domingo, 26 de julho de 2026

Vampire Hunter D — Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 26

Volume 04: Tale of the Dead Town Capítulo 26: Terra dos Mortos

Parte 1


Faíscas e ondas eletromagnéticas disparavam pela abertura recém-cortada; a máquina parou e, no mesmo instante, Lori se lançou sobre o médico. Esfregando-se contra o corpo dele, apagou o fogo que ainda fumegava. Soltando apenas uma fumaça azulada agora, o Dr. Tsurugi gemeu. Acima dela, a garota percebeu um movimento. Lori ergueu o olhar e moveu os lábios.

“Depressa!” articulou sem som. “Temos que levá-lo até a enfermeira logo!”

— Deixe-me examiná-lo primeiro. — disse D com calma e, afastando Lori, retirou o jaleco do médico.

— Estou bem! — disse o Dr. Tsurugi, despenteado, enquanto puxava os próprios cabelos. — Não é uma queimadura grave. Consigo andar sozinho. Por favor, deixe-me em paz.

D levantou-se. Apesar do tom áspero do outro homem, o Caçador não parecia estar irritado. Sem voltar a olhar para o médico, seus olhos fitaram Lori.

Uma tempestade avassaladora de medo e autodepreciação fervilhava nos olhos da garota.

Nem sequer tentei ajudar o médico... Eu só... Peguei a arma...

— Muito bem. — disse D com sobriedade. É claro que Lori não fazia ideia de quão milagroso era ouvir aquelas palavras vindas dele. — Se você não tivesse feito aquele disparo, a máquina provavelmente teria matado os dois. Você sabia que as queimaduras do médico não eram tão graves.

Mas eu...

— E, ao atirar, ainda se colocou na frente do médico... — continuou o Caçador. — Pouca gente teria feito isso.

Os olhos da garota brilhavam. Somente depois que D disse aquelas palavras é que se deu conta do que havia feito.

— É verdade! — disse o médico, enquanto a mão vasculhava os restos deploráveis ​​de seu cabelo. — Se tivesse se preocupado comigo, nós dois estaríamos indo para o outro mundo agora. Devo minha vida a você. Pois bem... Guie o caminho. Minha enfermeira não tem servido para nada desde a tempestade magnética. Desta vez, será a minha vez de ser examinado.

Lori assentiu. A garota sabia que precisavam dela naquele momento.

Foi então que notaram a ausência de D. Poucos minutos depois, este reapareceu vindo da porta da sala de controle.

— O que aconteceu com o xerife e seus homens?

D apenas balançou a cabeça.

— Que diabo era aquela coisa? — murmurou o médico, com a voz carregada de raiva.

Em resposta, D limitou-se a dizer.

— Um sistema de defesa interno do navio, sem dúvida. Parece ser a única coisa em movimento. A tripulação morreu há três anos.

— Como sabe disso?

D tirou de seu sobretudo o diário de bordo amarelado do navio. Depois que o médico passou os olhos pela última página, matizes indescritíveis de terror e desespero tomaram conta de seu rosto... Uma expressão que não desapareceu por muito tempo.

A tripulação daquele navio pirata estava exausta de suas viagens sem rumo. Embora navegassem livres pelos céus, as cidades flutuantes e as embarcações carregadas de mercadorias que serviam de presa eram raras. Além do mais, quando enfim tinham a chance de entrar em ação, todos os seus oponentes já haviam instalado armamento pesado ou adquirido radares tridimensionais e motores mais potentes, tornando o combate ou a fuga as únicas soluções viáveis. O número de alvos que um navio pirata podia perseguir havia diminuído drasticamente. A apatia e o tédio começaram a dominar o navio e, em pouco tempo, muitos tripulantes tiraram a própria vida, enquanto os demais começaram a matar uns aos outros para espantar o tédio ou adoeceram e morreram. Porém os motores iônicos do próprio navio continuavam funcionando, e poderiam continuar assim até o fim dos tempos. Transportando apenas uma carga de cadáveres, prosseguia em sua viagem pelos mares infinitos do medo.

— E a pessoa que escreveu este diário?

— Estava em sua cabine. — disse D. — Com um tiro na testa.

— Nesse caso, quem diabos disparou aqueles mísseis?

— O computador deve ter sido programado para fazê-lo. Alguém ordenou que continuasse saqueando mesmo depois de todos estarem mortos.

O médico balançou a cabeça em sinal de repulsa. Olhando para D, perguntou.

— E nada disso te incomoda? Há carnificina por toda parte, e sua expressão diz que não sente absolutamente nada. O que é preciso para quebrar esse seu rosto bonito? O que poderia te fazer chorar? Ou te fazer rir?

— Já vi coisas demais. — disse D, sem demonstrar emoção.

— Mesmo assim... — começou o médico, contudo uma luz misteriosa surgiu em seu olhar. — Certo, entendo a questão dos mísseis. E quanto as passarelas que foram lançadas depois que eles atracaram ao nosso lado? Quer dizer que também estava programado nos computadores?

— Não sei.

— Entendo. No entanto...

— Vamos.

D ​​virou-se. Quando o médico estava prestes a pedir que esperasse, ouviu um gemido grave sob seus pés. O navio estava começando a se mover.

— Que diabos...

— Está partindo para outra jornada. Uma nova viagem de pilhagem. — a voz de D foi se perdendo à distância.

Os outros dois seguiram atrás. Todo o navio estava envolta em uma atmosfera sinistra que desafiava a imaginação. Assim que os três terminaram de atravessar a passarela, o navio pirata começou a se afastar gradualmente da cidade.

— Para onde acha que vai agora? — perguntou o Dr. Tsurugi.

Lori olhou para D. A mesma pergunta pairava em seus olhos inocentes.

Ambos já haviam percebido algo... O destino sombrio que pairava sobre o navio pirata. Em algum lugar ali dentro, algo ainda sobrevivia, a vontade da tripulação que, exausta e entediada a ponto de matar os próprios companheiros, acabara programando o computador com ordens de destruição e pilhagem indiscriminadas antes de desaparecer. O navio partiria para outra viagem. Sem destino, era conduzido por uma mão invisível em uma jornada aterrorizante de puro assassinato e saque.

D e seus companheiros observaram a silhueta do navio diminuindo ao longe por um tempo que pareceu uma eternidade.

— O prefeito não está por perto, está? — disse D.

— Deve estar em casa. Apesar de que é meio estranho. A menos que houvesse circunstâncias extraordinárias, ele não é do tipo que ficaria de braços cruzados numa situação dessas...

— Você deveria levar a Lori de volta ao hospital. E não se esqueça de levar aquelas armas. Deveria acompanhá-la.

O médico examinou os arredores, com um olhar visivelmente abalado. Se um homem que não corria sem um bom motivo havia fugido em disparada, só podia haver uma explicação... Alguma coisa grave havia acontecido. Segurando a mão de Lori, enquanto a garota se perguntava o que estava acontecendo, o Dr. Tsurugi caminhou em direção ao hospital.



