domingo, 1 de novembro de 2026

The Perfect Insider — Capítulo 04

Capítulo 04: O Passado Marrom


Parte 1

— Ele não está no escritório.

Eles ouviram a voz da Sra. Shindo, esposa do diretor, vinda do terminal.

— Obrigado, senhora. Então, ainda deve estar no helicóptero. Vou dar uma olhada. — Yamane respondeu. Todos os outros na sala olharam em sua direção.

— Vou com você. — o Dr. Yuminaga se levantou ao lado de Saikawa. Moe também se levantou em silêncio.

— Será que o diretor está tendo problemas para se comunicar com a polícia? — disse Moe ao ouvido de Saikawa. — Eu vou com eles.

— Não sairei daqui até a polícia chegar. — disse Saikawa, inexpressivo.

Deixando Saikawa e Ayako Shimada sozinhos na sala, os três entraram no elevador.

Como antes, Yamane apertou o botão <R> que indicava o terraço.

— Será que o diretor foi para algum lugar de helicóptero? — perguntou o Dr. Yuminaga.

Yamane colocou a mão direita no vidro e abriu a porta branca que dava para o terraço. O helicóptero estava no mesmo lugar de antes. As luzes estavam apagadas e os rotores parados. Os três saíram lentamente para o ar úmido.

— Isso é estranho... — Yamane olhou ao redor do terraço. — O diretor não está no helicóptero. Dado que o diretor não estava em seu escritório, este deveria ser o único lugar restando para estar...

— Será que não entrou no instituto de pesquisa por aquela entrada? — Moe apontou para a casa do elevador do outro lado do terraço. Aquela parecia ser a entrada pública para o terraço. Ao luar, puderam ver que o terraço estava vazio. A luz não era suficiente, mas nenhum obstáculo bloqueava a visão.

— O diretor nunca usaria aquela entrada. É mais conveniente usar este caminho... — disse Yamane.

Os três caminharam até o helicóptero e o rodearam.

O Dr. Yuminaga parou de repente e Moe, que estava caminhando com os olhos voltados para o lado, esbarrou nele. Quando Moe olhou para o rosto de Yuminaga para se desculpar, este encarou a cabine do helicóptero, com os olhos arregalados.

— Yamane! — Yuminaga o chamou sem se mexer.

Yamane também pareceu ter notado algo. Moe não conseguiu ver claramente.

Yamane correu para o outro lado do helicóptero e abriu a porta lateral da fuselagem com força. A cabine estava toda escura. Yuminaga embarcou primeiro, seguido por Yamane.

Moe estava um pouco atrás dos dois, colocando o pé no degrau e agarrando a alça na lateral da fuselagem para subir.

O boné do Diretor Shindo havia caído no chão da cabine.

Havia cheiro de sangue.

Estava escuro e difícil de ver, porém parecia haver algum líquido escorrendo pelo chão.

Yamane foi para a frente e tocou o corpo do Diretor Shindo, sentado no assento do piloto. Yamane soltou um longo e profundo suspiro. Moe deu um passo à frente e tentou observar melhor o Diretor Shindo.

A pouca luz que entrava pela janela da frente revelou um objeto estranho preso na nuca do diretor.

Aquela parte de sua camisa branca estava completamente preta. Não, talvez fosse vermelha.

Por alguns instantes, Moe prendeu a respiração.

— É uma faca, não é?

— Ele ainda está quente. — Yuminaga tocou de leve a mão do diretor e balançou a cabeça. — Que loucura...

— Está morto? — perguntou Yamane.

— Sim... — respondeu Yuminaga.

O Diretor Shindo estava sentado no assento do piloto, curvado para a frente. Estava encostado no painel de instrumentos, no apoio de braço ao lado. Eles podiam ver seu rosto virado para o lado e seus olhos fechados, como se estivesse dormindo.

Moe desviou o olhar do rosto inexpressivo.

Por um momento, a noite horrível em que seus pais morreram passou por sua mente, contudo se apressou em afastar o pensamento.

Ela concentrou os nervos na visão e tentou não olhar para o cadáver.

Respirou fundo e observou os arredores na cabine de comando.

— Vejam, aqui está quebrado. — Moe apontou para um console no teto da cabine.

Yamane estendeu a mão na direção apontada. O painel naquela seção do teto estava amassado e vários cabos pendiam dali. Os mostradores também estavam quebrados.

— Isso é o rádio. — disse Yamane. — Será que o assassino tem um martelo ou um alicate...?

— O assassino destruiu o rádio, certo? — Moe confirmou.

Yamane pareceu surpreso de repente.

— Certo...

— Resumindo, a polícia ainda não foi notificada. — disse Yuminaga com uma expressão calma. — Esta é uma situação preocupante. Vamos voltar agora. Devemos reunir todos. Yamane.

— Quem fez isso? — exclamou Yamane.

Moe voltou para o banco traseiro do helicóptero. Ela se sentiu um pouco enjoada e observou os assentos ao seu redor para tentar se distrair. Havia um mapa em um dos assentos. A fuselagem tinha assentos para cinco passageiros, além do assento do piloto. À medida que seus olhos se ajustavam, pôde ver sangue no chão.

Moe saltou do helicóptero. Quando pousou no chão, sentiu uma forte dor de cabeça.

Yuminaga e Yamane também saíram do helicóptero.

— Há alguém nesta instalação que saiba pilotar um helicóptero? — perguntou Moe a Yamane.

— Não, o diretor era o único. Este helicóptero é sua propriedade pessoal. — respondeu Yamane. — Enquanto o rádio estiver quebrado, este helicóptero será inútil.

— Hm, talvez alguém possa consertar o rádio. — Moe deu sua opinião.

— Ah, vou pedir para alguém dar uma olhada. — disse Yamane fracamente. — Nishinosono, eu a respeito. Como pode tomar uma decisão tão calma?

— Desculpe. Não quis dizer isso... — Moe se desculpou.

— Não, não é hora de ficarmos deprimidos. — o Dr. Yuminaga tocou no ombro de Yamane. — Vice-diretor Yamane. Há um assassino nesta instalação. Duas pessoas já foram mortas.

Os três fecharam a porta do helicóptero e entraram no elevador, deixando o corpo do Diretor Shindo para trás.

Devia ser impossível para ele próprio cravar a faca naquela parte do corpo. O Diretor Shindo foi morto por alguém agora mesmo, pensou Moe. E o assassino é alguém conhecido. Talvez o diretor estivesse ajustando o rádio ou se comunicando com alguém. Ainda assim, não havia como não ter notado a pessoa que abriu a porta e entrou. O diretor definitivamente viu aquela pessoa. E, apesar de vê-lo, virou as costas essa pessoa. A cabeça de Moe girava a toda velocidade. Depois de matar o diretor, o assassino não deve ter usado este elevador para escapar. A pessoa usou a porta do outro lado. O assassino está dentro desta instalação.

Será que este assassino é a mesma pessoa que matou a Dra. Magata?

Tenho certeza que sim, pensou Moe intuitivamente.

Então, o assassino não está mais no quarto da Dra. Shiki Magata...?

— Doutor... Poderia me dar um remédio para dor de cabeça? — perguntou Moe ao Dr. Yuminaga no elevador.



Parte 2

O vice-diretor Yamane, o Dr. Yuminaga e Moe Nishinosono retornaram ao segundo subsolo.

As únicas pessoas naquela sala eram Ayako Shimada e Saikawa. Na sala ao lado, Mochizuki e Hasebe conversavam entediados. Yamane não disse nada, todavia era óbvio para os outros, por sua expressão, que algo sério havia acontecido.

— O que houve? — Saikawa se levantou e se aproximou de Moe.

— O diretor Shindo foi morto no telhado. — relatou Moe. — Dentro de um helicóptero, para ser mais preciso. O rádio também foi destruído.

Saikawa apenas assentiu e não disse nada. Yamane também olhou para o rosto de Saikawa e assentiu. Houve um barulho alto vindo de trás, e Saikawa se virou para ver Ayako Shimada, que estava sentada em frente ao terminal, se levantando. A cadeira estava caída no chão aos seus pés.

