Volume 02: Yugao — Capítulo 14: O espírito vingativo está lá
Honoka ligou o computador de casa, acessou sua página inicial e o luxuoso papel de parede e as palavras elegantes sobre o fundo roxo surgiram diante de seus olhos.
Essa “Mansão da Princesa
Púrpura” era um site que ela criou há dois anos, que podia ser acessado por
computador ou celular, e continha publicações dos romances que escreveu.
As histórias de amor
envolventes e extremamente açucaradas que escrevia eram populares entre as
garotas, tinham ótimas avaliações e seu site era um dos favoritos.
A autora, Princesa
Púrpura, era aclamada como uma especialista em relacionamentos, e os
comentários do blog e a caixa de entrada estavam repletos de mensagens de
garotas desabafando suas frustrações amorosas e pedindo conselhos à Princesa
Púrpura.
E assim, a Princesa
Púrpura, Honoka, respondeu pessoalmente a todas as perguntas, uma por uma.
“Olá, Princesa Púrpura!
Sou estudante do segundo
ano do Ensino Fundamental II.
Comecei a namorar meu
namorado há cerca de um mês.
Ele é um rapaz esportivo
e sincero, participa do clube de tênis, me leva para assistir a jogos de
futebol ou tênis quando estamos em encontros e pode até jogar basquete quando
estamos viajando.
Eu me sinto feliz quando
saímos juntos... Porém sou péssima em esportes e não entendo nada quando
assisto a esportes (≧д≦)ノ
Sempre que jogamos juntos,
não consigo pegar a bola, me sinto um verdadeiro peso morto!
Porém ele sempre me diz:
‘Você pode melhorar se praticar mais, A-mi, faça o seu melhor!’ E me leva para
jogar tênis de novo na semana seguinte.
Gosto muito dele, contudo
se isso continuar, acho que vai ser doloroso continuar o namoro nesse ritmo!
O que posso fazer? Estou muito,
muito preocupada!
PS: Eu li a novel que foi
atualizada esta semana! Fiquei muito animada quando vi a cena em que o Takuma
persegue a Natsuno por trás e a abraça forte!! (ノノノ▽ノノノ)”
“Olá, Srta. A-mi,
É realmente preocupante
que seus interesses não coincidam.
Minha amiga reclamou uma
vez que, em encontros, ela queria ir a restaurantes de massas e crepes, no
entanto seu namorado sempre a levava a restaurantes de ramen, mesmo quando ela
não queria!
Também é como o seu caso,
senhorita A-mi, pois gosta do namorado e não quer deixá-lo infeliz. Por isso,
não teve coragem de dizer que prefere massa.
Um dia, enfim reuniu
coragem, e seu namorado ficou muito surpreso: ‘Por que você ficou calada sobre
isso?’ Ele até a repreendeu com raiva por não o ter dito.
Mais tarde, quando
começaram a namorar, revezavam-se para ir a restaurantes de ramen e aos que ela
recomendava, e ela dizia, feliz, que embora não gostasse de ramen de porco,
achava o ramen com sal delicioso.
Então, acho que deveria
tentar conversar a respeito com seu namorado, Srta. A-mi.
Pode ser que esteja com
medo e nervosa.
É por esse motivo que
esta Princesa Púrpura lhe dará um conselho.
Antes de começar,
segure-o delicadamente pelas mãos.
Se ele ficar chocado e
perguntar ‘O que houve?’, continue segurando suas mãos, abaixe um pouco a
cabeça, mostre lágrimas nos olhos e encare os seus olhos com a expressão mais
triste que conseguir.
Deve expressar seus
pensamentos com a convicção de que não deve soltar aquelas mãos. E ele
certamente entenderá!”
Após terminar sua
resposta, Honoka se lembrou de algo que não queria lembrar e começou a se
sentir deprimida de novo.
Ela apoiou a bochecha
direita na mesa e soltou um suspiro.
(Por que meu coração
dói sempre que penso no Akagi...?)
No dia anterior, quando
emprestou o guarda-chuva dobrável para Koremitsu no palco do parque, este
franziu a testa, hesitante.
Mas, após um momento de
dúvida, sua expressão rígida relaxou um pouco.
— Então... Vou usá-lo... Como
um talismã.
Ao ouvir essa frase desajeitada,
Honoka quase se emocionou até às lágrimas. Sentiu um leve nó na garganta, porém
mesmo assim estava feliz, sorrindo como uma boba.
— Certo, com certeza vai
funcionar.
Após dizer aquilo, ela
empurrou o guarda-chuva para as mãos de Koremitsu.
Com um sorriso marejado
no rosto, observou Koremitsu segurar seu guarda-chuva e caminhar naquela noite
ventosa e tempestuosa, protegida por ele.
Que sensação era aquela?
Naquela noite, recebeu
uma mensagem de Koremitsu.
“Desculpe incomodá-lo
hoje.
O guarda-chuva foi muito
útil.
Obrigado.
Te vejo na escola amanhã.”
O conteúdo seco desta
mensagem provocou uma mistura de emoções em Honoka, que se sentiu feliz e
inquieta ao mesmo tempo.
(Ele já falou com a Kanai?)
Ela queria perguntar,
contudo estava tão apavorada que não conseguia, e não entendia por que estava
tão apavorada.
“Que bom que pude ajudar.
Te vejo amanhã.
Boa noite.”
Estava extremamente
hesitante, reescreveu a mensagem algumas vezes e só conseguiu digitar estas palavras
no final.
Depois disso, ela
continuou esperando, no entanto nunca recebeu uma resposta.
(Akagi não é esse tipo
de pessoa, para começo de conversa...)
Honoka já sabia, todavia,
no fundo, sentia-se muito sozinha.
Pela manhã, Koremitsu
devolveu o guarda-chuva, seco e muito bem dobrado, a Honoka com as duas mãos.
— Seu guarda-chuva me
ajudou muito.
Quando fez uma reverência
profunda e agradeceu, Honoka ficou olhando para o redemoinho no meio daquele
cabelo ruivo. Seu coração apertou de repente e se sentiu muito sentimental.
— N-Não é nada, por que
precisa exagerar tanto? Eu quero saber mais sobre... Como a Kanai está.
— Ohh...
Koremitsu desviou o olhar
e respondeu friamente.
