Capítulo 14: Vou ficar furioso mesmo que quem tenha levantado a mão contra a minha noiva seja uma linda garota
— Como eu imaginava, não funciona exatamente como a feitiçaria, né?
Anoitecer. No arquivo do castelo de Zagan, este resmungava enquanto encarava um pedaço de papel contendo o desenho de um brasão misterioso. Era semelhante a um circuito de feitiçaria, mas também diferente.
Brasões comuns utilizavam circuitos formados por linhas retas e círculos como base, e cada forma individual não era tão complexa assim. Na verdade, muitas destas podiam ser conectadas dessa maneira e incluídas em um círculo mágico sob qualquer forma. Porém, os brasões naquele pedaço de papel usavam apenas linhas que se retorciam como serpentes; não só não utilizavam linhas retas, como empregavam pontos.
Parecia que muitos caracteres estavam unidos, contudo, se fosse esse o caso, não conseguia distinguir onde se separavam, se eram todos apenas uma única letra ou mesmo se aquilo constituía algum tipo de vocabulário.
Aquilo era algo que Zagan havia copiado da gravação na grande espada fincada diante de seus olhos. Sobre um pedestal sinistro esculpido em obsidiana, repousava uma espada de beleza desproporcional ao ambiente. Brasões pálidos estavam gravados ao longo de sua lâmina de um branco puro. Era uma Espada Sagrada.
Fazia parte de um conjunto de ferramentas utilizadas pela Igreja para destruir o Rei Demônio e era também sua maior arma contra feiticeiros. Além do mais, era um símbolo de seu poder. Existiam apenas doze delas, e uma dessas Espadas Sagradas estava nas mãos de um rei entre os feiticeiros, o Arquidemônio Zagan.
Se esse fato se tornasse público, o equilíbrio de poder entre os feiticeiros e a Igreja sem dúvida colapsaria. Se ameaçasse a Igreja usando essa informação, talvez pudesse negociá-la com alguma figura influente de lá e acumular uma fortuna. Era, de fato, um tesouro capaz de abalar o mundo. Quanto à grande Espada Sagrada em questão, Zagan pegou um martelo da mesa e tentou golpeá-la contra a lâmina, sem demonstrar o menor sinal de respeito. Ao ver que a lâmina lascou com o impacto, percebeu que a resistência do metal em si não era lá grande coisa. Se o cardeal que idolatrava a Espada Sagrada visse aquela cena, sofreria uma parada cardíaca. Embora, na verdade, a pessoa em questão já estivesse sob uma lápide.
Enquanto examinava a Espada Sagrada, Zagan tentou verificar o efeito dos próprios emblemas inserindo-os em um círculo mágico, no entanto não conseguiu ativar nenhum tipo de poder.
Será que existe uma ordem de traços específica? Ou será necessário algum ritual? Ou talvez o simples ato de desenhá-los exija um poder especial?
Por ora, Zagan havia descoberto quais materiais foram usados para pintá-los e utilizou os mesmos, entretanto parecia não haver relação alguma. E, como se não conseguisse esconder o cansaço, Zagan esfregou os olhos e olhou para a mão direita.
Um selo gravado por mana surgiu então na superfície de sua mão. O Selo do Arquidemônio... Era a prova de seu status, contendo uma quantidade imensa de mana em seu interior.
Zagan tinha dois objetivos. Um era obter um meio de matar demônios, e o outro era encontrar um método para destruir o Selo do Arquidemônio.
Sem um meio de quebrar isso, não conseguirei matar os outros doze Arquidemônios.
O motivo de estar investigando a Espada Sagrada era que os emblemas nela gravados se assemelhavam aos do Selo do Arquidemônio. Entretanto, não teve escolha a não ser admitir que os resultados de sua investigação não haviam sido favoráveis.
Zagan estalou os dedos, irritado.
— Rafael, está aí?
— Chamou?
Um mordomo surgiu do nada, vestindo um fraque e com uma armadura envolvendo seu braço esquerdo. Mesmo em seus melhores dias, aquele homem tinha uma fisionomia assustadora; para completar, uma cicatriz pavorosa cortava seu rosto, da bochecha à testa, conferindo-lhe um aspecto demoníaco. Parecia ter mais de cinquenta anos, todavia, da postura ereta à compleição física robusta, não havia sinal algum de que a idade tivesse diminuído seu vigor.
Na verdade, não era de se estranhar. Aquele homem era um ex-Arcanjo que havia matado 499 feiticeiros. Tendo perdido o braço esquerdo, usava uma prótese de armadura, embora suas verdadeiras habilidades permaneciam intactas. Já havia se passado um mês desde que ele e Foll passaram a viver no castelo de Zagan.
Zagan apontou para a Espada Sagrada que repousava sobre o pedestal.
— Rafael, você disse que nem mesmo você compreende as inscrições nesta espada, certo?
— Lamento dizer que é tal qual Vossa Senhoria afirma.
— Mostre-me um pouco do poder dela.
Sem qualquer hesitação, Zagan deu uma ordem ao ex-Arcanjo que detinha o recorde histórico de mortes de feiticeiros. Após retirar a Espada Sagrada do pedestal de obsidiana, Rafael pronunciou seu nome em voz baixa.
— Atenda ao meu chamado... Espada Sagrada Metatron.
Ao ser invocada, a Espada Sagrada foi envolta por uma chama pálida. Era a Chama da Purificação, que segundo diziam um dia havia derrubado o rei dos demônios. Ao tocar aquela chama, qualquer feitiçaria perdia o poder, sem exceção. Nem mesmo um Arquidemônio escapava desse destino.
O fiel mordomo empunhou a Espada Sagrada com ambas as mãos e desferiu um golpe contra Zagan, sem hesitar. Com um clangor metálico, pequenas faíscas se espalharam pelo ar, e a espada envolta em chamas foi detida diante de Zagan.
Consegui uma Espada Sagrada e até o seu portador. Não há recurso que eu pretenda deixar de usar. Um círculo mágico complexo e elaborado surgiu diante de Zagan enquanto refletia sobre sua boa sorte.
— Hmm. Como eu imaginava, o poder em si não vem da lâmina. Para mim, parece ser disparado por aqueles emblemas.
A espada, por si só, era feita apenas de metal resistente. O que de fato a tornava uma Espada Sagrada eram os emblemas gravados nela. Não havia como negar esse fato, mas...
De alguma forma, não consigo entender nem um pouco como aquilo funciona...
Não era algo complicado da mesma maneira que os circuitos de feitiçaria. Não... Parecia até um feitiço simples de uma única frase, e ainda assim o princípio por trás escapava à compreensão de Zagan. Mesmo depois de se dar ao trabalho de fazer o proprietário demonstrar o poder, continuava em um impasse.
Apesar de ser o mais jovem da história a alcançar o título de Arquidemônio, sua confiança como feiticeiro havia sido destroçada. Portanto, Zagan soltou um suspiro ao abrir a boca para falar.
— Bom trabalho. Por ora, chega.
— Como desejar! — exclamou Rafael. Então, observando Zagan, que parecia estar no limite de suas forças, continuou. — Meu senhor, o senhor também está tendo dificuldades para desvendar os mistérios da Espada Sagrada?
