Capítulo 11: Derrotar um Monstro Maligno é o Dever de uma Cavaleira Angelical
— Zagan é gentil, mas não adianta nada se eu não me vingar com minhas próprias mãos.
Depois de sair furtivamente do castelo no meio da noite, Foll viajou até o Palácio do Arquidemônio.
Embora tivesse recuado por um momento, no fim das contas, percebeu que não conseguiria ficar em paz se não matasse o portador de uma Espada Sagrada. Porém Zagan e Nephy... Jamais permitiriam isso.
Era difícil entender como um feiticeiro e uma Cavaleira Angelical podiam ser amigos, contudo parecia ser verdade. E, se ela matasse essa amiga, eles não a perdoariam.
— É... Confortável lá.
Foll queria ficar com eles para sempre. Queria depender de Zagan, que dissera que ficariam juntos por mil anos. E, como era de se esperar, esse era o maior motivo pelo qual não havia agido em seguida.
No fim, talvez Foll fosse jovem demais para levar sua vingança adiante.
Afinal, sentia a solidão com a mesma intensidade que o ódio. E Zagan e Nephy, ao consolá-la, acabavam enterrando esse sentimento sem piedade. Nesse ritmo, Foll sabia que, se continuasse a buscar o aconchego dos dois até se tornar uma adulta, acabaria esquecendo sua vingança.
Havia também Chastille, que deveria ser um alvo, no entanto... Era uma garota muito peculiar. Como Zagan havia lhe dito para não matar Chastille, decidiu, em vez disso, pregar algumas peças na garota. Claro, Zagan e Nephy pareciam estar irritados, entretanto não tinha intenção de parar, já que eles nem sequer a confrontavam sobre o assunto. Se, por acaso, Chastille se irritasse e apontasse sua Espada Sagrada em sua direção, então teria um motivo para matá-la.
Ou era o que pensava, todavia Chastille jamais apontou sua arma para Foll. Pelo contrário, sequer carregava sua Espada Sagrada, apesar de estar em território hostil. E, apesar de tudo, justo quando Foll começava a achar que ela tinha um coração forte, flagrou Chastille encarando-a com um olhar furioso, mas à beira das lágrimas. Bastou um olhar para a garota para fazer Foll perder toda a força nos ombros.
Não era só absurdo querer matar uma garota daquelas? Talvez Zagan tivesse previsto que Foll acabaria se sentindo assim; foi por isso que não disse nada a respeito. Afinal, aquele único pensamento a deixara em estado de choque.
— Os Cavaleiros Angelicais traíram o Dragão Sábio Orobas. Jamais devo... Me esquecer dessa verdade.
Dragão Sábio Orobas... Esse era o nome do pai de Foll. Era um grande dragão que viveu por mil anos. Sua sabedoria era profunda e, embora às vezes fosse rigoroso, também era muito gentil.
Com sua inteligência, guiava não apenas Foll, como até mesmo a humanidade. Foll se orgulhava de chamar uma criatura tão distinta de pai.
Certo dia, um grupo de humanos que se autodenominavam Cavaleiros Angelicais apareceu por lá. Não sabia sobre o que haviam conversado, porém seu pai voou levando os Cavaleiros Angelicais em suas costas... E nunca mais voltou.
Ao passar o sétimo dia, Foll não conseguiu mais esperar e alçou voo à sua procura. E o que encontrou foi seu pai... Atravessado por uma Espada Sagrada, e a figura de um homem bebendo seu sangue como um demônio. Não era de se estranhar, já que uma Espada Sagrada poderia facilmente desferir um golpe mortal até mesmo contra o Dragão Sábio Orobas.
Aqueles Cavaleiros Angelicais haviam traído seu pai, que lhes emprestara seu poder e sabedoria inúmeras vezes. E jamais ousaria esquecer esse fato. O ódio ardente e abrasador em seu interior jamais poderia ser extinto. E, contudo, a vida com Zagan era confortável demais... Chegara até a fazê-la começar a gostar de sua inimiga, Chastille.
Será que a minha vingança... É tão trivial assim? Não deveria ser. Claro, sabia que não havia como matar todos os doze portadores das Espadas Sagradas com seus poderes imaturos. No entanto, ainda assim, sua consciência não deveria ter permitido que ignorasse uma inimiga que estava bem diante do seus olhos.
E, dessa forma, Foll viajou até o Palácio do Arquidemônio para dissipar todas as suas dúvidas. Aquele lugar certamente guardava algo com poder suficiente para matar um Arcanjo.
Estava convencida de que o legado do Arquidemônio lhe permitiria enfrentar de igual para igual seus inimigos jurados; por isso, mesmo que significasse trair Zagan e Nephy, não podia recuar. No entanto, bem quando abriu as portas do Palácio do Arquidemônio...
— Wow, quem diria que havia um castelo aqui embaixo.
Ao ouvir aquela voz, Foll virou-se, estremecendo. E, ao fazê-lo, viu um homem saindo da escuridão.
Alguém me seguiu? Na pressa, havia negligenciado a vigilância ao seu redor. Ainda assim, notou logo em seguida a espada enorme nas costas daquela figura, e seus olhos se arregalaram assim que a viu.
— Uma Espada Sagrada...!
Ela conseguia sentir a mana na pele antes de sequer ter a chance de verificar a inscrição. Como não sentiria? Afinal, aquele era o “cheiro” da Espada Sagrada que havia ceifado a vida de seu pai. Não imaginava que houvesse outra espada na cidade além daquela pertencente a amiga de Zagan e Nephy.
Então, como se estivesse se divertindo, um sorriso surgiu no rosto rude daquele homem corpulento.
— Você pode ser uma criança, mas suponho que continue sendo uma feiticeira. É impressionante que tenha percebido minha presença antes de desembainhar minha lâmina.
E então, Foll enfim viu o rosto dele.
— Você é...
Era, sem dúvida, o rosto do humano que havia bebido o sangue de Orobas.
— Hmm, quem diabos é você? Não me lembro de conhecer nenhuma pirralha estúpida.
Naquele instante, Foll sentiu algo se romper em sua mente.
— SEU DESGRAÇAAAAADO! — rugindo, Foll transformou instantaneamente ambas as mãos em garras de dragão, enquanto asas verdes brotavam de suas costas.
Nem sequer pensou em usar feitiçaria. Sua mente estava tomada pela fúria; por isto, apenas avançou contra seu inimigo, golpeando-o com suas garras. Porém, o Arcanjo desembainhou sua espada com uma velocidade muito superior à que até mesmo o poder máximo de Foll poderia alcançar.
— Ah...
E, em resposta, uma voz confusa escapou de seus lábios.
Este é... O poder de uma Espada Sagrada... Exceto por um Arquidemônio como Zagan, ninguém ousaria enfrentar tal ameaça de forma imprudente. Foll havia se tornado uma feiticeira por estar bem ciente deste fato, contudo, no fim, acabou cometendo um erro fatal...
A lâmina ornamentada desceu em um golpe contra o pescoço de Foll. E seus últimos pensamentos, naquele momento, foram para as expressões que Zagan e Nephy faziam quando lhe acariciavam gentilmente a cabeça.
— Zagan... — ela sussurrou desesperadamente enquanto fechava os olhos, aceitando seu destino iminente... No entanto, a dor que temia não veio, por mais que esperasse.
Em vez disso, sentiu um braço abraçá-la gentilmente por trás. E então, uma voz arrogante ecoou pelo recinto.
— Eu disse para agir como bem entendesse, mas acho que deveria, pelo menos, estabelecer um horário para voltar pra casa.
— Hã?
Como se fosse um milagre, o braço de Zagan deteve a Espada Sagrada.
***
— Ora, ora... Então bloqueou meu golpe, Arquidemônio.
Zagan havia segurado a Espada Sagrada de Rafael com a mão nua... Dito isto, havia um círculo mágico agindo como escudo entre sua pele e a lâmina.
Era uma espada de duas mãos com uma lâmina de um branco puro. Em sua superfície, havia símbolos que diferiam daqueles usados na feitiçaria, entretanto que também eram, de alguma forma, um pouco diferentes dos de Chastille. Parecia que as gravações nas Espadas Sagradas variavam de lâmina para lâmina.
Então significa... Que é o nome inscrito na arma? Zagan examinou seu braço enquanto mantinha sob controle o objeto que tanto o fascinava.
A pele da mão que segurava a lâmina estava rasgada, embora não queimava como da última vez, considerando que a habilidade de esgrima de Rafael era muito mais afiada do que a demonstrada por Chastille.
Pelo visto nem mesmo uma Espada Sagrada consegue superar o Selo do Arquidemônio, hein? Se fosse o Zagan de alguns dias atrás, já teria perdido o braço direito. Porém, graças à mana de um Arquidemônio, não havia sinal de que a Espada Sagrada conseguiria cortá-lo.
Apesar que depender de uma ferramenta não é uma sensação muito boa. Por outro lado, já que seu oponente também usava uma ferramenta poderosa, talvez não houvesse problema em considerar que estavam em pé de igualdade.
Voltando ao assunto em questão, Rafael parecia incapaz de se mover devido à forma como Zagan segurava sua Espada Sagrada. E, enquanto os dois permaneciam ali, a voz trêmula de Foll escapou de dentro dos braços de Zagan.
— Zagan, por que...?
— Só encontrei um mensageiro conveniente. E, como imaginei que você estaria aqui, pedi que me teletransportasse para cá.
Os pés de Zagan ainda estavam submersos em uma sombra escura, contudo era óbvio para todos os presentes que aquilo não era resultado de sua feitiçaria.
— Eu não sou mensageiro, droga! — Barbatos rugiu, com a voz carregada de raiva. E, após surgir da sombra, assumiu uma posição o mais longe possível de Rafael. Parecia que não queria ter nada a ver com a luta deles.
— Eu disse que que te recompensaria muito bem, não disse? Não reclame. — Zagan havia ordenado que Barbatos vigiasse Chastille. E, por sorte, feiticeiros sempre permaneciam fiéis aos seus contratos. Mesmo depois de trazer Chastille, aquele homem continuou seguindo a ordem; foi por esse motivo que respondeu imediatamente quando Zagan o chamou, ao saber do desaparecimento de Foll.
— Mestre Zagan, a Foll está segura?
Parecia que a sombra se mantinha conectada ao castelo, então Zagan respondeu à pergunta de Nephy com um tom gentil.
— Foll está segura. Voltaremos assim que eu terminar de resolver as coisas por aqui. Apenas espere no castelo, Nephy.
— Entendido.
Na verdade, Nephy queria muito correr para o lado de Foll também. No entanto, decidiu controlar seus sentimentos, pois percebia que a situação estava prestes a ficar complicada.
— Bom, de qualquer forma, vamos voltar. Crianças não deveriam ficar andando por aí a essa hora da noite. Estamos indo para casa. — disse Zagan em seu tom arrogante de sempre. Todavia, Foll balançou a cabeça, negando.
— Não, isso não faz sentido... Eu... Traí você... E, mesmo assim, por que...?
Como assim? Era só isso? Zagan acariciou com carinho a cabeça de Foll enquanto lágrimas começavam a brotar nos olhos dela.
— Fui o único disse para que fizesse o que quisesse, não foi? Não se preocupe com bobagens.
Ao ouvir essa resposta, Foll escondeu o rosto no peito de Zagan. As asas de dragão então desapareceram de suas costas, e seus braços e pernas voltaram à forma humana.
— Des... Culpa...
— Caramba... O que foi que eu falei, Foll?
Parecia que não estava conseguindo fazê-la entender, já que continuava se preocupando com as menores coisas.
Graças aos céus... Consegui chegar a tempo...
Se tivesse chegado apenas um segundo mais tarde, Zagan a teria perdido. E, comparado a isso, o fato de Foll ter se infiltrado sozinha no Palácio do Arquidemônio não tinha a menor importância.
Por fim, depois de permanecer assim por um tempo, Zagan encarou Rafael.