— Prometi à Yu que
encontraria o guarda-chuva dela.
— Guarda-chuva? Está
falando daquele de um ano atrás? É impossível!
— Mesmo que seja
impossível, tenho que fazer.
Koremitsu disse em tom
inflexível.
A determinação que
transparecia em seus olhos enquanto ele olhava para o lado causou uma sensação
insuportável em Honoka, como se alguém estivesse apertando seu coração.
Depois disso, Koremitsu
se remexeu e voltou para o seu assento com as costas arqueadas.
Assim que terminou a
primeira prova, ele saiu correndo da sala de aula e não voltou por um tempo.
Com uma expressão exausta
no rosto...
— Akagi está aprontando
de novo, Honoo!
Michiru correu para
avisá-la e, naquele exato momento, o sinal da segunda aula tocou. Pouco depois
do início da prova, avistou o retorno de Koremitsu.
Estava tomado por uma
fúria intensa e parecia realmente infeliz, pois franzia a testa enquanto
escrevia em seu roteiro.
Após o término da prova,
ele se levantou e voltou a sair da sala de aula.
(Argh, sério, o que é
que o Akagi está fazendo?)
Honoka ficou
completamente perplexa ao ver aquilo, e estava tão tensa que sentiu um aperto
no estômago.
Depois disso...
— OUVI DIZER QUE O AKAGI
ESTUPROU UMA GAROTA NO BANHEIRO MASCULINO!!!
Assim que um certo garoto
entrou correndo na sala de aula, gritando isso, Honoka quase sentiu seus olhos
escurecerem diante de si.
(AKAGI!! O QUE DIABOS
VOCÊ ESTÁ FAZENDO?????)
Koremitsu chegou atrasado
para a prova do período seguinte e nem sequer olhou para Honoka. Assim que a
prova terminou, ele foi chamado por um professor e saiu da sala de aula.
Incapaz de resistir ao
impulso, Honoka o perseguiu.
Enquanto continuava a
rondar a sala de aconselhamento estudantil, uma garota pequena, mas com seios
fartos e cabelos curtos, chamou-a.
— Você também está
esperando pelo Sr. Akagi, Srta. Shikibu?
Era Oumi Hiina, do clube
de notícias.
Ela era supostamente a
garota que Koremitsu arrastou para o banheiro masculino.
Ela, que já foi colega de
classe de Honoka no Ensino Fundamental, fingiu ser carinhosa com Honoka
enquanto dizia.
— Por que só o Sr. Akagi
foi chamado aqui? Não é muito injusto? Será que a Presidente Saiga está
fingindo usar sua autoridade para ficar a sós com ele, secretamente praticando
um jogo de sadomasoquismo?
Com o coração cheio de dúvidas,
Honoka sussurrou para Hiina, perguntando.
— O-Oumi, ouvi que o
Akagi es... O que está acontecendo, afinal?
— Ah, é assim mesmo.
Minha pureza foi manchada. Suponho que o Sr. Akagi assumirá a responsabilidade?
Honoka não achou graça
nenhuma ao ouvir o tom de brincadeira de Hiina.
— Não seja ridícula. O
Akagi jamais faria uma coisa dessas! Ele tem cara de delinquente, porém é um
cabeça-dura com uma personalidade íntegra. Ele não se importa com nada a menos
que seja uma garota de quem goste!
Foi assim que ela rebateu.
— Hoho, parece que você
realmente entende o Sr. Akagi, Srta. Shikibu.
Hiina sorriu para Honoka
com os olhos semicerrados, fazendo com que o rosto desta última ficasse corado.
— N-Não é nada. Só
conversei sobre algumas coisas com o Akagi mais cedo, então estou um pouco
preocupada com ele.
— Conversaram? Sobre o
que vocês conversaram?
— Não é da sua conta.
Enquanto ambas
conversavam em voz baixa, o desabafo de Koremitsu veio repentinamente de trás
da porta.
— DESSA VEZ EU A PROTEGEREI!
Mesmo através da porta,
essas palavras ecoaram claramente para Honoka e lhe causaram uma pontada no
peito.
Hiina esperou na porta,
ouvindo às escondidas lá dentro.
Honoka não queria ouvir, contudo
não conseguiu resistir à tentação e também encostou o ouvido na porta.
E logo depois, ouviu a
voz de Koremitsu, mais clara do que nunca.
— SE HOUVER ALGUM
ESPÍRITO VINGATIVO, EU O DESTRUIREI PARA QUE NÃO SE APROXIME DA YU DE NOVO!
Os passos se aproximaram
e a porta da sala de aconselhamento estudantil se abriu de repente com um
estrondo.
Honoka e Hiina se
esconderam atrás da porta, e Koremitsu não as viu enquanto aquele homem de
cabelos ruivos e costas levemente arqueadas partia furioso.
Honoka o observava com o
coração quase partido.
— Eu vou protegê-la, hein?
Com o rosto colado à
mesa, Honoka murmurou para si mesma.
Sem que percebessem,
começou a chover lá fora, e o som solitário das gotas de chuva podia ser ouvido
em breves rajadas.
— Então não sou... A única.
Seu coração começou a
doer outra vez.
Não se tratava de uma dor
repentina e insuportável, no entanto desde que ouviu aquelas palavras de
Koremitsu do lado de fora da sala de aconselhamento estudantil, seu coração
começou a doer.
Quando teve um pequeno
desentendimento com Asai por causa de Koremitsu, Koremitsu lhe disse... — Se
Saiga tentar alguma coisa, vou te proteger.
Aquelas palavras foram
ditas com paixão, sem qualquer fingimento, tratando a situação como o dever
divino de um homem.
Era diferente do “proteger”
que disse categoricamente naquele dia.
O “proteger”, ele disse,
não tinha nenhum significado especial... Por que o coração dela disparou por
causa disso? Era tudo uma grande bobagem.
— Não tenho nenhum
sentimento especial pelo Akagi, ele não me trata como um interesse amoroso,
apenas como alguém com quem pode conversar... No começo, o confundi com um
pervertido, o chutei... E escolhi por conta própria ignorá-lo... Não me importa
de quem ele gosta...
Deveria ser assim...
Entretanto por que estava
com tanta dor de cabeça?
Por que estava sempre
pensando em Koremitsu?
