Capítulo 16: Naturalmente, qualquer Arquidemônio teria uma personalidade horrível
A princípio, Nephy pensou ter perdido a consciência, pois uma onda de tontura a invadiu e sua visão ficou branca. No entanto, logo percebeu que estava enganada. A voz de Zagan ecoou, chamando-a em meio àquela névoa branca e pura.
— Nephy! Onde você está?
A névoa a envolveu de repente e, num piscar de olhos, ocultou todo o luxuoso navio de passageiros onde ocorria o baile noturno. Até a mesa bem diante de seus olhos havia desaparecido. Nephy não conseguia ver o assento de Zagan, embora devesse estar logo ao seu lado. Os feiticeiros a bordo do navio ergueram a voz, agitados, aparentemente sofrendo o mesmo destino que ela.
Estou aqui, Mestre Zagan! Nephy tentou chamá-lo, todavia logo percebeu que sua voz não saía. Não, não era apenas a voz. Por algum motivo, não conseguia sequer mover um dedo.
Não era como se tivesse desmaiado de exaustão, podia sentir de forma clara que estava sentada em uma cadeira, mas parecia que Zagan também não conseguia perceber sua presença.
Será um ataque ao navio... Usando feitiçaria? Isso parecia improvável, pois não existia feitiçaria capaz de confundir Zagan a tal ponto. Afinal, era o Arquidemônio conhecido como Matador de Feiticeiros. Se aquela névoa fosse uma feitiçaria que não conseguia dissipar, então apenas outro Arquidemônio poderia tê-la conjurado. E se não fosse um...
Será que... Aquela pessoa que tem o mesmo rosto que eu? A “Nephy Sombria” manipulava um poder semelhante ao misticismo... Portanto, essa era uma possibilidade real. Ao considerar a ideia, uma sensação de pavor percorreu seu corpo.
Se for o poder daquela pessoa, nem mesmo o Mestre Zagan conseguirá se defender!
O único tipo de oponente que Zagan, detentor do título de Matador de Feiticeiros, não estava bem preparado para enfrentar era alguém que extraísse seu poder de algo diferente da feitiçaria. O misticismo superava até mesmo itens como as Espadas Sagradas e era capaz de ferir Zagan. Então, Nephy tentou alertá-lo sobre o perigo iminente, porém seu corpo estava preso à cadeira e não se movia nem um centímetro.
Eu deveria ter sido sincera com ele sobre aquilo antes! Nephy enfim conseguiu organizar seus sentimentos depois que Manuela a repreendeu, contudo ainda assim perdeu a oportunidade de revelar a verdade. E, enquanto se angustiava, alguém bem ao seu lado se moveu.
— Senhorita Nephy, você está bem?
Era Nero. Por algum motivo, eles conseguiam se mover e, tateando o caminho, ele conseguiu chegar perto da cadeira de Nephy.
Não, espere, será que sou a única que está sendo imobilizada?
Se fosse esse o caso, tratava-se de um ataque direcionado à própria Nephy. Foi então que a névoa se dissipou e sua visão voltou. O rosto de Nero estava bem diante dos seus olhos, mas no entanto seu olhar não estava dirigido a ela. Então, como se não conseguisse acreditar no que via, Nero voltou o olhar para Nephy.
— Hã...? Existem... Duas senhoritas Nephys?
Uma garota com o mesmo rosto de Nephy havia caído bem na frente de Zagan. No entanto, não era apenas o rosto... A cor da pele, dos olhos e até o vestido que usava eram idênticos. A Nephy Sombria deveria ter pele escura e olhos dourados, entretanto aquela nova garota não os tinha.
Será que é a mesma pessoa daquela vez...? Nephy não conseguia compreender as suas intenções naquele momento. Nero também exibia uma expressão confusa, alternando o olhar entre Nephy e a outra “Nephy”.
— Uma marionete... Não pode ser, né? Hã? O que está acontecendo aqui?
Nephy conseguiu mover o olhar, de alguma forma; assim, parece que Nero também percebeu que não era uma marionete.
Todavia, no instante seguinte, Nephy ficou pálida diante da atitude de Zagan.
— Você está bem, Nephy...? — Zagan chamou a garota caída pelo seu nome. E “Nephy” abriu os olhos devagar e ergueu uma voz doce.
— Mestre Zagan...? O-O que é...?
— Quem sabe? Não acho que seja um fenômeno natural, embora também não parece ser feitiçaria.
Atônito com a cena, Nero falou com a voz confusa.
— Senhor Zagan, a senhorita Nephy também está... Hã, o quê? Não consigo avançar.
Nero chamou por Zagan, mas a mão que estendia foi empurrada de volta, como se algo a bloqueasse. Parecia também que sua voz não conseguia o alcançar.
Isso significa que... O Mestre Zagan não consegue nos ver aqui? Nephy ficou ainda mais pálida ao perceber esse fato. Talvez, ao perceber, Nero se dirigiu ao seu lado, agitado.
— E-Está tudo bem, senhorita Nephy! Embora modesto, eu, Nero, vou ajudá-la! — Nero a encorajou com uma voz que não dava para definir se era de menino ou menina. No fim, porém, Nephy não conseguiu responder. Enquanto “Nephy” se levantava cambaleando, abraçou o braço de Zagan.
— Mestre Zagan, estou... Com medo.
Seus olhos estavam voltados para Nephy e pareciam zombar dela, o que convenceu Nephy de quem era aquela pessoa.
Como imaginei, essa pessoa... É a mesma que me atacou!
Era a Nephy Sombria, e toda aquela situação era obra sua. E, sendo assim, qual seria o seu objetivo? Abraçar Zagan daquela maneira... Era algo que a própria Nephy só havia feito poucas vezes. Contudo, não era hora nem lugar para abraços. E, numa reação inesperada, Zagan soltou o braço com um pouco de força, afastando-a.
— Fique para trás. Parece que estamos sofrendo algum tipo de ataque.
Parecia que não queria que “Nephy” fosse atingida por nenhum ataque direcionado a ele. E ver o tamanho do cuidado que demonstrava por ela era o suficiente para deixar Nephy louca.
Nero então murmurou, num tom perplexo.
— Parece que o Lorde Zagan acredita que a senhorita Nephy ali é a verdadeira. Duvido que o Lorde Zagan a confundisse com outra pessoa, então... Será que a senhorita Nephy aqui é uma impostora? Ou talvez... A senhorita Nephy tenha uma gêmea?
Enquanto Nero listava possibilidades aleatórias, Nephy sentia como se seu coração estivesse sendo arrancado à força.
Mestre Zagan! Essa não sou eu! Nephy pensava desesperadamente. No entanto, ainda que quisesse que ele percebesse a verdade, Nephy não conseguia falar nem mover um único dedo. Mesmo assim, suas lágrimas conseguiam cair, escorrendo por suas bochechas devido à frustração. Nesse momento, a Nephy Sombria lançou um sorriso leve para Nephy. E então, mais uma vez, se aninhou contra o peito de Zagan.
— Mestre Zagan. Estou com frio... E com medo. Poderia... Por favor, me consolar?
Depois disso, seus olhos se fecharam e tentou pressionar seus lábios contra os de Zagan.
Pare! Não quero ver isso! Nephy queria desviar o olhar, entretanto estava imobilizada e não conseguia nem piscar. Sentimentos de repulsa e raiva fervilhavam em seu peito. Ao pensar em como os lábios de Zagan seriam maculados por aquela mulher, desabou em lágrimas de medo. E, enquanto a Nephy Sombria tentava induzi-lo a um beijo, Zagan...
— Que diabos há com você? Está sendo íntima demais para quem acabou de me conhecer.
— Fugyuuu?
Bem, ele apenas apertou as bochechas da Nephy Sombria com uma das mãos e falou num tom exasperado.
***
Qual é a dessa garota?
Como havia uma garota que se parecia muito com Nephy em meio à neblina, ele acabou ajudando-a, porém de repente ela se aproximou para um beijo. Zagan não conseguia entender o sentido daquilo de jeito nenhum.
A garota que lembrava Nephy se contorceu, livrou-se da mão de Zagan e criou uma certa distância entre os dois. Durante todo esse tempo, seu rosto parecia o de um polvo se retorcendo. Sua aparência mudou pouco a pouco, o vestido deu lugar a uma túnica de feiticeiro, e sua pele, antes branca como a neve, escureceu. Em seguida, seus olhos tornaram-se dourados, contudo o rosto continuou sendo a imagem idêntica ao de Nephy. Parecia que apenas o rosto era, de fato, o seu próprio. A garota que lembrava Nephy então gemeu, com um tom de voz que demonstrava incredulidade.
— C-Como você sabia?
— Hã...? Do que está falando?
Zagan achava que não passava de uma esquisita que gostava de contato físico, no entanto também não parecia haver qualquer sinal de que estivesse prestes a atacá-lo.
Quando Zagan subiu ao convés, havia feito uma grande demonstração de poder, por isso presumiu que ela estivesse apenas tentando ganhar seu favor, assim como Nero estava fazendo, entretanto parecia que não era esse o caso. Após inclinar a cabeça e refletir sobre a situação por um momento, ele soltou um “ah” antes de falar.
— Não sei se faz muito sentido, mas será que estava tentando se passar pela Nephy?
E, assim que Zagan percebeu que era esse o caso, uma onda de raiva surgiu em seu coração.
