sábado, 1 de agosto de 2026

Stone of Farewell — Volume 01 — Capítulo 00

Capítulo 00: Prólogo


Nota do Autor

... De todas as muitas coisas mutáveis

Em uma sombria dança que passou por nós, girando,
Ao compasso da entrecortada melodia de Cronos,

Somente as palavras guardam algum valor.

Onde estão agora os reis em guerra?

Zombadores de palavras? Pela Cruz!

Onde estão agora os reis em guerra?

Uma palavra vã é agora a sua glória,

Diz o estudante gago,

Lendo alguma história intrincada:

Os reis de antes estão mortos;

A própria Terra errante pode ser

Apenas uma palavra flamejante repentina,

No espaço clangoroso,

Ouvida por um instante, perturbando o devaneio infinito.


— WILLIAM BUTLER YEATS
(de A Canção do Pastor Feliz)



Sou grato a Eva Cumming, Nancy Deming-Williams, Paul Hudspeth, Peter Stampfel e Doug Werner, que contribuíram para a elaboração deste livro. Seus comentários e sugestões perspicazes criaram raízes... Em alguns casos, produzindo flores surpreendentes. Também, e como sempre, agradeço especialmente às minhas corajosas editoras, Betsy Wollheim e Sheila Gilbert, que trabalharam arduamente em meio a tempestades e dificuldades.

(Aliás, todos os mencionados acima são exatamente o tipo de gente que eu gostaria de ter ao meu lado se algum dia fosse emboscado por nornas. Isso pode ser interpretado como uma honra um tanto duvidosa, mas é um privilégio que me cabe conceder.)



Este livro é dedicado à minha mãe, Barbara Jean Evans, que me infundiu uma profunda afeição por Toad Hall, Bosques dos Cem Acres e do Condado, e muitos outros lugares e países escondidos além dos campos que conhecemos. Ela também induziu em mim um desejo inesgotável de fazer minhas próprias descobertas e compartilhá-las com os outros. Desejo compartilhar este livro com ela.



Prólogo

O vento cortava as ameias vazias, uivando como mil almas condenadas que imploravam por misericórdia. O Irmão Hengfisk, apesar do frio cortante que lhe roubara o ar dos pulmões... Outrora fortes... E fizera a pele de seu rosto e de suas mãos murchar e descamar, sentia um certo prazer sombrio naquele som.

“Sim, é assim que todos eles soarão, toda a multidão de pecadores que zombou da mensagem da Mãe Igreja... Incluindo, por desgraça, os menos rigorosos de seus irmãos hoderundianos. Como clamarão diante da justa ira de Deus, implorando por misericórdia, quando já for tarde demais...”

Ele bateu o joelho com violência contra uma pedra desprendida de um muro e tombou para a frente na neve, soltando um ganido enquanto seus lábios rachados se abriam. O monge ficou sentado, choramingando por um momento, mas a picada dolorosa das lágrimas congelando em sua bochecha forçou-o a se levantar. Seguiu avançando mancando.

A estrada principal que subia pela cidade de Naglimund em direção ao castelo estava repleta de montes de neve trazidos pelo vento. As casas e tendas de ambos os lados haviam quase desaparecido sob um manto sufocante de um branco mortal; porém mesmo as construções ainda não cobertas estavam tão vazias quanto os esqueletos de animais mortos há muito tempo. Não havia nada na estrada, exceto Hengfisk e a neve.

À medida que o vento mudava de direção, o assobio das ameias sulcadas no topo da colina tornava-se mais agudo. O monge estreitou os olhos saltados para as muralhas e, em seguida, baixou a cabeça. Caminhava com dificuldade pela tarde cinzenta; o estalo de seus passos era como uma batida de tambor quase silenciosa, acompanhando o uivo estridente do vento.

“Não é de admirar que os habitantes da cidade tenham fugido para a fortaleza.” pensou, tremendo. Ao seu redor, escancaravam-se as bocas negras e grotescas de telhados e paredes arrombados pelo peso da neve. Contudo dentro do castelo, sob a proteção da pedra e das grandes vigas de madeira, lá eles deviam estar seguros. Fogueiras estariam acesas, e rostos vermelhos e alegres... Rostos de pecadores, lembrou-se com desprezo... Rostos de pecadores condenados e insensatos... Se reuniriam ao seu redor e se maravilhariam por ter percorrido todo aquele caminho através da tempestade monstruosa.

“É o mês de juven, não é?”

Será que sua memória havia sofrido tanto a ponto de não conseguir se lembrar do mês?

No entanto é claro que era. Duas luas cheias atrás, era primavera, um pouco fria, talvez, embora isso não fosse nada para um homem de Rimmersgardia como Hengfisk, criado no frio do norte. Não, o estranho, é claro, era justamente o fato de estar fazendo um frio mortal, com gelo e neve voando, em juven... O primeiro mês do verão.

