Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 24: Passagem da Serpente Reluzente
Parte 1
O incidente a seguir ocorreu pouco antes da visita de D ao hospital. Aproveitando-se da ausência do patrão para uma reunião na prefeitura, a empregada do prefeito, Nell, esgueirou-se para o jardim.
Certificando-se de que não havia mais ninguém por perto, ela chamou.
— Ben!
Seu amante musculoso da lavanderia não respondeu. Franzindo a testa, desconfiada, Nell dirigiu-se à base do enorme pessegueiro que sempre servia de cenário para seus encontros.
— Bu! — gritou Ben, espiando de repente por trás da árvore.
— Ah, Ben, não me assuste assim!
Embora um alívio a invadisse, uma estranha sensação de incongruência começou a incomodar Nell. Ben não parecia ele mesmo. Claro, seu rosto e porte físico eram os mesmos de sempre, mas havia algo estranho. Seria aquele sorrisinho irritante em seus lábios?
— O que foi, Nell? Tem alguma coisa grudada no meu rosto? — perguntou. Sua voz era exatamente igual à do Ben.
Nell balançou a cabeça.
— Não é nada.
— Ah, é mesmo? Então que tal um beijo?
E com isso, a abraçou antes que pudesse resistir e seus lábios encontraram os dela. Por alguns segundos, os dois ficaram unidos como um pilar solitário pelo abraço firme, porém logo a força abandonou o corpo de Ben. Mole como um macarrão cozido demais, desabou em seguida entre as raízes da árvore.
Sem lançar um olhar sequer para o amante que havia perdido a consciência tão repentinamente, Nell examinou os arredores. Seu semblante continuava tão sensual como sempre, contudo havia algo inexplicável e estranho em sua expressão.
— Quando vi o rapaz entrando escondido no quintal do prefeito, tive um palpite sobre o que estava aprontando... E valeu a pena. — disse Nell, acrescentando. — Devo dar uma bronca nessa moça por estar aprontando enquanto está trabalhando. Claro, isso facilitou muito o meu trabalho, então vou deixar passar dessa vez. O garanhão vai ficar fora por um tempo, vou ter que te usar, mocinha.
E então, depois de arrastar o corpo inerte do namorado para o meio dos arbustos, Nell recuperou sua postura recatada e voltou para casa com passos leves.
Ao entrar, Nell trancou rapidamente todas as portas. Ficou parada no meio da sala de estar com uma expressão pensativa que sugeria que estava perdida em pensamentos profundos ou lembranças sombrias. Contudo logo abriu os olhos e assentiu satisfeita.
— Ah, agora entendi... Ainda tem outro vampiro por aí. E estão acobertando isso e fingindo que a garota ainda não está melhor... Deve ser um plano do D, aposto! — ela riu.
Embora a voz fosse de Nell, o jeito era inconfundivelmente o de Plutão VIII. No entanto a verdadeira questão era... O que esperava conseguir possuindo o namorado dela, depois saltando dele para o corpo da mulher e vasculhando suas memórias?
— Nada fora do comum na casa, ela pensa. Espera aí... Disseram para não entrar no porão sem pedir permissão. Bingo! Então eu digo que a gente deve dar uma espiadinha sem permissão.
Caminhando sem fazer nenhum som para que Laura não a ouvisse do quarto onde permanecia escondida, Nell dirigiu-se à porta do porão com um sorriso descarado. Não estava trancada. Empurrando a porta, encontrou uma escada de madeira que descia para a escuridão.
Murmurando — Erk, que assustador. — com interesse descarado, Nell juntou a barra de sua longa saia e entrou devagar na escuridão.
Fios de energia e canos de água quente vindos do setor industrial percorriam toda a extensão do teto. Do centro do porão, com suas paredes revestidas de caixas de madeira e galões de combustível, Nell examinou os arredores com um olhar profundamente desconfiado.
— Bem, nada fora do comum por aqui. — disse a empregada. — Agora, qual era o foco das suspeitas da senhorita Nell... — seus olhos, agora carregados de um brilho sinistro, percorreram as paredes, o chão e o teto em rápida sucessão. Em pouco tempo, pararam em seus próprios pés. Murmurando... — Droga, não consigo entender. — Nell cruzou os braços em deliberação. — De qualquer forma, é apenas um porão comum.
Seu olhar voltou a percorrer o ambiente, todavia, desta vez, carregava um brilho mais obstinado.
— Se eu estivesse escondendo uma alavanca no porão, acho que a colocaria em um lugar onde ninguém pudesse encontrá-la.
Dizendo essas palavras, Nell dirigiu-se a um canto repleto de caixas vazias.
— Não, não faria isso... Faria o exato oposto. O melhor lugar para alguém se esconder é no meio da multidão. E, se tivesse uma alavanca que não quisesse que ninguém notasse, a colocaria onde qualquer um pudesse vê-la.
