outros organismos. As flores desabrocham porque se tornam bonitas para os insetos e precisam de ajuda para se reproduzir, certo?
— Então, professor, está dizendo que o bichinho de pelúcia de madeira é um organismo vivo? — perguntou Moe.
— Essa é a resposta que eu daria se seguisse a definição que você propôs. — respondeu Saikawa. — É por esse motivo que disse que é ambíguo. Claro, se o definir de forma estrita em termos de DNA, etc., minha resposta seria diferente... Então, na minha opinião, acho que os vírus de computador são formas de vida.
— Hmm... — Moe fez beicinho. — De alguma forma, não estou convencida.
— Então, vamos voltar para o meu escritório e comer o bolo juntos. — propôs Saikawa.
Parte 6
O souvenir trazido por Setsuko Gido era um doce chamado bolo da lua, vendido em Yokohama. Não era o doce barato que Moe havia determinado. Mas assim que Saikawa o viu, ficou mal-humorado.
Dois estudantes de pós-graduação, que haviam tido um seminário no escritório da pesquisadora associada Momoko Kunieda, ao lado, entraram na sala, pegaram bolos da lua e saíram com Hamanaka. Apenas a pesquisadora associada Kunieda permaneceu na sala, pegando silenciosamente um bolo da lua. Momoko Kunieda era uma mulher alta, porém seu cabelo era quase curto e suas roupas eram masculinas. Era a mulher mais quieta entre as que Saikawa conhecia.
— Professor, quer que eu prepare outro café? — perguntou Moe.
Saikawa assentiu.
— Ela é totalmente indiferente. Deveria ao menos saber que não gosto de anko¹...”
Havia três coisas neste mundo que Saikawa nunca quis comer: melancia, anko e kinako².
— Como está indo o seu seminário? — Saikawa perguntou à pesquisadora associada Kunieda, que comia o bolo da lua em silêncio.
— Não está indo bem. Eles não estão usando o cérebro para nada. — Kunieda respondeu com uma expressão vazia.
Ela diria isso, Saikawa esperava. Não era um costume seu falar bem de seus alunos. Não, sua atitude era a mesma com todos. Saikawa contou a Kunieda sobre o vírus que havia se infiltrado no computador da sala dos alunos de pós-graduação.
— Talvez o vírus tenha se espalhado para vários computadores em nosso departamento, então poderia enviar um alerta por e-mail para os afetados...? — Saikawa instruiu, e Kunieda assentiu.
— Também recebi um e-mail estranho pelo UNIX. — disse Kunieda depois de terminar o bolo da lua. — É um e-mail dos Estados Unidos. Diz que você pode receber um e-mail com um vírus que destrói arquivos no seu diretório só de lê-lo, então tome cuidado.
— Como se pode ter cuidado com isso? — perguntou Moe, que ainda não tinha comido metade do bolo da lua, ao lado dela.
— De acordo com o e-mail de aviso, o e-mail em questão tem como assunto “ÍMPIO.” respondeu Kunieda. — Então, se vir ÍMPIO no assunto, nunca leia e apague na hora. O vírus, segundo o e-mail, quando invade o diretório de alguém, primeiro consulta a lista de endereços e depois envia o e-mail para os parentes da pessoa sem permissão. É assim que se espalha.
— Esse assunto tão óbvio é de propósito? — disse Saikawa enquanto acendia um cigarro. — Que história ridícula... Primeiro de tudo, uma coisa dessas é possível?
— Uma coisa dessas? O que você quer dizer? — perguntou Moe enquanto preparava a cafeteira.
— Será que é possível escrever um script que corrompa arquivos apenas lendo o e-mail? Estou impressionado com a inteligência que ainda existe neste mundo. Contudo... Se eu fosse o responsável, transformaria esse e-mail de aviso em um vírus.
— Talvez seja apenas um boato... — disse Kunieda secamente. — Não vejo como seria possível. Acho que algum outro script é essencial antes disso. Talvez a pessoa que está enviando o e-mail de aviso seja a mesma que está plantando o vírus.
— Está dizendo que a pessoa está enviando e-mails avisando que um vírus que nunca existiu está chegando? — perguntou Moe.
— Sim, você sabe, o e-mail será espalhado pelo mundo todo. É como uma corrente. Para o responsável, é divertido. — disse Saikawa. — Também acho que é um boato. Ou devemos acreditar no aviso e criar uma linha de defesa escrevendo um script que exclua automaticamente qualquer e-mail com o assunto ÍMPIO que chegue aos nossos usuários?