D dirigiu-se direto à casa do prefeito. A filha de Ming saiu e informou ao Caçador que seu pai estava na sala de controle. Sem sequer notar o olhar intenso e carregado que a jovem mantinha fixo nele, D deu meia-volta e seguiu.

Enquanto a cidade mergulhava em uma tarde tranquila, uma atmosfera antinatural pairava sobre tudo. Apenas D compreendia. Só ele percebia a semelhança entre o clima da cidade e a atmosfera sinistra que envolvia o navio pirata.

Ao entrar pela porta da sala de controle, uma silhueta sombria bloqueou seu campo de visão. Usando apenas a mão esquerda, D agarrou o homem que vinha voando em sua direção como se fosse um boneco de pano. Era um dos funcionários da sala de controle. Sua mandíbula inferior havia sido arrancada, e manchas de sangue cobriam seu peito como um avental. Seus olhos haviam revirado. O medo e o choque extremo haviam parado seu coração. Era obra de um monstro, algo além da compreensão humana.

Depositando o cadáver com cuidado no chão, D voltou o olhar para o responsável. Armado, o prefeito estava paralisado. À sua frente, havia outro funcionário. Vários corpos jaziam aos pés desse homem. Todos apresentavam olhos esbugalhados e pele pálida como parafina. Não era preciso ver o ferimento na base de cada pescoço.

O funcionário virou-se para o Caçador. Aparentava ter cerca de quarenta anos. De acordo com a lista que o prefeito entregara a D, seu nome era Gertz Diason.

— Cuidado, D! É um vampiro! — gritou o prefeito.

O funcionário abriu a boca, revelando um par de presas brancas como a neve. Descartando a mandíbula inferior ensanguentada que segurava, este caminhou lentamente em direção a D. Sabia quem era o verdadeiro inimigo. Seus pés pararam de se mover. Se o vampiro sabia quem era seu adversário, também conhecia a extensão do seu poder. O medo deixava uma marca evidente em seu rosto cruel.

— Quando ele começou a agir de forma estranha? — perguntou D. Seu tom era tão tranquilo diante daquele oponente pavoroso que parecia inacreditável.

— Está assim desde que voltou, há pouco tempo. — respondeu o prefeito. Ele também mantinha certa compostura. E não apenas porque D estava ali. — Umas três horas atrás, deixaram-no ir para casa tirar uma soneca. Depois que voltou para a sala de controle, parece que atacou o sujeito mais próximo. Quando um segundo homem caiu, um dos trabalhadores veio me chamar.

— Qual é o destino desta cidade? — perguntou D, mudando completamente o rumo da conversa.

O inimigo rosnou. Cortando o ar, atacou D. Foi uma tentativa mal planejada. Ao passar pela silhueta sombria de D, ficou claro que o Caçador empunhava sua espada longa. A lâmina penetrou fundo no peito da criatura e, enquanto a ameaça caía, o prefeito deixou os ombros relaxarem.

— Este é o resultado dos experimentos dos Knights? — perguntou D em voz baixa. — Era isto que você queria obter? É essa a paz que idealizou?

— Pare com isso! — gritou o prefeito. — Os Knights tiveram sucesso em seus experimentos, eu lhe garanto. Bem naquela casa. Eu sei. O que eles produziram era perfeito. Foi por essa razão que quis o método deles! Porque meus próprios esforços resultaram em algo imperfeito.

— Você manteve viva a criatura que criou e a escondeu em algum lugar. Preservou o fracasso resultante de seus experimentos, enquanto os Knights haviam obtido sucesso.

Um silêncio aterrorizante se instalou. Foi D quem criou aquele silêncio, e foi D quem o quebrou.

— O que esperava alcançar transformando os habitantes da sua cidade em vampiros? Queria criar viajantes eternos?

O pomo de Adão do prefeito movia-se freneticamente.



Parte 2

Antes de retornarem ao hospital, Lori percebeu que uma atmosfera sinistra envolvia a cidade. Sentia que alguém os observava... Através da fechadura de uma porta fechada, pela fresta de uma persiana ou da entrada de um beco. Lori chegou a pensar em segurar o braço do Dr. Tsurugi, contudo mudou de ideia. Era ele quem estava ferido ali. Não se tratava de quem era homem ou mulher. Talvez não pudesse ouvir ou falar, no entanto os fortes ainda tinham o dever de cuidar dos fracos. E nem a força nem a fraqueza tinham qualquer relação com a condição física de alguém.

Entretanto, o caminho de volta ao hospital transcorreu sem incidentes. Embora o médico chamasse pela enfermeira, não houve resposta.

— Parece que ela foi embora. — murmurou o doutor, contrariado. Então, deixando-se cair em uma cadeira bamba, pegou rapidamente um bloco de notas e o entregou a Lori.

“Fique no hospital. Você não deve sair. E não se esqueça da espingarda.”

Lori escreveu uma resposta.

“Tudo bem, mas você precisa ser tratado primeiro. Onde está o remédio?”

“Guardado com os outros medicamentos na sala ao lado. Terá que aplicá-lo em mim.”

Acenando com a cabeça, Lori se endireitou. Seu corpo transbordava vitalidade. Era a alegria da realização. Apoiando a espingarda na parede, saiu apressada da sala de exames.

Para um hospital que parecia tão apertado, o depósito de medicamentos era enorme. Aquele cômodo guardava a chave para a sobrevivência de toda a cidade. Lori sabia o nome do remédio de que precisava... Afinal, era filha de dois químicos. Os diversos medicamentos estavam organizados de acordo com sua finalidade. Os frascos que procurava estavam guardados ao lado dos adesivos de pele artificial, na estante mais distante, uma prateleira abaixo dos ácidos. Pegando dois frascos e uma porção de adesivos de pele, Lori se virou.

Uma mulher de branco estava parada diante dela. Era a enfermeira. Seus olhos estavam estranhamente vermelhos, como se estivesse com raiva.

“Sinto muito!” Lori articulou com os lábios. Como enfermeira, a outra mulher deveria estar acostumada com coisas assim.

Os lábios da mulher se contorceram devagar, formando um sorriso. Dos cantos da boca, presas despontaram.

Lori paralisou onde estava.

Os dedos grossos da enfermeira agarraram os ombros frágeis da garota. Lábios que liberavam os ventos do inferno subiram aos poucos pelo seu pescoço.

“Socorro!” gritou Lori. Porém nenhuma voz soou. É claro que não sairia. Embora a garota lutasse com todas as suas forças, as mãos do vampiro não se moviam. “Socorro!” gritou Lori, sem desistir. “Socorro! Por favor! Alguém, me ajude!”

Eram gritos que ninguém podia ouvir. A voz do desespero, frágil e inútil. Lori enfim percebeu que estava verdadeiramente isolada. Abandonada em um mundo onde buscava ajuda, no entanto ninguém vinha. Ela era sua única habitante. O significado do nascer do sol que havia contemplado com D foi varrido junto com todo o resto. O medo do desconhecido tomou conta da mente da garota.

