Primeira Temporada — Capítulo 25: Escurecendo
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte e Cinco: Escurecendo
JONATHAN SIMS
Depoimento de Mark Bilham, a respeito dos eventos que culminaram em sua visita à Capela de Hither Green. Depoimento original prestado em 9 de abril de 2015. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Vamos esclarecer uma coisa agora. Não acho que eu deveria estar aqui. O que aconteceu foi muito estranho e tenho certeza de que foi ilegal, mas não pode ter sido realmente sobrenatural, tipo fantasmas e essas coisas. Isso não é real. Sem ofensas, eu acho. Só estou aqui porque contei à Kathy o que aconteceu e ela insistiu que eu contasse ao seu Instituto. Ela é mais aberta pra esse tipo de coisa do que eu. Talvez seja por isso que ela escolheu viver com a Natalie.
Desculpa, eu devia começar do começo. Kathy é minha namorada. Katherine Harper. Estamos namorando há cerca de um ano e meio. Ela se formou no ano passado, porém eu estou cursando medicina, então não vou sair de Londres por mais alguns anos. Ela conseguiu um emprego como professora estagiária em East Ham, então acabou ficando também. Devo admitir que fico feliz com isso, não tenho certeza se me daria bem em um relacionamento à distância. Enfim, o plano inicial era irmos morar juntos mais cedo, contudo as coisas não saíram como planejado e isso foi antes de ela conseguir o emprego, então ela teve que voltar a morar com os pais por um tempo. Resumindo, eu tive que dividir uma casa com alguns outros estudantes de medicina, e ela veio pra cá depois, indo morar com Natalie Ennis.
Não sei onde Kathy a conheceu, elas sempre foram amigas, no entanto acho que ela não estava na mesma faculdade que a gente. Ela nunca mencionou se estava. Kathy cresceu em Londres, então talvez elas fossem amigas da escola ou algo assim. Ela parecia legal, quando a conheci. Quieta, mas legal. Ela era muito séria, no entanto. Não sei se algum dia eu realmente a ouvi rir. Talvez ela simplesmente não achasse as minhas piadas engraçadas, vai saber. Ela também era religiosa. Nunca tive muito tempo para Deus, e a Kathy também não. É por isso que eu fiquei meio surpreso na primeira vez que visitei a nova casa dela e encontrei um versículo da Bíblia emoldurado na parede. Não consigo me lembrar qual era. Algo sobre Jesus e fé, eu não sei muito sobre a Bíblia. Kathy disse que era de Natalie. Ela não se importou em colocar aquilo na sala de estar. A Kathy é legal assim mesmo, sabe? Só deixando as pessoas serem elas mesmas.
Eu e a Natalie... Não nos dávamos bem. Não sei se você percebeu, a gente não se odiava nem nada assim, só... Não tínhamos nada em comum. Ela não assistia TV ou filmes, e eu não sabia nada sobre crochê, política ou Deus, que eram praticamente seus únicos interesses. A Kathy sempre tentava convencê-la a sair conosco, e ela simplesmente dizia não, o que estava bom para mim. Ela sempre parecia bem feliz, entretanto, enganchando fios no que quer que estivesse tricotando na época, lendo algum livro chato sobre a história política do gorro ou algo assim.
Isso mudou no outubro passado, quando a mãe da Natalie morreu. Não sei exatamente como aconteceu... Insuficiência cardíaca, eu acho. Foi repentino, disso eu sei, e acabou com ela. Quer dizer, obviamente sim, era a mãe dela, mas eu acho... Acho que ela perdeu a fé. O versículo da Bíblia não estava na parede na próxima vez que eu fui lá, e quando perguntei à Kathy sobre isso, ela me olhou como se eu não devesse tocar no assunto. Não vi muito a Natalie depois disso. Ela ainda estava por lá, às vezes eu a via indo até a cozinha para pegar comida ou chá ou algo assim, porém fora isso ela apenas ficava em seu quarto.
Até aqui, tudo certo, né? Você perde sua mãe e isso acaba com você. Aquele mês foi triste, contudo não é sobre isso que a Kathy queria que eu conversasse com vocês. Não... Foi o que aconteceu depois. Foi depois que a Natalie encontrou sua nova igreja. Foi a Kathy quem me contou. Isso deve ter acontecido cerca de dois meses depois que a mãe da Natalie morreu. Eu devo ter perguntado como ela estava, se ela estava se sentindo melhor. Kathy disse que sim, ela estava... Aparentemente, ela havia encontrado uma nova congregação e parecia estar encontrando algum conforto lá. Ela não estava mais chorando tanto à noite, disse Kathy, e não ficava mais tão irritada quando ela tentava conversar. Percebi que o versículo da Bíblia não havia voltado pra parede, no entanto.