Aquele maldito Bifrons! Está zombando de mim? Zagan imaginava que Bifrons tentaria armar alguma confusão, todavia não esperava que chegasse ao ponto de uma tentativa de mau gosto de irritá-lo.
— Isto é ridículo... Está dizendo que não foi enganado nem um pouco?
Parecia que a mulher estava de fato determinada a enganar Zagan. Por esse motivo, ele gritou com ela, com uma veia saltando em sua testa.
— Está brincando comigo? Se vai fingir ser a Nephy, pelo menos se esforce para imitá-la! Só o seu rosto lembra o dela, é impossível não perceber a diferença!
— Não... Pode... Ser... Quer dizer... Que percebeu...?
A garota que se parecia com Nephy caiu de joelhos, como se estivesse totalmente derrotada. Analisando de forma objetiva, seu disfarce era perfeito. Tudo, desde a rigidez da expressão de Nephy até o tom de sua voz, passando pelas roupas e gestos, tudo fora imitado com perfeição. Se fosse alguém com quem Nephy tivesse apenas uma proximidade superficial, alguém como Rafael, por exemplo, teria caído na armadilha. De forma alguma o trabalho foi ruim a ponto de merecer desprezo.
Mas, tratava-se de Zagan, que vinha observando Nephy continuamente desde que se conheceram, há mais de dois meses. Como demonstrava felicidade, tristeza, diversão ou raiva... Conhecia cada uma dessas expressões nos mínimos detalhes. Diante desse fato, aquela garota não passava de uma caricatura ridícula. E, com sua confiança despedaçada, não parecia que a garota patética recuperaria a compostura tão cedo.
Em seguida, Zagan voltou sua atenção para trás.
— Você aí, que vem espreitando por aqui há algum tempo... Já está na hora de aparecer.
Zagan desferiu um soco no ar vazio enquanto falava, porém sentiu um impacto surdo e, logo depois, uma rachadura percorreu aquele mundo enevoado.
Imaginei que houvesse alguém por perto usando feitiçaria.
Era uma feitiço bastante engenhoso. O conjurador o havia ocultado ao misturá-lo àquela névoa indefinível, contudo era indiscutível que ainda se tratava de feitiçaria.
E, portanto, não havia motivo para que Zagan não pudesse desmantelá-la...
Instantes após o soco de Zagan, o mundo de brancura absoluta se despedaçou. O que surgiu à sua frente foi a mesa onde estavam sentados antes. Nephy permanecia sentada, em estado de total atordoamento, enquanto Nero estava no chão ao lado, tendo caído para trás.
— Então é você... — Zagan cerrou o punho, com vários círculos mágicos serpenteando ao redor de seus braços enquanto pronunciava aquelas palavras. Era a parcela de poder que havia absorvido da feitiçaria que acabara de destruir. Se fosse uma feitiçaria comum, mesmo após absorvê-la, mal renderia um único círculo. Até aquela lançada com seriedade por Barbatos mal chegaria a cinco ou seis. Em outras palavras, quem conjurou a feitiçaria que acabara de esmagar possuía um poder, no mínimo, equivalente ao de Barbatos. Sob o olhar furioso de Zagan, Nero começou a tremer sem parar e ficou completamente pálido.
— Eeek, v-você se enganou! Estou apenas... Ajudando a senhorita Nephy, então... — Nero gritou, parecendo prestes a se borrar de medo, e balançou a cabeça de um lado para o outro desesperado enquanto Zagan desferia um golpe implacável com o punho.
— HYAAAAAAAAAAAA! — Nero soltou um grito agudo.
O punho de Zagan esmagou o convés e fez a própria proa do barco ceder. O impacto do golpe foi tremendo e, apesar de ter atingido a proa, a popa da embarcação foi erguida para o alto. Todo o convés inclinou-se em direção à proa, e os mastros robustos curvaram-se como arcos.
Zagan nem sequer olhou para os momentos finais de Nero enquanto abraçava gentilmente Nephy, que ainda não havia saído de sua cadeira. Nesse instante, a popa, que havia se erguido, despencou contra a superfície da água. O impacto fez a água do lago espirrar com força, dissipando de vez a neblina que cobria os arredores. A água lançada ao ar caiu em seguida como uma chuva torrencial. Naturalmente, com o desaparecimento da neblina, os danos sofridos pelo barco ficaram evidentes.
As mesas repletas de comida e até mesmo o piano do grupo musical foram arremessados do convés para dentro do lago. Parecia também que a cantora sereia havia sido jogada na água, embora devia estar mais segura lá. E, como seria de esperar de convidados para o baile noturno de um Arquidemônio, pelo menos nenhum feiticeiro idiota acabou caindo no lago. No entanto, era difícil manter-se de pé no convés oscilante de um navio que poderia afundar a qualquer momento. O único capaz de permanecer ereto era Rafael. Este apenas aterrissou no convés e ficou imóvel, com uma agilidade que parecia impossível para alguém de seu porte. Foll havia feito brotar asas de dragão das costas e flutuava no ar. Quanto àquela que mais preocupava, numa reviravolta inesperada, Chastille estava sendo carregada e protegida por Foll.
— Pesada.
— Gyaaa?
Entretanto Foll acabou a soltando logo depois, e Chastille caiu de cara no convés. Zagan também aterrissou com força no convés e, ao fazê-lo, Nephy estremeceu nos seus braços. Depois disso, tendo por fim recuperado os sentidos, ela respirou fundo.
— Mestre... Zagan...
— Tudo bem, Nephy? Fizeram alguma coisa com você?
Embora tenha sido apenas por alguns segundos, Zagan acabou perdendo Nephy de vista. Além do mais, Nero estava lá. Estava seriamente preocupado com a possibilidade de ela ter contraído algum germe estranho. Os lábios de Nephy tremiam como se não conseguisse falar e, incapaz de suportar mais aquilo, enterrou o rosto no peito de Zagan e o abraçou com força. Seus ombros delicados tremiam, como se estivesse assustada, embora aliviada ao mesmo tempo.
Essa delicadeza... É, essa é com certeza a Nephy... Zagan sentiu-se aliviado enquanto acariciava com carinho a cabeça de sua amada.
— Acabei te fazendo passar por algo assustador. Me perdoe.
— Você está enganado. Mestre Zagan, é porque... Você percebeu... — as orelhas de Nephy tremeluziram. Mais do que assustada, parecia que estava tomada pela emoção.
Será que ela está aliviada por eu tê-la salvo? Zagan abraçou Nephy mais uma vez para tranquilizá-la. E, enquanto confortava a garota que tanto amava, ouviu uma voz áspera e gemedora.
— L-Lorde Zagan, me salve...
Era Nero. O golpe de Zagan passou direto por Nero e atingiu o convés. Tendo escapado de um acerto direto, o autoproclamado feiticeiro novato estava pendurado no convés despedaçado do navio. E, em resposta àquela voz lastimável, a expressão de Zagan se contorceu, revelando sua exasperação evidente.
— Por quanto tempo pretende continuar com essa farsa... Bifrons?
***
Enquanto Zagan dizia isso, Nero retribuiu o olhar com uma expressão vazia. Nephy também parecia não entender o significado das suas palavras e alternava o olhar entre Zagan e Nero.
— H-Hã...? Do que está falando...? — perguntou Nero, fingindo estar atordoado sem o menor pudor. Zagan, por sua vez, apenas cerrou o punho de novo em resposta. No fim das contas, não ficaria satisfeito enquanto não esmagasse o rosto de Nero.
— Espere, Lorde Zagan... Está brincando, não é...? — o rosto de Nero estampava claramente o medo, apesar de sua insistência de que a situação não passava de uma piada. Zagan, por sua vez, desferiu um soco impiedoso contra ele. Porém, desta vez, não houve qualquer resistência ao impacto. No instante anterior ao contato do punho de Zagan, o corpo de Nero desfez-se como areia.
Algum tipo de teletransporte, eh.
Nero não atravessava as sombras como Barbatos fazia. Era uma magia que trocava a posição do corpo pela de outro objeto. Dizia-se que, entre os fomorianos, havia aqueles capazes de transformar o corpo em névoa, e aquele poder se assemelhava muito a isso.
— Ora, ora. Como sempre, não tem misericórdia alguma, não é, Arquidemônio Zagan?
Ao voltar sua atenção para aquela voz, Zagan avistou o corpo de Nero flutuando sobre a proa do navio, que havia se desprendido por completo.
— Eu estava bem confiante no meu teatrinho também... Diga, quando percebeu?
— Como se pudesse existir um “feiticeiro novato” de quem não se consegue sentir nem um pingo de mana sequer em um baile de Arquidemônio.
Sim. Desde o momento em que Zagan conheceu Nero, desconfiou dele. E, como era de se esperar, Zagan convenceu-se de que se tratava de Bifrons após trocarem algumas palavras.
Além disso, Gremory também parecia ter percebido a identidade daquele sujeito... Zagan não tinha certeza quanto a Kimaris, mas o aviso que Gremory lhe dera era obviamente sobre Nero. Foi por esse motivo que Zagan não expulsou aquela velha.
Nero então bateu na própria testa e soltou uma risada seca.
— Entendo. Suponho que signifique que eu errei na encenação, então. Não costumo aparecer em muitos bailes noturnos, então fui um pouco descuidado... Porém, se percebeu, não teria sido melhor continuar o jogo por mais um tempo? A Nephteros parece estar muito magoada agora, sabe?
