quinta-feira, 30 de julho de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 24

Primeira Temporada Capítulo 24: Música Estranha

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte e Quatro: Música Estranha



JONATHAN SIMS

Depoimento de Leanne Denikin, referente a um antigo órgão de calíope que ela possuiu brevemente em agosto de 2004. Depoimento original prestado em 17 de janeiro de 2005. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Deixe-me ser bem clara, não tenho medo de palhaços. Também não os acho engraçados. Só um pouco desconcertantes, na verdade. Nunca entendi por que as pessoas acham homens adultos com maquiagem e perucas ridículas engraçados. Ou assustadores. É a mesma coisa com as bonecas. As pessoas falam sobre seus olhos frios e sem vida, mas não parecem ter nenhum problema com estátuas. Suponho que agora tenho um bom motivo para ter medo de ambos. Só quero que vocês entendam, eu não estava vendo coisas por medo. Isso aconteceu.

Não foi uma surpresa quando meu avô morreu em agosto passado. Estava morando com ele havia quase dois anos em sua casa em Bootle, cuidando dele durante sua doença. Minha mãe estava passando por suas próprias dificuldades na época e meu pai imprestável não queria se envolver com nada disso, então cuidar do meu avô ficou por minha conta. Sendo sincera, não foi tão ruim. Meu avô era um homem estranho às vezes. Trabalhou em circos itinerantes e shows de aberrações por toda a Europa durante a maior parte da vida e se tornou meio recluso nos últimos anos. Também era capaz de soltar palavrões sem parar. Porém coloque-o em um piano e não conheço ninguém que tocasse tão bem quanto. Como disse, não foi uma surpresa quando ele veio a falecer, contudo ainda assim foi difícil. Como deve ter imaginado, não tenho um bom relacionamento com meus pais e sempre tive problemas para fazer amigos, então... Quando ele se foi, me atingiu em cheio.

Não saí naquela semana. Nem na seguinte. Vi Joshua, meu... Companheiro, acho que você o chamaria assim, no entanto fora isto, não vi ninguém entre a morte do meu avô e o funeral. Estávamos só eu, Josh e minha mãe. Meu avô nunca foi de frequentar a igreja, entretanto minha mãe tinha muita fé, então pagou por um funeral metodista, se é que se pode chamar assim. Era um dia quente e abafado, e me lembro de me perguntar se a ardência nos meus olhos era por causa das lágrimas ou do suor. Acontece que o vovô tinha me deixado a sua casa. Demorou um pouco para a ficha cair, a casa tinha sido o lugar mais acolhedor que tinha tido por tanto tempo que sempre senti que, de certa forma, ela me pertencia.

Revirar os papéis e pertences antigos do meu avô foi mais difícil do que esperava. Foi só lendo algumas das cartas suas que descobri que seu nome de batismo era Nikolai, até então sempre usara apenas Nick. Por fim, consegui organizar tudo. Tinha uma pequena caixa de lembranças que queria guardar, mas... Apenas não estava com vontade de jogar o resto fora ainda. Decidi guardá-las no sótão. Sabia que a casa tinha um, embora nunca tivesse entrado lá. Sempre ficava trancado. Não era nenhum mistério, só que meu avô não precisava pegar nada lá em cima durante o tempo em que moramos juntos. Pelo menos, foi o que pensei.

Foi só então que percebi que nunca tinha entrado lá. Para piorar a situação, logo descobri que nenhuma das chaves que me deram servia para o cadeado. Também não tive sorte procurando pelo resto da casa. No fim, tive que cortar o cadeado com um alicate de corte que encontrei na garagem.

Havia também uma escada na garagem, então subir pelo pequeno buraco quadrado não foi problema. Percebi então que não tinha uma lanterna e que estava muito escuro. Apesar de ser pleno verão, o sótão estava fresco, quase frio. Considerei voltar para pegar uma lanterna e um casaco, todavia quando estendi a mão, ela roçou em algo que parecia um cordão. Dei um puxão e uma pequena lâmpada fraca acendeu, e vi o que havia lá dentro.

Quando me lembrei do sótão pela primeira vez, fiquei irritada. Pensei que haveria muito mais coisas lá em cima, mais dias de organização para fazer. Porém quando acendi a luz, vi que estava quase todo vazio. As únicas coisas lá eram um baú de viagem antigo, um banquinho e um órgão de calíope vermelho brilhante. O teto também era mais alto do que eu esperava. Podia ficar em pé sem ter de me curvar. Caminhei com cuidado em direção ao antigo órgão a vapor. Era vermelho vivo e estava em excelente estado, exceto por uma espessa camada de poeira. Havia uma pequena placa de latão com a inscrição simples “O Caliafone”. Os tubos de latão que se projetavam do topo ainda brilhavam fracamente sob a poeira, e notei que havia uma inscrição, esculpida na tampa do teclado. Dizia: “Fique quieto, pois há música estranha”.

