quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Stone of Farewell — Volume 01 — Capítulo 01

TOMO UM: OLHO DA TEMPESTADE

Capítulo 01: A Música das Alturas


Mesmo dentro da caverna, onde a fogueira crepitante enviava dedos cinzentos de fumaça em direção à abertura no teto de pedra e a luz avermelhada brincava sobre as esculturas nas paredes... Serpentes entrelaçadas e bestas de presas e olhos fixos, o frio ainda lhe roía os ossos. Enquanto oscilava entre o sono febril e a vigília, passando pela luz do dia filtrada e pela noite gélida, sentia como se um gelo cinzento crescesse em seu interior, enrijecendo seus membros e preenchendo-o de geada. Perguntava-se se algum dia voltaria a sentir calor.

Fugindo da fria caverna de Yiqanuc e de seu corpo enfermo, ele vagava pela Estrada dos Sonhos, deslizando impotente de uma fantasia para outra. Muitas vezes pensava ter retornado a Hayholt, ao seu castelo-lar como outrora fora, e como jamais voltaria a ser. Um lugar de gramados aquecidos pelo sol, de recantos sombrios e esconderijos, a maior de todas as casas, repleta de movimento, cor e música. Caminhava de novo pelo Jardim de Cercas Vivas, e o vento que soprava do lado de fora da caverna onde dormia cantava também em seus sonhos, agitando suavemente as folhas e sacudindo as delicadas cercas de arbustos.

Em um sonho estranho, parecia viajar de volta aos aposentos do Doutor Morgenes. O escritório do doutor ficava agora no topo de uma torre alta, com nuvens passando diante das janelas de arcos elevados. O velho debruçava-se inquieto sobre um grande livro aberto. Havia algo de assustador na concentração absoluta e no silêncio do doutor. Simon parecia não existir para Morgenes, em vez disso, o velho fitava com intensidade o desenho rudimentar de três espadas que se estendia pelas páginas abertas.

Simon aproximou-se do parapeito da janela. O vento suspirou, embora não sentisse nenhuma brisa. Olhou para o pátio lá embaixo. Uma criança... Uma menina pequena de cabelos escuros... Fitava-o com olhos grandes e solenes. Ela ergueu a mão no ar, como se o saudasse, e então desapareceu de súbito.

A torre e os aposentos repletos de objetos de Morgenes começaram a se dissolver sob os pés de Simon, como uma maré que recua. O último a desaparecer foi o próprio velho. Mesmo enquanto se desvanecia aos poucos, como uma sombra sob uma luz crescente, Morgenes ainda não erguia os olhos para encontrar os de Simon. Em vez disso, suas mãos nodosas percorriam sem parar as páginas do livro, como se buscassem respostas com inquietação. Simon o chamou, mas o mundo inteiro havia se tornado cinzento e frio, repleto de névoas rodopiantes e dos farrapos de outros sonhos...

Ele despertou, como tantas vezes desde Urmsheim, e viu a caverna mergulhada na escuridão da noite, com Haestan e Jiriki acomodados perto da parede de pedra coberta de runas. O erkyno dormia encolhido em sua capa, com a barba apoiada no peito. O sitha contemplava algo que segurava na palma da mão de dedos longos. Jiriki parecia profundamente absorto. Seus olhos com um tênue brilho, como se o objeto que segurava refletisse as últimas brasas da fogueira. Simon tentou dizer algo, ansiava por calor e vozes, porém o sono o puxava de volta.

“O vento está tão alto...”

Ele gemia nas passagens das montanhas lá fora, assim como fazia ao redor das torres de Hayholt... Como fizera sobre as muralhas de Naglimund.

“Tão triste... O vento está triste...”

Logo estava dormindo mais uma vez. A caverna estava silenciosa, exceto pela respiração suave e pela música solitária das alturas.



***



Era apenas um buraco, contudo servia como uma perfeita prisão. Descia vinte côvados rumo ao coração de pedra da Montanha Mintahoq, com largura suficiente para dois homens ou quatro gnomos deitados, cabeça com pés. As paredes eram polidas como o mármore mais fino, de modo que até mesmo uma aranha teria dificuldade em encontrar onde se agarrar. O fundo era tão escuro, frio e úmido quanto qualquer masmorra.

Embora a lua pairasse sobre os picos nevados das montanhas vizinhas a Mintahoq, apenas um tênue feixe de luar alcançava o fundo do fosso, tocando, embora não iluminando, duas formas imóveis. Assim estava havia muito tempo, desde o nascer da lua... O pálido disco lunar, Sedda, como a chamavam os gnomos, a única coisa em movimento em todo o mundo noturno, atravessando lentamente os campos negros do céu.

De repente, algo se mexeu na entrada do poço. Uma pequena figura se inclinou, semicerrando os olhos para as sombras densas.

— Binabik... — a figura agachada chamou na língua gutural do povo gnomo. — Binabik, você me ouve?

Se uma das sombras no fundo se moveu, não fez nenhum som. Por fim, a figura no topo do poço de pedra tornou a falar.

— Nove vezes, durante nove dias, Binabik, sua lança ficou diante da minha caverna, e eu esperei por você.

