Capítulo 13: Prólogo
— Nephy, eu quero comer aquilo.
— Já está quase na hora do jantar, então não pode, Foll.
Kianoides, a cidade comercial. O dia chegava ao fim enquanto Nephy, de mãos dadas com uma garotinha, caminhava pela cidade que começava a escurecer. Elas estavam voltando para casa depois de fazerem compras e se encontrarem com suas amigas, Chastille e Manuela.
Com seus longos cabelos brancos que chegavam à cintura, presos por uma fita carmesim, orelhas pontudas e olhos cor de anil, era evidente que ela era uma elfa. Naquele dia, levava seu habitual vestido de peça única, um avental branco, botas com um feitiço para reduzir a fadiga e uma coleira rústica que destoava de seu corpo delicado. Era uma coleira de escrava, embora, para ela, representava a prova de sua preciosa ligação com seu senhor.
Quem segurava a mão de Nephy, apontando para os doces expostos nas vitrines da rua, era Foll. Sua aparência é a de uma garotinha de cabelos verdes vibrantes, cobertos por um capuz com orelhas de gato. Vestia uma roupa típica nas cores branco e escarlate, mas sob o capuz dois chifres despontavam. Apesar de ter a aparência de uma humana era, na verdade, um dragão. Apesar disso, comportava-se como uma criança, pedindo doces tal qual sua aparência sugeria.
O aroma doce que pairava no ar também despertava a fome de Nephy, contudo ela puxou a mão de Foll e respondeu com firmeza. Comer doces àquela hora tiraria o apetite para o jantar. Zagan, o chefe da casa, era gentil, no entanto detestava o desperdício de comida.
Nephy carregava uma cesta grande o suficiente para acomodar confortavelmente uma criança humana; seu interior já estava repleto de ingredientes. Ao ter seu pedido negado, Foll estufou as bochechas e olhou para Nephy com uma expressão cheia de expectativa.
— O que tem para o jantar?
— Hoje teremos frango assado no forno e sopa de milho. E também... Vejamos... Que tal eu preparar um pudim de sobremesa?
— Ah, então podemos voltar logo?
Em vez de comprar doces, Nephy decidiu preparar a sobremesa, o que fez os olhos âmbar de Foll brilharem. Logo depois, suas tranças verdes balançaram enquanto puxava a mão de Nephy, animada para irem logo.
— Deixa só eu conferir. Acredito que o Mestre Zagan também já deva estar com bastante fome.
— Vamos voando?
Foll ainda era jovem para um dragão, entretanto, em sua forma original, era grande o suficiente para carregar várias pessoas de uma só vez; por isso, às vezes Nephy pegava carona nela. A expressão de Nephy não mudou, todavia suas orelhas pontudas tremeram e se moveram alegremente enquanto balançava a cabeça.
— O Senhor Rafael também está lá, então não tem problema se não nos apressarmos.
Ao dizer aquilo, se lembrou da expressão de satisfação que seu senhor costumava exibir durante as refeições e, consequentemente, apressou o passo.
Já havia se passado um mês desde que Foll chegara ao castelo de Zagan. A presença das duas na cidade já havia se tornado algo comum; tanto os transeuntes quanto os balconistas das lojas lançavam olhares encantados na direção das duas.
E, naquele exato momento...
— Nephy, cuidado!
De repente, Foll empurrou Nephy para o chão.
Ao cair, Nephy acabou soltando a cesta. Os ingredientes que estavam dentro foram lançados ao chão e se espalharam. E, justo onde estavam há poucos instantes, uma chuva incessante de flechas feitas de luz começou a cair.
Fomos atacadas... Por feitiçaria?
Quando Nephy começou a se levantar, Foll já havia ficado de pé e assumido uma postura de defesa. A garota estava encarando uma figura sombria, cujo corpo estava envolto em uma túnica.
Como o rosto estava oculto, Nephy não conseguia identificar a raça daquela pessoa, mas era certo se tratar de uma criança ou, caso contrário, uma mulher. Mesmo sob as vestes largas, percebia-se que se tratava de alguém de porte pequeno. Por fim, a figura sombria estendeu o braço pela abertura da túnica... E apontou para Nephy.
— Você é... Nephelia?
Como imaginara, devia ser uma mulher. Afinal, a voz que Nephy ouvira lembrava o som cristalino de sinos. Porém, ouvir aquela voz a deixou inquieta. E parecia que o mesmo acontecia com Foll; sua expressão infantil deixava transparecer uma visível agitação.
Nephy ficou sem conseguir responder, enquanto os lábios visíveis sob a túnica da figura sombria se curvaram em um sorriso.
— Nem é preciso confirmar, não é...? Morra.
Então, aqueles lábios vermelho-vivos murmuraram algo.
— .........
Um calafrio indescritível percorreu a espinha de Nephy ao ouvir aquelas palavras.
— Não vou deixar! — disse Foll, dando um passo à frente.
— Não faça isso, Foll!
Abraçando Foll com força, Nephy jogou-se no chão, protegendo-a com o próprio corpo. Logo depois, uma chuva de lanças de cristal despencou do céu. Elas não visavam apenas Nephy, como também as lojas e os pedestres ao redor. Destroços e sangue voaram pelo ar, e gritos de pavor preencheram o local.
— Ah, pare, por favor! — Nephy gritou. Não que pensasse que mudaria algo. Era apenas um grito. Ou, pelo menos, deveria ter sido, contudo... Acompanhadas por um som metálico e nítido, as lanças de cristal se estilhaçaram.
