Capítulo 191: Acho que é uma pessoa digna de respeito
Eu me ofereci para levá-la de volta, mas depois de garantir que estava bem, Noir-san partiu.
Embora ainda fosse cedo, fiquei preocupado em deixar uma mulher voltar para casa sozinha... Porém, pensando bem, Noir-san é uma demônio, uma meio-vampira... Ouvi dizer que, desde que se alimentem de sangue, seres como ela são incomparavelmente mais capazes do que eu; então acho que minha preocupação era desnecessária.
Também poderia ter ido embora, contudo decidi dar uma olhada na igreja já que estava ali, e a Dra. Vier concordou prontamente.
A enorme quantidade de cruzes nas paredes lembrava as estrelas de um planetário; era isso que tornava aquela igreja um pouco diferente das igrejas comuns.
Nunca estive em uma igreja antes, embora conheço o básico... Elas aparecem às vezes na TV e em animes, então pelo menos sabia que não costumam ser tão repletas de cruzes.
“É lindo, no entanto é um pouco diferente da igreja que eu havia imaginado.”
“Sim, é verdade. Isso acontece porque, para começar, este lugar não é uma igreja.”
“Hã?”
Ao expressar a dúvida que me veio à mente, recebi uma resposta surpreendente da Dra. Vier.
Hã? Não é uma igreja? Mesmo com essa decoração?
Ao notar meu espanto, a Dra. Vier sorriu gentilmente, tocou em um banco de madeira próximo e falou.
“Este lugar foi construído por mim e, a princípio, não tinha a intenção de ser uma igreja, entretanto... Assim como você, Miyama-kun, alguém entendeu mal minhas intenções e me pediu permissão para rezar aqui. Então, adicionei bancos e um altar, e fiz com que parecesse uma igreja.”
“Entendo. Então é por isso que a Dra. Vier, uma médica, também atua como sacerdotisa.”
“B-Bom... Não chego a exercer funções sacerdotais, na verdade; para mim, ser médica já basta, só que... Bem, acho que foi assim que o público passou a me ver, não é?”
A Dra. Vier ficou linda ao rir enquanto explicava e, com a roupa de freira que vestia, parecia uma santa.
“Por sinal, por que se tornou médica?”
“Hã? Eu?”
“Ah, não, tudo bem se não quiser responder...”
De repente, me peguei fazendo perguntas desse tipo.
Acho a Dra. Vier uma pessoa maravilhosa e, pelas emoções que percebo através da Magia de Simpatia, sei que ela é genuinamente bondosa.
Todavia, havia algo estranho... Parecia haver sempre um leve traço de emoção sombria misturado à sua gentileza; além do mais, por algum motivo, emoções dolorosas emanavam dela quando os homens lhe agradeciam antes de partir.
Queria saber a resposta para essa pergunta, mas, é claro, se houvesse circunstâncias delicadas envolvidas, não a forçaria a responder.
Quando lhe respondi, a Dra. Vier, após um breve silêncio, ergueu o dedo indicador com um sorriso.
“Bem, nesse caso, antes de eu responder, aqui vai uma pergunta minha! Por que acha que me tornei médica no Reino Symphonia?”
“E-Err... Hmmm. Porque a comida aqui é muito boa?”
“É verdade que o Reino Symphonia tem uma excelente cultura gastronômica. Porém lamento dizer... Essa não é a resposta certa.”
Para ser sincero, a única diferença que conheço entre o Reino Symphonia e os outros países é que este país possui uma cultura gastronômica desenvolvida, com base no que a Alice me ensinou antes sobre...
Contudo, pelo modo como falou, parece haver algum outro motivo para estar trabalhando como médica aqui.
“A resposta é... Porque há ‘poucos médicos’ no Reino Symphonia.”
“Hã? Sério?”
“Hmm. O motivo é simples. É porque existe um templo neste país dedicado à ‘Deusa da Saúde’.”
“Ah, entendi! As bênçãos!”
Lembrei de ter ouvido falar que existe uma cultura neste mundo em que as pessoas vão ao templo no Ano Novo para receber uma bênção da Deusa da Saúde, o que as protege de ficarem doentes.