Movendo a barra da saia, Nell aproximou-se da caixa de comando instalada no alto da parede.
— Como nossa Srta. Nell se lembra, ela ouviu vozes estranhas e o rangido de engrenagens por aqui. O que significa... — seus olhos atentos fixaram-se em uma fileira de quase uma dúzia de alavancas. — Talvez seja esta, a menos encardida de todas...
Agarrando uma alavanca no meio da fileira, Nell girou-a para a direita. Com um rangido áspero, justo como a criada recordava, ouviu-se o som de engrenagens se encaixando.
— Opa!
Ao exclamar, Nell girou o corpo em um círculo completo. Para ser mais preciso, deu uma volta de 360 graus quando o piso onde estava apoiada girou suavemente, revelando um buraco circular. Uma escada de madeira descia para uma escuridão muito mais profunda do que a penumbra do porão.
— Então, deve ter sido isto que deixou nossa Srta. Nell tão desconfiada. Não se preocupe, querida. O Tio Plutão vai encontrar as respostas para você agora. — falou, soltando uma risadinha.
Com os olhos brilhando intensamente, Nell aproximou-se da escada. Certificando-se de que não havia mais ninguém por perto, desceu para o novo porão, situado em um nível inferior. A escada era bastante resistente, mas o desgaste liso dos degraus sugeria que alguém a utilizava com frequência há décadas. Após descer cinquenta degraus, chegou ao fundo.
— Vejamos. Um interruptor, interruptor...
Tateando na escuridão, sua mão logo encontrou uma parede. Ao localizar um pequeno interruptor, o acionou.
Uma luz fraca expandiu-se na escuridão. Estendia-se ali uma área tão vasta que parecia quase capaz de abrigar a cidade inteira. Bem no centro daquele recinto repousava uma caixa solitária de natureza inconfundível. Embora sua superfície não apresentasse ornamentos, tratava-se sem espaço para dúvidas de um caixão.
Murmurando ansiosa para si mesma. — Ainda é de manhã! — Nell começou a caminhar em direção ao caixão. — Difícil acreditar que o prefeito, de todas as pessoas, estaria escondendo um monstro em seu porão.
Ao estender a mão para a tampa do caixão sem hesitar, Nell foi agarrada pelos cabelos. Ela começou a gritar, porém, antes que pudesse terminar, teve a garganta cortada de um lado a outro. Sangue vivo espirrou pelo chão.
E, naquele exato instante, um incidente bizarro ocorria em outra parte da cidade. Pouco antes, um carpinteiro havia encontrado um homem atarracado dormindo na floresta. Ou, pelo menos, deduzira que o homem dormia após verificar se havia pulsação; contudo, quando outros moradores e agentes da lei chegaram ao local, sua opinião havia mudado. Agora, ele acreditava tratar-se de um cadáver. Afinal, embora o coração do homem seguisse batendo, não estava respirando de forma alguma. Quando se soube que o corpo pertencia ao estranho que acompanhava o deslumbrante Caçador de Vampiros, o local foi cercado por uma multidão ruidosa.
— Por que raios...?
— Foi lá e se matou. Deve ser a sua vingança contra nós por não o termos feito sentir-se bem-vindo na cidade.
— E eu continuo dizendo: apesar de tê-lo visto confraternizando com o pessoal local no meu bar, não parecia o tipo de sujeito capaz de acabar com a própria vida.
— O coração está batendo, no entanto não respira. — observou um dos espectadores. — Fico imaginando que bem pode vir disso?
— Boa pergunta! — disse alguém da força policial. — De qualquer forma, teremos que acabar com o seu sofrimento, certo?
— Verdade! — concordou um dos moradores, acenando com a cabeça. — Já vai tarde, eu digo. Acabem com ele!
— Pode deixar! — disse um dos agentes. Sacando uma enorme pistola automática do coldre, apontou a arma para a cabeça de Plutão VIII. A multidão ao redor recuou apressada para fora do alcance. E então, bem quando o agente da lei estava prestes a apertar o gatilho, o homem saltou de pé, cheio de energia. Com um grito de susto, o policial recuou num sobressalto.
— Seus malditos idiotas! Não sou uma atração! — berrou o sujeito atarracado que estava dormindo no chão. Olhando em volta com desprezo e vendo a multidão de moradores observá-lo a uma distância segura, cuspiu. — Vocês são patéticos. Não fazem a menor ideia de que tipo de loucura o seu líder de confiança mantém como animal de estimação, e ficam por aí parados assistindo a alguém que desmaiou na rua ter os miolos estourados.
Nem é preciso dizer que o homem de temperamento difícil era Plutão VIII, que retornara ao seu próprio corpo no instante em que sua hospedeira, Nell, foi morta.