Achei que se ela estivesse melhor, eu provavelmente veria a Natalie mais frequentemente enquanto eu estivesse com a Kathy, no entanto na verdade ela desapareceu completamente. Ela nunca parecia estar quando eu ia pra lá. Eu a via sair à noite e voltar para casa de manhã cedo, quando o céu estava começando a clarear. Ela ia direto para o quarto, nos ignorando completamente. Uma vez, quando eu perguntei a ela onde ela tinha ido, ela só respondeu “igreja”. Eu fiz mais algumas perguntas, entretanto ela me encarou daquele jeito estranho até eu me apavorar e sair da sala. Eu brinquei com a Kathy que sua colega de apartamento estava se transformando em uma vampira, todavia em vez de rir ela apenas ficou na defensiva e disse que a Natalie não poderia ser uma vampira. Então ela começou a listar todas as vezes que viu ela sob a luz do sol antes de se mandar. Acho que nós dois percebemos como seria complicado listar o número de vezes que ela vira a Natalie à luz do dia.
Outras coisas estranhas também começaram a acontecer no apartamento. As lâmpadas não paravam de piscar, pra começo de conversa. Bom, isso não é completamente verdade. Sempre parecia que quando entrávamos depois de escurecer, tentávamos acender as luzes e, bom, nada acontecia. No começo a gente só jogou as lâmpadas velhas fora e as substituímos, mas isso continuava acontecendo. Verificamos os fusíveis, os soquetes, Kathy até ligou pro proprietário para chamar alguém pra verificar a fiação, embora tudo parecesse normal. As luzes continuavam não funcionando, no entanto. Aí eu tive uma ideia. Da próxima vez que aconteceu, em vez de trocar a lâmpada, eu apenas dei uma rosqueada. E, simples assim, ela voltou a acender. Na primeira vez que isso aconteceu, fiquei tão surpreso que quase caí da cadeira em que eu estava. As lâmpadas não estavam quebrando, alguém as estava desenroscando. Não muito, não o suficiente para que pudéssemos perceber, só o suficiente para que elas não funcionassem. Eu digo que “alguém” estava fazendo isso, porém só podia ter sido uma pessoa. Por algum motivo, Natalie estava desenroscando todas as lâmpadas do apartamento sempre que podia.
Foi então que a Kathy começou a parecer muito cansada. Ela não parava de cochilar quando saíamos para jantar e costumava se distrair quando estávamos assistindo TV. Eu perguntei a ela sobre isso, contudo ela só ignorava e dizia que não andava dormido bem. Foi só quando ela ficou tão cansada que quase saiu na frente de um carro enquanto estava atravessando a rua que eu finalmente consegui fazê-la me contar o que estava acontecendo. Ela disse que a Natalie começou a ficar em casa durante a noite, no entanto ela era tão barulhenta que não a deixava dormir. Natalie ficava vagando pela sala e cantando em um idioma que Kathy não conhecia, e a melodia era tão dissonante que a fazia estremecer. Natalie parava de cantar se ela fosse para a sala, entretanto aí ela só ia para o próprio quarto e a música começava novamente.
Kathy até disse que mesmo quando a Natalie saía, sempre à noite, ainda ouvia barulhos de movimento vindos de quarto dela. Barulhos, batidas e, ocasionalmente, o som de algo sendo jogado no chão. Ela tinha chegado perto de abrir a porta várias vezes, mas nunca arrumava coragem pra fazer isso. Parecia ficar mais alto quando ela estava tentando dormir, e uma vez ela pensou que tinha mudado pra sala de estar, porém não saiu para verificar. Então, não, a Kathy não estava dormindo muito. Ela começou a ficar bastante na minha casa, já que ela disse que simplesmente não aguentava morar sozinha com a Natalie.
Uma noite, ela apareceu na minha casa com lágrimas nos olhos. Eu a levei para o meu quarto e a sentei na cama. Ela me encarou por alguns segundos e eu estava prestes a perguntar o que havia de errado quando ela começou a falar. Ela disse que a Natalie tentou “convertê-la”. Ela tinha ido ao quarto da Kathy mais cedo naquela noite, bateu na porta, muito educada, parecia mais animada do que nunca desde a morte de sua mãe, e perguntou se a Kathy queria jantar e conversar. Bom, obviamente, Kathy estava há meses querendo conversar sobre se mudar, contudo nunca estava num bom momento, então ela agarrou a chance.