Arte por underwatersart.

Em seguida, fui até o baú de viagem e fiquei surpresa ao encontrá-lo destrancado. Ao abri-lo, uma nuvem de poeira se levantou e tossi algumas vezes antes de conseguir levantar a pesada tampa. Dentro havia bonecas. Muitas delas. Pareciam antigas, com corpos de pano esfarrapados e flácidos, cobertos por cabeças redondas desproporcionais e grandes olhos pintados que fitavam o fundo do baú na sombra. O cabelo de cada uma era intrincado e de lã, e embora tivesse certeza de que não fossem o tipo de bonecas que um ventríloquo usaria, as cabeças tinham bocas semelhantes, blocos de madeira que se abriam e fechavam para simular a fala. Pelo menos, deveriam ter. Quase todas tiveram a parte da mandíbula arrancada de forma grosseira, restando apenas lascas pontiagudas entre as bochechas.

Contei 23 bonecas no total, e apenas uma delas ainda tinha a mandíbula intacta. Era a que parecia mais velha de todas, e era uma pequena boneca de palhaço. Seu corpo esfarrapado era branco com bolinhas roxas, com três pompons na frente e uma gola de babados logo abaixo da cabeça. Não tinha mais cabelo de lã, contudo em vez disso tinha um chapéu branco alto e pontudo. Seu rosto estava pintado de branco puro, e seus olhos estavam fechados, com linhas pretas desenhadas sobre eles. A única cor era um toque de vermelho na mandíbula articulada. Um sorriso.

Como disse antes, não tenho medo de palhaços e não tenho medo de bonecas. No entanto aquela coisa era feia. Na verdade, fiquei meio aliviada por ter encontrado algumas das coisas antigas do meu avô que eu não teria problema em jogar fora. Ou talvez vender. Eram sem dúvidas antiguidades, então poderiam valer alguma coisa. De qualquer forma, coloquei o boneco de palhaço de aparência desagradável de volta na caixa e fechei a tampa. Definitivamente fechei a tampa.



[PORTA ABRE]



Voltei para perto do calíope. Tinha...



Sasha: Pensei que se pronunciava “Ca-lee-o-pee”?



Jonathan Sims: Sasha? Você... Voltou cedo, pensei que estivesse tentando conseguir aqueles relatórios policiais sobre o caso Harold Silvana?



Sasha: Tentei e consegui. Eles foram bem úteis, na verdade.



Jonathan Sims: Oh. Bom trabalho.



Sasha: Então, sabemos se a pronuncia é “Ca-lee-o-pee” ou “Cuh-ly-o-pee”?



Jonathan Sims: Também já ouvi dizerem “Ca-lee-ope”.



Sasha: Sério? Quem?



Jonathan Sims: Americanos.



Sasha: Ah.



Jonathan Sims: Pelo que sei, não existe uma pronúncia “correta”. Mas originalmente elas receberam o nome da musa grega Calíope, então...



Sasha: Será que as pessoas vão entender que vem da mitologia grega?



Jonathan Sims: Se eles trabalham para o Instituto Magnus, então espero que sim.



Sasha: Eu só ouvi mais vezes como “Ca-lee-o-pee”.



[PORTA FECHA]



Jonathan Sims: O depoimento continua.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Voltei para o calíope. Não havia fechadura na tampa, nem nenhum interruptor visível do lado de fora. Abri-a e as teclas dentro brilhavam como se tivessem acabado de ser polidas. Naquela época, não sabia como funcionava um calíope. Achava que era como um piano de canos esquisito. Não sabia que precisava de um soprador para que o instrumento tocasse, e mesmo que soubesse, não saberia onde encontrar um ou como usá-lo. Teoricamente, quando me sentei em frente a ele e apertei a primeira tecla, nada deveria ter acontecido. As quatro fileiras altas de apitos de latão deveriam ter permanecido silenciosas. Em vez disso, saiu um som alto e estridente de um dos canos e quase caí da cadeira de surpresa. Lembro de uma vez ter ouvido falar que o som de um órgão a vapor pode ser ouvido a mais de um quilômetro de distância, e quando aquele apito agudo soou, passei a acreditar.

