quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 03 — Capítulo 18

Capítulo 18: Epílogo

Meia hora depois, o luxuoso barco de passageiros de Bifrons flutuava novamente sobre o lago. Como precisavam tratar os feridos, os feiticeiros o haviam restaurado para criar uma base segura.

— Que lamentável...

Rafael soltou um gemido enquanto Zagan deitava Nephteros no convés. Depois de ser engolida pelo lodo, queimada pelo Fósforo Celestial de Zagan e deixada sem uma única peça de roupa, ela agora estava envolta na túnica de Zagan. Ao ver a cena, Rafael estreitou seus olhos de vilão com pesar.

— Será que esta minha espada não consegue salvar nem sequer uma garota?

Zagan inclinou a cabeça para o lado. Parecia que Rafael estava entendendo tudo errado. E, naquele momento, Kimaris, que havia retornado à forma humana, baixou a cabeça, decepcionado.

— Naquela situação, não havia nada a ser feito. Se o Senhor Zagan não tivesse agido daquela forma, eventualmente, todos nós teríamos esgotado nossas forças.

Enquanto Kimaris apertava os cantos dos olhos, Gremory deu um tapa em seu ombro, produzindo um som seco.

— Aguente firme, Kimaris. O homem para quem isto deveria ser mais doloroso já está fazendo isso... — disse Gremory, voltando seu olhar cheio de compaixão para Zagan.

Essa mulher... Ela também consegue fazer esse tipo de expressão, hein? Foi inesperado, mas Zagan sentiu que a conversa estava aos poucos tomando um rumo estranho.

— Olhem, pessoal... — Zagan abriu a boca para esclarecer a situação, porém a fechou em seguida quando Nephy se aproximou em silêncio.

— Mestre Zagan, muito obrigada! — disse Nephy enquanto se ajoelhava ao lado de Nephteros. Em seguida, usou um lenço úmido para limpar o rosto da garota, que estava coberto de terra e cinzas.

— Independente do desfecho, acredito que esta garota foi salva no final. Afinal, conseguiu encontrar seu fim dignamente como humana, e não como um monstro.

Chastille começou a soluçar, como se não conseguisse mais suportar ao ouvir aquelas palavras.

— Isso é... Cruel demais. Será que Bifrons... Não tem coração? Até aquele Arquidemônio já foi humano um dia! — Chastille lamentou.

— Que tipo de baboseira otimista é essa que está falando? Feiticeiros não são exatamente assim? Quanto a esse final, Zagan, você entendeu muito bem, porra. Na hora H, não há como hesitar nem um pouco. — Barbatos soltou uma risada repentina, embora parecesse vir acompanhada de uma leve fungada.

— Faz-Tudo, você está chorando? — Foll perguntou, olhando para o seu rosto como se compartilhasse de sua tristeza.

— N-Não estou chorando de jeito nenhum, entendeu?

— Também estou... Triste. Ela era uma elfa muito má... Então por que...?

Zagan não sabia o que fazer ao ver sua amada filha comovida às lágrimas. Nephteros era a serva de confiança do arrogante e ardiloso Bifrons. Se uma garota assim se ferisse, quem iria reclamar? Esse raciocínio fazia todo o sentido, contudo todos estavam imersos na dor. Ainda que a grande maioria dos presentes fossem feiticeiros de sangue-frio.

É resultado da sua canção de antes, hein? A canção de misticismo celestial que Nephteros entoou. Por algum motivo, ouvir seu canto parecia uma reverberação de tristeza. E aquilo havia tocado o coração dos feiticeiros. Apesar de toda a situação, Zagan limpou a garganta com uma tosse e tentou falar.

— Ei, pessoal...

No entanto, Chastille balançou a cabeça, como se o interrompesse.

— Está tudo bem, Zagan. Está tentando parecer corajoso, não é? Não tem problema ficar triste também.

— Não, não é o que eu quis dizer... — Zagan hesitou em falar enquanto o clima ficava cada vez mais pesado. Por fim, ouviu uma voz irritante que não tinha a menor noção da situação.

— Calem a boca. Que barulheira é essa? — Nephteros abriu seus olhos dourados, cuspiu essas palavras e se levantou.

— Hã...?

Todos, exceto Zagan, arregalaram os olhos em choque e soltaram exclamações confusas.

— E-Ela está... Viva? — Nephy murmurou.

— E o ferimento? Não tinha sido atravessada por um soco direto no coração?