— Sim. Veja, não há como negar que aquilo são caracteres, porém parecem pertencer a uma tradição completamente perdida. Não se assemelham a nenhum caractere existente hoje em dia e também parecem ter uma estrutura diferente da dos circuitos.
Uma tradição perdida referia-se a tradições e culturas que haviam sido reduzidas ao nada. Como esperado, se não restasse ninguém para transmiti-las, sequer teriam sido registradas em livros. A Igreja administrava a distribuição das Espadas Sagradas, contudo nem mesmo ela compreendia o significado do desenho do brasão.
Reconstruir tais informações levaria anos para um especialista; portanto, embora Zagan fosse o feiticeiro mais jovem da história a ascender ao posto de Arquidemônio, aquela não era uma tarefa que pudesse ser realizada em pouco tempo. Irritado com a situação, Zagan lançou um olhar fixo para a Espada Sagrada que Rafael segurava.
— Para ser sincero, chega a ser mais convincente pensar na própria espada como um ser vivo chamado “Espada Sagrada”.
Zagan voltou sua atenção para a parte que havia golpeado com um martelo antes. Esta havia sofrido alguma avaria, contudo agora parecia perfeitamente afiada. A espada parecia ter a capacidade de se regenerar. O mordomo então assentiu e respondeu.
— Compreendo. Também não sabemos se isso está necessariamente errado. — Rafael ergueu sua Espada Sagrada enquanto falava e acrescentou. — As Espadas Sagradas escolhem seus portadores. Até quando toco nesta espada, em raras ocasiões, sinto algo semelhante a uma vontade própria. Além disso, embora sejam a mesma arma, dizem que a forma como seu poder se manifesta varia de acordo com o portador.
— Agora que mencionou, a sua é de fogo e a da Chastille é luz, não é?
Não era como se uma superasse a outra nem nada do tipo, no entanto talvez significasse que os atributos das espadas mudavam para se adequar aos seus portadores. E o que determinava essas características era, talvez, a “vontade da Espada Sagrada” de que Rafael falava.
Se possuía vontade, então era possível considerá-la algo mais próximo de um ser vivo na forma de uma espada.
Entretanto, como tinha a forma de uma espada, deveria haver algum tipo de criador original.
Uma espada era um objeto feito para ser empunhado por pessoas. E, se houve alguém que as fabricou, então um método de produção deve ter existido em algum momento.
Em vez de analisar a espada em si, investigar isso talvez seja a opção mais realista.
É claro que muitas coisas ficaram claras ao investigar as Espadas Sagradas. Ao comparar com informações de livros do Palácio do Arquidemônio, Zagan descobriu que aqueles caracteres eram conhecidos como “Celestian”. Pareciam ser a escrita utilizada por divindades na antiguidade, todavia dizia-se que havia se perdido quando elas partiram deste mundo.
Era uma língua desconhecida. O significado e até mesmo a pronúncia não estavam claros, por isso seria difícil obter mais informações a respeito. Enquanto Zagan estava perdido em pensamentos, Rafael finalmente colocou a Espada Sagrada de volta no pedestal.
— Já está na hora de eu lhe devolver a Espada Sagrada?
— Se eu tiver que empunhá-la, então você pode me ordenar que o faça.
E, enquanto conversavam sobre essas coisas... Zagan ergueu as sobrancelhas, surpreso.
A barreira de Kianoides foi ativada? A barreira que havia preparado para o caso de uma batalha irromper na cidade, para restaurar quaisquer danos causados aos edifícios, havia se ativado. Esta foi projetada para reagir mesmo se Nephy ou Foll também lutassem, então...
Zagan se levantou de um salto ao ter esses pensamentos em mente.
— Conversaremos depois. Parece que algo aconteceu com Nephy e Foll.
E embora tivesse uma expressão bastante séria no rosto, Nephy e Foll retornaram em segurança um instante depois.
***
— O que aconteceu?
Depois de observar os rostos de Nephy e Foll quando voltaram, a expressão de Zagan tornou-se mais sombria. Por ora, as duas não pareciam estar feridas. Graças ao círculo mágico que havia criado em Kianoides, suas roupas também não apresentavam sinais de rasgos ou sujeira. Ambas eram o tipo de pessoa que não demonstravam muita emoção no rosto, então pareciam normais à primeira vista.
Minha barreira não pode curar as feridas de seres vivos, afinal.
Como Zagan se especializou em feitiçaria que aprimorava seu próprio corpo físico, não conseguia fazer com que a barreira curasse as feridas de outros. Ultimamente, o número de pessoas que tinha que proteger havia aumentado bastante, então vinha considerando estudar e corrigir essa sua fraqueza.
Porém, mesmo sem ferimentos, o jeito como Foll não soltava a mão de Nephy e como as orelhas de Nephy estavam caídas e desgrenhadas deixavam claro que alguma coisa havia acontecido. E enquanto Zagan as encarava, esperando por uma resposta, a primeira a falar foi Foll.
— Zagan, você sabe... — mas, quando ela tentou dizer algo, Nephy apertou sua mão com força. — Não é nada.
Parecia que Nephy não queria falar sobre o ocorrido... Ou melhor, não queria que ninguém soubesse.
Acho que, por enquanto, vou procurar o culpado mais tarde e estrangulá-lo até a morte.
Havia testemunhas na cidade, portanto não seria tão difícil seguir seus rastros. Contudo, isto era algo que poderia fazer depois. Agora, havia outra coisa que precisava fazer primeiro. Zagan começou agachando-se na frente de Foll, ficando na mesma linha de visão que ela.
— Foll, você está bem? — Zagan acreditava que alguma coisa havia acontecido com elas. E enquanto perguntava, Foll fez um pequeno aceno.
— Eu... Estou bem. — disse Foll, olhando para Nephy com um olhar preocupado. Então, Zagan acariciou sua cabeça.
— Graças a Deus. Rafael já começou a preparar o jantar na cozinha. Diga a ele para te trazer um suco. Você merece.
Dito isso, Zagan olhou para Rafael, e o velho mordomo percebeu o que Zagan queria dizer e assentiu.
— Então venha comigo, Foll. Peguei algumas frutas frescas. Vou esmagá-las até a polpa, do jeito que sei que gosta.
Ele não poderia só dizer “Vou fazer aquele suco que você gosta”...?
O mordomo deu um sorriso diabólico, como se dissesse que ia destruir uma cidade inteira, o que fez Zagan reprimir um suspiro. Ainda assim, Foll já havia se acostumado.
— Hmm... — depois de soltar a mão de Nephy com relutância, Foll seguiu Rafael até a cozinha e saiu.
Esperando até não poder mais ver as costas dela, Zagan olhou para Nephy enquanto seguia agachado.
— Ah... Hmm, como posso dizer... Se for agora, parece que ninguém vai te ouvir além de mim... — Zagan deixou seu olhar vagar sem jeito enquanto murmurava, e Nephy baixou os olhos.
— Minhas... Desculpas... — Nephy se desculpou, embora não houvesse necessidade.
É tão difícil falar sobre isso?
Se era um assunto sobre o qual nem queria conversar com Zagan, então, no mínimo, devia ser algo chocante... O que só o deixava mais preocupado. No entanto, sabia que tentar arrancar a informação à força seria uma má ideia.