A sala de jantar estava escura. Natalie deve ter desenroscado a lâmpada de novo porque o interruptor não fez nada. Pequenas frestas da luz do luar que entravam pelas cortinas forneciam luz suficiente para ver a mesa e duas tigelas em cada extremidade. Natalie sentou-se em uma ponta e acenou para Kathy sentar na outra. Kathy queria fugir, no entanto... Não sabia bem como. Ela disse que pareceria... Rude. Então ela se sentou e tentou comer o que a Natalie havia preparado. Ela achava que parecia ser espinafre, embora se fosse, deve ter sido fervido por muito tempo e tudo o que restava era uma papa pegajosa e mole. Estava frio como pedra, e ela mal conseguiu comer duas garfadas antes de começar a gorfar; era tão viscoso. Ela empurrou o prato o mais delicadamente possível. Ela disse que Natalie apenas assistia, nem mesmo olhando para sua própria tigela.
Por fim, Kathy conseguiu reunir coragem para falar e disse que queria se mudar. Houve silêncio por um longo momento, e então Natalie disse que ela também queria. Admito que suspirei de alívio quando Kathy disse isso, todavia ela balançou a cabeça e continuou. Natalie começou a falar, muito mais do que ela tinha falado nos últimos tempos. Ela disse que precisava se mudar, que tinha uma nova casa para onde ir, uma nova família. Ela disse que todos eles iriam, que 300 anos era muito tempo para esperar, mas ela teve sorte de tê-los encontrado tão perto do fim. Ela disse que não demoraria muito até que eles fossem coletados pelo Sr. Pitch. Ela disse que a Kathy podia ir também, se ela quisesse. Ela podia ser salva.
Foi nesse ponto que a Kathy percebeu que Natalie estava falando sobre a “igreja” dela. Ela ficou... Muito assustada e se levantou, agradecendo à Natalie e dizendo que não era muito adepta ao cristianismo. E Natalie riu disso. Riu muito e por um longo tempo, nunca quebrando o contato visual. Ela disse: “Não, mas você nasceu para Eles. Você está cultuando enquanto conversamos.” Foi nesse momento que Kathy correu e veio pra minha casa. Natalie não tentou impedi-la.
Nesse ponto, eu já estava muito puto. Se a Natalie queria entrar pra algum culto estranho, e agora nós dois tínhamos certeza de que era isso, aquilo era problema seu, porém estava assustando a Kathy. Não tinha como eu deixar aquilo passar. Eu disse que estava indo ao apartamento dela e que ia conversar com a Natalie. Não sei o que eu pretendia fazer, quer dizer, eu não ia bater nela nem nada; eu só precisava deixar claro que você não pode simplesmente ferrar com a vida das pessoas assim. Kathy me disse para não ir, contudo não estava em condições de me impedir. Entrei no carro e comecei a dirigir.
Era uma noite nublada e, sem a lua, as ruas estavam escuras. As lâmpadas na estrada pareciam opacas, e até mesmo os meus faróis não iam tão longe quanto eu achava que deveriam ir. Não era longe até a pequena casa. Eu não esperava que nenhuma luz estivesse acesa, no entanto a escuridão silenciosa do lugar ainda causava arrepios na minha espinha. Eu tinha uma chave da porta, então eu entrei. Eu peguei uma lanterna do meu carro e, pra variar, as luzes não estavam acendendo. O corredor estava silencioso, entretanto eu estava com os nervos à flor da pele e comecei a olhar um cômodo de cada vez. Nada. Não havia nenhum sinal da Natalie.
Eu fiquei lá, em frente ao quarto dela. Ele tinha apenas uma porta corta-fogo normal de madeira, todavia minha mão ainda hesitou quando a estiquei para abrir. Eu sabia que estava vazio, àquela altura eu tinha certeza de que ela não estava em casa. Ainda assim, eu estava começando a sentir aquele medo que a Kathy tinha descrito, e vi que a minha mão tremia. Tentei ignorar, cerrei os dentes e abri a porta.
O quarto estava vazio, como eu imaginava. Mas não só porque Natalie não estava lá, ele estava completamente vazio. Sem mobília, sem pertences, nada. O carpete havia sido arrancado, deixando as tábuas descobertas do piso expostas, e o papel de parede tinha sido retirado. Tudo aquilo tinha sido juntado e pregado contra a única janela do quarto, deixando-a completamente coberta. Nenhuma luz de fora entrava, e a lanterna era a única razão pela qual eu ainda conseguia enxergar. Comecei a olhar em volta em busca de qualquer pista do que Natalie estava fazendo ou de onde ela estava.