— Coração...? Hyaaa? — Nephteros olhou para o próprio peito ao ouvir as palavras de Rafael e soltou um grito agudo. Estava completamente nua. Ao se levantar, o manto com que Zagan a cobrira havia deslizado para baixo. Em pânico, Nephteros puxou o manto e se cobriu de volta. Surpreendentemente, não havia um único ferimento em seu corpo.

— A-Ainda bem!

— Oof! M-Me solte! Não tenho a menor vontade de ser abraçada por alguém como você!

A pele escura de Nephteros avermelhou quando Nephy a abraçou.

— O que foi que você fez, meu senhor? — Rafael perguntou, com os olhos arregalados de surpresa.

— Queimei apenas o lodo. Só isso. — respondeu Zagan, tratando suas ações como se fossem um mero incômodo.

— Não, digo... Seu braço a atravessou, certo?

— Até eu conheço feitiçaria de cura básica...

O braço de Zagan havia atravessado o corpo de Nephteros, entretanto, naquele instante, começou a aplicar feitiçaria de cura no ferimento para reparar o dano. Havia evitado intencionalmente o máximo possível de órgãos internos e nervos. Por isso, a sensação deveria ter sido apenas a de uma interrupção momentânea da respiração e do fluxo sanguíneo. Claro, não conseguiu eliminar a dor, e Nephteros acabou perdendo a consciência.

Há também o fato de que, se algo acontecesse com Nephy ou Foll e eu não pudesse usar feitiçaria de cura, não conseguiria salvá-las. Todavia nunca imaginou que usaria o que aprendeu com esse propósito contra um inimigo.

— Mas será que é mesmo possível queimar apenas o lodo sem atingir o seu corpo de forma alguma? — perguntou Kimaris, incrédulo com a explicação.

— Hã...? Se não conseguisse fazer pelo menos isso, as armadilhas do meu castelo acabariam sendo acionadas contra a minha família, não é? — respondeu Zagan como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, deixando Kimaris e Gremory sem palavras.

— Esse cara... Ao contrário da aparência, parece que a sua especialidade é feitiçaria de precisão. — disse Barbatos, balançando a cabeça em sinal de exasperação.

— Você realmente consideraria aquilo um trabalho de precisão...?

Depois disso, Nephteros afastou Nephy e tentou se levantar. Porém, provavelmente ainda não tinha muita força no corpo. Tudo o que conseguiu fazer foi se contorcer no convés do navio.

— Então? O que pretende fazer daqui para frente? Não acho que tenha qualquer obrigação de continuar a serviço de Bifrons. — declarou Zagan, encarando-a com um olhar frio.

— Eu... — murmurou Nephteros, baixando o olhar. E, enquanto permanecia ali, incapaz de dar uma resposta adequada, Nephy estendeu a mão em sua direção.

— Se não se importar, por que não vem comigo?

Nephteros arregalou os olhos. Então, como se tivesse medo de tocar a mão de Nephy, estendeu timidamente a mão fechada. Contudo, bem no momento em que estava prestes a tocar a mão de Nephy, Nephteros balançou a cabeça.

— Meu único mestre... É Bifrons. Não tenho... A menor intenção de me dar bem com canalhas como vocês!

Embora tivesse o mesmo rosto que Nephy, ela continuou sendo uma garota sem muito charme até o fim.

Bem, isso é conveniente para mim... Pensou Zagan, dando de ombros. Então, passou o braço por baixo da axila de Nephteros para ajudá-la a se levantar.

— Faça como quiser. No entanto vai me devolver essa túnica mais tarde, entendeu?

Como era de se esperar, não ia tomá-la de volta naquele instante, entretanto ficaria incomodado se apenas fosse jogada fora. Depois que comunicou sua decisão, o rosto de Nephteros ficou vermelho de repente. Mas, por fim, assentiu.

— Até mais, então. Mande lembranças ao seu mestre. Diga a ele que você é a minha forma de agradecimento.

— Hã...? Bom, tudo bem. Entendido. — concordou Nephteros, assentindo, embora estivesse confusa com o sentido oculto daquelas palavras. E então partiu silenciosamente em direção ao céu noturno.

— Ela foi embora, não foi?

— Ela ainda está na sua cabeça, Nephy?

— Hmm... Sim, está.

Era uma garota com um rosto idêntico ao seu e também pertencia à mesma raça. Embora tenham conseguido salvar sua vida, no final, não descobriram nada sobre Nephteros. Francamente, seria muito mais estranho não se preocupar.

— Bem, contanto que esteja viva, tenho certeza de que nos encontraremos de novo. Basta falar com o coração quando isso acontecer. — respondeu Zagan, dando um leve encolher de ombros.