— Não acho que precisemos fazê-lo. — disse Kunieda, aproximando-se da porta. — Ainda estou no meio do meu trabalho...
Kunieda saiu da sala. Ela mal cumprimentou alguém. Parecia achar que cumprimentos eram inúteis.
— Bom, acabei fazendo café suficiente para três pessoas... — Moe sussurrou. — A propósito, este doce está delicioso.
— Vamos continuar de onde paramos, Nishinosono. — Saikawa se levantou e foi servir café em uma xícara. — Estávamos falando sobre a Dra. Shiki Magata. Se lembra do que estávamos conversando...?
— Já te contei a maior parte do que aconteceu. — respondeu Moe.
— Você não tem nenhuma chance de vê-la de novo? Sabe, também quero muito conhecê-la...
— Eu sei como se sente... Gostaria que eu perguntasse de novo? É uma conexão que não posso pedir demais...
— Que conexões usou?
— Hmm, pedi para minha tia, no entanto não sei qual caminho ela seguiu para torná-lo possível.
— Não posso te pedir para se esforçar. — Saikawa suspirou junto com a fumaça. — Eu e a doutora não temos nada a ver um com o outro em nossas especialidades. Bem, não conseguiria ter uma boa conversa com ela mesmo se aparecesse na minha frente... Mesmo assim, falando da Dra. Shiki Magata, quero conhecê-la e conversar pessoalmente pelo menos uma vez na vida.
— Bom, mais do que isso... Gostaria de lhe perguntar algo, professor. — Moe sentou-se em uma cadeira.
— Oh, o que é?
— O que a Setsuko Gido faz da vida? — Moe olhou para Saikawa com uma expressão séria.
— Ah, você quer dizer ela. Nishinosono, vocês duas conversaram? — Saikawa esboçou um pequeno sorriso. — É uma pessoa interessante, não é?
— Conversei... Nós falamos um pouco. Ela disse que gosta de quebra-cabeças.
Dizendo isso, Moe olhou para o teto.
— Ah, sim, é uma fanática por quebra-cabeças.
— Que tipo de trabalho ela faz? — Moe repetiu a mesma pergunta.
— Bem, vejamos... — Saikawa inclinou a cabeça. — Imagino que tipo de trabalho faz agora...
Estava começando a escurecer lá fora. Saikawa olhou vagamente para a janela.
— Qual era o nome daquela ilha mesmo? A ilha do instituto de pesquisa da Dra. Magata.
— Ilha Himaka. — respondeu Moe rapidamente.
— Eu acampei naquela ilha uma vez, no ensino médio. — disse Saikawa, olhando para a janela.
— Oh? Mas aquela ilha é propriedade privada da família Magata... Não é?
— Acho que eles só a adquiriram recentemente. O acampamento seguiu disponível por alguns anos depois que o instituto de pesquisa foi construído.
— Professor, os alunos do seu curso estão acampando como parte de um seminário, não é? Por que vocês não vão para a Ilha Himaka este ano? — disse Moe, como se tivesse acabado de ter a ideia. — É isso aí! Posso ir com você? Viu, que ótima ideia! Hamanaka é o organizador da viagem do seminário deste ano, certo?
A viagem do seminário é um evento semestral em que os professores do curso acampam juntos e realizam seminários. No curso do professor Saikawa, o “seminário” era só de nome e, na verdade, era apenas um lazer. Durante o ano, saíam por duas ou três noites, tanto no verão quanto no inverno. Recentemente, alguns dos cursos mais abastados têm ido para o exterior. Mesmo assim, o grupo de estudos do professor Saikawa costumava acampar nas províncias de Nagano ou Yamanashi no verão e em uma fonte termal próxima no inverno. Os participantes eram o professor, alunos de pós-graduação e alunos veteranos da universidade.
— Porém, sabe, não há mais camping, Nishinosono. Aquela ilha é propriedade privada. — disse Saikawa.
— Vou fazer alguma coisa a respeito. — disse Moe, animada.
— Fazer alguma coisa...? Você disse antes que seria impossível.
— Pensei que fosse impossível ver a Dra. Magata outra vez, contudo podemos apenas entrar na ilha. Vou pedir permissão.
Moe estava confiante.
Notas:
1. Pasta de feijão doce.
2. Farinha de soja torrada.
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