sábado, 15 de agosto de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 03 — Capítulo 15

Capítulo 15: Um cruzeiro pode criar uma boa atmosfera

Quem será aquela garota...?

No dia do baile noturno, Nephy estava se vestindo dentro de uma loja de roupas.

Zagan havia lhe providenciado um vestido novo para usar no baile, mas nenhum dos dois sabia como vesti-lo. Na única vez anterior em que Nephy usara um vestido, alguém o havia colocado nela.

Quem estava apertando os laços do espartilho de Nephy, com suas belas asas verdes tremulando, era sua boa amiga Manuela. Havia um espelho de corpo inteiro diante de Nephy, que permanecia parada, de braços abertos, enquanto Manuela vestia a peça com uma habilidade admirável. Após ajustar a tensão do nó, sua amiga Manuela lhe fez uma pergunta.

— O espartilho está machucando?

— Não. Estou bem.

— Se pretende comer bastante, posso afrouxá-lo um pouco.

— Não vou comer tanto assim! — respondeu Nephy, tentando esboçar um sorriso amargo enquanto as pontas de suas orelhas tremiam. Porém, mesmo enquanto o fazia, o que de fato preocupava seu coração era a Nephy Sombria que a havia atacado em Kianoides.

Zagan a havia consolado, contudo aquela garota certamente estaria no baile para o qual se dirigiam. Ao pensar que a encontraria outra vez, Nephy sentiu medo.

“Eu... Sou você...” O que aquilo significava? Observando sua própria imagem refletida no espelho, Nephy tentou tocar a própria bochecha. Se as cores do rosto de Nephy fossem invertidas, o rosto daquela garota seria exatamente igual ao seu.

Acima de tudo, também era uma criança amaldiçoada com cabelos brancos como a neve. No entanto, seus olhos estavam distorcidos pelo ódio. Comparados aos de Nephy, que havia deixado tudo para trás, aqueles olhos eram como opostos absolutos.

E, mais do que isso, o poder que aquela garota detinha era assustador. Era uma feitiçaria que manipulava cristais. Era, sem dúvida, um poder aterrorizante; embora, se perguntassem se superava a feitiçaria que Zagan e Foll dominavam, a resposta seria um “não” categórico. Entretanto, tendo iniciado seus estudos de feitiçaria sob a tutela de Zagan, Nephy compreendia. Eu conseguia perceber exatamente o que aquela pessoa estava dizendo...

Era um poder com uma estrutura diferente da feitiçaria que aqueles dois manejavam... Um poder próximo ao misticismo. Embora o considerasse pavoroso, no instante seguinte, Nephy tomou o controle desse poder usando “aquela linguagem” e conseguiu comandá-lo à sua vontade.

Foi por esse motivo que as palavras da Nephy Sombria lhe cravaram o coração. “Aquelas palavras” eram sem dúvida algo ruim. E Nephy compreendia o significado delas e, talvez, o simples fato de pronunciá-las...

Será que eu também... Acabarei assim...?

Detestar algo, matar pessoas com calma, manejando aquele poder aterrorizante de maneira tão horrível. Será que Zagan lhe daria seu amor se fosse esse tipo de pessoa? Não, com certeza não. Se ela se agarrasse a ele, sem dúvida jamais a abandonaria. Mas se tornaria apenas uma parasita... Um estorvo.

Ser reduzida a alguém sem utilidade dessa forma seria insuportável. O motivo pelo qual retornou ao serviço de Zagan, após ter sido expulsa do castelo, era o desejo de apoiá-lo. Foi por essa razão que não conseguia se abrir sobre o assunto, sequer com Zagan. E, enquanto segurava os próprios ombros e tremia, uma mão envolveu com carinho seu braço.

— Nephy, você está bem?

Era Manuela. Antes de Nephy perceber, já havia terminado de vestir o vestido. Era uma peça de tons monocromáticos, tendo o branco como base e detalhes em preto como destaque. Havia também uma fita de um vermelho-carmesim intenso disposta ao redor do busto, criando um visual marcante. Considerando que o vestido havia sido escolhido por Zagan, Nephy sentia que era mais do que merecia.

Porém, balançou a cabeça, como se nada estivesse acontecendo.

— Estou bem. Estava apenas... Pensando um pouco.

— Contudo você não parece nada bem...

Manuela então apertou as bochechas macias de Nephy.

— Nephy, até em momentos normais a musculatura do seu rosto é rígida, no entanto agora ele parece uma máscara. Acha certo fazer essa cara quando vai a uma festa com o seu mestre?

— Isso... Não... Está certo.

— Não é? Então talvez seja melhor conversar sobre o que aconteceu.

À sua própria maneira, Manuela estava dizendo a Nephy que lhe daria um conselho. Sentiu-se grata pela preocupação, entretanto aquele era um assunto que sequer havia mencionado a Zagan ainda. Não era um tópico que conseguisse expressar em palavras tão facilmente.

E, como se pudesse ler o seu coração, Manuela observou de forma atenta o rosto da amiga pelo espelho.

— É sobre... Aquela feiticeira que causou confusão na cidade outro dia e que era igualzinha a você, Nephy?

O corpo de Nephy estremeceu num sobressalto. Não parecia que a própria Manuela tinha visto a cena, todavia se a notícia havia chegado aos seus ouvidos, significava que o assunto já circulava como boato pela cidade. Manuela então exibiu um sorriso travesso.

— Dá para ver na hora quando reage tão chocada, sabia?

Enquanto comentava, Manuela envolveu o corpo de Nephy com suas asas verdes, abraçando-a por trás, e continuou.

— Aquela garota era... Da sua família? Ou talvez uma conhecida?

— Não, acho que... Não nos conhecemos. — Nephy nunca a tinha visto na vila dos elfos onde morava. E, sendo sincera, se fosse da vila, Nephy teria ouvido boatos sobre uma garota que estivesse na mesma situação que a sua.

— É só que... Eu realmente... Não gostei dela.

— Bem, ela é o tipo de garota que atacaria de repente, bem no meio da cidade, então faz sentido.

— Não... Quero... Acabar como ela. — enquanto Nephy dizia isso, com a voz quase falhando, Manuela esfregou o rosto na sua bochecha, assim como Zagan havia feito outro dia.

— Sua boba, Nephy. Não tem como você acabar assim, né?

Manuela não sabia... Que Nephy entendia a língua que a Nephy Sombria usava, e que havia manipulado o poder daquela garota como se fosse seu. Porém, como não conseguia responder, Manuela continuou falando, achando a situação estranha.

— Se está tão preocupada, é só voltar para a minha casa. Sua irmãzona vai te fazer voltar a ser a Nephy de sempre a qualquer momento... Ou vai dizer que não confia em mim?

— Não é... Esse não é o caso.

— Então está tudo bem, né? Nephy, você tem a mim e ao seu mestre. Tem também a pequena Foll e todo o pessoal da cidade!

Nephy sentiu seu peito ser preenchido por um sentimento caloroso. Ela, que havia fechado o coração devido à solidão, agora estava sendo tratada com carinho por Zagan, Manuela e todos na cidade.

— Contudo, se eu me agarrar a alguém desse jeito, sinto que vou acabar odiando a mim mesma.

Enquanto dizia essas palavras com um tom de sofrimento, Manuela deu um leve golpe em sua cabeça.

— Nephy, isso não se chama “se agarrar”. Chama-se “contar com alguém”, não é?

— Contar com alguém...?

Nephy a olhou com surpresa, e Manuela acariciou gentilmente sua cabeça.

— É sim. Pode contar com a gente. Não ter ninguém com quem contar é muito triste, sabe?

Será que se agarrar e contar com alguém... São coisas diferentes?

Para Nephy, que sempre estivera sozinha na vila dos elfos, as duas palavras não pareciam nada diferentes. Se tentasse “se agarrar” a alguém, seria agredida e rejeitada, além de receber olhares de desprezo, sem exceção. “Contar com alguém” deveria ser a mesma coisa. Afinal, para uma criança amaldiçoada, o simples fato de existir já era um pecado.

Nephy havia desistido de “se agarrar” ou “contar” com os outros quando ainda era muito pequena.

O Mestre Zagan... É diferente de todos os elfos. Entendia isso, no entanto há muito tempo havia esquecido até mesmo o conceito de confiar nas pessoas. Não sabia ao certo como “depender” dos outros... Foi então que Manuela falou, como se conseguisse ler os pensamentos no seu coração.

— Então, se o Zagan acabasse em uma situação como a sua, o que faria?

— Não é óbvio? Gostaria que ele me contasse, aconteça o que acontecer, e eu o apoiaria... Ah... — enquanto se empolgava para defender seu ponto de vista com veemência, Nephy soltou um som confuso.

— É assim mesmo. Não é uma sensação ruim, né?

— Tem razão.

Se Nephy seguisse em frente por vontade própria, sem parar e se encolher, isto não seria “se agarrar” a ninguém. Não era o mesmo que ser uma parasita que só recebe sem dar nada em troca. E essa constatação permitiu que enfim desse um passo à frente.

— Vou... Tentar conversar direito a respeito com o Mestre Zagan.

Esse era o seu problema. Não importava quem fosse aquela Nephy Sombria, e ainda que algo em Nephy mudasse por causa do envolvimento com ela, precisava resolver essa questão.

É, eu quero que o Mestre Zagan saiba. Ao se decidir, não ficaria sofrendo sozinha com aquilo, em vez disso, abriria o coração para Zagan da maneira certa. Ao ouvir sua resposta, Manuela acariciou a cabeça de sua amiga, elogiando sua irmãzinha adorável.

— Ótimo, ótimo. Se algum dia sentir vontade de chorar, é só vir aqui. Eu até guardo segredo do seu mestre.

— Se esse dia chegar, vou contar com você! — respondeu Nephy obedientemente.

Achando a sua resposta inesperada, Manuela retribuiu o olhar com espanto. E, depois de um tempo, abriu um sorriso, como se tivesse pensado em alguma travessura.

— Fufufu, vou ficar esperando, viu? Tenho uma infinidade de lingeries para recomendar, sabia?

— Vou dispensar essa parte.

Ao ver sua amiga tirar uma calcinha que parecia feita apenas de tiras, Nephy recusou a oferta categoricamente.




***



Algumas horas depois, Zagan e os outros se reuniram no convés de um luxuoso barco de passageiros, capaz de suportar até uma viagem de vários meses. O barco, que flutuava nas águas de Suflighida, o maior lago do continente, era o local do baile noturno oferecido pelo Arquidemônio Bifrons. Enquanto observava a paisagem pela janela de um dos aposentos, Foll soltou um suspiro profundo.

— Estamos num navio... Né? Tipo, no meio do lago?

A imensidão do lago a levava a acreditar que este poderia engolir até mesmo uma ilha. Se partissem para o mar aberto, a costa desapareceria no horizonte; além do mais, a profundidade era tamanha que, não importasse o que fizessem, seria impossível mergulhar até o fundo.

Zagan e os outros foram conduzidos a uma cabine grande e toda mobiliada. O local contava com um salão que rivalizava em tamanho com o saguão de um castelo, e havia quartos privativos disponíveis para todos os presentes. Foll observava o exterior através de uma janela do salão. Era uma janela pequena e fixa, que não podia ser aberta, entretanto, devido à sua altura próxima ao convés, permitia ver o lado de fora.

Se fosse preciso classificá-la, é certo que seria uma cabine de primeira classe. Em um canto do salão, havia uma geladeira que utilizava feitiçaria para impedir que o gelo derretesse; em seu interior, encontrava-se até uma seleção de bebidas alcoólicas geladas. Além disso, havia presunto, queijo, chocolate e todo tipo de doces refinados, permitindo que sobrevivessem ali mesmo se ficassem presos por dias a fio.

Além de Foll, que permanecia junto à janela, Zagan, Nephy e Rafael também estavam reunidos no aposento. Os três estavam sentados, cada um à sua maneira, em cadeiras separadas. Chastille, por sua vez, ainda não havia chegado. Afinal, sendo uma Cavaleira Angelical, se fosse vista em clima amigável com o Arquidemônio Zagan em público, não dava para prever que tipo de inimigos poderia atrair. Tendo em vista esse cenário, decidiram se encontrar direto no local do evento.

Zagan vestia sua túnica habitual, enquanto Nephy e as outras usavam vestidos... Embora a decisão de vesti-las assim e a escolha de todos os trajes tivessem partido unilateralmente de Manuela. O vestido de Nephy tinha um estilo de cor única, ao passo que o de Foll apresentava uma saia curta com babados.

