Capítulo 17: Já que as estrelas parecem prestes a cair, pensei em tentar dançar um pouco
Nephteros soube da existência daquela garota há alguns meses. Seu mestre, Bifrons, havia lhe mostrado a imagem dela através de uma projeção em um cristal. Como Nephteros servia a Bifrons desde o momento em que ganhou consciência, jamais questionou a qual raça pertencia ou de onde viera. Tudo o que sabia era que se orgulhava de servir a um Arquidemônio e que ser necessária para ele lhe trazia uma alegria acima de qualquer outra coisa. Ao ouvir falar de uma garota que tinha o mesmo rosto e a mesma raça que ela, a curiosidade de Nephteros foi despertada.
No entanto, aquela garota era obrigada a vestir trapos, tinha correntes nos pés e era tratada como escrava. Ver uma garota com o mesmo rosto que o seu passando por tal sofrimento apertou-lhe o coração.
— Quero salvá-la. — foi o desejo ardente que formulou para si mesma.
Haveria alguma maneira... De fazer com que aquela garota também servisse ao Mestre Bifrons? Se fosse possível, preferia ir salvar a garota pessoalmente a deixar que qualquer outra pessoa o fizesse. Afinal, possuía poderes concedidos por um Arquidemônio. E, depois disso, como sua veterana, Nephteros lhe ensinaria todo tipo de coisa. Sim, tinha certeza de que as coisas aconteceriam assim. Todavia...
— Veja só, Nephteros. É uma alta-elfa perfeita, justo como aquelas que eu vinha procurando. Com ela, poderei elevar minha pesquisa sobre misticismo celestial a um novo patamar.
Nephteros não conseguiu compreender o significado daquelas palavras. Se aquela garota era a alta-elfa que seu mestre desejava... Então, o que sou eu...?
Um ressentimento sombrio começou a crescer dentro de Nephteros. Toda a simpatia e afinidade que sentia pela garota transformaram-se em um ódio ardente. E, talvez por sorte, aquela garota acabou não entrando a serviço de Bifrons.
Sua vila foi atacada por humanos, e seu paradeiro tornou-se desconhecido. Foi uma pena que Nephteros não tenha podido presenciar seus últimos momentos, mas achou que a garota havia recebido o que merecia. Bifrons tentou rastrear o paradeiro da garota, porém parecia que outro Arquidemônio estava interferindo, impedindo-o de localizar sua posição.
Sendo assim, era natural que Bifrons valorizasse mais Nephteros do que a garota que não pôde ser capturada. Dessa forma, acreditava que seus dias de paz, antes perturbados, haviam enfim voltado ao normal.
Contudo, ela sobreviveu. Parecia que havia sido acolhida por outro Arquidemônio e agora exibia uma expressão tão feliz que sua antiga condição miserável parecia apenas uma fantasia. Ao ver aquilo, Bifrons deixou escapar um lamento carregado de frustração, vindo do fundo de seu ser.
— Que decepção. Arrebatá-la das mãos de outro Arquidemônio é arriscado demais, mesmo que seja um novato.
Normalmente, não conseguia decifrar os pensamentos de seu mestre, no entanto, naquele momento, Bifrons soltou um suspiro profundo. Enquanto aquela garota estivesse viva, a inveja de seu mestre não desapareceria. E Nephteros jamais seria a sua favorita.
Era imperdoável.
Foi por essa razão que, quando Bifrons lhe disse que não havia problema em contatar a garota, Nephteros sentiu vontade de dançar de alegria. Bifrons nunca a proibira de tocar na garota. Desde que não a matasse, com certeza não reclamaria.
Se eu a derrotar de forma avassaladora, o Mestre Bifrons irá perder todo o interesse nela. Provaria que quem seu mestre mais precisava não era aquela garota. Entretanto, não conseguiu vencê-la. Não, esqueça a vitória, Nephteros foi superada por alguém que estava se contendo justamente por causa do local onde lutavam.
Foi nesse momento que percebeu que a garota estava usando o poder que seu mestre desejava. E, justo quando sentia que estava enlouquecendo com a injustiça de tudo aquilo, seu mestre mais uma vez recorreu a sua ajuda.
— Elaborei um espetáculo divertido. Você poderá exibir todo o seu poder!
Diante da oportunidade, Nephteros decidiu que jamais voltaria a perder.
***
Algo começou a rodopiar entre Zagan e Bifrons, emanando do centro de seus Selos de Arquidemônio.
Um mundo de escuridão, sem qualquer luz. Era um vórtice de mana que superava em muito a quimera demoníaca deixada por Marchosias, ou mesmo o demônio invocado por Barbatos. Transbordava das profundezas do lago e engoliu o navio.
— Aahahahaha! É incrível! Em termos de pura quantidade de mana, isso não supera até mesmo os treze Arquidemônios? Ahahahaha! AHAHAHA! — Bifrons exclamou, rindo como um louco.
— Bifrons! Você enlouqueceu de vez? Está planejando ressuscitar o Lorde Demônio?
E, em resposta ao grito furioso de Zagan, Bifrons apenas riu.
— De jeito nenhum! Não se pode chamar algo assim de Lorde Demônio. No máximo, são apenas os seus restos, nada mais do que pensamentos residuais. E apenas despertou ao reagir aos Selos de Arquidemônio.
Um simples resíduo possui tamanho poder? Está dizendo que tal monstro existiu?
Era, de fato, uma existência semelhante à de um deus. Era um poder em outro patamar. Um homem jamais poderia esperar alcançá-lo.
Pouco depois, o vórtice de mana ganhou massa e se materializou. Ao presenciar aquilo, Zagan deixou escapar, involuntariamente, uma exclamação de repulsa.
— O que... É aquilo...?
Era uma “lama viscosa”. Se não fosse por sua forma nítida, que lembrava um ídolo, seria impossível sentir qualquer traço de humanidade ali dentro. Era como se a própria malícia tivesse se concentrado em uma forma visível, transformando-se em uma massa repulsiva de lama imunda.
É enorme...
Sua origem era um aglomerado colossal de mana. Embora a massa de lama fosse grande o suficiente para cobrir o barco por completo, ela continuava a crescer. Porém, o fato de possuir massa significava que a gravidade também exercia influência sobre aquilo. E assim, a massa de lodo em expansão despencou em direção à superfície do lago, fazendo com que uma coluna de água disparasse para o alto.
Enquanto o navio balançava com força, os esqueletos artistas da trupe musical foram arremessados do convés, mas todos os feiticeiros se puseram em guarda usando magia. Quanto a Chastille, Rafael e os outros, eles se mantiveram agarrados ao convés e escaparam de ser lançados para fora.
Então, o silêncio se fez presente. Justo quando imaginavam que a coisa estava prestes a lançar um ataque, a massa de lodo se limitou a ficar ali, flutuando.
— Hã?
Isto também pareceu inesperado para Bifrons, que soltou uma exclamação de espanto.
Não, a própria mana continuava a se intensificar cada vez mais. Além disso, aquela massa não deveria ser uma criatura viva nem nada do tipo. Zagan não acreditava que pararia o que estava fazendo só por ter atingido a água. O problema era que não faziam a menor ideia do que aquela massa estava tramando. E essa situação não valia apenas para o grupo de Zagan... Na verdade, todos os feiticeiros a bordo prendiam a respiração enquanto observavam atentamente a superfície da água.
Enquanto o ponteiro dos segundos do relógio completava uma volta inteira e o ponteiro das horas avançava um pouco mais, nada acontecia. Um dos feiticeiros então limpou a testa, soltando uma risada repentina.
— Hah. Não está acontecendo nada.
E, naquele exato momento...
— Gaaah!
Aquele mesmo feiticeiro soltou um grito abafado. Ao olharem para ele, todos viram uma única estaca saindo do convés.
Não, aquilo não é uma estaca! Zagan sentiu arrepios percorrerem sua pele.
— Cuidado! Já agarrou o navio!