— Ah, sim.

Zagan percebeu que os feiticeiros atrás deles começaram a se mover todos de uma vez enquanto conversavam. Ao se virar, perguntando-se o que estava acontecendo, todos os feiticeiros a bordo do navio se ajoelharam de repente à sua frente.

Devido à batalha contra o Lorde Demônio de Lodo, na qual alguns fugiram e outros perderam a vida, restava apenas cerca de metade dos convidados originais do baile noturno. Ainda assim, eram algumas dezenas deles. E, como se representasse todos aqueles feiticeiros, Gremory abriu a boca para falar.

— Arquidemônio Zagan. Nós o seguiremos. Acataremos suas ordens e nos esgotaremos por você. Essa é a retribuição que ofereceremos àquele que salvou nossas vidas.

— O que... Vocês estão planejando? — perguntou Zagan, observando-os com espanto.

Era certo que haviam unido forças naquele momento, porém o simples fato de manter Rafael e Chastille por perto deveria ter levado a maioria dos feiticeiros presentes a se voltar contra ele. Ver que faziam o oposto foi algo inesperado de suas partes. Suas atitudes deixaram Zagan perplexo, foi nesse momento que Kimaris interveio.

— De modo geral, consideramos os Arquidemônios como indivíduos do tipo do Lorde Bifrons. Não queremos antagonizá-los, contudo também não desejamos nos envolver, pois são seres desprovidos de coração. No entanto, parece que você é diferente. — afirmou Kimaris, com um sorriso surgindo em seu rosto. Então continuou. — Se é para servirmos a um Arquidemônio, preferimos muito mais alguém que não nos abandone quando mais precisamos.

— Parece que meus problemas aumentaram, hein? — disse Zagan, soltando um suspiro. Entretanto a situação claramente não lhe era de todo desagradável.

— Hmm... Bom, parece que temos muitos motivos para comemorar, nesse caso... Vou cantar uma música para vocês!

Tendo sobrevivido com tenacidade àquela provação, a garota sereia começou a cantar. Talvez estivesse tomada por um espírito competitivo após ouvir a canção de Nephy, pois sua voz soava completamente diferente. Ao contrário do tom barulhento que usara durante o baile, sua voz agora era calma e serena. E, ao ouvi-la, Nephy soltou um suspiro profundo.

— Uma canção... É algo lindo, não é?

Não, a sua canção é a mais linda de todas, eu juro. Embora Zagan desejasse desesperadamente dizer isso, não conseguiu pronunciar as palavras. Sem outra alternativa devido ao nó em sua garganta, Zagan estendeu a mão para Nephy.

— Nephy, vamos dançar?

Nephy retribuiu o olhar com surpresa, todavia logo assentiu enquanto suas orelhas pontudas tremulavam.

— Sim!

E, sob o luar, no convés de um navio repleto de feiticeiros, os dois dançaram de um jeito desajeitado.



***



Castelo de Bifrons.

Nephteros caminhava por um corredor sombrio, onde mal conseguia enxergar onde pisava.

Se não se importar, por que não vem comigo? Não conseguia tirar da cabeça a imagem do rosto daquela garota no momento em que a aceitou.

— Você é uma idiota, não é? — Nephteros detestava aquela garota e planejava espezinhar tudo o que ela possuía.

E, apesar disso, por que fui eu a salva...? Nephteros queria, de todo coração, apertar a mão que lhe fora estendida. Ao perceber esse pensamento, balançou a cabeça, perturbada.

Eu sou... Uma alta-elfa a serviço do Mestre Bifrons. Não havia como trair seu mestre. Além disso, se aquela garota não existisse, Bifrons jamais a teria abandonado.

De repente, Nephteros parou de caminhar ao se dar conta de sua situação. Entendo... Eu fui... Abandonada... Não fui...?

A questão era... Será que Bifrons a receberia de braços abertos? Se tivesse alguma utilidade, era provável. Mas, do jeito que estava, não conseguia sequer demonstrar tal valor.

Enquanto remoía esses pensamentos deprimentes, os pés de Nephteros ficaram pesados. E então...

— Heeeh, não pensei que você voltaria!

Uma voz familiar ecoou, uma voz que queria ouvir, porém que, da mesma forma, era a que menos desejava ouvir.

— Mestre Bifrons...

O feiticeiro soltou uma risada com um tom cantarolante, impossível de identificar como masculino ou feminino. Sim, nem Nephteros sabia o gênero daquele Arquidemônio.