Honoka sentou-se e
balançou a cabeça. Seu olhar se fixou no computador e viu que havia uma nova
mensagem no quadro de avisos.
“Este é meu primeiro
comentário.
Estou sempre me preocupando
com alguém e fico esperando contato dessa pessoa. Quando não a vejo, fico
triste. Por que isso acontece?
Discuti com essa pessoa
da última vez.
Ele disse que meu
raciocínio estava errado, e fiquei chocada. Senti que ele não entendia meus
sentimentos de forma alguma.
Essa pessoa é
completamente diferente de mim e, às vezes, tenho muito medo dela.
Ele me enviou uma
mensagem pedindo desculpas, mas não respondi.
Espero que me abandone,
não me mande mensagem e não me procure mais.
Nesse caso, poderei viver
minha vida em paz de novo.
Só que quando essa pessoa
parou de me mandar mensagem, comecei a me preocupar de novo e me sinto muito
sozinha.
Qual é exatamente o meu
problema?
Se nos encontrarmos, com
certeza voltaremos a discutir.
As palavras dessa pessoa
com certeza me magoarão.
Porém ainda quero vê-lo.
Sei que com certeza vou
me arrepender, contudo quero encontrá-lo.
Ainda estou esperando que
essa pessoa me envie uma mensagem.
Meu coração está uma
bagunça, e não consigo me acalmar.
Mesmo fechando os olhos,
não consigo dormir.
O que posso fazer para me
tornar eu mesma de verdade?”
Essa mensagem coincidiu
com os sentimentos de Honoka, fazendo com que se sentisse triste e com o
coração pesado.
Assim que se
encontrassem, ela se sentiria ansiosa.
Mesmo que ele estivesse na
sua frente, sentiria que havia uma distância entre eles por algum motivo.
No entanto, quando não se
encontravam, sempre se pegava pensando nele.
Antes, esse com certeza
não era o caso.
(Falando sério, o que
seria o certo a fazer?)
— O que é o amor, eu me
pergunto?
Aquela voz era fraca, a
ponto de não se parecer em nada com a dela, e de repente se sentiu impotente,
prestes a desabar em lágrimas.
Honoka deveria ser aquela
que ouvia os outros, que ajudava os outros...
Entretanto, sentia que
era ela quem estava frustrada, quem precisava pedir ajuda aos outros.
(Se fosse eu, que tipo
de sugestão gostaria de ouvir? O que exatamente quero fazer?)
Honoka digitou
timidamente em seu teclado.
“Será muito difícil recuperar
sua forma original, então não posso lhe dar uma resposta fácil...
Todavia, se você encarar
seus sentimentos com sinceridade e tentar dar um passo à frente, talvez consiga
entender.”
***
— Tentar dar um passo em
frente...
Yu murmurou as palavras
na tela.
Havia uma cortina azul
transparente cobrindo a janela.
As gotas de chuva
continuavam a cair lá fora, pela janela.
Yu se lembrou da sensação
da água gelada batendo em sua pele, penetrando em suas roupas, e sentiu
arrepios. Sua mão puxou com mais força o cobertor que a cobria da cabeça aos
pés e estremeceu.
— Eu não consigo fazer
isso...
Yu não conseguiu dar um
passo sequer para fora.
— Yu, vamos para a
escola.
Foi o que Koremitsu
disse.
Sua testa estava
franzindo, como se estivesse muito zangado, e falou com Yu, que estava
aterrorizada.
— Não é normal ficar
trancada no quarto todos os dias, e também não faz bem para a saúde. A linha
entre a realidade e os delírios também ficará tênue.
Seus olhos brilhavam como
chamas enquanto a encarava.
— É melhor sair e dar uma
caminhada antes que suas pernas comecem a criar nadadeiras!
Yu achava que o amigo de
Hikaru, Koremitsu, era uma boa pessoa.
A princípio, tinha muito
medo dele, com seus cabelos ruivos, olhos selvagens e expressão rígida, mas
logo percebeu que, embora seus modos fossem rudes, suas ações eram sinceras e
gentis.
Ele trouxe o açúcar
cristalizado que Yu gostava como presente. Corou ao lhe dar um quebra-cabeça
transparente tão azul quanto o mar. Ajudou-a a trocar a lâmpada. Sempre que
Hikaru a procurava, se sentava no meio da sala, sorrindo gentilmente.
Koremitsu, por sua vez, parecia preocupado com algo, sentado encostado na
parede perto da entrada, com as costas curvadas e infeliz. Porém, desde que
Koremitsu apareceu ali, ela começou a se sentir mais à vontade.
Quando Koremitsu corou,
dizendo que também nunca havia se apaixonado, viu a mesma solidão que sentia em
seus olhos e, de repente, percebeu uma sensação de familiaridade entre eles.
No entanto, ele disse
exatamente o que Yu não queria ouvir.
Após o divórcio com o
pai, a mãe de Yu mudou-se para a Austrália em busca de trabalho e continuou a
enviar mensagens para ela.
Todas as mensagens
falavam da mesma coisa, sempre.
“Por quanto tempo vai
ficar trancada em casa?
Você não pode se trancar
dentro de casa para sempre?
Seu pai tem uma nova
família e um novo filho, não tem como ele ter tempo para cuidá-la. Você já tem
16 anos, que tal amadurecer?”
A mãe de Yu insistia para
que ela fosse mais madura, dizendo que aquilo era o certo a fazer, entretanto ao
ver aquelas palavras tão imponentes, Yu sentiu um peso em seu corpo, como se
estivesse sendo sugada para a escuridão de um abismo.
Ultimamente, sempre que sua
mãe enviava uma mensagem, Yu as apagava sem ler.
Desde o divórcio dos
pais, sempre achou difícil se comunicar com a mãe.
Não, começou muito antes
disso.
Quando Yu era
negligenciada e desprezada pelas outras meninas, seus pais estavam ocupados
falando sobre divórcio, sem perceber que estava falando menos em casa, e sem se
darem conta de suas frustrações a ponto de não conseguir comer.
Ao acordar de manhã,
sabia que tinha que ir para a escola, contudo ficava tão apavorada que começava
a suar frio.
Talvez os sapatos de uso
interno desaparecessem outra vez do seu armário de sapatos.
Talvez houvesse grafites
por toda a sua mesa.