Essa pessoa... Feriu as pessoas desta cidade! Nephy sentiu o sangue ferver em sua cabeça. Em sua mente, os habitantes daquela cidade haviam recebido Nephy com gentileza, assim como Zagan fizera; portanto, feri-los era um ato tão imperdoável quanto ferir o próprio Zagan. E, como se se curvassem diante daquela emoção violenta, os fragmentos de cristal estilhaçados mudaram de direção.
— O quê?
Os fragmentos de cristal alçaram voo, caindo repetidamente sobre a figura encapuzada. Enquanto a figura gemia e saltava para o lado, a chuva de cristais a perseguia de forma implacável.
Bastava desejar, e milagres aconteciam. Até mesmo os elfos, que possuíam poderes muito além da compreensão humana, temiam aqueles que os detinham, considerando-os crianças amaldiçoadas. Esse era o poder de Nephy... Misticismo.
Naquele momento, o controle dos cristais estava todo nas mãos de Nephy, e eles encurralavam aquela que os havia criado.
— Incrível... — disse Foll, com a voz tomada pelo espanto.
A figura encapuzada traçou um círculo mágico no ar, interceptando vários cristais com este. Condensar mana para criar um escudo era uma técnica básica de feitiçaria, no entanto, dependendo da habilidade de quem o conjurava, podia tornar-se inquebrável.
Comparado ao escudo do Mestre Zagan, este é frágil como uma folha de papel.
O escudo mágico resistiu por um instante, entretanto não durou sequer um segundo. Acompanhada por uma fúria arrepiante, Nephy pulverizou o escudo. Todavia, naquele breve momento, que sequer chegou a durar um segundo, a mulher parecia ter preparado seu próximo movimento. Lanças de cristal surgiram de sob seus pés mais uma vez e colidiram com a chuva de cristais que Nephy manipulava. E, dessa vez, ambos os tipos de cristais foram despedaçados, sem deixar para trás sequer um fragmento.
— Mesmo sendo uma imprestável... Ela ainda é uma elfa de cabelos brancos, hein? — a mulher de manto gemeu enquanto seu capuz caía.
Nephy perdeu o fôlego quando o rosto da mulher foi revelado. Ao seu lado, Foll também estava em choque. Isso porque... O que apareceu sob o capuz foi o rosto de uma garota. E, assim como Nephy, tinha orelhas pontudas. Uma elfa. Sua idade também devia ser próxima à de Nephy. Seus longos cabelos, que chegavam até a cintura, também eram brancos. Sua expressão inexpressiva, a mana que se podia sentir na pele e, acima de tudo... Aquela garota tinha o rosto idêntico ao de Nephy.
— Uma Nephy... Sombria...? — Foll disse com a voz trêmula.
Era uma garota que só poderia ser descrita como “Nephy Sombria”. A única diferença era a cor de sua pele e de seus olhos. Em contraste com a pele branca como a neve e os olhos azul-celeste de Nephy, a garota diante delas tinha pele marrom-escura e olhos dourados.
Pensando bem, a razão pela qual Nephy conseguiu reagir ao primeiro ataque surpresa pode ter sido o fato de que aquela mana tinha uma natureza muito semelhante à sua própria.
A Nephy Sombria encarou Nephy por um momento, mas então desviou o olhar de repente.
— O círculo mágico do Arquidemônio, hein? Que poder terrível.
— Hã...? Do que está falando? — Nephy engoliu em seco, audivelmente, enquanto observava o rosto daquela garota.
Percebendo de repente o que estava acontecendo, ela olhou ao redor. Os edifícios que haviam sido destruídos pelas lanças de cristal tinham retornado ao seu estado original. Até mesmo as pessoas que haviam sido atravessadas pelas lanças apenas exibiam olhares vazios enquanto estavam sentadas no chão. E então, como se envolvesse a cidade, um enorme círculo mágico foi desenhado no solo.
Será que isto é... A feitiçaria do Mestre Zagan? Enquanto aprendia feitiçaria, Nephy compreendeu que havia uma certa peculiaridade na maneira como os feiticeiros organizavam os circuitos de um círculo mágico. E a estrutura daquele círculo mágico condizia com o estilo de Zagan.
A Nephy Sombria então colocou o capuz de volta e abriu silenciosamente o seu manto.
— Por favor, espere! Quem é você, afinal...
— Eu... Sou você... Nephelia, a amaldiçoada! — respondeu a Nephy Sombria. E, enquanto Nephy estava abalada com aquelas palavras, a figura se distorceu como uma névoa e desapareceu. Com isso, a luta chegou ao fim, e parecia que Nephy por fim poderia ficar tranquila. Após verificar que ela e Foll estavam seguras, Nephy correu em direção aos habitantes da cidade.
— Então você está bem, Nephy.
— Nephy, foi você quem consertou tudo isso?
Embora tivesse ocorrido um incidente no qual a cidade quase foi destruída, não havia vozes ali culpando Nephy ou Foll.
Logo depois, Foll saiu correndo como se tivesse encontrado algo.
— Olhe isto, Nephy. — disse Foll ao pegar uma única folha de papel.
O destinatário era Zagan, porém o nome do remetente fez o corpo de Nephy travar de choque.
— Para o Arquidemônio Zagan, do Arquidemônio Bifrons —
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