Pouco depois de observar Lori escrever o nome do prefeito, o Caçador deixou o hospital. O Dr. Tsurugi pediu que ficasse e conversasse mais um pouco com a garota, entretanto D respondeu que o trabalho vinha em primeiro lugar. Ao sair pela porta, D viu-se cercado por três figuras: o xerife Hutton e dois delegados... As mesmas pessoas que havia procurado na delegacia mais cedo. Todos portavam cinturões com armas.
— Imaginei que você estaria aqui, seu desgraçado! — rosnou o xerife, com um lançador de foguetes em uma das mãos. Os outros dois mantinham espingardas em posição de tiro.
Vendo as armas apontadas para o seu coração, D perguntou.
— Vocês têm algum assunto comigo? — seu tom era indolente. Estava parado sob a luz plena do sol. Para uma criatura como um dampiro, descendente em parte da Nobreza, as condições para o combate não poderiam ser piores.
— Quer saber se temos assuntos a tratar? O que acha? Que viemos aqui para te levar para tomar um drinque? — disse um dos delegados. — Para um maldito forasteiro, vejo que tem muita audácia. Não me importa se é um dampiro ou o diabo que for, passou dos limites. Vamos te dar uma bela e longa lição sobre o que acontece quando alguém ameaça o xerife desta cidade.
— Tenho um dia cheio amanhã antes que meu tempo se esgote. Isso não pode esperar até lá?
— Ficou maluco? Se deixarmos um merdinha como você resolver nossos problemas aqui, eu e meus homens não vamos mais parecer que merecemos o salário que ganhamos.
Labaredas pareciam jorrar dos olhos do xerife Hutton. Seu lançador de foguetes estava configurado para disparar todos os seus projéteis de uma só vez. Bastava apertar o botão, e sete mísseis lápis reduziriam o belo Caçador a pedaços irreconhecíveis.
Percebendo que uma luta era inevitável, D perguntou com calma.
— Vamos fazer isso aqui?
— É isso que gosto de ouvir. Estou impressionado por não estar tentando fugir. Claro, ainda vamos te fazer pagar por ter bancado o durão desse jeito. — resmungou o mais velho dos dois policiais, apontando a ponta de sua espingarda para um beco que permanecia escuro mesmo à luz do dia.
Enfrentando as chamas de ódio que se concentravam nele como um maçarico, mantendo sua postura sempre gélida, D perguntou.
— Prontos?
— Você primeiro.
Posicionados a cerca de três metros de distância, os dois delegados firmaram suas espingardas. Eles haviam escolhido posições que calculavam estar bem além do alcance da espada longa de D. Qualquer que fosse o movimento que tentasse fazer, as espingardas deveriam ser mais rápidas que a espada. As armas já estavam engatilhadas. A tensão aumentava a cada segundo.
Um arbusto solitário de hera invasora crescia no chão, junto aos pés de D. Devido à sua incrível capacidade de propagação, exterminar essa erva daninha era de suma importância, mas as tentativas nesse sentido nunca davam certo. Sempre que alguém achava que tinha acabado com ela, a planta brotava outra vez em até três dias... Bastava que restasse uma parte de sua delicada estrutura de raízes, e levava menos de três semanas para atingir a maturidade. Embora não produzisse flores, a planta demonstrava uma determinação imensa de viver e havia se espalhado por toda parte, desde as regiões mais frias até as faixas de vegetação mais verdejante. A mão direita de D estendeu-se para um dos ramos. Foi um movimento gracioso, que impediu os homens tensos de exercerem mais pressão sobre os gatilhos. Quebrando a planta na raiz sem qualquer esforço, D a agitou diante dos homens como um grande tufo verde de algodão-doce.
— Venham!
— Pode deixar! — gritaram eles, apertando os gatilhos com a força bruta que o entusiasmo lhes conferia.
Com um estrondo poderoso, cada arma disparou três dúzias de projéteis... Setenta e duas esferas de chumbo lançadas em meio a uma língua de fogo contra o peito de D. É impossível não se perguntar se os dois homens viram o lampejo verde que pareceu varrer o chumbo quente para longe, uma fração de segundo antes do impacto. Pequenas esferas de chumbo caíam sobre a estrada de cascalho, e os dois delegados sentiram o frio da lâmina penetrando seus crânios. Certamente, nenhum deles teria acreditado que ele pudesse usar as folhas e os galhos da hera invasora para derrubar no ar a saraivada de chumbo.
Ainda empunhando sua espada manchada de sangue, D disse ao gigante armado com um lançador de foguetes.
— Venha!
O gigante estremeceu. A arma letal sob seu braço tornara-se um mero pedaço de ferro que não oferecia segurança alguma. Que garantia tinha de que um homem capaz de rebater chumbo grosso no ar com uma erva daninha não poderia voltar seus próprios projéteis contra ele? Imaginando-se pego por um clarão branco e ardente que o reduziria a pedaços ensanguentados voando pelo ar, o xerife empalideceu.
— E então? — disse o Caçador. — Já sacou sua arma.