Quando os olhos de Zagan encontraram os de Nephy, as pontas de suas orelhas pontudas ficaram vermelhas e seu olhar se dirigiu para baixo, com vergonha. Quando ela foi se vestir, estava com uma expressão levemente perplexa, o que o deixou preocupado, todavia agora parecia estar bem. Suas inquietações haviam sido resolvidas...Ou melhor, parecia que havia reunido sai coragem.

E só por isso, Nephy parecia muito mais linda. O uniforme de empregada que costuma usar é adorável, mas aquele vestido é realmente lindo, não é?

E como, exatamente, deveria transformar esses sentimentos em palavras? Zagan não pôde fazer nada além de soltar um suspiro. O sol já havia se posto, porém ainda restava um pouco de tempo antes do início do baile noturno. Portanto, decidiram esperar. Enquanto passavam o tempo sem fazer nada em particular, Zagan baixou o olhar para o selo em sua mão direita.

Será que Bifrons já chegou? Desde que embarcaram no barco, o Selo do Arquidemônio de Zagan começava a pulsar, como se emanasse calor de tempos em tempos. Era possível que a proximidade de outro selo estivesse causando algum tipo de reação. Dito isso, Nephy e os outros deviam estar se sentindo tão inquietos quanto estava se sentido. E, nesse caso, não havia como ele próprio ficar exibindo tal expressão.

Num esforço para se distrair, Zagan voltou sua atenção para Foll. Os olhos cor de âmbar de sua jovem filha brilhavam, e percebeu que ela estava fascinada por algo.

— É a sua primeira vez em um barco?

— É... Quer dizer, não havia necessidade eu de andar em um.

— Entendo. É verdade.

Não lhe ocorria nenhum motivo real para que um dragão como Foll se dar ao trabalho de andar em um barco de humanos. Era possível que o fizesse por diversão, no entanto, sendo um jovem dragão, Foll nem sequer descia aos habitats humanos por conta própria... Além do mais, seu pai era o dragão aclamado como o Dragão Sábio Orobas. Era difícil imaginar que se disfarçaria de humano apenas para andar de barco.

— Está gostando?

— Hmm. Tudo balança. E é divertido.

— É disso que você gosta...? — Zagan achava que ela estava apreciando a vista, entretanto parecia que era o balanço do barco que a divertia.

Nephy então inclinou a cabeça para o lado.

— Mestre Zagan, o senhor já andou de navio antes?

Pela pergunta, parecia que aquela também era a primeira vez de Nephy em um barco.

Bem, dizem que a vila oculta dos elfos fica ainda mais ao norte, nas montanhas, do que Norden; então, fazia sentido. É provável que ela nunca tenha tido a chance de entrar em contato com barcos. Após pensar a respeito, Zagan assentiu com seriedade.

— Quando eu era um pirralho, caí na carga enquanto revirava tudo para tentar roubar comida. Aí, alguém fechou a tampa e embarcou a carga comigo dentro. Foi bom ter conseguido algo para comer, todavia escapei por pouco de sufocar.

Pouco tempo depois, um marinheiro ouviu barulhos e o resgatou da carga, embora tenha acabado sendo confundido com um clandestino e levou uma surra... Como Zagan tinha comido toda a comida que conseguiu encontrar lá dentro, não podia culpá-los por aquilo.

As orelhas de Nephy caíram, como se achasse a história de partir o coração, e fez alguns acenos em compreensão, como se aquilo tivesse acontecido com ela mesma.

— Entendo. Certa vez, também não consegui suportar a fome e tentei lamber um pouco de mel na despensa, mas acabei trancada lá dentro e quase morri congelada.

Zagan tentou imaginar a cena de uma jovem Nephy lambendo mel escondida, e seu peito começou a aquecer com uma sensação agradável, porém falou em um tom de voz ameaçador em resposta àquelas palavras imperdoáveis.

— Me de uma descrição detalhada de quem fez isso com você. Farei com que sintam a mesma agonia.

— Agradeço a consideração, contudo acredito que eles já tenham falecido.

Os elfos da vila de Nephy sofreram um ataque de humanos, e a maioria foi morta. É claro que foram eles que maltrataram Nephy, então Zagan não sentia nem um pingo de pena pelo seu destino; além do mais, Nephy vinha se esforçando para não se lembrar desse ocorrido. Ainda assim, Zagan balançou a cabeça.

— E daí que estão mortos? Existem inúmeros feitiços capazes de despertar os mortos. Não é nada demais, na verdade. É verdade que os mortos-vivos parecem não ter os cinco sentidos, no entanto suas personalidades permanecem. Há muitas maneiras de lhes infligir agonia.

Não era a especialidade de Zagan, só que, se fosse necessário, começaria a estudar o quanto antes. Por sua vez, Nephy balançou a cabeça, fazendo seus cabelos brancos como a neve balançarem junto.

— Não há necessidade de se dar a todo esse trabalho só para se vingar.

— Hmph... Você é tão gentil, Nephy.

— Mestre Zagan, você também não revidou contra quem o trancou no navio, não é?

Zagan ficou um pouco desconcertado com a lógica sensata que fora apresentada.

— Bem, as frutas que roubei eram deliciosas...

— Sim. O mel também era muito doce.

— Vocês dois... Tiveram uma vida difícil.

Enquanto os dois compartilhavam essa empatia, Foll voltou sua atenção para eles, demonstrando certo espanto. Zagan então limpou a garganta, como se quisesse mudar de assunto.

— Rafael. Imagino que já tenha andado de barco alguma vez.

Rafael, para quem Zagan voltou sua atenção, não estava usando sua roupa habitual, e sim uma armadura completa. Era a armadura de Valefor.

O rosto de Rafael era muito conhecido entre os feiticeiros. Tendo ciência desse fato, optou por usar a armadura que Foll manipulava antes. Havia o fato de que combinava com seu braço artificial, entretanto também continuava sendo a melhor escolha para ocultar seu rosto e assumir outra identidade.

Foi por isso que ele agora era “Valefor”. Todavia, tirava o elmo quando estava na cabine. E, após refletir um pouco, Rafael assentiu em resposta.

— Sempre que eu terminava de caçar feiticeiros até a exaustão, era enviado pouco tempo depois para a próxima frente de batalha. Matar feiticeiros a bordo de navios também não era algo incomum.

Como o próprio Rafael não nutria hostilidade contra eles, aquilo soava quase como uma piada. Então, murmurou com seriedade.

— O lago é agradável. O vento também é refrescante. A brisa salgada do oceano gruda até mesmo na Armadura Ungida. A sensação desagradável daquilo acabava deixando a minha expressão sombria sem que me desse conta.

A Armadura Ungida era um traje criado pela Igreja para combater feiticeiros. Dizia-se que quem a vestia era capaz de despedaçar a terra com as próprias mãos, graças ao poder sobre-humano que esta conferia.

Se a expressão daquele homem ficasse ainda mais sombria, sem dúvida pareceria um carrasco encarando suas vítimas com a foice em punho. Isto fez com que Zagan sentisse pena das pessoas que viajavam no mesmo navio que ele.

Zagan então voltou sua atenção para a armadura de Valefor.

— Falando em armadura, essa aí causa algum incômodo?

— Não. Pelo contrário, é até mais confortável do que a Armadura Ungida que fui obrigado a usar por tanto tempo. Com ela, não ficarei em desvantagem diante daquela corja maldita de feiticeiros.

Rafael era um Cavaleiro Angelical. Após perder o braço esquerdo na batalha anterior e descartar sua Armadura Ungida, ele ficava em situação crítica mesmo ao enfrentar feiticeiros de baixo escalão. Foi por essa razão que Zagan reconstruiu a armadura de Valefor como uma Armadura Ungida. Rafael então comentou, demonstrando grande interesse.

— Porém, meu senhor, o que é isso exatamente? O processo de fabricação da Armadura Ungida é mantido em segredo pela Igreja. Até para um Arquidemônio, não deveria ser algo que se possa criar de uma hora para outra.

— Bem, vejamos. Em primeiro lugar, é uma tecnologia que não tem qualquer utilidade para feiticeiros.

Ao ouvir sua resposta, Rafael inclinou a cabeça para o lado.

— A Armadura Ungida é um poder raro capaz de fazer frente a um feiticeiro. Alguém como você é um caso à parte, no entanto não seria um poder que valeria a pena pesquisar para um feiticeiro de baixo escalão?

— Isto não faz sentido. As Espadas Sagradas e as Armaduras Ungidas têm uma estrutura fundamentalmente diferente da feitiçaria, entende? Por mais que se pesquise, não há como aplicá-las à feitiçaria. E, deixando esse ponto de lado, um feiticeiro iniciante nem sequer saberia como conduzir tal pesquisa; portanto, não há benefício algum em investigá-la.

Até Zagan precisou dos livros do Palácio do Arquidemônio, de uma Espada Sagrada real e da companhia de Nephy para enfim chegar a esse ponto. E, ainda depois de tanto esforço para compreender o processo de fabricação, tratava-se de um poder que não se harmonizava de forma alguma com a feitiçaria. Em outras palavras, mesmo que um feiticeiro a pesquisasse, não haveria ganho algum. Foi por esse motivo que, certamente, nem sequer os Arquidemônios jamais fizeram uma real consideração em pesquisá-la. Até no legado de Marchosias havia poucos livros relacionados às Espadas Sagradas e às Armaduras Ungidas.

Enquanto conversavam, Foll desceu da janela e acomodou-se no colo de Nephy. Parecia que ela havia se interessado ao ouvir as palavras “Espada Sagrada”. Nephy, agindo com naturalidade, acompanhou o momento e acariciou a cabeça da menina. Zagan então começou a explicar desde o início.

— Vejamos, Rafael. Você sabe exatamente por que a Armadura Ungida da Igreja possui poder?

Em resposta, Rafael negou balançando a cabeça.

— Lamento dizer que não sei. Inscrições são desnecessárias para uma espada destinada a matar.

— Bem, tem razão. É provável que o que acaba de dizer se aplique a todos aqueles Cavaleiros Angelicais.

No fim das contas, nem Chastille parecia saber como a Armadura Ungida funcionava.

Havia papel e caneta disponíveis no quarto de hóspedes. Zagan os pegou sobre a mesa e começou a desenhar um certo emblema.

— A Armadura Ungida que você usava tinha esse emblema gravado nela.

A Armadura Ungida que Rafael vestia havia sido reduzida a pedaços na batalha anterior. Como perdera seu poder, Zagan a aceitou para fins de pesquisa; embora ao tentar analisá-la descobriu um talismã em seu interior com um emblema gravado.

Rafael e Foll observaram com atenção o emblema que Zagan desenhara.

— Esse é... O emblema gravado na Espada Sagrada?

— É. Não é igual nos mínimos detalhes, entretanto são os mesmos tipos de caracteres. Parece que gravar esses caracteres confere poder ao objeto. O que significa que as Espadas Sagradas e a Armadura Ungida utilizam o mesmo princípio para obter força.

Em outras palavras, Celestian. Todavia, Zagan fez uma expressão que indicava que todo aquele processo era bastante trabalhoso.

— Parece que esse negócio não pode ser usado como um circuito. Não houve efeito algum quando injetei mana nele. Também não fazia sentido adicionar circuitos, e parece pertencer a uma categoria diferente da feitiçaria dracônica.

Nesse caso, a pesquisa perdia todo o sentido sob a perspectiva de um feiticeiro. Zagan olhou para Foll; as tranças verdes da garota balançaram enquanto ela negava com a cabeça.

— Meu pai talvez soubesse algo a respeito, mas não é algo que me ensinou.

Foi por isso que sua pesquisa atingiu o limite por enquanto. E com um “hmm”, Rafael assentiu também.

— Então, por que você é capaz de manipulá-lo agora?

— É graças a Nephy! — respondeu Zagan, depois continuou. — Nephy olhou para sua Espada Sagrada e leu “Metatron” nela.

Ela foi capaz de ler a inscrição ainda quando o próprio portador original da espada, Rafael, nem sabia que a gravura era apenas o nome da espada. Nephy assentiu em resposta.

— Sim. É diferente das letras usadas na vila dos elfos, porém posso ter visto isto em algum lugar antes... Embora não é como se eu tivesse aprendido a ler ou escrever, então não entendo realmente o significado.