Nesse caso... O que posso fazer? Nephy era, no fundo, uma pessoa bastante reservada, e Zagan também não levava muito jeito para conversar. Até aquele momento, ainda não havia lhe dito “eu te amo”. Como ambos eram desse jeito, haviam aprendido a perceber o que o outro queria dizer através de gestos e mudanças de expressão; entretanto, Zagan não conseguia, de forma alguma, entender o que havia acontecido. Mesmo assim, Zagan não era um Arquidemônio de espírito fraco a ponto de recuar só porque não compreendia a situação.
Se ela não quer compartilhar, então vou apenas ficar calado e confortá-la até que se sinta à vontade para me dizer!
Certa vez, quando estava se sentindo para baixo, Nephy havia deixado que ele usasse o colo dela como travesseiro. E, por algum motivo, aquilo trazia paz ao seu coração. Era certamente essa a sensação de “ser confortado”. Ao chegar a essa conclusão, Zagan balançou a cabeça em negação.
Calma. Quer dizer, como posso oferecer meu colo como travesseiro nesta situação? Além do mais, só porque se sentiu feliz quando Nephy fez aquilo, não significava que fazer o mesmo por ela produziria um resultado idêntico.
Desesperado, Zagan refletia sobre o assunto. Enquanto o observava, Nephy murmurou em voz baixa.
— Hmm, Mestre Zagan, a verdade é que...
Entendi. Só preciso criar um ambiente onde seja apropriado oferecer meu colo como travesseiro, não é? Zagan teve um estalo de genialidade e nem percebeu que Nephy havia começado a falar.
— Ouça, Nephy, relaxe o corpo.
— Ah... Sim.
Ainda com as orelhas tremendo de confusão, Nephy obedeceu e relaxou os ombros. Depois de verificar, Zagan pegou Nephy e a ergueu nos braços. Parecia que a estava carregando no estilo “noiva”.
— H-Hã? Hmm... Hein? — Nephy soltou um som confuso enquanto suas orelhas pontudas ficavam vermelhas como brasa. Com a insegurança de não sentir mais os pés no chão, abraçou o pescoço de Zagan por reflexo. Duas saliências podiam ser notadas através do avental e do vestido de peça única, enquanto ela, indefesa, pressionava o corpo contra o dele.
Tão macia... Ou melhor, leve... E, mais importante, que cheiro bom é esse? Zagan, sem querer, jogou a cabeça para trás e quase se desequilibrou, todavia logo em seguida começou a caminhar a passos largos com Nephy nos braços, como se esta não pesasse nada.
— Ugh... Ohhh...
Nephy emitia sons desconexos, mas Zagan estava tão atordoado que perdeu o raciocínio e não conseguia responder nada.
Por ora, sabia que tinha cometido algum tipo de erro, porém estava decidido demais para desistir tão cedo.
***
No fim das contas, o lugar para onde Zagan se dirigiu foi o arquivo. Ao contrário da sala do trono, esse ambiente era mais apertado e aconchegante.
Como era difícil ser visto de fora, o local seria ideal para acalmar os ânimos. Embora já fosse um pouco tarde, Zagan percebeu que o arquivo era um lugar conveniente para ficarem a sós.
Talvez por estar atordoada pelo choque, Nephy apenas permaneceu como estava, deixando Zagan fazer o que quisesse.
Não, na verdade, parecia estar em um estado de total confusão mental. Seus olhos vagavam de um lado para o outro, e se mantinha agarrada ao pescoço de Zagan o tempo todo.
Ah, contudo ela não vai poder usar meu colo como travesseiro aqui.
Além de o arquivo estar superlotado de livros, Zagan e até mesmo Foll o utilizavam com frequência, então havia pilhas de volumes espalhadas pelo chão. Não que o lugar fosse ruim, só que não havia espaço suficiente para alguém se deitar.
Depois de se preocupar um pouco, Zagan sentou-se ali mesmo, sem soltar Nephy. Como feiticeiro, não sentia qualquer cansaço ao carregar uma garota leve como ela. Ainda assim, achou que Nephy se sentiria mais aliviada se estivesse sentado, em vez de ficar de pé...
Infelizmente, um silêncio desconfortável pairava sobre o ambiente.
Pouco depois, Nephy perguntou, com a voz tingida de confusão.
— A-Ah, Mestre Zagan, o que é exatamente isto...?
Eu também não sei! Embora devesse estar confortando Nephy, já não sabia o que fazer. E, como se para disfarçar sua inquietação, ouviu-se o som de um toque vindo do calcanhar de Zagan.
Os livros que começara a ler, deixados sobre uma mesa, flutuaram sozinhos e vieram parar à sua frente.
— Ainda há tempo até o jantar... Vou continuar lendo.
Assim, acabou criando uma situação bastante peculiar. Ele lia enquanto a garota que amava estava sentada em seu colo. Curiosamente, não percebeu nenhum sinal de que Nephy estivesse incomodada com aquilo.
Logo depois, Nephy pareceu não conseguir mais suportar o constrangimento e começou a se remexer de leve; no entanto, como Zagan a mantinha abraçada com um livro aberto à frente, não conseguia sair do seu colo.
Não demorou muito para que Nephy, talvez resignada com a situação, ajeitasse um pouco a postura no colo de Zagan. Então, sem olhar para trás, começou a murmurar, como se falasse consigo mesma.
— Hm, Mestre Zagan... Sobre o que eu estava tentando dizer mais cedo...
— O que foi?
Por mais que analisasse a situação, era evidente que Nephy queria iniciar uma conversa séria. Entretanto será que aquela posição era de fato a mais adequada para ouvi-la? Não tinha certeza, todavia também sentia que não seria bom fazê-la descer do colo agora.
Apenas retribuir com um aceno de cabeça exigiu todo o esforço de Zagan, enquanto se atormentava com tais questões. E, independentemente de saber ou não o estado mental de seu mestre, Nephy tirou uma única folha de papel de carta do bolso.
— Em Kianoides, certa pessoa me entregou isto.
Então, foi essa a pessoa responsável por deixar a Nephy perturbada?
A quantidade de informações que se podia extrair de uma carta ia muito além de seu simples conteúdo. Ao analisar a caligrafia, era possível investigar a identidade da pessoa em questão. Pela qualidade do papel e pelo formato da folha, dava para descobrir onde tais itens circulavam e até mesmo onde haviam sido adquiridos. Além disso, o simples ato de segurar um instrumento de escrita obrigava a pessoa a tocar diretamente na carta. E, ao fazê-lo, era inevitável que deixasse um vestígio de mana.
Em suma, Zagan não teria dificuldade em encontrar o culpado com apenas aquela folha de papel. Voltando o olhar para a carta, que consistia em uma única página, Zagan estreitou os olhos.
— Um baile noturno... O quê?
Para completar, o remetente era o Arquidemônio Bifrons.
Bifrons... Este é o Arquidemônio mais jovem depois de mim, não é?