Quando a enfermeira pressionou os lábios contra a nuca de Lori, a garota estendeu a mão esquerda e agarrou um frasco na prateleira acima. Golpeando contra o rosto da mulher com toda a força, o frasco se estilhaçou. Uma fumaça branca envolveu a face odiosa daquela criatura. A enfermeira cambaleou para trás.

O ácido havia entrado em seus olhos.

Afastando a enfermeira do caminho, Lori correu. Uma mão gelada como o gelo agarrou seu tornozelo. O frio se espalhou por seu corpo, e Lori ficou paralisada. Houve um puxão forte em sua perna, arrastando-a de volta para a criatura caída. Outro puxão. Seu corpo deslizou pelo chão. Algo pesado subiu em suas costas, e Lori tentou gritar.

Ninguém veio. As portas estavam fechadas. Algo tão insignificante quanto o som de um frasco de vidro quebrando não chegaria à sala de exames.

Lori estava mergulhada no desespero. Então, a pressão de alguém sentado em suas costas desapareceu de repente. Algo negro escorria pela fresta da porta. À medida que a escuridão assumia uma forma humana, Lori ergueu o olhar para ela com os olhos marejados.

“Como você tem passado?” disse uma voz alegre em sua cabeça. Hoje, soava terrivelmente ousada.

“Consegue me entender, não é? Entende o que estou dizendo.” pensou Lori em resposta. “Por favor, você precisa me ajudar!”

“Deixe comigo.” concordou a voz se prontificando.

A enfermeira se levantou. Ela ardia com um impulso demoníaco de lutar contra esse novo inimigo. Ao estender as mãos diante do peito, seus dedos estavam abertos em forma de garras. Como um animal, a enfermeira avançou, entretanto a sombra negra atravessou seu corpo. Um semicírculo negro projetou-se do peito branco de seu uniforme. A enfermeira desabou no chão.

Em pouco tempo, o semicírculo havia desaparecido. Lori nem conseguia imaginar que tipo de propriedades físicas aquela arma devia possuir.

“Que tal? É isto que acontece quando um ou dois monstros cruzam o meu caminho. Quer aprender a fazer essas coisas também?”

“Quero!” pensou Lori, desejando com todo o seu coração. Telepatia, uma maneira de falar sem usar palavras. Um disco voador capaz de matar um servo da Nobreza sanguinária com um único golpe. Lori precisava ter essas coisas.

“Então, devemos ser capazes de fazer algo aqui. Preciso lhe pedir um favor, se não se importar.”

“É só dizer. Farei o que quiser.”

Os pensamentos febris e trêmulos de Lori foram sobrepostos pela risada fria de um homem. Bem, é o seguinte...



Um tipo especial de morte percorria a cidade. Pouco antes, havia visitado uma casa e, após um encontro de apenas alguns segundos, todos os cinco membros da família caíram pesadamente no chão. Não conseguiu beber o sangue deles, e aquilo a desagradou. Mas estava destinada a não beber o sangue de seus semelhantes. Poderia até se dizer que desempenhava o mesmo papel que um tipo de germe infeccioso.

De cada centímetro seu emanava o que poderia ser chamado de bactérias vampíricas. As bactérias penetravam nas pessoas azaradas através da pele e migravam para as células musculares, chegando até a medula óssea. E então, algo novo nascia. A energia sinistra da noite brotava da medula óssea, e os músculos tornavam-se dez vezes mais fortes. Não importava o dano sofrido pelas células da pele; elas se regeneravam em poucos segundos. Superando a humanidade em todos os aspectos e, ao mesmo tempo, aterrorizando-a em todos os sentidos. Tudo por causa da sede de sangue...

Menos de cinco minutos após a partida do visitante, os membros da família despertaram. Sentiram a fome. E havia também outro impulso poderoso. Precisavam criar mais seres da sua espécie.

Haviam sido feitos para evitar competir uns com os outros.

Mais da nossa espécie... Criar mais da nossa espécie...

E então a família deixou sua casa para trás, cada membro seguindo seu próprio caminho para cumprir seu dever comum.



Quando D chegou ao hospital procurando por Lori, ouviu do Dr. Tsurugi, mortalmente pálido, que a garota havia sido atacada pela enfermeira vampira. O Caçador pareceu ter apenas um leve interesse no incidente.

— Ela está bem? — perguntou.

— Mais ou menos. — respondeu o Dr. Tsurugi.

E foi o fim.

Segurando um bloco de notas e uma caneta eletromagnética em suas mãos delicadas, Lori escreveu... “O que posso fazer por você?”

Os lábios bem formados de D começaram a se mover.

— Quero que vá para sua antiga casa.

“Por quê?”

— Seus pais esconderam certas fórmulas químicas e matemáticas em algum lugar da casa antes de fugirem. Se não nos livrarmos delas de uma vez por todas, é provável que haverá mais problemas, e você viu os resultados abomináveis ​​de tais experimentos com seus próprios olhos.

“Porém eu não sei de nada!”

— Havia algum lugar específico na casa onde seus pais costumavam te levar?

“Sim, havia.”

— É isto que preciso saber, e é por isso que terá de vir comigo.

“Certo.” Largando a caneta, Lori se levantou.



“Sobre a cidade, para onde acha que ela está indo?” Lori perguntou a D enquanto caminhavam. Seus lábios apenas formaram as palavras. Ela não obteve resposta. Talvez porque não importasse.

De repente, D disse.

— Aparentemente, um novo destino foi programado nos computadores. É para lá que estamos indo.

“Contudo onde fica esse destino?”

— Considerando nosso rumo atual, um lugar onde há ruínas e túmulos que pertenciam à Nobreza.

“Por que iríamos para um lugar assim?”

— Teríamos que perguntar a quem inseriu o destino. Embora eu tenha a sensação de que posso saber.

“O que quer dizer?”

Desta vez, D não respondeu. Os dois entraram na antiga casa dos Knight.

— Então, se pudesse me mostrar o lugar que mencionou. — disse D suavemente.

Lori assentiu.

Sem surpresa, o primeiro lugar para onde foram foi o laboratório, um local que havia sido minuciosamente revistado tanto por D quanto pela sombra negra.

“Meu pai sempre batia com o dedo no tampo daquela mesa. Talvez estivesse escondendo alguma coisa.”

D estendeu a mão para a mesa de mogno resistente à pressão.

— Onde batia?

Lori apontou para uma determinada parte. Embora a superfície da mesa parecesse normal, após uma inspeção mais detalhada, percebeu-se que aquele ponto estava um pouco mais desbotado que o resto.

D acariciou a superfície.

— O que acha? — perguntou.

Embora Lori não pudesse ouvir o que disse, seus olhos estavam fixos nele. Sem dúvida, havia algo grotescamente emergindo da palma de sua mão esquerda. Parecia um rosto humano. Lori observou em silêncio enquanto seus lábios se moviam.

— Hmm. A superfície recebeu um acabamento para realçar o brilho. No entanto está estranhamente clara na parte que a garota acabou de apontar. O problema não parece ser a espessura, e sim a composição.

— A composição é a mesma?

— Não.

— Certo. Afaste-se, por favor.

Lori recuou, assim como lhe foi ordenado. Afinal, havia algo que precisava fazer com o jovem.