— Ele pode não ter conseguido contatar a polícia ainda. — Yamane enfim se pronunciou. — De fato... Eu me pergunto o que devemos fazer...

— De qualquer forma, devemos informar a esposa do diretor. — disse Yuminaga em voz baixa. — Eu irei...

O Dr. Yuminaga entrou no elevador de novo.

— Shimada... — disse Yamane em voz alta e se aproximou de Ayako Shimada, que estava perto do terminal. — Descubra quem abriu a porta no telhado.

Shimada recolheu a cadeira que havia caído e moveu o mouse enquanto olhava para a tela. Saikawa e Moe estavam atrás dela.

— Como ele foi morto? — Saikawa acendeu um cigarro.

— Uma facada na nuca... — respondeu Moe. — O corpo permaneceu sentado no assento do piloto do helicóptero.

A palavra “faca” fez os ombros de Ayako Shimada estremecerem.

— Havia alguém? No telhado? — Saikawa imediatamente fez a próxima pergunta.

Moe balançou a cabeça, negando.

— Não há ninguém em cima da casa do elevador? — perguntou Saikawa.

— Bem... — Moe pensou por um momento e então balançou a cabeça outra vez. — Você olhou lá, Yamane?

— Não... Ninguém consegue subir lá. — disse Yamane. — Não importa. A questão é quem saiu no telhado...

Ayako Shimada exibiu várias janelas e estava ocupada digitando no teclado. Uma lista apareceu na janela superior direita da tela. Shimada rolou por ela.

— Bem, a última pessoa é o Yamane. — disse Shimada com a voz trêmula. — São 02:14 da manhã... Há poucos minutos.

— Quem estava lá antes? — perguntou Yamane.

— Também foi o Yamane. São 01:43 da manhã... — respondeu Ayako Shimada com uma voz que parecia prestes a chorar.

— A porta não foi usada... — disse Yamane imediatamente. — Verifique a outra saída.

Shimada moveu a janela de volta e clicou com o mouse. Uma nova janela apareceu na mesma posição, exibindo instantaneamente a lista.

— Foi o Mochizuki. Hmm, às 01:44 da manhã. — Shimada leu a lista em voz alta. — O registro anterior é... Ontem de manhã, porém...

Yamane estalou a língua.

— Que estranho... Não pode ser. Absolutamente não.

— Não há garantia de que Débora seja perfeita. — Ayako Shimada se virou e olhou para Yamane. — Quer dizer, muitas coisas estranhas estão acontecendo...

— Não diga uma coisa tão ilógica. — disse Yamane em tom firme. — Como o sistema pode ficar tão descontrolado assim?

Lágrimas escorriam dos olhos de Ayako Shimada. Yamane pareceu enfim notá-las.

— Desculpe, parece que estou irritado... Peço desculpas... Chame o Mizutani, por favor.

Shimada assentiu e digitou no teclado. Dessa vez, uma pequena janela apareceu no canto superior esquerdo da tela, mostrando um close do rosto gordo do Engenheiro Chefe Mizutani.

— Onde você está agora? — Yamane falou para a tela. Ayako Shimada cedeu seu lugar para Yamane e se levantou.

— No meu quarto. Estou tomando um drinque e tentando entender o sistema. — disse Mizutani, rindo na tela. — Sabe, é mais seguro ficar no meu quarto... Até agora, não encontrei nada de errado com nenhum dos sistemas. Estou começando a achar que talvez seja um problema de hardware que está impedindo as ligações e os e-mails de funcionarem. Duvido que seja possível, no entanto. Vocês já entraram em contato com a polícia?

— Não tenho certeza! — respondeu Yamane.

— Não tem certeza? Do que está falando? Não consegue sinal de rádio? — Mizutani gritou tão alto que o som do alto-falante estalou um pouco.

— O diretor foi assassinado. — disse Yamane.

— Assassinado? — Mizutani ficou boquiaberto. — O diretor foi assassinado... Como assim?

— Significa que agora temos dois corpos. — explicou Yamane. — De qualquer forma, gostaria de conversar com você sobre o que devemos fazer. Poderia vir até esta sala?

— Mas, mais cedo... Como assim? O diretor foi... Assassinado? Por quem? — o rosto de Mizutani se fechou. — Onde ele foi morto?

— No telhado. Não sabemos quem é o culpado. — disse Yamane.

Mizutani na tela os encarou por um tempo, entretanto logo desviou o olhar. Então, pegou o copo com a mão direita e bebeu tudo de uma vez.

— Certo. Irei aí depois que terminar meu trabalho atual.

A janela que mostrava Mizutani desapareceu.

Ayako Shimada estava sentada em uma cadeira perto da janela, com as mãos no rosto, assentindo com a cabeça. Antes que percebessem, Mochizuki e Hasebe saíram da sala ao lado. Os dois ficaram em silêncio atrás de Saikawa e Moe.

— Yamane. Acho que deveríamos dar uma olhada no quarto da Dra. Magata. — disse Mochizuki enquanto colocava seu boné de beisebol de volta na cabeça.

Yamane se virou e lançou um olhar penetrante para Mochizuki. Em seguida, olhou para Saikawa.

— Concordo com ele. — Saikawa assentiu. — Podemos aprender algo fazendo isso. Se a polícia não vier, devemos coletar informações precisas por conta própria o mais rápido possível. Vamos entrar, tomando cuidado para não tocar em nada.

— Ok... — disse Yamane. — Vamos entrar.

Todos olharam para a porta amarela à sua frente.



Parte 3

O Dr. Yuminaga e sua esposa voltaram pelo elevador.

— Yamane. — o Dr. Yuminaga aproximou-se de Yamane enquanto tocava seu bigode. — Não devemos deixar a Dra. Magata e o Diretor Shindo assim. Precisamos levá-los para outro lugar.

— Por que você pensa assim? — perguntou Yamane.

— É uma questão emocional. — explicou Yuminaga. — Na minha opinião, é bom senso fazer isso...

— Não há nada que possamos fazer pelos mortos... — disse Yamane. — É melhor evitar o esforço desperdiçado.

— Entendido. Se você diz isso, não vou me opor. — o Dr. Yuminaga curvou levemente os lábios e sorriu. Em seguida, tirou comprimidos de um saco plástico do bolso do jaleco branco e ofereceu a Moe. — Aqui está, Nishinosono.

— Obrigada. — Moe recebeu os comprimidos. Eram dois comprimidos juntos.

— Um comprimido é suficiente para ajudar. — aconselhou Yuminaga a Moe. — Se tomar dois de uma vez, você ficará com sono.

— Não seria uma má ideia dormir um pouco. — brincou Moe.

— Como estavam as pessoas lá em cima? — perguntou Yamane. — A Sra. Shindo está bem? E a Srta. Magata?

— Ah, estavam bem. — Yuminaga assentiu. — Eu as informei sobre o diretor. A Sra. Shindo aceitou a situação calmamente. A Srta. Miki Magata já estava dormindo no quarto de hóspedes.

A Sra. Yuminaga assentiu ao lado do marido e acrescentou.

— Demos um tranquilizante para a Miki.

— Doutor Yuminaga, vamos entrar naquela sala. — explicou Yamane. — É a sala da Sra. Magata. Poderia nos acompanhar?

— Ah, entendi. Então essa foi a decisão que vocês tomaram... — Yuminaga ergueu um pouco os óculos. — Certo. Vamos encontrar os membros da Dra. Magata... Seria melhor se as moças não nos seguissem.

A Sra. Yuminaga caminhou até Ayako Shimada, que estava sentada no canto da sala.

— Agora, vamos entrar naquela sala comigo, o Dr. Yuminaga e... Mochizuki. — disse Yamane, olhando para todos ao redor. — Hasebe, fique de guarda na porta. Esta sala está cheia de mulheres. Alguém pode estar lá dentro e sair correndo.

— O que eu devo fazer? — perguntou Saikawa em tom baixo.

— Professor Saikawa, você... Vamos ver... O que gostaria de fazer? — Yamane perguntou em resposta.

— Se não for incômodo, também gostaria de ver o quarto da Dra. Shiki Magata. — respondeu Saikawa. — Pode ser inapropriado, porém tenho interesse em saber que tipo de vida ela teve durante os últimos quinze anos.

