Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 25: Lori
Parte 1
Embora a crise tivesse passado, a cidade mostrava sinais de que não havia se recuperado da tragédia. Os proprietários das casas devastadas não pareciam muito motivados a consertar os danos, sentados ali em atitude de abatimento, e seus vizinhos não pareciam nem um pouco inclinados a tentar animá-los. Todos exibiam uma expressão de desvario; as pessoas permaneciam paradas como cascas vazias ou vagavam pelas ruas sem rumo. Era quase como se o desastre avassalador os tivesse arrancado tudo o que importava. Porém, em meio à multidão de moradores e ao burburinho da equipe de socorro, que trabalhava sem parar sob as ordens diretas do prefeito, ouviu-se uma voz jovem, firme e animada. Era a voz do Dr. Tsurugi, que trabalhava na unidade de atendimento de emergência montada em frente ao hospital.
— Certo! — disse ele. — Quero que formem uma fila única, sem empurrar, e se sentem, um de cada vez.
Assim que o paciente se sentava na cadeira giratória simples, o Dr. Tsurugi passava as mãos sobre o corpo da pessoa, ainda vestida, e fazia algumas perguntas. As palmas de suas luvas traziam impresso algum tipo de programa de diagnóstico médico. As perguntas serviam para avaliar o grau de perturbação mental sofrido por cada paciente.
— Certo... Zero vírgula noventa e sete. Um caso leve de envenenamento por radiação. O equilíbrio mental está... Sem problemas. Pegue seu remédio ali. Muito bem, próximo!
Somente ao final é que um traço de emoção genuína transpareceu no rosto do médico, contudo logo em seguida recuperou sua expressão radiante. Era impressionante vê-lo em ação, atendendo à fila interminável de pacientes a um ritmo de menos de um minuto por pessoa. No entanto, a pessoa ao seu lado, encarregada de distribuir os medicamentos, não era a enfermeira. Era uma jovem encantadora de dezessete anos que não conseguia elogiar ninguém nem dizer uma única palavra de conforto, todavia que demonstrava toda a compaixão possível em seus grandes olhos enquanto entregava em silêncio os remédios. Era difícil acreditar que, menos de dez horas antes, seu corpo inteiro estivera coberto por emplastros para a remoção de contaminação radioativa. Era Lori.
Depois de ver o quão terrivelmente sobrecarregado o Dr. Tsurugi estava, ela se ofereceu para ajudar. Claro, a situação do médico não melhorou pelo fato de sua enfermeira estar muito assustada e ainda não ter se recuperado da demência. Enquanto Lori observava os moradores da cidade e as expressões entorpecidas que carregavam, havia tristeza em seus olhos, mas outro sentimento, mais revigorante, preenchia seu corpo franzino. Ela havia perdido a voz e a audição, porém precisava continuar vivendo. A determinação para isso ardia forte em seu coração. Em um nível mais básico, a garota estava imensamente satisfeita por poder fazer algo por conta própria.
Os olhos sorridentes de Lori de repente foram preenchidos por um brilho intenso. Uma figura poderosa vestida de preto vinha pela mesma rua repleta de moradores.
D parou ao lado do médico.
— Você vai conseguir cuidar de todos? — perguntou. Pelo tom de voz do Caçador, não estava claro se estava preocupado ou apenas sendo educado. E, claro, o som não chegou aos ouvidos de Lori. Mesmo assim, a jovem teve a sensação de que havia algo além da severidade habitual no olhar que lançou sobre o médico e sobre ela mesma, e aquilo fez seu coração disparar.
— Eu me virei de alguma forma! — respondeu o Dr. Tsurugi. — E você? Ouvi dizer que os dampiros têm uma tolerância à radiação muito maior do que um humano comum...
O médico se interrompeu e mordeu o lábio. Alguns moradores da cidade pareceram surpresos com o que ouviram, no entanto a maioria não demonstrou nenhuma reação. Embora o choque da tempestade magnética fosse o culpado, o efeito que teve sobre a população foi grande demais.
— O cadáver está lá dentro? — perguntou o Caçador.
— Sim, ainda está dormindo. Não sei o que fez com ele, apesar que imagino que deve ter sido algo incrível.
— Gostaria de dar uma olhada.
— Tudo bem. Entretanto eu gostaria de pedir um favor em troca... — disse o médico, sem nunca parar de examinar os pacientes.
— O que seria?
— Assim que terminar, gostaria que me ajudasse.
— Não há nada que eu possa fazer. — disse D.
— Se tem braços e pernas, temos trabalho para você.
— Certo, se eu tiver tempo.
E com essa resposta incomum, D passou pela porta.
O olhar triste de Lori seguiu o Caçador. Ele sequer reconheceu sua presença.
Ao entrar na sala de cirurgia, D pegou uma lâmpada atômica portátil da prateleira e a acendeu. Uma chama pálida surgiu ao redor do pavio. O corpo do homem deitado na mesa de operação do outro lado da sala estava delineado em azul. Abrindo a torneira para a água correr, D olhou para a mão esquerda e disse.
— Também preparei um pouco de terra, o que gostaria primeiro?
— Não faça perguntas idiotas. — respondeu uma voz ríspida. Ao mesmo tempo, um rosto humano completo, com olhos e nariz, surgiu misteriosamente na palma da mão do Caçador. Com uma carranca, falou. — Está sendo tão minucioso com essa conversa de fogo ou água primeiro, quando a verdade é que nada tem sido muito saboroso já faz um bom tempo. Afinal, sou eu quem tem que comê-los. Oh, meu Deus... Temos um reator nuclear hoje? Parece absolutamente delicioso. Nada de lamparina de álcool ou esterco seco de lobisomem, por favor. Essas coisas são horríveis!
Tirando um punhado de terra de um dos bolsos internos do casaco, D colocou-o ao lado da lamparina.
— Seja rápido! — disse. — O cadáver deve acordar em breve.
— Hmph. Bem, se acordar, pode só fazê-lo dormir de novo. Dia após dia, você está sempre me provocando.
— Fogo ou água? — perguntou o Caçador.
— Hmm, vou ficar com a terra.
D segurou a mão esquerda sobre o monte escuro. Ouviu-se um guincho intenso de ar sendo aspirado, e o torrão de terra se desfez em pó, que foi inalado pela palma da mão que o cobria.