Além dos caracteres para Metatron e daqueles gravadas dentro da Armadura Ungida, Nephy não conseguiu escrever nada. Contudo mesmo assim, ser capaz de ler foi uma grande pista. Isso ocorreu porque a extensão de cada letra individual e onde ocorriam os delineamentos foram esclarecidos.

Poucos dias depois de Nephy deixar claro como lê-los, a pesquisa de Zagan sobre Celestian progrediu em grandes passos. E agora, até Zagan era capaz de ler e escrever até certo ponto.

— Ser capaz de lê-lo sem entender o significado deveria significar que, em qualquer caso, essas letras estão de alguma forma relacionadas a Nephy. — afirmou Zagan, depois fez uma pausa antes de dizer. — Pensei que se talvez fosse Nephy quem reproduzisse o desenho do brasão, então teria algum poder.

E essa foi a razão pela qual conseguiram preparar a Armadura Ungida para Rafael.

Pra não mencionar que, de acordo com Rafael, seu desempenho parece ser superior ao da Armadura Ungida normal.

O que devia significar que, em vez de ser reproduzido por alguém que não conhecia o significado, seria mais eficaz se alguém que entendesse as letras as escrevesse.

— Então sendo esse o caso, quem reconstruiu sua armadura como Armadura Ungida foi Nephy. Se Nephy não estivesse aqui, esta pesquisa não teria chegado tão longe.

— Fico feliz em ser útil para você, Mestre Zagan.

Eram palavras humildes, contudo ela também ficou feliz em ser elogiada. Suas orelhas estavam rígidas e tremendo de leve. Rafael colocou a mão no peito e curvou-se reverentemente diante dela.

— Como seria de esperar da Senhorita Nephy, a mulher que recebe o carinho de meu soberano.

— O-O qu...

E como esperado, ela foi incapaz de suportar os elogios vindos dos dois. Cobrindo o rosto corado enquanto continuava a encará-la sem jeito, Zagan continuou a falar.

— É bastante provável que estas sejam palavras de elfos, ou de uma raça próxima a eles. Existe um padre ou alguém na igreja com uma linhagem próxima aos elfos?

Era provável que houvesse um parente próximo de um elfo ou um ser semelhante que fabricasse a Armadura Ungida, entretanto Celestian deveria ter sido uma língua perdida até mesmo para a igreja. Certamente foi esta a razão pela qual eles não conseguiram entender seu significado com a mesma precisão que Nephy.

E é provavelmente por isso que existem apenas doze Espadas Sagradas também.

Como Celestian foi perdido, não conseguiram produzir mais. E tendo percebido essa possibilidade, Foll arregalou os olhos.

— Então, Nephy também pode reproduzir uma Espada Sagrada?

Era uma pergunta óbvia, e Nephy balançou a cabeça.

— Não. Eu tentei fazer, mas não funcionou.

— Hm... É provável que seja necessário um ritual que envolva um local ou condição específica. Se fosse tão fácil de fazer, a Igreja e os elfos sem dúvida já teriam cooperado para criar mais delas.

É claro que ela conseguia dotá-la de certo nível de poder, contudo não havia comparação possível com a Espada Sagrada original.

Mesmo Nephy, capaz de criar Armaduras Ungidas mais poderosas que as originais, só conseguia reproduzir uma fração do poder destrutivo das espadas autênticas. A menos que uma série de condições fosse atendida, era improvável que chegasse a produzir uma décima terceira Espada Sagrada.

Bom, não é como se eu quisesse uma Espada Sagrada ou algo do tipo, então tanto faz.

No máximo, Zagan buscava obter uma contramedida contra demônios e descobrir os segredos do Selo do Arquidemônio. O motivo de estar investigando as Espadas Sagradas era que o Selo do Arquidemônio e as Espadas Sagradas compartilhavam semelhanças no design de seus emblemas.

No entanto, nem Nephy conseguia decifrar os caracteres do Selo do Arquidemônio. O selo lembrava a língua Celestian, embora parecia impossível desvendá-lo por completo apenas com base nesse idioma.

Ainda assim, não acho que não tenham nenhuma relação.

Zagan compareceu ao baile noturno de Bifrons, em grande parte, na esperança de obter novas informações sobre o assunto. Após refletir por um momento, fechou a mão direita com força.

— De qualquer forma, a pesquisa está começando a dar resultados. Nephy, daqui em diante, vou precisar que colabore comigo nisso regularmente. Foll, Rafael, vocês dois também vão ter que ajudar.

— Hmm. Farei o meu melhor.

— Como desejar. Pode deixar todos os assuntos domésticos por minha conta.

— Espero muito de você.

Ao contrário de sua aparência demoníaca, Rafael lidava com perfeição com todas as tarefas domésticas na função de mordomo. Ele o fazia tão bem que, sem querer, despertava o espírito competitivo de Nephy.

Bem, com a redução da carga de tarefas domésticas que ela precisa realizar, posso passar mais tempo com a Nephy... Sou grato por isso.

Zagan estreitou os olhos mais uma vez enquanto se jogava em uma cadeira.

— Entretanto, a questão do momento é o baile noturno de Bifrons.

Não havia a menor chance de terem convidado Zagan apenas para uma confraternização amigável.

— Bifrons deve estar planejando aprontar alguma bobagem durante o baile. Nosso oponente é um Arquidemônio, então não percam o foco.

Ao ouvir a instrução para se prepararem, Foll e Rafael assentiram. Ao ver os dois, Nephy apertou a saia com força e abriu a boca para falar, como se tivesse enfim chegado a uma conclusão.

— Hmm, Mestre Zagan. Há algo sobre o qual eu gostaria de falar...

— Perdoem a intromissão.

Sem sequer bater, a porta do recinto se abriu, interrompendo o que Nephy ia dizer. Ousar interromper justo quando Nephy estava prestes a falar? Será que não sabem ler o maldito clima? Quem abriu a porta era apenas um jovem feiticeiro, todavia Zagan o fulminou com um olhar carregado de ódio.

— Iiih, ah, não...

O jovem feiticeiro deve ter percebido que havia cometido um erro, caiu sentado no chão e começou a tremer sem parar.

Será que devo estrangulá-lo até a morte aqui mesmo? Zagan começou a reunir mana na mão, mas Nephy balançou a cabeça como se aquilo não fosse nada demais.

— Mestre Zagan, por favor, contenha sua raiva. Essa pessoa não tem algum assunto para tratar com o senhor?

O jovem feiticeiro assentiu rapidamente com a cabeça, como se tivesse sido salvo pelas palavras gentis de Nephy.

— E-Err... A companheira do Arquidemônio Zagan acabou de chegar.

Companheira...? Chastille, é? Nesse caso, não podia apenas ignorar. Então, Zagan levantou-se a contragosto.

— Entendido. Vou agora mesmo.

E então, ele olhou para Nephy.

— Desculpe. Então, o que você ia dizer?

— Não, não era nada. — disse Nephy, com as orelhas caídas. Estava claro que havia perdido o ânimo.

E eu que pensei que ela fosse me contar quem a atacou na cidade... Parecia que enfim ia falar sobre o que aconteceu; por isso, o feiticeiro que interrompeu a conversa tornou-se ainda mais irritante para Zagan.

E então, bem quando estavam saindo do quarto de hóspedes...

— Kekekekeke...

Ouviu-se uma risada familiar que parecia antinatural.

— Zagan. O que houve? — Zagan parou, e Foll inclinou a cabeça para o lado, curiosa, ao fazer a pergunta.

— Não, não é nada.

Será que, por acaso, já estamos presos na teia de Bifrons?

Com uma apreensão no peito que não combinava nem um pouco com o início de um banquete, Zagan seguiu para o convés do navio.



***



— Zagan, há algumas coisas que gostaria de deixar claras. — disse Chastille. Parecia que estava esperando por eles no convés. Ela vestia um vestido escarlate que combinava com o cabelo e tinha um tecido decorativo branco puro enrolado na cintura. Olhando de forma objetiva, não era um visual ruim. Sua Espada Sagrada parecia estar escondida em algum lugar, já que não portava uma grande espada. Ao que tudo indicava, foi a última convidada a embarcar, pois o barco começou a se afastar silenciosamente do porto logo após se reunirem. O lago se ramificava em vários rios, e um destes levava até Kianoides; o qual era provável que Chastille havia usado para chegar ali.

Chastille parecia prestes a chorar enquanto permanecia imóvel no convés; sequer terminou a frase, o que deixou Zagan bastante confuso.

— Hã? O quê? Pode falar.

Enquanto a questionava, Chastille olhou ao redor do convés com uma expressão pálida.

— Este é... O local do baile desta noite, não é?

— É, é aqui. Bifrons tem bom gosto; realizar o evento em um barco é uma ótima ideia.

O sol já havia se posto enquanto o grupo conversava no salão. Por isso, o lago estava tingido pelas cores do anoitecer e, talvez porque a lua estivesse escondida pelas nuvens, a única fonte de iluminação eram as velas sobre as mesas. Era um ambiente de penumbra onde, bastava afastar-se alguns passos de alguém, para que já não fosse possível distinguir o rosto da outra pessoa.

Em meio ao preconceito contra feiticeiros propagado pela Igreja, existia algo chamado “sabá”. Tratava-se de um ritual suspeito no qual feiticeiros... Supostos adoradores do diabo... Se reuniam.

Na realidade, a maioria dos feiticeiros sequer cogitava cooperar entre si, muito menos realizar qualquer tipo de assembleia. Além do mais, nenhum deles adorava algo como o diabo. Ainda assim, a atmosfera daquele local lembrava tanto um sabá que qualquer tentativa de defender os feiticeiros seria inútil.

Além disso, o barco de passageiros flutuava completamente isolado em um lago imenso. Se um assassino, talvez alguém ligado à Igreja, se aproximasse, eles perceberiam em pouco tempo; ou então, poderiam mover o barco a qualquer momento e jogar o intruso ao mar. Qualquer pessoa que causasse problemas poderia ser afastada da mesma maneira; era, portanto, o local ideal.

Enquanto esses fatos se organizavam em sua mente, Zagan observou outra vez as condições do barco. Seu comprimento total equivalia à extensão de uma arena, de ponta a ponta. Era certo que tinha capacidade para acomodar até dois mil passageiros. Tratava-se de um veleiro com três mastros de aparência robusta e várias velas pendendo deles. No convés principal, havia diversas mesas alinhadas, decoradas com cruzes vistosas e uma variedade de garrafas de bebida e taças. Talvez por ser operado por meio de feitiçaria, não se via nada que lembrasse uma tripulação. Ao todo, não deviam existir nem cinco navios daquele porte em todo o continente.

Parece que também separaram bebidas de boa qualidade... Zagan pegou uma das taças para provar e constatou que a bebida era excelente. Ainda não entendia muito de marcas ou coisas do gênero, mas aquela bebida não deixava nada a desejar em relação à que Barbatos lhe trouxera antes. Enquanto examinava o convés, Zagan inclinou a cabeça para o lado.

— Então, há algum problema ou algo assim?

— Não, é que... — Chastille fez uma expressão de desconforto e olhou ao redor do convés mais uma vez, antes de dizer. — D-Digamos apenas... Que a escuridão não incomoda... Porém por que essa música de arrepiar?

Havia um piano em um canto do convés e, ao lado dele, vários músicos estavam perfilados com violinos, flautas e diversos outros instrumentos, tocando uma melodia sinistra. A cantora era uma ondina... Não, uma variante de sereia. Era uma jovem bela de cabelos azuis, contudo a metade inferior de seu corpo assemelhava-se ao de uma cobra, de um peixe ou algo do tipo.

Levando em conta todo o restante no barco, ela era a única flor a desabrochar naquele baile noturno e sombrio. Foi uma escolha de bom gosto.

— É porque este é um baile noturno. Há muitas pessoas aqui que desejam conversar sem serem ouvidas por outros. Isso talvez ajude a mascarar as vozes desse tipo de gente.

Para começar, se um feiticeiro estivesse de fato tentando espionar, aquele nível de ruído não faria a menor diferença. No entanto influenciava a sensação do ambiente. E, depois que explicou isso a ela, a expressão de Chastille tornou-se ainda mais sombria ao apontar para os músicos.

— Então, o que são aqueles músicos? Hum, eles não parecem estar... Vivos...