Ninguém pareceu ter ouvido a segunda parte das palavras de Saikawa. Moe ficou em silêncio perto de Ayako Shimada, e pareceu um tanto estranho para Saikawa que Moe não se oferecesse para ir junto. Ela poderia na verdade estar em estado de choque.

Por fim, o Vice-Diretor Yamane, o Dr. Yuminaga, Mochizuki e Saikawa abriram a porta amarela e entraram na sala.

A porta de alumínio do lado de dentro se abriu sem fazer nenhum som enquanto Yamane erguia a mão direita em frente a ela e dizia seu nome.

— Como você abre esta porta por dentro? — perguntou Saikawa.

— Ela faz o mesmo. Quero dizer, a Dra. Magata fazia. — respondeu Yamane.

O quarto estava todo escuro, contudo com a lanterna de Mochizuki, eles primeiro descobriram o interruptor de luz no fundo do cômodo.

Mochizuki caminhou até lá e pressionou o interruptor com a ponta de sua caneta. Assim que a luz acendeu, eles ordenaram que Débora deixasse a porta de alumínio aberta, e os quatro seguiram para o centro da sala.

Era uma sala grande com um conjunto de recepção, e estantes de livros ocupavam uma parede. Perto da porta por onde entraram, havia um objeto de madeira preta com apenas um rosto humano, como parte de um totem.

Este objeto deve ser uma peça de arte popular da África, pensou Saikawa. Para que serviam o pequeno sofá e a mesa de vidro e alumínio? Esta sala nunca deve ter sido usada para receber convidados. Para sua surpresa, as estantes estavam repletas de enciclopédias, obras completas de literatura ou livros ilustrados sobre arte e história, em vez de livros sobre tecnologia da informação.

Não havia nada de incomum nesta sala de recepção. Era uma sala de recepção padrão, um pouco espaçosa. Não seria surpreendente se estivesse em uma residência particular. A única característica distintiva era a ausência de janelas em qualquer um dos quatro lados da sala. Saikawa já havia se acostumado com a falta de janelas desde que entrara naquele instituto de pesquisa.

A sala de recepção tinha duas portas. Uma era uma porta de alumínio, deixada aberta, que servia de entrada para aquela residência superprivada e era a única rota de acesso ao mundo exterior. A outra porta ficava na parede oposta. Era uma porta de madeira de design robusto e tradicional.

Era óbvio à primeira vista que não havia espaço para alguém se esconder naquela sala de recepção. Yamane estava prestes a colocar a mão na porta de madeira. No entanto Yuminaga o impediu, tirou um lenço do bolso e girou a maçaneta.

Do lado de fora da sala de recepção havia um espaço longo e estreito, semelhante a um saguão. Desta vez, Yuminaga acendeu uma luz com o lenço. Havia três portas além daquela pela qual haviam acabado de passar, e grandes pinturas decoravam o restante das paredes. O piso era de madeira.

Eles abriram a porta mais próxima e acenderam a luz. Era uma sala grande com paredes totalmente brancas. À primeira vista, parecia uma oficina. No centro da sala, havia três computadores, duas estações de trabalho e cinco monitores dispostos em forma de leque ao redor de uma cadeira. Os cabos haviam desaparecido em buracos no chão. Outro monitor menor estava em um canto da sala. Ao observá-lo com mais atenção, percebeu-se que era um aparelho de televisão antigo. Três grandes mesas de trabalho estavam enfileiradas contra a parede, e sobre elas havia várias peças de sucata mecânica que Saikawa não conseguia determinar se estavam sendo montadas ou desmontadas. Um torno de bancada estava preso a uma das mesas, e ferramentas como furadeiras elétricas, serras de rosca, chaves de fenda, chaves inglesas e ferros de solda estavam amontoadas ao longo das paredes. Debaixo da mesa, havia várias caixas de papelão grandes. Um aspirador de pó grande estava abandonado perto da mesa.

— Essa é a oficina da doutora? — perguntou Saikawa.

— Acho que sim... — respondeu Yamane.

A sala de segurança onde Hasebe e Mochizuki estavam de plantão parecia estar do outro lado da parede desta sala. Eles viram a abertura da caixa de correio na parede.

Havia duas pequenas salas nos fundos. Uma era um depósito, a outra uma sala de comunicação com paredes brancas e um videofone. A conversa entre a Dra. Magata e o mundo exterior parecia ocorrer nesta pequena sala. Em ambas as salas, eles abriram as portas e verificaram. Não havia sinal de ninguém. Após uma rápida verificação, os quatro retornaram ao saguão.

Moe Nishinosono apareceu pela porta da recepção, que estava aberta. Ao ver o rosto de Saikawa, Moe sorriu e disse.

— Minha dor de cabeça parece ter passado...

Moe então entrou na oficina por onde os homens tinham acabado de sair. A porta também estava aberta.

Yamane então usou um lenço para abrir a porta à esquerda, no fundo do saguão, e em seguida acendeu a luz.

— Todas as luzes estão apagadas. — disse Yamane para si mesmo. — Este cômodo é... Seu escritório.

O cômodo era relativamente pequeno, com três paredes de estantes de livros que iam até o teto. Uma escada de alumínio de aparência leve estava encostada em uma das estantes. No centro, havia uma escrivaninha única e robusta. Não havia nada sobre ela. Em vez disso, uma luminária Z estava presa à extremidade e um sino de vento de vidro azul pendia do meio de seu braço. O cômodo era limpo e organizado. As estantes estavam quase cheias de livros. Mais da metade eram livros ocidentais e, pelo que Saikawa podia ver, a maioria eram livros técnicos. O que ela faria com ainda mais livros? Saikawa se preocupava desnecessariamente.

— Encontrou alguma coisa? — perguntou Moe.

— Não, nada! — respondeu Saikawa.

Yamane abriu a última porta, que dava para o saguão.

O cômodo também estava escuro. Quando Yamane acendeu a luz, viram que era uma sala de jantar e cozinha, do tamanho de um apartamento típico. Havia uma pequena mesa e duas cadeiras. Não viram nada sobre a mesa. Atrás dos armários, havia uma pequena cozinha. Ela era equipada com uma pia de aço inoxidável, forno, micro-ondas, geladeira, fogão e lava-louças. A pia estava limpa e organizada, e nenhum prato estava fora do lugar. Em cima do fogão, havia uma panela elétrica de design elegante.

Moe entrou no cômodo mais tarde e estava olhando ao redor.

Havia duas portas na sala de jantar, opostas à porta por onde haviam entrado.

Yamane abriu cuidadosamente a porta da direita. Havia uma pia com uma máquina de lavar e secar roupa, e logo atrás, um banheiro. Havia também um pequeno depósito, contudo nada de incomum. O banheiro era antigo e um tanto sujo, no entanto havia sido limpo com cuidado.

— A Dra. Magata parecia gostar de limpar. — disse Moe, olhando para o banheiro. — Fazia toda a faxina sozinha, não é?

— Claro, sem mordomo. — brincou Saikawa, olhando para a pia.

Todos voltaram para a sala de jantar e decidiram abrir a outra porta.

— Aquele é o quarto... — disse Moe lá do fundo.

O Dr. Yuminaga e Mochizuki, que usava boné de beisebol, esperaram em silêncio que Yamane abrisse a porta. A única parte da residência da Dra. Magata que ainda não tinham visto ficava além daquela porta.

Yamane envolveu a maçaneta em um lenço e estava prestes a girá-la. Depois de um instante, virou-se, olhou para os outros e disse.

— Está trancada...



Parte 4

— Tem uma fechadura na porta? — murmurou Saikawa. — Para quê?

— Este quarto não foi construído para confinar a Dra. Magata desde o início. — explicou Yamane. — Originalmente, era para abrigar os pais dela.

— Ela trancou a porta por fora? — o Dr. Yuminaga aproximou o rosto da maçaneta. — Não... Não é o caso.

Não havia fechadura naquela maçaneta.

— Acho que deveria ser trancada por dentro. — disse Yamane.

— Está dizendo que tem alguém dentro do quarto? — perguntou Mochizuki, colocando o boné de beisebol de volta. Saikawa sentiu que entendia um pouco sobre o que havia acontecido quando Mochizuki colocou o boné ao contrário.