— Que gosto horrível! — disse a voz depois de sugar até o último grão de terra. — Este solo não conheceu os altos e baixos habituais, nem fez parte do ciclo natural da vida, da morte e do renascimento. Ele não tira sua vida do planeta. É apenas uma decoração colocada sobre o aço. Não ficará muito satisfeito com o tipo de resultado que conseguirá me alimentando com uma porcaria como esta!
Sem dizer uma palavra, D ergueu a mão esquerda em direção às chamas atômicas.
— Caramba! Seu imbecil. A água deveria vir em seguida. — grasnou a voz, mas o Caçador não moveu um músculo. Os xingamentos de “aberração” e “sádico” logo cessaram, e a luz atômica, por mais impossível que pareça, condensou-se rapidamente em um único fluxo brilhante que desapareceu na mão de D. Ou, para ser mais preciso, na pequena boca que se abrira na palma de sua mão. E quão voraz era aquela boca? Bem, o reator ultracompacto que equipava a lâmpada deveria ser suficiente para alimentar a chama atômica por mais de uma década, porém, em menos de dois minutos, sua cor desbotou, ela oscilou e, por fim, apagou-se.
D não chegou nem a erguer uma sobrancelha diante daquele fenômeno bizarro; em vez disso, colocou a mão sob a torneira da pia, agora com a palma voltada para cima. Poucos minutos depois, a voz balbuciou.
— Já chega! — e, ao mesmo tempo, D girou a torneira para fechá-la.
— Como está se sentindo? — perguntou D. Seus olhos permaneciam fixos no cadáver.
— Bem, consigo me virar. Suponho que esteja muito melhor do que ontem à noite. — junto com as palavras, uma labareda rugiu saindo da palma da mão do Caçador. Em uma boca tingida de azul-pálido por alguns milhares de graus de calor, uma língua vermelha movia-se com indiferença, perguntando de forma incisiva. — Então, o que diabos quer que seja analisado?
Sem demonstrar pena ou qualquer outra emoção profunda, D aproximou a mão esquerda do homem sobre a mesa de operações, e a encostou em sua testa. Naquele instante, o cadáver inteiro enrijeceu e arqueou-se para trás a partir da cintura, como um arco. O corpo assumiu essa posição com tamanha violência que não teria sido estranho ouvir os ossos do quadril se estilhaçando. Inúmeros pontos vermelhos começaram a surgir por todo o corpo, acompanhados por gotículas de sangue. Teria aquele corpo, que supostamente havia parado de funcionar há muito tempo, retomado sua atividade metabólica? As manchas vermelhas vivas cresciam cada vez mais e, em pouco tempo, sua tensão superficial rompeu-se; elas começaram a escorrer pelas laterais do corpo, deixando rastros perturbadores na carne. Quando a primeira gota atingiu a mesa de cirurgia, um gemido fraco escapou do cadáver.
D mantinha os olhos semicerrados. O que sua mão tentava fazer? Que tipo de análise? O que esperava descobrir com aquele cadáver?
Quando o atendimento aos moradores e a distribuição de medicamentos terminaram, Lori lançou um rápido olhar para o médico. Massageando as mãos, o Dr. Tsurugi fez um sinal de concordância. A garota levantou-se e entrou no hospital. Cuidando para não fazer barulho ao caminhar, espiou a sala de espera. Não havia ninguém ali. Estaria ele no consultório ou, talvez, na sala de cirurgia? Jamais passara pela cabeça de Lori que o motivo da presença de D ali pudesse ser um cadáver. Mais uma vez, saiu para o corredor. Decidiu tentar o consultório.
A poucos centímetros, a porta da sala de cirurgia abriu-se para dentro. Uma figura surgiu de repente. Um homem completamente coberto de sangue.
Lori paralisou, sufocando um grito. O homem desabou subitamente no chão. Ao ver a outra figura que estava atrás, ela tentou impedir, quase desesperada, que suas pernas cedessem. Não queria que a visse fazendo alguma tolice. Já tendo perdido a voz e a audição, não se permitiria perder mais nada naquele momento.
Enquanto a garota tentava ao máximo se firmar, D a observava em silêncio. Esperando até que ela controlasse o tremor, o Caçador agarrou o cadáver pelo pescoço e o levou de volta para a sala de cirurgia. Ao contemplarem o sangue derramado no chão, os olhos dele exibiam um tom sombrio.
Quando D retornou ao corredor, Lori já havia recuperado a compostura. Sempre fora uma garota corajosa.
— Você quer alguma coisa de mim? — perguntou D. Ele falou em voz alta.
Lori tentou desesperadamente acompanhar os movimentos dos lábios. De alguma forma, conseguiu lê-los. E em resposta balançou a cabeça, negando. Não tinha nenhum assunto a tratar. Apenas achou que seria bom vê-lo. Era só isso.
— Embora talvez você não consiga recuperar o que perdeu, pode aprender algo novo em troca. — comentou D com indiferença, quase como se não se importasse com o destino de Lori. Sem entender o que lhe fora dito, Lori comprimiu os lábios com uma determinação sombria e tentou não perder mais nada. D disse a ela.
— Venha comigo. Provavelmente não temos muito tempo.
E, com isso, ele saiu. Lori o seguiu atrás. Um sorriso surgiu em seus lábios. Ao observar o perfil impassível de D, compreendeu o que queria dizer.
— Aonde vocês dois vão? — o médico perguntou, chamando-os enquanto saíam pela porta da frente.
— Qual é o ponto mais alto da cidade? — o Caçador perguntou em resposta.
— Seria a colina atrás das fábricas. Por quê?
Acenando com satisfação, D começou a se afastar. Enquanto as duas figuras seguiam pela rua, o médico as observava com um olhar frio.
Os danos na casa de Chad Beckly haviam sido relativamente pequenos. Depois de prender uma lona impermeável sobre alguns buracos que as pedras em queda haviam aberto no telhado, decidiu que os reparos podiam esperar para outro dia. Eles eram uma família de quatro pessoas: Chad, sua esposa Vera e seus dois filhos, Luke e Simon. A família de Chad estava bastante preocupada com o seu comportamento. Desde que voltara da sala de controle de navegação, sua expressão demonstrava profunda depressão. Ele pulou o jantar e, assim que cobriu o telhado com a lona, foi direto para a cama.
O que atormentava Chad era o rumo que a cidade estava tomando. A nova rota programada nos computadores indicava que estavam indo direto em direção a algumas das ruínas da Nobreza.