A espada longa de D reluziu. O golpe de seu aço foi mais rápido do que qualquer olho poderia acompanhar. Cortada da mesa com precisão, a peça de madeira em questão pousou na mão esquerda de D.

— Analise-a. — ordenou D.

— Droga, você é um verdadeiro capataz. — comentou a boca em sua mão, descontente.

D pressionou a fina tábua contra a palma da mão. Um segundo se passou, depois dois, depois três.

— Bom o suficiente. — disse uma voz espremida, escapando por entre a mão e a placa.

D abriu a mão. O rosto em sua palma havia se reduzido a apenas um par de lábios. Uma língua vermelha pendia deles. Aparentemente, sua mão esquerda havia analisado o material lambendo-o, como comprovava a superfície molhada da placa.

— O arranjo atômico de cada elemento forma uma única letra ou dígito na fórmula. É um esconderijo muito bom. Se um determinado elemento for espesso ou fino demais, a letra desaparece.

— Sim, é bastante engenhoso. Então... — D começou a dizer, mas, ao olhar por cima do ombro, uma mãozinha pálida cravou com força uma cunha de madeira em seu peito. Cambaleando para trás, D caiu pesadamente no chão. Certamente jamais imaginara que Lori o atacaria pelas costas para cravar uma estaca nele.

Porém, na verdade, Lori não havia cravado estaca alguma em suas costas.

Ao perceber que o corpo de D não se movia nem um pouco, a expressão doce da garota de repente se desfez, e um sorriso de uma grosseria indescritível surgiu em seu lugar. A voz que emanava de seus lábios era a de um homem.

— É assim que se faz! Um obstáculo a menos, suponho. Aposto que nunca lhe ocorreu que eu poderia me infiltrar na mocinha em quem mais confiava. Sem ressentimentos, amigão. No fim das contas, tudo na vida se resume a negócios.

Quando a garota abriu um largo sorriso, sua expressão era inconfundivelmente a de John M. Brasselli Plutão VIII.



A cidade continuava seu curso. D permanecia caído no chão, com uma estaca atravessando seu coração. O prefeito havia aparecido e conversava com Lori com um entusiasmo incomum; em algum lugar da cidade, o corpo de Plutão VIII não respirava, embora seu coração continuasse a bater. O Dr. Tsurugi nada sabia sobre o ocorrido, embora, tomado por um medo vago, não podia fazer nada além de armar-se com um bisturi e uma espingarda.



Aqueles que espalhavam a praga dos vampiros faziam visitas silenciosas às casas da cidade, enquanto os que haviam sucumbido aguardavam impacientes o pôr do sol. E aqueles que observavam com atenção o radar tridimensional na sala de controle de navegação descobriram uma vasta extensão de ruínas no planalto, a cerca de trinta quilômetros à frente... E ficaram chocados ao constatar que havia uma diferença de menos de vinte centímetros entre a altura do planalto e a altitude em que se encontravam.



— Muito bem, hora de definir o preço final. Quanto você oferece, seu metido? — perguntou Lori, com os lábios lindos contraídos em um sorriso de escárnio. Nem é preciso dizer que aquela voz em falsete pertencia a Plutão VIII. — Tenho a fórmula química e as equações matemáticas de que precisa para se tornar um Nobre. Vai ter que pagar uma fortuna para tê-la.

— Tudo bem. Cinquenta milhões de dalas.

— Não me faça rir. Não estamos falando de uma criança querendo sua mesada. Com isso, poderá criar pessoas que levam a vida normalmente, como agora, contudo só precisam beber sangue uma ou duas vezes por mês, entendeu? Claro, elas poderiam andar à luz do dia. Poderiam cair na água sem se afogar. E não precisariam comer. Poderia disparar contra elas com um rifle, laser ou o que fosse, e o dano não as mataria. Além do mais, a personalidade delas não mudaria nem um pouco. Só há vantagens nisso, não é? Não saia oferecendo míseros cinquenta milhões de dalas por algo tão incrível.

— Que sejam quinhentos milhões de dalas, então. — disse o prefeito, abrindo um largo sorriso.

A oferta acabara de aumentar dez vezes, entretanto Plutão VIII fez a cabeça de Lori balançar de um lado para o outro.

— Quinhentos bilhões de dalas, e nem um centavo a menos. Afinal, está levando o segredo para criar super-homens. E, como bônus, já tomei emprestado o corpo desta moça e me livrei do Caçador de Vampiros que estava atrapalhando os planos. Então, não espere mais nenhum desconto da minha parte. Quer que eu saia contando para todo mundo como cortou minha garganta de ponta a ponta enquanto eu estava no corpo da sua empregada? Odeio ter que te contar, mas também consigo entrar em cadáveres em decomposição. Posso manipular as cordas vocais dela e fazê-la depor, se fosse preciso.

Depois de pensar um pouco, o prefeito assentiu e disse.

— Tudo bem. É pelo bem da minha cidade. Você receberá o preço que estipulou, quinhentos bilhões de dalas. Todavia vou precisar de uma coisa para tornar o negócio mais atraente.

— E o que seria?

— No lugar do Caçador de Vampiros que matou, preciso que de um fim ao último vampiro que nos atormenta... Ele é um dos meus experimentos que deu errado.

Plutão VIII não disse nada.

— O homem que deixei embarcar duzentos anos atrás me deu uma certa fórmula química e um procedimento para transformar humanos em vampiros. Porém, provou-se difícil demais para eu concluir com sucesso. Tive que esperar dois longos séculos até que uma dupla de gênios como o Sr. e a Sra. Knight nascesse para que minhas esperanças pudessem se concretizar. Então os dois me abandonaram na última hora. Não deram a mínima para as minhas ordens de que os frutos do seu trabalho fossem usados ​​apenas nos habitantes da nossa cidade. Queriam usar o resultado da pesquisa para o bem do mundo todo. Tolos! — cuspiu o Prefeito Ming. — Há apenas um punhado de pessoas que de fato querem viver em paz. Basta tentar dar algo assim ao mundo lá de baixo. Antes que percebesse, eles começariam a matar uns aos outros. Aqueles que pretendiam viver em paz acabariam apenas cortejando a morte. Realizei minhas próprias pesquisas sem a ajuda deles. Embora duas das minhas cobaias tenham chegado muito perto do sucesso, estava além da minha capacidade eliminar a crueldade vampírica que brotava dentro delas. E, por infelicidade, ambas escaparam. Uma delas mirou minha filha para se vingar, contudo foi destruída pelo Caçador de Vampiros. A outra segue ativa, espalhando a bactéria vampírica que carrega consigo por onde quer que vá.

— Essa é boa! — disse Lori... Ou melhor, Plutão VIII, segurando a barriga enquanto ria. — Para mim, parece que a situação está caminhando exatamente como você esperava. Importa-se de me dizer por que quer que o vampiro seja morto?

— A crueldade da Nobreza é tão grande que leva até os próprios Nobres à loucura. Tenho certeza de que está ciente não apenas do que a espécie deles fez conosco, como também de quão ferozes eram as disputas que grassavam entre os próprios Nobres. Quero a vida da Nobreza. No entanto, ao mesmo tempo, essa vida deve ser de paz eterna.