As palavras foram proferidas em um cântico ritual, mas a voz vacilou, fazendo uma pausa antes de continuar.

— Esperei e chamei seu nome no Lugar dos Ecos. Nada me retornou além da minha própria voz. Por que não voltou e pegou sua lança de volta?

Ainda não houve resposta.

— Binabik? Por que não responde? Certamente me deve isso, não é?

A maior das duas figuras no fundo do poço se mexeu. Olhos azul-claros captaram uma fina faixa de brilho lunar.

— Que tagarelice de gnomo é essa? Já é ruim o suficiente jogar um homem que nunca lhe fez mal em um buraco, e ainda precisa vir gritando essas bobagens com ele quando está tentando dormir?

A figura agachada congelou por um momento como um cervo assustado pela luz de uma lanterna, e então desapareceu na noite.

— Bom.

O rimmerio, Sludig, se encolheu mais uma vez em seu manto úmido.

— Não sei o que aquele gnomo estava te dizendo, Binabik, contudo não me parece certo que um do seu povo venha zombar de você... E de mim também, embora não esteja surpreso que odeiem a minha espécie.

O gnomo ao seu lado não disse nada em resposta, apenas encarou o rimmerio com olhos escuros e preocupados. Depois de um tempo, Sludig se virou de novo, tremendo, e tentou dormir.



***



— Jiriki, você não pode ir!

Simon estava sentado na beirada do catre, enrolado no cobertor para se proteger do frio insinuante. Ele cerrou os dentes contra uma onda de tontura, não havia se levantado muito nos cinco dias desde que acordara.

— Eu preciso. — disse o sitha, com os olhos baixos como se não pudesse encarar o olhar suplicante de Simon. — Já enviei Sijandi e Ki’ushapo à frente, no entanto é a minha presença que é exigida. Não partirei por um ou dois dias, Seoman, entretanto esse é o máximo que posso adiar meu dever.

— Preciso de sua ajuda para libertar Binabik! — Simon tirou os pés do chão de pedra fria e voltou para a cama. — Você disse que os gnomos confiam em você. Faça com que libertem Binabik. Então iremos todos juntos.

Jiriki soltou um leve assobio.

— Não é tão simples, jovem Seoman. — disse ele, quase impaciente. — Não tenho o direito nem o poder de obrigar o povo qanuc a fazer nada. Além do mais, tenho outras responsabilidades e deveres que pelo visto não consegue compreender. Só fiquei o tempo que fiquei porque queria vê-lo de pé mais uma vez. Meu tio Khendraja‘aro já retornou há muito tempo a Jao é-Tinukai’i, e meus deveres para com minha casa e meus parentes me obrigam a segui-lo.

— Obrigam? Mas você é um príncipe!

O sitha balançou a cabeça.

— Essa palavra não tem o mesmo significado em nossa língua como na sua, Seoman. Sou da casa reinante, entretanto não dou ordens a ninguém nem governo ninguém. Felizmente, também não sou governado... Exceto em certas coisas e em certos momentos. Meus pais declararam que este é um desses momentos.

Simon achou que quase podia detectar um toque de raiva na voz de Jiriki.

— Todavia não se preocupe. Você e Haestan não são prisioneiros. Os qanuc os honraram. Eles permitirão que vocês partam quando quiserem.

— Eu não partirei sem Binabik. — Simon torceu a capa entre os punhos. — E Sludig também.

Uma pequena figura escura apareceu na porta e tossiu educadamente. Jiriki olhou por cima do ombro e assentiu com a cabeça. A velha mulher qanuc deu um passo à frente e colocou uma panela fumegante aos pés de Jiriki, depois tirou três tigelas de seu casaco de pele de carneiro, que mais parecia uma tenda, e as dispôs em semicírculo. Embora seus dedos diminutos trabalhassem com agilidade e seu rosto enrugado e de bochechas redondas estivesse inexpressivo, Simon viu um lampejo de medo em seus olhos quando eles se ergueram por um breve instante para encontrar os seus. Quando terminou, ela saiu com pressa da caverna, desaparecendo sob a aba da porta tão silenciosa quanto havia aparecido.

“Do que ela tem medo?” Simon se perguntou. “Jiriki? Porém Binabik disse que os qanuc e os sitha sempre se deram bem... Mais ou menos.”

De repente, lembrou de si mesmo... Duas vezes mais alto que um gnomo, ruivo, com o rosto peludo e a barba de um homem comum, magro como um palito também, contudo como estava enrolado em cobertores, a velha qanuc não podia saber. Que diferença o povo de Yiqanuc poderia ver entre ele e um odiado rimmerio? O povo de Sludig não havia guerreado contra os gnomos por séculos?

— Quer um pouco, Seoman? — perguntou Jiriki, servindo o líquido fumegante da panela. — Eles lhe deram uma tigela.

Simon estendeu a mão.

— É mais sopa?

— É aka, como os qanuc chamam... Ou como você diria, chá.

— Chá!