No canto, meio jogado entre as tábuas, avistei um pedaço de papel. Era pequeno e grosso e parecia ter algo escrito nele. Ao pegá-lo, eu pude ver quatro palavras: Dissidentes de Hither Green. O outro lado tinha uma espécie de símbolo, feito com uma caneta hidrocor grossa: uma linha curva, com quatro linhas retas saindo de um lado dela. Como um olho fechado. Eu guardei o papel, e o seu Instituto pode ficar com ele, se vocês quiserem. Não é como se a polícia estivesse interessada nisso.
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| Arte por @m4rthe. |
Liguei para Kathy para contar o que eu havia encontrado. Ela estava preocupada comigo, mas também com a Natalie. Seja lá o que fosse essa igreja estranha à qual ela se juntou, acho que nós dois concordamos que poderia fazer mal ela. Muito mal. Kathy queria ligar para a polícia, porém eu disse a ela que aquilo não era o suficiente para ser considerado um crime. Ainda não. Eu disse a ela que continuaria procurando. Eu posso ter mentido, pra ser sincero, e dito que só iria dar mais uma olhada pela casa, contudo... Bom, eu pesquisei sobre Dissidentes de Hither Green e parecia haver uma antiga capela abandonada, a Capela dos Dissidentes de Hither Green, em um cemitério perto de Lewisham. Eu tinha decidido que precisava dar uma olhada. Não faço ideia do que eu esperava encontrar. O suficiente para chamar a polícia, eu acho.
Agora já passava da meia-noite; o caminho não era muito difícil. Ainda havia aquela densidade no ar, uma escuridão pesada que amortecia toda a luz. Como se alguém tivesse diminuído o brilho em Londres. Encontrei uma vaga de estacionamento não muito longe do Cemitério de Hither Green e comecei a andar em sua direção. Os portões de ferro estavam totalmente abertos, então eu entrei.
O cemitério em si não era tão ruim quanto eu esperava. Até que parecia bastante tranquilo. A escuridão caía bem nele, e as lápides permaneciam silenciosas e firmes. Eu andei ao longo do caminho, até que minha lanterna iluminou um pequeno prédio. A capela. Era minúscula, cercada por uma cerca temporária que parecia já estar lá por tempo suficiente para ter se tornado permanente. Tinha um único campanário pontudo, e as janelas eram cobertas com tábuas velhas que pareciam ter sofrido com a chuva. Tinha apenas uma única passagem, um par de portas fixadas na entrada.
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| Arte por Important Business Dinosaur. |
Eu não deveria ter entrado... É claro que eu não deveria ter entrado. Eu não sou tão idiota assim, eu nunca fui tão idiota assim. Entretanto, por alguma razão, parado naquele cemitério escuro e vazio, eu decidi dar uma olhada lá dentro.
Foi fácil passar pelas barreiras. Eu ainda estava com a minha lanterna, mas ela não iluminava muito lá dentro. Eu entrei devagar, jogando a minha luz sobre tudo, apenas no caso de ter uns cultistas malucos encapuzados esperando para pular em mim, porém havia apenas bancos velhos e quebrados, garrafas descartadas e pontas de cigarro, os resíduos normais que qualquer prédio abandonado acumula.
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| Arte por kazoosnow. |
Eu estava prestes a me virar e sair quando a minha lanterna apagou.
Imediatamente fui jogado na escuridão completa. Nenhuma luz entrava pela porta, eu não conseguia nem ver onde a porta estava, tudo ao meu redor estava escuro como breu. Tentei fazer com que a lanterna acendesse de novo, girando a lâmpada e batendo nela, já entrando em pânico. Tentei tirar as pilhas e colocá-las de volta, contudo não conseguia ver nada e acabei me atrapalhando e deixando elas caírem. Me ajoelhei e tentei tatear para encontrá-las, no entanto o chão parecia... Estranho. Eu não prestei muita atenção nisso quando entrei, entretanto o chão estava lascado, empoeirado e coberto com uma camada de lixo, todavia... Quando comecei a tatear em busca das pilhas, ele parecia suave, limpo e muito frio, como mármore ou algo assim.