— É um sujeitinho ganancioso, tenho que admitir.

— Diga o que quiser. Seria difícil afirmar que a atual cepa de Nobilitação bastaria, não importa o que tentássemos. Terá de se apressar e acabar com ele antes que transforme até a última pessoa da cidade em um vampiro de imitação. E, se não gostar da proposta, o acordo está cancelado.

— Certo! — disse Lori/Plutão VIII, assentindo. — Vou derrubar sua aberração com um tiro só. Considere o serviço feito.

O interfone zumbiu alto.

— O que é agora? — o prefeito praticamente rugiu.

— A cidade está se aproximando de um platô. Os ​​preparativos para o pouso já começaram.

— Aha! — disse Plutão VIII, com os olhos brilhando. — Então imagino que este deva ser o destino inserido nos seus computadores. Deve ser divertido tentar descobrir por que faria isso.

— Se inseriu essas coordenadas, é óbvio que, assim que chegarmos lá, obterá alguma vantagem. Apresse-se e livre-se logo deste maldito.

— Pode deixar. — assentindo em concordância, Plutão VIII levantou-se. — Você disse que já houve algumas vítimas, certo? Isso é engraçado pra caramba. Vamos torcer para que algumas dessas, pelo menos, quisessem ser vampiras...



Ao sair da casa do prefeito, Plutão VIII sentiu uma aura estranha e indescritível envolver o corpo que havia tomado emprestado. O crepúsculo se aproximava. A aura não estava focada nele individualmente; ela preenchia o próprio ar. Um grande número de fontes dessas emanações inquietantes movia-se nas proximidades.

— Ora, vejam só. O velho prefeito demorou uma eternidade para agir, e agora parece que estamos falando de mais da metade da cidade... Este lugar é um verdadeiro paraíso dos mortos-vivos. — murmurou Plutão VIII, caminhando pela rua com as belas pernas de Lori.

Logo, uma presença agitou-se nas proximidades.

— Veio brincar, foi? — murmurou Plutão VIII, e Lori parou onde estava.

Na penumbra, erguia-se uma figura imóvel usando luvas pretas. A atmosfera estranha parecia irradiar com mais força do corpo dele.

— Estava te esperando! — riu Plutão VIII. — Não sei para onde diabos está levando esta cidade, nem por quê, todavia tudo acaba aqui. Vou acabar logo com você e cair fora dessa, assim que receber o que me é devido, é claro. O conhecimento que o tornou imortal deve render uma boa grana em outro lugar também. É uma pena que não vá ver seus comparsas se multiplicarem, mas vai ter que lidar com isso.

Embora não estivesse claro como exatamente Plutão VIII manipulava as cordas vocais de Lori... Que, em tese, não funcionavam... Ele a fazia falar sem parar. Em seguida, fez um gesto amplo com a mão direita na direção de seu oponente.

No instante em que o clarão negro parecia prestes a atravessar o coração do inimigo, o vampiro passou silenciosamente por cima da cabeça de Plutão VIII. Com uma velocidade que desafiava a imaginação, o vampiro desferiu um chute.

Esquivando-se do golpe com uma agilidade inacreditável para um homem no corpo de uma jovem, Plutão VIII lançou sua arma em forma de disco com um movimento de varredura. A mira foi certeira; a arma rasgou em instantes o vampiro da virilha ao peito, banhando a estrada com sangue vivo.

— Te peguei! — gritou Plutão VIII, usando o rosto da bela jovem.

Apenas um segundo depois, aquele mesmo rosto paralisou. Da escuridão, logo atrás de onde o monstro havia caído, surgiu um jovem alto de beleza sobrenatural.

— Não, você não... — gemeu Plutão VIII. — Não pode ser... Quer dizer, mesmo um dampiro... Não poderia levar uma estaca no coração e...

— Que pena. — a voz suave de D parecia arrancar o coração de Plutão VIII do peito. — Diga-me o que discutiu com o prefeito.

Plutão VIII recuou. Embora buscasse uma chance de fugir, percebeu que seria impossível.

— Os pais da garota lhe contaram algo, não foi? — disse D, porém Plutão VIII não conseguia sequer tremer diante daquelas palavras ditas em tom suave. — Talvez onde esconderam o procedimento e a fórmula que aperfeiçoaram para transformar humanos em Nobres. Por que deixariam algo assim na cidade quando fugiram? Responda-me.

— Porque estavam prontos para morrer. — talvez Plutão VIII tivesse se conformado com a ideia de enfrentar D, pois sua voz estava incrivelmente calma. — Pense bem. Eles sempre levaram uma vida fácil, seguros e protegidos em sua cidadezinha. O que poderiam fazer lá na Fronteira? Ainda que tivessem as ferramentas para isso, faltava-lhes a coragem necessária. O casal Knight sabia disso. Contudo o que haviam conquistado era grande demais para só jogarem fora. Talvez quisessem ajudar as gerações futuras ou algo desse tipo, no entanto tenho certeza de que a maior parte da motivação vinha da sede de fama. E, depois de pensar um pouco, não conseguiram imaginar lugar mais seguro para esconder aquilo do que esta cidade. Não é uma história de partir o coração? Morreram como cães, esquecidos num canto remoto da Fronteira, depois de tudo o que fizeram... Sendo assim, sabe, pensei que poderia aproveitar o que eles descobriram para ganhar uns trocados...

— Você matou os Knight?

— Como assim...? — as sobrancelhas de Plutão VIII se ergueram. Parecia tomado pela indignação.

Sempre sereno, D continuou.

— Acho pouco provável que dois químicos não percebessem que o reator nuclear do trailer estava com defeito. Eles saíram e foram devorados. Ora, por mais protegidos que aqueles cientistas pudessem ter sido, é impossível que não soubessem do perigo de sair na Fronteira no meio da noite. A menos, é claro, que você os tenha prometido segurança.

— Ei, espere um pouco aí! — Plutão VIII protestou, estendendo a mão direita para interromper aquele raciocínio. — Não querendo me gabar nem nada, entretanto eu salvei a moça.

— Sim, porque eu estava lá. A intangibilidade molecular permite atravessar a radiação. Você não teve coragem de deixar os dragões a devorarem, todavia achou que poderia matá-la sem problemas dentro do veículo... E foi aí que cometeu o erro.

— Que sujeito inacreditável. Você é uma pilha ambulante de suspeitas.

Um sorriso cruzou rapidamente o rosto jovem e belo da garota que Plutão VIII usava. Um sorriso malicioso que não havia mostrado antes.

— Apesar de ter razão sobre algumas dessas coisas. Sabe, quando o conheci, tive um pressentimento muito ruim, e parece que estava certíssimo.

— Qual é o objetivo do prefeito? — perguntou D, como se não tivesse ouvido uma palavra da confissão arrepiante de Plutão VIII. — Transformar todos os habitantes da cidade em Nobreza... Em vampiros?