A estaca era, na verdade, feita de uma lama viscosa que se infiltrava no convés. Ela avançava silenciosamente pelo navio, como algodão absorvendo água.
Nesse ritmo, se houvesse alguém dentro do navio... Estaria indefeso. Era provável que não houvesse sobreviventes lá dentro. Embora parecesse que o feiticeiro atacado no convés ainda estivesse vivo.
— Gah, argh, m-me... Salvem...
O feiticeiro gorgolejava enquanto gritava como se estivesse se afogando, contudo uma lama negra jorrou de todos os orifícios de seu corpo pouco depois, e ele desabou. Nephy engoliu em seco, e Chastille cerrou os dentes, como se não conseguisse conter a vontade de vomitar.
Será que ele... Foi devorado? Era algo completamente diferente de como Zagan “devorava” a feitiçaria. O corpo do feiticeiro estava derretendo por dentro e sendo engolido por inteiro. Após testemunharem aquela cena pavorosa, o medo começou a se espalhar até mesmo entre os feiticeiros.
— Ugh, ó raio, reduza-os a cinzas!
— Venham, ó chamas carmesins.
Os feiticeiros lançaram ataques de fogo e raio, no entanto tudo o que conseguiram foi queimar a superfície externa da lama.
Não, está absorvendo a feitiçaria? A lama inchava de tamanho à medida que recebia mais e mais ataques.
— Não ataquem! Está apenas absorvendo tudo! — Zagan gritou, fazendo com que os feiticeiros parassem em seguida com seus ataques. Eram feiticeiros que possuíam poder suficiente para serem convidados para o baile noturno de um Arquidemônio. Sem encontrar uma forma de atacar, em pouco tempo se afastaram do convés. Afinal, feitiçarias que permitiam voar não eram nada incomuns.
Zagan também escapou para os céus com Nephy e Chastille nos braços, enquanto Foll manifestava suas asas de dragão e sustentava Rafael ao se afastar do convés.
— E-Espere, minha Espada Sagrada ainda está guardada no navio. — gritou Chastille, com o rosto pálido.
— Como se fosse hora de se preocupar com isso agora!
Não importava onde estivesse guardada, pois o interior do navio já havia sido engolido pela lama. Os feiticeiros que haviam se separado do navio começaram a fugir, entretanto...
— Droga, que diabo é essa coisa?
De repente, como se barrados por uma parede invisível, os feiticeiros foram empurrados de volta para as proximidades do navio.
— Ahahaha, o show acabou de começar, sabe? Não sejam tão frios a ponto de ir embora sem nem assistir à atração principal.
Era Bifrons. Parecia que o Arquidemônio havia erguido algum tipo de barreira para impedir a fuga dos outros feiticeiros.
Se é feitiçaria, então vai dar certo de qualquer jeito... Zagan cerrou o punho, e Bifrons ergueu o dedo indicador, como se antecipasse suas ações.
— Ah, não, é melhor parar por aí, Zagan. Acha mesmo que consegue quebrar só a minha barreira em um espaço saturado de feitiçaria? Se tentar, todos vão cair de cabeça na água!
— Tch...
A barreira de Bifrons era repulsiva e assumia uma forma que envolvia toda a feitiçaria invocada dentro dela. Talvez fosse correto chamá-la de parasita. Enquanto alguém estivesse usando feitiçaria, a barreira não seria desfeita. E se Zagan a destruísse, toda a feitiçaria capturada por ela também seria quebrada.
E então, a lama no lago se espalhou.
— Aquele maldito louco...
Quem falou com tanto desprezo foi Gremory. Kimaris também estava bem ao seu lado. Se fossem eles, talvez conseguissem romper a barreira do Arquidemônio, todavia...
Naquele momento, um grito agudo ecoou pelo ar.
— Eeek, alguém... Alguém!
Enquanto a lama se espalhava pelo convés, havia uma pessoa que ficou para trás.
— Aquela mulher é... — Nephy empalideceu.
A única que ficou para trás foi a sereia da trupe musical. Ao que tudo indicava, não era uma feiticeira nem nada do tipo. E também parecia que os esqueletos que compunham a trupe musical já haviam sido devorados ou caído no lago. Tudo o que restava eram instrumentos lamentavelmente espalhados por ali.
Sem qualquer meio de planar no ar, o lago já havia se transformado no território da lama. E, como se estivesse brincando com a garota que não tinha para onde correr, a lama rastejava ao seu redor.
— Nephy, você consegue voar?
— S-Sim! — Nephy havia aprendido o básico da feitiçaria. Não conseguia planar livremente pelos céus, mas pelo menos conseguia flutuar no lugar. E, dessa forma, depois de confiar Chastille aos seus braços, Zagan desceu ao convés.
Um grito estridente ecoou.
— NÃOOOOOOOOOOOOOO!
— Cala a boca. Se é uma cantora, então cante uma música ou algo assim... — Zagan agarrou a nuca da sereia e socou o convés. Adicionou sua própria mana ao golpe, além da mana que havia ganho ao devorar a feitiçaria de Bifrons antes. Quanto ao puro poder destrutivo, era improvável que mesmo todos os feiticeiros presentes conseguissem superá-lo com seu poder combinado. Foi um golpe semelhante a uma martelada, capaz de transformar uma pequena vila em uma cratera. Esqueça o convés, o próprio navio foi partido ao meio, e a onda de choque varreu a gosma também.
Mesmo que consiga absorver feitiçaria, é improvável que consiga devorar uma onda de choque física. Zagan conseguiu repelir a gosma, tal qual havia planejado.
— Tsc... — Zagan estalou a língua com irritação. Um fragmento da gosma havia grudado no punho com o qual golpeara o convés. Ainda quando tentou sacudi-lo ou limpá-lo, a substância continuou a sugar a mana de Zagan e começou a se expandir.
Será que planeja absorver o Selo do Arquidemônio?
Se aquilo era um vestígio do Lorde Demônio, era natural que fosse atraído pelo Selo do Arquidemônio, que era um vestígio ainda maior. E não parou apenas no seu punho, a gosma começou a subir pelo braço de Zagan.
— Meu senhor! — Rafael surgiu pouco atrás enquanto Zagan soltava um grunhido. Então, ele levou a mão direita ao braço artificial.
— Atenda ao meu chamado... Espada Sagrada Metatron! — Rafael clamou por sua Espada Sagrada ao sacá-la do braço artificial. Não havia como o baile de gala de um Arquidemônio transcorrer pacificamente, e todos sabiam disso. Foi por esse motivo que Zagan remodelou o braço artificial de Rafael para servir como bainha capaz de guardar sua Espada Sagrada. Em princípio, tratava-se do mesmo tipo de magia que Barbatos usava para se deslocar pelo espaço.
A Espada Sagrada já estava envolta em chamas de purificação, e essas chamas queimaram a gosma junto com o braço de Zagan.
— Ghhh... — Zagan soltou um gemido de dor. Mesmo assim, conseguiu remover a gosma que se enrolava em seu braço. Infelizmente, ficou com queimaduras graves no lugar. Enquanto protegia as costas de Zagan, Rafael pediu desculpas em tom firme.
— Perdoe minha insolência!
— Não, tudo bem. Você me salvou.
Para ser sincero, a situação era bastante perigosa. Se aquele mordomo leal não o tivesse queimado, Zagan talvez tivesse que amputar a mão direita ou algo do tipo. Foi uma sorte que tudo tenha terminado apenas com queimaduras.
Todavia, talvez tenha sido um erro revelar a Espada Sagrada. Os feiticeiros que haviam escapado para o alto começaram a levantar suspeitas.
— Ei, aquilo não é uma Espada Sagrada?
— Por que o Aparição consegue usar uma Espada Sagrada?
— Será que é um espião da Igreja ou algo assim?
Quem sugeriu isso foi o Arquidemônio Bifrons. Se um Arquidemônio estivesse de posse de uma Espada Sagrada, era natural suspeitar de um envolvimento com a Igreja. Provavelmente não fazia mais sentido manter o disfarce de Valefor, então Rafael removeu o elmo. Ao verem seu rosto exposto, todos os feiticeiros empalideceram.