— Eu já te avisei, não foi? Disse que, se tentasse fazer o que bem entendesse no meu domínio, o esmagaria e reduziria a pó.
Em resposta, o Cavaleiro Angelical de semblante maligno respondeu com uma voz carregada de confusão.
— Que estranho... Está me dizendo que um feiticeiro está protegendo uma desconhecida?
— Não é uma desconhecida. Esta garota... É minha filha.
E Rafael ousara sacar a espada contra ela.
Não tenho motivo algum para deixar esse homem viver, tenho?
Não estava diante de Nephy naquele momento. Além do mais, havia o fato de ser a causa do rancor de Foll; por esse motivo, Zagan decidiu atormentá-lo o máximo possível antes de matá-lo.
Rafael então estreitou os olhos, como se estivesse se resignando.
— Entendo... Uma filha, é? Nesse caso, é bastante compreensível.
— Sim, é... Foll, afaste-se um pouco.
Depois de afastar Foll, Zagan soltou a arma que segurava; Rafael recuou sem cambalear, corrigindo sua postura e mantendo a Espada Sagrada a postos.
Toda aquela situação fez Zagan franzir a testa. Quer dizer, já chegamos a esse ponto e não há sede de sangue? Não é que Rafael não tivesse espírito de luta, só que Zagan não conseguia sentir nenhuma sede de sangue vinda de sua espada. E, no entanto, era certo que pretendia lutar contra Zagan utilizando-a.
— Já que chegamos a esse ponto, permita-me avisá-lo... Se não resistir com todas as suas forças, vou massacrá-lo.
— Embora me sinta relutante, você não me deixou outra escolha. Não posso me dar ao luxo de morrer neste lugar. — murmurou Rafael, antes de finalmente liberar sua sede de sangue.
— Atenda ao meu chamado... Espada Sagrada Metatron! — Rafael anunciou o nome, fazendo com que uma chama pálida irrompesse de sua Espada Sagrada.
— ...
Zagan sentiu vontade de soltar um gemido, todavia conseguiu contê-lo por pouco. Naquele momento, por fim se deu conta que havia sido enganado no bar.
Empunhando sua Espada Sagrada, que brilhava de forma deslumbrante, Rafael começou a falar.
— Este é o poder que derrotou antigos Arquidemônios, reduzindo todo o mal a cinzas. Venha, e encare as minhas Chamas da Purificação. Encare o poder que apenas os verdadeiros mestres da Espada Sagrada conseguem usar e manipular.
Talvez essa fosse a razão pela qual uma Espada Sagrada escolhia seu próprio portador; afinal, manejar um poder tão formidável não era tarefa simples.
Então este é... O verdadeiro poder da Espada Sagrada...?
Ondas de calor emanavam das Chamas da Purificação. O simples contato com elas desfazia o círculo mágico de Zagan. Ainda quando tentava tecer uma nova feitiçaria, esta era destruída assim que terminava de construir o circuito. Naquele estágio, qualquer feiticeiro comum já teria sido reduzido à impotência total.
— Que diabos... O que há com esse cara?
O poder destrutivo da Espada Sagrada já era algo impressionante, mas a sede de sangue de Rafael possuía uma ferocidade comparável à de uma fera predadora em plena caçada. Até mesmo Barbatos sentiu-se acuado e recuou, tomado pelo medo.
Apesar de tudo isso, a voz trêmula de Foll escapou de trás de Zagan.
— Zagan, por que...?
Talvez estivesse questionando por que Zagan se dera ao trabalho de provocar Rafael. Afinal, se ele tivesse apenas menosprezado o oponente, teria sido mais fácil ganhar vantagem.
Zagan então respondeu com uma voz gentil.
— Eu disse que lhe ensinaria a maneira correta de se vingar, não foi? Pisotear seu inimigo enquanto emprega todo o seu poder para resistir a você é uma dessas formas. Isto o humilhará e o arrastará para as profundezas do desespero.
Rafael emanava uma sede de sangue quase inumana, porém Zagan não tinha dúvidas de que era um inimigo que podia derrotar. Além do mais, acabar com um Arcanjo serviria como o exemplo perfeito de dissuasão.
À primeira vista, aqueles que se opunham a Zagan haviam desaparecido, contudo seguia havendo aqueles quem espreitasse, esperando que baixasse a guarda. A derrota de um Arcanjo serviria como o impedimento final perfeito.
Após ponderar sobre esses pensamentos, Zagan impulsionou-se a partir do solo. O chão de pedra despedaçou-se, e avançou instantaneamente sobre Rafael.
— Hnnngh.
— Muito lento. — disse Rafael enquanto desferia um golpe descendente com a espada, no entanto Zagan ousou agarrá-la com a mão direita.
Ele estava desarmado, entretanto não usava o punho nu. Não; na palma da mão de Zagan, um círculo mágico feito de mana condensada se iluminou. Parecia pequeno, todavia, na verdade, todas as linhas luminosas eram circuitos. De fato, a quantidade que havia construído ultrapassava facilmente os 2.000 circuitos. E o golpe inicial de Rafael também foi bloqueado por esse círculo mágico.
Por mais fortes que fossem aquelas Chamas da Purificação, elas não conseguiriam atravessar 2.000 circuitos num instante. Devo chamá-lo de “Escala Celestial”, então?
Zagan não depositava muita fé no poder de um Arquidemônio. Afinal, já tivera sua feitiçaria despedaçada por uma Espada Sagrada. E foi por essa exata razão que desenvolveu uma nova técnica para repelir Espadas Sagradas. Embora, apesar de sua natureza complexa, não tinha nada de especial. Era apenas sólida.
Ela absorvia não apenas a feitiçaria do inimigo, como até mesmo a mana ao redor, continuando a se fortalecer. Era uma feitiçaria totalmente inútil nas mãos de qualquer pessoa que não fosse Zagan. E aquele círculo mágico, cujo único mérito era a solidez... Repeliu a Espada Sagrada, fazendo um clangor ecoar pelo ar.
O impacto foi semelhante a golpear um bloco de rocha com uma espada. Qualquer pessoa comum sem dúvida teria os ossos dos braços estraçalhados com aquilo. Mas, mesmo assim, Rafael não deixou cair sua Espada Sagrada.
— Ora, é bastante admirável que não tenha soltado a espada depois de sentir tamanha dor.
— Ghhh...
Infelizmente para Zagan, as Chamas da Purificação continuavam a arder. E, mesmo enquanto uma expressão de angústia surgia no rosto de Rafael, este logo em seguida ajustou a empunhadura da espada e avançou rápido.
Foi um golpe descendente direto, com a Espada Sagrada erguida acima da cabeça. Porém, ofuscado pela chama brilhante, uma imagem residual de um branco puro ficou gravada na visão de Zagan. Sua habilidade com a espada e o poder de incinerar feitiçarias já eram problemáticos por si sós, contudo Zagan sabia que ter a visão prejudicada seria fatal. Por isso, se apressou em recuar a perna para trás e girou o corpo. A ponta da lâmina branca quase raspou em seu nariz ao atingir o chão. E, com um estrondo, a terra tremeu.
— Whoa... — Foll soltou um pequeno grito.
As Chamas da Purificação percorreram o solo. Parecia que o golpe de Rafael havia aberto uma fenda profunda no piso de pedra. E, dado o tamanho de Foll, a abertura era grande o suficiente para engoli-la por completo. Aquela maldita força bruta e irracional dele...
Amplificada por sua Armadura Ungida e pela Espada Sagrada, a força física de Rafael igualava-se à de Zagan, apesar de ser um feiticeiro especializado em combate.
Ficava claro que, em uma disputa de pura capacidade física, nenhum Arquidemônio poderia esperar rivalizar com Rafael; logo, era óbvio que um feiticeiro comum seria massacrado sem ter qualquer chance. E, mesmo testemunhando aquele poder em ação bem diante de seus olhos, a expressão de Zagan permaneceu serena.
— Seria um problema se você causasse muitos danos a este lugar. — disse Zagan, antes de fazer um brusco avanço para desferir um golpe com sua Escala Celestial contra o rosto de Rafael, vindo de baixo. Por azar, Rafael recuou rapidamente a Espada Sagrada e interceptou o ataque com ela. Quando as duas forças colidiram, uma onda de choque surda percorreu seu corpo, acompanhada por um baque seco.
— Que tolice; um golpe com um movimento tão amplo não vai...
A expressão de escárnio de Rafael se contorceu e interrompeu sua fala. Fazia sentido, já que seu corpo grande foi arremessado para longe, apesar de sua defesa impecável. De alguma forma, a Escala Celestial de Zagan lançou Rafael pelos ares, junto com sua Espada Sagrada.
— Oops, é bem difícil controlar a potência, hein...?
A Espada Sagrada era classificada como uma grande espada e possuía uma lâmina larga. Em troca do vasto alcance de ataque de que se orgulhava, não permitia muita manobrabilidade; portanto, quando o oponente se aproximava, seu potencial destrutivo caía pela metade.
Na verdade, Zagan só conseguiu deter o ataque inicial porque combinou o poder de sua Escala Celestial com um posicionamento estratégico. Ainda assim, o golpe havia arremessado Rafael de volta para a distância ideal de combate dele.
Abaixando o corpo, Zagan avançou como se cravasse a Escala Celestial no chão. Ao se aproximar do inimigo, empurrou a palma da mão para cima, na direção de seu oponente.
Desta vez, no entanto, Rafael estava preparado e desferiu um golpe descendente com a Espada Sagrada, segurando-a com ambas as mãos.
A Escala Celestial de Zagan e a Espada Sagrada de Rafael colidiram, fazendo faíscas voarem com um estrondo metálico. Logo em seguida, a Escala Celestial se despedaçou e as Chamas da Purificação se dissiparam.
Parecia que a Escala Celestial e as Chamas da Purificação estavam perfeitamente equilibradas.
— Impossível.
— Entendo. O limite são três disparos, é? — Zagan murmurou, sem demonstrar qualquer sinal de surpresa.
Ele havia trocado três golpes diretos contra a Espada Sagrada. O poder era magnífico, entretanto seguia sendo insuficiente. Se houvesse dois ou até três oponentes, aquilo se mostraria inútil.
Era excelente para um primeiro teste de desempenho, todavia estava longe de estar concluído. Enquanto Zagan avaliava com calma a eficiência de sua feitiçaria, Barbatos gritou com ele.
— Seu idiota! Não é hora de ficar relaxado, droga!
A postura de Rafael estava totalmente desfeita, embora não tivesse solto sua Espada Sagrada.
Ao ver aquilo, Zagan soltou um suspiro breve.
— Eu já te disse, não disse? Tenho tranquilidade de sobra para fazer essas coisas.
Com a guarda aberta, o abdômen de Rafael estava totalmente exposto. Além disso, com o fim das Chamas da Purificação, outras magias podiam agora ser conjuradas.
Mais rápido do que Rafael conseguia desferir um golpe com sua Espada Sagrada, Zagan desferiu um soco com a mão esquerda na lateral do corpo do oponente. Vários círculos mágicos envolviam aquele braço, girando em alta velocidade. Era a mesma técnica que havia acabado com Barbatos em sua última luta. Mesmo sem recorrer a algo como a Escala Celestial, o punho de Zagan conseguia esmagar uma simples Armadura Ungida sem dificuldade.
Ele sentiu a sensação dos ossos se quebrando com um estalo seco. A onda de choque do impacto certamente atingiu até as vísceras de seu inimigo.
— GHAAA? — Rafael vomitou sangue ao ser arremessado para longe; após colidir contra o portão do Palácio do Arquidemônio, caindo desfalecido no saguão de entrada.
Estava decidido. Zagan havia conquistado a vitória... Embora tenha inclinado a cabeça para o lado, intrigado.
— Que fraco. É esse o Cavaleiro Angelical que matou quase 500 magos?
Nem mesmo o mais temível Arcanjo fora capaz de infligir um único ferimento em Zagan. Em outras palavras, aquilo provava que a Igreja não tinha meios de enfrentar um Arquidemônio.