Era provável que chegariam lá em menos de dois dias. A questão era: o que os aguardava naquele lugar? Até mesmo o prefeito dizia não saber. Apenas a lenda guardava a resposta. Túmulos. E não o tipo de local de descanso nobre, ornamentado com brasões elaborados e protegido por dispositivos eletrônicos. O que ali repousava era...
Tentando afastar a mente da espiral de ansiedade, Chad esforçou-se para dormir. O vento uivava lá fora, junto à janela. Amanhã, teria de levantar antes do amanhecer e voltar para a sala de controle. O que diabos aconteceria com a cidade? A mente de Chad fervilhava de preocupação. No andar de baixo, sua esposa e filhos ainda estavam acordados e circulando pela casa. Muita coisa havia acontecido; talvez não conseguiam se acalmar para descansar.
Ouviu-se um leve ruído... Uma batida na porta, talvez? Sua esposa andava pelo ambiente. As tábuas do assoalho rangiam. Precisaria falar com o prefeito sobre a substituição delas. Embora quem poderia estar na rua a essa hora? Não havia a menor chance de voltar para a sala de controle. Alguém entrou. A porta ainda estava aberta. Ouviu-se o som de algo caindo. Será que Vera havia tropeçado naquela maldita cadeira de novo? Ele se perguntou. Espere um pouco... A pessoa não se levantou.
Passos atravessaram a sala de estar e começaram a subir a escada. Rangendo o tempo todo. Devia ser sua esposa. Agora no corredor. Continuando a vir. Pouco a pouco. Vindo para cá. Os passos pararam. Diante do quarto dos meninos.
Talvez eu devesse ir ver quem é? Pensou. Não, é só a minha mulher, é claro. Além do mais, estou exausto.
A porta se abriu. Ah, ela não deveria ter feito isso. Ei, aquilo foi um grito agora há pouco, não foi? Mais baques de coisas caindo. Dois deles. A porta se fechou. Os passos se aproximavam. Lentamente. Sem pressa... Pararam. Diante do seu quarto. Não podia ser...
Houve uma batida em sua porta. Chad permaneceu na cama. As batidas continuaram, depois pararam por um instante... E recomeçaram.
Chad saiu da cama. Passo a passo, cada um dando a sensação de afundar no carpete, caminhou em direção à porta. Não queria ir. Sabia que era sua esposa do lado de fora. Mas e se não fosse?
Bem em frente à porta, Chad hesitou por um momento. As batidas cessaram. A maçaneta estalou ao girar. Suavemente no início, depois mais rápido...
Com um estalo violento, a maçaneta, a placa ao redor dela e a parte da porta à qual estavam fixadas apenas desapareceram. Havia agora um buraco escancarado. E a porta se abrira. Alguém estava parado ali. Não era sua esposa.
Uma sensação horrível de sufocamento tomou conta de Chad. Sua mão se ergueu para agarrar a própria garganta, mas, antes que ela chegasse lá, seu coração já havia parado.
Embora fosse de fato uma colina, com pouco mais de quatro metros de altura, dificilmente oferecia uma vista privilegiada. E, porém, para um dos dois, era sem dúvida mais do que suficiente. Afinal, Lori não estava sozinha; ao seu lado, havia um homem a quem a escuridão caía melhor do que a qualquer outro. Apesar do luar, as planícies que se estendiam diante deles eram tão escuras quanto se poderia imaginar, contudo o céu, a leste, já estava tingido pela primeira luz tênue da alvorada. O vento picava as bochechas de Lori; era frio e cortante como uma sovela. Lori observava D, enquanto este contemplava o céu do leste. Será que aqueles aprisionados na escuridão também ansiavam pela luz da alvorada?
Então, o que eles tinham vindo fazer ali? D abaixou-se ao lado de Lori e tocou o chão com um dos dedos da mão esquerda. Lori leu as palavras que escreveu na areia. “Ouço vozes”, D havia escrito. De que vozes estava falando? A mensagem parecia quase cruel.
Lori levantou a gola do casaco. O vento agitava seus cabelos macios ao passar. Que frio, pensou ela. Talvez as pessoas não tivessem sido feitas para viver na natureza selvagem. Afinal, fazia aquele frio todo mesmo ao amanhecer.
A cidade continuava em movimento. No entanto indo para onde? Não tinha destino. Nem mesmo Lori fazia ideia do que D estava pensando. Embora fosse verdade que havia sido criada na cidade, também conhecia a vida na natureza selvagem. A vida selvagem era terrível demais. O medo inspirado pelas monstruosidades e feras ferozes que a Nobreza havia soltado ainda era suficiente para fazer o mundo estremecer ao cair da noite.
Lori desejava, com todo o seu coração, voltar para a cidade. Entretanto, o paraíso que tanto ansiava agora parecia tão vazio. Lori não tinha mais palavras nem sons, e era exatamente por isso que conseguia sentir as coisas com tanta intensidade... Pensava em trabalhar em horários razoáveis e ter acomodações, comida e roupas adequadas; em ter uma vida que fosse satisfatória, todavia que, ao mesmo tempo, não a preenchesse plenamente. A sensação avassaladora de perda que tomou conta das pessoas após sobreviverem à tempestade magnética só serviu para realçar seus sentimentos. Se não tivesse vivenciado a vida na natureza selvagem, talvez teria ficado igual às outras pessoas. Embora estivesse longe de ser arrogante, Lori sabia que havia algo errado com a cidade da maneira como estava agora. Todavia, em seu mundo silencioso de desespero, teria motivos para se orgulhar de ser diferente das outras pessoas? Uma sensação inevitável de solidão preenchia seu pequeno coração. Embora sentisse que o mundo onde deveria viver estava logo ali, depois da próxima curva, para Lori aquele era um lugar muito distante. Se eu sair desta cidade, o que vai acontecer? Era o que se perguntava.
A leste, os contornos das montanhas começavam a brilhar com um tom rosado. A luz escorregava pela encosta da montanha, transformando-se numa torrente que inundava as planícies; em pouco tempo, todo o campo de visão de Lori estava tingido de dourado. Seus olhos se fecharam. Mesmo de olhos fechados, conseguia ver. Via a cor do vento. E como o vento brilhava à sua própria maneira.
Depois de algum tempo, D abriu a boca. Lori tentou ler seus lábios. Não conseguiu captar tudo. D repetiu, um pouco mais devagar. Enfim o entendeu.
Na próxima vez, venha sozinha. Era isso que dizia.