Antes de Zagan se tornar um Arquidemônio, aquele feiticeiro detinha o recorde de mais jovem a alcançar tal posto na história. E, ao que parecia, o Arquidemônio Bifrons era o responsável por ter importunado Nephy. Enquanto lutava para conter a fúria que sentia diante desse fato, Nephy inclinou um pouco a cabeça.
— Um baile noturno... O que seria?
— Entendo. Você ainda não conhece essas coisas, não é, Nephy? É como uma reunião social entre feiticeiros.
Ele até achava que a imagem de feiticeiros... Que, dizia-se, só pensavam em suas próprias pesquisas... Não combinava com uma reunião social, porém essa ideia estava longe de ser verdade.
— Pesquisas custam dinheiro. Além do mais, o conhecimento que você deseja pode acabar sendo monopolizado por outro feiticeiro. Por esses motivos, encontros como este são o lugar perfeito para feiticeiros se reunirem e realizarem trocas.
— E o Mestre Zagan foi convidado para tal evento?
— Bem, só saberei se der uma olhada no conteúdo.
Ao pensar que se tratava de um convite escrito por um Arquidemônio, suspeitou que houvesse algum tipo de armadilha, mas não havia sinal algum de feitiçaria aplicada ao papel. Portanto, era improvável que houvesse perigo em abri-la.
Zagan bateu o calcanhar outra vez; a gaveta da mesa se abriu e uma faca, guardada em uma bainha ricamente ornamentada, flutuou em direção a eles. A faca então pairou no ar até pousar nas mãos de Nephy.
— Abra e de uma olhada para mim.
— Certo.
Talvez já acostumada à situação... Ou melhor, tendo algum sentimento interior adormecido, Nephy respondeu com sua voz monótona de sempre e rompeu o lacre do envelope com a faca. Em seguida, um único cartão caiu de dentro.
— Leia em voz alta para mim. — Zagan achou que poderia ler a carta por conta própria, contudo imaginou que fazê-la falar ajudaria a aliviar o clima.
Bem, ele também queria muito ouvir a voz de Nephy novamente.
Nephy apenas assentiu, como se não tivesse dúvida alguma sobre isso.
— Certo. “Caro Arquidemônio Zagan, com o intuito de aprofundar nossa relação como novos companheiros, pensei em organizar um baile noturno. P.S.”... Hã?
Nesse momento, a voz de Nephy falhou. Zagan então perguntou o que havia acontecido, usando o tom mais gentil que conseguiu.
— O que está... Escrito aí?
— “P.S.: Gostaria de convidar todos os residentes do seu castelo que estejam envolvidos nesta questão. O Arquidemônio Zagan, a Elfa Branca Srta. Nephelia, a Aparição Srta. Valefor, o ex-Arcanjo Lorde Rafael Hyurandell e, também, a bela ex-empregada, a Donzela da Espada Sagrada, Srta. Chastille Lillqvist”.
Até mesmo Zagan soltou um gemido ao ouvir aquilo.
Isto significa que eles vêm nos monitorando há um bom tempo, não é?
Eles sabiam que Chastille havia trabalhado como empregada no castelo, embora por apenas alguns dias, e até tinham conhecimento da verdadeira identidade de Foll. No mínimo, fazia sentido presumir que aquele Arquidemônio os mantinha sob vigilância há mais de um mês.
Nephy então continuou com a voz trêmula.
— “Peço encarecidamente que as cinco pessoas mencionadas compareçam. Aguardo uma resposta favorável. Arquidemônio Bifrons”.
E com esse nome, bem como a hora e o local do baile, a carta de convite chegava ao fim.
Os treze Arquidemônios, hein? Quando confrontou os Arquidemônios pela primeira vez, Zagan sentiu medo. Sem querer deixar Nephy em um lugar onde ela se envolveria com tais monstros, até tentou mantê-la afastada dele.
Era uma lembrança de uma derrota vergonhosa e deplorável. Contudo, ainda assim, Zagan bufou enquanto elevava a voz.
— É um convite e tanto, bem provocativo.
Ao ouvi-lo elevar a voz com um tom de entusiasmo, Nephy virou a cabeça, surpresa. E, quando Zagan enfim viu o rosto dela, notou que suas orelhas haviam murchado, como se estivesse abalada.
— Mestre Zagan, o senhor pretende ir?
Zagan inclinou a cabeça para o lado.
— Um Arquidemônio se deu ao trabalho de enviar um convite pessoal. Não há razão para não aceitar, não acha?
De qualquer forma, são oponentes que terei de esmagar em algum momento. Qual seria, afinal, a diferença de poder entre os outros Arquidemônios e Zagan? Essa era, certamente, uma boa oportunidade para descobrir. Acima de tudo, Zagan precisava ensinar a eles, da maneira adequada, o quão pouco vantajoso era tê-lo como inimigo.
O motivo pelo qual promovia um banho de sangue para qualquer intruso ignorante era justamente esse; portanto, mesmo que o oponente fosse um Arquidemônio, isso não mudaria. Pelo contrário, justo por serem Arquidemônios, precisava deixar esse fato claro para eles... Caso contrário, situações assim apenas se repetiriam.
Ao ouvir sua resposta, Nephy arregalou os olhos e abriu a boca, falando com hesitação.
— Sei que é uma impertinência da minha parte dizer, mas... Você não acha... Que parece uma armadilha?
— Hã...? Não é óbvio que é uma armadilha?
Zagan preferiria que alguém lhe apontasse outras possibilidades. O fato de prezar Nephy mais do que a própria vida era algo que os outros Arquidemônios já sabiam. Além de chegarem ao ponto de usar o pior método de provocação... Orquestrar um ataque contra Nephy... Enviar uma carta-convite era como avisar de maneira educada, “Armamos uma cilada, mas não fuja, está bem?”
— E-Então... — as orelhas de Nephy tremularam, como se não conseguisse esconder seu desconcerto.
Entendo. Ela acabou de passar por uma experiência terrível; isso deve ter sido aterrorizante.
Zagan tentou sorrir para tranquilizar Nephy, porém sabia que sua expressão parecia a de um vilão. Queria fazer carinho na cabeça dela, contudo tampouco parecia a forma correta de consolá-la, e ambas as suas mãos já estavam ocupadas de qualquer maneira. Como Nephy estava sentada em seu colo, também não podia usar os pés para tentar confortá-la.
Então, como devo tranquilizá-la? Nessas horas, Zagan sabia muito bem que não conseguia encontrar as palavras certas. Por outro lado, como ela já estava em seu colo, sentia que nem mesmo um abraço resolveria muita coisa.
E, nos breves segundos em que seus pensamentos estavam um caos, chegou à conclusão de que a parte do corpo com liberdade de movimento mais próxima de Nephy era a sua cabeça.
Pensando bem, deve haver uma maneira de confortar alguém encostando a testa nela!
De vez em quando, Zagan via Nephy e Foll conversando dessa forma. Foll levantava a voz como se estivesse sentindo cócegas, no entanto exibia uma expressão de pura alegria. Não havia dúvida. Sendo assim...
— Eeek?
Zagan pressionou o rosto contra a bochecha de Nephy. Embora fosse bem esbelta, a sensação ao toque era inesperadamente macia. Sua pele era sedosa, lembrando açúcar de confeiteiro, e conseguia sentir que sua temperatura estava bem elevada.