Zagan então lançou um olhar rápido para trás, em direção a Foll. A jovem dragão exibia uma expressão confusa, mas logo recobrou os sentidos e começou a bater palmas.
O que é isso? Não é nada mal... Ou melhor, de certa forma, é uma sensação boa, não é?
Zagan respondeu de forma discreta acenando para ela. Ao perceber o gesto, os olhos de Foll começaram a brilhar.
Ele havia apenas esmagado e triturado uma monstruosidade contra o chão e, contudo, o olhar de pura admiração de Foll lhe pareceu algo quase agradável. Isto apesar de, até aquele momento, nunca ter sentido nada quando a ralé lançava olhares assim em sua direção.
E, enquanto a expressão de Zagan relaxava diante daquilo, Barbatos soltou um gemido, com o suor escorrendo pela testa.
— Seu maldito monstro. Você nem sequer está ofegante, não é?
Bem, essa com certeza era a reação normal. Sem dúvida, a habilidade de Rafael com a espada era afiada o suficiente para subjugar alguém do nível de Barbatos, porém os Cavaleiros Angelicais eram diferentes dos feiticeiros. Se recebessem um único ferimento fatal, tudo estaria acabado.
Quando Zagan derrotou Barbatos, mesmo após golpeá-lo daquela mesma maneira, o oponente conseguiu se levantar depois de algum tempo; no entanto, o mesmo não se aplicava a Rafael. Ou, pelo menos, era o que deveria ter acontecido...
— Entendo... Que poder... Aterrorizante.
Ainda cuspindo sangue, Rafael se levantou usando sua Espada Sagrada como apoio.
Fala sério, que tipo de cara é esse? Em resposta, Zagan se preparou e concentrou mana em ambas as mãos mais uma vez.
***
Pouco tempo antes.
— Eu deveria ir embora... — Foll provavelmente havia saído às pressas por causa de Chastille. E, apesar de que soubesse que não havia feito nada de errado, pedir a uma criança tão pequena que a perdoasse era algo irracional. Zagan deveria tê-la mandado embora.
Claro, era grata por estar lhe dando abrigo, entretanto ainda sentia que não valia a pena se acabasse magoando Foll.
Zagan correu para o quarto de Foll assim que ouviu os gritos de Nephy, e Chastille tentou segui-lo, todavia...
Eu hesitei... Em empunhar minha Espada Sagrada. Foi por essa razão que demorou a sair e, quando enfim chegou ao quarto de Foll, Zagan já não estava mais lá.
— Nephy, onde está o Zagan...?
— O Mestre Zagan... Foi buscar a Foll.
A elfa de pele alva apertou os lábios, olhando para a sombra sinistra que se espalhava pelo chão enquanto falava.
Aquela cena fez Chastille se lembrar do passado. Recordou o incidente em que foram sequestradas por um feiticeiro chamado Barbatos. Naquela ocasião, foram engolidas por uma sombra sinistra semelhante. E parecia que Zagan havia chegado até Foll graças àquela mesma feitiçaria.
— Você... Não vai ir?
— O Mestre Zagan me ordenou... Que esperasse aqui.
E esse era o único motivo pelo qual não os havia seguido.
— Então eu vou... — Chastille começou a falar, mas seus pés pararam.
Vou lá... E farei o quê? Embora o veneno já tivesse saído de seu organismo, Chastille não conseguia reunir forças nos braços e nas pernas. E, apesar de sua Armadura Ungida estar ao lado da cama, não havia tempo para buscá-la e vesti-la. Além do mais, era um alvo da Igreja, mesmo sendo uma Arcanja.
Dito isto, viver sob a proteção de Zagan, alguém com quem fora hostil no passado, também estava fora de cogitação.
Porém... Será que ainda sequer tenho um motivo para empunhar a Espada Sagrada? Ela se questionou e, sem encontrar respostas, deixou-se cair no chão com um baque surdo.
— Você está bem? Se não estiver se sentindo bem de novo, então... — Nephy correu para ampará-la.
— Não, estou... Bem...
— Tem certeza...?
Para ser sincera, nada em Chastille parecia estar bem. E, apesar de Nephy manter uma expressão neutra, as pontas de suas orelhas tremulavam, como se estivesse preocupada. Por fim, Chastille soltou um suspiro baixo.
— Talvez não seja o momento certo para falar sobre, contudo sinto um pouco... De inveja de você.
Ao deixar escapar essa queixa involuntária, Chastille viu Nephy encará-la com um olhar de surpresa. E notar essa mudança apenas pela expressão dela deixou Chastille chocada.
Comparada à quando a conheci, ela está muito melhor em expressar seus sentimentos. Aquilo com certeza também se devia a Zagan.
Mesmo aos seus olhos, que não estava, muito acostumados a observar tais coisas, a relação harmoniosa entre os dois era evidente.
Amar e ser amada... Que tal relacionamento fosse permitido... Me deixa com inveja.
Talvez houvesse algo de errado com Chastille por pensar de tal maneira a respeito de uma inimiga. No entanto, apesar de toda a situação, queria ser a pessoa capaz de curar a solidão daquele homem.
No entanto, Nephy balançou a cabeça.
— É mesmo? Quanto a mim, sinto inveja de você, Chastille.
— Haha. O que em mim poderia invejar? — enquanto Chastille se menosprezava, Nephy apertou a saia com força e continuou.
— Quer dizer, Chastille... Você não pode apenas correr para o lado do Mestre Zagan?
Eram palavras carregadas de forte emoção, algo incomum para Nephy.
— A única coisa que posso fazer é esperá-lo aqui. O Mestre Zagan é muito forte, entretanto pode ser forçado a passar por situações dolorosas. E, no fim das contas, a Foll pode até ir embora sem que eu consiga expressar meus sentimentos a ela.
A angústia daqueles que precisavam esperar o retorno de seus entes queridos do campo de batalha era um sentimento desconhecido para quem podia acompanhá-los. E Chastille não estava entre os que precisavam esperar.
E o que acha que eu conseguiria fazer se fosse até lá...?
Enquanto Chastille permanecia sem conseguir dizer nada, Nephy continuava falando.
— Não posso nem ir até o seu lado para confortá-lo ou apoiá-lo.
Também gostaria de poder fazê-lo... E, entretanto... Por algum motivo, Chastille balançou a cabeça, como se estivesse extremamente frustrada.
— E daí? Está dizendo que devo ir fazer isso? Sou sua inimiga, sabia? Não seria melhor se você só ignorasse a ordem do Zagan e o seguisse?
Enquanto Chastille elevava a voz, algo macio e branco envolveu gentilmente o seu rosto.
— Não posso fazer tal coisa.
Era Nephy. Chastille estava sendo abraçada por ela.
— Afinal, meu dever é receber o Mestre Zagan com um “bem-vindo de volta” quando ele retornar. — ao dizer essas palavras, Nephy acariciou com carinho a cabeça de Chastille.
— Além do mais, preciso proteger o castelo enquanto o Mestre Zagan estiver ausente.
Ela provavelmente não queria dizer isso no sentido de lutar. Aquelas palavras significavam que criaria um ambiente onde seu mestre pudesse relaxar ao retornar.
E, ao sentir o carinho na cabeça enquanto era abraçada, todas as forças abandonaram o corpo de Chastille. Havia deixado escapar queixas que jamais deveria ter verbalizado. Ainda que tentasse conter-se, tendo perdido o rumo como estava agora, não havia mais como evitar.
— Eu também... Não queria apontar minha espada para ele...
— Eu sei. — Nephy disse, assentindo calmamente enquanto acariciava a cabeça de Chastille.
— Mas sou uma Cavaleira Angelical...
— Eu sei. — Nephy comentou mais uma vez e apenas assentiu, sem negar nem afirmar as suas ações.
Naquele momento, Chastille sentiu o calor reconfortante do peito de Nephy e se agarrou a ela.
— Sou forçada a sofrer com tudo isso só porque fui sincera ao dizer que não queria lutar contra o Zagan...
— Eu sei.
Sua Espada Sagrada fora confiscada por um tempo, teve de ser encarada com hostilidade por um Arcanjo mais forte e, então, fora envenenada, ficando à beira da morte. Ao pensar em tudo, as lágrimas de Chastille começaram a cair, gota a gota, manchando a bela camisola de Nephy. E, no entanto, Nephy não parecia nem um pouco incomodada e continuava a acalmá-la. Aquela cena tornou-se insuportável para Chastille, que acabou desabafando.
— Não queria derrotá-lo. Queria lutar ao seu lado!
As palavras de Chastille eram uma heresia, dada a sua posição como Arcanja. Qualquer pessoa comum a desprezaria por nutrir pensamentos tão egoístas em relação a um feiticeiro. Entretanto, Nephy assentiu, como se a elogiasse.
— Então você realmente entende.
Quando Chastille ergueu o rosto para olhar nos olhos de Nephy, esta apenas retribuiu o olhar com sua expressão habitual.
— Quando conversamos pela primeira vez, lembro que disse que o Mestre Zagan parecia solitário... Parece que realmente o entende bem, Chastille. — Nephy estava se referindo à quando elas se conheceram, logo após ter sido expulsa por Zagan. E, embora falasse como se aquele encontro fosse uma lembrança nostálgica, suas orelhas também tremulavam de frustração.
— Na verdade, senti um pouco de inveja. Quer dizer, pensei que fosse a única... Que conseguia entender o Mestre Zagan.
O primeiro encontro entre Chastille e Zagan terminou com ele salvando-a, todavia este nunca pediu qualquer recompensa pelo ato. Pelo contrário, não estava nem claro se sequer lembrava do incidente.
Ainda assim, a imagem de seu rosto solitário permanecia gravada na mente de Chastille. Naquela época, parecia quase que quem precisava ser salvo não era ela, mas ele. E Nephy... Salvou Zagan.
No estado atual de Zagan, aquela sombra de solidão havia desaparecido por completo. Ao contrário de Chastille, que a notara, porém não fizera nada, Nephy voltou para salvar Zagan mesmo depois de ter sido expulsa do castelo.
Enquanto Chastille permanecia absorta em seus pensamentos, Nephy afastou a franja do rosto e falou mais uma vez.
— Contudo... Também me senti igualmente feliz. Quer dizer, como não ficaria feliz ao descobrir que havia outra pessoa que entendia o Mestre Zagan?
As palavras encorajadoras de Nephy, de alguma forma, encantaram Chastille. Você... Ficou forte, não é?
Ela enfim havia chegado ao ponto em que conseguia dizer tais palavras a alguém que não fosse Zagan. Após uma breve pausa, Nephy deu um tapinha firme nos ombros de Chastille.
— Você está bem agora? — perguntou Nephy.
— Ah... S-Sim... — respondeu Chastille. E, embora estivesse se sentindo melhor, o longo abraço havia deixado seu rosto corado. Reunindo coragem, fez uma pergunta, por sua vez.
— Será que... Estava tentando me consolar?
Não havia necessidade real de confirmar aquilo. Ainda assim, não estava tão segura de si a ponto de se sentir confortável tirando conclusões.
Em resposta, Nephy inclinou a cabeça para o lado com uma expressão intrigada.
— Sim... Hmm, será que não fiz um bom trabalho?
— Não é o caso. É só que... Por quê? Hmm, não sou uma inimiga de todos os feiticeiros?
Nos últimos dias, elas haviam compartilhado refeições, feito a limpeza juntas e dormido sob o mesmo teto; por essa razão até Chastille achou estranho tocar nesse assunto de repente.
Ainda assim, na essência, elas deveriam ser inimigas. Em resposta, Nephy inclinou a cabeça para o lado, como se achasse a pergunta boba.
— Quer dizer... Nós não somos amigas?
Então essa garota... Também se sente da mesma forma? Foi nesse momento que Chastille percebeu que não havia como vencê-la. E, ao mesmo tempo, decidiu que queria proteger as coisas que Nephy prezava.