Ele pegou a tigela ansiosamente. Judith, a mestra de cozinha em Hayholt, gostava muito de chá. Ela se sentava ao final de um longo dia de trabalho para saborear uma caneca enorme e quente daquela bebida, enquanto a cozinha se enchia com o vapor das ervas das ilhas do sul em infusão. Quando estava de bom humor, deixava Simon tomar um pouco também. Nossa, como sentia falta de casa!

— Nunca pensei... — começou a dizer, e tomou um longo gole, apenas para cuspir um instante depois, tossindo. — O que é isso? — engasgou. — Isso não é chá!

Jiriki talvez estivesse sorrindo, entretanto como estava com a tigela na boca, tomando pequenos goles, era impossível dizer.

— Com certeza é. — respondeu o sitha. — O povo qanuc usa ervas diferentes das suas, Sudhoda’ya. Como poderia ser diferente, se eles têm tão pouco comércio com o seu povo?

Simon limpou a boca, fazendo uma careta.

— Mas é salgado! — ele cheirou a tigela e fez outra careta.

O sitha assentiu e tomou outro gole.

— Eles colocam sal, sim... E manteiga também.

— Manteiga!

— Maravilhosos são os costumes de todos os netos de Mezumiiru. — entoou Jiriki em um tom solene. — Infinita é a sua variedade.

Simon pousou a tigela com desgosto.

— Manteiga. Que Deus me ajude, que aventura miserável.

Jiriki terminou seu chá com calma. A menção de Mezumiiru lembrou Simon de seu amigo gnomo, que certa noite na floresta cantara uma canção sobre a Mulher da Lua. Seu humor azedou mais uma vez.

— Porém o que vamos fazer por Binabik? — perguntou Simon. — Há algo que possamos fazer?

Jiriki ergueu seus olhos calmos e felinos.

— Teremos a chance de falar em seu nome amanhã. Ainda não descobri seu crime. Poucos qanuc falam qualquer idioma além do seu próprio. Seu companheiro é um gnomo raro de fato, e eu não domino muito bem a sua língua. Eles também não gostam de compartilhar seus pensamentos com estranhos.

— O que vai acontecer amanhã? — Simon perguntou, afundando-se de volta na cama. Sua cabeça latejava. Por que ainda se sentia tão fraco?

— Haverá um... Tribunal, suponho. Onde os governantes dos qanuc ouviram e decidiram.

— E nós vamos falar em nome de Binabik?

— Não, Seoman, não exatamente. — disse Jiriki com delicadeza. Por um instante, um olhar estranho cruzou seu rosto magro. — Vamos porque você enfrentou o Dragão da Montanha... E sobreviveu. Os senhores de qanuc desejam vê-lo. Não duvido que os crimes de seu amigo também serão abordados lá, diante de todo o seu povo. Agora descanse, pois precisará de forças.

Jiriki se levantou e esticou seus membros esguios, movendo a cabeça de um jeito desconcertantemente estranho, os olhos âmbar fixos no nada. Simon sentiu um tremor percorrer todo o seu corpo, seguido por um cansaço profundo.

“O dragão!” pensou, atordoado, num misto de assombro e horror. Ele vira um dragão! Ele, Simon, o ajudante de cozinha, o sujeito desprezível e abobalhado, brandira uma espada contra um dragão e sobrevivera... Mesmo depois de ter sido atingido por respingos de seu sangue escaldante! Como numa história!

Seu olhar se voltou para Espinho, que brilhava com um negror intenso e jazia parcialmente coberta junto à parede, aguardando como uma serpente bela e letal. Até mesmo Jiriki parecia relutante em tocá-la ou sequer falar sobre ela. O sitha desviara com calma todas as perguntas de Simon sobre que tipo de magia poderia correr como sangue pela estranha espada de Camaris. Os dedos gelados de Simon subiram pelo maxilar até a cicatriz, ainda dolorida, que lhe sulcava o rosto. “Como um simples ajudante de cozinha pôde ousar levantar algo tão poderoso?”

Fechando os olhos, sentiu o mundo imenso e indiferente girar muito lentamente sob si. Ouviu os passos silenciosos de Jiriki pela caverna em direção à saída e um leve ruído de tecido quando o sitha passou pela cortina de entrada e saiu... Então, o sono o arrebatou.



***



Simon sonhou. O rosto da menina de cabelos escuros surgiu outra vez à sua frente. Era um rosto de criança, todavia os olhos solenes eram antigos e profundos como um poço num cemitério abandonado. Parecia querer lhe dizer algo. Sua boca se movia sem emitir som, entretanto, enquanto se afastava pelas águas turvas do sono, ele pensou, por um instante, ter ouvido a voz dela.

Ao despertar na manhã seguinte, encontrou Haestan de pé ao seu lado. Os dentes do guarda estavam à mostra num sorriso sombrio, e sua barba brilhava com a neve que derretia.

— Hora de levantar, rapaz. Muita coisa para fazer hoje, muita coisa.

Levou algum tempo, mas apesar de se sentir bastante fraco, conseguiu se vestir. Haestan o ajudou com as botas, que não calçava desde que acordara em Yiqanuc. Pareciam rígidas como madeira em seus pés, e o tecido das roupas roçava em sua pele estranhamente sensível, porém se sentiu melhor por estar de pé e vestido. Caminhou com cautela pela extensão da caverna algumas vezes, começando a se sentir outra vez como um animal de duas pernas.