— É o caçador de feiticeiros, Rafael! Porra, ele está vivo?
Enquanto os feiticeiros elevavam a voz em espanto, Rafael rugiu de volta para eles.
— Abandonei esse nome. Agora, sou apenas a espada do Arquidemônio Zagan.
Até onde a voz de Rafael teria chegado? Por enquanto, não havia hostilidade suficiente direcionada a ele, então tinha certeza de que não seria atacado pelas costas, mas eles também não confiavam na sua pessoa. Todos os feiticeiros recuaram, como se quisessem deixar claro que não queriam se envolver. Zagan percebeu que não cooperariam, independente da situação.
Bem, suponho que seja bom que não sejam hostis.
Aquele talvez fossem os resultados de seus esforços para fazer com que temessem os Arquidemônios. Agradecia pelo fato de seus inimigos não aumentarem em número. Por sinal, a jovem sereia havia perdido a consciência.
Essa bagagem extra está atrapalhando...
Além do mais, embora a tivesse afastado com um golpe, a lama não havia só desaparecido. Em vez disso, voltava a escorrer pelo casco do navio, cercando Zagan.
— Rafael, reduza essa gosma a cinzas.
— Como desejar.
Enfrentar aquela coisa apenas com os punhos era uma má ideia. Mesmo que Zagan a afastasse com a onda de choque, o simples contato com uma gota sequer poderia causar sérios problemas. A Espada Sagrada de Rafael era mais adequada para a situação.
Ao comando de Zagan, Rafael liberou as chamas da purificação. E a lama, que nem sequer havia se despedaçado com a onda de choque do punho de Zagan, foi reduzida a nada em um piscar de olhos. Porém, a porção adjacente àquela que fora incinerada aumentou de volume.
Ainda que consiga contê-la, é impossível exterminá-la por completo...
Se todas as doze Espadas Sagradas estivessem reunidas, talvez fosse possível fazer algo a respeito, contudo havia lama demais para Rafael repelir sozinho.
Zagan estava sendo encurralado aos poucos sobre o navio que afundava. Após deitar a sereia no convés, canalizou mana para o próprio punho.
O Fósforo Celestial deveria funcionar contra aquilo, contudo... O volume colossal daquela massa viscosa já havia superado o do próprio navio. Sem falar que, aquele feitiço seguia incompleto. Então, que quantidade de poder Zagan conseguiria empregar?
E, bem quando se preparava para atacar... Uma voz cantante e límpida ecoou.
— [Tu és aquele que brilha como as estrelas. Aquele que abraça o equilíbrio e arbitra entre o bem e o mal.]
Era semelhante à voz de Nephy... No entanto não é a Nephy.
Surpreso, Zagan olhou para o céu e viu Nephteros cantando. Sua voz era clara e fluida. Parecia uma pessoa diferente daquela que, pouco antes, demonstrara hostilidade para com Nephy. De fato, sua figura parecia até sublime.
Sim, era uma canção. Não era um ritual para conjurar feitiçaria ou algo do gênero. Para uma pessoa comum, soava como uma espécie de oração, um cântico de prece. Eram palavras cuja estrutura diferia de maneira visível daquelas usadas em feitiços.
E aquela canção começou a tecer um grande poder, capaz de rivalizar... E até superar a mana daquela massa viscosa.
A cada verso que entoava, luzes semelhantes a vaga-lumes transbordavam e envolviam seu corpo em uma dança vibrante. Aquela luz assemelhava-se a poeira estelar sobre o manto de escuridão.
— [Ainda assim, o equilíbrio foi rompido. A ordem perdeu-se, e a terra tingiu-se de sangue. Tal ato exige retribuição. Uma retribuição trazida pelo martelo que estilhaça todo pecado.]
A luz, semelhante a poeira estelar, mudou de direção e lançou-se contra a massa viscosa. Aquela substância, que resistira ao fogo, aos raios e até mesmo ao punho de Zagan, agora desaparecia, como se estivesse se dissolvendo. O efeito lembrava, de certa forma, a chama de purificação de Rafael, entretanto seu poder superava o dele com folga.
Todavia que eco é esse, que soa como lamento...? Embora um poder tão aterrorizante estivesse sendo conjurado, o simples fato de ouvir a canção apertava o peito de Zagan, como se fosse dominado pela melodia triste. E então, percebeu a verdade...
Será que... As emoções de Nephteros estavam sendo transmitidas através da canção? Ele não tinha nada em que basear sua teoria. Todavia, por algum motivo, ao ouvir aquela voz cantando, recordou a imagem do perfil de Nephy no momento em que a havia ferido.
— Não... Ela não é a Nephy.
Era a Nephy da época em que ainda sofria opressão, assim como a figura da garota que sentia uma dor no peito ao olhar para ela. Embora quisesse salvá-la, também acabou perdendo seu lugar no mundo por causa dessa mesma garota. As memórias daquela garota sofrida estavam sendo transmitidas por sua canção.
Por que essas memórias estão fluindo para dentro de mim...? Ao olhar ao redor, viu Rafael balançando a cabeça, com uma expressão de perplexidade no rosto. Parecia que as memórias não estavam fluindo apenas para Zagan, e sim para todos que ouviam a canção. E talvez por não ter percebido isto, Bifrons riu. A mão de Bifrons apertava uma taça cheia de vinho, que havia conseguido sabe-se lá de onde.
— O que acha? Não é lindo? É uma façanha da qual apenas os alto-elfos são capazes. É a luz do misticismo celestial, um poder dos deuses capaz até mesmo de destruir o Lorde Demônio.
Embriagado pelos resultados de sua própria pesquisa, Bifrons ergueu a taça em um brinde. E então, enquanto o fazia, a canção de Nephteros aproximava-se de seu desfecho.
— [As luzes dos céus são todas estrelas. Tudo o que brilha, longe e perto, despenca em uma conflagração. Sem compaixão, sem pesar, ela simplesmente julga e traz a destruição. Esta é a prece da retribuição]... Asteri Ekrixis!
Partículas de luz transbordaram do corpo de Nephteros e, como uma chuva de meteoros, caíram incessantemente sobre a massa viscosa. Era uma luz de destruição que perfurava a massa e a queimava por dentro.
— Aquilo é... Misticismo celestial...
Era isso que Bifrons passara trezentos anos tentando ressuscitar... Um poder dos deuses que fora concedido à alta-elfa Nephteros. A luz das estrelas ardentes convergiu para a massa viscosa e expandiu-se de tamanho.
Será que vai explodir? Se tamanha quantidade de mana fosse convertida em força destrutiva, até mesmo o lago inteiro poderia ser obliterado.
— Tsc, vamos recuar, Rafael! — Zagan carregou Rafael e a garota-sirena, escapando para os céus, e então posicionou-se em guarda para proteger Nephy e os outros. Entretanto, a destruição que Zagan esperava não aconteceu.
— Hã...?
De quem foi aquela voz? A luz que estava se expandindo... Desapareceu de repente. E, gota a gota, gotículas vermelhas escorreram pelo rosto dela.
— P-Por quê...?
As gotas vermelhas traçaram um caminho pelo corpo de Nephteros e caíram. Sua pele escura tingiu-se de carmesim, e o líquido escorria como lágrimas de sua boca e de seus olhos. A cena era chocante, todavia quem parecia mais confusa era a própria Nephteros.
— Sangue...?
Zagan percebeu o que era tarde demais, enquanto Nephteros despencava com a lua ao fundo. Naquele momento, sentiu como se pudesse ver tanto perplexidade quanto desespero nos olhos dourados da garota.
— Ah...
Nephy soltou um gemido baixo, estendendo as mãos numa tentativa inútil de segurá-la. Porém suas mãos não a alcançaram.
A garota chocou-se contra o navio que afundava com um baque surdo. E, gradualmente, uma mancha vermelha espalhou-se pelo convés inclinado. Como o desfecho ocorrera de forma tão repentina, Bifrons soltou um suspiro resignado.