Depois de tudo, Chastille enxugou as lágrimas e se levantou.
— Desculpe. Acabei te mostrando uma cena deplorável. — disse ela.
— Está tudo bem! — respondeu Nephy. E, ao continuar com um “além disso”, seus lábios se curvaram. Estava um pouco travado, entretanto aquilo era, sem dúvida, um sorriso.
— Eliminar as fontes de preocupação do Mestre Zagan é mais um dos meus deveres.
— Quando fala em preocupações, quer dizer eu?
— Sim. Ele tem estado muito preocupado com você desde o incidente com Lorde Barbatos.
Chastille mal podia acreditar no que ouvia.
— Ele nem sequer se lembrava do meu rosto, lembra?
— Não tem como isso ser verdade. Ou, pelo menos, foi assim que pareceu para mim. — se era Nephy quem dizia aquilo, então devia ser verdade. E, com essa constatação, Chastille se fortaleceu, consolidando sua decisão na mente.
— Obrigada. Eu também... Vou indo agora! — disse Chastille, percebendo que não tinha mais nada a perder naquele momento.
Então, pelo menos desta última vez, quero fazer o que bem entender.
Aquele homem talvez não precisasse realmente dela, mas Chastille queria oferecer sua ajuda de qualquer forma. Foi por esse motivo que deu um passo à frente, entrando na sombra. Não levava trajado sua Armadura Ungida, porém carregava sua Espada Sagrada na mão.
— Sim. Cuide-se, Chastille.
Chastille desapareceu na sombra enquanto aquelas palavras ecoavam ao seu redor.
***
De volta ao Palácio do Arquidemônio, Rafael levantou-se, ignorando sua Armadura Ungida destruída e o ferimento fatal.
Surpreso, Zagan observou o seu estado sem baixar a guarda. Não é... Feitiçaria, hein? Será esse o poder que obteve ao matar um dragão? Se fosse feitiçaria, Zagan poderia “devorá-la”, contudo, sendo honesto, era difícil imaginar que um Cavaleiro Angelical sujaria as mãos com isso.
Um Arcanjo capaz de se levantar após sofrer um ferimento fatal era, de fato, uma existência aterrorizante para os feiticeiros. Até um candidato a Arquidemônio teria dificuldade em derrotá-lo. No entanto, um sorriso de satisfação surgiu no rosto de Zagan.
— Que bom, não é, Foll? Parece que não cairá tão fácil assim. Pense em como vamos puni-lo.
— Err, hmm... — Foll engoliu em seco, como se recuasse diante das suas palavras, entretanto assentiu em seguida, com os olhos cheios de uma ira intensa.
Rafael observou Foll em silêncio enquanto ela fazia isso. Talvez fosse apenas imaginação de Zagan, todavia o olhar de Rafael parecia carregado de compaixão e pesar ao fitá-la. Depois de observá-los por um tempo, lançou uma pergunta com uma voz severa que, de alguma forma, também soava como um suspiro.
— Parece que sou bastante detestado por vocês.
— Você levantou a mão contra a minha filha, então é claro que estou furioso. Além do mais, correm os boatos que matou quase 500 feiticeiros, não é? Dizer que não gosta de ser odiado é como dizer que eles não passam de insetos.
— Bem, qual é a sua maldita razão? — disse Rafael, voltando então sua atenção para Foll.
Cerrando os dentes, Foll retribuiu o olhar e cuspiu palavras carregadas de veneno.
— O Dragão Sábio, Orobas... Esse é o nome do dragão que você assassinou.
Aquela foi a primeira vez que Zagan ouviu Foll pronunciar esse nome.
É um nome gravado na história da feitiçaria e do folclore; um dragão lendário. Para usar feiticeiros como termo de comparação, ele estava no mesmo nível de Marchosias.
Zagan jamais imaginou que Foll fosse filha daquele dragão. Porém, tinha suas dúvidas quanto a isso. Será que um dragão lendário poderia ser abatido por alguém tão fraco?
Para ser justo, o poder de Rafael beirava os limites do potencial humano. Mas para sua infelicidade, sua força empalidecia diante da de Zagan. Em circunstâncias normais, seria necessário um exército de mil feiticeiros ou humanos comuns para derrotá-lo.
Ainda assim, Rafael conseguiu se levantar após receber em cheio o golpe de Zagan... Muito provavelmente graças ao poder que adquiriu ao matar Orobas. Porém, nesse caso, como havia conseguido derrotar o dragão para começo de conversa? O poder que demonstrou contra Zagan estava longe de ser suficiente...
Ao ouvir o nome de Orobas, os olhos de Rafael se arregalaram.
— Entendo. A filha de Orobas, hein?
Por algum motivo, sua voz soou cansada ao dizer essas palavras. Então, arrancando sua Espada Sagrada do chão, concentrou forças nas mãos.
— Então não há como eu não te matar aqui! — Rafael exclamou, brandindo sua Espada Sagrada e avançando contra Foll.
— Acha que vou permitir? — Zagan declarou em um tom gélido, desferindo um soco direto no rosto de Rafael.
Qualquer feiticeiro comum teria o crânio esmagado por aquele golpe, contudo o imponente Cavaleiro Angelical apenas se inclinou para trás e foi arremessado pelo ar. Mesmo assim, o impacto do golpe foi nítido. Zagan percebeu que os ossos do maxilar haviam sido estilhaçados. E, como o maxilar possui muitos nervos conectados aos dentes, um golpe naquela região causa um forte abalo no cérebro.
Seja um feiticeiro, um Cavaleiro Angelical ou um dragão, ninguém conseguiria se levantar depois daquilo. Não sei o que está pensando, contudo vou deixá-lo incapacitado por agora.
Rafael chocou-se contra o chão de cabeça, perdendo a consciência... Ou, pelo menos, era o que deveria ter acontecido.
— Hnnngh!
De alguma forma, com uma agilidade incompatível com seu porte físico avantajado, Rafael girou o corpo e aterrissou de pé. Parecia que sua tenacidade superava qualquer sensação de dor.
— O quê?
E então, num piscar de olhos, passou rente a Zagan e disparou adiante. Como estava convencido de que havia desferido um golpe fatal, Zagan não conseguiu reagir de imediato, deixando apenas Foll, indefesa, em seu caminho.
— Não... Me subestime! — Foll gritou, carregando uma feitiçaria poderosa na mão.
— Pare, Foll! — Zagan gritou para contê-la, no entanto ela manteve sua posição e, em vez disso, disparou uma feitiçaria contra Rafael.
Não vou chegar a tempo! E, bem quando esse pensamento lhe ocorreu... Um clangor agudo ecoou, e lâmina colidiu com lâmina.
Duas Espadas Sagradas brancas se chocaram, e uma onda de choque semelhante a um toque de sino pálido ecoou pelos arredores. Como uma ondulação na água, o anel de luz que acompanhou o impacto percorreu toda a cavidade subterrânea, bem como o interior do Palácio do Arquidemônio, antes de desaparecer.
Sim, outra Espada Sagrada havia interceptado o golpe.
— Você não vai parar com isso, Lorde Rafael?
E quem segurou aquela espada, surgindo do nada, foi Chastille.
— Ah, droga. Esqueci de fechar a sombra. — murmurou Barbatos com um tom inexpressivo.
Parecia que, enquanto Zagan lutava, Chastille havia atravessado a sombra e os perseguido até ali. Por sorte, ela chegou no último instante. Embora houvesse lágrimas no canto de seus olhos e a ponta de seu nariz estivesse vermelha por algum motivo estranho.
Por azar, como era de se esperar, não teve tempo de vestir sua Armadura Ungida. Ainda assim, pelo menos empunhava sua Espada Sagrada ao surgir vestindo sua camisa e saia azul-ultramarino.
Chastille havia conseguido deter o golpe de um Arcanjo sem a proteção divina da Armadura Ungida. Um feito admirável, considerando tudo, todavia havia algo que o surpreendia muito mais do que isso ou do que a sua chegada repentina.
Aquela garota... Deteve tanto a Espada Sagrada de Rafael quanto o feitiço de Foll ao mesmo tempo.
Foll havia disparado um feitiço para interceptar Rafael, mas ele se dissipou antes de atingir o alvo. E aquilo não aconteceu por acaso. Não, seu feitiço havia sido desmantelado. Ficou claro que Chastille estava muito mais concentrada do que quando lutou contra Zagan.
— O que... Está planejando? — rosnou Foll, encarando Chastille.
Ainda assim, Chastille respondeu com voz calma enquanto repelia a Espada Sagrada de Rafael.
— Você não parava de me pregar peças, admito que a culpa de perturbar sua vida tranquila foi minha. Então, me diga... Não podemos tentar conversar e resolver isso? — as palavras de Chastille eram claras e serenas, como se a melancolia que demonstrava no castelo não passasse de uma fachada.
Parece que enfim tomou uma decisão firme. Zagan não percebeu nem um vestígio de hesitação ou medo nela. Para aliviar a tensão no ar, Zagan aproximou-se de Foll e acariciou sua cabeça.
— Bem, vocês duas deveriam mesmo tentar conversar... Mas esperem um pouco por enquanto.
— Por quê? — perguntou Chastille, confusa, porém Zagan voltou sua atenção para Rafael.
— Eu adoraria interrogar esse sujeito agora mesmo, só que acho que não conseguirá falar com o maxilar nesse estado, não é?
O golpe de Zagan havia estraçalhado por completo o maxilar de Rafael. Embora já tivesse começado a se regenerar, não estava em condições de falar. Era de fato admirável que conseguisse segurar a espada e correr daquela maneira, com tanta energia, apesar de todos os ferimentos sofridos.
Naquele exato momento, Rafael caiu de joelhos. Parecia que por fim havia esgotado suas forças. Da mesma forma, Chastille desabou no chão, ofegando. Era bastante provável que houvesse usado todas as suas energias para conter o golpe dele.
Aquele maldito Rafael... Por que a sua sede de sangue desapareceu justo quando avançou contra a Foll?
O momento era suspeito. Além de que, como Zagan havia imaginado, o golpe que lhe desferiu foi, na verdade, fatal. Isso significava que, mesmo que Chastille não tivesse forçado a passagem, Rafael não possuía força suficiente para matar Foll.
Ela podia parecer uma criança, contudo Foll era uma candidata a Arquidemônio, uma das feiticeiras mais poderosas do mundo. Foi por esse motivo que Zagan lhe disse para parar; não queria que Rafael morresse tão cedo.
Zagan pairou ameaçadoramente sobre Rafael e então falou.
— Eu sou um vilão. Um feiticeiro não pensaria duas vezes antes de torturar um Cavaleiro Angelical. No entanto, me sentiria mal espancando um oponente que não tem vontade real de lutar. Vamos lá, diga-me o que estava tentando fazer aqui.
Não havia a menor chance de sentir qualquer compaixão ou misericórdia por aquele homem, e também não tinha intenção de ficar de amizade com Rafael. Era apenas que toda aquela situação o incomodava. O fato de Rafael lutar com um desejo de morrer o deixava inquieto.
— Matar alguém que parece estar implorando para morrer não é o meu estilo. Sendo franco, acho essa ideia repugnante.
Essas palavras fizeram os olhos de Foll se abrirem de choque.
— O que... Quer dizer?
— Não tenho certeza. Então estou tentando conversar para descobrir. — respondeu Zagan, embora tivesse suas suspeitas.
Quando ouviu o nome Orobas, sua sede de sangue desapareceu. Era o nome do dragão que diziam ter sido morto por Rafael. Se havia perdido o espírito de luta ao descobrir que Foll era filha daquele dragão, então uma razão óbvia para suas ações lhe veio à mente.
— Redenção. — Zagan não imaginava que um Cavaleiro Angelical se sentiria em dívida com um dragão ou um feiticeiro. E, no entanto, aquela explicação simples fez todas as peças se encaixarem.
Enquanto Zagan o observava, Chastille puxou a barra de seu manto.
— E-Espere, Zagan.