Passava pouco das seis da manhã quando D foi procurar o prefeito. Encontrou-o dormindo na cadeira de seu escritório. Sentindo uma dor gélida apertar-lhe o peito, o prefeito deu um salto e viu o Caçador parado junto à porta. Levando a mão à garganta e soltando um suspiro, perguntou.
— Há quanto tempo você está aí?
D não disse nada.
— Então, parece que devo agradecê-lo por ter me dado um susto daqueles... Só de ter um dampiro por perto já parece o suficiente para dar pesadelos às pessoas.
— Estou aqui porque preciso lhe perguntar uma coisa.
— Ah, sim, é verdade... Ouvi que passou por aqui mais cedo, não foi? Peço desculpas. Eu não estava presente naquela hora.
— Parece que você mandou deter os Knights.
As palavras ditas em voz baixa pelo Caçador fizeram os olhos do prefeito Ming se arregalarem.
— Quem lhe disse?
— Não importa. Por que os deteve? Por que mandou prendê-los?
— Sou obrigado a responder? Sua única função aqui é matar o nosso vampiro.
— E se alguém tivesse fabricado esse vampiro? — perguntou D.
— O quê?
— O que o homem que chegou à sua cidade dois séculos atrás lhe disse?
O prefeito respondeu à pergunta com silêncio.
— No que consistia?
Mais silêncio. Gotas de suor surgiram na testa do prefeito.
— Exatamente o que eu lhe disse antes. — disse o prefeito por fim.
Sua voz carecia de força de vontade, e D a quebrou com seu próprio tom suave.
— O que o homem que visitou este lugar duzentos anos atrás lhe disse? Posso imaginar o que foi, mas não vou mencionar. Porém, foram os Knights que realizaram o que seu visitante esperava fazer. Contudo somente depois de muitos anos. Era isso que você queria. Para que queria? Por que se desentendeu com os Knights?
Nada do prefeito.
— Depois de dois séculos, vampiros começam a aparecer aqui de repente, e ainda assim não conseguimos encontrar a causa. Não há ninguém aqui sugando o sangue das pessoas e transformando-as em vampiros. Só há uma resposta... Eles foram fabricados. Feitos assim por um processo especial.
Os olhos de D pareciam capazes de sugar a alma do prefeito.
— Feitos com a técnica que ele lhe deu e que você ensinou aos Knights. O que havia na casa deles?
Apoiando as duas mãos na cabeça da bengala, o prefeito baixou a cabeça.
— A paz deve ser mantida na cidade para sempre. — uma voz quase um gemido emanou de debaixo da cabeça curvada do prefeito. — As condições agora são ideais. No entanto seguimos sendo assolados pela destruição e pelas criaturas do pesadelo. O prefeito tem o dever de proteger os moradores da cidade.
— Paz e ideais... — murmurou D. Saindo de seus lábios, as palavras perderam todo o significado e se tornaram meros sons.
— Esta cidade é o que a Fronteira deveria ser idealmente. — dizendo isso, o prefeito ergueu o rosto. Estava deformado. Sua pele lustrosa havia sido aumentada de maneira artificial. As rugas feias que se espalhavam por suas bochechas pareciam sulcos em um campo recém-arado. — Viver uma vida serena em meio às forças indomáveis da natureza, sem medo da Nobreza ou de sua laia desprezível... Esse era o ideal humano. Quando fundei esta cidade e a povoei com alguns escolhidos, acreditei ter chegado mais perto desse objetivo do que qualquer outra pessoa. Entretanto muitas ameaças persistiam. Estava longe da perfeição...
O dedo do prefeito pressionou o tampo de sua mesa. De repente, D estava no meio da cidade. Era a área residencial imediatamente após a tempestade magnética. As imagens deviam ter sido capturadas com uma câmera holográfica. Os telhados de plástico de muitas casas estavam derretidos, e as torres de descarga elétrica expeliam fumaça pálida e cuspiam faíscas em seus estertores. Pessoas com queimaduras mancavam sozinhas ou eram amparadas por familiares enquanto cambaleavam devagar pela rua, talvez a caminho do hospital. Uma garotinha passou pela cintura de D e desapareceu em um cômodo nos fundos. Um caminhão de bombeiros passou por cima de um sofá e, em seguida, invadiu a porta da frente de alguém. Incêndios surgiam por toda parte. Um homem de meia-idade agarrou um corrimão eletrificado, cambaleando para trás enquanto uma luz púrpura emanava do seu corpo. Era uma cena horripilante.
— Esta é a cidade em seus limites. Um mero campo magnético não se compara às outras monstruosidades que a Nobreza liberou no mundo. Todavia, se esbarrar nele causou esse tipo de destruição, então o que a cidade considera ideal segue muito aquém do que eu tenho em mente.
— E tornar esses ideais realidade envolve fazer sacrifícios e tomar certas medidas, não é? — disse o Caçador. — Certas medidas sangrentas, eu diria. O que pediu aos Knights para fazerem?
O prefeito engoliu em seco. Não imaginava que D fosse embora agora, e não era do tipo que se deixava enganar por uma mentira. Quando Ming estava prestes a dar um passo, seu pé congelou no lugar. Uma aura sobrenatural preenchia a sala. Então é isto que um dampiro pode fazer? Pensou. Este é o homem chamado D? Tão aterrorizado que não seria estranho se seu coração tivesse parado, paralisado de medo até mesmo de tremer, o prefeito fitou o rosto belo do Caçador.
— Responda. O que pediu aos Knights para fazerem? O que eles descobriram?
— Foi... — ofegou o prefeito. Uma essência incrivelmente poderosa ameaçava esmagar sua psique. — Foi...
Naquele exato momento, o interfone na mesa do prefeito piscou em vermelho. Com a série de zumbidos curtos e tensos, a aura sobrenatural de D dissipou-se em seguida. Enxugando o suor oleoso, o prefeito agarrou o microfone do interfone.
— O que foi?
— Esta é a sala de controle de navegação. Temos um objeto voador solitário se aproximando do noroeste a uma distância de 64 quilômetros. A velocidade é de 96 quilômetros por hora. O objeto tem por volta do mesmo tamanho da nossa cidade. Estamos tentando contatá-lo, mas ainda não obtivemos resposta.
— Entendo. Já estou indo. Não se esqueçam de preparar um contra-ataque, por precaução. — ao desligar o interfone, o prefeito exibia uma expressão de alívio. Ele se sentia mais tranquilo lidando com um invasor desconhecido que ameaçava a cidade do que sentado na mesma sala que o jovem Caçador. — Acho que vou indo, então. — disse o prefeito, sem olhar na direção de D. Nesse instante, o interfone zumbiu alto outra vez. — O que houve agora?