E, com uma série de estalos rápidos, as orelhas de Nephy balançaram violentamente, batendo repetidas vezes no rosto de Zagan devido à sua agitação.
Ah, droga, foi uma decisão ruim! Embora tivesse tentado encostar na sua testa, como a abraçava por trás, acabou encostando a bochecha. Pensando melhor, percebeu que estava apenas esfregando a própria bochecha contra a dela.
Se algo assim acontecesse de repente, qualquer um ficaria atordoado. Todavia, mesmo sabendo que tinha sido um erro, já era tarde demais para voltar atrás. Após limpar a garganta com uma tosse, Zagan começou a falar.
— Seja um Arquidemônio ou uma armadilha, foi alguém que fez você se sentir dessa forma. Não vou deixar passar sem dar uma boa surra nessa pessoa.
— O-Oh...
As orelhas trêmulas de Nephy se esticaram num movimento rápido, como se tivessem ficado rígidas. Ele acabou falando como se estivesse irritado, mas aquele era, de fato, o único ponto que o próprio Zagan não podia deixar passar.
Pouco depois, talvez por ter perdido as forças, as orelhas de Nephy caíram.
— Mestre Zagan, você percebeu tudo, não é?
— É verdade... Ou melhor, é o que eu gostaria de dizer, porém não é como se eu soubesse o que de fato aconteceu. Tudo o que consigo perceber é que você está abatida, Nephy.
Queria saber em detalhes o que havia acontecido, contudo também não queria forçá-la a falar sobre o assunto contra a sua vontade.
Se é algo que a deixou tão abatida assim, então deve ser tratar de um problema como um encontro com um sobrevivente da sua terra natal, não é?
No entanto, Nephy já havia contado esse segredo a Zagan. Era certo que ficaria abalada, entretanto não a ponto de permanecer tão calada.
Então, seria outra coisa? Zagan não conseguia descobrir o que poderia ser. Enquanto permanecia em silêncio, esperando que ela continuasse, Nephy acabou abrindo a boca timidamente para falar.
— Peço perdão, Mestre Zagan. No momento, ainda não sei... Como falar sobre o que houve.
— Entendo. Então fale quando se sentir capaz.
— Sim. — uma única palavra dita com hesitação. Sua voz deixava claro que a sombra que pairava sobre ela havia diminuído consideravelmente. E então, sem se virar para olhar para Zagan, Nephy fez uma pergunta hesitante.
— Hmm, Mestre Zagan.
— O que foi?
— Bom... Hmm... Será que você estava... Me consolando...?
— Não parece que estou?
Não parecia nem um pouco, né? Até o próprio Zagan sabia. Mas, ainda assim, não conseguia pensar em outra maneira.
Nephy então sorriu, como se compreendesse todos os sentimentos de Zagan.
— Muito obrigada. Já me sinto... Muito mais tranquila agora.
— Entendo.
Graças aos céus que a Nephy é uma garota tão compreensiva... Ele pensou do fundo do coração.
Depois, Nephy começou a se remexer no colo de Zagan.
— Porém... Hmm... Poderia... Por favor... Me deixar descer... Agora? Hm... É... Constrangedor...
Mesmo tendo perdido a compostura, a situação atual era estranha de várias maneiras. Não tinha como Nephy não ficar envergonhada. Afinal, até Zagan estava. Ou melhor, era para ser assim, contudo...
De alguma forma, tenho o pressentimento de que deveria tentar deixá-la encurralada só mais um pouco, pensou Zagan, fingindo ignorância enquanto continuava a ler.
— Parece que vai demorar um pouco para podermos comer. Vou continuar lendo.
— Mestre Zagan, isso é maldade.
Apesar de suas palavras soarem como uma repreensão, Nephy não tentou escapar.
Bem, Nephy trabalha um pouco demais às vezes, nesse caso é bom relaxar de vez em quando. Deixá-la descansar um pouco, mesmo que tivesse que usar métodos tão cruéis, era sem dúvida sua obrigação.
Depois disso, Nephy olhou casualmente para a espada apoiada em um canto do arquivo. Era a Espada Sagrada Metatron, confiada a Zagan por Rafael. Por causa da confusão que aconteceu na cidade, Zagan perdeu a chance de devolvê-la. Nem sequer estava na bainha. E, enquanto observava aquela Espada Sagrada, Nephy murmurou algo, como se falasse consigo mesma.
— Me... Ta... Tron...? Será que esse é o nome da espada?
— É, é a Espada Sagrada do Rafael. Já está na hora de eu devolvê-la para... — Zagan sentiu o rosto enrijecer enquanto falava e, em seguida, continuou. — Nephy... Agora há pouco... O que você disse?
O nome de uma Espada Sagrada era, ao que tudo indicava, um segredo muito bem guardado. Rafael o havia mencionado apenas uma vez, e nem Zagan nem Foll jamais o haviam pronunciado desde então. Não havia como Nephy saber o nome da Espada Sagrada.
— Hã...? Hmm, está falando daquelas letras?
E, dessa vez, os olhos de Zagan se arregalaram.
— Nephy, você consegue ler as letras na Espada Sagrada?
Nephy confirmou com um aceno de cabeça.
— Sim. Eu não entendo bem o significado da palavra, mas sei como pronunciá-la...
Zagan havia se atrapalhado ao tentar confortar Nephy, porém, graças a isso, obteve uma pista valiosíssima.
***
— Você foi convidado para o baile noturno de um Arquidemônio?
No dia seguinte, no início da tarde, Barbatos... O amigo indesejável de Zagan, exclamou em voz alta e retumbante. Como sempre, exibia uma aparência doentia, com olheiras profundas, e bagunçava seus cabelos negros desgrenhados enquanto fingia surpresa.
Eles estavam na sala do trono, porém sentados no centro da área, um degrau abaixo da plataforma onde ficava o trono propriamente dito. Havia uma pequena mesa preparada com lugares para quatro pessoas, e Zagan, Barbatos, Nephy e Foll estavam reunidos ao redor.
Várias variedades de doces e chá estavam dispostas sobre a mesa. Contudo, restava menos da metade do que no início, o que antes parecia uma montanha de doces. Isso acontecia porque Foll vinha devorando-os, um por um.
Enquanto conversavam, Zagan tomou um gole de sua xícara de chá e, por iniciativa própria, Nephy pegou o bule.
— Mestre Zagan, gostaria de mais chá?
— Bem, deixo isso com você. — a xícara dele estava quase vazia. Após tomar o último gole para esvaziá-la, ele assentiu. Nephy inclinou o bule alegremente, o que trouxe uma sensação de serenidade a Zagan.
Parece que os acontecimentos de ontem não deixaram marcas, hein?
Quando ela retornou ao castelo, era visível como se sentia abatida, no entanto, pela manhã, já exibia sua expressão alegre de sempre... Bem, não era uma expressão facial, e sim suas orelhas eretas, como se estivesse de bom humor. Depois que Nephy pousou o bule, Zagan pegou a xícara e começou apreciando o aroma.
— Hmm, um aroma agradável. Vejo que o chá de hoje está ainda mais delicioso.
— Seus elogios me trazem imensa alegria, Mestre Zagan.