— Que pena! Parece que havia mana demais, e ela não conseguiu se estabilizar no corpo... — a voz de Bifrons não continha qualquer traço de simpatia ou pena por Nephteros. Ainda assim, Nephteros seguia viva. Enquanto seus cabelos prateados eram tingidos de vermelho, seu rosto se ergueu com determinação.
— Mes... Tre... Bi... Frons... — Nephteros estendeu a mão em direção ao seu mestre, implorando por ajuda, mas Bifrons apenas balançou a cabeça, como se a garota nem sequer tivesse entrado no campo de visão do Arquidemônio.
— Tive tanto trabalho para incutir isso em você também... Mais um fracasso, hein?
— Gh! — o rosto de Nephteros se contorceu em desespero ao ouvir aquilo. E então, a massa viscosa que havia sido despedaçada começou a se contorcer em sua direção.
— Ei! Ela vai ser devorada!
— O que tiver de acontecer, acontecerá. Se chegarmos mais perto, pode acabar devorando nossos Sigilos de Arquidemônio desta vez, e... Se isso acontecer, nem mesmo os Arquidemônios conseguirão lidar com essa coisa.
Ela havia sido abandonada. Ao ver Bifrons fazer essa escolha, Nephteros soltou um lamento.
— Não... Pode... Ser... Mes... Tre... Bi... Frons... Ah... Aaaaaah!
O corpo de Nephteros já havia sido engolido até a cintura pela massa viscosa. Diante de tal cena, Bifrons soltou um suspiro, como se a cena o entediasse.
— Olha, se já foi engolida até esse ponto, então não tem mais jeito. Nem as chamas da Espada Sagrada conseguem queimar essa massa. Bem, suponho que o maior proveito de hoje foi compreender a verdadeira força da Espada Sagrada, não é? Ahahah.
Zagan gemeu. Enfim entendeu. Vinha se perguntando que tipo de diversão poderia surgir de um evento como um baile noturno, porém Bifrons o realizara com um objetivo específico em mente. A escolha do local, o convite a Zagan, fazer com que Nephy e Chastille o acompanhassem... Tudo era necessário para testar o poder daquele Lorde Demônio e o misticismo celestial. E, como se o problema não fosse nem um pouco seu, Bifrons sorriu ao olhar para Nephteros.
— Até mais, Nephteros. Você não passou de um fracasso, contudo não estou decepcionado, sabe? Afinal, a pesquisa é construída sobre uma montanha de fracassos. Da próxima vez farei melhor, certo?
Naquele momento, Zagan viu a expressão de alguém verdadeiramente lançado às profundezas do desespero. Aqueles que nada sabiam sobre esperança não podiam conhecer o desespero. Quando Zagan conheceu Nephy, ela não tinha esperança. Talvez fosse por essa razão que o desespero nunca a acompanhava.
Toda a luz havia desaparecido dos olhos de Nephteros, e então até mesmo aqueles olhos foram engolidos pela lama viscosa. Com um som de esmagamento, restou apenas o ruído de algo sendo triturado. Após constatar, Bifrons virou-se para encarar Zagan.
— Bom, já está na hora de eu ir para casa. Ah, aquela lama ali é como um fantasma que reage apenas à mana do sigilo... Nesse caso, ainda que não lhe de atenção, ela deve desaparecer sozinha até de manhã.
Após transmitir essa informação unilateralmente, a figura de Bifrons transformou-se em pó e começou a desaparecer. Parecia que Bifrons estava usando feitiçaria para se teletransportar.
Ao verem sua saída, os outros feiticeiros também tentaram fugir, no entanto a barreira de Bifrons seguia estando ativa. Assim, foram repelidos mais uma vez.
— N-Não brinque com a gente, Arquidemônio! Desfaça sua barreira! Deixe-nos ir!
— Aaah, será que a memória de um fracasso é algo que simplesmente desaparece? Eu ficaria magoado se fosse chamado de um Arquidemônio fracassado, e também quero mandar alguma companhia para a pobre Nephteros. Ahahahaaa.
Bifrons disse que a lama desapareceria até de manhã, entretanto haveria algum feiticeiro capaz de sobreviver até lá? Ao observar as ações de um Arquidemônio tão repugnante, Zagan sentiu o sangue gelar. E então, murmurou baixinho.
— Eu não gosto disso.
— Não gosta do quê? Parece improvável, todavia não vai dizer algo clichê como não conseguir me perdoar por não ter salvo aquele fracasso, vai?
O palpite de Bifrons foi certeiro. Afinal, feiticeiros eram criaturas puramente malignas, desprovidas de qualquer senso de compaixão. Portanto, os sentimentos de Zagan eram uma anomalia. Ainda que fosse o caso, Zagan continuou a demonstrar seu desprezo.
— Vou ter a certeza de... Te dar um soco na cara! — proclamou Zagan.
Aquilo fez Bifrons piscar, com uma expressão inexpressiva, antes de cair na gargalhada.
— Ahahaaa, essa é boa! Vou ficar esperando você vir me dar um soco. Bem, isso se sobreviver e conseguir sair daqui, é claro.
A figura de Bifrons desapareceu no ar, acompanhada por aquela risada estridente. E então, restou apenas uma situação mortal, sem qualquer esperança de fuga à vista.
***
A massa viscosa que engoliu Nephteros começou a mudar de forma.
Está assumindo a forma de uma pessoa...? Ela replicou a silhueta de uma mulher, aparentemente tendo absorvido o desespero da garota. Suas orelhas eram pontiagudas, como as de um elfo. Porém, a criatura era gigantesca. Apenas a parte superior do corpo emergia da superfície da água, mas seu porte era tão colossal que os destroços do navio pareciam um brinquedo pairando ao seu redor.
— Mestre Zagan... — Nephy apertou com força a barra da túnica de Zagan enquanto observava a cena. Mordendo o lábio, apelou a ele com a voz trêmula. — Sei muito bem que é um pedido irracional, contudo há algo que gostaria de lhe pedir.
— O que é? Diga-me.
— Será que posso pedir... Para salvar aquela garota... Para salvar Nephteros? — respondeu Nephy, com lágrimas nos olhos.
— Nephy, você não passou por algo horrível por causa daquela garota? — questionou Zagan, arqueando as sobrancelhas.
Para começar, era duvidoso até mesmo se Nephteros seguia com vida. E se, hipoteticamente, sua consciência seguisse intacta, não tinha certeza se conseguiria libertá-la. Acima de tudo, a feitiçaria não surtia efeito naquela massa viscosa. Embora devesse compreender toda essa situação, Nephy continuou a falar enquanto apertava o peito.
— A canção daquela garota... Era tão bela. Era muito límpida... E fluida... Se conseguia cantar com tal voz, então talvez seja alguém de coração puro.
Pouco antes, Zagan acreditava que o que fluía para dentro deles, junto com a canção, eram as memórias de Nephteros. E era certo que Nephy também vira a mesma coisa.
— Ser transformada em tal forma depois de tudo aquilo é... Triste. Ela parecia estar chorando também... — Nephy continuou falando com dificuldade, como se estivesse forçando as palavras a saírem. — Aquela garota... É igual a mim. Eu fui salva por você, contudo ela não conseguiu. Aquela garota não conseguiu se salvar... Como eu fui. É por isso que...
— Já chega. Entendi! — disse Zagan, passando a mão pelos cabelos de Nephy.
No entanto, mesmo assim, Zagan só pôde balançar a cabeça, negando.
— Entendo seus sentimentos, Nephy, só que não posso fazer nada a respeito sozinho.
Ele quase foi engolido por inteiro quando atacou aquilo com o punho. O Fósforo Celestial poderia funcionar, entretanto não havia como saber se conseguiria incinerar algo daquele tamanho com um único golpe. Talvez, se usasse o Selo do Arquidemônio, pudesse sobrepujá-lo, todavia não fazia ideia do que aconteceria se usasse o selo diante de um vestígio do Lorde Demônio.