— O objeto voador lançou mísseis. Três, ao todo. Eles estão se aproximando agora... Vinte segundos para o impacto.
— Ativem a barreira!
— Ela foi danificada pelo campo magnético; os reparos ainda estão em andamento.
— Comecem a disparar mísseis antibalísticos e canhões antiaéreos!
Quando o prefeito ergueu novamente o rosto, agora pálido, não viu sinal algum de D.
A Ceifadora voava em direção à cidade. Um trio de ceifadoras longas e finas, na verdade, equipadas com sensores nas pontas e chamas jorrando de propulsores na parte traseira. Levando em conta a própria velocidade e a da cidade, elas ajustavam constantemente a rota em direção ao alvo enquanto avançavam a toda velocidade.
Ao verem o Caçador de preto, que surgira sem fazer ruído, todos na sala de controle de energia esqueceram a morte iminente e ficaram paralisados, atônitos.
— Onde fica o projetor da barreira? — perguntou D, em voz baixa. Mesmo ciente de que a morte se aproximava rapidamente, ele conseguia manter seu tom de voz impassível.
Os olhares de todos os trabalhadores se voltaram para um canto ao fundo. D dirigiu-se na mesma direção dos demais. Ele se movia como uma sombra em disparada. Sem dizer uma palavra, os trabalhadores abriram caminho para os lados. No espaço que deixaram, havia uma abertura escancarada onde ondas eletromagnéticas azul-claras dançavam de forma caótica. Apenas um homem não abandonou seu posto. Com o equipamento de solda na mão, seu corpo foi subitamente arremessado para trás, em direção ao interior da sala. Chamas erguiam-se das placas de proteção em seu peito; acabara de ser atingido por uma descarga eletromagnética. Em silêncio, D posicionou-se entre o homem e a abertura irregular. Seu rosto belo brilhava com um tom azulado e frio.
— Não percam tempo. Não dá para desligar a emissão de ondas eletromagnéticas! — gritou o homem enquanto tentava apagar com a mão as chamas em seu peito. — Estão passando cem mil volts por ali. Sem proteção, é morte certa na hora.
— Entrem em contato com a sala de controle. — ordenou D aos trabalhadores paralisados. — Quando precisarem da barreira, eu aciono a corrente.
Sem fazer perguntas nem levantar objeções, os homens assentiram. Um destes, que parecia estar no comando, aproximou a boca do microfone no ombro e pediu a conexão com a sala de controle de navegação.
Um leve tremor percorreu o casco da nave. O fogo antiaéreo havia começado. Embora a cidade contasse com geradores antigravitacionais e uma barreira eletrônica, seu armamento era bastante rudimentar. Além do canhão Prometheus... Que, por uma cruel ironia do destino, havia sido desmontado para inspeção uma hora antes... Eles dispunham apenas de vinte canhões automáticos de tiro elevado (calibre de duas polegadas) e trinta lançadores de mísseis antibalísticos. Naturalmente, não se podia esperar que fabricassem seus próprios projéteis e mísseis; esses itens eram adquiridos de comerciantes aéreos especializados em negociar com cidades flutuantes como a deles. Ainda assim, tais comerciantes eram raros, visitando a cidade apenas três vezes por ano. Se os suprimentos que não conseguiam produzir acabassem nesse intervalo, a cidade flutuante não tinha outra opção senão buscá-los por conta própria. Muitos confrontos entre cidades flutuantes surgiram dessa necessidade mútua. Contudo, as ações hostis do objeto voador não identificado, que disparava contra eles, não passavam de um massacre indiscriminado.
Chamas prismáticas espalharam-se pelo céu, e uma fumaça negra envolveu a área. Para aumentar o poder destrutivo, os projéteis dos canhões automáticos continham urânio empobrecido e eram equipados com espoletas de proximidade. Mesmo que não acertassem o alvo em cheio, detonariam automaticamente caso seus sensores detectassem um alvo dentro do raio de destruição. A cada disparo dos canhões pesados, toda a cidade balançava violentamente.
Os mísseis que se aproximavam exibiam um comportamento surpreendente. Como seres dotados de consciência, desviavam de projéteis e ajustavam a velocidade enquanto avançavam. Pareciam zombar da cidade.
Ajustes minuciosos de trajetória eram quase impossíveis para os mísseis antibalísticos da cidade. Cada um dos disparados deixava um rastro branco inútil no céu vazio antes de desaparecer.
Uma pequena e sombria sombra de morte pairava sobre a cidade. As pessoas observavam pelas janelas os três pontos de luz que se aproximavam. Havia uma expressão de desânimo em todos os rostos. O pensamento sobre o destino que aqueles mísseis lhes reservavam minava sua força de vontade. Tendo permanecido por muito tempo a salvo das ameaças do mundo lá de baixo, viram a fragilidade de sua paz ficar evidente com o ataque do inimigo.
Mísseis se aproximando... Três segundos para o impacto! Veio a notícia aterrorizante pelo microfone no ombro do homem. Todos os olhares se voltaram para D. O Caçador enfiou a mão no buraco da parede e, agarrando um punhado de cabos, puxou-os para baixo. Do ombro ao punho, ondas eletromagnéticas de um azul-pálido aderiam a ele como uma teia de aranha, e uma fumaça branca erguia-se de seu corpo. Seu rosto não demonstrava o menor sinal de dor. Sua mão direita entrou em ação, arrancando as pontas dos cabos rompidos.
Ondas eletromagnéticas cobriram D por completo... Talvez fosse a primeira vez que aquele jovem vestia uma cor que não fosse preto. Usando o próprio corpo como condutor, a energia disparou de repente do reator para o projetor de barreiras.
Flores de cores vivas desabrocharam perto da cidade. Chamas capazes de atingir cinquenta milhões de graus, juntamente com uma dose letal de ondas eletromagnéticas e radiação, agitavam a atmosfera, ameaçando destruir a parede eletrônica que surgira de repente.
As pessoas viram as ondas eletromagnéticas percorrerem o caminho da mão direita de D para a esquerda, em sentido inverso. Os olhos de D se estreitaram. O fluxo inverteu-se outra vez. A barreira não desapareceu até que o trio de explosões se dissipasse no ar.