Parecia que seu humor havia melhorado graças ao aroma do chá, que estava mais intenso do que o habitual. Enquanto Zagan sorria, Barbatos levantou a voz em tom de reprovação.
— Olha, por mais que eu esteja surpreso aqui, por que diabos vocês estão apenas tomando chá como se não fosse nada?
— Cala a boca, Barbatos. Por que devo reagir toda vez que um desgraçado como você se surpreende com alguma coisa?
— Escuta, tudo bem não me oferecer hospitalidade, entretanto será que pode pelo menos me tratar como um ser humano aqui?
Coçando a cabeça como se aquilo fosse apenas algo cansativo, Zagan devolveu a xícara de chá ao pires.
— Então, por que está tão surpreso? — Zagan perguntou em resposta, o que fez Barbatos murmurar algumas palavras com uma expressão de espanto.
— Bem, você sabe... Quando se fala em baile noturno... É aquele tipo, certo? Um baile de feiticeiros, não é?
— O convite vem de um rei entre os feiticeiros; o que mais poderia ser?
Um baile noturno também poderia significar, tipicamente, uma reunião da alta sociedade de nobres. Não é que não entendesse a sua vontade de confirmar do que se tratava, todavia sendo organizado por um feiticeiro era difícil imaginar qualquer outra possibilidade que não fosse um baile de feiticeiros. Algo como um baile de nobres não fazia o menor sentido para feiticeiros, que sequer se interessariam por tais eventos.
Barbatos então balançou a cabeça, com uma expressão que demonstrava certo incômodo diante da falta de compreensão de Zagan.
— Quer dizer... Será que um Arquidemônio daria um baile...?
Sim, esse fato também intrigava Zagan.
Se um Arquidemônio deseja algo, basta ordenar que isso aconteça.
Arquidemônios eram arrogantes e poderosos, o auge absoluto entre os feiticeiros. Visto que um baile era um local para feiticeiros trocarem conhecimentos e recursos, tratava-se também de uma reunião de fracos. Por que um Arquidemônio apareceria ali, muito menos organizaria um evento desses?
Bem, imagino que esteja sendo realizado para armar uma cilada.
Barbatos então soltou um bufo.
— Bom, essa história é bem suspeita, certo? Deixe este sábio lhe dar um aviso... Há de oitenta a noventa por cento de chance de ser uma armadilha. Cuidado.
— Longe de oitenta por cento, na minha opinião. É um óbvio cem por cento, não é? Que diabos está dizendo? — Zagan fez uma cara de exasperação, e Barbatos ficou sem palavras.
Talvez por achar Barbatos uma figura lamentável, numa atitude incomum, Foll disse algumas palavras de consolo.
— Zagan, o faz-tudo não é muito inteligente. É melhor falar de um jeito mais gentil.
— Bem, acho que é verdade. Foi mal, Barbatos. Falei de forma muito dura.
— Droga, não fiquem tirando sarro de mim, seus idiotas! E quem diabos é faz-tudo, sua pirralha?
Enquanto Barbatos começava a se irritar, Foll fez uma cara de desagrado e puxou o prato de doces para perto de si.
— Um feiticeiro de quinta categoria que vem aqui só pelos petiscos da Nephy não deveria se achar tanto. Além do mais, em termos de idade, eu vivi três vezes mais que você, faz-tudo.
— Digo o mesmo, pirralha. Por que está sendo tão condescendente?
— Barbatos, você é quem deveria cuidar da sua maldita língua. Chamar minha filha de pirralha é motivo mais do que suficiente para eu te matar, sabia?
Enquanto Zagan o afastava friamente, Barbatos baixou a cabeça como se estivesse com dor de cabeça.
— Como posso dizer, Zagan... Você não está mimando essa garota demais?
— O quê...? Como exatamente estou mimando-a?
— De que diabos está falando? Ela está comendo doces no seu colo mesmo com uma visita aqui!
Com um “hmm”, Zagan olhou para o próprio colo. Foll estivera sentada no colo de Zagan durante toda a conversa com Barbatos. Enquanto o encarava, Foll recostou-se, colando as costas em Zagan, e inclinou a cabeça para o lado com um ar manhoso, como se perguntasse, “Não posso?”. É claro que não havia como não poder. E Zagan afirmou isso como se não tivesse a menor dúvida a respeito.
— Você é o desgraçado que invadiu o lugar enquanto eu tomava meu chá. Não entendo por que eu afastaria minha filha só para ouvir sua tagarelice...
Para começar, Zagan nunca considerou Barbatos uma visita. Desde que Foll se tornou sua filha adotiva, tornou-se rotina diária fazerem um lanche juntos assim, depois do almoço. Era o momento do dia em que Zagan deixava suas pesquisas de lado para que pudessem aproveitar um tempo de qualidade juntos.
Na noite anterior, o fato de Zagan ter colocado Nephy no colo e não a ter deixado sair acabou chegando aos ouvidos de Foll; seguindo essa lógica, hoje era a garota quem estava sentada no seu colo.
— Não, já chega.
Enquanto as sombras ao redor de seus olhos se aprofundavam, Barbatos soltou um suspiro.
— Então, pretende aceitar o convite daquele Arquidemônio?
— Depois de tudo se deram o trabalho de me enviar um convite bem ridículo. Não sou tão tolerante a ponto de só ignorá-lo. — disse Zagan, lançando um olhar carrancudo para Barbatos. Então, continuou. — E do que se trata? Não veio até aqui só para latir reclamações inúteis no meu ouvido, veio?
Ao ouvir Zagan ir direto ao ponto, Barbatos abriu um sorriso largo.
— Kehehe, escute, aquela elfa ali foi atacada por um feiticeiro em Kianoides ontem, sendo assim pensei que talvez quisesse algumas informações...
— Urgh! — Zagan sabia que sua raiva estava estampada no rosto.
Não sei quem diabos foi, mas vou fazer com que se arrependam de ter nascido, mesmo que leve centenas de anos!
Ele não achava possível que o Arquidemônio tivesse lhe entregue o convite, porém, mesmo que fosse o caso, Zagan não hesitaria. Então abriu um sorriso enquanto seus olhos se injetavam de sangue.
— Fale. Se a informação for útil para mim, darei a recompensa que quiser.
— Ah, agora sim estamos nos entendendo... Hã? Eeek! — Barbatos soltou um grito agudo enquanto recuava de maneira brusca.
Ao olhar em volta, Zagan percebeu que Foll havia ativado vários círculos mágicos e estava prestes a desferir um ataque. Então, acariciou a cabeça de Foll para acalmá-la.
— Calma, calma. Sei que não gosta da cara desse sujeito, contudo não vá matá-lo de repente.
— O que há de errado com a minha cara?
Depois que Zagan a repreendeu, Foll desfez os círculos mágicos por enquanto, no entanto continuou rosnando ameaçadoramente para Barbatos. Era incomum ver Foll demonstrar tamanha agressividade; por essa razão, Zagan cruzou os braços e refletiu sobre o assunto.
Assim como ontem com Nephy, ela não quer que ouça sobre o ocorrido... Será que é isso que significa?