Em outras palavras, nada podia ser feito com o poder de Zagan.
— Peço... Perdão. Fiz um pedido irracional. — disse Nephy, com as orelhas caídas.
— Mas... — Zagan continuou falando, interrompendo Nephy antes que dissesse mais alguma coisa. — Rafael, sua Espada Sagrada deveria funcionar até certo ponto, não é?
Ao desviar o olhar para ele, Rafael... Que já não usava mais o elmo, assentiu.
— Acredito que sim. Se meu senhor ordenar, eu irei.
— Hmm...
Depois de ouvir sua resposta, Zagan voltou o olhar para Foll.
— Foll, o seu sopro consegue queimar aquela gosma?
— Não dá para saber sem tentar, porém é provável que sim. Afinal, não é feitiçaria.
Em seguida, Zagan olhou para Chastille.
— Chastille, essa não é a oportunidade perfeita para deixar os feiticeiros em dívida com você?
— E-Eu não preciso de um motivo para proteger os outros! Só que a minha espada está... — a expressão de Chastille ficou sombria enquanto se agarrava a Nephy.
Zagan então soltou um bufo desdenhoso.
— Barbatos. Você veio junto, não é? É bom que a Espada Sagrada esteja segura.
— Hã...? — Chastille soltou um som de perplexidade quando um rosto sombrio surgiu da “sombra” formada pelo vestido dela.
— Já disse, não sou um maldito faz-tudo, entendeu?
— Iiih! Você... De onde acha que está saindo?
Era como se ele tivesse saído das fendas do seu vestido. Chastille ficou vermelha como um pimentão enquanto segurava a saia para baixo.
Wow, ele veio junto justo como imaginei, hein? Aquele homem não era o tipo de feiticeiro com modos suficientes para ficar quieto depois de ser ignorado por um Arquidemônio. E, para a sorte de todos, ao se revelar Barbatos estava, de fato, carregando uma Espada Sagrada.
— Aqui.
— H-Há quanto tempo estava escondido no meu vestido? — Chastille estava prestes a desmaiar enquanto pegava sua Espada Sagrada.
Barbatos então lançou um olhar desconfiado para ela antes de responder.
— Não é óbvio? Estive lá desde o começo! Ah, não se preocupe. Não tenho interesse em ninguém mais jovem que eu, então... Ouch!
Com lágrimas nos olhos, Chastille deu um tapa no rosto de Barbatos.
— Sua vadia...
— Cale a boca, Barbatos. A culpa foi sua.
Em seguida, Zagan finalmente se virou para Nephy.
— Muito bem, Nephy. Parece que esse pessoal vai dar uma mãozinha. E você? Está disposta a lutar por aquela que te feriu?
— Sim! — disse Nephy, com os olhos cor de anil brilhando enquanto assentia com firmeza.
Zagan entregou a garota sereia, que carregava o tempo todo, para Nephy. Não conseguiria lutar carregando aquele peso.
Depois disso, voltou-se para Barbatos.
— Barbatos, deixo por sua conta garantir as posições para Rafael e os outros.
— Não venha me dar ordens, porra... Espera, o quê? Você... Agora há pouco... O que disse?
— O quê...? Eu disse algo estranho?
— Vai deixar... Comigo? — murmurou Barbatos, com uma expressão de incredulidade no rosto.
— Quem sabe? Talvez tenha ouvido errado?
Zagan disse isso e olhou para baixo, para o “Lorde Demônio de Lodo” que rondava logo abaixo.
— Bom, então, vamos exterminar um monstro?
E, já que estava nisso, não custava nada salvar a lamentável princesa capturada.
Entendo. Poder “contar” com os outros talvez não seja tão ruim afinal.
Chastille havia dito que queria que ele contasse com ela. E, ainda sem perceber, Zagan já contava com Nephy. Com certeza aquilo não era algo ruim.
Afinal, Zagan jamais teria conseguido tal poder sozinho.
***
— Fuuuuuu... — Foll foi a primeira a agir. Após respirar fundo, conjurou várias camadas de círculos mágicos à sua frente. Então, disparou seu sopro de dragão. O ataque transformou-se em um clarão ofuscante ao ser amplificado pela feitiçaria, perfurando o Lorde Demônio de Lodo. Com um enorme buraco aberto em seu torso, o Lorde Demônio de Lodo perdeu a estabilidade e desabou.
— Phew, funcionou.
— Ótimo. Continue dando suporte desse jeito. — Zagan saltou em direção ao lago após elogiar o esforço de sua filha. Naquele instante, um fragmento do navio naufragado emergiu à tona, bem na ponta do focinho do Lorde Demônio de Lodo. Parecia que destruir o barco com o punho havia sido a escolha certa, havia vários outros grandes pedaços de madeira flutuando por perto que poderiam servir de apoio.
Mesmo sendo um monstro, não gosto muito de socar algo que tem o rosto da Nephy, sabe? Foi por esse motivo que, a princípio, se esforçou ao máximo para não olhar para aquele rosto.
— O que você comeu para ficar tão gordo? — disse Zagan, soltando uma risada provocadora. Já havia tecido um círculo mágico em sua mão direita. O círculo, composto por milhares de circuitos, começou a absorver não apenas a mana de Zagan, como também a mana ao seu redor e a do próprio Lorde Demônio de Lodo, emitindo um brilho cada vez mais intenso.
— Reduza-se a cinzas... Fósforo Celestial!
Zagan sentiu uma sensação pesada e embotada, semelhante a mergulhar a mão em um pântano. E, assim como o alcatrão, o lodo grudou em seu punho.
— Falhou? — murmurou um dos feiticeiros que haviam escapado para os céus.
— Não, funcionou.
E, logo em seguida, uma chama negra irrompeu. Zagan desferiu um soco envolto em fogo no rosto do Lorde Demônio de Lodo, reduzindo aquele fragmento a cinzas. O Fósforo Celestial garantiu que fosse instantaneamente desintegrado, de modo que o lodo não grudou em Zagan como havia acontecido antes.
Porém, a destruição não se limitou à cabeça. Ela fez com que o lodo se despedaçasse na altura do meio do tronco. Barbatos então abriu a boca, pasmo.
— Whoa, quantos circuitos você enfiou nisso?
Quando o mostrou a Barbatos, o Fósforo Celestial continha cerca de dois mil circuitos. E, agora, Zagan havia colocado o dobro dessa quantidade.
Contudo ainda não é o suficiente. As chamas negras, que queimavam o Lorde Demônio de Lodo, perderam aos poucos o vigor e foram repelidas pela massa viscosa. Sua velocidade de regeneração era maior do que quando era apenas lodo comum.
Parecia que o lodo havia recebido um propósito ao assumir a forma de uma elfa negra. Agora que se movia com um objetivo, tornara-se muito mais eficiente do que quando não passava de lama espalhando-se sem rumo. No entanto, enquanto tudo acontecia, Zagan avistou algo.
— Nephteros!
A parte superior do tronco da lamentável elfa negra podia ser vista nas profundezas do peito de lodo. E, ao ouvir seu nome ser chamado, as orelhas da garota se moveram.
Ela ainda está viva?
Entretanto, ele a viu apenas por um breve instante, pois o lodo a engoliu logo depois.
— Droga, isto é ruim, Zagan! — gritou Barbatos.
Após se recompor, o lodo avançou para engolir Zagan também.
— Brilhe, Espada Sagrada Azrael! — gritou Chastille, movendo-se para proteger Zagan com sua Espada Sagrada ainda na bainha. A luz de purificação jorrou da abertura no punho da arma.
— Hiyah!
Parecia que havia desembainhado a espada em um único golpe horizontal. Todavia, o que Zagan viu diante de seus olhos foi uma infinidade de cortes de espada, formando uma rede. Parecia que havia desferido apenas um golpe, mas, num piscar de olhos, a garota liberou dezenas de cortes. Até sem sua Armadura Ungida seu desempenho em combate era formidável.
Então, por que costuma ser uma chorona tão inútil? Era um contraste bastante misterioso.