— Deveríamos arrombar? — sugeriu o Dr. Yuminaga.

Yamane bateu na porta algumas vezes para ver o que estava acontecendo. Não parecia ser uma porta muito resistente.

— Esperem! — disse Moe. — Fiquem quietos...

Eles ouviram um barulho vindo de dentro do quarto.

Todos prenderam a respiração.

Era uma voz humana baixinha vinda de dentro do quarto.

— Quem é? — perguntou alguém.

Era uma voz feminina.

— Essa é a voz da Dra. Magata... — Moe sussurrou. Sua voz estava trêmula.

— Sou eu, Yamane! Por favor, destranque a porta! — Yamane gritou.

Ouviu-se o som de alguém tocando a porta dentro do quarto.

Yamane recuou um pouco. O Dr. Yuminaga tinha a mão sobre o bigode.

Ouviu-se um leve clique perto da porta.

Todavia a porta não se abriu.

Um momento tenso se passou.

— Você é a Dra. Magata? — perguntou Yamane.

— Quem é você?

Eles ouviram a mesma voz baixinha de antes vinda de dentro do quarto.

Yamane agarrou a maçaneta de novo com o lenço na mão.

A maçaneta girou e a porta foi lentamente empurrada para dentro.

O quarto estava iluminado.

Ninguém saiu do quarto.

Todos prenderam a respiração por um instante e esperaram, mas nada aconteceu.

Rapidamente, algo apareceu por trás da porta que se abriu para dentro.

— Quem é você? — repetiu a mesma pergunta. A exata mesma entonação.

— Um robô... — Yamane suspirou.

Era um robô cilíndrico com cerca de um metro de altura. Tinha dois pneus grandes. Não tinha cabeça, e dois pequenos objetos semelhantes a câmeras se moviam acima de seu pescoço. Tinha apenas um braço, porém era muito longo, dobrado em três partes e saindo de suas costas.

— Quem é você? — Yamane perguntou ao robô.

— Eu sou Michiru. — respondeu o robô. Sua voz era muito mais próxima de uma voz humana do que de uma voz eletrônica como a de Débora.

Todos entraram naquele quarto espaçoso. Havia um tapete de pelo curto por toda parte, um sofá grande e uma mesa baixa. Havia alguns balões pequenos e murchos espalhados pelo chão. Um grande urso de pelúcia estava sentado no sofá com as pernas esticadas.

— Wow, isso é Lego... Que nostalgia. — disse Moe, olhando para um recipiente de plástico ao lado do sofá. O recipiente estava cheio de pequenos blocos de brinquedo: vermelhos, brancos, amarelos e azuis. Perto dali também estava um boneco montado com milhares ou dezenas de milhares desses blocos. Era um guarda real britânico de cartola, literalmente um soldadinho de brinquedo.

— Este brinquedo foi comprado pela senhora há alguns anos. — disse Mochizuki. — Lembro que o coloquei na caixa de correio várias vezes. — seu boné havia retornado à sua posição normal.

A cama ficava no fundo do quarto. Estava coberta com uma colcha de retalhos e tinha um pequeno urso polar de pelúcia em cima. Bem ao lado da cama havia uma mesa de madeira antiga com uma máquina de costura. Ela devia se sentar na cama quando usava a máquina de costura.

— A senhora estava fazendo patchwork¹, não é? — disse Moe, olhando ao redor da máquina de costura. Uma cômoda de vime estava ao lado da máquina de costura.

Yamane foi abrir a porta do armário no fundo do quarto. Moe o seguiu e olhou dentro, mas logo voltou.

— Não é muita roupa para uma mulher. — comentou Moe.

— Deve ser... — Saikawa assentiu. — Ela não saiu, e não há estação do ano aqui. Provavelmente é um décimo do que você tem em roupas.

— É menos de um trigésimo. — respondeu Moe, com naturalidade.

Yamane voltou para o robô, que havia parado perto da porta.

— Michiru. — disse Yamane para ele.

— Sim, eu sou Michiru.

— A voz desse robô é a da Dra. Magata, certo? — disse Moe enquanto pegava o ursinho de pelúcia do sofá.

— Onde está a Dra. Magata? — perguntou Yamane ao robô.

— Dra. Magata? — perguntou o robô.

— O que aconteceu com a Dra. Shiki Magata? — voltou a perguntar Yamane.

— O que aconteceu? — perguntou o robô com a mesma entonação.

— Esse cara é inútil... — Yamane parecia ter desistido. — Esse robô trancou a porta?

Yamane observava o braço mágico que se estendia das costas do robô.

— Já que consegue abrir a porta, também consegue fechá-la. — disse Yuminaga.

A maçaneta interna da porta do quarto tinha uma chave que podia ser girada para o lado e trancada.

— Não tem nenhum lugar para alguém se esconder, não é? — disse Saikawa.

— E as caixas de papelão embaixo da escrivaninha naquele cômodo? — perguntou Moe enquanto colocava o urso de pelúcia de volta no sofá.

— Vou dar uma olhada. — disse Mochizuki, que estava perto da porta, e voltou pelo saguão.

— Este quarto está limpo demais. — Saikawa deu sua opinião. — Tudo está arrumado e organizado. Não parece que houve algum acidente repentino. A Dra. Magata pode ter sido sempre assim...

Todos voltaram para o saguão.

Eles espiaram a sala de trabalho e encontraram Mochizuki movendo caixas de papelão debaixo da mesa para examiná-las.

— Está vazia. — Mochizuki se levantou e balançou a cabeça. — Afinal, não há ninguém aqui, não é? Não deveria haver, desde o início...

— É possível que a senhora tenha passado por isso quando não havia mais ninguém aqui? — perguntou o Dr. Yuminaga a Mochizuki.

A mesma discussão já havia acontecido antes, porém o beligerante Mochizuki não estava disposto a contrariar o Dr. Yuminaga.



Parte 5

Mizutani entrou no saguão vindo da recepção, balançando a barriga avantajada.

— Não havia ninguém lá dentro? — perguntou Mizutani, ofegante.

— Sim... Não havia ninguém lá dentro. — respondeu Yamane. Mochizuki também olhou para Mizutani e sorriu alegremente.

— Não conseguimos encontrar os braços ou as pernas dela... — acrescentou o Dr. Yuminaga. — Bem, não posso afirmar com certeza até que façamos uma busca melhor...

Saikawa vinha se perguntando sobre isso há muito tempo. Moe também olhou para o rosto de Saikawa e quis dizer algo.

Mizutani olhou para a oficina de trabalho da Dra. Magata e entrou.

Ele aproximou o rosto dos cinco computadores no meio da sala, olhou para os outros e disse.

— Todos estão desligados... Nem mesmo os discos rígidos estão funcionando.

— Tente ligá-los. — pediu Yamane a Mizutani.

Os computadores geralmente são desligados quando não estão em uso. Portanto, não era estranho que os três computadores usados ​​pela Dra. Magata estivessem desligados. As duas estações de trabalho, contudo, não estavam. Computadores dessa classe raramente são desligados. Leva tempo para colocar o sistema em funcionamento, e tanto as máquinas quanto os sistemas são projetados para funcionar 24 horas por dia.

Mizutani tocou nos interruptores das duas estações de trabalho. Em seguida, também ligou os computadores. Saikawa viu que uma das estações de trabalho era da empresa HP e a outra era de uma empresa japonesa. Ambas eram modelos bastante antigos, de 4 a 5 anos, no entanto quando foram lançadas, custavam mais de 10 milhões de ienes cada. Dois computadores eram Macintosh e o outro era um sem marca que Saikawa nunca tinha visto antes. Talvez fossem máquinas que a Dra. Magata comprou separadas e montou sozinha.

As estações de trabalho demoraram muito para inicializar. Letras e números verdes em inglês fluíam de baixo para cima na tela. As palavras vermelhas “Magia Vermelha” apareceram várias vezes durante o processo.

Todos os computadores estavam funcionando em cerca de um minuto. A tela do computador sem identificação ficou preta, em modo terminal, e parou. Um calendário de agendamento preenchia a tela de um Mac, enquanto o outro aguardava em seu Finder habitual.