Parte 2
Mesmo depois de D ter recuado, não houve comemoração na sala de controle. O que acabaram de presenciar era tão incrível que os deixou absolutamente atônitos. O espanto, somado a um avassalador sentimento de alívio, era suficiente para levá-los à loucura. O homem diante deles... Seu salvador, não podia ser humano. Era por isso que tinha uma aparência tão bela.
Com um leve movimento de cabeça, D livrou-se da fumaça branca que ainda subia de seu corpo.
— O objeto voador está se aproximando. — anunciou uma voz algo apática pelo microfone. O navio principal ainda permanecia lá.
Preparado, talvez, para o próximo ataque, D não se moveu.
— Está vindo em nossa direção... A apenas mil jardas de distância, novecentas, setecentas, seiscentas...
— Vai bater na gente... — alguém murmurou.
— Não podemos mudar nossa rota.
— Estamos perdidos...
Um vento sombrio passou pelos homens.
D saiu da sala de controle. Subindo as escadas às pressas, atravessou a rua correndo. O centro da cidade estava deserto. Sob a luz do sol que caía em uma chuva brilhante, a cidade era um retrato de tranquilidade. Uma voz conhecida gritou, e D olhou por cima do ombro. Lori e o Dr. Tsurugi corriam em sua direção. D não parou para esperá-los; continuou correndo. Algo se tornou visível além das muralhas defensivas da cidade. A forma do inimigo estava clara agora.
Parecia que cidades flutuantes de vários tipos seguiam a mesma estrutura básica, e a forma que voava em direção a eles em alta velocidade lembrava muito a sua própria cidade. Na verdade, era quase idêntica. As fileiras familiares de habitações, a torre de controle de navegação e as antenas de radar tridimensionais destacavam-se sob a luz do sol. Talvez o único ponto de diferença entre as duas cidades fosse que todas as estruturas da outra cidade eram reforçadas com uma blindagem ameaçadora. Bastava um olhar para a nova cidade para perceber sua intenção. Aquela embarcação fora construída para saquear.
Fingindo ser uma cidade comum, eles podiam se aproximar das vítimas sob o pretexto de comércio e, então, usar seus canhões para destruir as defesas da presa antes de enviar tropas armadas para invadir. Em outras palavras, eram piratas dos céus. Embora, curiosamente, não se via uma única pessoa nas ruas ou em qualquer uma das torres de vigia do navio; tampouco havia alguém visível através da janela da sala de controle.
— Que estranho... Se estão aqui para nos saquear, deveriam estar nos enfraquecendo com suas armas agora. — D ouviu o Dr. Tsurugi, ofegante, dizer atrás dele. — Contudo, em vez disso, estão se aproximando. Teremos que os enfrentar.
— E o xerife? — perguntou D, observando o navio pirata que os circulava lentamente.
— Chegará em breve, tenho certeza. — respondeu o médico. — A verdadeira questão é se será de alguma utilidade ou não.
— Por quê?
— Como você já deve saber, devido ao seu estado de superproteção, as pessoas por aqui são incrivelmente suscetíveis a golpes. Os moradores desta cidade têm tido paz por tempo demais. Brigas e outras disputas sempre foram o tipo de coisa que eles conseguiam resolver entre si em sua pequena cidade. Esqueça o fato de que não saberiam como lidar com atacantes de fora... Todo o incidente com o raio deixou todos em estado de estupor.
— Então, só depende de nós três.
Uma expressão perplexa pairou sobre o rosto do Dr. Tsurugi.
— Nós três? — murmurou, empalidecendo no instante em que se deu conta. — Não acredito! Você quer que Lori lute? Ora, ela só está...
— Ela precisa viver sozinha.
As palavras de D tinham um tom cortante como o vento.
Após alguma hesitação, o Dr. Tsurugi assentiu.
— Tem razão. É assim que é a vida na Fronteira. No entanto o que faremos?
Um forte impacto sacudiu o chão onde estavam. O navio inimigo por fim havia se aproximado da cidade.
D tirou um bloco de notas de um dos bolsos internos de sua roupa. Era o mesmo bloco que havia sido deixado para Lori no hospital. Com os olhos arregalados de espanto, o médico se perguntou por que o estava carregando consigo. Levando a ponta do indicador à boca e abrindo-a um pequeno corte, D rabiscou-a no bloco de notas. Lutar ou morrer, escreveu. Queremos você conosco.
Conosco. Isso significava que os três lutariam juntos.
Lori assentiu com fervor.
— Entretanto, o que você vai pedir para ela fazer? É uma garota ferida.
— Vá até o depósito de armas e pegue algumas armas para nós. Ela carregará a munição e ficará responsável por recarregar.
— Certo.
Os dois saíram correndo. D olhou para trás, para os quarteirões de prédios. À medida que os passos de seus companheiros se distanciavam, passos mais pesados surgiam em seu lugar. Eram o prefeito, o xerife e alguns de seus homens... Quatro homens ao todo. E o médico havia dito que não sabia se eles seriam de alguma utilidade...
Houve outro impacto contra suas muralhas protetoras. Do convés do navio pirata, várias chapas de aço se estenderam em direção à cidade. Ganchos cravaram-se ruidosamente no topo das muralhas da cidade, e o xerife e seus companheiros recuaram inconscientemente. Todos os rostos estavam tensos de medo. Esses homens viviam em uma sociedade fechada onde todos entendiam o quão durões deveriam ser, todavia agora que enfrentavam invasores que não conheciam as reputações nas quais haviam confiado por tanto tempo, eles se tornaram covardes.
Os olhos de D se estreitaram ligeiramente. Esperou, mas o que esperava nunca apareceu. Silêncio... Nada aconteceu. Embora as tábuas tivessem sido colocadas para o saque, nenhum fora da lei sedento de sangue apareceu.
— Que diabos é isso, afinal? — disse um dos policiais, parecendo bastante aliviado. — Estão nos sacaneando ou o quê? Ninguém apareceu.
— Vão aparecer a qualquer segundo! — disse outro, com a voz embargada pelas lágrimas. — E quando fizerem, vão nos despedaçar com armas horríveis. Droga! Que droga! Por que temos que enfrentar esses malditos monstros?
O xerife rugiu.
— Pare com isso! Você está me dando nojo. Já estamos aqui, então não adianta reclamar. Não vamos deixar nenhum desses filhos da puta saqueadores entrar na cidade.
Comparado aos seus compatriotas, Hutton era certamente corajoso. Após esse acesso de raiva, seus covardes auxiliares prepararam suas espingardas. E, apesar de preparados, nada aconteceu.
O prefeito olhou para D com desconfiança.