A massa de lodo que avançava sobre Zagan foi fatiada em cortes transversais precisos e despedaçada. Porém, embora a potência e a velocidade do ataque fossem impressionantes, seu alcance não se equiparava ao do golpe de Rafael. O lodo começou a se aglutinar e a se regenerar em seguida, contudo...
— Ceife tudo, Espada Sagrada Metatron! — Rafael avançou bem naquele instante.
Os fragmentos cortados pela luz de Chastille foram incinerados pelas chamas de Rafael. Incapaz de reunir seus pedaços, o Lorde Demônio de Lodo curvou-se para trás e afastou-se dos destroços do navio.
Vejo que reunir duas Espadas Sagradas é bastante eficaz. A ideia de enfrentá-las como inimigas lhe causava arrepios, ele teve sorte de tê-las como aliadas. Mesmo assim, não parecia que o Lorde Demônio de Lodo havia sofrido danos graves com aquilo.
Apesar de ter sido golpeado violentamente por um Arquidemônio, atingido por dois ataques de Espadas Sagradas e até ter sido banhado pelo sopro de um dragão... Seu tamanho não havia mudado nem um pouco. Além do mais, seus poderes de regeneração não mostravam sinais de desaceleração. E foi justo por essa razão que Zagan soltou uma risada destemida.
Se eu não agir com arrogância em uma situação dessas, então como poderei ser um Arquidemônio?
— Destruam essa gosma! A elfa lá dentro ainda está viva! — Zagan elevou a voz e gritou.
O primeiro feiticeiro atacado foi consumido em instantes e desapareceu, todavia Nephteros permaneceu quase intacta. Teria sido pela diferença na quantidade total de mana que possuía, ou talvez os alto-elfos tivessem algum tipo de resistência? Zagan não tinha certeza, mas se seguia com vida, talvez fosse possível salvá-la.
Se Nephteros fosse libertada, o lodo deveria parar de se propagar. Porém, após assumir a forma de Nephteros, era natural que o Lorde Demônio de Lodo não ficasse passivo. A boca da cabeça regenerada se abriu amplamente.
— Algo está vindo!
Um ataque de sopro? Ou talvez fosse cuspir chamas? Ou quem sabe talvez estivesse até conjurando um feitiço? A vigilância de todos deveria ter sido a defesa perfeita, contudo o ataque estava muito além do que imaginavam.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Era... Um grito.
— Gah, urgh?
O Lorde Demônio de Lodo soltou um grito alto o suficiente para rachar a cabeça de alguém. Ondas violentas surgiram na superfície da água, os destroços do navio se despedaçaram e as lanternas que flutuavam na água foram reduzidas a cacos e apagadas.
— Chastille!
A Cavaleira Angelical estava ali, protegendo Zagan. E ela certamente recebeu o impacto principal do grito, dado o estado deplorável em que se encontrava. No meio do processo, acabou perdendo a consciência e desabou.
— Tsc, que incômodo! — Barbatos, de todas as pessoas, acabou segurando Chastille enquanto esta caía. Contudo, parecia que Chastille recuperou a consciência em seguida e balançou a cabeça.
— E-Estou... B-Bem...
— Não, não está nada bem.
Olhando de perto, era fácil notar sangue escorrendo dos ouvidos de Chastille. Seus tímpanos podiam ter estourado.
— Barbatos, cuide do tratamento da Chastille. Rafael, você ainda consegue lutar, certo?
— Que pergunta tola! — Rafael rugiu. Parecia que ele havia escapado apenas com ferimentos leves graças à sua Armadura Ungida. Após um aceno afirmativo confiante, empunhou sua Espada Sagrada, pronto para o combate. Então, Zagan avançou outra vez contra o Lorde Demônio de Lodo, com Rafael ao seu lado.
— Eu... Não sou muito bom com magia de cura, sabe?
Barbatos resmungou enquanto se afastava da linha de frente para começar a tratar Chastille.
O Lorde Demônio de Lodo abriu a boca. Era evidente que planejava soltar outro “grito”.
— Não vou deixar! — Foll gritou enquanto o sopro de seu dragão perfurava o crânio da criatura. No entanto, o ataque de Foll não tinha poder suficiente para incinerar o lodo como uma Espada Sagrada ou o Fósforo Celestial fariam. Assim, o lodo disperso no ar mudou de direção e caiu sobre ela.
— Erk!
— Foll! — Zagan gritou quando um vento negro soprou diante da jovem dragão. E então...
— UOOOOOOOOOOOOOOOOOOH!
Como se respondesse ao “grito” à altura, um rugido de fera ecoou. O rugido gerou uma onda de choque que dispersou a chuva de lodo.
— Grrrrrr...
Era um leão enorme. Não era uma metáfora, tratava-se de uma fera majestosa que impulsionava seu corpo com as quatro patas contra o chão. E ele flutuava no ar, como se protegesse Foll. O leão negro então olhou para Foll com seus olhos dourados.
— Você está bem, querida filha de Sir Zagan?
— Kimaris?
A voz era inconfundivelmente a de Kimaris, a Lâmina Negra. Parecia que o leão era a sua forma original. E, sobre o dorso do leão, estava uma mulher voluptuosa empunhando uma foice enorme. Chifres que lembravam os de uma cabra despontavam de seus magníficos cabelos loiros.
— Keeheehee, parece que a feitiçaria não funciona, entretanto e quanto a este meu Olho Maligno de Balor?
O olho da bela mulher brilhou com um tom violeta sinistro e, de repente, o exterior do Lorde Demônio de Lodo foi tingido de cinzas.
— Um olho maligno que transforma tudo o que ve em cinzas?
Zagan já havia visto documentos descrevendo isto antes. Era uma habilidade que alguns fomorianos possuíam, distinta da feitiçaria. Nesse aspecto, assemelhava-se ao sopro de um dragão.
Foll piscou, surpresa.
— Quem é você?
— Ora, não nos cumprimentamos há pouco? Eu sou Gremory.
Ela tocou o queixo de Foll com o dedo enquanto exibia um sorriso enigmático. Gremory tinha uma aparência jovem que ninguém imaginaria, dada a sua forma anterior de uma velha senhora. Ainda assim, não havia dúvida de que aquela mulher era, de fato, a Encantadora Gremory.
— Vocês dois... — murmurou Zagan, confuso, e Gremory respondeu com um tom de escárnio.
— Parece... Que lhe dar uma mãozinha é a melhor opção, Zagan. Então, vamos participar dessa sua pequena luta aqui.
O leão negro então assentiu, concordando com Gremory.
— Basta tirarmos aquela garota elfa de lá, certo? Embora possamos não ter tanta habilidade, permita-nos cooperar com você. — afirmou Gremory. Então, acrescentando um “além disso”, ela brandiu sua grande foice no ar e continuou... — O jeito de agir do Bifrons me irrita. Adoraria arruinar os seus planos.
Nesse momento, os outros feiticeiros começaram a lançar ataques contra o Lorde Demônio de Lodo. Enquanto observava a cena, Barbatos terminou o tratamento de Chastille.
— Pronto... Você deve estar ouvindo as coisas, certo?
Chastille ergueu o olhar para o rosto pálido e doentio dele, chocada. Ao contrário do que esperava, ela havia sido realmente curada.
— P-Por que... Me salvou...?
— Não é óbvio? É porque não vou receber minha recompensa se você bater as botas.
Esses eram provavelmente os verdadeiros sentimentos dele sobre o assunto, mas Chastille baixou o olhar, parecendo envergonhada de si mesma.
— Eu talvez tenha... Te entendido um pouco mal. Pensei... Que fosse um homem muito mais desprezível.
— O quê? Todo feiticeiro não é assim? — disse Barbatos, com uma expressão confusa. Porém, Chastille balançou a cabeça enquanto se punha de pé.
— Já me recuperei o suficiente... Ah, e desculpe por ter lhe dado um tapa mais cedo.
— Hã?
Deixando para trás um Barbatos atônito, Chastille disparou em direção ao Lorde Demônio de Lodo. Quase todos os presentes agora lutavam ao lado de Zagan e o seguiam.