Talvez alguém a
amaldiçoasse: “Você é apenas uma plebeia insignificante e ousa se aproximar
descaradamente de um nobre!”, “Parece muito obediente para uma raposa ladra”, “Você
é realmente a melhor em seduzir os outros”.
Sempre que erguia o
guarda-chuva, conseguia esconder as bochechas vermelhas de vergonha e os olhos
marejados. Ali, ao menos, encontrava algum consolo.
O guarda-chuva azul
brilhante com um peixe-anjo estampado, foi um presente de aniversário que
ganhou no primeiro ano do ensino fundamental. Depois de sair para jantar com os
pais, eles passaram por uma loja de departamentos no caminho de volta.
— Que lindo esse
guarda-chuva!
Ela correu até a loja,
com os olhos brilhando.
E então, carregando o
guarda-chuva, envolto em uma fita dourada, com o máximo cuidado, ela retornou.
Naquele dia, ambos os
pais sorriam radiantes para Yu.
Era um guarda-chuva
muito, muito importante para ela.
Um guarda-chuva que
sempre protegeria Yu.
Um guarda-chuva que
sempre a protegeria dos olhares cheios de malícia.
Um guarda-chuva mágico
que a ajudaria a relembrar aquele momento maravilhoso.
No entanto o guarda-chuva
desapareceu.
Aquele guarda-chuva era a
única coisa que mal sustentava seu coração.
O peixe preto e grande
abriu a boca e devorou o peixe-anjo por inteiro. As vozes maldosas ecoavam em
sua mente, estridentes e reverberantes.
— Ouvi dizer que seu
guarda-chuva sumiu?
— Uma pena, mas acho que
não havia nada que pudéssemos fazer.
— Se continuar andando
com o uniforme completamente encharcado, quem sabe algum velho querendo paquerar
uma garota te chame.
O riso continuava a ecoar
em seus ouvidos sem parar.
Ainda se lembrava do
desespero que sentiu no portão da escola, quando o aguaceiro forte quase
penetrou sua pele e seu corpo se enrijeceu, dolorido.
— Você é forte... Não tem
como entender...
Ele não sabia o quão
aterrorizante era para ela sair daquele quarto apertado, e não sabia o quão
doloroso era obedecer à ordem de sua mãe.
Assim como um peixe só
consegue viver na água, Yu não conseguia respirar quando saía pela porta. Não
importava quantos olhares e palavras hostis enfrentasse, Koremitsu tinha a
coragem de revidar, era por isso que não conseguia entender.
Assim como sua mãe,
Koremitsu sentia que sua vida era anormal.
Se o encontrasse, com
certeza a chamaria para ir à escola.
O desejo de Yu não
correspondeu à esperança de Koremitsu.
— Vou recuperar seu
guarda-chuva. — disse Koremitsu.
Todavia como seria
possível?
Ela não acreditou em
Koremitsu, nem em sua fantasia.
Nesse ponto, mesmo que
encontrasse Koremitsu, apenas se sentiria deprimida, sem saber o que dizer em
seguida e sem saber como encará-lo. Não conseguia mais adormecer diante de
Koremitsu.
(Hikaru não é como o
Akagi... Ele não diria coisas tão cruéis para mim...)
Não perguntava por que
não ia à escola, não dizia que era algo anormal ou que era peculiar, e não lhe
dizia que não deveria continuar como estava.
— Você é como uma flor de
cabaça, Yu.
Ele estreitou os olhos
delicadamente, indicando a Yu que tipo de flor ela era.
— É uma flor frágil que
não pode desabrochar sob a luz do sol, e isto a torna ainda mais delicada,
adorável... E bonita. As pétalas brancas que desabrocham na escuridão a tornam
pura e gentil. Ao contemplá-la, se sentirá como se estivesse em um sonho, capaz
de alcançar um momento de paz.
A voz doce e gentil de
Hikaru envolveu aos poucos o coração de Yu.
— Hikaru, você gosta de
flores de cabaça?
— Sim, muito. Posso ficar
olhando para elas a noite inteira.
— O melhor será que
permaneça sendo quem você é, Yu, e continue sendo uma flor que desabrocha na
noite.
Aquela flor tinha seu
próprio valor. Eram palavras delicadas e comoventes... Palavras que jamais
esqueceria.
Ele continuou descrevendo
os nomes e formatos das belas flores que avistava no parque ou à beira da
estrada, já que Yu não podia dar um único passo para fora de seu apartamento.
— Hikaru... Você está
feliz...?
Ele era muito gentil e
não lhe fez nenhum pedido, apenas sorriu. Assim, não resistiu ao impulso e perguntou,
preocupada. Com os olhos claros...
— Estou.
Ele respondeu.
Seu tom era muito calmo e
não demonstrava qualquer sinal de afetação.
— E você? Está feliz?
E assim, Yu também exibiu
um sorriso sincero, dizendo.
— Estou feliz.
— Enquanto eu ficar aqui,
me sentirei feliz. Ninguém me dirá nada cruel aqui... Não preciso ter medo, não
preciso ficar me escondendo... E posso ir a qualquer lugar sempre que fechar os
olhos... Posso ver todos os tipos de coisas belas...
Ela esfregou as bochechas
no cobertor enquanto fechava os olhos.
Era suave, delicado... Um
toque reconfortante. Realmente queria ficar ali para sempre.
Hikaru também respondeu com
sua voz suave.
— Sim, este lugar tem
tudo... Este é o lugar mais confortável do mundo inteiro.
Ambos fecharam os olhos e
deixaram o tempo passar enquanto ouviam as ondas suaves que só eles conseguiam
ouvir.
Porém Koremitsu
definitivamente não conseguia ouvir as ondas. Com certeza não conseguia ver a
paisagem que Yu e Hikaru viam.
Só Hikaru conseguia
entendê-la. Por esse motivo, só precisava da companhia de Hikaru e Lapis.
Nesse dia, Lapis estava
sentada junto à janela, olhando para fora através da fresta da cortina.
Essa era a posição que
Lapis ocupava na maior parte do tempo.
Já fazia quase um ano
desde que Lapis chegara. Sua audição era ruim, e ela era uma gatinha cautelosa
e lenta, com o hábito de ficar olhando fixamente para as coisas.