Quem tocava os instrumentos eram esqueletos vestidos com trajes bastante simples. Parecia que os ossos eram bem conservados, pois não apresentavam sinais de deterioração nem cheiro de podridão. Entretanto, ossos não conseguem produzir voz. A cantora sereia estava cercada pelos mortos-vivos, tremendo onde estava. Mesmo assim, ao ver que sua canção não era afetada, até Zagan teve de admitir que era uma profissional.

— Bem, o mais provável é que são familiares de Bifrons ou algo do tipo. A cantora certamente é uma sereia contratada, já que a sua voz não é nada ruim.

À medida que a música avançava para o clímax, ouviu-se uma voz que lembrava o grasnido agonizante de um corvo. O simples fato de a garganta dela não ter parado de funcionar com aquilo era impressionante. Chastille fez uma expressão de incredulidade.

— Será que os feiticeiros... Dançam ao som desse tipo de música?

— Hã...? Dançar? Do que está falando? — Zagan inclinou a cabeça para o lado, achando aquela ideia estranha, enquanto as orelhas de Nephy começavam a tremeluzir.

Será que ela tem interesse em dançar?

Porém, Zagan nunca havia dançado antes. Enquanto se perguntava o que deveria fazer, Chastille começou a tremer enquanto continuava a falar.

— É um pouco tarde para perguntar, mas o que exatamente é um baile noturno para você?

— Como assim...? Não é óbvio que é um lugar onde feiticeiros fazem acordos uns com os outros?

Chastille ficou chocada com as suas palavras.

— Se é assim, então deveria ter me avisado antes! Acabei vindo com esta roupa, afinal! — Chastille havia ido ao baile usando um vestido que uma nobre usaria em uma festa. Ao observar melhor o seu traje, Zagan assentiu.

— Bem, não está ruim, está?

— S-Sério? Você acha que combina... Espere, não é isso que quero dizer!

Zagan então inclinou a cabeça para o lado, como se não entendesse aonde Chastille queria chegar.

— Nephy e Foll estão usando o mesmo tipo de roupa. Há algum problema?

Mesmo sendo diferente de um baile da nobreza, ainda era uma reunião formal. Os conceitos de “feiticeiros” e “etiqueta” eram contraditórios, contudo o bom senso ditava o uso de roupas formais em tais situações... Bem, Zagan estava usando sua túnica habitual, embora aquilo era traje formal para um feiticeiro.

Olhando ao redor do convés, também viu outros feiticeiros bem-vestidos aqui e ali. Parecia que nem todos os feiticeiros negligenciavam a aparência pessoal como Zagan e Barbatos. Nephy então tentou confortar Chastille.

— Combina muito bem com você, Chastille.

— A-Ah, Nephy, seu vestido também combina... Espera, já disse que não é disso que estou falando. — Chastille parecia prestes a cair no choro a qualquer momento enquanto apertava a saia, e então baixou a voz para reclamar.

— Por mais que eu pense nessa situação... Sou uma Cavaleira Angelical, e todos ao meu redor são feiticeiros, sabe? Ao ouvir aquilo, Zagan enfim entendeu o que queria dizer... Não, se fosse possível, na verdade não queria entender. Zagan então olhou para ela, atônito, como se não conseguisse acreditar.

— Acho que não é possível... Você não veio desarmada, não é?

É claro que, vestida daquela maneira, estava na cara que não carregava uma grande espada, no entanto ele imaginou que pelo menos a traria a bordo como bagagem. Para fazer frente às capacidades físicas dos feiticeiros, os Cavaleiros Angelicais da Igreja usavam armaduras chamadas “Armaduras Ungidas”, nas quais milagres haviam sido lançados. Até a armadura de Rafael fora reconstruída especialmente para tal tarefa. Entretanto, mesmo aparecendo daquela forma, Chastille possuía poder suficiente sem precisar da Armadura Ungida. Por isso, Zagan achava sua coragem admirável, todavia...

Chastille começou a tremer onde estava enquanto assentia.

— Eu... Pelo menos trouxe minha Espada Sagrada. Só que... Não trouxe nenhuma outra arma...

Ao ouvir aquilo, Zagan levou a mão ao rosto.

— Tenho certeza de que mencionei que se tratava de um baile noturno...

— Um baile noturno não é, geralmente, uma festa? Então... Pensei que tivesse me convidado para... Aquele tipo de...

Não seria nada estranho se a Igreja invadisse um baile noturno. Por esse motivo, Zagan jamais imaginou que uma Arcanja.... Mesmo alguém como Chastille... Desconheceria a verdadeira natureza de seu convite.

Como Zagan não sabia o que dizer, Rafael, com o rosto oculto pelo elmo de Valefor, soltou uma gargalhada sonora e ergueu a voz em seu lugar.

— Absurdo! Se é a sua espada, aclamada como a mais veloz entre os Arcanjos, então você poderia derrubar essa corja maldita de feiticeiros antes que eles lançassem um feitiço, certo? Não merecem tamanho temor.

— Foi você quem me disse para ser o estandarte da Facção de Unificação, não foi? Então por que está falando como se eu fosse matá-los?

— Porque toda a minha carreira foi assim!

Aquele ex-Arcanjo, Rafael, era um homem que havia abatido quase quinhentos feiticeiros em legítima defesa.

Depois de gritarem um com o outro, Chastille de repente ficou em silêncio. No entanto, todos os feiticeiros ao redor voltaram seus olhares para ela simultaneamente.

Bem, se gritar tão alto, é óbvio que todos vão ouvir...

Se um feiticeiro quisesse, poderia ver tudo com clareza, até em um ambiente tão pouco iluminado. E, mesmo com a música agitada tocada pelos artistas, as vozes de Chastille e Rafael ecoaram pelo convés. Após aquela cena, todos os feiticeiros que estavam no convés a observavam atentamente.

— Aquela mulher... Ele disse que ela é uma Cavaleira Angelical, não foi?

— Seu rosto me parece familiar... Ah, já sei. É a única Arcanja mulher.

— Aquela maldita igreja... Não acha que eles estão invadindo um baile noturno patrocinado por um Arquidemônio, acha?

— Não se ache tanto... Vamos matá-la?

Como era de se esperar, as pessoas convidadas para o baile noturno de um Arquidemônio eram bastante cruéis. Em vez de recuarem, todos os feiticeiros ferviam de raiva. Zagan então soltou um suspiro, como se toda a situação fosse bastante cansativa.

Se ela for expulsa sem sequer levar sua Armadura Ungida, quem sabe o que pode acabar acontecendo depois...

Por dentro Chastille estava um tanto abalada, entretanto sua aparência externa estava impecável. Afinal, sabia que a maioria dos feiticeiros não era gentil o suficiente para deixar uma inimiga, que invadira o local desarmada, sair com o corpo intacto.

Zagan então abriu sua capa enquanto falava.

— Que garota problemática. Suponho que não tenha escolha, então... Venha comigo.

Como não sabia o que Bifrons estava tramando, Zagan não queria chamar atenção desnecessária. Porém, acabara de perder a oportunidade de fazê-lo. Cruzando intencionalmente para o centro do convés, começou a caminhar em direção à proa do barco. Nephy e Foll alinharam-se atrás dele, e Rafael também os seguia, logo na retaguarda.

E, como se aquele fosse o momento ideal, os músicos mudaram a canção e começaram a tocar uma peça solene, arrancando de Rafael uma exclamação de admiração.

— Ora, vejam só... Esta música é a “Marcha do Lorde Demônio”, não é? Parece que aqueles músicos entendem um pouco do assunto.

Zagan não conhecia a música, mas, pelo visto, era uma composição feita para retratar a invasão do rei dos demônios acompanhado por seus servos. Era uma melodia que, apenas pelo som, despertava uma sensação indescritível de inquietação.

E foi justamente por essa razão que olhares de reverência se voltaram para Zagan enquanto caminhava com imponência por entre a multidão. Chastille, então, ergueu a voz, visivelmente agitada.

— Ei, o que você está pensando ao caminhar direto para o meio deles?

— Em momentos assim, é preciso agir com ousadia. Afinal, se eu, um Arquidemônio, demonstrasse hesitação numa hora dessas, eles tentariam arrancar minha cabeça na primeira oportunidade.

— I-Isso pode até ser verdade, contudo... — Chastille falou com um tom de ansiedade, embora continuou a segui-lo. E, ao verem Zagan avançar como se estivesse exibindo seu grupo, os feiticeiros começaram a cochichar entre si.

— Droga, aquele é o Zagan.

— O novo Arquidemônio, hein? Olhe só, aquele logo atrás é o Aparição Valefor.

— Diziam que ele tinha sido morto, no entanto acho que escolheu servir ao Zagan...

Enquanto ocultava o rosto com um elmo em formato de serpente, Rafael era reconhecido como Aparição Valefor. Apesar disso, caminhava atrás de Zagan com uma expressão despreocupada. Em seguida, os olhares deles se voltaram para Nephy.

— Quem é aquela elfa de cabelos brancos?

— É a noiva daquele cara. Tenham cuidado. Dizem que o Purgatório foi despedaçado por tentar dar em cima dela.

— É. Dizem que, depois de ser torturado por sete dias seguidos, permitiram que o Purgatório vivesse após jurar obediência absoluta a ele.

Purgatório era o segundo nome de Barbatos. Era verdade que Zagan havia surrado Barbatos, entretanto parecia que alguns rumores estranhamente exagerados estavam circulando.

Pensando bem, se Chastille está aqui, será que Barbatos também veio junto?

Aquele homem parecia incapaz de conter a raiva por não ter sido convidado para o baile noturno. Era bem possível que tivesse vindo usando a desculpa de ser o acompanhante dela. Depois de tudo, toda a atenção se voltou para Foll, que caminhava cambaleante ao lado de Nephy.

— Aqueles chifres... Aquela pequena atrás é um dragão?

— Suponho que sim... Não sei ao certo quem é, todavia dizem que Zagan matou Rafael por causa da posse daquela garota.

— Então é verdade que acabou com aquele caçador de feiticeiros?

A história de que Zagan derrotou Rafael fora espalhada por ele mesmo, de propósito. O fato de ter eliminado o Arcanjo “mais temível” foi eficaz para conter a hostilidade dos tolos que tentariam usurpá-lo. E parecia que seu plano havia funcionado justo como esperava. Após terminarem de discutir o seu feito, a atenção dos feiticeiros enfim se voltou para Chastille.

— Se aquela mulher está ali ao lado dele, será que significa que Zagan tem até a Donzela da Espada Sagrada sob seu domínio?

Chastille fez então uma cara de insatisfação.

— Sob o seu comando... Não me lembro de ter concordado em ser sua subordinada.

— Deixa quieto. Se não fizer isso, vai acabar morta.

— Iiiih! — Chastille agarrou-se ao braço de Zagan, soltando um gritinho. Ao verem aquilo, todos os feiticeiros soltaram um suspiro.

— Olha só. Essa é a cara de uma amante.

— Entendo... Então isso significa que é a amante do Zagan, né?

Ao ouvir esses rumores, o rosto de Chastille ficou vermelho como um pimentão.

— Q-Quem é amante?

— Quieta, Cabeça de Cavalo. Quer morrer? — disse Foll, dando um tapa no traseiro de Chastille.

Se Chastille não parecesse fazer parte do grupo de Zagan, não havia como os feiticeiros presentes no baile noturno a deixarem viver.

— U-Ugh! Hic...

Depois de levar uma bronca até mesmo de Foll, Chastille soltou um gemido envergonhado, com os olhos marejados. Por sorte, a hostilidade dos feiticeiros ao redor havia desaparecido. Enquanto terminavam de atravessar o convés, Zagan posicionou-se em um assento preparado na proa do barco. Queria sentar-se na cadeira e relaxar, porém Chastille não soltava seu braço.

— Ei, para com isso.

— V-Você está enganado! Isto é... Hmm... Meu braço está totalmente travado, então...

Aquela garota tímida provavelmente não sentiu qualquer alívio por ter sobrevivido após passar desarmada por um grupo inteiro de feiticeiros. E Zagan não conseguia se livrar do seu braço, que o apertava com força. Ao ver aquilo, numa reação incomum, as orelhas de Nephy começaram a tremeluzir com certo nervosismo.

— Então, quer que eu ajude?

— Iiih, d-desculpa...

A expressão de Nephy continuava a mesma de sempre, contudo havia uma raiva fria em sua voz. Talvez percebendo esse tom, Chastille deu um salto e conseguiu se soltar do braço de Zagan.

De certa forma, esse tipo de reação da Nephy é bastante revigorante...