Contudo, isso ainda não era suficiente. Ainda que conseguissem impedir os movimentos do Lorde Demônio de Lodo, não tinham como destruí-lo. Não conseguiam sequer esmagar a parte do corpo que emergia da água. Seguiam sem saber como desferir o golpe fatal necessário.
***
Nephy carregava a garota sereia enquanto aguardava em um local atrás da linha de frente.
O que... Eu posso fazer...?
Zagan estava tentando realizar o desejo de Nephy de salvar Nephteros. No entanto, ele também havia dito que não conseguiria salvá-la sozinho. E perguntou se ela lutaria ao seu lado. Sabia que precisava lutar, tanto por Zagan quanto por si mesma... Infelizmente, não fazia ideia do que poderia fazer.
Não posso usar a feitiçaria que o Mestre Zagan me ensinou... Ficou claro para Nephy que a feitiçaria disparada pelos outros feiticeiros estava sendo engolida por aquela massa viscosa. E, como aparentemente era uma alta-elfa, sua capacidade de mana era vasta. Se sua feitiçaria fosse devorada, apenas atrapalharia Zagan e os outros.
— Então... O que devo fazer... — Nephy murmurou essas palavras enquanto a garota sereia começava a se mexer em seus braços. Parecia que havia acordado.
— H-Hã? O-O que está acontecendo?
Sem compreender a situação, a sereia começou a olhar freneticamente ao redor.
— Você está ferida em algum lugar? — Nephy perguntou, fazendo a garota empalidecer e começar a tremer.
— Eeek, sinto muito, por favor, me perdoe! Sou apenas uma cantora, não sei de nada!
Ao que parecia, Nephy aparentava estar brava, então tentou tocar a própria bochecha.
Entendo... Será que minha expressão está rígida demais...? Nephy se perguntou. As pessoas que teve a bênção de conhecer desde que encontrou Zagan conseguiam perceber o que pensava ou queria dizer. Por isso, achava que enfim conseguia fazer um sorriso adequado, entretanto parecia ter sido apenas imaginação sua. E, embora tenha ficado desanimada com ao notar, Nephy ainda tentou proteger a garota.
— Por favor, esconda-se atrás de mim. Você ainda não está segura.
— Hã...? Espere, hein, estamos voando?
Havia um círculo mágico aos pés de Nephy. À primeira vista, parecia apenas luz sem substância, contudo na verdade servia como uma plataforma de apoio útil. Se um tapete voador existisse, certamente seria essa a sensação. Era uma magia rudimentar, que não permitia livre movimentação, embora era um suporte que a própria Nephy havia conjurado.
A garota sereia baixou com cuidado os pés... Ou melhor, a cauda, e posicionou-se atrás de Nephy. Então, Nephy concentrou-se na batalha que se desenrolava. Como esperado, a presença mais poderosa era o punho de Zagan. Um único golpe seu arrancou o ombro do Lorde Demônio de Lodo, que se regenerou em seguida. Rafael, Chastille e todos os outros feiticeiros lançavam ataques, no entanto nenhum destes desferia um golpe decisivo.
Era possível que a mana do Lorde Demônio de Lodo acabasse em algum momento e sua regeneração cessasse, entretanto, a essa altura, Nephteros já estaria morta há muito tempo.
Depois de observar o espetáculo por um tempo, a garota sereia engoliu em seco, fazendo um ruído audível.
— Eeek... Aquelas pessoas... Estão lutando, né? Será que elas conseguem vencer?
— Elas vão vencer. É o Mestre Zagan... Então, com certeza.
O problema, todavia, era se havia algo que Nephy pudesse fazer. E, como se não suportasse mais ficar apenas assistindo, a garota sereia levantou a voz.
— Aguente firme! Aguente firme, Sr. Arquidemônio! Ah, será que seria melhor cantar? Ah, vejamos... Vai! Vai! Arqui-de-mô-nio!
— Cala a boca!
O rugido furioso de Zagan veio como resposta, fazendo com que a garota sereia perdesse a vontade de ajudar.
— Que maldade. E olha que eu só estava tentando torcer por ele...
— Não foi porque ele achou que cantar atrapalhava...?
— Mas... Sou uma cantora... Tudo o que sei fazer é cantar.
— Cantar... — Nephy sentiu algo se encaixar em sua mente ao repetir essa palavra.
A canção daquela garota... Possuía poder. Misticismo celestial... Era um poder antigo que o Arquidemônio Bifrons havia ressuscitado. Se aquele Arquidemônio estava dizendo a verdade, então deveria ser possível para Nephy usá-lo também.
Mas... Como? Se fosse tão simples quanto imitar a canção, Nephteros não teria caído. Também não teria havido necessidade de Bifrons passar várias centenas de anos pesquisando sobre isso.
A garota sereia olhou timidamente para Nephy, preocupada com o seu silêncio.
— Hmm... Será que eu... Disse algo errado agora há pouco?
— Não... Hmm, como é que se... Canta uma canção? Era isto que estava me perguntando.
Não havia como aquela garota lhe ensinar a usar o misticismo celestial. Porém, ao ouvir o murmúrio de Nephy, a garota sereia soltou uma risada alegre.
— É só isso? É simples.
— Hã...?
— Deixando de lado a parte técnica, o que importa no final são os seus sentimentos. Sejam seus desejos, suas aspirações ou qualquer outra coisa. De qualquer forma, precisa colocar seus sentimentos na canção para alcançar o coração dos outros... Basicamente, o que quero dizer é que, não importa quão boa seja a sua voz, sempre será medíocre se não colocar o coração em sua canção. — disse a garota sereia, então segurou a mão de Nephy e continuou. — Ele ficou bravo comigo mais cedo, contudo vamos cantar juntas e animá-lo! Lá vamos nós! Vai! Vai! Arquidemônio!
Ficava claro que a garota falava sem pensar muito. Contudo, Nephy encontrou a resposta naquelas palavras.
Colocar meu... Coração... Enquanto refletia sobre essas palavras, a imagem de Nephteros esgotando todo o seu poder e caindo do céu lhe veio à mente.
Parecia tão triste. Angustiada. E, acima de tudo, parecia nutrir a esperança de que alguém a salvasse.
Ela parecia... O Mestre Zagan quando o conheci... Ou talvez fosse mais adequado dizer que se parecia com a própria Nephy. Foi por essa razão que não conseguia deixá-la à própria sorte. Custe o que custasse, queria ajudá-la. Queria salvá-la. E, enquanto orava por esse desfecho, palavras começaram a fluir naturalmente de sua boca.
— [Tu és aquele que brilha como as estrelas. Aquele que abraça o equilíbrio e arbitra entre o bem e o mal.]
O corpo de Nephy foi envolto pela luz da poeira estelar enquanto flutuava no ar, tendo a lua às suas costas.
***
— Droga, não conseguimos romper! — Rafael desferiu um golpe descendente com sua Espada Sagrada enquanto soltava aquele grito. Não podia disparar a chama da purificação indefinidamente, a força da chama estava enfraquecendo aos poucos, fazendo com que começasse a ser empurrado para trás pelo lodo viscoso.
No entanto, Chastille... Que não era uma feiticeira e lutava usando apenas a própria força física parecia, de longe, a mais exausta.
— Chastille, recue logo!
— Se eu recuar, quem vai proteger as suas costas...? Argh!
O apoio sob os pés de Chastille cedeu bem quando proferia aquela declaração nobre. Eles lutavam sobre os destroços do navio, entretanto, sem que percebessem, o lodo havia avançado sobre aquelas superfícies.
— Cabeça de Cavalo! — Foll gritou ao içar Chastille para o alto, todavia o lodo se esticou como um tentáculo e as atacou. — Foll!
E, naquele exato momento...
— [Tu és aquele que brilha como as estrelas. Aquele que abraça o equilíbrio e arbitra entre o bem e o mal.]
Poeira estelar caiu do céu e perfurou o tentáculo.