Por um breve instante, a espada longa de D descreveu um arco veloz, cortando o crepúsculo com clarões brancos e intensos. Duas figuras que se aproximavam escondidas por trás dele caíram silenciosamente no chão.

Com aquele enfraquecimento momentâneo da aura inquietante de D, Plutão VIII foi engolido pela escuridão.

— É tarde demais, D! — ele gritou. — Tarde demais. Toda essa gente foi infectada pela experiência fracassada do prefeito. E agora eles vão continuar se multiplicando. Esta cidade está acabada. Bem, é justo o que o prefeito esperava que acontecesse. Tentar transformar seres humanos em Nobres perfeitos é simplesmente impossível.

Talvez tivesse razão. O visitante de dois séculos atrás, o prefeito, os Knights... Cada um deles provavelmente nutria um sonho. A cidade se sustentava em um sonho; na verdade, era feita de sonhos. E agora a cidade estava despertando desse sonho. Despertando com os piores resultados possíveis.

— Não queria ter que lutar contra você... — disse Plutão VIII. — Porém não há como evitar agora. Vamos nessa. A gente se ve no inferno, se o destino permitir!

No instante em que D percebeu que a aura maligna direcionada a ele estava se dissolvendo na escuridão, fechou seus olhos. Sua espada longa entrou em ação. Ela não teve dificuldade alguma em fatiar a lâmina em forma de disco em pedaços que se espalharam pelo ar.

D avançou. Ao seu redor, o vento rugia.

Não havia nada que Lori/Plutão VIII pudesse fazer. O punho de D afundou no plexo solar delicado da garota, contudo atravessou o seu corpo como se fosse feito de névoa. Mais uma vez, a habilidade sobre-humana conhecida como intangibilidade molecular entrara em cena. O corpo de Lori havia se transformado em uma sombra fluida e mutável.

D virou-se. Como uma touceira de grama tremulando na brisa, a sombra ondulou rua abaixo e desapareceu no chão, sem ruído algum. Sem se dar ao trabalho de observar a ponta negra daquela forma desaparecer, D olhou para a distância, para a vasta extensão de céu e terra.


A rota que alguma mão misteriosa havia traçado para a cidade amaldiçoada os levava agora sobre ruínas que se estendiam até onde a vista alcançava. Pilares de pedra maciços, dosséis e ruas permaneciam nus e desolados sob a luz que emanava do ventre da cidade voadora. Embora fosse óbvio que todas essas construções antigas estivessem rachadas, desmoronadas e reduzidas a terríveis escombros pela ação do vento e do tempo, por algum motivo, aquela terra possuía uma atmosfera ainda mais fantasmagórica. Na Fronteira, ruínas que pertenceram à Nobreza não eram raras. No entanto, aquela terra não despertava os profundos sentimentos de solidão que costumavam ser associados a tais lugares. Aquele lugar sugeria apenas uma coisa... Um mal perturbador. E somente D sabia a forma que esse mal tomaria.

Das sombras das fileiras sinuosas de pilares de pedra, formas se agitavam como se tivessem notado a cidade que se aproximava... Formas humanas, movendo-se como se estivessem enfurecidas... Ou exultantes.

— Finalmente... Chegamos... — disse uma voz desesperada que fez D se virar. Era uma figura escura e salpicada de sangue, caída na estrada a poucos metros de distância. Mesmo depois de D ver que era a mesma criatura antinatural que a lâmina de disco de Plutão VIII havia cortado ao meio, sua expressão não mudou.

— Então, era você quem guiava a cidade? — ele fez a pergunta ao cadáver, assim como faria com qualquer pessoa viva.

— Isso mesmo. Todos na cidade têm o que é preciso para se tornarem um... — disse o ser, com a voz fraca e a respiração ofegante. Por “um”, em dúvida queria dizer um de sua espécie. — É aqui que... Todos os fracassados ​​se encontram. Não vivos, mas... Incapazes de morrer. Amaldiçoados com uma fome infinita e um futuro sem sonhos... Nenhum lugar poderia ser mais apropriado para o povo desta cidade.

— Mais seis horas? — murmurou D. Esse era o tempo que faltava para o amanhecer. Um tempo tão curto para o confronto tremendamente longo que estava prestes a começar.

— As falhas somam mais de cinco mil... Os vivos prevalecerão ou a morte cantará sua canção de vitória? Não... Não será nenhuma das duas. É isto que torna este o destino perfeito.

Suas últimas palavras se misturaram com risos e um estertor, e a figura desabou no chão mais uma vez, para nunca mais se mover.

A destruição ecoava de algum lugar à distância. Sem dúvida, os moradores vampirizados estavam atacando outra casa. Ainda que a polícia tivesse entrado em ação, com as coisas nesse ponto, não teriam conseguido lidar com a situação. Além do mais, eles provavelmente já haviam sucumbido também...

Lançando um breve olhar pela estrada, na direção do hospital, D partiu para o centro de controle de navegação. Em pouco tempo, estava lá. Cerca de uma dúzia de trabalhadores estavam absortos na inspeção de suas armas. Uma tensão extraordinária preenchia a sala.

Ao ver D, o prefeito demonstrou mais alívio do que hostilidade.

— Suponho que devo agradecer por ter vindo. — disse ele.

— De uma boa olhada lá embaixo! — disse D suavemente. — Este é o fim da estrada que você os colocou para seguir. Lá embaixo, cinco mil coisas que não conseguiram se tornar Nobres estão esperando por quinhentas pessoas vivas. Elas acham que os moradores da sua cidade serão companheiros adequados.

— Eles foram fracassos. — o prefeito parecia cansado. — Porém nós íamos ser uma nova raça perfeita de humanos. Uma criatura com a mente e o coração de um humano e a carne imortal de um Nobre, desfrutando de uma vida eterna livre da imundície do mundo mortal. Posso ter falhado, contudo os Knights tiveram sucesso. E assim que o fizeram, tentaram sair da cidade.

— O vampiro que atacou sua filha foi um que você criou, não foi?

— Sim. Criei dois, e ambos escaparam. Um atacou minha filha, o outro está espalhando seus germes por toda a cidade agora.

— Metade da cidade já foi transformada em vampiros. Se quiser me contratar para fazer o trabalho, cuido de todos.

Apesar da situação atual, um Caçador sempre seria um Caçador.

— Então, este é o fim de tudo? — o prefeito levou os punhos à testa. E então, olhando para D, sorriu com satisfação. — Não, ainda não. Enquanto houver pessoas decentes nesta cidade, meu sonho jamais morrerá.

Um brilho gélido preencheu os olhos de D. Se alguém era louco por ter um sonho desvairado, então o prefeito já havia perdido a cabeça.

De repente, o solo inclinou-se para a frente. Algumas máquinas não fixadas chocaram-se contra o ombro do prefeito. Não brotou sangue dele; em vez disso, faíscas de eletricidade azul crepitavam da ferida. Era um ciborgue.

— Pouso em sete segundos... — exclamou um técnico, agarrado a um painel de controle.

A cidade vinda do céu descia em direção à terra com a qual jamais deveria ter se encontrado.

— Seis segundos...