Nero desviou a atenção para a extremidade do convés. Lá, a garota que se parecia com Nephy seguia de joelhos. E, naquele instante, o estalo e o rangido da estrutura de madeira do navio se partindo ecoaram no ar. Parecia que o golpe de Zagan havia causado danos fatais à embarcação. O convés sob seus pés estava fortemente inclinado e, naquele momento, o navio já estava sendo arrastado para o fundo do lago.
— Ops, parece que o navio está prestes a afundar por sua causa. Desse jeito, nem dá para ter uma conversa tranquila, né?
Após achar graça de algo e soltar uma risada contida, Nero estalou os dedos. Com esse simples gesto, um círculo mágico se expandiu a partir dos pés de Nero, e a proa do barco, que havia sido reduzida a pedaços, distorceu-se como se estivesse em meio a uma névoa, reconstruindo-se num piscar de olhos. A cena lembrava um ímã atraindo limalha de ferro.
Ao lançar um olhar rápido para trás, Zagan notou que as mesas, e até o piano que deveriam ter caído no lago, haviam retornado às suas posições originais. Até a comida estava reorganizada sobre os pratos, embora fosse improvável que alguém fosse comê-la, dada a situação.
Zagan era plenamente capaz de usar feitiçaria para reconstruir objetos quebrados, por isso percebeu que Nero havia utilizado alguma feitiçaria diferente.
Assim como na feitiçaria de teletransporte de antes... Será que Bifrons usa aquela substância semelhante a pó como meio? Zagan observou com bastante atenção o outro Arquidemônio, tentando desvendar seus segredos, enquanto Rafael e os outros corriam em sua direção.
— Um inimigo, meu senhor? — Rafael tentou avançar, ainda vestindo a armadura e o capacete de Valefor, contudo Zagan o conteve com uma das mãos. Em seguida, Foll desceu suavemente do céu noturno, e Chastille conseguiu alcançá-la.
— Chastille, cuide da Nephy! — disse Zagan, confiando Nephy, que mal parecia conseguir ficar de pé sozinha, aos cuidados dela, enquanto avançava em direção à proa reconstruída do navio.
— Será que agora podemos ter uma conversa decente?
Nero abriu os braços de forma teatral ao fazer aquela pergunta absurda.
— Eu sou o Arquidemônio Bifrons. Bem-vindos ao meu navio nesta bela noite.
Fazendo uma reverência teatral, Nero... Não, o Arquidemônio Bifrons apresentou-se. Assim como antes, não havia qualquer traço da dignidade de um Arquidemônio em seu comportamento.
Mesmo assim, Zagan sentiu um aperto de pavor ao encará-lo.
Não sinto absolutamente nada vindo desse sujeito...
Não se sentia nada, nem uma aura de intimidação, nem pavor, sequer uma sensação de presença. A ponto de Zagan duvidar se havia de fato alguém à sua frente, embora pudesse vê-lo com os próprios olhos. Depois de abrir os braços, Bifrons fez um gesto chamando a garota elfa que estava agachada em um canto do convés.
— Vamos lá, Nephteros, não fique aí se afundando na miséria. Precisa vir cumprimentar a todos, sabe?
Parecia que Nephteros era o nome da garota que era a cara de Nephy. Nephteros mordeu os lábios como se estivesse suportando uma humilhação e, enquanto lançava um olhar furioso para Nephy, posicionou-se ao lado de Bifrons.
Uma elfa negra, hein? Que raridade.
A primeira coisa que chamava a atenção nela eram as orelhas pontudas, que lembravam as de Nephy. Se tratava de uma elfa. Seu cabelo, que cobria as costas até a cintura, era prateado, e seus olhos de expressão firme eram dourados. No entanto, o detalhe que mais a diferenciava era a pele escura. Sob a túnica, Zagan pôde vislumbrar o decote, a cintura e as coxas... Era um traje que o deixava desconfortável ao olhar.
E, enquanto a garota continuava a lançar olhares hostis em silêncio, Bifrons deu de ombros.
— Hahaha, desculpe por ela ser uma garota tão antissocial. Esta garota é a Nephteros. É a minha linda bonequinha.
Zagan achou desagradável o fato de Bifrons chamar de “boneca” uma garota que tinha o mesmo rosto de Nephy, entretanto não sentiu pena.
Entendo. Então, deve ter sido essa garota quem feriu Nephy em Kianoides... Zagan percebeu isso ao olhar para o seu rosto. Ser ferido por alguém que tem um rosto idêntico ao seu seria perturbador e, se o ato tivesse sido cometido com malícia, sem dúvida deixaria uma marca profunda na mente.
Além disso, a garota chamada Nephteros parecia nutrir uma hostilidade significativa em relação a Nephy. Por mais que se parecesse com Nephy, a compaixão de Zagan não era profunda a ponto de demonstrar benevolência para com alguém que tivesse intenções hostis. Acima de tudo, era preciso demonstrar de forma bem clara o que aconteceria com aqueles que ousassem tocar naqueles sob sua proteção.
Zagan estalou o pescoço para os lados e fez um gesto para que Bifrons se aproximasse.
— As ações de uma boneca são responsabilidade de seu dono. Deixe-me mostrar minha gratidão por ter brincado com minha discípula. Vou separar sua cabeça do pescoço de um só golpe, então de um passo à frente.
— Hahaha, você já esmagou a honra de Nephteros a tal ponto... Será que não podemos considerar isto como uma conta acertada?
— Hã...? Como exatamente estamos quites?
Era verdade que quem ferira Nephy fora Nephteros, e ele talvez tivesse desferido um golpe em seu orgulho, todavia Zagan ainda não havia acertado as contas com Bifrons. Zagan não se importava se Bifrons era um Arquidemônio ou o que quer que fosse. Não era gentil nem sereno o suficiente para conceder perdão.
Zagan então olhou para a bochecha de Nephy. Ainda havia vestígios de suas lágrimas.
O fato de Nephy ter chorado não era algo trivial. Especialmente porque só havia visto as suas lágrimas uma única vez antes.
— Você fez Nephy chorar. A essa altura, nem mesmo a sua morte seria suficiente.
Bifrons devia ter notado que Zagan falava sério. E, apesar de parecer surpreso, estreitou os olhos com deleite.
— Hmm, pensei que era uma criança bem corajosa quando nos conhecemos, mas parece que ficou bem mais ousado depois de se tornar um Arquidemônio, hein? — Bifrons falou em um tom semelhante ao de um professor elogiando um aluno que tivera um bom desempenho. Então, Bifrons arregaçou a manga esquerda e estendeu o braço. E na parte superior daquele braço... Havia um selo que brilhava de forma sinistra.
— Ainda assim, ver meu primeiro calouro não me demonstrar nenhum respeito é algo bem deprimente... Que tal eu lhe ensinar uma lição?
Logo após essa declaração, uma mana sufocante começou a jorrar do pequeno Arquidemônio.
— AHAHAHAA! É hora de começar a divertida atração paralela! — Bifrons riu alto.
— Urgh... — Chastille não conseguiu suportar e caiu de joelhos. Rafael deu um passo à frente como se fosse protegê-la, porém Zagan percebeu que este gemia sob aquela armadura. Até mesmo Foll empalideceu e caiu sentada no chão. E não foram apenas Chastille e os feiticeiros no convés que ficaram sobrecarregados... Até Nephteros, que estava ao lado de Bifrons, pressionava o próprio peito com uma expressão de dor. Depois de algum tempo, ao contemplar com satisfação a cena dos convidados no convés, Bifrons começou a falar.
— Pois bem, deve haver muitos aqui que estão presenciando isso pela primeira vez. Este é o Selo do Arquidemônio. É a prova de que nós, os treze Arquidemônios, somos o auge absoluto dos feiticeiros. — disse Bifrons, exibindo o selo mais uma vez, e continuou. — O próximo a se tornar um Arquidemônio pode muito bem estar entre vocês. É por essa razão que devem observar bem este espetáculo. Afinal, um confronto entre Arquidemônios é um grande evento que não acontece nem uma vez a cada cem anos.
Mesmo enquanto Bifrons proferia palavras tão beligerantes, era difícil dizer se de fato planejava lutar, dada a sua atitude teatral. Aquilo até fez Zagan suspeitar que, por acaso, talvez fosse apenas um feiticeiro sob a ilusão de ser Bifrons.
O Selo do Arquidemônio parecia autêntico, contudo não seria tão estranho se um monstro que viveu por várias centenas de anos tivesse criado uma ou duas réplicas.
Na verdade, qual é o sentido de toda essa cena? Zagan não via propósito algum em um feiticeiro se envolver em combate. Se Bifrons estava atrás do conhecimento e do poder de Zagan e Nephy, deveria haver uma maneira mais inteligente de agir. Dar-se ao trabalho de reunir feiticeiros poderosos e provocá-los era uma atitude que não fazia sentido algum.
Não fazia sentido, no entanto, ainda assim, os Arquidemônios possuíam uma força inigualável. Bifrons olhou para Zagan, parecendo zombar dele o tempo todo.
— Ora, será que o Matador de Feiticeiros consegue consumir até o poder do selo? Vamos colocar sua capacidade à prova, que tal?
O princípio que conferiu a Zagan o segundo nome de Matador de Feiticeiros envolvia o uso de um círculo mágico idêntico ao de seu oponente. Sobrepunha os exatos mesmos circuitos num instante e assumia o controle da feitiçaria do adversário, reescrevendo-a para torná-la sua. O talento de Zagan para copiar com precisão até um circuito que via pela primeira vez era a própria base de seu poder. E, portanto, quanto mais complexo fosse o círculo mágico, mais difícil seria devorá-lo.