Misticismo celestial?
Era o misticismo que Nephteros utilizava. Porém ela havia sido engolida. Sendo assim, quem estava entoando o cântico só podia ser...
— Nephy.
Aquela garota de alma pura cantava, iluminada pela lua brilhante às suas costas. Sua voz era límpida e, ao ouvi-la, Zagan sentiu-se convencido da conexão dela com Nephteros.
Entendo... Nephy e Nephteros podem, de fato, se parecer. Ele não estava falando da aparência física das duas. Pois a voz dela ressoava com sinceridade no seu coração, carregando a mesma melodia que a de sua contraparte sombria. Além do mais, a luz estelar que Nephy criava era capaz até mesmo de despedaçar o Lorde Demônio de Lodo.
Todas as peças... Estão no lugar. Zagan estava convencido de que conseguiriam romper as linhas inimigas agora.
— Chastille, Rafael, abram caminho! — Zagan gritou e saltou em direção ao inimigo. Em resposta, o Lorde Demônio de Lodo estendeu ambos os braços na tentativa de esmagá-lo.
— Brilhe... Espada Sagrada Azrael!
— Atenda ao meu chamado... Espada Sagrada Metatron!
Os dois Arcanjos posicionaram-se nos flancos de Zagan enquanto este avançava e pulverizava os tentáculos do Lorde Demônio de Lodo. Mesmo assim, a criatura abriu a boca para tentar soltar mais um grito.
— É inútil.
— Keeheehee, caia na ruína... Olho Maligno de Balor!
Foll disparou o sopro de dragão, e Gremory combinou seu olho maligno ao ataque. O crânio do Lorde Demônio de Lodo desfez-se em pedaços, revelando de repente a garota elfa negra que estava aprisionada em seu interior. Mas a regeneração do lodo seguia sendo rápida demais.
Impulsionando-se em pontos de apoio feitos de círculos mágicos, Zagan disparou pelo ar, contudo quando seu punho chegou ao alcance, o inimigo já havia se regenerado por completo.
— Por favor, suba!
Zagan foi levado enquanto aterrissava sobre uma camada de pelo macio.
— Kimaris?
— Vamos romper as linhas!
Entendo... Esta é, certamente, a Lâmina Negra.
O leão negro cortou o ar como uma rajada de vento, atropelando tudo à sua frente, voando direto em direção ao inimigo como uma flecha disparada. Ninguém conseguia deter aquela figura, que assumia uma aparência semelhante à de uma lâmina.
— [Ainda assim, o equilíbrio foi rompido. A ordem perdeu-se, e a terra tingiu-se de sangue. Em meio ao pesar, tu te lançarás aos céus.]
E, naquele exato momento, a poeira estelar de Nephy começou a cair em profusão. Quando isso aconteceu, partes do Lorde Demônio de Lodo se desfizeram, e a porção que cobria o corpo de Nephteros foi arrancada.
Como apenas a parte inferior do corpo dela estava presa, parecia que estava exposta o suficiente para ser libertada com apenas um pouco mais de esforço. Em outras palavras, o caminho estava totalmente livre. Então, Zagan fechou o punho direito.
— Reduza-se a cinzas... Fósforo Celestial!
Uma chama negra irrompeu de sua mão no momento em que desferiu um golpe contra o Lorde Demônio de Lodo. Nephteros estava soterrada outra vez no centro... Assim, a massa de lodo se abriu, como se estivesse sendo partida ao meio, enquanto a chama negra desviava habilidosamente do seu corpo.
— Ah...?
As orelhas de Nephteros tremularam de leve, e seus olhos dourados se abriram.
— Venha! — disse Zagan, estendendo a mão, contudo...
— Senhor Zagan, ainda não! — proclamou Kimaris, mordendo a gola da túnica de Zagan e puxando-o para trás. Logo em seguida, uma enxurrada de lodo jorrou do corpo de Nephteros.
Quer dizer que o corpo dela se tornou um receptáculo para o lodo? Ele deveria ter percebido isso apenas pelo fato de o lodo ter assumido a aparência de Nephteros, no entanto não estava raciocinando com clareza. Por sorte, graças a Kimaris, Zagan conseguiu escapar da investida do lodo, entretanto o corpo da garota estava sendo soterrado pela substância mais uma vez.
Lágrimas de um negro profundo começaram a cair dos olhos de Nephteros, e o lodo avançava até mesmo sobre aquelas pequenas gotas.
— Uh... Ah... So... Cor... Ro... — Nephteros soltou um gemido doloroso. Mesmo naquela situação, parecia que seu ego permanecia intacto.
Kimaris então murmurou com voz grave.
— Senhor Zagan, embora eu sinta pena dela, aquela garota já está...
Teria sido possível salvá-la se estivesse sendo dominada apenas por forças externas, todavia não conhecia nenhuma maneira de expelir tudo o que havia dentro de seu corpo.
Mas, se fosse a Nephy, será que eu conseguiria abandoná-la?
A resposta era, obviamente, não. Não havia dúvida de que usaria tudo o que fosse necessário... Seu corpo, alma, sabedoria e poder mágico... Para salvá-la. Aquela garota não era a Nephy. Não era a Nephy, porém era semelhante, e era uma garota que Nephy desejava de todo o coração salvar. E era por isso que não podia apenas abandoná-la.
— Kimaris. Você já fez o suficiente. Sinta-se à vontade para fugir agora.
— Hã..?
— Um homem que não consegue nem atender ao desejo de sua noiva... Não é digno de se chamar de Arquidemônio! — Zagan declarou enquanto avançava contra o Lorde Demônio de Lodo e fechava o punho.
— Mais uma vez... Fósforo Celestial!
Chamas negras explodiram e despedaçaram o lodo que envolvia o corpo da garota. Já havia chegado àquele ponto antes, então estava na mesma situação difícil, incapaz de impedir que o lodo continuasse a jorrar do corpo de Nephteros.
— Não adianta. É a mesma coisa que... — Kimaris murmurou com pesar. Porém Zagan apenas fechou o punho esquerdo em resposta.
— Perfure... Fósforo Celestial!
O plano de Zagan envolvia um ataque duplo usando o Fósforo Celestial. Seu punho esquerdo atingiu o alvo pretendido, perfurando impiedosamente o peito de Nephteros.
Alguém engoliu em seco e soltou um grito abafado ao ver a cena.
— Hak...
Os olhos dourados de Nephteros se arregalaram, e cuspiu o que parecia ser sangue negro. A mão de Zagan atravessava suas costas, segurando o que parecia ser uma massa negra de carne. A massa pulsava como se estivesse viva e até lembrava um coração.
Então, este... É o seu verdadeiro corpo? Tentáculos estenderam-se daquela massa de carne como veias e começaram a subir pelo braço de Zagan.
— Que teimosia... — Zagan praguejou enquanto a massa negra de carne se transformava em cinzas e se desfazia. E então, como uma marionete cujos fios foram cortados, Nephteros perdeu todas as forças do corpo. Apesar disso, no entanto, o lodo viscoso sob ele não desapareceu.
Tendo perdido Nephteros, a substância já não conseguia manter a forma humana e espalhava-se pelo lago como lama imunda. Se fosse deixada como estava, certamente engoliria o porto próximo ao amanhecer. Entretanto, Zagan já não lhe dava mais atenção.
— [As luzes dos céus são todas estrelas. Tudo o que brilha por toda parte despenca em uma conflagração. Sem compaixão, sem pesar, sem medo e sem sofrimento. Esta é a prece de perdão]... Astraea Ekrixis!
A luz do misticismo celestial que Nephy teceu submergiu a lama repugnante. Não houve explosões violentas nem nada do gênero. Em vez disso, um pilar de luz ergueu-se em direção ao céu enquanto incinerava aquela imundície pútrida.
Quando a luz se dissipou, tudo o que restou foi o lago tranquilo abaixo deles. E, dessa forma, os vestígios do Lorde Demônio que o Arquidemônio Bifrons havia despertado desapareceram para sempre.
***
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