— Deveríamos poder tocá-lo? — Saikawa apontou. — Quer dizer, nossas impressões digitais ficarão no teclado, né...

— Ah, de fato... Eu já toquei nesse. — disse Mizutani, olhando para a tela da estação de trabalho. — Vou deixar o computador ali com você. Yamane. Você não se importa se tocarmos nele de novo?

— Tenho que admitir que sim. — Yamane assentiu.

Moe também se aproximou de Saikawa e tocou no computador. Os computadores estavam dispostos em linhas radicais² para que a Dra. Magata pudesse operá-los sozinha, então eles tiveram de trabalhar em um espaço apertado.

— Sério? — Mizutani exclamou. — Isto é incrível. Este é... a Versão 6 da Magia Vermelha.

— Versão 6? — Moe olhou para trás e perguntou.

— Certo, o sistema deste instituto de pesquisa ainda está na Versão 4. — explicou Mizutani. — Ouvi dizer que a doutora estava desenvolvendo a próxima versão, mas... Fiquei surpreso ao saber que existe uma Versão 6. Então, acho que significa que a Versão 5 já está concluída...

Saikawa olhou primeiro para a tela do computador que mostrava a agenda. Embora fosse uma agenda, quase nada estava escrito no calendário. Já passava da meia-noite, então a data já havia mudado. Quando abriu a parte da data de ontem, encontrou uma única linha de mensagem escrita ali.



Tudo se tornará F.



— Tudo se tornará F? — disse Saikawa, e Yamane espiou a tela.

— O que significa esse “F”? — perguntou o Dr. Yuminaga, que estava atrás dele.

— F de finalizar...? — Moe deu sua opinião.

Eles procuraram aleatoriamente por toda parte, todavia não encontraram nenhuma outra anotação no calendário.

Saikawa então procurou por um arquivo de anotações. O disco rígido tinha capacidade de um gigabyte, entretanto estava apenas pela metade.

Uma pasta na área de trabalho chamada “Documentos” continha apenas um texto chamado “Leia-me”.

Saikawa clicou duas vezes nele e exibiu seu conteúdo na tela.

— O quê? — exclamou o Vice-Diretor Yamane. Todos os olhares se voltaram para a tela à frente de Saikawa.



Não deixei nenhum rastro da minha vida no meu Mac. Não percam tempo, então aviso vocês. O mesmo vale para a estação de trabalho. Porém, não apagarei apenas o novo compilador e a Magia Vermelha Ver. 6 como meu último presente para vocês.

Shiki Magata



Discordei, contudo não tive escolha. Não suportava a ideia de deixar Michiru, que era quem mais queria ir. Essa é a minha única preocupação. No entanto tenho algo a fazer.

Kishio Kurimoto



Fiz toda a limpeza do quarto. Também tirei o mofo do banheiro. Quero ver o oceano pela primeira vez em muito tempo. Não suje o vestido de noiva.

Suma Sasaki



— Que diabos é isto? — disse o Dr. Yuminaga enquanto acariciava a barba. — É algum tipo de piada?

— Kishio Kurimoto e Suma Sasaki... Quem são eles? — perguntou Saikawa.

Após um momento de silêncio, Yamane respondeu.

— São personalidades diferentes da Dra. Magata... São personagens que ela mesma criou.

— Por que os sobrenomes são diferentes? — questionou Moe.

— Não sei! — disse Yamane. — Suspeito que eles também venham de lugares diferentes...

— Talvez tenha razão. — respondeu Yuminaga. — Elas se formam espontaneamente devido às suas diferentes personalidades. Como personalidades diferentes precisam de ambientes diferentes, inevitavelmente formam personalidades com origens, idades, etc. diferentes. Embora seja uma generalização...

— Pelo jeito, como a Dra. Magata avisou, não há mais arquivos de texto. — disse Saikawa, olhando para a tela. — Parece que os arquivos estavam todos organizados da mesma forma que a sala estava organizada.

O outro Macintosh também tinha apenas um arquivo “Leia-me” com o mesmo conteúdo na pasta de documentos.

— Não sobrou nada neste também. — disse Mizutani, que examinou um pouco a estação de trabalho. — Ela apagou tudo, exceto a Magia Vermelha e o compilador, ou o removeu em um disco rígido de cartucho?

Saikawa estava lendo as mensagens deixadas pelas doutoras Magatas (o plural seria apropriado neste caso) na tela de novo. Moe colocou o dedo na tela e disse.

— Podemos ler esses caracteres kanji como Michiru, certo?

Seu dedo apontava para os caracteres kanji de Michiru no texto.

— Ah, entendi... — Saikawa assentiu. — Esse é o robô que acabamos de conhecer...

— Será que é a boneca? — Moe murmurou para si mesma.

— Como assim? A boneca? — perguntou Mochizuki.

Moe não respondeu.

Por algum tempo depois, Mizutani digitou freneticamente no teclado para examinar o conteúdo do computador. Quanto ao computador, Yamane ficou de frente para a tela em vez de Saikawa. Mas, nenhum dos dois conseguiu encontrar nada, tal qual a mensagem de Shiki Magata havia dito.

Todos decidiram sair da sala, atravessar a recepção e sair.

— Como ela lidava com o lixo? — Saikawa perguntou a Yamane enquanto caminhavam pela recepção. — Durante o tempo que esteve aqui, o lixo era recolhido todos os dias, certo?

— O coletor de lixo deve estar em algum lugar desta residência. — respondeu Yamane.

— Eu vi na cozinha. — disse Moe.

— O lixo de lá é transportado por esteiras rolantes até um forno elétrico na sala de processamento, na extremidade norte do instituto. Não é só nesta sala, e sim para todas. Lá, o lixo é incinerado. É tudo automático.

— Vou dar uma olhada nisso daqui a pouco. — Saikawa parou. — Podem ir.

Todos saíram da sala pela porta de alumínio. Saikawa vislumbrou os rostos de Hasebe e Ayako Shimada do lado de fora. Saikawa voltou ao saguão e foi em direção à cozinha. Todas as portas estavam abertas, então pôde passar sem tocar em nenhuma delas. Moe o seguia.

Havia uma tampa de ferro na parede ao lado da geladeira, no fundo da cozinha, com uma alça. Saikawa pegou um lenço e puxou a alça. A abertura do coletor de lixo, que ficava na parte superior, tinha cerca de 30 centímetros de largura. Mesmo com a tampa totalmente aberta, a profundidade da abertura era inferior a 20 centímetros. Não era possível jogar fora nada muito grande por ali.

— Você pode cortá-los em pedaços pequenos e jogá-los fora se tiverem mais ou menos o tamanho de um braço e uma perna humanos. — disse Moe de repente atrás dele, o que fez Saikawa se assustar.

— Nishinosono, será que conhece a palavra delicadeza? — perguntou Saikawa a Moe.

— Significa algo frágil, certo? — respondeu Moe. A velocidade de raciocínio dela nessas situações era impressionante.

Saikawa olhou para o relógio. Eram cerca de 04:15 da manhã.

— Daqui a pouco... O sol deve clarear lá fora. — comentou Saikawa. — Passamos a noite em claro.

— Imagino o que aqueles caras no acampamento vão pensar quando acordarem? — disse Moe, sorrindo.

— Eu sabia... Que o assassino da Dra. Magata saiu deste quarto anteontem ou até antes. — Saikawa continuou enquanto retornava ao saguão. — Vamos deixar para depois como o assassino entrou e saiu do quarto. Pelo menos por enquanto não posso pensar nisso.

— Concordo. — Moe assentiu. Os dois pararam no saguão. — Professor, isso não é meio emocionante?

— Será que é algum passatempo seu? — Saikawa mostrou um pequeno sorriso.

— Sabe, não é misterioso? — Moe olhou para Saikawa.

— Estou apenas tentando me livrar da fúria que me consome. É como se eu fosse Nemuri Kyoshiro³.

— Nemuri Kyoshiro? Quem é esse?