Entendo; e se ninguém fica doente, isso deve significar menos trabalho para os médicos.
“Sim... No entanto, Miyama-kun, o que você está pensando agora provavelmente está errado.”
“Hã?”
“As bênçãos, veja bem, exceto aquelas concedidas diretamente pelas Deusas, servem apenas para confortar o público... E há poucas pessoas que recebem as bênçãos em pessoa da própria Deusa...”
A Dra. Vier me surpreendeu. Pensando bem, a bênção divina custa uma moeda de ouro cada... Convertendo para ienes japoneses, dá 1 milhão de ienes.
Deixando de lado as famílias nobres, o custo de uma moeda de ouro por família... Apenas as famílias ricas teriam condições de reservar 2 milhões para um casal, ou pelo menos 3 milhões se tivessem filhos, todos os anos.
O que significa que a maioria das pessoas no Reino Symphonia não recebe uma bênção direta da Deusa e pode adoecer.
“É por essa razão que a profissão de médico não é muito popular neste país. As pessoas das classes mais altas, que têm dinheiro, não adoecem nem se ferem com tanta frequência... Bem, então, aqui vai outra pergunta.”
“Hã?”
“Se uma mãe híbrida de sereia e harpia e um pai meio-elfo tivessem um filho, e essa criança ficasse doente... A que hospital a levaria? Ao das sereias? Ao das harpias? Ao dos elfos? Ou talvez ao dos humanos?”
“Ah.”
“Sim, existem muitos híbridos neste mundo, e raças diferentes possuem corpos diferentes. É muito difícil ser médico... Sou médica há muito tempo. Levei 200 anos para conseguir atender um paciente com um nível razoável de confiança e, ainda assim, recebo pacientes com sintomas que nunca vi antes.”
Neste mundo, diferentes raças convivem entre si, e híbridos não são incomuns.
Na verdade, entre as pessoas que conheço, a Lunamaria-san é uma mestiça de quatro raças diferentes, pelo que ouvi dizer... Então, a complexidade do tratamento médico deve aumentar de forma drástica.
Além disso, os demônios possuem uma diversidade de raças muito maior; o tratamento daqueles que vivem no Reino Humano seria diferente do dispensado aos humanos, e as doenças que contraem também seriam distintas.
“Bem, como muitas vezes faltam médicos, acho que foi por isso que decidi seguir essa profissão. Ainda tenho coisas a aprender, todavia adoraria ser uma médica capaz de curar o maior número possível de espécies.”
“Isto é... Para ajudar muitas pessoas?”
“Sim. Quero que o maior número possível de pessoas tenha boa saúde. Só quero que vivam com um sorriso no rosto... E, mesmo que seja apenas um pouco, espero ajudá-las a ter uma vida feliz.”
Acho que a sua bondade é de fato infinita... Mas, lá estava de novo. Consigo sentir outra vez algumas emoções dolorosas, como se ela estivesse sofrendo por algo.
De certa forma... Lembra um pouco as emoções que senti vindo da Lilia-san durante o Festival da Árvore Sagrada. Ou seja, será que essa emoção é... Arrependimento?
Porém, acho que provavelmente não é um assunto no qual deva me intrometer de forma leviana, nem algo sobre o qual posso só perguntar.
“Entendo, obrigado por me contar. Você é realmente uma médica esplêndida. Eu te respeito muito.”
“!?”
Eu deveria ter encerrado a conversa ali... Contudo, ao ouvir minhas palavras, a expressão da Dra. Vier se contorceu. Parecia desamparada e sentindo dor...
Diante de mim, que estava confuso com a mudança em sua expressão, a Dra. Vier caminhou devagar até o altar e, sem se virar para olhar para mim, murmurou baixinho.
“Não sou uma pessoa esplêndida e digna do seu respeito. Não, na verdade... Acho que sou a maior tola deste mundo.”
“Hã?”
“Veja, as cruzes que brilham ao redor desta igreja. Elas representam o ‘número de vidas que tirei’...”
“???”
Não compreendi de imediato as palavras dolorosas que havia escutado.