Com mana sustentada pelo Selo do Arquidemônio, que nível de complexidade um circuito poderia alcançar? Como seu oponente era um Arquidemônio assim como ele, Zagan não tinha certeza se conseguiria assumir o controle daquela feitiçaria.
Apesar de estar em uma situação de extrema desvantagem, a sua expressão permanecia serena. Claro, como esperado fervia de raiva por Nephy ter sido ferida, no entanto não perdeu a compostura.
Por fim, Zagan agitou de leve a mão direita, como se batesse a uma porta invisível. Ouviu-se um som metálico, semelhante ao de um diapasão. Misteriosamente, aquele gesto simples fez com que o vórtice de mana que dominava o convés desaparecesse de repente.
— Hã...? — Bifrons soltou uma exclamação, pasmo.
É verdade que passei a maior parte do tempo investigando Celestian, entretanto não significa que não tenha pesquisado também sobre o Selo do Arquidemônio.
— O poder do selo é sem dúvida problemático, embora tenho o mesmo recurso à disposição. Você acreditou mesmo que eu não conseguiria contra-atacar? — disse Zagan, com um tom de voz exasperado.
Quando Zagan encontrou os doze Arquidemônios, viu aquilo pela primeira vez. O Selo do Arquidemônio ressoava com os outros doze.
Era de fato como um diapasão. Em outras palavras, existia algum tipo de conexão entre os selos. Foi por esse motivo que Zagan conseguiu selar o poder deles.
— Impossível. O que... O que você fez? — perguntou Bifrons, com a voz tomada pelo choque.
Ao ver o pequeno Arquidemônio perder a compostura, Zagan soltou um “hmm”, como se achasse a situação bastante divertida.
Então, Bifrons enfim revelou o que se passava em sua mente. Pelo menos, não parecia que estava apenas fingindo estar abalado. Dessa forma, Zagan estendeu a mão direita e começou a explicar o que havia feito.
— Os Selos dos Arquidemônios ressoam entre si. Tudo o que fiz foi usar essa característica para selá-los.
— Ugh, entretanto se fez tal coisa, o seu selo não deve ter saído ileso.
Zagan assentiu, como se não houvesse problema algum, enquanto Bifrons apontava o óbvio.
— Está correto. E daí?
Assim como o de Bifrons, o selo na mão direita de Zagan perdeu o brilho. Ao selar o próprio selo, Zagan condenou o selo de Bifrons ao mesmo estado. Em outras palavras, o fato de ambos terem sido selados provava que o Selo do Arquidemônio de Bifrons era autêntico.
De qualquer forma, é algo que nunca usei muito para começar... Zagan só o havia utilizado duas vezes no passado. Uma delas foi quando expulsou o demônio que Barbatos acabou invocando, e a outra quando lutou contra Rafael. Tentou ver o que aconteceria se deixasse o selo colidir com uma Espada Sagrada, todavia o selo não sofreu dano algum. Era, sem dúvida, um poder digno do título de Arquidemônio, mas no fim das contas Zagan o via apenas como um poder emprestado. E, no fim, nunca se sabe quando perderá a posse de algo que lhe foi emprestado.
Porém, não era como se Zagan temesse aquele sigilo perigoso a ponto de manter distância. Apenas não dependia do seu poder porque não confiava neste. Além do mais, havia pesquisado tudo o que podia sobre o assunto, indo muito além de apenas buscar um método para destruí-lo.
Para começar, Zagan estava investigando o Sigilo do Arquidemônio com o objetivo explícito de matar todos os outros Arquidemônios. Desde que fossem tão arrogantes quanto Zagan esperava, tinha certeza que os enfrentaria em algum momento. Não sabia se aconteceria amanhã ou daqui a centenas de anos, contudo o fato é que aquele dia acabou sendo uma dessas ocasiões.
— Está dizendo que descartou o seu próprio poder...? — os olhos de Bifrons se arregalaram, claramente perplexos com uma atitude tão imprudente. E então, apesar de ter vivido por várias centenas de anos, Bifrons percebeu que, para Zagan, não passava de “apenas um feiticeiro” após a perda do sigilo.
— Entendo... Jamais imaginei que tal método existisse. Que esplêndido. — murmurou Bifrons com uma expressão de profunda admiração, enquanto a mana começava a fluir de seus pés. Em seguida, disse. — Admito esse fato, contudo resta saber se conseguirá compensar a nossa diferença de experiência.
Quando Bifrons terminou de murmurar, a feitiçaria do Arquidemônio já havia sido concluída. Parecia que, ainda enquanto exibia uma expressão de surpresa, circuitos estavam sendo construídos em segredo. Naquele momento, já era tarde demais para se defender ou devorar seu feitiço. Ou melhor, esse era o plano.
— Essa é uma feitiçaria bastante sofisticada. É a primeira vez que encontro alguém capaz de construir tantos circuitos com uma única palavra. Suponho que seja de se esperar de um colega Arquidemônio.
Ao som do calcanhar de Zagan batendo no chão, os circuitos que Bifrons havia construído se dissiparam. Então, aquele poder foi devorado por Zagan e acumulado em seu braço. Círculos mágicos, em número duas vezes maior do que quando absorveu a feitiçaria dentro da névoa, agora se enrolavam ao redor do seu braço, e os olhos de Bifrons se arregalaram de espanto.
— Você absorveu tantos circuitos... E os devorou logo de cara...? Eu tinha certeza de que havia tecido apenas circuitos sobre os quais você não sabia nada...
— É. Foi bastante esclarecedor... — Zagan assentiu como se não fosse nada demais. Se a questão era apenas devorá-los, não tinha problemas sequer com circuitos que nunca tinha visto antes. Afinal, se não fosse capaz de tal, Zagan não teria como usar feitiçaria para se proteger quando matou Andras.
Ao assimilar tudo aquilo, Bifrons contorceu-se de diversão.
— Entendo, entendo... Um talento verdadeiramente abominável. Parece que nossa escolha foi acertada, não é? Vejo que está crescendo a um ritmo assustador.
Embora Bifrons devesse estar encurralado, seu sorriso transbordava alegria. Como esperado, não parecia ser um feiticeiro tão medíocre a ponto de se abalar pela perda do selo. Zagan recordou-se da aura sinistra e insondável que sentira vinda dos Arquidemônios naquele dia.
Ainda assim, naquele momento, a questão era se Bifrons revelaria seu trunfo.
Bifrons era inquietante justamente porque Zagan não conseguia decifrá-lo. Na verdade, não estava claro se sequer planejava usar tal recurso. Bifrons havia chamado aquilo de mero entretenimento. Não estava nem claro se tinha interesse em lutar a sério, portanto Zagan duvidava que expusesse por vontade própria um trunfo. E parecia que essa dúvida tinha fundamento. À medida que Zagan se aproximava, mantendo-se vigilante em relação aos arredores, a aura sinistra que sentia vinda de Bifrons havia desaparecido por completo. Logo, seu oponente ergueu a bandeira branca da rendição.
— Fufufu, tudo bem, já entendi a essência do seu poder. Que tal encerrarmos as coisas pacificamente?
— Não sinto necessidade de fazer isso.
— Hã...? — Bifrons exclamou, confuso com a resposta. Ele havia tentado encerrar o confronto por conta própria, entretanto Zagan não havia aplacado a raiva que fervilhava em seu interior. E, quando Zagan liberou a mana concentrada em seu punho, Bifrons entrou em pânico pela primeira vez naquela noite. Até Nephteros, que estava ao lado de Bifrons, recuou com o rosto pálido.
— E-Espere! Está entendendo tudo errado. Tudo isto deveria ter sido apenas um entretenimento paralelo. Veja, no fim das contas, sua elfa não sofreu nenhum dano real, certo?
— Ela sofreu o suficiente. Não preciso de desculpas, só que daqui para frente farei as coisas do meu jeito.
Pelo que Zagan podia perceber, Bifrons não havia preparado nenhuma feitiçaria ou proteção do tipo. Então, ergueu o punho mais uma vez.
— Você é um daqueles malditos Arquidemônios. Não vai morrer com um simples soco, certo?
Se Bifrons fosse um oponente tão fácil, Zagan com certeza conseguiria arrancar as cabeças de todos os outros doze Arquidemônios em pouco tempo.
Em resposta às suas palavras, Bifrons balançou a cabeça vigorosamente.
— Qualquer feiticeiro morreria se levasse um soco seu!
É claro que feitiços de cura não podiam ser usados diante de Zagan. Com o Selo do Arquidemônio e as feitiçarias anuladas, era verdade que até um Arquidemônio poderia sofrer um golpe fatal. Embora fosse difícil imaginar que um feiticeiro que viveu por várias centenas de anos encontraria seu fim tão facilmente.
Bem, não que me importe, pensou ele. E, justo quando estava prestes a desferir o golpe com seu punho sem piedade...
— Celestian. Não quer saber sobre a conexão entre sua elfa e as Espadas Sagradas?
O punho de Zagan parou a milímetros do nariz de Bifrons. E, com suor frio escorrendo pela bochecha, Bifrons levantou os dois dedos indicadores e continuou falando.
— Pense com cuidado, está bem? Digo, qual foi o objetivo de eu me dar ao trabalho de mostrar à sua elfa o poder da minha Nephteros?
— Está dizendo que pretendia fazer a Nephy tomar consciência do Celestian?