— No entanto, o assassino... — disse Saikawa, pensativo. — O assassino matou a Dra. Magata e cortou seus membros. Depois... Limpou o seu quarto, apagou as evidências e deletou todos os dados do computador. Como você imaginou, o assassino deve ter jogado o membro decepado no coletor de lixo. Imagino que o banheiro seja onde o cara fez as mutilações. Não poderia ter sido em outro lugar. Depois limpou tudo e...

— Nesse caso, o criminoso esteve nesta residência por um bom tempo. — Moe cruzou os braços.

— Todavia o culpado estava no telhado mais cedo. — Saikawa apontou. — Você foi ao telhado com o Sr. Yamane nas duas vezes, não foi? Quando a Srta. Miki Magata veio aqui, o diretor ainda estava vivo. Entretanto quando voltaram ao telhado, já estava morto. Foi em apenas cerca de 30 minutos. Como o assassino chegou ao telhado...? Ou talvez o assassino estivesse no telhado desde o início e ainda esteja lá.

— Acha que é o mesmo assassino do assassinato da Dra. Magata?

— Não sei. — Saikawa balançou a cabeça. — Há tanta coisa que não sei... É uma situação muito confusa, não é? Me dói usar minha carta na manga numa hora dessas.

— O que? Uma carta na manga?

— Quero dizer... Esta não é a minha especialidade.

Os dois atravessaram a sala de recepção e saíram pelas portas de alumínio e amarelas.

Yamane, Mizutani e Yuminaga estavam num canto da sala, cochichando entre si. Ayako Shimada e a Sra. Yuminaga estavam sentadas em cadeiras perto da parede oposta.

Quando Saikawa pensou que não via Mochizuki e Hasebe, os dois apareceram vindos do corredor. Para surpresa de Saikawa, eles entraram empurrando o objeto coberto por um lençol. Era o corpo da Dra. Magata sobre o robô P1. Moe se virou e olhou para o outro lado. Ayako Shimada também cobriu os olhos.

— Decidimos colocá-la de volta no quarto. — explicou Yamane a Saikawa.

Mochizuki e Hasebe carregaram com cuidado o objeto para dentro pela porta amarela aberta. Pelo visto, eles o haviam deixado na sala de recepção. Por fim, quando os dois saíram da sala, a porta amarela foi fechada por Yamane.

— Vamos manter assim até a polícia chegar. — murmurou Yamane em um sussurro. — Agora... Avisem a todos nesta instalação para participarem da reunião online às 5hrs da manhã. Será daqui a 40 minutos. Shimada, por favor, entre em contato com eles. Estou com vontade de tomar um banho.

— Mochizuki, Hasebe e Mizutani. Vocês podem me ajudar a levar o corpo do diretor do telhado para o quarto? — quando Yuminaga disse isso, sua esposa também se levantou e caminhou em direção a eles. — Não podemos deixar o seu corpo no helicóptero. Sabe, a temperatura vai aumentar com o nascer do sol.

O Dr. Yuminaga e sua esposa, Mochizuki, Hasebe e Mizutani subiram de elevador.

Ayako Shimada disse que voltaria para o seu quarto e saiu para o corredor. Apenas Yamane, Saikawa e Moe permaneceram no quarto.

— Professor, vocês dois podem vir ao meu quarto? Vocês devem estar exaustos. — disse Yamane enquanto caminhava pelo corredor. — Ou os dois vão voltar para o acampamento agora?

— Não podemos voltar para o acampamento... — disse Saikawa. — Sabe, nós também testemunhamos o incidente... Quando a polícia chegar, teremos muito o que conversar.

— Quando acha que a polícia chegará? — perguntou Yamane, forçando um sorriso, mas também parecia bastante cansado. — Na pior das hipóteses, professor, seus alunos podem ter que vir para cá também. O barco não virá, então não poderão voltar para casa. Vocês só têm comida para três dias, não é?

— Esta instalação tem comida suficiente? — perguntou Moe.

— Sim, claro, temos comida suficiente para várias semanas. Se eles perderem contato com este instituto de pesquisa, alguém vai perceber em três ou quatro dias... — disse Yamane fracamente.

— Vá em frente! — disse Saikawa a Yamane. — Vamos esperar aqui que Yuminaga e os outros desçam. Seria ruim não deixar ninguém aqui, não é? Visitaremos o seu quarto mais tarde.

— Vão conseguir encontrar meu quarto? — perguntou Yamane.

— Ainda que eu não encontre, ela encontrará! — respondeu Saikawa. Moe assentiu ao seu lado.

Yamane saiu para o corredor. Saikawa acendeu um cigarro e ficou olhando para trás.

— Todos parecem exaustos. — sussurrou Moe.

Eles caminharam até onde estavam as cadeiras. Saikawa trouxe um cinzeiro para perto.

— Esta situação é meio como “Star Trek”, não acha? — disse Saikawa enquanto se sentava em sua cadeira e soltava a fumaça. — Quero dizer, a atmosfera aqui... Será porque o Dr. Yuminaga se parece com o Dr. McCoy?

— O doutor Yuminaga não é tão velho assim, acho. — disse Moe, rindo.

— Estou falando de uma versão de “Star Trek” de uma era diferente da que você conhece. — Saikawa sorriu. — Você está bem, Nishinosono? Imagino que esteja exausta. Esta viagem de seminário está sendo bem cansativa, não é?

— Estou bem. Professor... Tenho certeza de que você é quem está cansado, não é? — disse Moe, cruzando as pernas.

— Sim, porém talvez esteja um pouco melhor do que nozes de macadâmia... — disse Saikawa, sério.

Depois de pensar por um momento, Moe perguntou.

— Nozes de macadâmia? O que quer dizer?

— Haha, não significa nada. — Saikawa riu. — Piadas sem sentido são as melhores.



Parte 6

Saikawa fumava um cigarro e, inconscientemente, contava o número de sprinklers no teto.

Saikawa tentava processar a incrível realidade do que havia acontecido nas últimas horas, contudo tinha dificuldade em concentrar seus pensamentos.

Era apenas a segunda vez em sua vida que vivenciava uma noite tão dramática. A primeira, claro, fora a noite em que o avião que transportava seu mentor, o Dr. e a Sra. Nishinosono, não conseguiu pousar e explodiu em chamas. Aquilo também aconteceu no verão. Saikawa tinha ido ao aeroporto com Moe, uma estudante do ensino médio, para buscar o casal. Naquele momento, Moe gritou alto. O clarão demoníaco surgiu à distância e o som da explosão... Ambas eram cenas que não queria lembrar. Desde então, Saikawa nunca mais conversou com Moe sobre aquela noite.

Saikawa balançou de leve a cabeça e mudou de assunto.

Duas pessoas foram mortas. Uma foi morta em um quarto completamente trancado... Sim, um quarto trancado... Se bem me lembro, existe um termo para isso. A outra, por outro lado, foi assassinada ao ar livre. No entanto ambas as vítimas tinham em comum o fato de serem membros da família Magata, a filha biológica e o irmão do Dr. Sachiro Magata, que morreu 15 anos antes. Quem se beneficia com este caso...?

O quarto de Shiki Magata era o quarto perfeitamente trancado, além de tudo isso. Ninguém poderia ter tido acesso àquele quarto. Sem contar que, o acesso ao telhado onde o Diretor Shindo foi morto parece impossível.

— Quem escreveu aquelas mensagens? — de repente, Moe abriu a boca. — Quero dizer, aquelas três mensagens que foram deixadas no computador.

— Pelo menos, não acho que a pessoa que as escreveu tenha sido a Dra. Shiki Magata. — respondeu Saikawa a pergunta.

— Por quê? — Moe pareceu surpresa. — Está dizendo que o assassino escreveu aquelas mensagens?

— Talvez. — Saikawa assentiu. — Se a Dra. Magata deixou essas mensagens, não precisaria ter deixado seu nome lá.

— Mas, professor... — rebateu Moe. — Já que as três precisavam deixar essas mensagens, pode ser que ela quisesse distinguir de quem eram as palavras, certo?

— Não, essa ideia é um tanto antinatural. — disse Saikawa. — Primeiro, se foi a própria doutora quem escreveu a mensagem, é como se esperasse ser morta. E... Se a Dra. Magata realmente tivesse múltiplas personalidades e cada personalidade deixasse uma mensagem, elas teriam escrito uma mais longa. Não acho natural que escrevessem uma palavra de cada vez em um período tão curto. A mensagem foi deixada por um assassino. Foi bem feita demais.