— As coisas só vão ficar mais complicadas se você se envolver. Apenas fique quieta por um instante.
— Não, escute! — Chastille repreendeu Zagan; então, voltou o olhar para Rafael e continuou. — É difícil de acreditar, entretanto estou certa, não estou?
— Do que está falando? — perguntou Zagan, claramente exasperado, enquanto Chastille retomava o questionamento em tom firme.
— Você é... O homem de capuz que me visitou na igreja... Orobas, correto?
— O quê...? — exclamaram Zagan e Foll.
O choque deles não era surpresa, já que Orobas era o nome do pai de Foll... Era o nome do dragão que Rafael havia matado; ouvi-lo fez com que tanto Zagan quanto Foll duvidassem do que ouviam. O único entre todos os presentes que não acompanhava a conversa era Barbatos, que parecia atônito.
— Ei, o que quer dizer com isso?
Bem quando Zagan perguntou e se aproximou de Chastille... “Algo” se quebrou com um estalo.
***
Ajustando a empunhadura de sua Espada Sagrada, Chastille deixou escapar uma voz trêmula.
— Zagan...
— Eu sei.
O som ecoou vindo do Palácio do Arquidemônio. E, das profundezas além do portão destruído, puderam sentir que alguma coisa havia começado a se mover.
Será que tem algo... Ali...? Era “algo” que não estava lá outro dia, quando Zagan e os outros investigaram o local.
Naquele exato momento, uma atmosfera sinistra preencheu o ambiente. Era um vento estranho que parecia se enrolar e rastejar pela pele, dificultando a respiração. Embora não houvesse odor, Zagan sentia o estômago se contrair, o que lhe causava náusea.
Uma aura nociva... Parecia uma descrição adequada.
O vento amaldiçoado dilacerava a carne como se fosse natural, todavia o mais notável era sua capacidade de corroer a alma.
— Ugh... Guh... — Chastille apertou o peito, sentindo dor. Além de ter sido envenenada há poucos dias, agora estava sem sua Armadura Ungida, o que a deixava como a mais indefesa de todos os presentes. Assim, sem outras opções, Zagan posicionou-se à frente de Chastille para protegê-la.
Barbatos, então, soltou uma voz trêmula e confusa.
— Ei... O que aconteceu?
— Como diabos vou saber? — respondeu Zagan. Por fim, aquele “algo” revelou sua forma do outro lado do portão do Palácio do Arquidemônio. E aquilo... Lembrava um ser humano.
Em sua estrutura superior, possuía um crânio, dois braços e duas pernas. Embora, não era, de forma alguma, um humano. Sua pele era feita de algo tão rígido quanto pedra e pulsava de maneira sinistra a cada respiração. Tendões negros, semelhantes a fissuras, percorriam seu corpo; Zagan percebeu, de alguma forma, que aquelas eram suas veias.
Apesar de tudo, o que mais chamava a atenção... Era o rosto. A boca, repleta de pequenas presas amontoadas, ficava na testa, enquanto os olhos... Injetados de sangue e com um olhar fixo e ameaçador... Situavam-se no centro do rosto e ao redor da orelha esquerda. Não havia nariz; em seu lugar, projetavam-se aqui e ali cilindros semelhantes a cracas, que sugavam e expeliam o ar. Não, não era ar... Era mana.
Zagan percebeu isso apenas ao observar a reação de Chastille enquanto ela apertava o peito. Fosse humano, criatura ou elemento da natureza, aquilo cobiçava a mana de todos que a possuíam, devorando-a incessantemente.
Porém, Zagan reconhecia aquela aura. Na verdade, até se lembrava da própria figura que estava diante deles.
— Isso é... Um demônio? — Zagan murmurou, mas logo percebeu que estava enganado.
Não sinto tanto medo dele quanto senti daquele demônio da última vez.
Ele estava, é claro, lembrando-se do incidente em que Barbatos invocou um demônio. O monstro diante de seus olhos de fato se assemelhava àquela criatura, contudo o demônio que havia enfrentado antes era um ser de natureza mais heterogênea.
Pouco depois, Foll falou, como se estivesse gemendo de esforço.
— Errado. Este é... O guardião do portão... Do Palácio do Arquidemônio.
Era uma escultura modelada à imagem de um demônio, selada por algum tipo de círculo mágico.
— Entendo. Então é uma consequência do choque entre as Espadas Sagradas de agora há pouco, não é?
Ou o selo havia se rompido, ou talvez tivesse sido ativado por coincidência. Não, provavelmente era o selo.
Marchosias não era senil a ponto de aquilo ser mera coincidência.
— Então é um tipo de golem...?
Mesmo que imitasse um demônio, sua origem era diferente. No mínimo, não era uma daquelas existências absolutas que Zagan temia não conseguir derrotar.
Apesar disso, era um legado de Marchosias. O que significava que não se tratava de uma marionete malfeita, como sua aparência sugeria.
Para Zagan, aquela era uma existência totalmente desconhecida.
— Im... Possível...
Quem deixou escapar uma voz rouca... Foi Rafael. Parecia que havia se recuperado o suficiente para pelo menos falar.
Eu gostaria de ouvir a história desse cara agora mesmo...
Para sua infelicidade, não parecia provável que o monstro diante de seus olhos fosse só ouvir o que Zagan tinha a dizer. Não havia como evitar... Seria preciso eliminá-lo primeiro.
— Muito bem, o que faremos agora?
E, bem quando Zagan murmurava... O globo ocular na lateral do monstro se contorceu e fixou o olhar em sua direção.
Sede de sangue! Ao sentir aquilo, a consciência de Zagan foi atraída para o Selo do Arquidemônio em sua mão. Se aquele monstro fosse uma criatura sujeita às regras dos demônios, então, assim como da outra vez, talvez fosse possível bani-lo com um simples gesto. Foi por esse motivo que Zagan estendeu a mão direita e gritou.
— Por este Selo do Arquidemônio, Zagan ordena: ó ser grotesco, retorne ao seu sono.
Respondendo ao seu chamado, o Selo do Arquidemônio emitiu uma luz sinistra.
O demônio que Zagan enfrentara antes havia se ajoelhado e desaparecido ao receber tal ordem. Assim, ao dirigir-se à criatura à sua frente da mesma maneira, o resultado foi...
— Droga, não funcionou. Lá vem ele! — Zagan estalou a língua com irritação.
A boca na testa do monstro se escancarou, e uma mana destrutiva começou a se concentrar ali.
Um ataque estava prestes a acontecer. Ao perceber, Zagan preocupou-se com o que estava atrás de si; a primeira coisa que viu foi Chastille, que... Permanecia imóvel no mesmo lugar.
Aquela garota... Ela deve saber que não tem chance alguma sem sua Armadura Ungida... Será que não teme a morte? Enquanto pensava, Zagan agarrou Chastille pela nuca e saltou por reflexo. E foi por isso que deixou passar uma verdade simples... Não percebeu que Chastille estava protegendo a garotinha que estava logo atrás dela.
— Saia da frente, Foll!
— Eh... — Foll permaneceu imóvel, confusa. E o feixe de luz vindo da boca do monstro disparou voou direto em sua direção.
A luz atravessou o local onde Zagan estava momentos antes e atingiu em cheio a figura de Foll. No entanto, bem antes de atingi-la, Zagan achou ter visto algo pairando sobre a garota.
Quando a torrente de luz cessou, o solo havia se fundido, transformando-se em uma superfície vítrea. E, em meio àquela terra horrivelmente queimada, uma seção da superfície de pedra permanecia intacta. O mais curioso é que as sombras de duas pessoas também permaneciam ali.
— U-Ugh...
Quem soltava aquele gemido baixo era Foll, e quem estava debruçado sobre ela... Era Rafael.
Rafael havia perdido tudo do ombro esquerdo para baixo. Aquela visão fez o sangue de Zagan ferver. Seria raiva por não ter conseguido proteger Foll? Ou talvez fosse porque seu inimigo, logo ele, havia sido quem a salvara?
Seja qual fosse o motivo, bastou para que Zagan desferisse um soco enquanto o monstro abria a boca outra vez.
— Sua boneca imprestável. Não se ache demais, ouviu?
Enquanto cuspia essas palavras, Zagan já saltava para o alto, acima do monstro.
— Vou reduzir você a pó... Escala Celestial!
Num piscar de olhos, dois mil circuitos se combinaram na palma da mão de Zagan, e forjou seu escudo sólido com um movimento violento.
Esmagando aquele círculo mágico na mão, Zagan desferiu um soco direto para baixo; a Escala Celestial pulverizou o crânio do monstro e, de quebra, a boca que acumulava mana.
Ainda em circunstâncias normais, a força bruta de Zagan era capaz de despedaçar rochas, e agora somava o poder da Escala Celestial ao seu soco. Por essa razão, a destruição não parou na cabeça, avançou pelo tronco e partiu o monstro ao meio. Os pedaços que se separaram para a esquerda e para a direita não passavam mais de pedra; eles afundaram lentamente até os joelhos e tombaram.
Logo após constatar o fim da criatura, Zagan correu até Foll e Rafael, que haviam recebido o impacto direto da luz.
— Ei, vocês dois estão vivos? — quando Zagan os chamou, Foll abriu os olhos aos poucos.
— Estou... Bem...
Zagan não entendia o que ele estava planejando, mas Rafael havia usado o próprio corpo e a Espada Sagrada como escudo para proteger Foll. A garotinha não tinha um único arranhão sequer.
No entanto, o mesmo não se podia dizer de Rafael. Ao ver sua figura... Com o braço arrancado junto de todo o ombro, Foll exibiu uma expressão de choque e confusão.
— Seu maldito, o que você está planejando?
Com a consciência aparentemente ainda intacta, Rafael abriu os olhos e falou.
— Só fiz a droga do meu trabalho. Isto não tem nada a ver com você.
Seus ferimentos eram profundos demais e talvez houvessem paralisado sua percepção de dor; a angústia na voz de Rafael era quase imperceptível.
Entretanto o ferimento estava perigosamente próximo ao coração.
Zagan não compreendia a teoria por trás da habilidade de cura de Rafael, todavia o golpe que arrancara seu ombro esquerdo atingira também o coração. A hemorragia com certeza já atingira um nível letal. Possuísse ou não o poder de um dragão, Zagan achava que não poderia ser salvo. Ou melhor, era o que pensava...
— Guh... Hngh...! — Rafael gemeu e, em seguida, voltou a se levantar.
Ele sofrera um ferimento fatal, perdera uma grande quantidade de sangue... Que tingira de vermelho sua Armadura Ungida prateada... E apresentava uma palidez cadavérica no rosto; apesar de tudo, mantinha-se de pé, imponente.
Por que ele teve de se levantar?
Enquanto vomitava sangue, Rafael abriu a boca para falar, sem perder a compostura.
— Você disse... Que sou o maldito inimigo de Orobas, não é?
— É-É isso mesmo. — Foll estava aterrorizada pela tenacidade daquele homem pavoroso, todavia ainda assim conseguiu acenar com a cabeça enquanto pronunciava aquelas palavras.
Em resposta, Rafael encarou a jovem e lhe disse a verdade.
— Isto é um erro. Aquele grande dragão... Estava longe de ser fraco a ponto de cair diante de alguém como eu.
Zagan também tinha dúvidas a esse respeito. A Espada Sagrada é de fato um incômodo, mas será que seria capaz de derrotar um dragão lendário? Para ser sincero, sequer tinha certeza se todos os treze Arquidemônios juntos teriam poder suficiente para tal feito.
Era certo que Rafael possuía um poder muito acima do normal, mesmo para um Cavaleiro Angelical, porém se foi subjugado por Zagan, então não poderia ter matado Orobas. E, como se não conseguisse aceitar essa realidade, Foll gritou para o homem a sua frente.
— É mentira! Eu vi. Vi você devorando avidamente a carcaça do meu pai! Você é o desgraçado que derrubou meu pai com um ataque furtivo.