— Exato. Um poder que nem nós, Arquidemônios, conseguimos manipular pode ser controlado com facilidade por aquelas garotas. Não é da natureza de um feiticeiro buscar coisas assim? — Bifrons questionou. Balançando o dedo em sinal de reprovação, continuou. — Nós dois somos Arquidemônios com uma elfa ao nosso lado. Não é óbvio que eu queria comparar o seu crescimento com o nosso?
— Que mentira deslavada. Você tem nos monitorado desde que comprei a Nephy, então nunca houve necessidade de fazer esse tipo de coisa... — Zagan só se deu conta desse fato quando recebeu a carta-convite, todavia foi mais do que suficiente. Sabia que não havia necessidade de testar nada, já que aquele feiticeiro estivera observando Zagan e os outros o tempo todo.
É por essa razão que quero resolver as coisas aqui e agora.
Se Zagan não deixasse claro que havia pouco a ganhar ao tentar atacar a ele e aos seus companheiros, outros com más intenções não recuariam. Além do mais, se deixasse passar dessa vez, Bifrons sem dúvida voltaria a interferir com eles.
— Ora, ora, já sabia há algum tempo, hein. Parece que te subestimei um pouco... Agora, poderia baixar essa mão?
Lançando um olhar furioso para o irritante Arquidemônio que lhe pedia calma, Zagan soltou um suspiro. Ainda que eu de um soco nele aqui, esse sujeito vai simplesmente ignorar.
Não importava quanta sede de sangue ou ira Zagan direcionasse a Bifrons, não havia resistência alguma. No fim, tudo parecia inútil. Se queria retribuição, aquele método não funcionaria. Precisava repensar sua abordagem.
E, dessa forma, Zagan baixou o punho. Essa ação marcou uma mudança no primeiro encontro entre esses dois Arquidemônios.
***
À medida que a hostilidade de Zagan se dissipava, Chastille soltou um suspiro de alívio e Nephy se levantou. Observando o convés, que havia mergulhado em um silêncio sepulcral, Bifrons estalou os dedos.
— Ora, qual é o problema? A música parou. Gostaria de uma melodia que fosse, ao mesmo tempo, sombria e alegre!
Diante desse pedido contraditório, o rosto da sereia do grupo musical contraiu-se em um espasmo. Mas como era uma profissional, começou a cantar habilidosamente uma canção animada em um tom sombrio.
Como era de se esperar, a atmosfera não permitia que os convidados relaxassem de verdade, porém todos compreenderam, pelo menos, que qualquer ato de violência havia cessado. Assim, os feiticeiros baixaram a guarda por ora. Contudo, após lançar um olhar de soslaio para o convés, Foll agarrou com força a barra da túnica de Zagan.
— Zagan, será que ele é um Arquidemônio?
— Parece que sim. Tenha cuidado. Esse sujeito não revelou sua verdadeira intenção.
A postura de Bifrons era toda teatral, levando Zagan a acreditar que tudo o que fizera até aquele momento fazia parte de uma encenação. Ainda quando Bifrons provocava uma briga, não parecia haver qualquer real intenção de lutar contra Zagan. E, mesmo quando Bifrons caía no chão, Zagan não conseguia detectar qualquer tensão ou medo em sua expressão. Dito isso, também não parecia que estava tentando o induzir a uma falsa sensação de segurança.
Foi por esse motivo que não conseguiu deduzir o verdadeiro objetivo de Bifrons até aquele momento. Se Zagan fosse um feiticeiro habilidoso em perceber mentiras, talvez tivesse ficado surpreso ao ver como cada palavra que saía da boca daquele Arquidemônio estava repleta de falsidades.
É melhor não confiar em um feiticeiro, sabe? Afinal, todos os feiticeiros são mentirosos.
Zagan recordou-se do que Gremory havia dito antes. Bifrons era um feiticeiro que parecia envolver absolutamente tudo em mentiras... Portanto, o conselho dela parecia sensato naquela situação específica. Foll então olhou para cima, para Zagan, buscando mais esclarecimentos.
— Então, não há motivo para matá-lo por enquanto?
— É provável que não.
— O que é Celestian?
— Boa pergunta. Esse sujeito deve saber, embora não dá para saber se está disposto a compartilhar a informação.
Ao ouvir aquilo, Bifrons exibiu uma expressão de profunda perplexidade e deu de ombros.
— Meu caro camarada, acho que seria melhor repensar a maneira como educa sua filha. Não é bom presumir, logo de cara, que vai acabar matando alguém que acabou de conhecer.
— Eu diria que seria pior não ser cauteloso com algo que você nem tem certeza se é humano...
Zagan refletiu mais sobre o assunto e percebeu que não sabia se aquele feiticeiro era homem ou mulher.
Embora, se eu perguntasse, esse sujeito certamente desviaria da questão.
De qualquer forma, tinha certeza de que seu oponente responderia algo como: “Bem, o que você acha que eu sou?” e, independente da resposta de Zagan, estava na cara que Bifrons riria e diria o oposto.
— Tem razão. Só parece que está falando. Dá a impressão de que estou vendo um boneco mal manipulado ou alguma coisa próxima. — comentou Foll.
O termo “boneco” era uma descrição apropriada. O comportamento superficial daquele feiticeiro lembrava, de fato, um boneco mal controlado por um palhaço desajeitado. Não importava o quão ridículo o boneco parecesse, o palhaço apenas zombaria.
— Ora, ora, chamar-me de boneco é um pouco maldoso, não acha? Até eu tenho coração. E, sinceramente, ser insultado por uma garotinha inocente fere muito esse coração. Ahaha.
Foll também parecia estar se acostumando aos poucos à atmosfera sinistra de Bifrons, o que a levava a se esconder atrás de Zagan enquanto fazia uma careta de clara repulsa. E, enquanto lançava um olhar feio para Bifrons, Nephy enfim pareceu se acalmar e se aproximou, ficando ao lado de Chastille. Ao ver aquilo, Nephteros lançou um olhar de desprezo para ela.
— Sua maldita escrava.
Embora estivesse usando um vestido, Nephy trazia uma coleira rústica em volta do pescoço. Entretanto, aquilo não era prova de uma relação entre mestre e escrava, em vez disso era a prova da conexão entre Zagan e Nephy. Ver esse vínculo ser ridicularizado não era algo que Nephy pudesse aceitar calada.
— Esta coleira é um símbolo do meu vínculo com o Mestre Zagan. Não importa quem sejam, não perdoarei ninguém que a insulte.
— Então, o que fará? Sua imprestável mimada. Está dizendo que uma simples cadela pretende agir como uma pessoa normal?
Nephy estava sendo insultada bem diante dos olhos de Zagan. Ele parecia pronto para partir para cima de Nephteros por causa disso, todavia Nephy respondeu em tom firme antes que pudesse agir.
— Só eu posso decidir verdadeiramente quem sou. Nada que você ou qualquer outra pessoa diga pode mudar esse fato.
Zagan foi tomado pela emoção ao ouvir a resposta digna de Nephy. Ela finalmente consegue responder à altura aos insultos!
A mudança em Nephy fez com que quisesse abraçá-la com força, esfregar o rosto no dela e elogiá-la. Ainda assim, Zagan sabia que não lhe cabia interromper a conversa delas. Por sua vez, Nephteros, que tinha parecido intimidada por um breve instante, logo exibiu um sorriso de escárnio.
— Pare de dar desculpas. O fato de dizer que essa coleira é um símbolo do seu vínculo prova que é uma escrava no fundo da alma.
— ...
A elfa sombria continuou os ataques verbais a Nephy, deixando Zagan um tanto perplexo.
Essa garota... Mais do que apenas teimosa, é bastante irritante, não é? Não pretendia dizer nada, mas toda aquela conversa estava o deixando furioso. Zagan comprou Nephy após se apaixonar à primeira vista, porém, no fundo, isso se devia à sua natureza. Embora aquela garota tivesse um rosto idêntico, Zagan não sentia nada por sua pessoa. Muito provavelmente, mesmo que lhe desse um soco, não veria problema algum. Foi por essa razão que levantou a mão direita casualmente e lhe mostrou a palma.
— Eeep!
Nephteros soltou um gritinho, talvez se lembrando de quando teve as bochechas apertadas mais cedo. Então, estremeceu e deu um pulo.
— Ah... Minhas orelhas estão formigando de tanto ouvir palavras tão desagradáveis. — disse Zagan, começando a coçar a orelha com desinteresse. Era uma provocação infantil, ao cair na pilha, o rosto de Nephteros ficou vermelho vivo.
— Humpf. — Foll soltou uma risadinha, com os olhos cheios de pena.
— Seus malditos! — Nephteros respondeu com raiva, e Rafael murmurou para Foll, repreendendo-a.
— Escute, Foll. Cachorro fraco é aquele que late muito. Basta rir e perdoá-los.
— Ahahahaha... Assim? — Foll riu com uma voz desprovida de emoção e, ao seu lado, Chastille olhou para Nephteros, com uma nítida expressão de pena pela garota.
— Pessoal, a Nephy já respondeu, continuar com isso é passar dos limites.
Às vezes, a compaixão pode ferir as pessoas. Ser vista com pena por Chastille... Que, até poucos instantes, não passava de uma chorona... Fez o rosto de Nephteros se contorcer de raiva.
— Vou matar todos vocês!