As vezes Yu se lembrava
do que aconteceu na escola, e sempre que estremecia de medo, seu coração se
acalmava ao olhar nos sábios olhos cor de lápis-lazúli de Lapis, que a
encaravam.
Lapis sempre se sentava
ao lado de Yu enquanto esta chorava em desespero, fosse no dia em que seu pai
ligou, dizendo que não podia garantir suas necessidades básicas, no dia em que
sua mãe foi ao apartamento procurá-la pela única vez, dizendo “Se você gosta de
esperar aqui, morra de fome!” e a repreendeu, ou no dia em que recebeu a
notícia da morte de Hikaru por telefone.
Contudo, assim que se
acalmava, Lapis se afastava sozinha e sentava-se junto à janela.
E continuava olhando para
fora.
Lapis era uma gata que
gostava de sua liberdade, e talvez de fato quisesse sair. Assim como Hikaru,
ela poderia deixar Yu um dia.
(E ficarei sozinha.)
De repente, Yu sentiu uma
dor aguda no coração, e suas mãos, agarrando-se ao cobertor, começaram a
tremer.
A bolsa de golfe que seu
pai usava, o ventilador e o fogão que sua mãe tanto prezava... A essa altura,
tudo aquilo era lixo que haviam descartado.
E Yu foi abandonada por
eles.
Então Lapis iria... E
Koremitsu iria...
(Não! É assustador!
Não quero pensar nisso de novo!)
— Tente dar um passo à frente,
talvez você consiga entender.
Entender? O que
entenderia?
A sensação paradoxal de
temer um encontro com Koremitsu e, ao mesmo tempo, esperar que ele enviasse uma
mensagem?
Yu virou lentamente a
cabeça na direção onde Hikaru costumava esperar e falou com um tom hesitante...
— Hikaru... Se você estivesse
aqui... Deveria ser capaz de me dizer, certo?
Hikaru certa vez disse a
Yu com delicadeza... “Porque você nunca me amou”.
Ele a encarava com uma
expressão triste e serena, e disse que um dia ela entenderia a alegria do amor.
Naquele momento, Hikaru
se agarrava ao amor com todas as suas forças.
Não, deve ter se agarrado
amargamente ao amor até a morte.
Ele continuou a mimá-la
com amor e ternura puros e genuínos, sem esperar nada em troca, a cuidou,
confortou-a e, ao mesmo tempo, amou de todo coração a única pessoa que não
podia abraçar.
Sempre que pensava
naquela pessoa, o perfil de seu rosto sereno se escurecia com profunda solidão...
Os olhos sonhadores revelavam muita dor e sofrimento, no entanto persistiam em
sua resistência...
Algumas vezes Yu acordou
de seu sono leve e viu Hikaru encostar a testa nas mãos cerradas, com os olhos
fechados. Então, abria os olhos e esboçava um leve sorriso melancólico.
Aquele sorriso o fazia
parecer ainda mais sofrido do que quando fechava os olhos com força... E ainda
mais solitário.
Por que Hikaru queria
viver esse amor doloroso? Por que não desistiu?
Yu dirigiu um tímido
olhar para o lugar coberto pela cortina, onde Lapis sempre olhava, e murmurou
algo sem sentido.
— Amor... O que é isso?
E naquele instante, o
celular que estava sobre a mesa vibrou.
— !
Seu corpo estremeceu pelo
susto e quase não conseguiu respirar ao verificar a mensagem.
Assim que descobriu que
era uma mensagem enviada por Koremitsu, seu coração, que havia se acalmado,
voltou a bater intensamente.
O dedo rígido abriu o
conteúdo da mensagem.
Yu arregalou os olhos em
choque.
Havia uma pequena linha
na tela.
— Amanhã, espantarei esse
espírito vingativo.
***
Estava chovendo desde a
manhã do terceiro dia das provas de meio de semestre, e fazia muito frio.
Os alunos do Ensino Médio
da Academia Heian, que carregavam guarda-chuvas a caminho da escola, encontraram
uma misteriosa sequência de palavras no corredor perto do cadeado para sapatos
e ficaram todos aterrorizados.
— O espírito vingativo
chegou.
Havia uma linha
horizontal de palavras pretas e grossas, escritas com pinceladas na parede
branca, e os traços que se estendiam para baixo e para os lados não conseguiam
esconder a força usada para escrevê-las. A tinta espalhada por toda parte era
como sangue derramado, tão vívida que parecia saltar da parede.
Os alunos ficaram chocados
ao verem aquela frase, e seus corações foram aparentemente apertados por uma
mão negra enquanto permaneciam imóveis, tremendo de medo.
Não faz muito tempo que a
corrente de e-mails sobre Yu Kanai circulou por toda parte, então todos
imediatamente associaram o espírito vingativo da escola às palavras diante
deles.
Foi a mesma coisa naquela
época, quando os guarda-chuvas foram pendurados, pingando uma água negra e
assustadora, sujando as janelas e a parede.
O espírito vingativo do
passado estava pronto para atacar outra vez.
Aquilo era um presságio.
Era uma escola com muitas
tradições, repleta de crianças descendentes de famílias que existiam desde
tempos antigos.
Nesses espaços selados
únicos, onde superstições não científicas como adivinhações e maldições eram bastante
difundidas, o poder desse espírito vingativo se manifestaria em sua plenitude.
O medo que brotava nos
alunos aumentou a presença desse espírito vingativo, que se espalhou por todos
os cantos da escola.
— O espírito vingativo
apareceu!
— O que acontecerá desta
vez?
— Alguém vai ser devorado
de novo!
Algumas das meninas
estavam tão arrasadas que chegavam às lágrimas, e houve uma grande confusão no
corredor.
Koremitsu manteve a boca
fechada enquanto encarava a cena com atenção.
Continuou encarando a
reação aterrorizada de cada pessoa, como um cão selvagem à caça de sua presa e,
depois de um tempo, afastou-se daquela comoção com as costas curvadas.
E assim, Asai Saiga ficou
diante dele com uma expressão severa.
— O senhor realmente
gosta de causar tumulto por aqui, Sr. Akagi.
Sua voz estava carregada
de raiva.
— O que quer dizer?
— Você escreveu essas
palavras, não foi?
— Quem sabe? Não foi
aquele espírito vingativo que escreveu?