Ela havia tirado tantas vidas quanto o número daquelas pequenas cruzes? Contudo essas cruzes... Elas estão tão amontoadas nas paredes que contá-las às centenas ou aos milhares não seria suficiente...
“A-Ahn, isso significa... Que essas são pessoas que não conseguiu salvar como médica?”
“Não. Você está enganado... Claro que também não sou onipotente, então há muitas pessoas que não consegui salvar. Nos fundos do consultório, deixei anotados os nomes das pessoas que não pude salvar para me lembrar delas, no entanto... Estas cruzes são diferentes.”
“Diferente?”
“Há muito tempo, tirei a vida de muitas pessoas. ‘Ceifei as vidas preciosas de pessoas inocentes sem motivo algum’... As cruzes nesta sala são o símbolo dos pecados que cometi e do fardo que terei de carregar pelo resto da minha vida...”
Sua voz não soa como a de alguém que está mentindo. Mais do que qualquer outra coisa, minha Magia de Simpatia me fez sentir o quão doloroso é o arrependimento que carrega.
“Não acho que salvar uma vida me permitiria ser perdoada por ter tirado uma vida. Não... Na verdade, não importa quantas vidas eu salve; mesmo que salve todas as pessoas do mundo, meus pecados jamais serão perdoados... Pois meus pecados não devem ser perdoados.”
“...”
“Não sou um Deus onipotente. Nenhum arrependimento, nenhuma lágrima derramada a ponto de secar, nenhum pedido de desculpas feito aqui todos os dias... Pois, por mais que eu faça tudo isso, não se pode trazer de volta uma vida que se foi.”
Quando cheguei aqui com Noir-san, a Dra. Vier estava em posição de oração diante do altar.
Entretanto, parece que aquilo não era uma oração, e sim uma penitência... Neste lugar cercado pelos símbolos de seus pecados, ela continuava a pedir perdão pelas vidas que havia tirado.
“Embora seja doloroso e me leve às lágrimas, não vou virar as costas para os meus pecados; continuarei a carregá-los até o fim da minha vida. E, usando esta minha vida pecaminosa, continuarei salvando o maior número possível de vidas... Essa talvez seja a única redenção que posso alcançar.”
“Dra. Vier.”
“Sinto muito. Não sou o tipo de pessoa que você pode respeitar.”
“...”
O que será que posso dizer aqui? Sendo honesto, não consigo pensar em nenhuma palavra para dizer.
A Dra. Vier disse que seus pecados jamais seriam perdoados, todavia talvez, mais do que qualquer outra pessoa, a própria Dra. Vier não conseguisse se perdoar.
Então, não importa o que eu dissesse aqui, tenho certeza de que continuaria carregando seus pecados pelo resto da vida.
Porém, por que será? Realmente sentia que deveria dizer algo.
“Honestamente, não sei do que está falando. Sobre que tipo de pessoa você era antes ou que pecado cometeu... Não posso dizer nada a respeito.”
“Hmm. Tudo bem... Seria melhor se desprezasse alguém que cometeu pecados graves como eu...”
“Mas, como imaginei, ainda sinto um grande respeito pela Dra. Vier.”
“Hã?”
Não conheço seu passado e, mesmo que conhecesse, acho que não tiraria nenhuma conclusão específica disso, já que não tenho qualquer ligação com ele, exceto pelas minhas reações habituais.
Por essa razão, decidi não pensar nisso.
“Não sei como foi o seu passado, e não vou perguntar. A questão é que a mulher que conheci e com quem convivi o dia todo hoje... Para mim, é uma pessoa gentil que estendeu a mão a quem estava ferido, alguém que posso realmente respeitar.”
“Miyama-kun...”
“Além do mais, você deve ter pelo menos 200 anos, certo? Não tem como eu saber o que aconteceu naquela época... E ainda que soubesse dos seus pecados passados, não perderia o respeito pela ‘Dra. Vier de agora’.”
“Miyama-kun... Já lhe disseram que é um belo de um mulherengo?”
“Hã? Q-Que diabos é essa acusação repentina?”
Ela mudou o rumo da conversa, de repente, para algo incompreensível... Mulherengo... Por que diabos está dizendo isso para mim, que sou virgem?