Após uma breve pausa, Bifrons fixou o olhar no corpo de Nephteros.

— Hm, interessante. Você deveria ter sofrido com a invasão do Lorde Demônio, porém retornou sem um único arranhão. Foi obra do Zagan? Ou talvez o poder daquela elfa? Hmm, que notável. Ahaha.

Para aquele feiticeiro, os sentimentos de Nephteros não mereciam qualquer consideração. Bifrons parecia ter esquecido completamente que a havia abandonado, enquanto dava tapinhas repetidos no ombro dela.

— Bem, de qualquer forma, bem-vinda de volta. Agora, vamos continuar o experimento.

— Mestre Bifrons...

Nephteros chamou o nome de Bifrons com uma voz baixa, contudo firme.

— O que foi, Nephteros?

— Este incidente... O quanto dele saiu conforme os seus planos?

Bifrons ficou surpreso com o retorno de Nephteros, no entanto era óbvio que não demonstrava interesse no fato de seguir com vida. O fato de ter falhado ao usar o misticismo celestial, e até o fato de Zagan e os outros a terem salvo, podiam muito bem fazer parte do plano desde o início.

— Bem, o que você acha? Ahahahaha! — respondeu Bifrons, soltando uma risada arrepiante.

Para Nephteros, aquela risada não soava nem um pouco humana. E, enquanto mordia o lábio e baixava o olhar, Bifrons bateu palmas, como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

— Agora que penso nisso, será que ele... Diga-me, o Zagan falou alguma coisa? Ele parecia extremamente irritado comigo, sabe?

— Não! — respondeu Nephteros, balançando a cabeça negativamente, ao se dar conta de algo de repente.

Agora que penso nisso, é verdade que me deixou uma mensagem. Nephteros abriu a boca para falar, relutante, assim que esse pensamento lhe ocorreu.

— Se bem me lembro... Pediu para eu lhe transmitir suas saudações e disse que sou a sua forma de lhe agradecer.

— Agradecer...? Fufufu, fico me perguntando o que quis dizer com isso. Já que me devolveu meu precioso material de pesquisa, suponho que devo agradecê-lo, não é?

E, naquele momento, Bifrons inclinou a cabeça para o lado.

— Oh? Nephteros, o que é isto que você tem aí?

— Hã? — Nephteros olhou para a própria cintura e tirou uma única folha de papel do bolso de sua túnica.

Naquela hora, Zagan... Foi Zagan quem colocou aquilo ali quando a ajudou a se levantar.

— Então o agradecimento é essa coisa, hein...? Parece haver algum tipo de feitiço lançado. Nephteros, abra-o! — ordenou Bifrons, dando um passo para trás, afastando-se.

— Hã?

Bifrons ordenou a Nephteros abrir o papel, mesmo já sabendo que devia se tratar de uma armadilha e recuando para um local seguro. Sua vontade de vomitar aumentou ainda mais, mas apesar da situação em que se encontrava, sentiu que precisava obedecer ao seu mestre. Dessa forma, Nephteros retirou a carta com cuidado.

— Parece... Um convite.

Era o convite que Bifrons havia entregue a Zagan para o baile noturno. Era algo que a própria Nephteros havia deixado para Nephy, então não havia como se enganar. Depois de abri-lo e dar uma olhada, nada parecia ter sido ativado.

— Não parece haver nenhuma armadilha preparada.

— Hmm. Não tenho tanta certeza. Zagan é um feiticeiro muito habilidoso, pode ser que só seja ativado se eu tocar nele. Nephteros, poderia abri-lo e deixá-lo aí?

Zagan certamente havia salvado a vida de Nephteros, porém ao mesmo tempo sabia que ele era do tipo que não demonstrava misericórdia com seus inimigos. Se preparasse algum tipo de feitiço contra Bifrons, era bem possível que Nephteros acabasse sendo envolvida na situação também.

Ao chegar a essa conclusão, o medo tomou conta de seu coração, e suas mãos tremiam. Ao ver sua reação, Bifrons soltou uma risada, achando o comportamento dela estranho.

— Vamos lá, não consigo ver direito se continuar tremendo desse jeito. Não fique com tanto medo e o traga aqui.

Um sentimento de irritação começou a surgir em Nephteros diante da reação indiferente de Bifrons.

Por que tenho que passar por esse tipo de situação...? Naquele momento, Nephteros não desejava nada além de arrancar, com um tapa, aquele sorriso repugnante do rosto de Bifrons. E, naquele instante...

— O quê...