— Onde está o Jiriki? — perguntou Simon, puxando a capa para cobrir os ombros.

— Já foi na frente. Não se preocupe em ir ao encontro. Posso te carregar se quiser, você está franzino como um frango.

— Fui carregado até aqui... — disse Simon, notando uma frieza inesperada infiltrar-se em sua voz. — Isso não significa que terei de ser carregado sempre.

O robusto erkyno riu baixinho, sem se ofender.

— Fico feliz se caminhar, rapaz. Esses gnomos fazem caminhos estreitos demais, não tenho muita vontade de carregar ninguém aqui.

Simon teve de esperar um instante, logo na entrada da caverna, para se acostumar à claridade intensa que filtrava pela aba da porta levantada. Ao sair, o brilho refletido pela neve, mesmo numa manhã de céu nublado, quase lhe era insuportável.

Eles estavam em um amplo patamar de pedra que se projetava quase vinte côvados para fora da caverna. A estrutura estendia-se para a direita e para a esquerda, acompanhando a encosta da montanha. Simon via as entradas fumegantes de outras cavernas ao longo de toda a extensão, até que o caminho fazia uma curva e desaparecia contornando a barriga de Mintahoq. Havia passarelas largas semelhantes na encosta acima, fileira após fileira subindo a face da montanha. Escadas pendiam de cavernas mais altas e, onde as irregularidades da encosta tornavam impossível a ligação direta entre os caminhos, muitos dos patamares eram conectados através do vazio por pontes oscilantes, que pareciam feitas de pouco mais do que tiras de couro. Enquanto Simon observava, viu as figuras minúsculas e peludas de crianças qanuc correndo por essas travessias estreitas, brincando alegres como esquilos, embora uma queda significasse morte certa. Ver aquilo revirava o seu estômago, por isso se virou para o outro lado.

Diante dele estendia-se o grande vale de Yiqanuc, ao longe, as vizinhas rochosas de Mintahoq emergiam das profundezas enevoadas, erguendo-se imponentes em direção ao céu cinzento e salpicado de neve. Pequenos buracos negros pontilhavam os picos distantes, figuras minúsculas, mal discerníveis através do vale escuro, movimentavam-se apressadas pelas trilhas sinuosas que os ligavam.

Três gnomos, curvados em selas de couro trabalhado, desciam a trilha montados em seus carneiros de pelagem espessa. Simon deu um passo à frente para sair do caminho deles, movendo-se devagar pela plataforma até ficar a poucos passos da borda. Ao olhar para baixo, sentiu uma onda momentânea da vertigem que experimentara em Urmsheim. A base da montanha, salpicada aqui e ali por árvores perenes de troncos retorcidos, estendia-se lá embaixo, entrecortada por outras plataformas suspensas por escadas, semelhantes àquela em que estava. Notou um silêncio repentino e virou-se para procurar Haestan.

Os três indivíduos montados em carneiros haviam parado no meio do caminho largo, observando Simon com espanto e a boca aberta. O soldado, quase oculto na sombra da entrada da caverna do outro lado, fez-lhe uma saudação zombeteira por cima das cabeças dos gnomos.

Dois dos gnomos tinham barbas ralas no queixo. Todos usavam colares de contas grossas de marfim sobre seus casacos pesados ​​e carregavam lanças ricamente esculpidas com as extremidades em gancho, semelhantes a cajados de pastor, que usavam para conduzir suas montarias de chifres em espiral. Todos eram maiores que Binabik. Os poucos dias de Simon em Yiqanuc haviam lhe ensinado que Binabik era um dos adultos mais baixos de seu povo. Esses gnomos também pareciam mais primitivos e perigosos do que seu amigo, bem armados e de semblante feroz, transmitiam uma sensação de ameaça apesar da baixa estatura.

Simon os encarou. E os gnomos o encararam.

— Todos ouviram falar de você, Simon. — disse Haestan em voz alta. Os três montadores ergueram os olhos, sobressaltados com o vozeirão. — Embora quase ninguém o viu pessoalmente ainda.

Os gnomos examinaram o alto soldado de cima a baixo, alarmados. Depois, estalaram a língua para suas montarias e seguiram viagem apressados, desaparecendo ao contornar a encosta da montanha.

— Dei a eles um assunto para comentar. — riu Haestan.

— Binabik me falou sobre sua terra... — disse Simon. — Mas era difícil entender o que dizia. As coisas nunca são exatamente como imaginamos que serão, não é?

— Só o bom Senhor Jesuris conhece todas as respostas. — respondeu Haestan, acenando com a cabeça. — Bom, se quiser ver seu pequeno amigo, é melhor seguirmos em frente. Ande com cuidado... E não chegue tão perto da beirada.