Comecei a tocar uma melodia. Meu avô tinha tido um piano. Havia quebrado anos antes e nunca teve dinheiro para substituí-lo, porém me ensinou o básico. Havia uma melodia que, quando eu era criança, sempre insistia para que tocasse para mim. Nunca me disse o nome dela, se é que tinha um. Acabei me acostumando a chamar a música de “Mais Rápido, Mais Rápido”, como uma descrição. Uma melodia circense alegre e animada que começava quase insuportavelmente lenta e ia ganhando ritmo, ficando cada vez mais rápida até que os dedos do meu avô se tornassem um borrão. Ele sempre atendia meu pedido para a tocar, e agora toquei para ele. Os apitos estridentes eram quase ensurdecedores naquele espaço apertado. Sabia que provavelmente ouviria reclamações dos vizinhos, contudo não me importava. Apenas toquei.

A melodia ficou mais rápida, mais frenética, e senti algo crescendo dentro de mim. Era como se o desfecho final para a perda do meu avô estivesse ao meu alcance, e se fosse mais rápido, se tocasse com velocidade suficiente, poderia alcançá-lo. No entanto meu dedo escorregou e a música se tornou uma cacofonia dissonante. Nunca fui tão boa quanto o vovô Nick. Fiquei sentada ali em silêncio por um minuto. Quando me virei para sair vi que o velho baú estava aberto e o boneco de palhaço jazia em cima da pilha. Mesmo com os olhos pintados ainda fechados, senti como se estivesse me olhando. Seu sorriso parecia um pouco mais largo do que antes. Fechei o baú e desci a escada.

Não pensei muito nas coisas estranhas do sótão durante a semana seguinte, mais ou menos. Tinha muitas coisas para fazer. Só me lembrei do assunto quando o Josh veio me visitar e perguntou por que a pequena abertura para o sótão estava aberta. Disse que tinha algo legal para lhe mostrar e peguei a escada. Ele ficou devidamente impressionado com o calíope, entretanto se assustou um pouco com as bonecas. Não sabia que tinha medo delas. Ele me fez fechar o baú antigo quase assim que as viu e ficava olhando para lá para garantir que continuasse fechado. Decidi não o contar sobre a primeira vez que o baú tinha se aberto sozinho.

Ele perguntou se eu sabia tocar alguma coisa no antigo órgão a vapor; então, sentei-me e comecei a tocar a velha melodia de circo do meu avô. Mais uma vez, comecei a acelerar, tocando cada vez mais rápido à medida que os tubos do órgão começavam a chiar estridentemente. Senti uma mão tocar a minha com firmeza, interrompendo a música. Josh ficou ali parado, tremendo um pouco, com o rosto mortalmente pálido. Por impulso, olhei para o baú das bonecas, todavia a tampa estava bem fechada. Perguntei o que havia de errado, e ele disse que não sabia. Só queria ir embora. Naquele instante. E foi o que fizemos. Descemos do sótão, e fechei o alçapão de madeira atrás de nós.

As semanas seguintes foram... Desagradáveis. Não quero entrar em detalhes. Digamos apenas que descobri que o Josh era só mais um babaca, afinal. Nosso relacionamento já passava por uma fase difícil. Não ajudou o fato de que, nessas últimas semanas, havia ficado mal-humorado, irritadiço e tenso a todo momento. Quando enfim descobri que tinha... Não importa. Terminamos. Fiquei destruída, já que tudo aquilo aconteceu logo após a morte do meu avô. Apenas me fechei para tudo de novo.

No fim das contas, o que desencadeou tudo foi eu ter tropeçado em uma caixa. Uma daquelas em que guardei as coisas do meu avô e que, na verdade, nunca cheguei a levar para o sótão. Decidi acabar logo com aquilo. Acho que esperava que uma casa mais organizada me desse mais espaço para pensar. Então, pela terceira vez, peguei a escada e subi para o sótão. Guardar todas as caixas não levou tanto tempo quanto imaginei; em menos de uma hora, terminei. Estava tão concentrada em guardar minhas lembranças que nem sequer tinha olhado para o velho baú de viagem. Quando me preparava para descer, lancei um olhar para lá e congelei.

A tampa estava aberta de novo, e o boneco de palhaço estava no topo. Desta vez, não estava olhando para mim. Em vez disso, parecia estar de frente para uma boneca que não tinha visto antes. Essa também ainda tinha o maxilar, e juro que era a cara do Josh. A mesma jaqueta marrom surrada, o mesmo jeans velho. O cabelo preto de lã até tinha aquele topete que sempre levava tanto tempo para arrumar. Estava encostada na lateral da caixa e, juro, parecia que o palhaço estava tentando alcançá-la. Bati a tampa da caixa com força e saí dali o mais rápido que pude. No dia seguinte, comprei um cadeado.