Seu olhar se dirigiu para Nephy, que não estava reagindo de forma tão intensa quanto no outro dia, entretanto percebeu que sua mão apertava com força a saia por baixo da mesa. Parecia que precisava de mais um tempo antes de conseguir se abrir sobre o assunto.
Talvez Nephy estivesse agindo dessa forma por ter sido a primeira a notar a reação de Foll, ou talvez houvesse algum outro motivo específico. De qualquer forma, Zagan queria respeitar a vontade de sua filha. Portanto, cedendo, acariciou a cabeça de Foll mais uma vez.
— Entendido. Vou esperar até que Nephy fale sobre, então não fique tão brava.
Foll levantou o olhar e o encarou com surpresa ao ouvir a decisão que tomara. Nephy também o encarou surpresa por um breve instante, todavia logo baixou o olhar, com timidez. Sem dúvida não se tratava apenas da imaginação de Zagan... As orelhas dela tremiam de leve, em um sinal de felicidade. Foll então murmurou, como se achasse aquilo estranho.
— Zagan, você realmente consegue ler mentes?
— Quem sabe.
Zagan respondeu dando de ombros e depois falou com Barbatos.
— É assim que as coisas são. Não preciso das suas informações desta vez.
— Tem certeza? Estou certo de que vai se arrepender se não levar essa situação a sério.
— Como se eu me importasse.
Porém, parecia que Barbatos não estava fazendo aquilo apenas em busca de uma recompensa.
Algo ruim poderia acabar acontecendo, não é...? Apesar da possibilidade, Zagan disse que esperaria. Nesse caso, não investigaria mais a fundo. Provaria que conseguia proteger tudo, independente da situação. Essa era a imagem de um Arquidemônio em que Zagan acreditava.
Mesmo assim, Barbatos insistiu, como se dissesse que não havia mais como voltar atrás.
— Não, veja bem...
— Zagan, aquele faz-tudo parece ter a língua solta. É melhor acabar com ele.
— Sua pirralha, você não dá valor à vida humana?
Logo você falando isso... Aquele era justamente o homem que havia aproveitado o caos da morte do Arquidemônio Marchosias para sequestrar jovens e usá-las em rituais de sacrifício. Tratar a vida como algo precioso depois de tudo aquilo parecia hipocrisia demais.
Deixando isto de lado, restava apenas um doce sobre a mesa. Zagan havia aprendido que o nome daquilo era macaron. Era um doce com textura crocante, semelhante à de um biscoito, mas que trazia creme em seu interior. Sua aparência multicolorida conferia-lhe um visual deslumbrante, contudo, mais do que isso, sua doçura intensa combinava perfeitamente com chá; portanto era um dos doces de que Zagan mais gostava. Ao ver a mão da garota parar antes de alcançar os doces, Zagan inclinou a cabeça para o lado.
— Foll, ainda sobrou um, sabia?
— Aquele é do Zagan.
Era provável que ela quisesse comer todos sozinha, no entanto deixou o último de lado. Foll olhava para o macaron com relutância. Sentindo um estranho encanto com aquela cena, Zagan pegou o último doce e deu uma mordida.
— Hmm... Os doces de hoje estão em um nível mais deliciosos do que o normal, não é?
Foll assentiu com a cabeça, fazendo suas tranças verdes balançarem.
— A Nephy... Parecia estar de bom humor desde cedo. Deve ser... Por causa daquilo.
— F-Foll!
— Ficar no seu colo é bom, entretanto acho que tem mais. Zagan, você fez mais alguma coisa?
— Hã...? Não, não sei bem do que está falando.
A única coisa que lhe veio à mente foi como a colocou no colo e a deixou envergonhada. Embora aquilo tenha dado errado de várias maneiras...
Zagan olhou de relance para ver a reação de Nephy e notou que sua boca abria e fechava enquanto suas mãos vagavam pelo ar. Parecia que havia perdido a compostura devido ao constrangimento.
Wow... Que fofa!
Pela sua reação, ele percebeu que o comentário de Foll tinha acertado em cheio.
Não sei o que causou esse efeito, mas imagino deva ser o motivo pelo qual se dedicou tanto ao preparar os doces e o chá... E essa garota, que se esforçava tanto em coisas tão simples, era adorável demais.
Foll então desceu do colo de Zagan.
— Já está na hora de devolver o colo do Zagan para a Nephy.
— Não é como se eu quisesse muito sentar no colo do Mestre Zagan de novo, sabe? — Nephy estufou as bochechas, e Zagan deu tapinhas visíveis no colo, convidando-a.
— Você não quer?
— Mestre Zagan, isso é maldade. — Nephy pareceu vacilar por um instante, porém logo se lembrou de que Barbatos estava ali. Por um instante, chegou a se levantar, contudo balançou a cabeça.
Se Barbatos não estivesse ali, Nephy talvez tivesse se sentado no seu colo. Não, com certeza teria. Havia momentos em que ele cometia uma espécie de “crime de consciência” ao falhar miseravelmente tanto nas palavras quanto nas atitudes; no entanto, mesmo quando Zagan fazia exigências exageradas e irracionais, Nephy sempre se esforçava ao máximo para atender às suas expectativas no final.
Ah, maldição, será que aquele idiota do Barbatos não vai embora nunca...? Se aquele homem não estivesse ali, Zagan poderia ver Nephy mais uma vez debatendo-se em seu conflito interno com a sensação de conforto que sentia ao estar em seu colo. Enquanto lançava um olhar carregado de sede de sangue para Barbatos... Sem motivo aparente... Zagan jogou o último pedaço de macaron na boca e se levantou.
— Bom, tenho coisas a resolver. Já está na hora de irmos, Nephy.
— Certo.
Parecendo aliviada, embora de certa forma decepcionada, Nephy sentiu as pontas das orelhas tremularem ao se levantar. Na verdade, queria insistir até que a paciência de Nephy se esgotasse e ela se sentasse em seu colo, entretanto, para grande infelicidade de Zagan, já tinha planos para o dia.
Barbatos, por sua vez, franziu a testa ao ouvir aquelas palavras.
— Então, o quê? Tem que fazer preparativos para o baile noturno ou coisa do tipo?
— É por aí.
Enquanto Barbatos fazia uma cara de confusão, Zagan tirou a carta de convite para o baile noturno.
— O convite diz para levar a Chastille também.
Não havia necessidade particular de seguir essa petição com uma honestidade tola, todavia o oponente era um Arquidemônio. Mesmo que Zagan não a levasse, era provável que ela fosse forçada a participar do baile contra a sua vontade.
Afinal, aquela garota já é desajeitada até nas melhores situações...
Se não conversassem a respeito, já conseguia imaginá-la à beira das lágrimas diante de um Arquidemônio. Sendo honesto, sentia que não tinha um motivo real para a cuidar até esse ponto, mas, no fim das contas, toda aquela situação era culpa sua. Ignorá-la deixaria um gosto amargo em sua boca. Além do mais, havia o fato de que era uma amiga de Nephy, e Zagan também não a odiava. Portanto planejava ir vê-la junto com Nephy. Ao ouvir o nome de Chastille, Barbatos fez uma cara de quem estava achando aquilo um incômodo.
— Agora que tocou no assunto, por quanto tempo mais tenho que ficar cuidando daquela mulher?