O próprio Saikawa disse isso, e as palavras “bem feitas demais” ainda ecoavam em sua mente.

— Hmm... Então, o que significa aquela frase “Tudo se tornará F”? — Moe inclinou a cabeça. Essas eram as palavras escritas naquele calendário do computador.

— Quem sabe... Acho que não significava o fim, como você supôs... — respondeu Saikawa. — O fato do F estar em maiúsculo me incomoda. A tecla Caps Lock do teclado não estava bloqueada, então a pessoa teria que pressionar Shift ao digitar letras maiúsculas. Portanto, o fato de a pessoa ter se dado ao trabalho de escrever F em maiúsculo pode significar algo. É um nome próprio?

— Nome próprio? — Moe repetiu a palavra. — Eu me pergunto o que ‘tudo’ significa...

Eles ouviram um leve ruído vindo do elevador e logo o Dr. Yuminaga e os outros saíram.

— Ah, professor e mocinha, vocês dois ainda estão aqui? — disse Yuminaga. — Gostariam de tomar um drinque no meu quarto?

— Ah, não, obrigado. — Saikawa se levantou e disse. — Vamos para o quarto do Yamane.

— Entendo... — Yuminaga ergueu a mão ao responder e saiu para o corredor com sua esposa.

Mizutani, junto com Mochizuki e Hasebe, caminhou em direção à sala ao lado.

— Bem, vamos embora agora. — disse Saikawa para Mizutani. — Você vai ficar aqui, Mizutani?

— Haha, só pensei em tomar um drinque aqui. — disse Mizutani amigavelmente. — Fiquei com sede depois de tanto trabalho. Estou muito cansado. Sabe, nunca carreguei um cadáver antes.

Saikawa e Moe saíram para o corredor. As luzes do corredor funcionavam corretamente enquanto caminhavam.

— Será que alguém conseguiria se esconder dentro daquele robô P1? — perguntou Moe enquanto caminhava.

— Impossível. Se o robô estiver vazio, talvez seja possível entrar, todavia teria que ser tão versátil quanto um acrobata chinês.

— Então ninguém consegue se esconder dentro do robô chamado Michiru que encontramos antes. — murmurou Moe.

— Sua ideia é bem interessante. — Saikawa apreciou a opinião de Moe. — Você considerou a possibilidade de o assassino ter se escondido no robô e saído, não é? Hmm, isso pode fazer sentido...

— O que faz sentido?

— Quero dizer, essa hipótese explicaria por que o assassino colocou o vestido de noiva no cadáver da Dra. Magata e o colocou no robô para assustar a todos.

— Como ela conseguiu aquele vestido de noiva? — Moe perguntou, enquanto se lembrava. — Será que a Dra. Magata o fez sozinha? Encontrei uma máquina de costura no quarto dela...

— Bem... Enquanto você estava no telhado, Hasebe me disse que a doutora o comprou há três anos. Ouvi dizer que o encomendou por catálogo. — disse Saikawa.

— Por que razão? — Moe pareceu incrédula.

— Como posso saber? Talvez quisesse experimentá-lo uma vez...

— Não acredito que ela quisesse usar algo tão extravagante. — disse Moe.

— Oh? Mas você sempre se vestia como uma boneca no ensino fundamental.

— Professor! — Moe parou de repente. Seu rosto ficou vermelho. — Você se lembra dessas coisas? Que grosseria!

— Sobre o quê? — Saikawa ficou surpreso. Não sabia por que Moe estava de mau humor. — Algo te ofendeu?

Moe não disse mais nada. Saikawa também decidiu não insistir.



Parte 7

Eles bateram na porta do quarto de Yamane, no andar do subsolo.

— Quem é? — ao ouvir a voz de Yamane, Saikawa disse seu nome, e a porta deslizou silenciosamente.

Yamane estava sentado atrás da grande mesa, segurando uma xícara de café na mão. A pessoa sentada na frente da mesa olhou para Saikawa e Moe. Era a esposa do Diretor Shindo.

Yumiko Shindo cobriu a boca com um lenço. Seus olhos estavam vermelhos e seu semblante estava pálido.

— Ah, nós vamos... Dar uma volta pela área. — Saikawa se apressou em dizer.

— Não, não façam isso! — disse a Sra. Shindo. — Não precisam se preocupar comigo. Fiquem aqui, será melhor.

Saikawa e Moe entraram na sala pedindo desculpas. Yamane perguntou o que os dois queriam beber e desapareceu em direção à cozinha.

— O que devemos dizer a você...? — disse Saikawa enquanto se sentava.

— Professor, seu grupo chegou aqui em uma hora terrível, não é? — a Sra. Shindo tentava sorrir. — Oh, meu Deus, como isso aconteceu...? Fico pensando se eu conseguiria desistir se apenas presumisse que meu marido morreu em um acidente de helicóptero...? Sabe, esse era o único passatempo dele... Sempre pensei que morreria em um acidente em algum momento... Ele morreu em seu helicóptero favorito... Pode ter sido feliz... Quero pensar assim.

Ele teria sido feliz mesmo tendo sido morto...?

Saikawa pensou que sim, porém não conseguiu dizer em voz alta. Ele acenou com a cabeça para a Sra. Shindo.

— Senhora, posso lhe perguntar sobre um incidente que aconteceu há quinze anos? — disse Moe.

Saikawa lançou um olhar fulminante para Moe e tentou impedi-la, contudo Moe não olhou em sua direção.

— Claro, Nishinosono. Eu me sentiria melhor se estivéssemos falando sobre outra coisa. — a Sra. Shindo assentiu.

Yamane voltou com duas xícaras fumegantes de café em cada mão.

— A senhora viu a cena em que a Dra. Shiki Magata assassinou seus pais? — perguntou Moe, sem rodeios.

— Sim, vi. — respondeu a Sra. Shindo. — Quando cheguei lá, meu marido estava... Estava prestes a impedi-la.

— Então, a senhora não viu o assassinato acontecer? — perguntou Moe.

— Sim, o Dr. Magata estava... Quer dizer, o Dr. Sachiro Magata, pai da Shiki, foi esfaqueado e estava prestes a cair. Shiki estava coberta de sangue e segurando uma faca. Ela estava coberta de sangue... Oh... — a Sra. Shindo olhou para baixo, mas logo recuperou a compostura e suspirou. — Meu marido pulou em cima da Shiki por trás e a impediu.

— Naquele momento, a Sra. Magata já estava lá...?

— Sim, a Sra. Magata já estava no chão. Ela foi esfaqueada primeiro. — explicou a Sra. Shindo.

— Os dois morreram instantaneamente? — perguntou Moe.

Saikawa sentiu que essa não era uma pergunta apropriada para tais circunstâncias. Porém será que é um caso de “combater fogo com fogo”? Poderia ter um efeito inesperado.

— Não, a Sra. Magata morreu naquela noite e o Dr. Magata no dia seguinte. — disse a Sra. Shindo.

— Como estava a Dra. Shiki naquele momento? — Moe perguntou, segurando a xícara de café com as duas mãos.

— Ela tinha um olhar vago e estava em estado de abandono. Lembro-me bem de que, quando desmaiou, o Dr. Sachiro gritou para ela: “Eu nunca vou te perdoar”. Ao ouvir sua voz, Shiki de repente pareceu possuída por algo, gritou uma vez e depois riu histericamente. Foi uma expressão muito assustadora. Mesmo agora, me sinto horrorizada ao lembrar.

— Em qual cômodo ocorreu o incidente? — Saikawa perguntou desta vez. Estava na metade de sua xícara de café quente.

— Foi a residência no segundo subsolo. — a Sra. Shindo olhou para Saikawa e respondeu.

— Não, quero dizer, qual cômodo dessa residência? — Saikawa reformulou a pergunta.

— Ah, você já viu o interior dessa residência, não é? Então... Foi... No primeiro quarto da residência. — a Sra. Shindo respondeu. — Foi quando eles estavam apenas na metade da mudança. Meu marido e eu tínhamos vindo visitar este local a passeio. Estávamos trabalhando no hospital em Tóquio na época.