Imediatamente, Asai fez
uma careta e um brilho gélido surgiu em seus olhos.
— Só saberei investigando
um pouco, mas mesmo que não saiba, sei que essa palhaçada foi feita por ninguém
além de você.
— É um elogio?
Ao perceber que Koremitsu
pretendia se fazer de desentendido até o fim, Asai ergueu uma sobrancelha.
— Não esperava que fosse
uma besta tão desprovida de bom senso. O que pretende fazer a seguir?
Koremitsu lançou um olhar
desafiador para Asai, com uma expressão tão cruel que ela ficou momentaneamente
sem palavras.
— Se quiser saber o que
acontece a seguir, basta observar em silêncio.
Enquanto isso, Honoka
estava escondida atrás de uma esquina no corredor, sua respiração suspensa
enquanto observava Koremitsu partir e Asai, que o encarava com raiva.
(Será que Akagi
escreveu essas palavras?)
O avô de Koremitsu era
professor de caligrafia, então Koremitsu devia ser muito habilidoso em escrever
com pinceladas. Honoka também viu uma vez as palavras que escreveu, e elas eram
bonitas e bem feitas.
(Mas por que o Akagi
precisa causar tanta comoção?)
***
“Assim que as provas
terminarem, venha ao laboratório de química.”
Ao ver o conteúdo das
cartas escondidas no armário de sapatos, a garota ficou mortalmente pálida.
Chegou!
O silêncio amedrontador
persistia desde um mês atrás.
Sempre que caminhava pelo
corredor, sempre que conversava com os amigos na sala de aula, sentia um olhar
penetrante e, sem querer, virava-se para trás para olhar.
Não conseguia ver aquela
pessoa, porém aquele olhar penetrante continuava a perturbar seu coração, e
aquela voz fria era algo que não conseguia esquecer. Sentia o frio nas costas e
o sangue lhe sumiu do rosto.
Sempre que pensava nisso
antes de dormir, balançava a cabeça com força, assustada, e encolhia o corpo.
Todos os dias, estava
tomada pelos nervos.
Quando isso terminaria?
Não, quando “começaria”?
O longo período de
observação a levou à beira do colapso, contudo há poucos dias, sua situação enfim
começara a melhorar.
No entanto, naquele
momento, o dia do julgamento havia chegado.
As mensagens terminavam
com as seguintes palavras...
“Do espírito vingativo.”
A garota desviou o olhar
dos que estavam ao seu lado e escondeu as mensagens no bolso do uniforme antes
de seguir pelo corredor frio.
A garoa continuava lá
fora, e isso fez com que se revirasse ainda mais de medo.
Certo, estava chovendo
naquele dia...
Os dedos congelados
abriram a porta que dava acesso ao laboratório de química.
Cinco guarda-chuvas
estavam abertos em fila, pendurados nas grades das janelas.
O líquido preto pingava
da ponta dos guarda-chuvas, e o cheiro de tinta chegou ao seu nariz, seguido
pelo som de gritos.
— É O ESPÍRITO VINGATIVO!
— ISTO É VINGANÇA!
Os gritos continuavam a
ecoar em seus ouvidos, como se um grande tufão negro os tivesse engolido por
inteiro, sem que pudessem resistir de forma alguma. Algumas delas encaravam
fixamente as gotas negras que pingavam do guarda-chuva, algo que não deveria
estar acontecendo.
— Kawai.
Ao ouvir alguém chamá-la,
a menina se virou em choque.
Assim que abriu a porta, fechou
os olhos de medo.
No momento em que abriu
as janelas, viu-as completamente encharcadas pela água da chuva, as cortinas
cor de marfim caídas para o lado e os rostos pálidos de quatro pessoas.
— Você... Também recebeu
a carta?
— Sim.
— Então, estamos todas
aqui.
— Isso mesmo.
Um silêncio profundo
tomou conta do local.
Todas baixaram a cabeça,
aparentemente sem querer olhar umas para as outras. O som da chuva e o cheiro
úmido e apodrecido de grama e folhas pairavam na sala de aula.
Por fim, alguém se
impacientou com o clima pesado e se manifestou.
— Quem escreveu essas
palavras na parede...
Outra pessoa disse com a
voz trêmula.
— Quem nos escreveu... Deve
ser o mesmo que escreveu aquelas palavras, certo?
Outra pessoa disse.
— Pensei... Que isso já
tivesse acabado.
E então, começaram a
falar freneticamente.
— O que fazemos? Será que
o veterano Tojo ainda está zangado conosco?
— Com certeza. Ele está
furioso. O seu tom estava calmo naquela época, mas a sua expressão era
assustadora. Deve ser o mesmo dessa vez.
— Isso não tem nada a ver
comigo! Não fui eu quem roubou o guarda-chuva da Kanai!
— Nem eu!
— Sério? Você é quem mais
gostava de implicar com a Kanai.
— Não brinque comigo,
Abe. Você que exagerou, só entrei na brincadeira depois. Você escondeu o
guarda-chuva da Kanai, não foi? Foi por sua culpa que as coisas acabaram
assim...
— Está querendo jogar a
responsabilidade para cima de mim? Não foi a Marika que sugeriu ostracizar a
Kanai e esconder o guarda-chuva?
— Não. Foi a Kawai quem
sugeriu primeiro. Só estava seguindo o que ela disse. O guarda-chuva não tem
nada a ver comigo.
— Não, quem escondeu foi
a Marika. Foi você quem espalhou a foto do veterano Tojo dividindo um
guarda-chuva com a Kanai, e ainda disse que não devíamos perdoá-la.
— Foi o que o Abe disse,
não foi? A Abe disse que a Kanai estava se achando e que precisávamos lhe dar
uma boa lição.
— Não sei nada sobre esse
guarda-chuva... Antes que o veterano Tojo nos repreendesse, eu...
— NÃO AGUENTO MAIS!!!
Alguém enfim desabou em
lágrimas.
— NÃO QUERO SER OSTRACIZADA
POR TODOS E ENCARADA COM OLHOS FRIOS DE NOVO! FOMOS TRATADAS COMO AS VILÃS
DAQUELA VEZ!
— Tive que sair do clube
de cerimônia do chá por causa desse incidente também!
— E então levamos uma
bronca do veterano Tojo...
— Tudo porque Kawai fez
algo que não deveria ter feito!