***



Os dois desceram devagar pela trilha sinuosa, que ora estreitava, ora alargava enquanto percorria a encosta da montanha. O sol estava alto, porém escondido em meio a nuvens cor de fuligem, e um vento cortante soprava contra a face de Mintahoq. O topo da montanha, lá no alto, estava coberto por um manto branco de gelo, assim como os picos elevados do outro lado do vale, contudo, naquela altitude menor, a neve caíra de forma irregular. Alguns montes de neve acumulada atravessavam o caminho, e outros se alojavam junto às entradas das cavernas, no entanto havia também rocha seca e terra exposta por toda parte. Simon não fazia ideia se aquele tipo de neve era normal para os primeiros dias do mês de tiyagar em Yiqanuc, entretanto sabia que estava farto daquela mistura de chuva e neve e do frio. Cada floco que voava para dentro de seu olho parecia uma ofensa, a pele marcada de sua bochecha e mandíbula doía terrivelmente.

Agora que haviam deixado para trás o que parecia ser a parte mais povoada da montanha, não se viam muitos gnomos. Vultos escuros espreitavam através da fumaça que saía de algumas entradas de cavernas, e mais dois grupos de gnomos passaram na mesma direção, diminuindo a velocidade para observá-los, e logo seguindo caminho com a mesma pressa do primeiro grupo.

A dupla passou por um grupo de crianças brincando em um monte de neve. Os jovens gnomos, mal mais altos que o joelho de Simon, estavam muito bem agasalhados com pesados ​​casacos e calças de pele, pareciam pequenos ouriços arredondados. Seus olhos se arregalaram quando Simon e Haestan passaram caminhando com dificuldade, e a algazarra de vozes agudas cessou, todavia não fugiram nem demonstraram qualquer sinal de medo. Simon gostou daquilo. Sorriu com gentileza, cuidando para não forçar a bochecha dolorida, e acenou para eles.

Quando uma curva da trilha os levou para longe, em direção ao lado norte da montanha, viram-se em uma área onde o ruído dos habitantes de Mintahoq desaparecera por completo, deixando-os sozinhos com a voz do vento e o farfalhar da neve.

— Eu mesmo não gosto muito desta parte. — disse Haestan.

— O que é aquilo? — Simon apontou para a encosta acima. Sobre uma plataforma de pedra, bem no alto, erguia-se uma estranha estrutura em forma de ovo, feita de blocos de neve cuidadosamente dispostos. Ela emitia um ligeiro resplendor, com um tom rosado conferido pela luz oblíqua do sol. Diante dela, perfilava-se uma fileira de gnomos silenciosos, com lanças seguradas firmes nas mãos enluvadas e rostos de traços duros sob os capuzes.

— Não aponte, rapaz. — disse Haestan, puxando com cuidado o braço de Simon. Será que alguns dos guardas haviam desviado o olhar para baixo? — É algo importante, segundo seu amigo Jiriki. Chamam de “Casa de Gelo”. O povo gnomo está todo agitado com isso agora mesmo. Não sei por que... E nem quero saber.

— Casa de Gelo? — Simon arregalou os olhos. — Alguém mora lá?

Haestan balançou a cabeça.

— Jiriki não disse.

Simon olhou para Haestan de forma inquisitiva.

— Você tem conversado muito com Jiriki desde que chegou aqui? Digo, desde que eu não estava por perto para conversar com vocês?

— Ah, sim... — disse Haestan, fazendo uma pausa em seguida. — Não muito, na verdade. Parece sempre que... Que ele está pensando em algo grandioso, entende? Alguma coisa importante. Porém, à sua própria maneira, é alguém agradável. Não é como uma pessoa comum, contudo não é um sujeito ruim. — Haestan refletiu um pouco mais. — Não é como eu imaginava que um sujeito ligado à magia seria. — Haestan sorriu. — Ele tem uma boa opinião a seu respeito. Pelo jeito que fala, até parece que lhe deve dinheiro. — riu baixinho, a voz ressoando na barba.

Foi uma caminhada longa e exaustiva para alguém tão fraco quanto Simon... Subindo e descendo, indo e vindo pela encosta da montanha. Embora Haestan colocasse a mão sob seu cotovelo para apoiá-lo sempre que fraquejava, Simon já começava a duvidar se conseguiria ir mais longe quando contornaram uma saliência rochosa que avançava sobre a trilha como uma pedra num rio e se viram diante da ampla entrada da grande caverna de Yiqanuc.

A vasta abertura, com pelo menos cinquenta passos de uma borda à outra, escancarava-se na face de Mintahoq como uma boca pronta para proferir um julgamento solene. Logo na entrada, erguia-se uma fileira de estátuas enormes e desgastadas pelo tempo. Figuras de barriga protuberantes e aspecto humanoide, cinzentas e amareladas como dentes podres, com os ombros curvados sob o peso do teto da entrada. Suas cabeças lisas eram coroadas por chifres de carneiro, e grandes presas projetavam-se de entre os lábios. Estavam tão desgastadas por séculos de intempéries que seus rostos haviam perdido quase todos os traços. Isso lhes conferia, aos olhos espantados de Simon, não uma aparência de antiguidade, e sim de uma novidade ainda informe... Como se estivessem, naquele exato momento, criando a si mesmos a partir da pedra primordial.

— Chidsik Ub Lingit! — disse uma voz ao seu lado. — A Casa do Ancestral.