Hutton não tinha escolha a não ser seguir em frente. Contudo, independentemente da arma que portasse, não acreditava que ela o salvaria da espada do Caçador. O xerife sentiu a própria Morte roçando a nuca.
Naquele momento, o Dr. Tsurugi entrou correndo no beco, às pressas. Percebendo na hora o que estava acontecendo, se colocou entre os dois e voltou-se para D.
— Por favor, pare. — disse o médico. — Já houve mortes demais. Se matar o xerife, terá mesmo de ir embora daqui. Nem o prefeito poderá fazer algo a respeito.
A mão de D entrou em ação, afastando o médico para o lado com facilidade. A luta já havia começado, e a espada de D estava desembainhada. Não voltaria para a bainha até ter provado o sangue de todos que se tornassem seus inimigos.
O pomo de Adão do xerife subiu e desceu enquanto engolia em seco, fazendo um ruído audível. Pela primeira vez, caiu-lhe a ficha de quem havia escolhido enfrentar.
O burburinho de vozes agitadas pairou de repente sobre a cidade.
— Xerife! Xerife! — gritou uma voz, acompanhada pelo som de passos que se aproximavam.
— Você é um homem de sorte. — com um leve movimento da mão direita, que lançou até a última gota de sangue de sua lâmina no chão, D passou ao lado do xerife, que permanecia paralisado. Ele apenas foi embora, como se tivesse terminado o que tinha com o homem da lei. E, no lugar do Caçador, um ajudante de xerife entrou correndo no beco. Ao ver a carnificina, estacou onde estava.
— O... O que você quer? — gaguejou o xerife. Mal havia feito a pergunta, e o chão tremeu com força. Nenhum terremoto poderia sequer ser comparado àquilo. Parecia que a própria terra havia girado quase noventa graus. O pânico tomou conta das pessoas. O choro de crianças ecoava de mais de uma casa.
— Que diabos está acontecendo? — desta vez, foi o médico quem gritou a pergunta.
— É a Passagem da Tempestade Magnética.
— Impossível. Não deveríamos estar indo para o sul-sudoeste!
— É? Pois estamos!
Gritos de medo e berros de raiva repercutiam pelo solo em movimento, enquanto a terra continuava a oscilar com mais força. À frente da cidade móvel, via-se a entrada de uma passagem estreita formada pelas encostas de duas montanhas, e uma nuvem púrpura ocultava essa entrada. Aquele campo magnético causaria estragos em qualquer equipamento eletrônico, e a cidade seguia direto para ele.
Então, o que exatamente era a Passagem da Tempestade Magnética? Em suma, era mais uma loucura nascida de uma disputa entre Nobres. Ao final de uma batalha interminável pelas fronteiras de seus domínios, uma facção nobre havia instalado vários dispositivos ofensivos e defensivos ao longo do perímetro do que consideravam suas terras. Criaram uma distorção espacial capaz de comprimir o infinito em uma área finita e devorar quaisquer invasores. Transformaram a luz visível em uma arma capaz de cortar a carcaça de aço maciço de um encouraçado voador. Construíram projetores de ilusão que não apenas faziam as pessoas verem coisas, como podiam até convencê-las de que faziam parte de um ecossistema totalmente diferente. E, por fim, criaram uma tempestade magnética com poder para desestabilizar os sistemas elétricos de qualquer máquina. Embora a Nobreza que criara essas defesas estivesse em extinção, as armas... Alimentadas por fontes de energia nuclear... Continuavam a aterrorizar a humanidade. E era justamente um desses dispositivos letais que estava instalado na passagem para a qual a cidade avançava em disparada.
— Que estranho... Os alertas não estão tocando.
— Que se danem os alertas. Não tem cabimento nenhum nossa rota passar por ali! — uma voz trovejou com raiva nas ruas, onde a escuridão e a luz se misturavam de forma sedutora.
Relâmpagos púrpuras desciam velozes pelos para-raios. A sequência de pequenas explosões que se ouvia provinha, muito provavelmente, de disjuntores que não suportavam mais a carga. Agora, a escuridão dominava o céu e a terra, e filamentos de luz, semelhantes a serpentes colossais, cercavam toda a cidade. As portas metálicas das fábricas desciam com estrépito, e as aletas de dissipação se abriam amplamente nas torres de descarga elétrica. Hastes de absorção de energia começaram a se estender das laterais da cidade.
— O que há de errado com os computadores de navegação? — gritou alguém na sala de controle subterrânea.
— Não há nada de errado com os computadores. — respondeu outra voz em tom agudo.
— Como não? Estamos muito fora da rota!
— Alguém inseriu dados errados, eu garanto!
— Droga! Quem diabos poderia ter feito isso?
Grãos de areia e pequenas pedras atingiam as faces de D e do Dr. Tsurugi.
— Isso não parece bom. Doutor, é melhor voltar logo para casa.
— Se quer minha opinião, você também deveria. — respondeu o jovem médico.
— É um longo caminho até os meus aposentos.