Nephy era alguém que se dedicava bravamente por Zagan, no entanto era raro que deixasse transparecer o desejo de monopolizá-lo. Havia também o fato de que não era boa em declarar suas próprias intenções; entretanto, em um nível mais fundamental, Zagan e Nephy estavam sempre sozinhos um com o outro. Por isso, não havia muitas oportunidades para ela demonstrar tal atitude.

Ainda que estivesse irritada, Zagan sentia-se feliz por ver uma faceta sua que não costumava ver. Enquanto a observava, Zagan acomodou-se na cadeira. Como era o assento situado na parte mais recuada da proa, ficava em um nível mais elevado e oferecia uma visão desimpedida do convés. Era, de fato, o lugar reservado para o convidado de honra.

Enquanto Zagan se sentava, Nephy e Foll posicionaram-se à sua esquerda, e Chastille e Rafael, à sua direita. Apoiando o cotovelo no descanso de braço, ele cruzou as pernas numa pose imponente e lançou um olhar severo sobre o convés. E, quando Zagan exibiu um sorriso destemido, os feiticeiros engoliram em seco, nervosos.

— Então esse é... O Arquidemônio Zagan e seus aliados de confiança, hein?

— Zagan era quase um desconhecido até alguns meses atrás; como será que subjugou aquele bando?

Era trabalhoso manter aquela postura imponente, todavia ver o espanto deles também era, de certa forma, gratificante. Após contemplar o navio, Zagan pegou uma taça de vinho da mesa e voltou sua atenção para os feiticeiros reunidos mais uma vez. E, por iniciativa própria, os músicos também interromperam a apresentação de repente.

O convés do navio mergulhou em silêncio absoluto.

— Parece que nem preciso me apresentar, mas eu sou Zagan. Aquele a quem foi confiado o posto mais baixo entre os Arquidemônios.

Sua voz não era particularmente alta, porém ressoou calmamente até a popa do navio. Então, Zagan ergueu sua taça de vinho no ar.

— Parece que o anfitrião ainda não chegou, contudo vamos aproveitar, senhores.

Os feiticeiros então pegaram as taças, sem se importar de quem eram, e brindaram. Embora fosse algo superficial, aquele foi o momento em que os feiticeiros reunidos aceitaram Zagan como um Arquidemônio.



***



Depois que Zagan terminou sua taça de vinho, a música barulhenta começou a tocar outra vez. Graças ao seu blefe ostensivo, a hostilidade que antes se voltava para Chastille parecia ter desaparecido. Ao constatar isso, Zagan soltou um suspiro desconcertado.

Não levo muito jeito para encenar tamanha fanfarronice. O tempo que passou no castelo, lendo todos os grimorios que encontrava e relaxando com Nephy e Foll, valeu centenas de vezes mais a pena. Ainda assim, tentando encontrar algum valor na situação, Zagan observou os feiticeiros no convés.

Era um truque que os outros feiticeiros já utilizavam, no entanto, ao usar feitiçaria para intensificar um pouco a luz em seus olhos, garantiu que seu campo de visão fosse tão claro quanto à luz do dia.

Há vários rostos conhecidos aqui, hein? Zagan não costumava acompanhar informações sobre outros feiticeiros, entretanto, mesmo assim, conhecia pelo menos os nomes e rostos dos antigos candidatos a Arquidemônio... Dito isso, só os conhecia porque Barbatos havia falado sobre eles antes.

Naquele local, estava Lâmina Negra Kimaris. E havia também alguém semelhante à Encantadora Gremory, todavia, comparado a antes... Bem, de alguma forma, sua aparência e idade pareciam diferentes.

Acho que não dá para confiar muito na aparência de um feiticeiro. Para começar, a última vez que a vira fora em um leilão mal iluminado. Não tinha chegado a ver o rosto dela com clareza, então era apenas uma sensação de que algo estava diferente. Enquanto observava o convés, Foll de repente espiou o rosto dele.

— Zagan, Zagan! — Foll gritou e girou no próprio eixo de forma brincalhona, como se quisesse chamar a sua atenção para algo.

Pensando bem, eu não elogiei o seu vestido nem nada do tipo, não é? Infelizmente, antes que pudesse o fazer, houve aquele deslize verbal de Chastille, mas essa não era uma desculpa, falhara em seu papel de pai. Então, Zagan assentiu de maneira enfática.

— Combina muito com você. Você gostou?

— Hmm. Estas roupas... São fofas.


Só que elas são fofas porque é você quem as veste... A garotinha era fofa de um jeito diferente de Nephy. E Zagan, como esperado, começou a acariciar a cabeça de Foll para acompanhar o elogio. A jovem dragão semicerrou os olhos, como se estivesse gostando da sensação, e logo em seguida começou a puxar a barra do vestido de Nephy.

— E quanto ao vestido da Nephy?

— Hmm. Não é óbvio que é lindo?

— Mestre Zagan, isso é constrangedor.

As pontas de suas orelhas ficaram tingidas de vermelho, e Nephy se mexeu, inquieta. Seu comportamento tímido era muito mais encantador do que antes, deixando Zagan fascinado. Por fim, após limpar a garganta, voltou a observar as duas.

— Ah, enfim... Como é usar esse vestido?

— Bem, acho que é fácil de se mover com ele e bastante bonito... Hmm, é... Muito melhor do que aquele que eu usava quando o conheci, Mestre Zagan.

— E-Entendo...

Se falar desse jeito, vou acabar perdendo minha compostura!


O vestido branco imaculado que Nephy usava quando se conheceram também era lindo, mas Zagan queria que vestisse algo um pouco mais alegre. Como o próprio Zagan não conseguia explicar bem o que isto significava, teve de recorrer à ajuda de Manuela... O que foi um tanto incômodo, porém... Bem, mesmo assim, aquela funcionária extravagante preparou um traje que atendeu perfeitamente às suas expectativas. O vestido desta vez tinha um acabamento esplêndido, de tirar o fôlego.

Em momentos assim... Eu só queria ficar a sós com ela...

Esse tipo de pensamento era um tanto descabido em um baile noturno de feiticeiros, contudo Zagan amava tanto Nephy que não conseguia evitar. Para se distrair desses pensamentos, olhou para Chastille.

— Por enquanto, é improvável que haja idiotas que ousem provocar minha hostilidade. Desde que aja com cautela, deve ficar tudo bem. Faça como quiser daqui em diante. — disse Zagan, insinuando que deveria ter tato. Chastille ajeitou a franja para trás e retribuiu o olhar dele com firmeza.

— Deixe-me perguntar, você realmente acha que isso é suficiente nesta situação? — Chastille falou com determinação... Ou melhor, com os olhos cheios de lágrimas, e Zagan não conseguiu evitar um suspiro.

Se tem consciência da situação, não deveria tentar consertar? É muito melhor do que cometer erros graves sem perceber, no entanto...

Enquanto Zagan levava a mão ao rosto, Nephy segurou a mão de Chastille e a manteve junto ao peito.

— Que tal conversarmos mais um pouco aqui até você se acalmar?

Ele queria ficar a sós com Nephy, entretanto, se a ela mesma se dispusesse a ajudá-la, não haveria nada que pudesse fazer. De qualquer forma, percebendo que acabaria afastando Chastille naquele ritmo, Zagan ficou preocupado e não conseguia mais relaxar. Chastille então apertou com força a mão de Nephy, como se estivesse tomada pela emoção.

— Ah, obrigada. Nephy, você é sempre tão gentil.

— Ei, Cabeça de Cavalo, não tem vergonha de ser uma chorona inútil o tempo todo?

— Claro que tenho, só que não é um traço tão fácil de se corrigir!

Foll a olhou com desprezo, e Chastille acabou caindo no choro. E, como era de se esperar, achando a cena deplorável, Nephy repreendeu Foll.

— Foll, não pode dizer coisas tão cruéis. Parece que a Chastille não está conseguindo manter a compostura agora, então precisa ser gentil.

— A Cabeça de Cavalo algum dia já manteve a compostura?

— Não sei dizer, mas agora a situação parece mais séria do que o habitual.

— Nephy, agradeço a intenção, porém soou como se estivesse pisando em mim enquanto estou no chão.

Bem, acho que esse é apenas o jeito da Foll dizer: “Se você não tomar jeito, não vai conseguir se proteger”.

No fundo, tanto Nephy quanto Foll não eram muito boas com palavras nem em expressar suas emoções. Uma alfinetada daquele nível era, sem dúvida, um assunto trivial. Chastille também entendeu, mais ou menos. Depois de limpar o rosto, enfim se levantou.

— Chegar ao ponto de fazer uma criança pequena se preocupar comigo seria muito deplorável. Estou... Bem agora.

A ponta do seu nariz seguia vermelha, embora, enquanto Chastille sorria, Foll balançou a cabeça como se não fosse nada demais.

— Eu só dei um conselho adequado como alguém mais velha. Não se preocupe com isso.

— Conselho, é? Não... Agora que mencionou, quantos anos você tem? Para mim, não parece ter mais de dez...

Dragões eram uma raça lendária que, dizia-se, vivia pela eternidade. Seu crescimento era proporcionalmente lento em relação a essa longevidade; portanto, Foll... Que seguia sendo uma jovem para os padrões dos dragões... Já havia vivido por um tempo considerável.

Bom, convertendo para a idade humana, deve ter cerca de dez anos. Zagan havia se convencido dessa interpretação. E, logo depois, Foll encarou Chastille fixamente.

— Será que não conhece o ditado de que é falta de educação perguntar a idade de uma dama? Cabeça de Cavalo.

— Acho que é um argumento válido, contudo foi você quem puxou esse assunto, não foi?

Depois de parecer que tinha se recuperado, a garota desmoronou outra vez. E, com os olhos já começando a marejar, Zagan lhe fez uma pergunta.

— Agora que parei para pensar, onde estão aqueles três idiotas que vivem ao seu redor?

Chastille estava sempre acompanhada pelos Três Idiotas do Céu Azul... Ou melhor, pelos Três Cavaleiros do Céu Azul. Eles pareciam bem bobos, no entanto, como Cavaleiros Angelicais, possuíam certo nível de força e ocupavam cargos de relevância. Ao ouvir a pergunta, Chastille assentiu de uma maneira um tanto desconfortável.

— Eu os deixei no porto de Suflaghida.

— Ah, afinal, não dá para deixar aquela turma causando confusão com feiticeiros.

— Não, não foi por esse motivo... — Chastille começou a entrelaçar os dedos indicadores, depois ficou vermelha como um pimentão e abaixou a cabeça.

— Se eles estivessem aqui, não conseguiríamos conversar direito, né?

Zagan franziu a testa. O que queria dizer com aquilo...?

Era verdade que não conseguiriam ter conversas significativas se os três idiotas estivessem presentes, no entanto, depois de passar um tempo com Nephy e Foll, Zagan sentia que havia melhorado sua capacidade de compreender as sutilezas das emoções alheias.

De alguma forma, sentia que ela não estava se referindo a conversas de negócios ou de amizade. Não é que Zagan não nutrisse sentimentos favoráveis por Chastille, entretanto, se tivesse que definir, era mais próximo do desejo de proteção que sentia em relação a Foll. De qualquer forma, Chastille era desajeitada demais, a ponto de parecer que, se ninguém a socorresse, poderia só acabar caindo e morrendo bem diante dos seus olhos.

Dizia-se que Chastille era muito popular entre as pessoas, apesar de pertencer à Igreja, todavia ele começou a suspeitar se esse resultado não decorria justamente daquele sentimento de não conseguir deixá-la sozinha... Algo que vinha experimentando agora. Seja como for, o que sentia era algo diferente de amor.

Tanto faz. Contanto que não atrapalhasse Zagan e Nephy, não importava muito o que sentia. A própria Chastille certamente não era tola a ponto de não perceber isso também.

Além do mais, talvez tivesse a pretensão de esconder esse fato. De qualquer modo, mesmo que recebesse afeição de outra mulher que não fosse Nephy, não saberia o que dizer ou fazer... Por isso, o melhor era deixar o assunto de lado. Fingindo não ter percebido nada, Zagan continuou a conversa.

— Então, a liderança daquela Facção de Unificação, ou seja lá o que for, está indo bem? — Zagan foi direto ao ponto, fazendo Chastille encará-lo com surpresa.

— Que inesperado. Nunca imaginei que se importaria com coisas assim.

— Sério?

— Como posso dizer... Você não se importa nem um pouco com a Igreja, não é?