O Irmão Langrian não havia se recusado a deixar a abadia? E isto depois de tudo o que Hengfisk fizera para cuidar de sua recuperação.

— É mais do que mau tempo, Irmão. — dissera Langrian. — É uma maldição sobre toda a criação de Deus. É o Dia da Pesagem Final chegando em nossa própria época.

Ah, isso era bem o que Langrian merecia. Se queria ficar nas ruínas queimadas da abadia de São Hoderund, comendo frutas silvestres e coisas do tipo... E quanta fruta haveria, afinal, num frio tão fora de época? Então que fizesse o que bem entendesse. O Irmão Hengfisk não era tolo. Naglimund era o lugar para onde ir. O velho Bispo Anodis acolheria Hengfisk. O Bispo admiraria o olhar perspicaz do monge sobre o que vira, as histórias que Hengfisk poderia contar a respeito do que acontecera na abadia e do clima atípico. O povo de Naglimund o receberia, lhe daria comida, faria perguntas, deixariam que se sentasse diante de sua fogueira acolhedora...

“Todavia eles deviam saber sobre o frio, não é?” Hengfisk pensou de forma entorpecida enquanto puxava para mais perto de si a túnica, que estalava com o gelo. Estava agora bem à sombra da muralha. O mundo branco que conhecera por tantos dias e semanas parecia ter chegado ao fim, a um precipício que desaparecia num vazio de pedra. “Quer dizer, eles deviam saber sobre a neve e tudo o mais. Era por essa razão que todos haviam deixado a cidade e se mudado para a fortaleza. Será esse clima maldito, amaldiçoado por demônios, que mantém as sentinelas longe das muralhas? Era, não era?”

O monge ficou de pé e examinou, com um interesse febril, a pilha de escombros cobertos de neve que fora o portão principal de Naglimund. Os enormes pilares e as pedras maciças estavam carbonizados e negros sob os montes de neve. A abertura na muralha arqueada era grande o suficiente para acomodar vinte Hengfisks lado a lado, ombro contra ombro... Ombros ossudos e trêmulos.

“Veja só como deixaram as coisas chegarem a esse ponto. Ah, eles gritarão quando o julgamento chegar; gritarão e implorarão, sem qualquer chance de reparação. Tudo foi deixado ao abandono... O portão, a cidade, o clima.”

Alguém precisava ser açoitado por tamanha negligência. Sem dúvida, o Bispo Anodis tinha muito trabalho para manter na linha um rebanho tão indisciplinado. Hengfisk ficaria mais do que feliz em ajudar aquele bom e velho homem a cuidar de gente tão relapsa. Primeiro, uma fogueira e comida quente. Depois, um pouco de disciplina monástica. As coisas logo seriam postas em ordem...

Hengfisk caminhou com cuidado por entre os postes estilhaçados e as pedras cobertas de branco.

O fato era, o monge percebeu pouco a pouco que, de certa forma, aquilo era... Belo. Além do portão, tudo estava coberto por uma delicada trama de gelo, como véus de renda feitos de teia de aranha. O sol poente adornava as torres cobertas de geada e as muralhas e pátios incrustados de gelo com regatos de fogo pálido.

O uivo do vento era um pouco mais fraco ali, dentro das ameias. Hengfisk permaneceu imóvel por um longo tempo, desconcertado pelo silêncio inesperado. À medida que o sol fraco se escondia atrás das muralhas, o gelo escurecia. Sombras de um violeta profundo surgiam nos cantos do pátio, estendendo-se lateralmente pelas faces das torres em ruínas. O vento amainou, transformando-se num sibilo felino, e o monge de olhos esbugalhados baixou a cabeça, tomado por uma compreensão entorpecente.

Deserta. Naglimund estava vazia; não restara uma única alma para saudar um viajante atordoado pela neve. Percorrera léguas através da vastidão branca assolada pela tempestade para chegar a um lugar tão morto e mudo quanto a pedra.

“Mas...” perguntou-se de repente. “Se é assim... Então o que são aquelas luzes azuis que tremeluzem nas janelas das torres?”

E quem eram aquelas figuras que se aproximavam dele através dos escombros do pátio, movendo-se sobre as pedras geladas com a mesma graça de plumas de cardo levadas pelo vento?

Seu coração disparou. A princípio, ao ver seus rostos belos e frios e seus cabelos claros, Hengfisk pensou que fossem anjos. Então, ao notar o brilho sinistro em seus olhos negros e seus sorrisos, ele se virou, tropeçando, e tentou fugir.



***



As Nornas o capturaram sem esforço e o levaram de volta consigo para as profundezas do castelo desolado, sob as torres sombrias e cobertas de gelo e as luzes que cintilavam incessantemente. E, quando os novos senhores de Naglimund lhe sussurraram com suas vozes musicais e misteriosas, seus gritos, por algum tempo, sobrepujaram até mesmo o uivo do vento.


***

Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair

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