— VOCÊS NÃO TINHAM
CONCORDADO EM PARTICIPAR TAMBÉM?
— E TODAS NÓS ÉRAMOS
TRATADAS COMO AS GAROTAS MÁS. O TOJO, ATÉ DISSE: “SEUS CORAÇÕES SÃO TÃO NEGROS
QUE NÃO PODEM SER ESCONDIDOS. NÃO QUERO VER ALUNAS TÃO DESPREZÍVEIS EM NOSSA
ESCOLA!”
— É óbvio que o Tojo ainda
está furioso com aquilo.
— E O QUE FIZEMOS DE
ERRADO? NADA DISSO TERIA ACONTECIDO SE A KANAI NUNCA TIVESSE TENTADO FICAR COM
O VETERANO TOJO!
— É VERDADE! A KANAI É
APENAS UMA PLEBEIA QUE ENTROU PARA O GRUPO NO ENSINO FUNDAMENTAL, E SE ATREVEU
A SEDUZIR ELE!
— TUDO É CULPA DA KANAI!
NÃO SÓ SEDUZIU O VETERANO TOJO, COMO TAMBÉM O LORDE HIKARU... O LORDE HIKARU DEVE
TER SIDO MORTO POR ESTAR COM ELA! É ISSO QUE TODAS AS MENSAGENS DIZIAM!
— SEM DÚVIDA! KANAI ESTÁ
DEFINITIVAMENTE POSSUÍDA POR UM ESPÍRITO VINGATIVO!
— Vocês, meninas, são
todas muito desprezíveis.
Koremitsu saiu rastejando
de debaixo da mesa enquanto falava furiosamente.
As meninas, que estavam
discutindo irritadas há pouco, gritaram “HIIIII!!!” enquanto permaneciam
imóveis.
Com as costas curvadas,
os olhos de Koremitsu ardiam de raiva, e passou pelas mesas pretas resistentes
ao calor enquanto o eco de seus passos ecoava.
— Até hoje, vocês
continuam a se esquivar das responsabilidades e acham que não têm culpa
nenhuma? Se eu espremer seus corações, com certeza sairá água negra, como
tinta.
Querem experimentar?
Ele ergueu as sobrancelhas ao dizer aquelas palavras e olhou para elas, uma por
uma.
Aquelas garotas ficaram
aterrorizadas, seus rostos se contorceram logo em seguida e estremeceram por
inteiro.
(Não adianta ficar com
raiva delas.)
Ao pensar nisso, Koremitsu
mostrou os dentes e ergueu os cantos dos lábios.
— !
As meninas arregalaram os
olhos e deram alguns passos para trás.
— Nunca mais ousem falar
mal de Yu Kanai, e não ousem intimidá-la, ou nem precisará esperar que o
espírito vingativo aja. Eu arrancarei essas suas bocas imundas primeiro!
Koremitsu manteve os
lábios curvados num sorriso enquanto falava com um olhar feroz.
Ele queria sorrir, mas
aquelas garotas...
— NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!
Gritaram de terror
enquanto corriam para a porta, os rostos banhados em lágrimas na tentativa de
escapar, e acabaram se chocando umas contra as outras. Incapazes de se mover,
berravam de medo, desabaram no corredor como uma avalanche, sem se importar com
as saias levantadas e os cabelos desgrenhados. Fugiram sem se importar com a
própria vida.
Cada uma caiu duas, três
vezes antes de se começarem a se acalmar.
Bem, quem se importa com
elas, afinal?
Koremitsu estava mais
preocupado com o fato de aquelas garotas terem gritado “ELE É MAIS ASSUSTADOR
QUE UM ESPÍRITO VINGATIVO!” enquanto fugiam, e isso era algo que não conseguia
compreender.
Não foi um exagero?
Estava se sentindo
deprimido por dentro e, ao seu lado, uma voz soou.
— Estou começando a
sentir um pouco de pena daquelas garotas.
Hikaru esboçou um sorriso
irônico.
— Seu “sorriso” é muito
poderoso. Lembre-se: nunca, jamais o use em uma cena de amor.
— Não há necessidade de
comentários desnecessários.
Koremitsu respondeu
descontente.
Além do mais, havia algum
motivo para ter pena de tais garotas? Ele realmente gostava de mimar as
garotas.
— De qualquer forma, eu
não consigo sorrir, e ainda estou com raiva de você. Não fale comigo assim do
nada.
Hikaru deu de ombros e revelou
um singelo sorriso.
— Porém... Depois de ver
como aquelas garotas de coração negro continuaram a jogar a culpa umas nas
outras, há algumas coisas que eu não entendo, como o caso do Tojo.
Koremitsu cruzou os
braços e inclinou a cabeça, em dúvida. Hikaru pareceu ter entendido tudo,
exibindo uma expressão sábia e dizendo.
— Então, acho que devemos
procurar o Sr. Shungo.
***
Por sorte, Tojo ainda não
tinha saído da escola.
— Deve estar lá.
Com Hikaru à frente,
Koremitsu chegou a um jardim de bambu em um canto da escola. Havia arbustos
baixos crescendo a seus pés, e o bambu e as plantas se eriçavam com a brisa.
Após caminharem um pouco,
encontraram um monumento de pedra cercado por rochas cobertas de algas, e Tojo
estava ao lado dele, segurando um guarda-chuva verde-escuro.
Ele estava parado,
imóvel, com os olhos fechados, aparentando estar em meditação.
Koremitsu, segurando um
guarda-chuva azul-marinho, aproximou-se de Tojo, e este deve ter ouvido o som
de passos ao abrir os olhos, antes de lançar a Koremitsu um olhar penetrante e
nada acolhedor.
Koremitsu também
retribuiu o olhar, dizendo.
— Tenho algo para
conversar com você.
— No entanto, eu não
tenho nada a conversar com você.
O barítono soou
claramente.
Tojo estava prestes a se
virar e ir embora, entretanto Koremitsu o chamou com uma voz alta e clara.
— Escute logo, primeiro
vou falar sobre a verdadeira identidade do espírito vingativo.
O guarda-chuva
verde-escuro parou.
— Já chamei as garotas
que atormentaram Yu e as interroguei.
— Elas já disseram?
Havia um tom de dúvida na
voz que vinha de trás do guarda-chuva.