— De alguma forma, não acho que estejam brincando com a gente...
Não houve resposta do Caçador, contudo seu sobretudo preto passou como um vulto diante do nariz dos homens. D estava parado na passarela que ligava as duas embarcações. Com os cabelos negros ao vento e o sobretudo tremulando, fixou seu olhar gélido no convés do navio inimigo. De repente, avançou sem fazer ruído.
Os homens se entreolharam. Eles certamente compreendiam que proteger a cidade era uma parte inevitável de seu dever; no entanto o prefeito permaneceu onde estava, acompanhado pelo xerife, enquanto os outros subiam com dificuldade pela muralha e começavam a atravessar a mesma passarela. Assim que terminaram de cruzar a prancha de três metros de comprimento, duas coisas fizeram os homens empalidecer... Uma aura estranha e um fedor. A aura só podia significar morte. E o fedor também era de morte.
Pouco antes, aquela embarcação sinistra os fizera temer pela própria vida, entretanto agora o silêncio inquietante fazia aqueles homens brutos tremerem muito mais. Não havia sinal de D. Os homens saltaram para a rua. Bem à frente deles estendia-se a área residencial. O traçado não era muito diferente do de sua própria cidade.
— Pete, você e Yan encontrem a sala de controle. Vou dar uma olhada nesta área.
— Mas, xerife... Este lugar me dá arrepios...
— Seu imbecil! Do jeito que as coisas estão, é provável que não haja ninguém nesta lata-velha. Talvez tenham começado a matar uns aos outros, ou alguma epidemia tenha surgido; o fato é que todos podem estar mortos. Agora, pense um pouco no que isso significa.
O rosto de Pete, até então sombrio, iluminou-se de repente.
— Ah, entendi! Este era um navio de saqueadores. O que significa que deve haver um monte de tesouro aqui.
— Exato! Diremos ao velho prefeito que a cidade poderia aproveitar o excedente de energia ou o computador de navegação, ou algo assim, porém ficaremos com a carga mais valiosa para nós mesmos.
— Caramba, você é bem esperto. Não é à toa que é xerife. Contudo o que faremos com o Caçador que foi na nossa frente?
— É óbvio. Matá-lo! — disse o outro homem, Yan, sem saber do que D era capaz. Embora soubesse como D havia matado os dois delegados adjuntos, o fato de não ter presenciado a cena fazia com que achasse o relato impossível de acreditar. — Ainda bem para nós que aquele desgraçado está ocupado revistando o navio. É a chance perfeita para pegá-lo de surpresa. E quer saber? Sempre podemos dizer que defesas automatizadas deram cabo do desgraçado.
— Belo raciocínio. — respondeu o xerife, no entanto suas palavras soaram vazias. Estava bem ciente, como só alguém que já sentiu a ponta da lâmina de D pressionada contra a garganta poderia saber, do que um dampiro era capaz. — Entretanto não encoste um dedo nele, entendeu? Vamos apenas pegar o que quisermos. Sei o quanto esse cara é durão. Se o tratar como um Caçador comum, vai acabar numa enrascada daquelas.
— Certo, só que... — começou Yan.
— Damos um jeito de nos livrarmos dele mais tarde. Entendido? Aconteça o que acontecer, não encoste um dedo nele. — disse o xerife com firmeza, ajustando a empunhadura do lançador de foguetes.
Separando-se de Pete e Yan, o xerife caminhou em direção ao setor residencial. Inconscientemente, buscava algum som ou qualquer outra coisa que indicasse sinal de vida. Qualquer coisa serviria. Algum indício de intenção assassina vindo de bandidos maliciosos à espreita. O rosnado de feras ferozes esperando apenas para cruzar as passarelas com seus mestres e cravar as presas na traqueia de vítimas indefesas. O som da trava de segurança sendo desativada em uma besta automática. Qualquer coisa mesmo...
Todavia não havia nada, exceto o... Uivo do vento. Não havia sinal de ninguém nas vias, onde a areia artificial havia sido levada pelo vento, deixando a terra subjacente exposta. Havia apenas fileiras de árvores mortas em ambos os lados da rua, com seus galhos secos chacoalhando. Com a poeira arranhando a garganta, o xerife pressionou um lenço contra a boca. Sua tosse criou um eco inquietante no ar, que de outra forma estava imóvel. O xerife estremeceu.
O céu estava azul. Sua própria sombra se estendia longa e larga pelo chão. Aquele gigante que parecia uma montanha de músculos estava quase paralisado de medo. Ali havia uma cidade. Havia prédios. Disparavam-se mísseis. A embarcação encostou ao lado deles e estendeu passarelas para o embarque. E, porém, não havia um único tripulante à vista. Quão aterrorizante era aquilo?
Quando Hutton estava prestes a sair em busca da casa do prefeito local... Ou melhor, do comandante daquele navio pirata... A ponta de sua bota bateu em algo duro. Ao baixar o olhar casualmente para o chão, seus olhos quase saltaram das órbitas. Era um osso nu. O mais provável é que já estivesse ali há bastante tempo, pois estava ressecado e apresentava uma fina pátina marrom. Era sem dúvida um fêmur. Ao ver a extremidade seccionada, os olhos do xerife se arregalaram mais. Estava queimado. Havia sinais de carbonização. Ao esfregá-lo com o dedo, parte do osso esfarelou-se. Aquilo não havia sido carbonizado aos poucos, em baixa temperatura, como aconteceria em um incêndio comum; fora exposto a uma explosão de calor extremo. Talvez um laser.
Pela primeira vez, o xerife notou os objetos brancos espalhados aleatoriamente pelo local. Havia um crânio. E uma caixa torácica. E outro crânio descarnado repousando sobre uma pilha de trapos. Quando seu olhar encontrou diretamente as órbitas vazias do crânio, um suor frio começou a encharcar suas costas largas. Forçando a mente a funcionar para não paralisar de medo, o xerife dirigiu-se a um barracão que parecia ser um bar e ao esqueleto intacto estirado à sua frente. A flecha de aço projetando-se da testa do esqueleto era um testemunho vívido da tragédia que ocorrera ali. Um dos braços do esqueleto estava estendido e, em seu aperto ósseo, segurava com firmeza uma pistola automática preta e brilhante de modelo antigo. Retirando a arma dos dedos do esqueleto, ele a examinou. Toda a munição havia sido disparada... O mais provável é que fosse o resultado de um conflito longo e mortal. Contudo o que diabos poderia ter levado a tripulação bruta de um navio pirata a começar a matar uns aos outros?