— Eu te acompanho até lá.
D olhou para o rosto do médico. E então, casualmente, começou a se afastar. O Dr. Tsurugi o seguiu logo atrás.
Relâmpagos corriam pelo solo. Eram filamentos finos e sinuosos. Levantando areia e arremessando pedras, um relâmpago enrolou-se em um pilar de portão e soltou uma chuva de faíscas. O espetáculo de luz ofuscante fez D parecer metal em brasa. Nas laterais da cidade, as hastes de absorção de energia também captavam os relâmpagos. A energia seria enviada aos reatores nucleares por meio de transformadores. Provando uma abundância incalculável pela primeira vez em muito tempo, os reatores demonstravam sua satisfação com chamas azul-claras que se elevavam.
D continuou a caminhar em silêncio pela rua. Serpentes de luz corriam ao seu redor, erguendo as cabeças de forma ameaçadora em direção à barra de seu sobretudo e cuspindo fogo.
— Vou voltar. — disse o médico, logo atrás. — Não porque estou com medo ou algo assim. Ah, estou com medo, sim. Mas percebi que, no momento, não podemos nos dar ao luxo de eu me ferir.
D assentiu.
Fazendo uma reverência e pedindo licença, o médico deu meia-volta. Logo acima, houve um clarão de luz prateada. Um raio que estava prestes a atingir sua cabeça foi partido ao meio, e os fragmentos contorciam-se no chão. Totalmente alheio ao que havia acontecido, o Dr. Tsurugi saiu correndo.
A cidade tornou a estremecer. Um clarão fosforescente envolveu uma torre de descarga elétrica, e chamas dispararam de sua base. Relâmpagos de eletricidade disparavam do solo no setor industrial. Os circuitos de absorção de energia haviam excedido sua capacidade. Tanto a absorção quanto a descarga... Ambos os métodos haviam atingido seus limites.
D notara que a rota da cidade havia mudado. Não havia como um sistema de navegação controlado por vários computadores operando em conjunto traçar um curso que os levasse direto para o meio de uma tempestade magnética. Algum agente externo o havia alterado. Entretanto por quê? Para onde, afinal, estavam levando a cidade? Eram perguntas que deveriam ser feitas ao prefeito.
D parou onde estava. Um homem surgiu cambaleando do caminho que passava ao lado de uma casa. Ele apertava a própria garganta. Não se tratava de uma vítima de eletrocussão. Os olhos de D brilharam ao notar a pele estranhamente pálida do homem. D virou-se e preparou-se para atravessar a rua. O homem desabou ali mesmo.
Uma serpente de eletricidade colossal serpenteou pela rua. D disparou. A serpente brilhante penetrou no tronco do homem. Fumaça negra ergueu-se dele, e o fedor de carne queimada impregnou o ar. Seu cadáver carbonizado rolou para o meio da rua.
Relâmpagos investiram contra D de todos os lados, apenas para serem despedaçados por lampejos prateados.
Quando D estava prestes a dar um passo à frente, a massa negra fumegante moveu-se de repente. Apoiando-se nos braços, o homem ergueu um pouco seu tronco. Desnecessário dizer, seus cabelos e roupas estavam chamuscados, e seu rosto todo carbonizado. Pedaços de tecido e cabelo queimados choviam sobre a estrada. O homem estava se levantando.
Não havia muitas criaturas capazes de receber uma descarga de cinquenta mil volts e sair ilesas. A Nobreza era uma delas. Parecia que aquele homem estava infectado pela doença.
Uma cavidade vermelha abriu-se na metade inferior do rosto enegrecido. Sua boca. Apenas ela permanecia vermelha como sempre, oferecendo um contraste com suas presas brancas como pérolas. Como alguém carbonizado conseguia ficar de pé? Com o corpo queimado envolto em uma aura de luz branca, começou a caminhar devagar em direção a D. Fumaça emanava de seus membros. Faíscas de relâmpago estalavam em sua carne chamuscada.
D não moveu um músculo. Uma mão enegrecida estendeu-se em sua direção. Um segundo antes de fechar-se sobre a garganta do Caçador, a mão descreveu um arco elegante no ar e caiu no chão. D pareceu ouvir o baque surdo do impacto.
A forma humana carbonizada começou a perder volume, transformando-se em um monte de poeira. Num piscar de olhos, as rajadas de vento espalharam os restos por toda parte. Aquele era o segundo caso de infecção vampírica. Porém, o fato de uma pessoa ter se tornado vampira não significava necessariamente que se desintegraria em cinzas ao encontrar a morte definitiva. O grau de deterioração do corpo dependia de quanto tempo a pessoa havia servido à Nobreza. Alguém que tivesse passado três dias a serviço deles deixaria um cadáver em decomposição. Após duas semanas, a carne se desprenderia dos ossos. Se tivesse passado mais de um ano, eles teriam se reduzido a pó. Somente na morte estariam sujeitos às mesmas regras dos vivos. O que acabara de acontecer com o cadáver daquele indivíduo vampirizado era simplesmente impossível. Ou será que se tratava de um caso em que sua transformação em um membro da Nobreza vinha sendo ocultada há muito tempo? Não, isto também não era possível. Tratava-se de uma doença totalmente nova. Talvez devesse ter sido chamada de Síndrome de Nobilitação.