Com um som de líquido se espalhando, um fluido vermelho voou para todos os lados.

— Hã...? — Nephteros não conseguia entender o que havia acontecido. A cabeça de seu mestre voou de repente, como se tivesse explodido. Nephteros então olhou timidamente para a carta em suas mãos e, saindo de dentro desta... Estava um punho carregado de mana.

Esse braço... É do Zagan?

Era um braço temporário criado com feitiçaria, contudo parecia ter atingido Bifrons bem no rosto. Depois que o corpo sem cabeça de Bifrons caiu de bruços, este teve alguns espasmos e, por fim, ficou inerte.

Ela percebeu que toda a vida havia deixado o corpo, e essa constatação a fez desabar no chão com um baque surdo. Jamais imaginou que aquele terrível Arquidemônio morreria. Após algum tempo nessa situação, o cadáver de Bifrons teve um último espasmo.

— Fuheehee, ahahaa, AHAHAHAHAA!

Depois de soltar uma gargalhada insana, o cadáver sem cabeça se levantou. Então, um pedaço de carne borbulhou de sua ferida aberta, e o rosto de gênero neutro se restaurou perfeitamente.

— Nossa, isso foi surpreendente. Me tornei um feiticeiro há trezentos anos, no entanto esta é a primeira vez que morro. Ahaha, então é isso que “morte” significa, hein? Inesperadamente, é... Como posso dizer... É como fazer xixi nas calças.

O Arquidemônio Bifrons parecia não ter aprendido nada com a experiência de “morrer”.

— Realmente se deu ao trabalho de me dar um soco, hein? É incrível. Aqueles outros velhotes nunca chegariam a esse ponto! Ahahaha, como será que devo provocá-lo da próxima vez? Que divertido! — Bifrons continuou rindo como se toda a situação fosse agradável. E, depois de girar no mesmo lugar como se estivesse dançando sozinho, se virou para Nephteros e disse. — Claro, pretendo que você continue me ajudando de agora em diante. Fufu, você também quer ver aquela elfa do Zagan sofrer, não é?

— Por favor... Não... Brinque comigo.

— O que foi? Está com raiva? Tenho certeza de que é o que quer. Vamos lá, não está me dizendo que se apegou a eles só porque te salvaram uma vez, está?

— Eu vou te bater! — Nephteros respondeu em um tom de voz gélido. Entretanto, aquilo apenas fez o rosto de Bifrons se iluminar.

— Fufufu, você geralmente só diz essas coisas quando está com medo. Esse tipo de blefe é uma parte adorável sua.

Eu quero bater nele. No momento em que esse pensamento lhe passou pela cabeça, um punho saiu da carta mais uma vez. E, assim como da última vez, explodiu a cabeça de Bifrons, deixando apenas um cadáver caído no corredor.

— Fuhaa? O-O quê? Essa feitiçaria... Você...? Não, ela está reagindo à sua vontade?

Bifrons soltou uma voz confusa após reviver pela segunda vez. E, depois de encarar a reação dele sem expressão, Nephteros olhou para a carta.

Entendo. Então, essa feitiçaria reage sempre que fico com raiva. Era um pouco diferente de ser protegida, todavia parecia ser a forma de Zagan dizer “obrigado”. Zagan talvez tivesse previsto que Bifrons nunca tocaria na carta, então sabia que Nephteros a abriria. Quando se tratava de pegadinhas entre Arquidemônios, Zagan parecia ser um mestre.

— Fufufu... — Nephteros soltou uma risada involuntária e disse. — Entendo. Recebi um belo presente. Com certeza, cuidarei dele com muito carinho.

A partir de agora, Bifrons sem dúvida tentaria usá-la como uma ferramenta ou um peão sacrificial. Mas agora posso retaliar cada vez que isso acontecer.

Bifrons não era o tipo de Arquidemônio que aprendia suas lições, porém a carta deveria pelo menos tê-lo feito hesitar em irritar Nephteros. Pensando dessa forma, era uma ótima apólice de seguro.

— Não, espere, um momento. Ei, Nephteros. Isso é... Não seria melhor se livrar dessa carta...? — Bifrons falou com a voz confusa, o que era muito incomum.

— Hã...? Por que o faria? — Nephteros disse, inclinando a cabeça para o lado como se achasse a ideia estranha, o que deixou Bifrons sem palavras. E ver seu mestre tão perdido fez Nephteros levantar a voz e rir.

Ela nunca percebeu que aquela era a primeira vez que ria de pura alegria. Naquele momento, estava verdadeiramente feliz.

***

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