Sentindo algo atrás de si, o xerife girou seu corpo gigantesco com velocidade relâmpago. Parados, imóveis diante dos sete canos de seu lançador de mísseis, estavam o Dr. Tsurugi e Lori.
— Ah, são só vocês dois... — suspirou. Enxugando o suor da testa, o xerife baixou a arma.
— Que diabos aconteceu neste navio? O que houve aqui? — até mesmo a voz do médico de temperamento explosivo tremia um pouco.
Olhando ao redor para o ambiente sinistro e para os restos mortais a seus pés, Lori também parecia ansiosa. No entanto, ao contrário do médico ou do xerife, estava alheia ao mundo dos sons, e isso, na verdade, servia para amenizar o terror para ela até certo ponto. Ela e o Dr. Tsurugi carregavam, cada um, uma espingarda.
— Exatamente o que você está vendo. Parece que entraram em uma maldita onda de assassinatos. Pelo estado desses ossos, aposto que aconteceu há bastante tempo. E, pelo que vejo, ninguém escapou com vida.
— Bem, dispararam mísseis contra nós. E baixaram as passarelas. É esse o tipo de coisa que um navio sem tripulação faz automaticamente? Para começar, nem sabemos por que dispararam os mísseis. Podem ter sido de pequeno porte, entretanto ainda assim eram ogivas nucleares. Se tivessem acertado o alvo, teriam derrubado a cidade do céu com um único disparo.
— Então, como não conseguiram nos abater, decidiram se aproximar. — disse o xerife com rispidez. Seu olhar se voltou para os rostos cadavéricos e, um instante depois de sentir um alívio momentâneo, o desejo de saquear tomou conta de sua mente. A presença do médico e de Lori logo se tornou um obstáculo aos seus planos.
Eles também vão ter o que merecem, pensou o homem da lei, enquanto uma espécie de loucura se apossava de sua mente. O cano do lançador de foguetes ergueu-se aos poucos.
E foi então que aconteceu. Gritos ecoaram à distância. Dois... Os de Yan e Pete. Trocando olhares, o médico e o xerife começaram a correr o mais rápido que podiam em direção ao som. O xerife parou diante da sala de controle, onde a porta de ferro havia caído para dentro do recinto. O ar tinha um tom azulado, e o fedor de carne queimada atingiu suas narinas. Fumaça saía rastejando pela abertura da porta. Havia alguém lá dentro. Não me diga que foram atrás de D, pensou o xerife.
Aparentemente lembrando-se de seu dever como homem da lei, o xerife disse ao Dr. Tsurugi. — Vocês dois fiquem bem aqui! — e então passou pela porta, sozinho. Não demorou nada. Em algum momento, alguém ou alguma coisa havia destruído toda a sala de controle; no chão, jaziam dois cadáveres carbonizados, um sobre o outro. Nem precisou olhar para saber que eram os restos mortais de Pete e Yan. Uma arma óptica de potência inferior à de um laser os havia reduzido a cinzas. O mais provável é que se tratasse de um raio de calor.
Passando o lançador de foguetes para a mão esquerda, o xerife sacou com a direita uma enorme pistola capaz de disparar projéteis explosivos. Embora seu design lembrasse muito o de um revólver antigo, a arma comportava trinta e seis disparos. Os projéteis explosivos eram potentes o suficiente para derrubar um dragão menor com um único disparo, ou eliminar um dragão de fogo de médio porte com meia dúzia de tiros. Não podia apenas começar a disparar seus mísseis em um ambiente fechado. De repente, um som metálico ecoou de um canto da sala mergulhado na escuridão total. Ao olhar por cima do ombro, no instante em que os olhos do Xerife Hutton captaram uma forma semicircular, sua arma rugiu.
O estampido ensurdecedor de uma arma fez o Dr. Tsurugi se enrijecer. Além da porta, um brilho vermelho se expandiu momentaneamente, e um grito estridente ecoou. Lori agarrou-se ao braço do Dr. Tsurugi, tremendo. Embora ele tivesse pedido que ela esperasse, a garota estava decidida a acompanhá-lo. Pelo visto ela percebera através da luz vermelha e da tensão do Dr. Tsurugi, que algo havia acontecido. Articulando lentamente as palavras “Espere aqui”, o Dr. Tsurugi soltou o braço do seu aperto.
Lori não o desobedeceu. Em suas viagens com os pais, aprendera muito bem as consequências de agir de forma precipitada por curiosidade ou medo.
Apoiando com carinho as mãos nos ombros da garota, o Dr. Tsurugi dirigiu-se apressado para a porta. Seus passos cessaram de repente. Com um som estranho, uma figura sombria surgiu do recinto. O médico preparou sua espingarda. A primeira coisa que viu foi uma protuberância semelhante a um braço, que lembrava um canhão de raios térmicos. Em seguida, surgiu o corpo esférico. E, sustentando esse corpo por baixo, havia esteiras como as de um tanque.
— Abaixe-se! — gritou o médico enquanto empurrava Lori para fora do caminho; uma onda alaranjada passou rente sobre sua cabeça. O calor intenso incendiou as costas de seu jaleco branco, e chamas lamberam seus cabelos. Gritando, o médico contorcia-se de dor. Protegendo a cabeça, rolou as costas pelo chão na tentativa de apagar o fogo.
Segurando-o pela nuca, Lori lançou-se para o lado. Uma segunda rajada de calor passou raspando pela dupla, atingindo o chão perto de onde estavam. Sem sequer olhar para as costas do médico, Lori apoiou a espingarda no ombro e puxou o gatilho. O disparo atingiu o tronco em forma de cúpula, e os projéteis ricochetearam em todas as direções com um som belo. Lori jogou-se no chão. Não havia como escapar agora.
O braço que estava prestes a lançar sobre eles uma morte incandescente, no entanto, virou-se na direção oposta, acompanhando o restante do corpo. À sombra de um prédio, a cerca de quatro metros e meio de distância, surgiu de repente uma figura vestida de preto... Tão bela e trágica que deixou atordoado até mesmo o cérebro eletrônico daquela máquina. Talvez tenha sido por isso que atrasou um décimo de segundo ao alinhar a mira de seu canhão de raios térmicos.
Saltando com facilidade sobre a torrente de calor abrasador disparada por seu oponente, D desferiu um golpe com sua espada longa, cortando o topo da cabeça da máquina em um formato de meia-lua.
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