D virou as costas para os restos mortais e começou a se afastar.
Contudo a pergunta permanecia: para onde estava indo?
Parte 2
A capacidade da cidade de se isolar da tempestade havia chegado ao limite. Os disjuntores de quatro das cinco torres de descarga elétrica haviam queimado devido à sobrecarga, e a torre restante operava com apenas cinquenta por cento de sua eficácia.
— Reator nuclear número um... Nível de energia em cinquenta e dois por cento acima da capacidade normal.
— O número dois está cinquenta e sete por cento acima. Está no limite da sua capacidade.
— O número três está sessenta e nove por cento acima, dentro da zona de perigo. Perigo! Perigo! Perigo!
— Sala de controle de navegação, quantos minutos faltam para sairmos da tempestade magnética? — perguntou o Prefeito Ming.
— Não podemos afirmar com certeza. De acordo com nossos dados, este cinturão magnético tem aproximadamente 2,95 milhas de largura. Na nossa velocidade atual, levaria 5 minutos e 19,6 segundos.
— Informe qual seria o grau de perigo para a cidade nesses cinco minutos se desligássemos a absorção de energia de uma, duas ou de todas as três torres de reatores.
— Se todas as três torres forem desligadas a cidade será destruída em 2 minutos e 22 segundos. Duas torres e a cidade será destruída em 3 minutos e 5,4 segundos. Uma torre a cidade será destruída em 5 minutos e 21,3 segundos.
— Mantenha apenas o reator número um em operação. Aumente a velocidade de cruzeiro para vinte e cinco milhas por hora.
— Isto é loucura. A carapaça externa receberá repentinamente três vezes mais voltagem. Vai explodir o reator!
— Eu sei que é loucura. — disse o prefeito. — Mas não podemos fazer droga nenhuma a menos que saiamos desta tempestade!
— Entendido.
No instante em que os outros dois reatores nucleares pararam de absorver energia, a energia restante voltou-se imediatamente para o reator número um, atacando-o como as presas de uma fera enlouquecida. Chamas jorraram do sistema de controle de fluxo de energia e de cinco dos dispositivos de segurança; as chamas da fusão nuclear, agora desequilibradas, empurraram rapidamente o ponteiro para a zona de perigo. Em pouquíssimo tempo, chamas azul-claras romperam as placas inferiores da cidade e disparavam fora de controle para o ar.
Abalada pelos fortes solavancos, Lori soltou um grito silencioso e agarrou-se em desespero à cama. O Dr. Tsurugi correu até ela. Gritando o nome de Lori, se lançou sobre ela e a abraçou com força contra o peito. Lori se agarrou ao peito caloroso dele. O coração do médico batia descompassado. Ele está tão assustado quanto eu, pensou Lori. Pela primeira vez, se viu sentindo algo além de curiosidade em relação ao jovem médico.
À frente da cidade, contorcia-se uma serpente de luz particularmente grande e feroz. Raios estalavam por toda a sua extensão e, quando descargas elétricas roçavam as falésias escarpadas de ambos os lados, a superfície fundia-se em vidro ou caía em chuva sobre a cidade. Pedaços de rocha despencaram sobre o telhado de uma casa, e ouviu-se o grito de uma mulher. Um compressor em uma das fábricas também foi atingido, transformando a mangueira de ar de aço trançado em um cabo de alta tensão que chicoteava os corpos dos trabalhadores e queimava seus rostos. Uma luz branca engoliu a cidade. Telhados de polímero de silício eram arrancados das casas, e árvores inteiras eram sugadas para o céu, com raízes e tudo. As pessoas corriam para seus porões em busca de proteção.
A força de sucção violenta também investiu contra D. Seu chapéu de viajante e a barra de seu sobretudo começaram a se elevar. Segurando a aba larga do chapéu com a mão esquerda, D desembainhou a espada com a direita. Virando a lâmina, cravou-a no solo. Ajoelhado, aguardou. Seixos voavam para o alto, seguidos logo em seguida por fragmentos dos telhados.
O verdadeiro caos concentrava-se nos centros de controle do reator e de navegação. Uma serpente de luz, que havia entrado por uma abertura recente na parede, chicoteava impiedosamente a antepara, arremessando trabalhadores para todos os lados. O odor pungente de carne queimada impregnava o ar. Agarrando um trabalhador que voava pelo ar com uma das mãos, o prefeito o devolveu ao chão. A força do velho era incrível. Elevando a voz, perguntou.
— Não conseguem corrigir nossos computadores, é isso?