Simon deu um pequeno salto e virou-se, surpreso, entretanto não fora Haestan quem falara. Jiriki estava ao seu lado, contemplando os rostos de pedra sem olhos.

— Há quanto tempo está aí? — Simon sentiu vergonha de ter se assustado tanto. Voltou o rosto para a entrada. Quem poderia imaginar que os minúsculos gnomos esculpiriam guardiões de portal tão gigantescos?

— Saí para recebê-lo. — disse Jiriki. — Saudações, Haestan.

O soldado grunhiu e acenou com a cabeça. Simon perguntou-se outra vez o que teria acontecido entre o erkyno e o sitha durante os longos dias de sua enfermidade. Havia momentos em que Simon achava muito difícil conversar com o Príncipe Jiriki, sempre tão enigmático e indireto. Como seria para um soldado franco como Haestan, que não fora treinado, como Simon, nas exasperantes digressões circulares do Doutor Morgenes?

— É aqui que vive o Rei dos gnomos? — perguntou em voz alta.

— E a Rainha também. — Jiriki assentiu. — Embora, na língua qanuc, eles não sejam chamados de rei e rainha. Seria mais correto dizer o Pastor e a Caçadora.

— Reis, rainhas, príncipes... E nenhum deles é o que o título sugere. — resmungou Simon. Estava cansado, dolorido e com frio. — Por que a caverna é tão grande?

O sitha riu baixinho. Seus cabelos de um tom lavanda-pálido esvoaçavam ao vento cortante.

— Porque, se a caverna fosse menor, jovem Seoman, sem dúvida teriam encontrado outro lugar para ser sua Casa do Ancestral. Agora, devemos entrar... E não apenas para que você possa escapar do frio.

Jiriki conduziu-os por entre duas das estátuas centrais, em direção a uma luz amarela tremeluzente. Ao passarem entre as pernas semelhantes a pilares, Simon ergueu o olhar para os rostos desprovidos de olhos, situados além das superfícies polidas e arredondadas das enormes barrigas de pedra das estátuas. Ele se lembrou, mais uma vez, das filosofias do Doutor Morgenes.

“O doutor costumava dizer que ninguém sabe o que o destino lhe reserva... ‘Não crie expectativas’, ele dizia o tempo todo. Quem diria que um dia eu veria coisas assim, viveria tais aventuras? Ninguém sabe o que o destino lhe reserva...”

Simon sentiu uma pontada de dor no rosto e, em seguida, uma fisgada gelada nas entranhas. O doutor, como tantas vezes acontecia, dissera apenas a verdade.



***



Lá dentro, a enorme caverna estava repleta de gnomos e impregnada pelos odores agridoce de óleo e gordura. Mil luzes amarelas brilhavam intensamente.

Por toda a rugosa cavidade de pedra escarpada e de teto alto, em nichos nas paredes e no próprio chão, poças de óleo ardiam em chamas. Centenas dessas lamparinas, cada uma com seu pavio flutuante semelhante a um verme branco e esguio, banhavam a caverna com uma luz que superava em muito o dia cinzento lá fora. Os qanuc, vestindo trajes de couro, enchiam o recinto, um oceano de cabeças de cabelos negros. Crianças pequenas viajavam às costas dos adultos, como gaivotas flutuando placidamente sobre as ondas.

No centro da sala, uma ilha de rocha erguia-se acima do mar de gnomos. Ali, sobre uma plataforma de pedra elevada, esculpida na própria rocha do chão da caverna, duas figuras de pequeno porte estavam sentadas em meio a um círculo de fogo.

Não era bem uma poça de chamas puras, Simon percebeu um instante depois, mas um fosso estreito escavado na rocha cinzenta ao redor de toda a plataforma, cheio do mesmo óleo que alimentava as lamparinas. As duas figuras no centro do anel de fogo recostavam-se lado a lado em uma espécie de rede feita de couro com desenhos ornamentais, presa por tiras a uma estrutura de marfim. A dupla repousava imóvel em meio a uma pilha de peles brancas e avermelhadas. Seus olhos brilhavam em rostos redondos e serenos.

— Ela é Nunuuika e ele é Uammannaq. — disse Jiriki em voz baixa. — São os líderes dos qanuc...

Enquanto falava, uma das duas figuras pequenas fez um gesto rápido com um cajado curvo. A vasta multidão de gnomos, apinhada no local, abriu caminho para os lados, apertando-se ainda mais para formar um corredor que ia da plataforma de pedra até onde Simon e seus companheiros estavam. Centenas de rostos pequenos e expectantes voltaram-se para eles. Ouvia-se um grande murmúrio. Simon olhou para o trecho livre do chão da caverna, sentindo-se acanhado.

— Parece bem claro. — resmungou Haestan, dando-lhe um empurrãozinho. — Vá em frente rapaz.

— Todos nós. — disse Jiriki, fazendo um daqueles seus gestos de articulação peculiar para indicar que Simon deveria liderar o caminho.

Tanto os sussurros que ecoavam quanto o cheiro de peles curtidas pareciam se intensificar à medida que Simon avançava em direção ao Rei e à Rainha...

“Ou ao Pastor e à Caçadora...” lembrou a si mesmo. “Ou o que quer que fossem.”