Zagan respondeu apenas com um aceno de cabeça e um “sim”.

— Se eu vir alguém desmaiar depois de ser envenenado, aí sim demonstro um pouco de compaixão.

— Hã? V-Você... Estava... Preocupado comigo...?

Ao ouvir a resposta, dita em tom gentil, o rosto de Chastille ficou vermelho até as orelhas.

Hã? Será que estraguei tudo? Embora Zagan não tivesse a intenção de criar falsas esperanças para a garota, seria lamentável deixá-la com uma impressão errada e estranha. Até nas melhores circunstâncias, aquela garota já era, de certa forma, alguém que despertava muita pena. Enquanto Zagan entrava em pânico internamente, Chastille limpou a garganta com uma tosse e endireitou as costas.

— Agradeço sua preocupação, todavia não houve problemas... Quer dizer, não é como se estivessem me obrigando a fazer algo. Já se passou um mês desde então, e não houve nenhuma movimentação.

— É assim? — Zagan retribuiu o olhar, surpreso com a resposta inesperada. Rafael então falou em seu lugar.

— Não é óbvio? O objetivo da Facção de Unificação é evitar conflitos desnecessários com os malditos feiticeiros. O que se busca é demonstrar uma relação de união com os feiticeiros, o que torna a sua situação perfeita como está agora.

Em outras palavras, parecia que bastava ela se dar bem com Zagan.

Quando ouvi falar sobre esse ideia pela primeira vez, parecia algo muito mais importante... Porém, quem lhe contou sobre foi Rafael. Ele era um homem cuja falta de jeito gerava mal-entendidos e preconceitos por onde passava. Se Barbatos estivesse ali, talvez gritasse de forma desagradável... “Olha só quem fala!”... Caso Zagan mencionasse algo desse tipo, mas talvez a observação não estivesse tão errada.

Chastille então fez uma expressão complicada, como se não estivesse totalmente convencida.

— Contudo não sabemos quando os demônios serão revividos, certo? Então, construir relações amigáveis ​​entre a igreja e os feiticeiros não seria uma questão urgente?

— Isto é um problema que se resolverá se o poder do meu senhor aumentar.

Embora tivesse deixado seu posto de Arcanjo, Rafael não estava agindo com arrogância em sua aposentadoria.

Provavelmente essa é a razão pela qual fez questão de se tornar meu mordomo.

Como ajudar Zagan a consolidar sua autoridade estava ligado a cumprir a vontade do Dragão Sábio Orobas, ele o obedecia. Zagan entendia isso, no entanto ainda assim soltou um bufo de desdém.

— Fala muito sobre seus objetivos, entretanto se alguém cruzar o meu caminho... Seja um Arcanjo, um feiticeiro ou o que for, não terei a menor intenção de pegar leve.

Ele gostava dela o suficiente para considerá-la uma amiga, todavia a existência de Chastille não era absoluta em sua lista de prioridades. Enquanto fosse serva da Igreja e uma Cavaleira Angelical, se tornaria uma inimiga caso as ordens da Igreja viessem a exigir. E a mudança em seus objetivos declarados estava ligada a qualquer perigo ao qual Nephy ou Foll estivessem expostas. Se fosse preciso, Zagan descartaria quem quer que fosse necessário.

Bem, se vier a se tornar uma inimiga, Nephy ficará triste, então no mínimo farei o possível para lidar com o máximo de cuidado possível...

Depois que Zagan deixou suas intenções claras, Rafael soltou uma risada.

— É isto que faz de você o meu senhor. Se não fosse assim, os outros feiticeiros jamais o seguiriam.

Aquele mordomo perspicaz parecia obedecer a Zagan ao mesmo tempo em que compreendia com perfeição sua personalidade. Sua fala e conduta eram de fato peculiares, mas era um homem que, de tempos em tempos, agia como se tivesse previsto tudo com antecedência.

Zagan então deu de ombros e respondeu.

— Que seja, não importa o que pense, contanto que não fique no meu caminho, não me importo.

— Já lhe prometi a minha espada. Não cheguei ao ponto de me corromper a ponto de violar meu juramento de cavaleiro.

Bem, sua lealdade a Zagan não devia ser mentira.

Caso contrário, não haveria como Foll também ter se afeiçoado a ele. Certamente teria se entediado com conversas tão maçantes. Foll subiu em Rafael e acomodou-se em seu ombro por vontade própria enquanto começava a cochilar... Era, sem dúvida, a hora de as crianças sentirem sono. Foll já havia odiado Rafael, pois fora seu alvo de vingança. Porém, agora conseguia aceitá-lo como parte da família, justo como estava fazendo naquele momento, então não havia problema em acreditar em suas palavras.

Chastille então bateu no peito e assentiu.

— Zagan, você tem coisas que precisa fazer, não é? Não pretendo ser fraca a ponto de te atrasar, então... Não, talvez eu também não seja forte, contudo, hmm... O que estou querendo dizer é... — por algum motivo, Chastille murmurava de forma ininteligível, ainda assim, acabou assumindo uma postura decidida e continuou. — Acho que... Quero me tornar alguém em quem possa depositar sua confiança.

Zagan foi pego de surpresa por suas palavras diretas, e Nephy também a observava com admiração.

— Já fui salva por você muitas vezes, então quero retribuir o favor. Seja chamando isso de unificação ou cooperação, quero tenhamos esse tipo de relação.

— Confiança... Hein? — Zagan fez uma expressão fechada enquanto refletia sobre as palavras que ouvira.

— Não posso dizer que realmente entendo o conceito de confiar nos outros. Nunca nem tentei fazê-lo.

— Sério?

— O que quer dizer? — Zagan perguntou com um semblante desconfiado, fazendo Chastille voltar sua atenção para Nephy.

— Vocês dois já não confiam plenamente um no outro? Talvez não perceba, só que acho que você já vem confiando na Nephy.

Por algum motivo, Zagan não conseguiu negar aquelas palavras.

— Talvez tenha razão.

Naquele dia, quando Zagan enfrentou os Arquidemônios pela primeira vez, temeu pelo que poderia acontecer e manteve Nephy afastada. Ele a magoou e a deixou sozinha.

Contudo, apesar do que fiz, Nephy voltou para o meu lado. Naquela época, sentiu que compreendia o significado de “ter o coração salvo”. Havia também uma sensação real de estar sendo apoiado.

Era certo que tal sentimento também fosse equivalente a confiar em alguém. E não era apenas com Nephy. Além de pesquisar sobre as Espadas Sagradas e o Selo do Arquidemônio, o próprio Zagan declarou que depositava grandes expectativas em Foll e Rafael.

Portanto, não fazia sentido afirmar que não confiava neles. Se viesse a lhe perguntar se chegaria o dia em que dependeria de Chastille daquela maneira, apenas inclinaria a cabeça para o lado. Foi por esse motivo que Zagan soltou um bufo de desdém.

— Antes de afirmar tal coisa, trate de chegar ao ponto em que consiga cuidar de si mesma.

— O que você acha que eu sou? — resmungou Chastille, soltando um suspiro em seguida. No entanto, desta vez não caiu no choro. Lançando-lhe um olhar de soslaio, Zagan desviou a atenção para o outro lado da mesa.

— Então, o sujeito que está rondando por ali há algum tempo... Precisa de alguma coisa?

Havia um feiticeiro que observava Zagan o tempo todo, escondido nas sombras que levavam à proa do barco.



***



— Eeeek!

Ao ser chamado por Zagan, o feiticeiro soltou um grito e caiu para trás. Pela aparência, parecia ser um menino de uns doze ou treze anos... Não, ou talvez fosse uma menina? Sua estrutura física era delicada, como a de uma garota, e não apresentava ossos salientes, embora, pelas calças e pela gravata que usava, tratava-se de um menino. Nessa idade, também era possível que apenas tivesse um desenvolvimento físico mais tardio.

É aquele que veio nos chamar mais cedo, não é?

Naquele momento, Zagan estava preocupado com Nephy, portanto não prestou muita atenção, todavia será que aquele era um dos subordinados de Bifrons?

Enquanto o feiticeiro... Fosse menino, menina ou o que quer que fosse... Se levantava às pressas, ele esfregava as mãos e forçava um sorriso.

— B-Boa noite, é um prazer conhecê-lo. Eu me chamo Nero. Q-Queria cumprimentar o novo Arquidemônio e me apressei para aparecer diante de Vossa Senhoria.

Zagan lançou um olhar sobre Nero, analisando-o da ponta dos pés ao topo da cabeça. Nero tinha cabelos dourados e olhos verdes. Seus traços faciais eram harmoniosos, entretanto lembravam estranhamente tanto os de um menino quanto os de uma menina. E, além de tudo, Zagan não conseguia sentir nem vestígio de mana vindo dele.

O que é isto, afinal...?

A mana que conseguia sentir em Nero era a de uma pessoa comum, sem qualquer ligação com a feitiçaria. Poderia-se dizer, no máximo, que Nero estava no nível de um candidato a feiticeiro. Não estava no patamar daqueles convidados para o baile noturno de um Arquidemônio. Na verdade, era claramente uma pessoa comum. E foi essa a razão que despertou a desconfiança de Zagan.

— Que peculiar. Por que um sujeito como você está neste barco?

— Urgh, i-isso é, hmm... — Nero murmurou enquanto colava as mãos e a cabeça contra o convés.

— Desculpe! Por favor, perdoe-me. Como pode ver, sou um feiticeiro iniciante, não tenho talento algum, tentei com afinco durante um ano inteiro e não consegui usar feitiçaria! Por isso, gostaria que o estimado Arquidemônio talvez me aceitasse como discípulo!

Um baile noturno era um lugar onde feiticeiros firmavam acordos. Depois que Zagan anunciou sua presença no barco de forma tão ousada, era inevitável que feiticeiros aparecessem tentando contatá-lo.

Chastille franziu a testa.

— Em outras termos, é um clandestino? Não sou a pessoa mais indicada para falar, mas essa atitude é bem imprudente...

— E-Eu entendo que fui precipitado, porém é a única coisa que me resta fazer!

Zagan estreitou os olhos.

Entendo. Agora compreendo a situação. E, ao assimilar a ideia, assentiu.

— Infelizmente, não tenho tempo para aceitar um discípulo.

Zagan ensinara feitiçaria a Nephy porque queria que ela tivesse meios de se proteger. Fora sua amada, até mesmo Foll estava aprendendo por conta própria, lendo todos os livros do castelo. Ao ouvir a resposta de Zagan, dito em tom autoritário, Nero agarrou-se a sua vestimenta, demonstrando que estava disposto a ir ao extremo de lamber as botas de Zagan.

— P-Por favor, abra uma exceção! Posso carregar sua bagagem, preparar suas refeições ou faço qualquer coisa que quiser! S-Se desejar, até lambo suas botas!

Ele realmente não esperava que Nero fosse falar em lamber botas.

Observando Nero, que parecia prestes a cair no choro e começar a soluçar a qualquer momento, Nephy falou com um tom que demonstrava pena.

— Hmm, Mestre Zagan. Não seria bom, pelo menos, ouvir um pouco o que ele tem a dizer?

— Não há necessidade. Esse sujeito...

Zagan ouviu uma voz chamando por trás, interrompendo o que estava prestes a dizer.

— Keeheehee, é melhor não confiar em um feiticeiro, sabe? Afinal, feiticeiros são todos mentirosos.

Antes que percebessem, um feiticeiro surgiu atrás de Zagan, de pé bem na ponta da proa do navio.

Wow... Aproximar-se tanto assim sem que eu perceba é impressionante... Zagan soltou um suspiro de admiração. E, diante daquela figura, Nero caiu para trás.

— E-Eeek!

Na ponta da proa, estava uma velha segurando uma foice grande. Ela vestia um manto que parecia um trapo velho, cobrindo-a da cabeça aos pés, e seus dedos nodosos e ossudos exibiam vários anéis com grandes gemas incrustadas. Seus braços e pernas eram mirrados como os de uma árvore morta, e suas costas estavam curvadas. Contudo, a foice que segurava tinha cerca do dobro do tamanho de seu corpo. Além disso, possuía chifres retorcidos, semelhantes aos de uma cabra, que brotavam de sua cabeça.

Uma fomoriana, hein? Que raridade.

Dizia-se que essa raça herdava o sangue de demônios; hoje em dia, eram uma espécie rara e pouco numerosa, assim como os elfos. Eram também famosos por seu alto nível de mana, condizente com sua suposta conexão com os demônios.