— Não, não adianta!
— Então mudem para os controles manuais! — retrucou o prefeito Ming.
— Os controles manuais desses sistemas foram desativados há mais de quinhentos anos.
O rosto do prefeito assumiu a expressão feroz de um demônio. Puxando contra o peito a serpente de luz que devastava tudo ao redor, o prefeito a despedaçou com as próprias mãos. Uma fumaça negra emanava de suas mãos e de seu tronco. Seus cabelos se eriçaram e faíscas elétricas saltavam dentro de sua boca.
— Para onde diabos estamos indo? — perguntou. — Quem está fazendo isso e para onde pensam que estão levando a minha cidade?
D ouvia o tumulto de vida e morte ao seu redor. Ajoelhado, segurando a espada que havia fincado no solo, parecia uma estátua de obsidiana. Enquanto os elementos uivavam em fúria ao seu redor, apenas ele permanecia imperturbável. A luz preenchia o ar acima. Uma forma serpentina, com o dobro da espessura que os braços de um homem poderiam abraçar, despencava em direção a D, incinerando as moléculas de ar em sua trajetória. Ali estava o líder daquele enxame mortal. Sem jamais perder a postura, D recuou voando. Passando por ele no ar, a serpente caiu no solo e partiu-se ao meio antes de voltar a alçar voo.
— O cinturão magnético está se afastando da cidade.
— Saia dele em velocidade máxima.
Como se em resposta àquele grito de júbilo, o espaço azul-escuro estendeu-se pela tela de visualização frontal... Um céu envolto em uma escuridão tranquila, sem qualquer vestígio de luz ofuscante. Como se repelidas pelos ventos que sopravam contra eles, as luzes que coloriam a cidade começaram a ficar para trás.
— Estamos livres! — alguém gritou. De repente, vivas encheram o ar.
Quando o xerife Hutton procurou Ming, já haviam se passado cerca de três horas desde que o prefeito encarregara um dos trabalhadores de supervisionar a remoção do lixo radioativo. O xerife encontrou Ming acomodado em uma cadeira em seu escritório particular.
— Como estão os moradores? — perguntou o prefeito, mal-humorado e de olhos fechados.
— Enfim estão se acalmando. Estamos verificando o número de feridos agora. — disse o xerife, num tom que soava um tanto intrigado.
— Então, imagino que não tenha havido vítimas fatais?
— É. Surpreendentemente poucos feridos também. Difícil acreditar que ninguém tenha sofrido um choque elétrico. A intoxicação por radiação também foi mínima.
— Devemos isso àquele remédio que desenvolvi quarenta anos atrás. Enfim, o que quer? — o prefeito abriu os olhos. Com um certo tom de reprovação, acrescentou. — Você deveria estar lá fora.
— Na verdade, vim bater um papo sobre os velhos tempos. — disse o xerife, sorrindo para o homem a sua frente. O prefeito nunca o vira dar aquele sorriso de canto de boca. — Por acaso se lembra de Ende Remparts? Era um garoto de doze anos.
A expressão que surgiu no rosto do prefeito era a de uma pessoa completamente diferente.
— O que diabos pensa que está fazendo?
— O pobre garoto tinha uma doença muscular que poderia ter sido bem tratada numa cidade na superfície, no entanto você detestava a ideia de alguém sair daqui. Então disse ao garoto que a condição era incurável e, como resultado, ele acabou se matando, não foi?
— Ei!
— E aquele caso do Ebenezer Villzuya? — continuou o xerife, acariciando o cano de seu lançador de foguetes. — Nesse aí eu tive participação. Estávamos no meio de uma escassez de alimentos e ele roubou umas duzentas gramas de manteiga sintética a mais do que tinha direito. Os seus filhos estavam à beira da inanição. O resto da cidade fingiu não perceber. Afinal, ninguém estava em situação tão precária quanto a sua família. Ora, até você pegou leve no começo. Mas, no fim das contas, só não conseguiu deixar passar em branco o fato de que o primeiro homem a quebrar as regras na cidade que você criou saiu impune. Então, esse sujeito aqui... Que na época era apenas um delegado-adjunto... Foi lá, matou a família inteira a tiros e depois forjou a cena para parecer suicídio.
O prefeito levantou-se da cadeira e bradou.
— Quem diabos é você?
— Sou eu. Olhe bem agora. Sou o único e inigualável Xerife Hutton. Nome de batismo: Bailey Hutton; altura: dois metros e noventa e sete centímetros; peso: duzentos e quarenta e três quilos; local de nascimento: setor trezentos e trinta e quatro da Fronteira Leste. Cheguei a bordo pela primeira vez...
Um estalo alto ecoou em seu maxilar. A massa gigantesca de duzentos e quarenta e três quilos cambaleou para trás e rolou pelo chão. O prefeito avançou rápido e estava prestes a pisar com força na garganta do gigante quando o cano do lançador de foguetes se ergueu do chão para detê-lo.