— Então me deixe perguntar... O Orobas que conhece... Era um dragão tão fraco a ponto de ser derrotado por alguns humanos?
— Até neste último momento continua demonstrando desprezo pelo meu pai?
— O que estou dizendo é que a desgraçada que está zombando de Orobas... É você... — disse Rafael, deixando Foll perplexa. Contudo, continuou. — Não dou a mínima para o que pensa de mim. No entanto direi isto em nome da honra de Orobas... Aquele grande dragão... De forma alguma era inferior a seres insignificantes como nós, humanos.
— O que... Está...
Diante de sua reação, Rafael soltou um suspiro baixo.
— Naquele dia, para abater um certo inimigo, pedi a ajuda do Dragão Sábio Orobas. E ele atendeu o meu desejo.
— Inimigo...?
Que tipo de inimigo seria aquele que os Cavaleiros Angelicais estavam tão desesperados para derrotar? Um Arquidemônio...? Impossível, não é? Zagan engoliu em seco e aguardou as próximas palavras de Rafael, prendendo a respiração.
Pouco depois, este virou a cabeça devagar. Seus olhos, por sua vez, não estavam fixos em Foll, nem voltados para Zagan e Chastille. Estavam direcionados para a pedra que Zagan havia esmagado.
— Um demônio... No folclore, é uma existência conhecida por esse nome.
Foll arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras.
— Não diga tamanha bobagem. Nunca ouvi falar da existência de coisas assim.
— Então, o que é aquilo? Não seria um monstro diferente de tudo o que conhecemos?
— Ugh... Aquilo é... — Foll não conseguiu responder.
— Compreendo que talvez não queira aceitar. Afinal, eu também acreditei, certa vez, que tais coisas haviam desaparecido deste mundo. Entretanto, a realidade é que um demônio surgiu no mundo atual, causando a morte de muitos Cavaleiros Angelicais e do grande dragão. — disse Rafael, praticamente cuspindo sangue enquanto falava, e então acrescentou. — E, num futuro não muito distante, eles retornarão.
Ao ouvir aquelas palavras inacreditáveis, Foll olhou para Zagan como se quisesse se agarrar a ele. Zagan respondeu com um aceno firme de cabeça.
— É a verdade. Não sei se vão voltar para este mundo ou coisa do tipo, todavia demônios de fato existem, mesmo agora. É por esse motivo que estou pesquisando o folclore, para tentar descobrir uma maneira de matá-los.
Não é que Zagan tivesse percebido a situação tensa de que Rafael falava, mas, quando chegasse o momento de enfrentar tais coisas, precisaria de um meio para desafiá-las.
Talvez o fato de Barbatos ter conseguido invocar um demônio fosse um presságio... Barbatos sem dúvida era um feiticeiro de poder incomum, porém o ritual daquela ocasião foi ativado sem sequer exigir um sacrifício, bem no momento em que o poder de Zagan o atingiu; portanto, estava incompleto.
Um demônio não deveria ser fraco a ponto de ser invocado por uma feitiçaria tão precária.
Até mesmo Foll devia sabia que as palavras de Zagan eram verdadeiras. Afinal, vinham reunindo apenas livros sobre demônios nos arquivos do castelo. Porém, ela ainda olhava para Rafael como se não conseguisse acreditar naquilo.
— Então, está dizendo que meu pai desafiou um demônio e foi derrotado?
Em resposta à pergunta, Rafael apenas balançou a cabeça.
— Ele não foi derrotado. Apenas trocou a própria vida pela do inimigo.
Aquilo era apenas uma reformulação do que Foll havia dito. A diferença era que, na mente de Rafael, o dragão havia lutado com orgulho, e esses fatos foram transmitidos em sua explicação.
Aquilo certamente afetou Foll profundamente; ela mordeu os lábios com força e murmurou algo.
— Então, quem... Eu deveria odiar?
— Não deve odiar, mas sim sentir orgulho.
Foll franziu a testa.
— Orgulho... Você diz?
— Correto. Sinta orgulho. Orobas arriscou a vida para proteger você e este mundo maldito em que vive. Se não se orgulhar, então quem diabos o fará? — exclamou Rafael, ajoelhando-se diante de Foll enquanto continuava. — Se me matar fará com que recupere a fé em Orobas, então faça como desejar. Vou lhe entregar esta maldita cabeça.
Tendo sofrido ferimentos fatais, Rafael olhou para o próprio corpo, que continuava a se regenerar.
— Os demônios são poderosos. Se forem ressuscitados neste mundo onde a igreja e os feiticeiros vivem em conflito, não teremos como vencer. Precisamos nos preparar. Foi por esse motivo que, de forma desprezível, bebi o sangue de Orobas e atravessei aquela terra de morte certa.
Essa foi a cena que Foll presenciou. E, após dizer tudo, Rafael voltou sua atenção para Chastille.
— No entanto, meu papel já chegou ao fim. As sementes na igreja já estão brotando. Se meu último dever for servir como um presente de despedida para Orobas, então não posso pedir mais nada.
Enfim compreendendo aonde a sua história ia dar, Zagan abriu a boca para falar.
— Então, o tal enviado da Facção de Unificação, ou seja lá o que for, que a Chastille mencionou... Era você?
Rafael assentiu em silêncio.
— De fato. Ao manterem o status de Arquidemônio e Arcanja, vocês, malditos, criaram uma conexão... Algo muito próximo daquilo que eu vinha tentando realizar... É por essa razão que...
— Cara, que droga, nada disso faz sentido!
Quem levantou uma objeção naquele momento foi Barbatos.
— Fala sério, você matou centenas de feiticeiros, e quer paz? Quem diabos acha que está convencendo aqui?
Sendo franco, Zagan compartilhava da mesma opinião. E, para sua surpresa, Rafael assentiu, como se compreendesse até mesmo esse fato.
— Sei disso muito bem. Não posso me tornar o estandarte da unificação. É por esse motivo que precisava da Donzela da Espada Sagrada.
Chastille elevou a voz, atrapalhada, ao receber um papel tão absurdamente importante.
— E-Espere um minuto. Não é como se eu tivesse aceitado fazer um...
Ninguém presente conseguiu ouvir o resto do que ela tinha a dizer, pois, com um baque, o pedaço de pedra que deveria ter desmoronado começou a se mover.
Quando Zagan olhou para ele, percebeu que o monstro que havia sido partido ao meio estava de pé outra vez.
***
— Haaah... Parece que tem imortais espalhados por aí, né?
Logo depois do Arcanjo que teve o ombro inteiro arrancado, veio o monstro do legado do Arquidemônio anterior. Comparado a esses caras, Zagan sem dúvida era o que tinha mais fraquezas humanas.
— Pode deixar que vou resolver de novo. Só me de um tempinho.
— Você consegue acabar com isso? Com essa coisa?
Em resposta a Rafael, Zagan deu de ombros.
— Golens estão fora da minha área de especialização, no entanto se for algo feito por feitiçaria, posso destruir.
— Aquilo... Não é um golem.
Zagan franziu a testa ao ouvir a convicção absoluta naquelas palavras.
— Como assim?
— Isto... É o que vocês, seus bastardos, chamariam de quimera. Além de ser um golem gerado por feitiçaria, também é...
E com essa fala, Zagan sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Não, não pode ser.
— Sim, é. Essa coisa é algo que Marchosias criou, uma quimera de um demônio.
Zagan não pôde negar essa afirmação. Afinal, quando viu aquele monstro pela primeira vez, a primeira coisa que lhe veio à mente foi um demônio.
Aquele maldito Marchosias, que incômodo! Rafael então focou no monstro com um olhar irritado.
— Não há como negar. São os destroços do demônio que Orobas e eu derrotamos. Marchosias deve ter os recuperado e criado aquela quimera.
Destroços eram apenas destroços. É provável que não estivessem nem perto de seu poder original, ainda assim, era um demônio. Era lógico que apenas golpeá-lo não o finalizaria.
Apesar da revelação, um sorriso surgiu no rosto de Zagan. Perfeito. Devo testar outra habilidade?
O monstro de pedra, a quimera de um demônio, quase havia terminado de se regenerar. E em resposta, Zagan entrelaçou a Escala Celestial em sua mão e avançou.
— Chastille, você também deveria ir.
— Eu ainda... Não disse nada sobre concordar com o que você disse, sabe?
— Mas já deveria saber muito bem o que pretende fazer.
Zagan não conseguia entender sobre o que os dois estavam falando, porém Chastille assentiu com um aceno direto e desembainhou sua espada.
— Não preciso que me diga isso. Empunharei minha Espada Sagrada como bem entender.
E então, Chastille sussurrou.
— Não hesitarei mais. Empreste-me seu poder... Espada Sagrada Azrael!
As Chamas da Purificação... Eram uma luz desta vez.
Uma luz pálida, que em nada lembrava as chamas furiosas de Rafael, serpenteava ao redor da lâmina. Contudo, não parecia nem um pouco efêmera.
Zagan percebeu que Chastille estava canalizando o mesmo poder que Rafael liberava como chamas, concentrando-o apenas ao longo da lâmina. Ela possuía um fio tão afiado que poderia até mesmo cortar a Escala Celestial.
Essa garota... Quando se trata de manejar o poder de uma Espada Sagrada, será que não é ainda melhor do que o Rafael? Enquanto Zagan a observava com admiração, Chastille posicionou-se ao seu lado.
— Não vou pedir que acredite em uma Cavaleira Angelical como eu, no entanto quero que... Lutemos juntos.
Zagan apenas deu de ombros como resposta.
— Duvido que você seja do tipo que recorre a truques sujos.
Depois de observar a situação deplorável dela nos últimos dias, ele sabia disso, ainda que não quisesse admitir.
— Está... Me elogiando? Ou me menosprezando?
— Quem sabe.
Chastille estufou as bochechas, contrariada com a resposta, virou o rosto para o lado com um bufo e falou.
— Então, tem algum plano?
— Tem uma coisa que gostaria de testar, entretanto vou precisar acertar em cheio. Tenho que chegar bem perto, sabe?
— Entendido. Nesse caso, assumo a função de batedora.
Naquele momento, o monstro de pedra enfim terminou de se regenerar, e seu globo ocular esbugalhado e sinistro voltou-se para eles.
— Lá vem.
— Pode deixar.
E, enquanto a boca hedionda em sua testa se abria, a luz de mana começou a se acumular mais uma vez. Era o sopro de luz que havia derrubado Rafael.
Zagan concentrou sua atenção nas pessoas atrás. Se eu desviar, os dois serão atingidos.
Barbatos estava fora do alcance da luz, todavia havia outras duas pessoas que não estavam.
Talvez Foll conseguisse escapar, só que Rafael não conseguia mover um músculo sequer. Além do mais, não gostava da ideia de sua filha ser alvo de um ataque pela segunda vez.
E, enquanto Zagan se colocava em guarda, seu campo de visão foi bloqueado pelas costas de Chastille.
— Idiota, você nem está usando sua Armadura Ungida... Vai acabar morrendo!
— Vou atrair a sua atenção, então não se preocupe!
Chastille avançou rápido enquanto gritava essas palavras.
O sopro do monstro foi disparado. E aquela luz aniquilou impiedosamente o corpo de Chastille... Ou melhor, deveria ter aniquilado.
— HAAA! — Chastille desferiu um golpe descendente com sua Espada Sagrada, acompanhado por aquele grito cheio de garra. E o sopro de luz foi partido ao meio pela sua lâmina.
Logo depois, a luz que se dividiu para a esquerda e para a direita passou longe de Zagan, Foll e Rafael, e desapareceu.
— Vamos... Mova-se, Zagan! — Chastille manteve o ritmo e correu em direção ao monstro enquanto gritava essas palavras para ele.
Ora, está cheia de surpresas, não é? Aquele golpe deixou até mesmo Zagan atônito. O que fazia sentido, já que nem sequer conseguiu ver o momento em que brandiu a espada.