— Ora, ora, se enfrentar todas essas crianças de uma vez, vai acabar morta antes de conseguir derrubar todas elas. Pode até conseguir levar uma ou duas consigo, contudo não vou ajudar. — disse Bifrons, soltando uma gargalhada alta. Então prosseguiu. — Suponho que minha serva aqui tenha sido bastante grosseira. Bem, todos também retribuíram na mesma moeda, nesse caso, por favor, perdoem-na por seus modos. Já disse antes, no entanto decidi realizar este baile noturno porque queria conversar com vocês.
Depois de terminar, Bifrons abriu os braços de forma exagerada e assumiu uma postura imponente no convés.
— O que acharam? Do meu barco, quero dizer. Acredito que também tenham gostado da atração à parte, não é?
Apesar de desconfiado, Zagan assentiu com sinceridade.
— Vejamos. Tem bom gosto para barcos. Graças a isto, meu pessoal aqui pôde se divertir. Ou, pelo menos, foi assim até a sua intromissão desnecessária.
— Hahaha, bem, é o que importa. Por infelicidade, a maioria dos feiticeiros nem sequer presta atenção na paisagem ao redor. Por esse motivo, fiquei incomodado com o fato de não haver ninguém se divertindo. Certo, Nephteros?
Nephteros fez uma reverência respeitosa, sem deixar transparecer nem um pouco da raiva que demonstrara anteriormente ao ser chamada.
— Acredito que os feiticeiros que se identificam com os seus passatempos sejam a exceção, Mestre Bifrons.
— Hahaha, parece que ela está sendo tímida. Sei que pode parecer que me trata com frieza, entretanto garanto que esta garota é quem melhor me compreende.
— Afinal, é extremamente difícil demonstrar respeito por um mestre que chama de boneca aquela que melhor o compreende.
Zagan não conseguia evitar erguer a sobrancelha diante da relação peculiar dos dois. Parecia que ela havia se ofendido por ter sido chamada de “bonequinha” mais cedo. E, enquanto encarava Bifrons com um olhar frio... Como se olhasse para um pedaço de lixo... Este esboçou um sorriso amargo.
— Bem, como pode ver, minha elfa é bastante rebelde. Não me importaria de receber alguns conselhos sobre como manter um relacionamento harmonioso como o de vocês dois.
Acrescentando um “além disso”, Bifrons observou Foll, Chastille e Rafael, um por um, atrás de Zagan, e disse.
— Você reuniu sob seu comando pessoas de raças e origens diferentes e, ainda assim, elas não entram em conflito. Devo dizer que é uma cena surpreendente.
Zagan soltou um suspiro breve.
— O motivo de nos chamar aqui é para contar piadas inúteis?
— Chamar de piada é um exagero. Apesar de ter uma língua tão afiada aí, por algum motivo, as pessoas se reúnem ao seu redor. É estranho sentir inveja dessa capacidade?
— Um Arquidemônio é capaz de sentir inveja?
— Até mesmo um Arquidemônio vivencia a solidão. — disse Bifrons, estendendo a mão para a elfa negra ao seu lado. Todavia, ela se esquivou com uma expressão de clara insatisfação.
— Ahahaha. Ei, não sou eu alguém solitário?
Zagan não conseguia distinguir o quanto Bifrons falava sério enquanto gargalhava alto. Ao lado de Bifrons, Nephteros levou a mão à testa, como se estivesse com dor de cabeça.
Não gosto dela, mas parece que está presa em uma situação bastante lamentável.
Independentemente de seu desprezo pela garota, ver alguém com o mesmo rosto de Nephy contorcer a face em angústia não era uma cena agradável para Zagan. E, como se não prestasse a menor atenção ao estado de sua serva, Bifrons abriu um sorriso largo e riu.
— Pois bem, a noite ainda é uma criança. Que tal aproveitarmos a festa? — perguntou Bifrons, seu sorriso sinistro tornava impossível saber o que pensava. Zagan respondeu com uma expressão desconcertada.
— Mas eu gostaria de tratar dos negócios agora.
— Ora, ora... E eu que pensei que a conversa enfim tivesse ficado mais leve.
— Só estava sendo educado.
Por enquanto, Zagan era um convidado. Ao menos respondia quando provocado, porém não tinha tempo de sobra para desperdiçar com conversas fiadas. Se não havia nada a ganhar com Bifrons, em sua mente, seria milhares de vezes mais importante apenas voltar ao castelo e conversar com Nephy. Ao ouvir essa resposta, Bifrons fez um bico, como se estivesse irritado com as palavras monótonas de Zagan.
— Meu Deus. Bem, tanto faz. De qualquer forma consegui me divertir um bocado... — Bifrons se aproximou e parou diante de Nephy.
Contudo, Zagan bloqueou o caminho com a mão, deixando claro que não permitiria que Bifrons chegasse mais perto.
Não faço ideia do que esse sujeito pretende fazer, melhor prevenir do que remediar.
Bifrons então levantou as duas mãos, como se estivesse se rendendo.
— Não é como se ela fosse pegar uma doença só porque a toquei, sabe?
— Não, ela vai pegar sim! — respondeu Zagan, com total seriedade, deixando Bifrons surpreso.
Mesmo assim, Bifrons começou a falar com um ar galante.
— Vamos direto ao ponto, então? Trata-se da sua elfa. É verdade que é uma elfa, só que ao mesmo tempo não é.
— O que quer dizer?
Zagan estreitou os olhos, e Bifrons explicou a verdade com uma voz clara e calma.
— Alta-elfa, esse é o nome da sua raça.
Aquele nome fez os olhos de Zagan se arregalarem.
— Uma alta-elfa... Você disse?
Nunca tinha ouvido falar daquela raça antes. Imaginou que fosse uma raça de hierarquia superior entre os elfos, no entanto Zagan jamais a vira mencionada nos grimorios ou documentos que havia lido.
— Correto. Dizem que os elfos herdaram o sangue de deuses antigos e que, entre eles, aqueles mais próximos dos deuses de sangue puro são os alto-elfos.
Zagan sabia que os elfos eram seres intimamente ligados a deuses e espíritos, entretanto nunca imaginou que de fato tivessem herdado o sangue dos deuses. Bifrons então continuou falando, como se estivesse satisfeito com a reação de Zagan.
— Todavia, veja bem, não é tão simples preservar uma linhagem de sangue puro. O número de alto-elfos diminuiu aos poucos e, agora, foram extintos. Tudo o que restou são elfos comuns com uma quantidade de mana ligeiramente elevada... Nada além daqueles fracassos conhecidos como meio-elfos.
Contudo, Nephy estava, de fato, ali. Em outras palavras...
— Então, o atavismo é possível, é? — Zagan murmurou, e Bifrons assentiu com um olhar satisfeito.
— Fufufu, ajuda muito você captar as coisas tão rápido.
Zagan não deixou passar o fato de que as orelhas de Nephy tremularam de forma inquieta.
— Nephy, se tiver alguma dúvida, não me importo que pergunte.
— Mas...
Em resposta ao olhar cauteloso que Nephy lançou a Bifrons, o pequeno Arquidemônio colocou a mão no peito e assentiu.
— Fufufu, está preocupada em não interromper a conversa entre os dois mestres aqui? Que gracinha. Porém não me importo. Afinal, esta é uma conversa sobre as suas origens. Pode perguntar qualquer coisa que não entender.
Mesmo com as orelhas tremulando em confusão, Nephy foi direto ao ponto, apesar de sua timidez.
— Então, tenho uma pergunta. O que significa atavismo?
— Opa, que descuido o meu. É certo de que não se trata de um termo usado no dia a dia. — disse Bifrons enquanto se aproximava de Nephy, tentando uma intimidade excessiva, o que fez Zagan intervir para detê-lo.
— O atavismo é, por assim dizer, o reaparecimento de uma característica de uma geração anterior.
— O reaparecimento de uma característica...?
— Sim. É extremamente raro entre feiticeiros, entretanto nas linhagens de humanos comuns, há casos em que uma criança nasce com mana extremamente forte. É um fenômeno que pode ocorrer se um ancestral distante fosse um feiticeiro. No seu caso, Nephy, deve significar que o sangue diluído de alto-elfo, que havia se misturado aos outros elfos, ressurgiu em você. — respondeu Zagan. Todavia, Bifrons balançou o dedo em sinal de reprovação, fazendo um som de desaprovação com a língua.
— Essa é uma resposta exemplar, mas não vai ganhar nota máxima. — afirmou Bifrons com um sorriso presunçoso, antes de acrescentar. — Veja bem, o atavismo não se aplica apenas a casos de herança de mana. Há também situações em que um ancestral foi amaldiçoado, e isto se manifesta em um descendente distante.
Os olhos de Nephy se arregalaram ao ouvir aquelas palavras. Criança amaldiçoada. Nephy foi desprezada dessa forma na vila dos elfos, não era de se admirar que aquilo tivesse tanto impacto sobre ela.
Bifrons apenas assentiu com satisfação ao ver a sua reação.
— Fufufu, sua expressão me diz que já ouviu essas palavras antes. Estou certo que, para aqueles elfos insignificantes, seu cabelo branco e sua aura mística pareciam uma maldição. Afinal, é um poder grandioso demais para aquela espécie inferior.
Talvez, no passado, houvesse outras crianças na vila dos elfos que possuíam um poder como o de Nephy. Crianças que detinham um poder desconhecido. Era algo que sem dúvida despertava medo, mas Zagan acreditava que eles também invejavam o poder que haviam perdido. Foi por essa razão que os elfos rotularam as crianças de cabelos brancos como amaldiçoadas e as perseguiram. A forma como se agarraram a ela quando os humanos invadiram era a prova disso. Os elfos eram, no fundo, muito orgulhosos. Foi por isso que não suportavam nada que os desvalorizasse. Pensando dessa maneira, a personalidade de Nephteros era típica de um elfo.