Em resposta, Zagan olhou para Barbatos com surpresa.
Ah, agora que penso nisso, nunca estipulei um prazo, não é? Cerca de um mês atrás, a vida de Chastille estava sendo ameaçada por alguém dentro da Igreja. Naquela época, Zagan ordenou que Barbatos a protegesse durante o desenrolar dos acontecimentos. Um mês inteiro havia se passado desde então, mas parecia que aquele homem continuava protegendo Chastille fielmente a sua palavra. Após refletir um pouco, Zagan inclinou a cabeça para o lado com uma expressão serena.
— Eu disse que haveria um limite de tempo?
— Ugh... Merda, achei que estava sendo generoso demais. Era uma armadilha, droga, fui enganado. — resmungando, Barbatos de repente se lembrou de algo e continuou. — Aliás, por que ela foi convidada, afinal?
— Todos os habitantes do meu castelo, incluindo aqueles que serviram por pouco tempo, foram convidados. Talvez tenham planejado chamar todos que têm alguma ligação comigo.
Após Zagan responder dessa forma, por algum motivo, Barbatos deu um sorriso malicioso enquanto jogava para trás o cabelo despenteado.
— Haaah... Entendo. Bem, acho que não é uma sensação nada ruim ter um Arquidemônio demonstrando respeito por mim. Se é assim, vou com vocês também.
— O quê...? O seu nome não estava na lista.
— Espera, sério? Por que não?
— Como se eu me importasse.
E, dessa vez, Barbatos caiu no choro.
Esse cara é um tremendo pé no saco.
Contudo, mesmo desanimado, Barbatos continuava convencido.
— Não, espera um pouco... Se todos vocês, idiotas, foram convidados para o baile noturno, não significa que este castelo e o Palácio do Arquidemônio ficarão vazios?
Palácio do Arquidemônio era o nome do castelo do Arquidemônio Marchosias. Sua administração ficava basicamente a cargo de Rafael e Foll; embora Foll voltasse sempre que chegava a hora de comer, ela passava o dia lá fazendo investigações. Hoje também, enquanto Zagan e Nephy iam visitar a cidade, Foll planejava ir para o Palácio do Arquidemônio.
Zagan então assentiu, como se não fosse nada demais.
— Pois é, é assim mesmo.
— Isto é bem descuidado da sua parte, não acha? Enquanto estiver fora, por que não deixa esta humilde pessoa aqui dar uma olhadinha rápida?
— Zagan, como eu imaginava, seria melhor acabar logo com essa coisa. — declarou Foll em um tom de voz frio.
E, com uma veia saltando na testa de raiva, Barbatos retrucou.
— Sua pirralha maldita... Argh, quem decide é o Zagan. E aí, cara?
— Deixe-me pensar... Para mim, tanto faz.
Foll lançou um olhar de reprovação para Zagan ao ouvir suas palavras.
— Zagan, você está mimando demais esse faz-tudo. Esse sujeito planeja roubar o Palácio do Arquidemônio.
— Não precisa se preocupar. Configurei tudo para que, se um intruso tentar levar algo embora, sofra uma punição adequada.
— Uma punição adequada...? — Foll inclinou a cabeça para o lado, intrigada, no entanto Barbatos resmungou, opondo-se veementemente às palavras que ouvira.
— Seu desgraçado, então foi obra sua? Eu escapei por pouco da morte na última vez que tentei tirar um grimorio escondido!
— Hã? Então não te matou...?
— Por que está tão decepcionado?
Aquilo fora criado de modo que, se algum pertence fosse retirado do Palácio do Arquidemônio sem o consentimento de Zagan, uma feitiçaria seria ativada... Uma feitiçaria capaz de matar até mesmo um candidato a Arquidemônio.
Já que esse sujeito não morreu, será que devo deixar a armadilha um pouco mais potente?
Como era de se esperar, ele havia falhado em roubar o grimorio, todavia aquele homem certamente não aprenderia a lição e tentaria de novo. Nesse caso, a armadilha atual não teria utilidade alguma. Foll pareceu assustada com algo, e Zagan, mais uma vez, deu um tapinha carinhoso na cabeça dela.
— Não se preocupe, configurei para que não reaja a você nem ao Rafael.
— Zagan, você é tão habilidoso.
Ao ouvir a voz de admiração da garota, Zagan inclinou a cabeça para o lado.
— Fazer pelo menos isso não é o normal?
Se não houvesse pelo menos uma distinção sobre quem seria o alvo da ativação, todos os subordinados ou familiares acabariam sendo atingidos pelo mecanismo de defesa. Entretanto, Barbatos concordava com Foll.
— Não tem como isso ser normal, né? Já é difícil o suficiente fazer um feitiço capaz de distinguir você de qualquer outra pessoa, droga.
— Mas, nesse caso, a Nephy e a Foll acabariam sendo atingidas.
— Acha que existe algum feiticeiro por aí que daria a mínima para uma coisa dessas?
Agora que mencionava, a maioria dos feiticeiros só pensava em si mesmo. Era verdade que não havia necessidade de uma feitiçaria tão seletiva quanto aos seus alvos.
Não havia a menor chance de permitir que minha própria feitiçaria ferisse a Nephy... A primeira coisa que fez depois que Nephy chegou ao seu castelo foi modificar todas as armadilhas. Na época, não havia pensado muito a fundo em toda a situação, porém, relembrando agora, nunca tinha visto aquele tipo de feitiçaria em lugar nenhum. Parecia ser também uma criação original de Zagan.
Zagan então soltou um bufo desdenhoso.
— Não deu tanto trabalho assim. Sem falar que não posso me chamar de Arquidemônio se não for capaz de fazer um truque desse nível, certo?
— Tá, tá... — Barbatos levantou-se de seu assento com uma expressão desconcertada enquanto respondia. Então, usou feitiçaria para espalhar uma sombra aos seus pés e começou a afundar nela, contudo, bem no final, murmurou algo de repente, como se aquilo tivesse acabado de lhe ocorrer.
— Oops, é verdade. Me deixe conferir só por garantia, tudo bem não falar nada mesmo?
Quando Zagan estava prestes a repreendê-lo, percebeu que Barbatos não olhava em sua direção, e sim para Nephy. Nephy mostrou leves sinais de hesitação, no entanto ainda assentiu em concordância.
— Haaah... Que perda de tempo. Que estupidez. — e, enquanto praguejava para si mesmo, Barbatos desapareceu na sombra e foi embora.
Depois de vê-lo partir, Nephy apertou o peito com força.
— O Lorde Barbatos... Também é gentil de certa forma, não é?
— Hã? A gente não estava justamente discutindo se devia acabar com ele ou não?
— Mestre Zagan, o Lorde Barbatos é um amigo... Né? — Nephy murmurou, parecendo não ter tanta certeza, e Zagan inclinou a cabeça para o lado, como se a reação dela fosse totalmente inesperada.
— Não? Eu não o vejo bem assim...
— É-É mesmo...
Ainda um tanto surpresa, as orelhas de Nephy caíram e depois se agitaram de um jeito que demonstrava satisfação.
Barbatos era irritante, no entanto Zagan ficou satisfeito ao ver Nephy de bom humor.
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