Trouxe uma cópia do depoimento que dei à polícia, porque você precisa acreditar em mim... Nunca mais toquei naquele calíope. Não tive nada a ver com o que aconteceu com o Josh. Cerca de uma semana depois, ao voltar do cinema, descobri que haviam invadido minha casa. Está tudo no relatório do roubo que entreguei à polícia. A fechadura da porta da frente estava destruída, e a porta balançava de um lado para o outro. A princípio, corri para a sala e para o quarto, mas nada havia sido levado. Os eletrônicos e minhas joias estavam intactos. Senti um frio na barriga ao perceber a situação e corri em direção ao sótão. E não deu outra, estava aberto, com o cadeado arrancado do suporte. O calíope e o baú de viagem haviam sumido.

Perguntaram aos meus vizinhos sobre isso. Nenhum deles tinha visto nada, exceto a Sra. Harlow, minha vizinha ao lado, que disse ter notado duas pessoas retirando pedaços de chapa metálica vermelha e tubos de latão. Ela não se lembrava de detalhes; apenas disse que eles “pareciam legítimos” e que pensou que eu estava mandando transportar algumas coisas. A polícia nunca os encontrou.

Só preciso que você acredite nisso. Que saiba que não toquei aquilo de novo. Não foi minha culpa o que aconteceu com o Josh. Deus sabe que o odiava o suficiente naquela época, porém... Jamais desejaria algo assim para ele. Não daquele jeito. Imagino que não precise que lhe conte como o encontraram. Quatro dias depois, morto em seu quarto. Sua garganta estava esmagada. E sua mandíbula havia sido arrancada. A polícia nunca a encontrou.

Sequer teria pensado nisso, na verdade. Não teria... Juntado as peças, nem mesmo naquela ocasião. Não fosse pelo fato de que, nos últimos dias do nosso relacionamento, o Josh havia entrado em colapso. Ele me disse que ainda ouvia aquela música do calíope. Ao longe, quando estava sozinho. E o som vinha se aproximando gradualmente. Quer dizer, dizem que dá para ouvir uma a quase uma milha de distância.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Embora eu tenha o que considero um ceticismo lógico quanto a uma história sobre bonecos de palhaço assassinos, há alguns pontos que me deixam mais inclinado do que o habitual a acreditar neste depoimento. Em primeiro lugar, como a Sra. Denikin mencionou, ela forneceu uma cópia do relatório policial oficial sobre o roubo, que inclui o depoimento de uma certa Irene Harlow; esse relato parece confirmar que a Sra. Denikin possuía tanto um baú de viagem quanto um órgão de calíope... Portanto, pelo menos esses itens existiam.

A morte de Joshua Drury também é, no mínimo, tão misteriosa quanto fora descrito. Além de sua mandíbula ter sido arrancada do crânio, vestígios indicam que sua garganta foi esmagada por algum tipo de corda, aparentemente trançada com lã grossa. Não havia sinais de luta ou de invasão, nem vestígios de DNA de qualquer outra pessoa no quarto além dele mesmo. Ninguém jamais foi preso pelo crime. Ao discutir este caso, Tim disse que o lembrava de alguns artigos que havia lido sobre circos itinerantes na Rússia e na Polônia durante o início do século XX. Por impulso, procurei alguns dos volumes que mencionou na biblioteca do Instituto e, de fato, na página 43 de “Gregory Petry, Aberrações e Seguidores: Circos nos Anos 1940”, encontrei a reprodução de uma antiga fotografia em preto e branco. Esta mostra um pequeno grupo de trabalhadores de circo, um contorcionista, um engolidor de fogo, dois homens fortes, um mestre de cerimônias e um organista sentado atrás de um calíope. A fotografia está datada de 1948 e foi tirada em Minsk, na Rússia. Apenas o mestre de cerimônias e o organista são identificados pelo nome: Gregor Osinov e Nikolai Denikin. O nome da trupe era “Tsirk druh-grov”... O Circo do Outro. O nome me soa familiar, contudo não consigo encontrar nenhuma outra referência a este.

A Sra. Denikin emigrou para o Sudeste Asiático há dois anos, por isso não estava disponível para um acompanhamento, no entanto tenho certeza de que deve haver mais informações sobre o caso em algum lugar nos Arquivos. Pois sei, com certeza, que no Depósito de Artefatos do Instituto Magnus há um órgão a vapor Caliafone vermelho-vivo. Quando perguntei a Elias, ele apenas me disse que o registro de sua aquisição estava “provavelmente em algum lugar do arquivo” e ninguém mais sabe nada além do fato de que foi adquirido em algum momento de 2007. A tampa do teclado está firmemente trancada e, gravadas na superfície, estão as palavras: “Fique quieto, pois aqui há música estranha”.

Fim da gravação.

***

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