Dito isso, a diferença de capacidade física entre Zagan e Chastille, sem a Armadura Ungida, era grande demais. Zagan ultrapassou Chastille num piscar de olhos e entrou no alcance do monstro de pedra num instante. Mas, o monstro de pedra golpeou com o braço para interceptá-lo.
— É rápido! — Barbatos deixou escapar algumas palavras de espanto.
Ao contrário do porte avantajado do monstro, sua velocidade rivalizava com a de Zagan. Por sorte, aquele tamanho enorme resultava em muitos movimentos desperdiçados.
Era um golpe amplo e em arco, dando a Zagan tempo suficiente para avançar com o punho e interceptá-lo.
O punho de pedra do monstro despedaçou-se como se fosse frágil, com os fragmentos se espalhando pelo ar.
— O quê...?
Contudo, quem ficou atordoado foi Zagan.
Os fragmentos de pedra dispersos estavam conectados por uma névoa negra sinistra. Aqueles destroços alteraram seus movimentos no ar, como se possuíssem vontade própria, e começaram a chover incessantemente sobre Zagan.
Então essa é a razão pela qual voltava ao normal depois de ser despedaçado! O corpo de pedra era apenas algo passageiro; sua verdadeira forma era a névoa negra que espreitava em seu interior.
— Não pare agora, Zagan!
Ao ouvir essas palavras, Zagan viu incontáveis fragmentos de pedra serem pulverizados por uma luz branca pura. Ambos, as palavras e o ataque, vieram de Chastille, que enfim havia alcançado Zagan.
Mal Zagan percebeu um rastro branco atravessando um fragmento de pedra, e o próximo golpe de espada já estava a caminho. A quantidade de golpes ultrapassava fácil a casa das dezenas. A velocidade era tão alta que parecia que todos ocorriam em simultâneo. No entanto, embora a velocidade fosse impressionante, o que de fato aterrorizava era o fato de que os golpes vinham de trás de Zagan para atingir alvos à sua frente... Sem jamais deixar sequer um arranhão nele.
Em vez de admiração, uma sensação gelada percorreu a espinha de Zagan. Se ela tivesse feito isso quando nos conhecemos, eu já não estaria morto? Se Chastille tivesse utilizado tal habilidade com a espada quando lutaram pela primeira vez, Zagan não teria conseguido empregar nenhuma de suas técnicas.
Entretanto, naquele momento, era uma aliada a quem podia confiar suas costas. Assim, Zagan apertou a Escala Celestial que empunhava, sobrepondo mais uma estrutura de circuitos à arma.
— Reduza-se a cinzas... Fósforo Celestial!
E então, Zagan golpeou o abdômen do monstro com um baque surdo. Sim, foi um golpe de punho que não passou de uma simples batida. Foi um ataque verdadeiramente ineficaz, indigno de Zagan, que era capaz até de esmagar pedra com as próprias mãos. Ao ver aquilo por trás, Chastille deixou escapar uma exclamação atônita.
— Você errou o golpe?
— Não, já acabou! — observou Zagan, inalterado. Após dizer aquilo e levantar a mão direita, cerrou o punho como se estivesse esmagando algo. E, logo em seguida...
Com um súbito clarão, o monstro de pedra foi envolto por uma chama negra. A chama irrompeu por apenas um instante e, enquanto percorria a superfície da pedra como se estivesse tingindo-a, ela desapareceu.
Com isso, tudo chegou ao fim. A estátua enegrecida desmoronou silenciosamente. Não importa o poder de regeneração que possua; uma vez que perde sua mana, não passa de pedra comum.
Os fragmentos que se desprenderam transformaram-se em pó e se dispersaram antes mesmo de tocar o chão. E, num piscar de olhos, não restou nada da quimera.
Ao se virar, Zagan percebeu que Chastille estava paralisada, com os olhos arregalados de choque.
— O que... Você fez?
Zagan então teceu um círculo mágico na mão para ajudar a explicar a situação.
— Existe uma feitiçaria chamada Escala Celestial. Ela absorve incessantemente a mana ao seu redor e acumula intensidade de forma contínua para formar um escudo; então, tudo o que fiz foi inverter esse efeito e lançá-lo contra o inimigo.
— Reverter o efeito...?
— Ela absorve incessantemente a mana da área ao redor... E a faz entrar em combustão. A razão pela qual a chama parece negra é que a própria mana está queimando.
Escala Celestial e Fósforo Celestial... Eram magias que utilizavam a mesma estrutura; dois lados da mesma moeda, por assim dizer. Uma arma anti-Espada Sagrada e anti-demônio. Após obter o legado de Marchosias, Zagan concentrara todos os seus esforços no desenvolvimento dessas técnicas.
E os resultados falavam por si. Afinal, sua feitiçaria possuía poder suficiente para reduzir a cinzas, num instante, até mesmo uma quimera criada a partir dos restos de um demônio.
Se um feiticeiro recebesse aquele golpe, estaria indefeso. De fato, era um feitiço tão terrível que, se os outros Arquidemônios tomassem conhecimento a seu respeito, seriam forçados a declará-la uma arte proibida.
— Ainda assim, é imprecisa demais. Se eu não aumentar a eficiência, é provável que não funcionará contra um demônio de verdade...
O demônio que Zagan enfrentara possuía uma quantidade de mana muito mais absurda. No estado atual do Fósforo Celestial, um demônio real destruiria a feitiçaria antes de ser reduzido a cinzas. Assim como a Escala Celestial seguia estando incompleta, parecia que esta feitiçaria também tinha margem para melhorias.
— Você é... Um feiticeiro aterrorizante... — Chastille falou como se estivesse tremendo, entretanto sua voz transmitia mais um sentimento de admiração por ele. E foi por esse motivo que Zagan respondeu à altura.
— Suas habilidades também não são nada comuns, Chastille.
Ao responder aquilo, por algum motivo, Chastille arregalou os olhos e cobriu o rosto.
— O quê?
— Não, é só que... Esta é a primeira vez... Que você me chama pelo meu nome... Só isso...
— É mesmo? — Zagan não estava realmente consciente, todavia agora que mencionara, percebeu que sempre se referira a Chastille como “você”, “aquela garota” ou termos do gênero.
— Bem, peço desculpas por isso.
— E-Está pedindo desculpas?
— Afinal, você é amiga da Nephy. Vou, no mínimo, tratá-la com respeito.
Embora, no fundo, as maneiras de um feiticeiro não fossem tão diferentes da dignidade de um bandido.
Chastille então estufou as bochechas e lançou-lhe um olhar fulminante.
— Não vim aqui apenas por causa da Nephy. Vim... Para lutar ao seu lado...
Zagan retribuiu o olhar, atônito ao ouvir aquelas palavras surpreendentes.
— Mesmo sendo um feiticeiro e uma Cavaleira Angelical?
— Sim, mesmo sendo um feiticeiro e uma Cavaleira Angelical.
Ao ouvir a resposta de Chastille, Zagan sentiu uma segurança que jamais havia experimentado em toda a sua vida. Confiar as costas a alguém não é uma sensação ruim, não é?
Embora não fosse da sua natureza, estava prestes a transformar esses pensamentos em palavras. Porém...
— Zagan!
Ao se virar ao ouvir o grito de Foll, Zagan viu Rafael desabar de exaustão.
***
— Parece que pude testemunhar a espada mais veloz entre os Arcanjos.
Deitado no chão, Rafael abriu um sorriso. Mesmo naquele momento, era um sorriso feroz que dava a impressão de que poderia atacar a qualquer instante, mas, na verdade, estava apenas rindo.
— Não fale muito. Não sou nada bom com cura.
Zagan estava prestando os primeiros socorros a Rafael usando feitiçaria, porém o ferimento era profundo demais. No máximo, conseguia estancar o sangramento. Parecia que a sorte de Rafael havia acabado; a capacidade regenerativa de dragão estava enfraquecendo, mal permitindo que se agarrasse aos últimos vestígios de vida. Por fim, Rafael falou em um tom exausto.
— Chastille. Não importa o que pense de nós, suas ações já se tornaram a nossa bandeira. Aqueles que simpatizam comigo... Com certeza se tornarão seus aliados daqui em diante...
— Lorde Rafael... — Chastille olhou para Rafael com uma expressão complexa ao falar. Contudo Zagan a interrompeu.
— Falando de novo sobre a Facção de Unificação ou o que quer que seja, hein? Barbatos disse a mesma coisa mais cedo, no entanto sigo não vendo sentido nisso. Se diz que precisa de uma bandeira ou algo assim, por que não faz isso por sua conta? Você é um daqueles malditos Arcanjos, não é?
— Se fosse apenas dentro da Igreja, estaria tudo bem. No entanto, é justo como aquele homem disse. Eu... Matei feiticeiros demais. Se eu pedisse para se unirem a mim depois de todo esse tempo, eles jamais concordariam.
Era por essa razão que precisava de alguém como Chastille. E ela ficou surpresa com aquilo.
— Foi por esse motivo que usou o nome de Orobas? Porque achou que ninguém acreditaria nas suas palavras?
— Em parte, sim. Entretanto também porque a minha sobrevivência e a criação da Facção de Unificação eram o último desejo de Orobas. Por isso, seu nome é o mais apropriado para o líder.
Para aquele homem, a existência de Orobas tinha um peso absoluto. Zagan conseguia entender esse fato, todavia, no fundo, não estava convencido.
— Então, por que matou tantos feiticeiros? Tinha algum tipo de rancor ou algo assim? — Zagan não tinha a menor intenção de afirmar que os feiticeiros eram virtuosos. Pelo contrário, todos, sem exceção, eram vilões. Não conseguia imaginar um motivo para não os odiar, embora, ainda assim, matar quase quinhentos não era pouca coisa. Precisava ter uma razão.
Mas ninguém conseguiu prever a resposta de Rafael para aquela pergunta.
— Eu não os matei porque queria. Por algum motivo, os feiticeiros só continuavam me atacando.
— Quê...? — todos na local soltaram exclamações de perplexidade ao mesmo tempo.
Rafael então murmurou algumas palavras, como se achasse a situação estranha.
— Por que será? Tudo o que fiz foi tentar ter uma conversa civilizada. Ainda quando sorria para provar que não era um inimigo, aqueles malditos feiticeiros não deram ouvidos e continuaram avançando para cima de mim. É claro que, naquele ponto, tive de aceitar os seus desafios, o que sempre terminava comigo abatendo-os.
Sem conseguir entender exatamente o que ele dizia, Zagan ficou em choque absoluto.
— Espere um pouco. Não estava tentando nos provocar naquele bar?
— Só pretendia informar o desgraçado que tinha intimidade com Chastille sobre a crise que havia caído sobre ela...
A cabeça de Zagan começou a doer. Ao mesmo tempo, Chastille balançava a cabeça, atordoada.
— P-Porém, quando você me conheceu, não perguntou quantos feiticeiros eu havia matado...? Ah, não me diga que aquilo foi apenas uma encenação para esconder suas verdadeiras intenções?
— O que está dizendo? Você não serviria como um estandarte se matasse feiticeiros da mesma forma como fiz, serviria? E como respondeu que não era um número do qual se orgulhar, me convenceu de que era a pessoa quem eu procurava.
Chastille ficou sem saber o que pensar depois de ouvir aquela resposta e ver a expressão séria no seu rosto. Então, ela assentiu.
— Agora que mencionou... Será que estava negociando para que minha Espada Sagrada... Fosse devolvida a mim?
— Se um Arcanjo não tem uma Espada Sagrada, como pode se proteger?
Parecia que algo semelhante havia acontecido com Chastille também; então, Zagan tentou recordar a conversa que teve com Rafael.
Ele tinha um jeito indireto de falar, contudo era verdade que aquele homem jamais disse querer matar Chastille. É claro que falava sobre os pontos de vista da Igreja, o que também não significava que concordava com eles.
Bem, se um feiticeiro e um Cavaleiro Angelical começassem a agir como grandes amigos, acabaria acontecendo algo como o que houve com Chastille, não é? Em outras palavras, estava basicamente dizendo para perceberem suas intenções. Embora, pra ser honesto, não parecesse nada disso.