Sem saber como lidar com essa realidade, Nephy empalideceu e começou a tremer. E, soltando uma risadinha, Bifrons fez uma reverência diante de Nephy.
— Ora, não há necessidade de lamentar o seu destino. Você é descendente de uma raça orgulhosa de alto-elfos. Faria bem em seguir os passos do seu mestre e agir de forma um pouco mais arrogante.
— Isso não é da sua conta.
Ao perceber que Bifrons tentava incutir uma ideia estranha na mente dela, Zagan se colocou à força entre eles e Nephy.
— Deixando de lado a conversa sobre Nephy apresentar atavismo, em que se baseia para afirmar que é uma alta-elfa? Essa raça já deveria estar extinta, não?
A aparência de Nephy não era assim tão diferente da dos elfos comuns. Devia haver um motivo para Bifrons estar convencido de que pertencia a uma raça extinta há muito tempo. Ao ouvir a pergunta, os lábios de Bifrons se curvaram para cima, parecia que estava esperando por essa pergunta.
— Claro. Mesmo deixando de lado o seu conhecimento sobre a língua Celestian, o maior indício é o seu característico cabelo branco. Dizem que todos os alto-elfos possuíam cabelos brancos como a neve e olhos cor de anil.
Aquilo certamente condizia com a aparência de Nephy...
— E, acima de tudo, detinham o poder de manipular a natureza e curar ferimentos... Até mesmo os mortos, apenas desejando que acontecesse.
Nephy já havia demonstrado tais habilidades diante de Zagan muitas vezes. Não havia como Bifrons, que os observava desde o início, não saber. Ainda assim, Zagan soltou um bufo de descrença.
— Essa lenda é bastante exagerada. É verdade que Nephy conseguiu curar ferimentos causados por uma Espada Sagrada, contudo não é como se pudesse salvar os mortos.
Ao ouvir Zagan argumentar, Bifrons o encarou com espanto, como se a resposta fosse inesperada.
— Ora? Você não percebeu?
— O que quer dizer?
— Kufufu, vejam só, não há como negar. Sua elfa consegue até mesmo reviver os mortos. Escute, a própria morte tem estágios. Um cadáver reduzido a ossos provavelmente não pode ser revivido, é claro, no entanto ela é capaz de ressuscitar o corpo de alguém que está à beira da morte.
— N-Não pode ser! — Nephy arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras.
— Você se lembrou de algo?
— Sim. Quando fui atacada em Kianoides, a cidade acabou sendo envolvida no conflito. Pensei que a feitiçaria do Mestre Zagan os tivesse salvo.
Zagan de fato havia criado uma barreira para proteger Kianoides, portanto é provável que Nephy não tenha relatado o ocorrido por acreditar que aquilo fora obra sua.
— Agora, isso não lhe parece estranho? Digo, feiticeiros podem transformar os mortos em mortos-vivos, no entanto somos incapazes de trazê-los de volta à vida. Pelo menos, a feitiçaria impõe tais limitações. Dessa forma, o fato de ter conseguido realizar algo tão fora do nosso alcance prova que é uma alta-elfa.
Zagan viu-se incapaz de refutar Bifrons diante de tantas evidências acumuladas. Diante do seu silêncio, Bifrons assentiu com satisfação.
— Já se passaram cerca de trezentos anos desde que me tornei um feiticeiro, entretanto esta é a primeira vez que consigo encontrar uma alta-elfa. É muito irritante não ter conseguido colocar as mãos nela.
Zagan sentiu algo estranho despertar dentro de si com aquele comentário breve. Então lançou um olhar furtivo para Nephy, que empalidecera diante da realidade devastadora que lhe fora imposta. A situação era tal que ele temia que acabasse desabando se a conversa continuasse, por esse motivo hesitou em verbalizar suas dúvidas. Ainda assim, apesar de suas ressalvas, Zagan lançou uma pergunta a Bifrons.
— Então, está dizendo que o desgraçado que instigou o ataque à vila de Nephy... Foi você?
Os olhos de Nephy se arregalaram, como se não conseguisse acreditar. Quanto a Bifrons, este apenas assentiu, como se aquilo não tivesse a menor importância.
— Sim, é verdade, mas e daí? Embora tenha me esforçado muito para reivindicar uma alta-elfa, Marchosias a arrebatou de mim. E, como aquele velho morreu logo em seguida, perdi o seu rastro. E, para completar, ela acabou ficando com você.
— É... Mesmo... — murmurou Nephy, como se aquilo dissesse respeito a outra pessoa.
Hã? Parece que ela não se importa muito...
Não, não era que não se importasse. Na verdade, seria mais correto dizer que ainda não havia assimilado a situação por completo. Por ora, Zagan apertou a mão de Nephy com firmeza.
— Está tudo bem?
— Sim.
Contrariando as expectativas, Nephy respondeu com um aceno tranquilizador.
— Minha vila pode ter sido atacada por minha causa. Se for verdade, preciso assumir a responsabilidade, todavia não vou cair em desespero.
— Entendo... Nephy, você se tornou forte.
Depois que Zagan a elogiou, Nephy estufou as bochechas enquanto olhava para ele.
— Mestre Zagan, não foi o senhor quem me disse para me manter forte? — disse Nephy, sorrindo enquanto falava. — Suas palavras me salvaram, Mestre Zagan. Por isso, nunca mais vou me deixar levar por pensamentos tão desanimadores.
Zagan então recordou o que havia dito. Eles não estão mortos? Esqueça-os. Não há como continuarem reclamando a essa altura.
Foi o que Zagan lhe dissera ao saber do destino de sua vila. Parecia que Nephy havia guardado aquelas palavras com carinho e acreditado nelas de todo o coração.
Bifrons então fez uma careta de descontentamento, como se a sua reação fosse entediante a ponto de dar sono.
— Tsc... E eu que pensei que você ficaria um pouco mais surpresa. Bom, tanto faz. Ahaha.
A reação lembrava a de alguém lamentando o fracasso de uma brincadeira inofensiva. Contudo, não havia nada de errado nisso. Essa era a verdadeira natureza dos feiticeiros, e tal barbárie foi o que fez Zagan hesitar quando enfrentou os Arquidemônios pela primeira vez.
Não quero que a Nephy se envolva com essa gente, o que significa que preciso lidar com esses malditos Arquidemônios o mais rápido possível. Sim, os Arquidemônios não passavam de obstáculos que impediam sua amada de viver sob a luz do sol.
— Então, já te convenci de que é uma alta-elfa? Se sim, gostaria muito de prosseguir, já que esse não é o meu ponto principal aqui. — continuou Bifrons.
— Quer falar sobre Celestian, certo? — afirmou Zagan, e Bifrons assentiu em resposta.
— Desde que me tornei um Arquidemônio, venho estudando tudo relacionado a Celestian. — declarou Bifrons, fazendo uma pausa antes de apontar para o selo em seu braço esquerdo e dizer. — E, após todas as minhas pesquisas, concluí que este Selo do Arquidemônio é algo entrelaçado com fórmulas que utilizam Celestian.
Ao ouvir Bifrons ir direto ao ponto crucial da questão, Zagan ergueu a sobrancelha.
— Nesse caso, meu palpite estava certíssimo.
O único problema era que nem mesmo Nephy conseguia ler as letras presentes no sigilo. Adivinhando o que Zagan pensava, Bifrons assentiu com um ar de superioridade.
— O que está pensando está correto. Ainda assim, depois de pesquisar por trezentos anos, há um problema que não consegui decifrar por completo. E, como não é algo fácil de lidar, vem me atormentando por todo esse tempo.
Bifrons era um feiticeiro de aparência sinistra, entretanto seu poder como Arquidemônio era real. E parecia que nem mesmo esse Arquidemônio conseguia desvendar os mistérios do sigilo. Parece que essa jornada será bem longa.
Bifrons então apontou o dedo indicador para o alto e continuou a falar.
— Naquela época, quando Nephteros lhe mostrou o poder dela, você deveria ter entendido, mas...
Zagan inclinou a cabeça para o lado, soltando um — Hã? — e interrompeu Bifrons.
— Não vi aquilo, e é a primeira vez que ouço falar a respeito.
Após ser interrompido sem cerimônia, Bifrons ficou boquiaberto.
— Espere, não ouviu falar sobre? Sério?
— É. Não sei nada a respeito.
— Ora, ora... Não precisa brincar comigo desse jeito... O quê? Não vai levar a sério...? Espere, está falando sério que não sabia?
Totalmente surpreso, Bifrons olhou para Nephy.
— Hã, ele está brincando, né? Você... Não contou nada ao seu mestre?
— Eu não sabia bem como explicar o que aconteceu...
Bifrons aproximou-se dela, incrédulo, enquanto Nephy recuava para trás de Zagan e apenas respondia com um leve aceno de cabeça.
— O quê? Por que seria difícil? Nephteros, será que fez tão pouco que nem valeu a pena mencionar?
— Não recebi ordens para entrar em combate nem nada do tipo.
— Com a sua personalidade não tem como deixar passar a chance de provocar uma alta-elfa! — Bifrons exclamou, antes de começar a coçar a cabeça. Parecia que algo em seus planos não tinha saído tão bem quanto esperava. Esse fato agradou Zagan, que começou a acariciar com carinho a cabeça de Nephy como recompensa.