— Onde estava Miki Magata? Quero dizer, na época em que o incidente aconteceu? — Saikawa fez a próxima pergunta.

— Ela não estava neste local. — a Sra. Shindo disse, levando a xícara à boca. — Miki estava na casa dos pais do Dr. Magata... Na província de Yamanashi. Ela ficava lá o tempo todo, porque ainda era muito jovem. Eu só a encontrei algumas vezes quando todos vieram a Tóquio.

— Senhora, por favor, permita-me fazer uma pergunta muito indelicada... — disse Moe indiferente. — Agora que o diretor morreu, o que acontecerá com este instituto de pesquisa, a propriedade da família Magata, etc.?

— Não estou interessada nesses assuntos, então não há necessidade de sua preocupação. — para surpresa dos dois, o tom da Sra. Shindo era calmo, e até sorriu. — A propriedade da família Magata pertencia à Sra. Shiki, então agora que faleceu, pertence à sua irmã, a Srta. Miki. O mesmo vale para este instituto de pesquisa. A propriedade do meu marido era apenas aquele helicóptero. Contudo ele será meu. Terei que cuidá-lo de agora em diante... Foi tão típico dele morrer na cabine de um helicóptero...

O Dr. Yuminaga acabara de dizer a Saikawa que o Diretor Shindo havia sido adotado pela família Shindo. Talvez os Shindos sejam mais ricos que os Magatas, imaginou Saikawa.

— A palavra cabine significa caixão. — disse Saikawa. No entanto logo percebeu que era um comentário inadequado.

— O que a Srta. Miki disse? O que acontecerá com este instituto de pesquisa no futuro? — perguntou Yamane, preocupado. — É claro que a morte da Dra. Shiki é um dano fatal para este instituto de pesquisa...

— Bem... — respondeu a Sra. Shindo com calma. — Vamos todos pensar nisso daqui para frente. Miki disse que pretende voltar para os EUA assim que possível. Não tem intenção de morar no Japão. Ah, isso me lembrou de algo...

— Ela disse algo importante? — perguntou Yamane.

— A bolsa da Miki ainda está no helicóptero. — explicou a Sra. Shindo. — Eu me esqueci do seu pedido para buscá-la. Yamane, poderia pegá-la mais tarde...? Ela me contou que tinha uma lembrança importante para a Shiki dentro.

— Onde poderia colocar a bagagem no helicóptero? — Moe perguntou a Yamane.

— Hmm, no banco de trás. — respondeu Yamane.

— Não estava lá. — Moe balançou a cabeça. — Eu olhei atentamente para a cabine mais cedo. Se houvesse uma bolsa lá, teria notado.

— Bem, vou procurá-la mais tarde. — Yamane assentiu.

Saikawa olhou para os carrinhos de corrida sobre a mesa. Também havia brinquedos infantis no quarto da Dra. Shiki Magata.

— A Dra. Shiki gostava de brincar com blocos quando criança? — Saikawa perguntou à Sra. Shindo. — Vi muitos blocos no seu quarto.

— Não tenho certeza... Aquela senhora tinha as mesmas habilidades, ou melhor, que as um adulto desde criança. — a Sra. Shindo suspirou de novo. — Não teria tido tempo para brincar. E tem estado presa por muito tempo depois daquele incidente, ao ponto que me fez sentir pena por ela.

— Não brincava com bonecas ou algo assim? — Moe perguntou desta vez.

— Não, não brincava. Quando era pequena, raramente a via com essas coisas. — respondeu a Sra. Shindo. — Só as comprou depois de adulta, todas elas... Sei que Shiki as comprou porque vi os relatórios de tudo o que comprou. Tinha um urso de pelúcia, não tinha?

— Você conhece os nomes Kishio Kurimoto e Suma Sasaki? — Moe mencionou os nomes que estavam no computador.

— Sim, claro. Todo mundo deveria saber. — a Sra. Shindo sorriu. — A outra seria a Michiru, certo? O nome Michiru é escrito com dois caracteres kanji que indicam “estrada” e “fluxo”, respectivamente. Shiki às vezes fingia ser essas três pessoas. Ouvi dizer que fazia isso desde pequena. É um hábito seu desde os cinco anos de idade.

— É mesmo? — Moe pareceu um pouco surpresa. — Todas as três personalidades?

— Não, apenas a personalidade do Kishio Kurimoto. — a Sra. Shindo continuou. — Kishio era o nome do irmão mais velho falecido da Shiki.

Saikawa ficou surpreso com essas palavras.

— A Dra. Shiki Magata tinha um irmão mais velho?

— Bem, ele morreu logo depois de nascer. Ele e Shiki eram gêmeos... Então, ela começou a fingir ser o irmão gêmeo falecido assim que se lembrou. Sabe, ela era uma garota genial. Achou que aquilo deixaria os pais felizes. Mas... Por que o seu sobrenome não era Magata...? Eu não sei o motivo. Só ouvi toda essa história do meu marido...

— Então, qual é a origem da personalidade de Suma Sasaki? — Moe se inclinou para a frente e fez a pergunta.

— Essa personalidade também teve um... Modelo. — a Sra. Shindo deu uma risadinha. Nesse ponto, já estava bem mais calma. — Era a pessoa que cuidava da Shiki quando foi para a faculdade e para o trabalho nos EUA. Mesmo trabalhando para uma empresa, Shiki era uma estudante do ensino fundamental. Seus pais moravam no Japão, então viveram nos EUA por cinco ou seis anos, só as duas. A mulher era, bem, uma governanta contratada. Seu nome era Suma Morikawa. Os caracteres kanji do seu nome, Suma, eram diferentes, porém. O sobrenome é completamente diferente, certo?

— O que aconteceu com a Morikawa depois disso? — perguntou Moe.

— Ela faleceu em um acidente de trânsito lá. — respondeu a Sra. Shindo. — O choque fez com que a Shiki largasse o emprego nos EUA e voltasse para cá.

— A partir daí, começou a imitá-la? — perguntou Moe.

— Hmm... É um pouco diferente de imitar. Ela cria a personalidade dentro de si mesma. Não é um nível superficial de imitação. Acho que o seu cérebro é grande demais para uma única personalidade...

— Então, quem é Michiru Magata? — Moe mencionou o terceiro nome.

— Esse é o nome da sua boneca. Se bem me lembro, é... — a Sra. Shindo pensou por um momento e então disse. — Quando se mudou para cá, trouxe uma boneca grande. Apesar de que não parecia gostar muito dela. Certo, tinha cerca de cinquenta centímetros... O nome da boneca era Michiru.

— O que aconteceu com ela? Quero dizer, com a boneca. — Moe perguntou.

— Estava naquele quarto.

— Aquele quarto?

— Certo... Era o quarto onde esfaqueou os pais. É o primeiro cômodo da residência dela. Quando o Dr. Sachiro Magata foi esfaqueado e caiu, a boneca caiu do alto da estante. Então... Aquela boneca caiu bem ao lado de onde ele desmaiou.

Saikawa também se inclinou para a frente. Os três ouviram a história da Sra. Shindo. Ele repassou mentalmente a tragédia que ocorrera quinze anos antes naquele quarto.

— Então a boneca... Não está mais aqui? — perguntou Moe.

— Ela ficou tão ensanguentada que a jogamos fora.

Ao dizer aquilo, a Sra. Shindo de repente se lembrou da realidade, olhou para baixo e fechou os olhos.



Notas:
1. Patchwork é uma técnica artesanal de costura que une pequenos pedaços de tecidos (retalhos) de diferentes cores, padrões e formatos geométricos para criar uma peça maior e funcional. Muito versátil, é utilizado para confeccionar colchas, mantas, bolsas, almofadas e itens de decoração, valorizando a reutilização de materiais.
2. As linhas radiais referem-se a elementos, estruturas ou linhas dispostas de modo a emanar de um ponto central, assemelhando-se aos raios de uma roda ou aos raios do sol. São definidos por sua distribuição em torno de um centro comum, comum na biologia (por exemplo, estrelas-do-mar), no design (por exemplo, padrões circulares) e na geometria.
3. Um famoso herói do drama japonês jidaigeki.

***

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