Gritei por ajuda, mas minha voz apenas ecoou no silêncio. Aí a cantoria começou. Parecia haver dezenas de vozes, porém elas não cantavam direito juntas. Alguns cantavam muito alto e outros tão baixo que faziam meus dentes doerem. As palavras estavam em algum outro idioma, contudo lembro que eles continuavam se juntando nas palavras “Nee-allisand” ou “allisunt”, eu acho. Eu estava surtando, então me levantei e comecei a andar para frente o mais rápido que eu podia, minhas mãos esticadas à minha frente no caso de eu bater em alguma coisa. A capela não podia ter mais de dez metros de comprimento e talvez seis de largura, no entanto caminhei por bem mais de um minuto sem bater em nada. Eu apenas cambaleei na escuridão completa, com aquela cantoria horrível pra todo lado. Em algum momento eu sinceramente pensei que tinha morrido e ido para o inferno.
Finalmente, meus dedos roçaram em algo. Estava frio como o chão, mas áspero. Parecia metal enferrujado. Tiras finas de metal enferrujado em um padrão cruzado, com pequenos espaços entre elas. Pelo menos, era isso que parecia. Não segurei elas por muito tempo, porque quando minhas mãos repousaram ali, eu senti... Dedos se estenderem pelos buracos e tentarem me agarrar. Eu não conseguia vê-los, embora eles pareciam endurecidos enquanto roçavam na minha pele.
Eu gritei e pulei para trás, caindo no chão e, ao fazer isso, senti algo duro me cutucar no quadril. Meu celular. Com tudo que aconteceu, eu tinha esquecido dele. Eu o peguei e apertei o botão e a tela se iluminou, fraca e quase invisível, porém comecei a chorar como se fosse a primeira luz que eu visse em meses. Ela não iluminou mais nada, contudo quando o canto começou a crescer, fui desesperadamente para a função da lanterna e a acendi. E ela acendeu em um súbito lampejo de brilho e a cantoria parou.
No silêncio, lancei a lanterna improvisada à minha frente e vi um banco quebrado. O chão estava mais uma vez coberto de lixo e eu podia ver a porta atrás de mim, que dava para a noite. Eu corri, ligando primeiro para Kathy e depois para a polícia.
Eles não encontraram nada, é claro. Eles me deram uma bronca sobre invasão de propriedade e registraram um relatório de desaparecimento sobre a Natalie. Nada foi encontrado e, até onde eu sei, ela ainda está desaparecida. Não contei à Kathy exatamente o que aconteceu por algumas semanas, no entanto quando enfim a contei, ela me fez vir aqui e falar com vocês.
Acho que isso é tudo. Posso ir agora?
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
A última parte, evidentemente, é a que incita o meu ceticismo, mas vamos deixar isso de lado por agora e discutir os outros detalhes. Sasha confirmou que Natalie Ennis foi dada como desaparecida pelo Sr. Bilham em 11 de março de 2015. Não houve pistas sobre a localização dela além do pedaço de papel mencionado no depoimento, e nenhum vestígio de qualquer igreja ou culto foi encontrado dentro da Capela de Hither Green ou no cemitério ao redor dela. Quando entramos em contato com o Sr. Bilham e a Sra. Harper para fazer um acompanhamento, nenhum deles teve notícias dela no ano seguinte, nem tinham nada a acrescentar ao depoimento.
O símbolo no pedaço de papel realmente lembra um olho fechado estilizado, e há muitos outros paralelos com o depoimento 0020312 para me fazer suspeitar... E é só uma suspeita, por enquanto... Que a Igreja Popular da Hóstia Divina ainda exista. Também digno de nota, as palavras “Ny Alesund”. Não sei ao certo se o Sr. Bilham se lembrava delas corretamente, porém Tim apontou que Ny-Ålesund é na verdade uma pequena cidade na Noruega. Na verdade, com exceção de instalações de pesquisa, ela é o povoado humano mais ao norte da Terra, localizado a uma latitude norte de 78°55′30″. É uma cidade empresarial, que pertence e é operada por Outer Bay, mas o que isso tem a ver com o relato do Sr. Bilham ninguém sabe. Supondo que isso não seja tudo coincidência. Essa distância ao norte... Durante o inverno... As noites podem durar por um bom tempo.
Martin encontrou outra coisa enquanto vasculhava os relatórios policiais sobre área de Hither Green. Cerca de um mês após o depoimento, em 15 de maio de 2015, a polícia foi chamada para investigar novamente a capela. Os vizinhos aparentemente ouviram gritos vindos de dentro pouco depois das 11 da noite, mas quando os policiais chegaram, não encontraram nada que indicasse qualquer tipo de incidente ou crime. Eu adoraria ignorar isso... Se não fosse pelo fato de que, de acordo com o arquivo oficial, 15 de maio de 2015 foi o dia em que Gertrude Robinson, minha antecessora, faleceu.
Fim da gravação.
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