— Você é... A Encantadora Gremory, correto?

Na juventude, talvez tivesse uma aparência digna de uma feiticeira, no entanto... Uma velha de cem anos... Sendo uma feiticeira, é provável que vivesse muito mais tempo que isso. Ainda assim, receber a alcunha de “encantadora” era algo tão cruel que até Zagan sentiu um pouco de pena. Embora lhe parecesse que era um pouco mais jovem da última vez que a vira.

Pensando bem, Barbatos também não mencionou que Gremory fosse uma velha... Na época em que Foll acabara de se mudar para o castelo, quando Barbatos ouviu falar sobre uma filha adotiva, o nome de Gremory surgiu. Ela sem dúvida seria muito atrevida ao chamá-lo de “mentiroso”, se fosse esse o caso. Aquela aparência de velha não parecia ser sua forma real. Talvez se tratasse do mesmo sistema de feitiçaria que Foll usava para assumir forma humana. E, sem largar a foice, a velha curvou o corpo em sinal de reverência.

— Keehee, ser reconhecida por um Arquidemônio é extremamente gratificante. Meu nome é Gremory. Pensei em vir cumprimentar o novo Arquidemônio, sabe?

— Não preciso da sua bajulação descarada.

— Keeheehee, descartar a própria posição dessa maneira é algo impressionante.

A velha exibiu seus dentes amarelados enquanto ria e elevava a voz. Entretanto, apesar de estar de frente para Zagan, sua atenção estava voltada para a garotinha que viajava no ombro de Rafael. Era um olhar que revelava ter encontrado algum tipo de tesouro.

— Você tem algum assunto com a minha filha?

Para os feiticeiros, a raça conhecida como dragões era muito rara e valiosa, até a última gota de sangue e a última escama. Mesmo diante de um Arquidemônio, ela poderia tentar enganá-los.

Quando Zagan elevou a voz, com uma intenção assassina clara caso ousasse tocar em Foll, os ombros da velha sacudiram enquanto ria com um som de “kukuku”.

— Não é nada, só estava me perguntando se as lindas borboletas que cercam o Arquidemônio haviam sido sequestradas ou não. Era apenas uma preocupação. Todavia acho que foi uma intromissão desnecessária, não é?

Ao murmurar essas palavras, o olhar de relance de Gremory recaiu sobre Nero. Zagan sabia muito bem que o fato de Nero estar prostrado e chorando era apenas uma estratégia para despertar compaixão. Foi por esse motivo que quis afastá-los de uma vez. Lançando um olhar de soslaio para Nero, que tremia e batia os dentes, Zagan murmurou com um tom de aborrecimento.

— Se quer demonstrar preocupação, então demonstre por esta aqui.

— Eek! Você está me entregando, Zagan?

Ao ver o foco da conversa mudar para Chastille, ela deu um pulo e gritou. Chastille já estava encolhida de medo, com a velha assustadora bem diante de seus olhos. Mas Gremory franziu o nariz, como se não gostasse.

— Eu odeio os Cavaleiros Angelicais. Como se me importasse se ela vive, morre ou continua por perto.

Aquilo deixou Chastille sem palavras. O sentimento de profundo afeto que demonstrava por Nephy e Foll havia desaparecido, substituído por uma hostilidade crua.

Se Bifrons não tivesse convocado Chastille para cá, nada dessa confusão irritante teria acontecido... Parecia que Zagan tinha mais um motivo para dar uma bela surra naquele Arquidemônio. Enquanto refletia a respeito, uma sombra se projetou sobre a velha.

— Senhorita Gremory, é falta de educação dizer coisas tão maldosas.

Era uma voz jovem, como a de um rapaz... Porém, ao olhar para o dono daquela voz, Zagan ficou sem fala. À sua frente estava um homem grande, com a juba imponente de um leão.

Esse sujeito é... Kimaris, a Lâmina Negra, se não me engano.

Como um teriantropo, ele não tinha rosto humano, e sim o de uma fera coberta por uma pelagem negra como o azeviche. O brilho dourado em seus olhos carregava uma intensidade aterrorizante, capaz de fazer até o rei das feras fugir em pavor.

Era um gigante de porte semelhante ao de Rafael, e Zagan conseguia distinguir seu corpo robusto e bem-definido mesmo sob a túnica. Aquele gigante equilibrava-se com destreza sobre o parapeito da proa do barco.


— É um prazer conhecê-lo, Arquidemônio Zagan. Eu me chamo Kimaris. Como pode ver, sou um feiticeiro leonino. — Kimaris cumprimentou-o cortesmente e, em seguida, ergueu a velha pela nuca com suas garras grossas.

— Peço desculpas, Senhor Zagan. Ela tem a língua afiada, contudo, no fundo, é uma boa pessoa. Ao ver tantas crianças de raças raras, como dragões e elfos, ela temeu que pudessem ter passado por algo terrível. Por favor, perdoe-a.

— M-Me solte, Kimaris! Não fiz nada que mereça um pedido de desculpas!

O imponente leão curvou-se várias vezes, intercedendo pela velha.

— Ah, então vocês dois se conhecem? — Zagan murmurou, um tanto desconcertado.

— Sim. Embora eu possa parecer bastante feroz, sou um tremendo covarde, por isso, tenho contado com a ajuda da Srta. Gremory há bastante tempo.

— É mesmo...

De alguma forma, fosse pelo impacto de sua aparência ou pelo porte físico, Zagan sentia como se estivesse diante de um Rafael covarde. Se você fundisse esse sujeito com o Rafael em uma única pessoa, teria um sujeito decente... Não, na verdade não, né?

O resultado seria apenas uma criatura inexplicável... Um gigante de comportamento covarde, semblante maligno e incapaz de dizer qualquer coisa que não fosse arrogante ou intimidadora.

Zagan lançou um olhar para a velha. Esta brandia a foice enquanto se debatia e agia de forma violenta.

— Eu simplesmente amo animais! Quem ajudaria alguém como você só por gostar?

— Srta. Gremory, se a senhora fala em amor numa situação dessas, até eu ficarei sem jeito.

Ao observar aquela combinação peculiar de uma velha e uma besta, Zagan sentiu que tentar se armar de coragem diante deles era algo totalmente ridículo.

Se eles se tornassem Arquidemônios, o mundo não se tornaria mais pacífico? Ainda que Zagan não estivesse tramando nada, sentia que aqueles dois protegeriam Nephy e Foll. Chastille então abriu a boca para falar, como se também achasse a situação um tanto decepcionante.

— Como posso dizer... Mesmo entre os feiticeiros, existem caras que passam uma boa impressão, né?

— Muito obrigado. Mas, se tentar ferir os outros feiticeiros aqui, Senhorita Cavaleira Angelical, também arriscarei minha vida para lutar contra você.

— Eek! Por que só eu?

Ao ver o brilho dourado nos olhos do leão se acender com sede de sangue, Chastille soltou mais um grito.

Bem, depois de tudo Cavaleiros Angelicais são os inimigos naturais dos feiticeiros.

E, como se não tivesse outra escolha, Zagan começou a explicar a situação para mediar o conflito entre eles.

— Gremory, Kimaris, como vocês já perceberam, esta garota é uma Cavaleira Angelical da Igreja, Chastille. Uma dos Arcanjos... Bem, é uma portadora de Espada Sagrada.

Ao apresentá-la dessa forma, ambos demonstraram hostilidade aberta em relação a Chastille. Porém, Zagan continuou com um tom indiferente.

— Pela sua aparência, parece uma chorona, contudo está interessada em cooperar com os feiticeiros.

— Sendo sincera, acho que a maneira como o colocou só piorou as coisas. — Chastille reclamou insatisfeita, enquanto Gremory e Kimaris faziam caretas, como se estivessem olhando para uma vigarista suspeita.

— Está dizendo que vai abandonar a Igreja para cair nas graças dos feiticeiros? — perguntou Gremory.

— Como era de se esperar, até eu acho essa história conveniente demais. — acrescentou Kimaris logo em seguida.

Os dois reagiram com negação, como se fosse a reação mais natural, no entanto Zagan apenas inclinou o copo e falou como se aquilo não fosse nada demais.

— Isto não tem importância. Se a portadora da Espada Sagrada me obedecer, não terei problemas. Se ela tentar qualquer coisa, como me trair, posso apenas arrancar sua cabeça e jogá-la de lado.

— N-Não tem como eu te trair nem nada do tipo, ok?

Tendo perdido completamente a espinha dorsal, não restava qualquer dignidade a Chastille.

Bem, suponho que ela tenha poder suficiente para, no mínimo, partir ao meio os dois que estavam à sua frente... Gremory e Kimaris eram feiticeiros cujos nomes constavam na lista de candidatos a Arquidemônio, entretanto se Chastille brandisse sua Espada Sagrada a sério, mesmo sem sua Armadura Ungida, é provável que eles nem sequer conseguissem oferecer resistência. Após observá-la por um momento, Kimaris estreitou seus olhos dourados e falou com voz suave.

— Também me preocupo com a senhorita Cavaleira Angelical ali, todavia, por favor, tenha cuidado, Lorde Zagan. O senhor parece ser uma pessoa bondosa, imagino que haverá gente por aí tentando tirar proveito disso.

E a pessoa para quem Kimaris lançava um olhar severo enquanto dava seu aviso era, mais uma vez, Nero. Nero ficou tão pálido e tremia tanto que parecia prestes a perder o controle das necessidades fisiológicas a qualquer instante. Zagan, por sua vez, franziu a testa.

— Bondade, é? Acredito que essa palavra não tenha qualquer relação com feiticeiros, muito menos com Arquidemônios.

— O sentimento de afeição por outra pessoa é o que chamam de “bondade”. Lorde Zagan, essa é exatamente a mesma emoção que o senhor dedica a cada um de seus subordinados, não é?

Diante de palavras tão diretas, Zagan não conseguiu contestar.

Que coisa constrangedora para ele dizer com tamanha sinceridade. Incapaz de manter a compostura, Zagan desviou o olhar enquanto coçava a bochecha.

— Ah, hm... Bem, agradeço o aviso. Farei o possível para ter cuidado.

— Sim. Bem, então, vamos nos retirar por aqui. — disse Kimaris, afastando-se com passos pesados ​​enquanto ainda segurava Gremory pela nuca. A silhueta dos dois lembrava, de certa forma, uma senhora solitária e seu amado cachorro.

Será que aquele sujeito... Talvez tenha vindo aqui para proteger Gremory?

Os sentimentos que demonstrava em relação àquela senhora eram semelhantes ao que Zagan sentia por Nephy e Foll. Zagan imaginou que o motivo de Kimaris ter feito questão de vir até ali era a preocupação com a segurança de Gremory, já que ela falava de forma incisiva diante de um Arquidemônio.

Feiticeiros são vilões, embora acho que nem todo mundo tem uma personalidade distorcida como a minha... Se deixassem isso transparecer, seriam explorados... Talvez todos apenas escondam esse lado de si mesmos em segredo.

Zagan refletiu sobre essa ideia enquanto permanecia em silêncio.



***



Depois de se despedir de Kimaris e Gremory, os ombros de Chastille caíram, revelando seu desânimo.

— Achei que estava preparada para todas essas ofensas, porém estou sendo tratada com muita crueldade.

— A culpa é sua por ter revelado, sem motivo algum, que é uma Cavaleira Angelical.

— Não fui eu quem disse as palavras “Cavaleira Angelical”, fui? — Chastille lançou um olhar de reprovação a Rafael ao dizer isso, contudo o gigante apenas deu de ombros com indiferença.

Em seguida, Zagan voltou sua atenção para Nero. Talvez por ter ficado intimidado por Kimaris, Nero estava escondido de novo perto da escadaria, espiando Zagan e os outros. Embora os demais feiticeiros também estivessem olhando naquela direção, o entusiasmo deles provavelmente havia sido sufocado pela presença de Gremory e Kimaris. Não parecia haver ninguém planejando ir falar com Zagan. Assim, puxou uma cadeira próxima e fez um gesto para que Nephy se sentasse nela.

— Pois bem, parece que todos os empecilhos desapareceram. Pode se sentar, Nephy.

— O quê...? Estou bem de pé.

— Então... A Chastille deveria ocupar este lugar?

— Vou me sentar.