Ao ver minha confusão, a Dra. Vier parece entretida por algum motivo.
“Ahaha, você deve ser popular, hein?”
“N-Não, não é bem assim...”
“Não sei não, viu! Bem, não importa... Obrigada, Miyama-kun.”
“Hã? Hein? Ah, sim. D-De nada.”
Não sei o que aconteceu, contudo acho que a Dra. Vier está se sentindo melhor; ela entrelaçou as mãos com firmeza na frente do peito.
“M-Muito bem! Estou cheia de determinação! Vou trabalhar mais duro hoje do que nunca!”
“Ah, é... Que bom.”
“Bom, já está na hora de eu arrumar as coisas e me despedir, Miyama-kun...”
“Aah! Dra. Vier, cuidado onde pisa! Tem um degrau aí!!!”
“Hã? Kyaaahh!”
“!?”
Ela estava prestes a dar um passo vigoroso para frente, no entanto o altar fica um degrau acima do nível do chão... Percebi na mesma hora o que ia acontecer, então estendi as mãos para ela.
E, de alguma forma, consegui segurar a Dra. Vier, que havia perdido o equilíbrio e estava prestes a cair.
“T-Tudo bem?”
“U-Uhum... O-Obrigada.”
Que bom... Graças à silhueta esbelta da Dra. Vier, até eu, que não sou forte, consegui segurá-la.
Se não tivesse conseguido apoiá-la e ela tivesse caído, teria sido uma situação realmente vergonhosa... Preciso começar a malhar um pouco mais. Vou fazer isso.
Ao ajudá-la a se levantar, me certifico de que está firme sobre os pés antes de soltá-la. Ainda conseguia sentir a sensação do seu corpo nas minhas mãos, de quando a segurei mais cedo; e, embora tivesse dito todas aquelas coisas sobre respeitá-la, senti meu coração disparar.
A Dra. Vier é esbelta, contudo... É bastante avantajada... Espera, no que diabos estou pensando?
“Ei, Miyama-kun.”
“Hã? Ah, sim!”
“Venha me visitar de novo. Mesmo nos dias em que a Noir-san não for receber tratamento... Pelo menos lhe servirei uma xícara de chá.”
“Sim. Claro. Eu adoraria visitar de novo.”
Não sei se é porque a Dra. Vier é uma curandeira ou não, no entanto é uma pessoa gentil e bondosa, e conversar com ela me traz alívio; por isso, fiquei grato pela oferta.
Continuarei visitando-a no futuro, embora não a ponto de atrapalhar o seu trabalho como médica.
Já estava tarde da noite, então saí da igreja/hospital enquanto a Dra. Vier se despedia de mim.
Ela acenou levemente para mim, e retribuí o aceno antes de virar as costas... No entanto foi aí que acho que ouvi uma voz baixinha.
“Deve ser por isso que a Kuromu-sama gosta de você, hein...”
“Hã? Disse alguma coisa?”
“Não. Não é nada... Até mais!”
“Ah, sim.”
Virei-me para perguntar o que tinha acabado de dizer, todavia a Dra. Vier apenas balançou a cabeça e mostrou um grande sorriso.
A expressão radiante em seu rosto me acalmou e, acenando mais uma vez em despedida, segui para casa.
Querida mãe, pai —muitas coisas aconteceram com a Dra. Vier no passado, e parecia estar muito arrependida por disso. Não há nada que eu possa fazer em relação a esse arrependimento, e talvez não deveria me intrometer nessas questões sem pensar... Mas, independentemente do que houve, o que penso sobre ela é que — acho que é uma pessoa digna de respeito.
Notas do Autor:
Não, Kaito, você é um riajuu mulherengo. Vá morrer.
Serious-senpai: “N-Não vou me deixar enganar... S-Ser apaziguada com tanta potencial... P-Por favor, me de mais!”
Na verdade, planejava começar o arco do Sieg no próximo capítulo, porém a visita do Kaito à igreja se estendeu mais do que pensei, então vou suspender o arco da Sieg por mais um capítulo e inserir outra história.
Peço desculpas.
***
Link para o índice de capítulos: I Was Caught up in a Hero Summoning, but That World is at Peace
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