— Você aguentou firme, Nephy. Graças aos seus esforços, parece que conseguimos tirar o Bifrons do sério.
— F-Fico feliz em ajudar!
No fundo, talvez estivesse bastante angustiada com tudo aquilo. Mesmo assim, Zagan sentiu que aquela era a primeira vez em muito tempo que ouvia uma voz tão alegre vinda dela.
Extremamente desanimado, o pequeno Arquidemônio continuou falando em um tom exasperado.
— Bom, veja bem... Existe uma espécie de feitiçaria que criei usando os frutos dos meus trezentos anos de pesquisa sobre Celestian. Pense comigo, o misticismo é bastante instável, certo? Porém, se usarmos Celestian, ele pode ser controlado e desenvolvido em algo mais poderoso.
Zagan havia ensinado feitiçaria a Nephy em grande parte porque queria que tivesse um meio de se proteger, contudo também para ajudá-la a manipular de forma livre seu misticismo. No entanto, parecia que Bifrons havia levado essa pesquisa um passo adiante.
— É por esse motivo que, veja só, tentei fazer a Nephteros usá-lo perto da Nephy. E, sabe, não é como se eu estivesse em conflito aberto com você, então não dei uma ordem direta nem nada, embora meio que queria te provocar um pouco... Ou melhor, não, como posso dizer...
— Você é o pior! — respondeu Zagan.
— É... O pior. A Nephy ficou muito triste. — acrescentou Foll com desdém.
Diante de suas reações, Bifrons ficou mais desanimado.
— Eu odeio vocês. Não acham que deveriam demonstrar um pouco mais de respeito ao estarem diante de um Arquidemônio?
— Podemos ir para casa agora? — Zagan estava achando aquela discussão cada vez mais cansativa, entretanto Bifrons insistia em continuá-la, ainda com o rosto contorcido pela humilhação. Parecia haver algo que Bifrons queria desesperadamente que Zagan ouvisse.
— Enfim, Celestian é composto por palavras que contêm poder inato... Portanto, ao desenvolver feitiçaria com esse idioma, obtém-se o misticismo celestial!
— E então, fez aquela garota usá-lo? — Zagan olhou para Nephteros ao fazer a pergunta, e Bifrons assentiu em resposta.
— Exato. E, veja só, a Nephy nem sequer relatou isso ao seu mestre... Diga-me, esse poder não é algo notável?
Parecia que Bifrons estava mortificado pelo fato de o ápice de sua busca, que durara séculos, ter sido deixado de lado. E, quando Zagan fez uma expressão de exasperação, Bifrons se acalmou e limpou a garganta.
— Resumindo, este Sigilo do Arquidemônio também está entrelaçado com o Celestian e se encontra em um nível assustadoramente superior às minhas próprias criações. Essa é a minha conclusão. — disse Bifrons, antes de olhar para Nephteros e continuar. — Como pode ver, Nephteros também é uma alta-elfa e estudou misticismo celestial. Tentei fazer com que estimulasse a sua elfa, todavia parece que não obtive o resultado que esperava.
A cor de seus olhos era dourada e, em vez de cabelos brancos como a neve, os seus eram mais prateados. Ainda assim, Nephteros de fato possuía uma aparência muito próxima à de uma alta-elfa. Era da natureza dos feiticeiros querer colocar à prova os resultados de suas pesquisas, e isso parecia se aplicar também aos Arquidemônios. Porém, Zagan recordou-se de uma certa dúvida a esse respeito.
Achei que Bifrons tivesse dito que aquela era a primeira vez em trezentos anos que encontravam uma alta-elfa como Nephy... Nesse caso, de onde Nephteros veio? Era possível que tivesse servido a Bifrons antes de este encontrar Nephy, mas será que a semelhança absoluta entre seus rostos poderia ser realmente uma mera coincidência? Uma sensação indescritível de desconforto começou a surgir em Zagan. Não sabia dizer se Bifrons havia percebido suas dúvidas, contudo o outro então voltou o olhar para Nephy.
— Gostaria de verificar... Você consegue utilizar o misticismo celestial?
— Não tenho certeza. Se eu estudasse, talvez, no entanto nunca tentei.
— Hm, sinto que enfim obtive a resposta que esperava. Parece que nem mesmo os alto-elfos recebem o legado das técnicas de tradições perdidas.
Era óbvio que Bifrons estava empolgado por obter informações inéditas, embora seu tom também soava como se estivesse se gabando. Suspeitando do motivo, Zagan soltou um suspiro profundo antes de falar.
— Então, nos chamou aqui apenas para revelar os resultados da sua pesquisa?
— Fufufu, em parte, sim. Entretanto ainda não terminei de falar. Não tenha tanta pressa. — disse Bifrons, exibindo um ar de superioridade, antes de explicar. — Eu mencionei que este Selo do Arquidemônio foi tecido utilizando misticismo celestial, certo? Isso levanta a questão, qual é o seu propósito? E, como imaginava, a única pessoa adequada para discutir esse assunto é outro Arquidemônio que também mantém uma alta-elfa ao seu lado. Zagan, você tomou conhecimento da existência de demônios neste mundo, não é?
— Bem, sim. — admitiu Zagan. E aquilo fazia sentido, já que também estava procurando uma maneira de enfrentá-los.
— Entre esses demônios, como seria de esperar, existe um ser eterno que está acima de todos os outros. Dito isso, seria confuso chamá-lo de Arquidemônio, então vou apenas me referir a ele como o Lorde Demônio. A Igreja também concorda com essa denominação, então não estou sozinho nessa questão. É claro que, segundo eles, foram os doze portadores das Espadas Sagradas que puseram fim ao reinado de terror daquela criatura.
A atenção de Bifrons voltou-se para Chastille e Rafael. Como Bifrons vinha monitorando a dupla, era óbvio, todavia parecia que o Arquidemônio havia percebido que quem vestia a armadura de Valefor era Rafael.
Zagan então deu de ombros.
— As Espadas Sagradas são certamente poderosas, mas duvido muito que essa informação seja verdade.
No mínimo, Zagan não achava que seriam capazes de derrotar o demônio com quem ficara cara a cara. E aquele rei, lorde, deus... Ou o que quer que seja... Entre eles provavelmente teria sido muito mais difícil de enfrentar. Tinha certeza de sua dedução, porém Bifrons apenas balançou o dedo de um lado para o outro, fazendo um som de reprovação.
— Bem, eu, por exemplo, não acho que seja necessariamente uma mentira. Se ele foi despedaçado por doze Espadas Sagradas, então os restos estariam em treze pedaços, certo?
Existiam treze Sigilos do Arquidemônio. Ao se dar conta, Zagan baixou o olhar para o seu próprio sigilo.
— Em outras palavras, aquilo que foi despedaçado pelas Espadas Sagradas está contido em nossos sigilos?
— Fufufu, ora, pode ser mais direto. — disse Bifrons, estendendo o braço esquerdo, e continuou. — Acredito que o Sigilo do Arquidemônio é o que sela a carcaça do Lorde Demônio.
Zagan fechou a mão direita com força. Era algo que já intuía vagamente. Por que o demônio obedecia ao Sigilo do Arquidemônio? De onde vinha aquela quantidade colossal de mana? Além do mais, por que os sigilos ressoavam uns com os outros?
O Selo do Arquidemônio aprisiona o Lorde Demônio.
Na verdade, os treze Arquidemônios podem ter sido feiticeiros destinados a servir como guardiões do selo. Porém, hoje em dia, não passam de monstros desprezíveis aos olhos da população em geral.
Zagan então olhou para Chastille e Rafael.
Então, basicamente, as próprias Espadas Sagradas criaram aquele selo...? Mesmo que isso não fosse verdade, Bifrons parecia acreditar que esse fosse o caso. E, se fosse, então as Espadas Sagradas atuais haviam perdido seu poder original, ou talvez houvesse uma maneira diferente de usá-las.
Bifrons então interrompeu com um “no entanto”.
— Onde ocorreu a batalha deles? Pode ter sido nas regiões inexploradas de Norden ou na área onde a igreja estabeleceu sua cidade sagrada. Minha teoria é que a questão não foi resolvida em uma única luta; portanto, deve haver mais de uma possibilidade.
Zagan estreitou os olhos ao ouvir seu comentário.
— Espere, não está querendo dizer...
— Fufufu, parece que enfim percebeu por que estamos aqui, não é? — Bifrons disse, então, abrindo os braços de forma grandiosa, declarou. — Sim, uma batalha contra o Lorde Demônio ocorreu certa vez em Suflaghida.
Zagan notou então que o selo em sua mão direita... Cujo poder havia sido bloqueado durante o confronto com Bifrons... Pulsava como se contivesse calor.
Não pode ser... O selo não está reagindo a Bifrons, e sim ao próprio lago?
No instante em que Zagan percebeu isso, o selo de Bifrons começou a se encher com a luz da mana. E então ele se lembrou. Bifrons havia chamado o confronto com Zagan de “atração secundária”. Nesse caso, qual seria a atração principal?
— Pois bem, vamos revelar o que acontece quando dois Selos do Arquidemônio se reúnem na terra onde o Lorde Demônio lutou um dia!
Os Selos do Arquidemônio brilhavam cada vez mais intensamente. Desta vez, nem mesmo Zagan conseguia impedir... Por fim, o lago, antes sereno, tingiu-se com a cor do inferno.
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