O ar na caverna de repente pareceu pesado e sufocante. Ao tentar respirar fundo, tropeçou e teria caído se Haestan não o tivesse segurado pela parte de trás da capa. Ao chegar ao estrado, ficou por um momento olhando para o chão, lutando contra a tontura, antes de erguer o olhar para as figuras na plataforma. A luz das lamparinas ofuscou sua visão. Sentiu raiva, embora não soubesse contra quem. Afinal, não tinha acabado de sair da cama pela primeira vez naquele dia? O que esperavam? Que saísse saltitando e matasse alguns dragões?

O que mais chamava a atenção em Uammannaq e Nunuuika, concluiu, era a grande semelhança entre os dois, pareciam gêmeos. Não que não fosse óbvio de imediato quem era quem... Uammannaq, à esquerda de Simon, tinha uma barba rala que pendia do queixo, presa com tiras vermelhas e azuis formando uma longa trança. O cabelo também estava trançado e preso em voltas intrincadas sobre a cabeça com pentes de pedra negra e brilhante. Enquanto mexia suavemente na barba com dedos pequenos e grossos, a outra mão segurava seu cajado de autoridade... Uma lança grossa e ricamente entalhada, típica dos montadores de carneiros, com uma extremidade curvada.

Sua esposa, se é que as coisas funcionavam assim em Yiqanuc, segurava uma lança reta, uma haste esbelta e letal com uma ponta de pedra afiada a ponto de se tornar translúcida. Ela usava os longos cabelos negros presos no alto da cabeça, mantidos no lugar por vários pentes de marfim esculpido. Seus olhos, brilhando por trás de pálpebras oblíquas em um rosto cheio, eram inexpressivos e vívidos como pedra polida. Simon jamais vira uma mulher olhá-lo de maneira tão fria e arrogante. Recordou-se de que ela era chamada de Caçadora e sentiu-se em terreno desconhecido. Em contrapartida, Uammannaq parecia muito menos ameaçador. O rosto pesado do Pastor parecia cair em linhas frouxas de sonolência, contudo ainda havia um brilho de astúcia em seu olhar.

Após o breve momento de observação mútua, o rosto de Uammannaq se enrugou em um largo sorriso amarelado, com os olhos quase desaparecendo em fendas alegres. Ele ergueu as palmas das mãos em direção aos companheiros, juntou as mãos pequenas e disse algo em um dialeto gutural dos qanuc.

— Ele diz que vocês são bem-vindos a Chidsik Ub Lingit e a Yiqanuc, as montanhas dos gnomos... — traduziu Jiriki. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Nunuuika falou. Suas palavras pareciam mais ponderadas que as de Uammannaq, no entanto não eram mais compreensíveis para Simon. Jiriki ouviu-a com atenção.

— A Caçadora também oferece suas saudações. Diz que você é muito alto, entretanto, a menos que esteja muito enganada sobre o povo Utku, você parece jovem para um matador de dragões, apesar dos fios brancos no cabelo. Utku é a palavra dos gnomos para os habitantes das terras baixas. — acrescentou o sitha em voz baixa.

Simon olhou para as duas figuras reais por um momento.

— Diga a eles que fico feliz com as boas-vindas, ou o que quer que se deva dizer. E, por favor, diga que não matei o dragão, provavelmente apenas o feri, e que o fiz para proteger meus amigos, assim como Binabik de Yiqanuc fez por mim muitas outras vezes.

Ao terminar a longa frase, ficou sem fôlego por um momento, sentindo uma súbita tontura. O Pastor e a Caçadora, que o observavam com curiosidade enquanto falava, ambos haviam franzido de leve a testa ao ouvir o nome de Binabik, voltaram-se agora para Jiriki, cheios de expectativa.

O sitha fez uma pausa, pensativo, e então disparou uma longa sequência de palavras na fala densa dos gnomos. Uammannaq assentiu com ar intrigado. Nunuuika ouviu impassível. Quando Jiriki terminou, ela lançou um olhar rápido ao seu consorte e voltou a falar.

A julgar pela resposta traduzida, talvez nem tivesse ouvido o nome de Binabik. Ela elogiou a bravura de Simon, dizendo que os qanuc sempre consideraram a montanha Urmsheim... Ou Yijarjuk, como a chamava... Um lugar a ser evitado a todo custo. Agora, disse ela, talvez fosse hora de explorar uma vez mais as montanhas do oeste, já que o dragão, mesmo que tivesse sobrevivido, deveria ter desaparecido nas profundezas mais baixas para curar suas feridas.

Uammannaq parecia impaciente com as palavras de Nunuuika. Assim que Jiriki terminou de transmitir o que dissera, o Pastor respondeu com suas próprias palavras, dizendo que aquele não era, de forma alguma, o momento para tais aventuras. Após o terrível inverno que acabara de passar e com o maligno Croohokuq, os rimmerios, agindo de forma tão nefasta. Ele se apressou em acrescentar que, naturalmente, Simon e seus companheiros, o outro habitante das terras baixas e o estimado Jiriki, deveriam permanecer pelo tempo que desejassem, como convidados de honra, e que, se houvesse algo que ele ou Nunuuika pudessem fazer para tornar sua estadia mais agradável, bastava pedir.