Nas ruínas lá embaixo, inúmeras coisas começavam a se agitar.

— Eles estão aqui! Eles estão aqui! Mais dos nossos chegaram!

O som estridente de tampas sendo empurradas para abrir caixões de pedra, madeira ou aço, acompanhado por um fedor pútrido. Mãos pálidas emergiam das sepulturas, e olhos carmesins observavam o ambiente.

— Quatro segundos...

Enquanto Lori se dirigia a um prédio em ruínas, o Dr. Tsurugi vinha correndo logo atrás dela.

— Três segundos...

A cidade estava silenciosa. Como se ninguém jamais tivesse estado ali.

— Dois segundos...

Uma lâmina em forma de disco brilhava na mão direita de Lori. Tratava-se, na verdade, de um composto químico solidificado que desapareceria assim que cumprisse sua função.

— Zero!

Antes que o solavanco lançasse as pessoas pelo ar, o estrondo do impacto estilhaçou as janelas de todas as casas. Lori e o médico rolaram pelo chão. A onda de choque transformou-se em um vento violento que varreu a cidade, inclinando casas e quebrando árvores. Metade dos habitantes ficou ferida de alguma forma. A outra metade também estava ferida, no entanto isso não os incomodava.

— Os bocais dos motores foram danificados.

— Há rachaduras nos dutos de convecção.

Vozes cruzavam a sala de controle em meio à confusão.

— Quanto tempo levará para inserir uma nova rota e decolar de novo? — perguntou o prefeito.

— Quatro horas, no mínimo.

— Façam em duas.

— Entendido.

D correu para a entrada. Deformada pelo impacto, a porta de ferro não cedia nem um centímetro sequer. D golpeou-a com o ombro. No momento em que a porta atingiu o chão, espalhando fragmentos de metal por toda parte, a silhueta de D já disparava pelas ruas escuras.



Com passos silenciosos, as incontáveis ​​formas da morte cercavam a cidade. Mãos esguias, dotadas de força suficiente para partir árvores ao meio, estenderam-se em direção à escotilha de acesso na base da cidade. O ar lá fora começou a vibrar com o som surdo dos punhos golpeando a porta.

— Estão entrando! — gritou um operador manchado de sangue.

— Calma. Mesmo com a força de um Nobre, não vão conseguir romper aquela escotilha. — disse o prefeito, enquanto espalhava uma pasta reparadora sobre o ferimento em seu ombro. — Só precisamos resistir por duas horas. Conectem cabos de energia às paredes externas e à barreira. Mandem cem mil volts para lá.

— Entendido!

Logo, toda a cidade foi banhada por uma luz pálida. A linha de frente dos vampiros recuou bruscamente, soltando fumaça e faíscas. Todos estavam com os cabelos arrepiados.

— Conseguimos! — gritou um dos operadores.

— Não adianta. A voltagem é alta demais! — murmurou outro trabalhador.

Uma após a outra, as figuras sombrias emergiam da escuridão. De trás de colunas de pedra e de sob cúpulas. Do próprio chão. Novos corpos se amontoavam sobre os que haviam sido carbonizados. Chamas também irrompiam dos novos corpos. Apoiando os pés nos ombros daqueles que estavam abaixo, punham as mãos na parede externa e começavam a escalá-la.

— Eles deveriam estar mortos... Mas estão subindo. — disse alguém.

E, a isso, outra pessoa respondeu.

— A Nobreza é imortal...

— Aumentem a voltagem! — ordenou o prefeito. — Vamos queimá-los até a medula dos ossos. Ajudantes e seguranças, vão lá fora e atirem em qualquer invasor. Não podemos deixar que nem sequer um deles suba a bordo.

A luz perdera seu tom azulado e agora era de um branco intenso. As figuras que escalavam a parede externa desmoronavam como bonecos de argila rachados pelo sol forte.

— Eles estão fugindo! Estamos salvos! — gritou alguém, jubiloso, ao ver as figuras recuando nas telas da sala de controle.

— Não baixem a guarda. Eles ainda têm tempo. Com certeza voltarão. E não podemos contar com a barreira. Saiam e comecem a atirar.

Enquanto o alívio do momento passava pelo rosto do prefeito, o mesmo acontecia com o medo do futuro.



D estava no meio da rua. O brilho da barreira havia desaparecido e, exceto pelo fedor persistente, a cidade estava calma e silenciosa. As pessoas agora estavam trancadas em casa, encolhidas de medo dessa nova ameaça, ou lá fora em busca do sangue alheio. Parecia que estes últimos haviam se fundido à escuridão enquanto espalhavam a morte.

Figuras surgiram à frente de D, e também atrás dele.

Com olhos carmesim repletos de uma fome atroz, elas se aproximavam. Parecia que quase todos na cidade haviam se transformado em monstros. Não restava mais ninguém para proteger... Exceto duas pessoas.

Algo passou voando pelo Caçador com a velocidade de uma andorinha. D rebateu vários projéteis com a mão esquerda, e todos os outros cravaram-se no peito das figuras que se aproximavam.

Gritos de dor rasgaram a escuridão. Os projéteis eram estacas de madeira disparadas por armas específicas. Os homens da força de segurança não tiveram tempo para uma segunda salva de disparos, pois pessoas saltaram sobre eles dos telhados de várias casas.

A espada longa de D brilhou no ar, e várias figuras que haviam sido atravessadas no peito caíram no chão. Todas eram moradores da cidade.

— Não dá mais para segurá-los. Preparem-se para abandonar o posto. — ordenou D aos agentes aterrorizados e vacilantes, enquanto baixava sua lâmina ensanguentada.

— Não podemos fazer isso. Há uma multidão lá fora. Para onde quer que a gente vá, seremos mortos. Teremos apenas que aguentar até o amanhecer. — disse um deles com uma voz vazia. A única emoção que a tingia era um profundo desespero.

— Então façam o que quiserem. — D virou-se e foi embora sem dizer mais nada.

A cidade apodreceria em silêncio, como se tudo aquilo tivesse sido decidido dois séculos antes. Para os habitantes da cidade, o amanhã jamais chegaria.

Enquanto D seguia apressado pela rua, uma figura pálida avançou em sua direção vinda da direita. Sem sequer virar a cabeça para olhar, apenas moveu sua mão direita em um arco horizontal. Quando a figura caiu, com sangue fresco jorrando do peito, D reconheceu o rosto. Era a garotinha que havia salvo das aves colossais. As presas que se projetavam de sua boca desapareceram lentamente.



D continuou caminhando. Antes de chegar ao hospital, foi atacado várias vezes, e cada confronto resumiu-se a um único golpe. Uma vez que matava um, não restava ninguém disposto a tentar um segundo ataque. A aura sobrenatural que envolvia D intimidava até mesmo os mortos.

D parou diante do hospital. O prédio branco estava completamente destruído. Se os dois ainda estivessem lá dentro, nem mesmo um milagre seria suficiente para salvá-los. Após contemplar os escombros por um momento, D virou-se.

Uma figura sombria estava parada ali, como se fosse a própria escuridão solidificada. Sob cada braço, carregava um corpo. O Dr. Tsurugi e Lori.