— Ei, pare com isso. Não me importa o quão durão seja, sete disparos disto aqui vão te mandar direto para o outro mundo! — disse o xerife, esfregando o maxilar enquanto se levantava. Era como uma montanha ambulante. Se alguém tivesse aberto a porta naquele momento, não teria visto nada além de suas costas. Por outro lado, o prefeito tinha apenas um metro e setenta e três de altura e pesava menos de sessenta e oito quilos. Embora suplementos nutricionais pudessem explicar como vivera mais de duzentos anos, o soco que acabara de desferir estava além de qualquer imaginação. — Ouch, isso dói. Vejo que bate mais forte do que eu tinha ouvido falar. — disse o xerife enquanto cuidava do maxilar, contudo sua voz era claramente a de outra pessoa.
— Ah, é você? Tem um poder bem estranho aí. — disse o prefeito, sem parecer nada irritado enquanto voltava para sua cadeira. Devia imaginar que, desde que soubesse com o que e com quem estava lidando, poderia acabar com eles quando quisesse. — Achei que fosse um sujeito meio suspeito desde o momento em que ouvi dizer que era parceiro do D... E aí você vem e possui nosso xerife, roubando as memórias dele. Bem, o que pretende fazer agora?
— Nada sério, na verdade. Comparado ao que um canalha de peso como você faz e sai impune, o que estou pedindo é fichinha.
— Entendo. E o que seria?
— Eu quero o que os Knights deixaram.
— Sério?
— Revirei cada centímetro daquela casa e não encontrei nada. Pelo que me disseram, parece que também está interessado naquilo. Nesse caso, é bem óbvio onde deve estar agora.
— Infelizmente, eu também não sei onde está. — sentado em sua cadeira, o prefeito abriu as mãos num gesto de inocência. — Quando descobri que tentou salvá-los, tive muita vontade de lhe perguntar a mesma coisa.
— Entendo. Então foi você quem armou aquela ceninha de me prender por roubar umas flores? — disse o xerife com a voz de Plutão VIII, exibindo um sorriso como o do motoqueiro. — Uma pena. No entanto, veja bem, não tenho provas de que o que está me dizendo é verdade. Pior ainda, sua cidade está cheia de vampiros à solta e ninguém sabe quando eles chegaram. Chegaram... — bufou. — É de rir. Claro que ninguém saberia quando. Afinal, estão aqui desde o começo.
A voz mudou de repente para a do xerife.
— Seis meses atrás, sob suas ordens, capturei Dumper Griswell e Yan Will. Não fazia a menor ideia de para que pretendia usá-los, entretanto ninguém na cidade sentiria falta de dois bêbados imprestáveis. Todavia, com as coisas como estão agora, fico pensando... Será que acabaram transformados em vampiros?
— E o que fará se isso tiver acontecido? — perguntou o prefeito, num tom ameaçador.
— Ei, calma lá! Achei que tinha dito para não se mexer. Além do mais, tentar fazer qualquer coisa contra mim não vai dar em nada. O seu xerife aqui é quem vai pagar com o próprio corpo, enquanto eu vou voltar para o meu corpo original e assumo o de outra pessoa. Caramba, posso até usar a sua própria filha...
— E conseguiria passar para outro corpo, saindo desse em que está agora? — perguntou o prefeito.
— Sim!
— Hmm. Então talvez devesse tentar me possuir. Assim, saberá na hora se estou dizendo a verdade ou não.
— Caramba, estou pasmo. Tem certeza? Vou ficar sabendo de todos os seus segredinhos.
— Não me importo nem um pouco. Afinal, assim você vai ver que é do seu interesse unir forças comigo por um tempo.
— Unir forças?
— Isso mesmo. Nós dois queremos a mesma coisa, mas existem inúmeras maneiras de usá-la.
— Ah, entendi. Então, contanto que o seu uso e o meu não entrem em conflito, tudo bem. Perfeito.
— O que vai fazer com o xerife?
— Vou mexer um pouco com o seu cérebro e deixá-lo dormindo. Garanta que ninguém entre aqui por um tempo.
O prefeito falou pelo interfone, dizendo algo como que ninguém deveria entrar em seus aposentos. Ele se virou para encarar o xerife. Uma das mãos do gigante agarrou seu pulso profundamente enrugado. Dois segundos se passaram... Depois três... E então, com um estrondo que sacudiu a sala inteira, os duzentos e cinquenta e dois quilos do policial caíram como uma árvore. Uma expressão de espanto que não era sua se formou no rosto do prefeito enquanto permanecia sentado com os olhos fechados.
— Eu... Não consigo acreditar. — a voz que escapou de seus lábios ressecados estava embargada pelo medo. Quase como se seus próprios pensamentos o aterrorizassem. — Quem poderia fazer uma coisa tão horrível... E você ainda se considera... Ou melhor, a mim mesmo... Humano?
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