— Sim. Elas conversaram demais.
Koremitsu fingiu manter a
calma enquanto respondia com frieza, observando em silêncio a reação de Hikaru.
Hikaru flutuava
silenciosamente entre Koremitsu e Tojo, observando o impasse entre os dois lados.
Nesse momento, Koremitsu
ainda não entendia o que Hikaru estava pensando, nem a intenção por trás
daquelas palavras que havia mencionado no dia anterior.
(De qualquer forma,
não me importo. Só quero ajudar Yu o máximo que puder.)
Não havia tempo para
pensar nisso, se continuasse encarando Hikaru, Tojo ficaria desconfiado. Não podia demonstrar qualquer hesitação ou
brecha na frente deste último.
Certo, o importante era o
sujeito à sua frente, envolto em uma arrogância digna de um nobre.
Pois ele possivelmente é
o mentor por trás da comoção causada pelo espírito vingativo um ano atrás, que
fez com que Yu tivesse pavor de ir à escola.
Koremitsu fez o possível
para desviar o olhar de Hikaru e encarou as costas robustas sob o guarda-chuva
verde-escuro.
— Todas disseram a mesma
coisa. Parafraseando-as, não fui eu quem roubou o guarda-chuva.
Você escondeu o
guarda-chuva, não foi?
Não fui eu. Não foi você?
Todas as meninas disseram
que não foram elas que pegaram o guarda-chuva e começaram a se culpar mutuamente.
Pelo que Koremitsu disse, não foi possível perceber nenhum traço de remorso em
suas palavras.
— Talvez de fato não
tenham roubado o guarda-chuva da Yu, todavia foram tratadas como culpadas por
todos e, por serem malvistas pelos colegas, entraram em pânico.
— NÃO QUERO SER
OSTRACIZADA POR TODOS E ENCARADA COM OLHARES FRIOS DE NOVO! FOMOS TRATADAS COMO
VILÃS NAQUELA ÉPOCA!
— TIVE QUE SAIR DO CLUBE
DE CERIMÔNIA DO CHÁ POR CAUSA DESSE INCIDENTE TAMBÉM!
As meninas gritavam
histericamente, a plenos pulmões, insistindo que eram inocentes.
— Claro que mereceram, já
que estavam intimidando a Yu. Viram que ela estava frustrada por ter perdido o
guarda-chuva e continuaram a zombar da sua situação maldosamente. Porém, nunca
pensaram em refletir sobre suas ações e apenas pensaram em como mudar a
situação infeliz em que “eram culpadas sem terem feito nada de errado”.
Sentiram-se vítimas, pensando em como se proteger... Por esse motivo decidiram “se
fazer de vítimas para atrair ainda mais a atenção dos outros”.
Os bambus tremeram com
mais força, produzindo um som farfalhante.
Tojo olhou em volta e
franziu a testa.
A chuva caía do céu como
flechas.
A expressão altiva sob o
guarda-chuva verde-escuro ainda não demonstrava nenhuma fraqueza.
Mas não se virou e foi
embora, permaneceu onde estava, ouvindo atentamente Koremitsu.
— No dia seguinte ao dia
em que Yu perdeu seu guarda-chuva, os guarda-chuvas delas desapareceram e foram
encontrados pendurados na grade da janela da sala de química. Isso foi algo que
elas mesmas planejaram e encenaram para ganhar alguma simpatia e se livrar de
suspeitas.
O vento bagunçou os
cabelos ruivos de Koremitsu.
Os cabelos negros de Tojo
também ondularam ao vento.
Contudo...
— E daí? Isso tem alguma
coisa a ver comigo?
Ao que parece, ele não
tinha a menor intenção de se incomodar com isso, pois perguntou friamente.
O temperamento de
Koremitsu se exaltou em seguida.
Como esperado, não é um cara
qualquer que revelaria qualquer brecha. Muito bem, vou arrancar essa sua
máscara arrogante de nobre!
Os olhos de Koremitsu
ardiam de raiva, e concluiu em tom de deboche.
— Claro que sim. É o que
penso.
Me mostre um pouco de
pânico, Tojo.
Deixe-me ver seu rosto se
contorcer, sua voz tremer. O jeito como você parece perdido.
— Porque é óbvio que elas
não têm medo do espírito vingativo, mas de você, Tojo! Nunca disseram nada
sobre o espírito vingativo, apenas repetiram sem parar a frase “O veterano Tojo
ficou com raiva”.
Ele exibiu o sorriso que
tanto Hikaru quanto as garotas tanto desprezavam.
Era um sorriso
horripilante, sem dúvida inadequado para uma cena de amor que exigisse ternura,
embora perfeitamente apropriado para um duelo.
Ele mostrou os dentes e
ergueu os cantos dos lábios. Seus olhos brilhavam enquanto sorria.
Pela primeira vez, Tojo
pareceu chocado, arregalou os olhos e recuou.
— Você disse algo para elas.
O rosto de Koremitsu
assumiu uma expressão aterradora enquanto pronunciava as palavras ditas por
aquelas garotas, com os semblantes pálidos.
— Seus corações são tão
negros que não podem ser escondidos. Não quero ver alunas tão desprezíveis em
nossa escola .
O rosto de Tojo escureceu
enquanto ele estreitava os olhos. Koremitsu continuou a atacar de forma implacável.
— É verdade que armaram
com seus guarda-chuvas, porém foi você quem derramou a tinta neles! O motivo de
tudo isso ter sido culpa sua, Shungo Tojo!
O espírito vingativo tem
origem na malícia presente no coração de uma pessoa.
Contudo, o espírito
vingativo que ganhou consciência estava sendo manipulado por essa pessoa!
A água escura que
escorria pelas pontas do guarda-chuva era a mensagem que transmitia àquelas
meninas.
Insinuando em segredo os
corações negros que não conseguiam esconder.
Usou esse método para
ameaçar aquelas garotas superficiais e, como resultado, alcançou algum
objetivo.
Em meio a esse bosque de
bambus, Koremitsu encarou o veterano com uma expressão arrogante, cabelos
despenteados e um rosto bonito contorcido, rugindo.
— QUAL ERA O SEU
OBJETIVO?
Nesse instante, uma voz
veio de trás.
— É vingança. Ele quer
vingança pela Yu Kanai.
Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...
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