— Eles estão bem, D! — disse Plutão VIII. — Mas não acho que você consiga tirá-los daqui em segurança do jeito que as coisas estão agora... Além do mais, temos uma luta para terminar!

E, ao pronunciar a última palavra, ele deixou os dois corpos caírem no chão.

D avançou num instante.

O corpo de Plutão VIII transformou-se em uma mancha negra, e dois discos foram lançados a partir dela. Houve um clarão prateado. Os discos ricochetearam para longe.

Contraindo-se e mudando de forma, a mancha negra reassumiu a aparência de Plutão VIII. Uma linha escura cortava sua testa.

— Obrigado! — disse ele. — Percebeu que não me restava muito tempo, não é?

Sangue vivo escorria da boca de Plutão VIII, porém não era resultado de nenhum ferimento que D lhe tivesse causado. No exato momento em que ele... Ou Lori, estava prestes a matar o Dr. Tsurugi, o solavanco da aterrissagem da cidade havia infligido um ferimento grave ao corpo verdadeiro de Plutão VIII, onde quer que o tivesse deixado dormindo.

— Há uma coisa que preciso lhe dizer... — Plutão VIII gemeu enquanto aos poucos se ajoelhava. — Tomei o corpo da garota contra a sua vontade. Tentei convencê-la com ofertas de telepatia, contudo ela lutou contra mim até o fim.

— Eu sei! — disse D, assentindo. — No entanto tenho certeza de que ela sempre foi grata a você por tê-la salvado.

Não ficou claro se D realmente viu o sorriso esculpido no rosto de Plutão VIII no momento da morte.

D foi até onde os dois corpos jaziam. Ambos tinham pulso. Mais surpreendentemente, alguns de seus cortes haviam sido grosseiramente enfaixados. Plutão VIII devia tê-lo feito. Era um homem estranho.

Gritos ecoavam à distância. Moradores estavam sendo atacados por ex-moradores, por vizinhos que por fim tinham um objetivo, graças a essa necessidade de transformar todos em vampiros.

D colocou a mão direita na testa do médico. Seus olhos se abriram ao contato. Enquanto seu olhar vago percorria o ambiente, um brilho de determinação surgiu em seus olhos. Encarando D, após um instante, perguntou.

— Você nos salvou?

— Não eu. Ele.

Um olhar pesaroso pousou sobre o corpo sem vida.

— Eu não consigo entender... — murmurou o médico. — E a cidade?

— Esta cidade morreu há muito tempo. Agora a verdadeira morte chegou para ela. No entanto vou tirar vocês dois daqui em segurança. Fiquem tranquilos.

— Eu desisto... — disse o Dr. Tsurugi. — Você é demais para mim. Enfim entendo por que ela se sentiu daquela maneira.

— Do que está falando? — perguntou D.

O médico disse o nome de uma vila, e a expressão de D mudou. Era como se tivesse sido tocado por uma brisa suave em pleno verão. Vários anos antes, esteve naquela vila, travando uma batalha feroz até a morte com um vampiro para proteger um irmão e uma irmã que viviam em um rancho nos arredores da pequena cidade.

— Eles estão bem?

O médico assentiu.

— Muito bem. O garotinho ajuda a irmã como um adulto, e o rancho deles está ainda maior agora. Adoraria ter ficado lá fazendo o que pudesse pelo resto da minha vida, todavia parece que ela tinha o coração voltado para outra pessoa.

Terminando de examinar Lori, o médico assentiu com satisfação e se endireitou.

— Aonde você pensa que vai? — perguntou o Caçador.

— Você não sabe como usar as saídas sozinho, sabe? Deixe-me ajudá-lo.

— Você está ferido.

— Não consegui conquistar o coração daquela garota. Pelo menos me deixe fazer algo que a faria feliz.

D olhou direto nos olhos do outro homem e viu as emoções desconcertantes que nadavam ali.

— Quanto tempo passou naquela vila? — perguntou.

— Não muito. Seis meses.

— Os dois tiveram sorte de tê-lo por perto.

— Obrigado.

Os olhos do médico brilharam. Um olhar de orgulho reluziu neles.



— A voltagem da barreira está caindo rapidamente!

Como se em resposta a esse último grito, figuras sombrias que estavam se afastando avançaram em direção à cidade outra vez.

— Como está indo a inserção do percurso nos computadores? — gritou o prefeito.

— Está concluído.

— Então levem-na para cima!

— Não temos impulso suficiente, senhor!

— Não me importo. Apenas o façam!

— Entendido.

À medida que figuras pálidas ultrapassavam a muralha externa, descendo como uma avalanche, a cidade escapou dos limites da terra. Ela flutuou no ar como se esse fosse seu único propósito. Mesmo assim, algumas figuras sombrias desceram pela muralha interna. A última coisa que viram foi um jovem belíssimo que exalava uma aura sobrenatural. Traçando o coração de cada intruso, D baixou sua espada longa e se virou.

O prefeito estava parado ali.

— Minha jornada apenas começou. — disse ele. — Assim que o amanhecer chegar, os vampiros serão destruídos. Tenho certeza de que os moradores restantes e eu conseguiremos, de alguma forma, manter a cidade funcionando.

— Esta é uma cidade morta! — disse D baixinho. — Para onde irá? E com que propósito?

O prefeito riu. A risada soou horripilante. Uma figura saltou em sua direção por trás, com as presas à mostra. As pontas dos dedos do prefeito afundaram em seu coração, e a figura caiu a seus pés. Era Laura.

Ao longe, o vento uivava. O amanhecer ainda estava distante.

— Há uma planície a vinte quilômetros daqui. Você e seus amigos desçam lá.

O próprio som da voz do prefeito era sombrio e distante.



Sem dizer uma palavra, o trio observou a cidade partir. Para onde iria? Nenhum vestígio da fórmula havia sido encontrado no corpo de Plutão VIII... Onde poderia tê-la escondido? Será que o prefeito algum dia a encontraria?

D acariciou o focinho de seu cavalo ciborgue. Era um dos três que o prefeito havia deixado com eles.

— O que faremos com a garota? — disse o médico, acreditando que Lori ainda estivesse dormindo, porém quando olhou por cima do ombro, a viu acordada.

Seus olhos contemplavam a planície sob o amanhecer azul. Seu dedo pálido deslizava pela areia. Os dois homens leram o que ela havia escrito.

“Ouvi o som do vento e o canto dos pássaros.” dizia. Então, essa era a perspectiva da garota depois de ver a vida e a morte de perto? Enquanto seus longos cabelos esvoaçavam na brisa da manhã, a sombra de Lori se projetava nitidamente no chão.

— A um quilômetro e meio à nossa frente há uma cidade. Vocês dois devem ir juntos.

Dito isso, D montou em seu cavalo.

— Para onde você vai?

Sem responder, D avançou com seu cavalo. Cavalo e cavaleiro foram diminuindo rapidamente à medida que partiam, rumo aos cumes das montanhas que ficavam cada vez mais azuis a cada minuto.

***

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