Antes mesmo que Jiriki terminasse de traduzir essas palavras para a língua dos Povos do Oeste, Simon já mudava o peso do corpo de um pé para o outro, ansioso por responder.

— Sim! — disse a Jiriki. — Há algo que podem fazer. Podem libertar Binabik e Sludig, nossos companheiros. Libertar nossos amigos, se pudessem nos fazer esse favor! — falou em voz alta, voltando-se para a dupla envolta em peles à sua frente, que o observava com incompreensão. O tom elevado de sua voz fez com que alguns dos gnomos aglomerados ao redor da plataforma de pedra murmurassem inquietos. Simon perguntou-se, atordoado, se havia ido longe demais, entretanto naquele momento não se importava com isso.

— Seoman! — disse Jiriki. — Prometi a mim mesmo que não traduziria erroneamente nem interferiria em sua conversa com os senhores de Yiqanuc, todavia peço-lhe agora, como um favor a mim: não lhes peça isso. Por favor.

— Por que não?

— Por favor. Como um favor. Explicarei mais tarde, peço que confie em mim.

As palavras raivosas de Simon escaparam antes que pudesse contê-las.

— Quer que eu abandone meu amigo como um favor a você? Acaso não salvei sua vida? Não fui eu quem pegou a Flecha Branca para você? Quem é que deve favores aqui?

Arrependeu-se no mesmo instante em que disse aquilo, temendo que uma barreira intransponível tivesse surgido de repente entre ele e o Príncipe Sitha. Os olhos de Jiriki cravaram-se nos seus. A plateia começou a se inquietar e a murmurar entre si, pressentindo que algo estava errado.

O sitha baixou o olhar.

— Sinto vergonha, Seoman. Exijo demais de você.

Agora Simon sentia-se afundando como uma pedra em uma poça de lama. Rápido demais! Era muita coisa para pensar. Tudo o que queria era deitar-se e não saber de nada.

— Não, Jiriki! — ele deixou escapar. — Estou envergonhado. Estou envergonhado do que disse. Sou um idiota. Pergunte aos dois se posso falar com eles amanhã. Estou me sentindo mal.

De repente, a tontura tornou-se terrivelmente real, sentiu toda a caverna inclinar. A luz das lamparinas de óleo oscilava como se estivesse em um vento forte. Os joelhos de Simon cederam e Haestan segurou seus braços, sustentando-o.

Jiriki virou-se em seguida para Uammannaq e Nunuuika. Um murmúrio de consternação fascinada percorreu a multidão de gnomos. O habitante das terras baixas, de crista vermelha e aparência de cegonha, estava morto? Talvez pernas tão longas e finas não fossem capazes de suportar peso por muito tempo, como alguns haviam sugerido. Mas então, por que os outros dois habitantes das terras baixas seguiam de pé? Muitas cabeças balançaram em perplexidade, muitos palpites sussurrados foram trocados.

— Nunuuika, de olhar mais aguçado, e Uammannaq, de rédeas mais firmes... O menino ainda está doente e muito fraco. — Jiriki falou em voz baixa. A multidão, enganada por sua voz suave, inclinou-se para a frente. — Peço uma graça, pela amizade primordial de nosso povo.

A Caçadora inclinou a cabeça, com um pequeno sorriso.

— Fale, Irmão Mais Velho. — disse ela.

— Não tenho o direito de interferir em sua justiça e não o farei. Peço que o julgamento de Binabik de Mintahoq não prossiga até que seus companheiros, incluindo o menino Seoman, tenham a chance de falar em seu nome. E que o mesmo seja concedido também para o rimmerio, Sludig. Peço isso em nome da Mulher da Lua, nossa raiz comum. — Jiriki curvou-se levemente, usando apenas a parte superior do corpo. Não havia qualquer sugestão de subserviência.

Uammannaq bateu com os dedos no cabo de sua lança. Olhou para a Caçadora, com uma expressão preocupada. Por fim, assentiu.

— Não podemos recusar isso, Irmão Mais Velho. Assim será. Daqui a dois dias, quando o garoto estiver mais forte... Contudo ainda que este jovem estranho nos tivesse trazido a cabeça dentada de Igjarjuk em uma alforje, não mudaria o que deve acontecer. Binabik, aprendiz do Homem Cantor, cometeu um crime terrível.

— Assim me disseram... — respondeu Jiriki. — No entanto a bravura dos qanuc não foi a única coisa que lhes garantiu a estima dos sitha. Nós também admirávamos a bondade dos gnomos.

Nunuuika tocou os pentes em seu cabelo, com o olhar duro.

— Corações bondosos jamais devem se sobrepor à lei justa, Príncipe Jiriki, ou toda a prole de Sedda... Sitha e mortais... Retornará nua às neves. Binabik receberá seu julgamento.

O Príncipe Jiriki assentiu e fez outra breve reverência antes de se afastar. Haestan carregou Simon, que cambaleava, enquanto caminhavam de volta pela caverna, descendo o corredor de gnomos curiosos, de volta ao vento frio.


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