Inflando as bochechas com um bufo, Nephy sentou-se ao lado de Zagan. Nesse momento, Foll abriu os olhos sonolentos enquanto ainda estava empoleirada no ombro de Rafael e olhou para a mesa perto da cabine, onde havia uma variedade de alimentos dispostos.

— Estou com fome. Zagan, posso comer aquilo?

Zagan assentiu, e Foll saltou rapidamente para o convés e correu até lá. Então, Rafael deu um passo à frente.

— Muito bem, exijo que me permita agir conforme meu próprio critério. É uma boa oportunidade para avaliar o nível desses malditos feiticeiros.

Sua voz soava com um tom grave e imponente, que parecia mais como uma ordem do que como um pedido. Talvez quisesse dizer que pretendia julgar o valor de todos os feiticeiros a bordo, ou algo do gênero.

— Eu permito. Faça como quiser.

— Meu senhor concedeu permissão. Você pode vir junto, Chastille.

— N-Não, v-vou ficar aqui só mais um pouco...! — Chastille elevou a voz, tomada pela agitação diante do convite repentino.

— Seria bom se aprendesse a ler a maldita atmosfera. Se fosse um pouco mais sensata, tenho certeza que não teria colocado sua vida em perigo aqui.

Rafael devia estar querendo alertá-la: “Se não ler melhor a situação aqui, Zagan vai te dar uma bronca”. Chastille fez uma cara emburrada em resposta.

— É bem constrangedor receber uma lição sobre isso vinda de você...

Rafael fora o responsável pela morte de quase quinhentos feiticeiros devido às suas palavras e conduta enganosas. Não era nada irracional que Chastille reclamasse. Assim, com uma expressão de extrema insatisfação, deixou o lado de Zagan e Nephy, com lágrimas nos olhos.

Depois que todos os outros ao redor da mesa se retiraram, o silêncio tomou conta do ambiente. Parecia que uma música acabara de terminar, e aqueles eram os poucos segundos de silêncio antes de a próxima começar.

O som das ondas do lago noturno ecoava suavemente. Ao contrário da brisa salgada do oceano, que grudava na pele, o vento que soprava sobre o lago era brando e agradável. Ao olhar para o céu, via-se a lua espiando por entre uma abertura nas nuvens.

Parecia ser noite de lua cheia. Uma luz pálida iluminava o convés sombrio e, mesmo sem o uso de feitiçaria, era possível enxergar todo o navio.

Era noite de lua crescente quando conheci Nephy, não era? Ainda agora, Zagan lembrava-se nitidamente da imagem dela estendendo as mãos em direção à lua fina. E, ao recordar a cena, Zagan chamou por Nephy.

— Ãh... Hmm, Nephy.

— Sim?

— Quer se sentar aqui? — perguntou Zagan, sentindo-se sem ideia do que fazer.

Que diabos estou dizendo?

Tudo o que queria dizer era que desejava ficar um pouco mais perto dela... Contudo, quando Zagan deu um tapinha no próprio colo, as pontas das orelhas de Nephy avermelharam-se, como se estivesse embaraçada com a sua sugestão.

— É... Constrangedor fazer isso aqui.

Embora não houvesse feiticeiros se aproximando deles naquele momento, não mudava o fato de que todos os olhares estavam voltados para Zagan. E, meio desconcertado, Zagan assentiu.

— A-Ah. Entendi.

Enquanto tentava manter uma expressão indiferente, Nephy mais uma vez estufou as bochechas.

— Mestre Zagan, você tem sido um pouco maldoso ultimamente.

— Bem, é porque você tem me mostrado todo tipo de expressão nova, Nephy.

Eram palavras sinceras que vinham do seu coração. Ao receber esse ataque surpresa, Nephy ficou vermelha como um pimentão e baixou o olhar.

— Mestre Zagan, isso não é justo.

Não parecia que estivesse tão insatisfeita assim, estranhamente ela não conseguia aceitar aquilo. As pontas de suas orelhas avermelhadas começaram a tremeluzir.

Agora que penso, como será que é a sensação das orelhas da Nephy ao tocar agora...? Da última vez, quando encostou a bochecha na dela, elas estavam bem rígidas. No entanto, quando estava relaxada, pareciam macias. Incapaz de esconder a curiosidade por mais tempo, Zagan tentou tocar gentilmente a orelha de Nephy.

— Hyaaa?

O corpo de Nephy estremeceu enquanto soltava um grito adorável. Quanto à orelha, era ainda mais macia do que ele esperava. E, ainda assim, estava quente e ruborizada.

Quando não está em choque absoluto, tem uma maciez surpreendente, hein?

Da última vez, devia estar muito além de apenas em choque. Tal tensão pode ter tido alguma relação com a rigidez de suas orelhas. E, enquanto Zagan fazia essas observações, os olhos de Nephy começaram a correr de um lado para o outro.

— Hmm... Err... Mestre Zagan?

Já fazia um bom tempo desde que Zagan ouvira Nephy usar um tom de voz tão desconcertado. Talvez não o ouvisse desde que abriu o coração para ele sobre o misticismo. Por causa disso, Zagan voltou a si em seguida.

— Ah, hmm... Desculpe. Só estava curioso, sabe?

— Curioso sobre... Minhas orelhas? — Nephy perguntou e, em seguida, tocou com curiosidade suas próprias orelhas pontudas. Em resposta, Zagan assentiu cheio de vigor.

Afinal, esse é o traço mais adorável da Nephy, como eu não acharia fofo?

Quando queria saber como Nephy estava se sentindo, a primeira coisa que Zagan observava eram as suas orelhas. Portanto, ao ver as reações tão expressivas que elas demonstravam, sua beleza parecia se intensificar muito mais. Talvez Nephy tivesse percebido o que se passava na mente dele, pois ergueu o olhar e fixou os olhos em Zagan.

— Se lhe agrada, então, por favor, fique à vontade! — declarou Nephy, aproximando o rosto e oferecendo as orelhas de forma vulnerável.

Será que tudo bem mesmo? Claro, foi Zagan quem expressou o que pensava sobre o assunto, todavia jamais imaginou que ela permitiria que as tocasse. Após respirar fundo para acalmar os nervos, Zagan voltou-se para Nephy com determinação.

— E-Então... Vou tocá-las, está bem?

— Sim.

Com extrema timidez, Zagan tentou tocar ambas as orelhas de Nephy, como se as envolvesse por baixo. Elas estavam tingidas de um vermelho intenso, como se estivesse com febre, e pareciam muito mais quentes do que antes. Pôde sentir a textura delicada sob a ponta dos dedos.

Não sinto nada parecido com uma pulsação; então, não deve haver artérias ali, certo?

O rosto de Nephy estava todo corado e a maneira como pressionava o peito deixava claro que seu coração batia com força, mas a pulsação não chegava a se propagar até as orelhas. Quando Zagan tentou estimulá-las com curiosidade, as orelhas sob seu toque estremeceram de leve.

Suas delicadas orelhas foram aos poucos ficando mais rígidas. Ele percebeu que a tensão de Nephy estava se acumulando.

— Haaah... Haaa...

Um suspiro escapou dos lábios de Nephy. Seria porque fazia cócegas? Nephy mordeu o próprio dedo e fechou os olhos com força, tentando suportar a sensação, porém isso só a deixou mais encantadora de uma forma que não era intencional.

O que é isso? Parece que estou fazendo algo extremamente lascivo agora... Ainda assim, Zagan queria ver mais daquelas reações de Nephy e deslizou os dedos da base das orelhas até as pontas afiladas.

— Hyaaafuuu? — os olhos de Nephy se abriram de repente e seu corpo se arqueou para trás. Ao ver lágrimas brotando em seus olhos, Zagan soltou as mãos, em pânico.

— D-Desculpe. Doeu?

Enquanto estava todo agitado, Nephy balançou a cabeça, negando.

— Não, está tudo bem. Hmm, é só que... É a primeira vez que tocam em mim nesse lugar, então...

— E-Entendo...

Parecia que Nephy estava atordoada com uma sensação inédita.

Pensando bem, as orelhas são sensíveis até para os humanos, não é?

Zagan teria recusado na hora se alguém pedisse para tocar nas suas orelhas. E, ao pensar em como Nephy permitiu que tocasse uma parte tão preciosa de seu corpo, começou a se sentir meio estranho. Incapazes de olhar nos olhos um do outro, ambos desviaram o rosto.

— Hã?

Então, os dois enfim se deram conta que aquela pequena interação estava sendo observada por todos no convés. A sereia do grupo musical havia até esquecido de cantar e estava de boca aberta. Chastille tentava pegar comida, contudo seu garfo vazio ficou parado no ar. Rafael usava seu corpo grande para bloquear a visão de Foll. Foll batia os pés com violência, como se estivesse insatisfeita. E Kimaris e Gremory desviaram o olhar, como se não conseguissem mais assistir àquela cena.

Zagan e Nephy então se afastaram um do outro com extrema rapidez. Enquanto abanava o rosto rapidamente com a mão, Nephy murmurou algo em voz baixa.

— Da próxima vez, hmm, por favor, deixe para... Quando estivermos a sós...

Em vez de interpretar aquilo como uma permissão para tocá-las outra vez, Zagan entendeu que queria que ele repetisse o gesto.

— Fuwah?

Quando Zagan se virou reflexivamente, Nephy estava com o rosto desviado e cobrindo as orelhas; no entanto, as partes visíveis entre os dedos dela estavam tingidas de um vermelho vivo.

Então, ela não odiou nem nada do tipo...?

Todavia será que Zagan conseguiria manter sua compostura habitual depois de presenciar tal reação? Parecia que Nephy não estava tão insatisfeita assim por ter as orelhas tocadas... Entretanto, saber se aceitaria outros avanços já era outra história.

Espere, eu ainda não disse “eu te amo” para ela nenhuma vez até agora, disse?

Como era de se esperar, a ordem dos acontecimentos estava bem invertida. E, enquanto Zagan se preocupava com suas falhas, Nero esfregava as mãos, aproximando-se aos poucos.

— Hehe, hehehe, vejo que o Lorde Zagan e a senhorita Nephy têm um relacionamento harmonioso. Ah, seu copo está vazio, sabia? Quer que eu o encha?

Parecia que Nero ainda não havia desistido. Após pegar uma garrafa de vinho na mesa, Nero começou a encher o copo de Zagan por conta própria.

Porém, Zagan apenas fez uma expressão de clara insatisfação em resposta.

— Não preciso disso. Suma daqui logo.

— V-Vamos lá. Tudo o que quero é prestar um serviço a vocês dois. Sim, podem só me considerar um espantalho ou coisa do tipo!

Que falta de vergonha. Será que devo dar um soco nesse cara?

Mas depois de ter se dado ao trabalho de criar um clima de paz com Nephy, não queria fazer algo tão grosseiro. E enquanto Zagan resmungava consigo mesmo, Nephy virou a cabeça de volta, timidamente.

Seus olhos fitaram Nero por um breve momento e, talvez achando que seria cruel só expulsá-lo, abriu a boca com determinação para falar.

— Hmm, Mestre Zagan. Há algo... Sobre o qual gostaria de conversar com o senhor.

Só de ouvir aquilo Zagan percebeu que se tratava do que havia acontecido em Kianoides outro dia. Ela havia ficado calada e nem sequer mencionou o assunto para Zagan, contudo parecia que enfim se sentia à vontade para se abrir.

— Prossiga. Pode me dizer o que é.

Depois que assentiu, Nephy soltou um suspiro, como se estivesse de alguma forma aliviada. Então, assumiu uma expressão determinada ao começar a falar.

— Mestre Zagan, é sobre o que aconteceu outro dia. Quando fui a Kianoides com Foll, fomos atacadas por uma certa pessoa.

— Um dos subordinados de Bifrons?

— Eu não... Sei ao certo. Embora acredito que essa pessoa possa ser um pouco diferente de um feiticeiro.

— Não era um feiticeiro?

No entanto, pela maneira como Nephy se expressou, também não parecia ser obra de um Cavaleiro Angelical.

E, justamente enquanto aguardava as próximas palavras...

— Hã...? Que diabos é isso? Neblina?

Uma névoa branca passou rapidamente pelos pés de Zagan e envolveu a área. Ao repelir o luar brilhante, seus movimentos lembravam até mesmo os de uma fera gigantesca. A neblina se expandiu num instante, e tudo além do alcance da respiração de Zagan foi tingido de branco diante de seus olhos.

Antes que Zagan pudesse ouvir tudo o que Nephy tinha a dizer, um evento misterioso havia começado de repente.

***

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