— Você conseguiu mesmo matar quase 500 pessoas desse jeito?
— Simplesmente acabou acontecendo assim, já que fui atacado dia após dia. E, quando os feiticeiros paravam de vir, a Igreja me enviava para outra região.
Parecia que o ciclo se repetia à medida que mudava de local, fazendo com que o número aumentasse antes que sequer percebesse.
A história não era muito convincente, no entanto Zagan conseguia entender que aquilo não fora intencional. E, como era de se esperar, soltou um suspiro.
— Pense na sua maldita aparência. Qualquer um pensaria que é um inimigo se agisse de forma estranha com esse visual.
Depois que Zagan apontou isso, Barbatos acrescentou um... — Hã? Logo você dizendo isso? — com um tom de espanto, o que fez Zagan decidir que lhe daria um tapa mais tarde. Então, cerrou o punho enquanto Rafael se levantava aos poucos.
— Chastille... Você deveria voltar para a igreja. Vou cuidar daqueles que desejam a sua morte. Estou certo que serei capaz de manter esta vida por pelo menos esse tempo...
— Hã? Sabe quem é o culpado?
— Deixe-me perguntar então... Será que não percebeu a verdade?
Não é que ela não tivesse ideia de quem fosse. E, ao ouvir as suas palavras, o rosto de Chastille empalideceu.
Sim, descartando Rafael, restam poucas pessoas na igreja que poderiam ser as responsáveis.
Zagan não estava muito a par dos assuntos internos da igreja, entretanto, por processo de eliminação, apenas uma pessoa lhe veio à mente.
Por fim, Rafael se virou para Foll.
— Prometi lhe entregar minha cabeça, todavia vou pedir que espere um pouco até lá.
Foll não conseguiu responder às palavras que ouvia. Em vez disso, fez uma outra pergunta.
— Responda apenas uma coisa. Que tipo de dragão Orobas era para você?
Rafael assentiu com calma em resposta às palavras dela e então respondeu...
— Um grande dragão. Aquele momento em que montei em suas costas e lutei ao seu lado... Foi o melhor momento da minha vida.
— Entendo.
E, enquanto Rafael se afastava, Foll não tentou detê-lo nem o matar.
— Tudo bem assim?
— Não sei. Mas... Também não sei... Se é correto matar aquele homem.
Zagan acariciou com carinho a cabeça da garota para confortá-la.
— Então, não está tudo bem deixar as coisas como estão? — perguntou Zagan, estendendo a mão para Foll, e acrescentou. — Vamos voltar. Nephy deve estar cansada de esperar.
— Uh, hmm.
Nem mesmo Zagan sabia se era correto desistir da vingança. Porém, ainda assim, percebia que Foll não nutria mais um ódio profundo pelos Cavaleiros Angelicais.
Por isso... Tenho certeza que está tudo bem desse jeito.
Era possível que o seu ódio ressurgisse depois de tudo aquilo. Na verdade, tinha certeza de que acabaria vacilando em algum momento também. Contudo, Zagan e Nephy haviam decidido permanecer ao lado daquela garota.
E, naquele momento, Chastille se manifestou.
— Hmm... E quanto a mim?
— Volte para a sua maldita igreja, cabeça de pônei. — disse Foll, deixando Chastille à beira das lágrimas com sua hostilidade clara.
De alguma forma, antes que alguém percebesse, Barbatos havia desaparecido. Eles tiveram de fazer uma longa caminhada de volta ao castelo de Zagan devido à sua ausência, e o amanhecer já estava chegando quando enfim chegaram. E, no entanto, Nephy seguia lá, parecendo estar esperando para recebê-los.
— Bem-vindos de volta, Mestre Zagan, Foll, Chastille.
E, naquela mesma manhã, Zagan e os outros ouviriam falar sobre o destino de Rafael.
***
— Entendo. Então, o paradeiro de Chastille segue desconhecido... — murmurou o Cardeal Clavwell, como se estivesse pesaroso, após receber um relatório dos subordinados de Chastille, os Cavaleiros do Céu Azul.
— Minhas mais sinceras desculpas. Fomos totalmente incapazes.
— Não é como se a culpa fosse de vocês. Também estou ansioso pela segurança de Chastille. Por agora, por favor, descansem.
— Hah! — com uma reverência e aquele grito vigoroso, os três cavaleiros deixaram o escritório de Clavwell.
Assim que a porta se fechou, Clavwell soltou um lamento pesaroso, como se não conseguisse mais suportar a situação.
— Oooh... Chastille, minha querida cavaleira... Por que... Por que você apenas não morre por mim?
O rosto que espreitava por entre suas mãos estava horrivelmente distorcido.
— Feiticeiros são malignos. E aqueles que são cúmplices deles também o são. Se um Arcanjo está mergulhado no pecado, então seu substituto deve fazer valer a verdadeira justiça em seu lugar, não é?
Se Chastille fosse morta, a Espada Sagrada escolheria um novo portador, alguém puro. E, desta vez, sem dúvida, ele o criaria para ser a encarnação da justiça.
O que escondia meticulosamente era o fato de que aquela não era nem de longe a primeira vez que Clavwell tentava assassinar um Arcanjo. Aqueles que não demonstravam o poder absoluto da espada da justiça, aqueles que se opunham às inclinações de Clavwell, aqueles que hesitavam em matar feiticeiros e aqueles indignos de serem Arcanjos eram descartados sem piedade.
Para sua sorte, Kianoides era o domínio do Arquidemônio anterior, Marchosias. Se fossem enviados até aquele demônio, ninguém duvidaria de suas mortes.
Aquilo não representava uma derrota para a Espada Sagrada. Como o portador era inadequado, não conseguia utilizar o verdadeiro poder e acabava perecendo como resultado.
Isto, por si só, também poderia ser chamado de vontade da Espada Sagrada. Entretanto, as circunstâncias desta vez eram um pouco diferentes.
— Aquele maldito Rafael tinha mesmo que fazer algo desnecessário...
Chastille havia dito, de forma tola, que não queria lutar contra o Arquidemônio. Por essa razão, confiscou sua Espada Sagrada pouco depois, e os preparativos para uma grande cerimônia de execução já estavam bem adiantados. O motivo do atraso... Foram as objeções dos outros cardeais.
Sim, Clavwell não estava protegendo Chastille nem um pouco. Ela só estava protegida porque os outros cardeais o impediam de agir. E aquela Chastille... Havia pegado sua Espada Sagrada e desaparecido.
Sua mulher insolente... Quer dizer que não morreu com aquele veneno? Era o seu veneno precioso, produzido com o objetivo de torturar feiticeiros capturados. Não havia como Chastille estar viva depois de ingerir algo que era fatal até mesmo para os feiticeiros mais poderosos. E, todavia, nem o seu corpo nem a Espada Sagrada haviam aparecido em lugar algum.
Se Rafael não tivesse sugerido devolver a Espada Sagrada a ela, nenhum desses problemas teria ocorrido e tudo teria sido resolvido de forma limpa.
— Aqueles três cavaleiros estúpidos também são inúteis.
Aqueles três serviam a Chastille cegamente. Portanto os manteve sob vigilância, pensando que conseguiriam descobrir onde ela estava; mas tudo o que fizeram foi vagar pela cidade de forma desordenada. Por mais tempo que passasse, nunca a encontraram.
Ou talvez... Tenham percebido que estavam sendo vigiados? Apesar das aparências, aqueles três cavaleiros figuravam entre os guerreiros de elite de Kianoides. Mesmo durante o incidente em que Zagan sucedeu ao Arquidemônio Marchosias, os três cavaleiros perseguiram Chastille e, segundo consta, conseguiram resgatá-la.
Portanto, a explicação lógica para tal desempenho pífio era que haviam percebido que, se agissem, acabariam levando um assassino até Chastille.
Era preciso pensar em outra estratégia. E, enquanto remoía esses pensamentos desagradáveis, alguém bateu à sua porta.
— Peço desculpas, porém desejo ficar sozinho agora. Por favor, deixe o que precisa para mais tarde.
Não era nada tão grave, contudo, como estava muito alterado pela raiva, não se sentia capaz de conversar como costumava fazer com outra pessoa. Embora, ignorando suas ordens, a porta do recinto foi aberta com um chute violento.
— Estou entrando, Clavwell! — ecoou uma voz retumbante, e quem surgiu não foi outro senão o gigantesco Cavaleiro Angelical Rafael.
— O-O que pensa que está fazendo...? Seu insolente...! — Clavwell elevou a voz, num misto de medo e irritação, contudo logo percebeu algo estranho. Rafael estava coberto de sangue. Faltava-lhe um dos braços, e o ferimento era tão grave que sua sobrevivência beirava o milagre.
— Lorde Rafael, que ferimento é esse...? Não, deixando isso de lado, precisamos tratá-lo!
Enquanto exclamava essas palavras, Clavwell rapidamente escondeu um pouco de veneno na mão. Não sabia o que havia acontecido, no entanto aquele homem era uma das “abominações” que Clavwell precisava exterminar a qualquer custo.
Não tinha certeza absoluta de qual era o seu objetivo, entretanto estava ciente que Rafael tentava formar uma nova facção dentro da Igreja. Chamavam-na de “Facção de Unificação” ou algo assim; se Clavwell soubesse que aquele grupo se opunha a tudo o que defendia, talvez não tivesse feito aquela escolha. Ainda assim, fosse sorte ou azar, não havia ninguém na Igreja capaz de imaginar a ideologia de Rafael apenas pela sua aparência.
Rafael então se jogou na cadeira à frente de Clavwell.
— Não é nada, não se preocupe. Vim apenas resolver um assunto trivial. Já estou de saída.
— M-Mas...
E justo quando Clavwell dizia isso e passava o veneno na luva, estendendo a mão para aplicá-lo sobre o ferimento de Rafael...
— Hã...? — com um som surdo de algo rolando, seu braço caiu no chão.
— Infelizmente, não me agrada nem um pouco a ideia de ser tocado por uma mão besuntada de veneno. Com uma velocidade muito superior à que Clavwell conseguia acompanhar com o olhar, Rafael decepou seu braço direito.
— Ghhh... Urk? — enquanto ele se agachava e começava a gritar, um pé blindado foi enfiado à força em sua boca. Vários de seus dentes da frente, estraçalhados, espalharam-se pelo chão.
— Não faça tanto escândalo. Embora eu possa parecer implacável, esta é a primeira vez que mato um humano normal, sabe? Estou um pouco nervoso.
Por que... Eu? Ele não conseguia pronunciar essas palavras, todavia, enquanto Clavwell protestava com o olhar, Rafael entendeu a mensagem perfeitamente e respondeu.
— Nós dois já estamos senis. Não nos cabe meter o dedo em cada pequena coisa que a geração mais jovem faz. Isto sem falar em podar as possibilidades deles logo no início, é claro. — disse Rafael, antes de desembainhar sua Espada Sagrada.
— Você vai encontrar seu fim pela lâmina da sua amada Espada Sagrada, seu desgraçado. Que tal fazer uma cara um pouco mais alegre?
— Aaaaggh! — com os olhos arregalados, Clavwell tentou balançar a cabeça, mas não conseguiu fazer nada com o pé cravado em sua boca.
Alguém me salve! Por que a Arcanja de Kianoides não vinha salvá-lo? O que havia acontecido com os três cavaleiros que acabara de dispensar? Como porta-voz de Deus, o executor da justiça, por que tinha de ter sua vida ameaçada por tal “mal”? Porém, por mais que Clavwell clamasse em seu íntimo, a “justiça” em que acreditava não o protegeu.
— Logo irei atrás de você. Espere por mim no inferno! — foram as últimas palavras que o homem conhecido como Cardeal Clavwell ouviu, enquanto uma Espada Sagrada descia num golpe direto em direção ao seu pescoço.
E essa foi a última cena que Clavwell testemunhou neste mundo.
***
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