terça-feira, 3 de novembro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 02 — Capítulo 14

Volume 02: Yugao — Capítulo 14: O espírito vingativo está lá

 

Honoka ligou o computador de casa, acessou sua página inicial e o luxuoso papel de parede e as palavras elegantes sobre o fundo roxo surgiram diante de seus olhos.

 

Essa “Mansão da Princesa Púrpura” era um site que ela criou há dois anos, que podia ser acessado por computador ou celular, e continha publicações dos romances que escreveu.

 

As histórias de amor envolventes e extremamente açucaradas que escrevia eram populares entre as garotas, tinham ótimas avaliações e seu site era um dos favoritos.

 

A autora, Princesa Púrpura, era aclamada como uma especialista em relacionamentos, e os comentários do blog e a caixa de entrada estavam repletos de mensagens de garotas desabafando suas frustrações amorosas e pedindo conselhos à Princesa Púrpura.

 

E assim, a Princesa Púrpura, Honoka, respondeu pessoalmente a todas as perguntas, uma por uma.

 

“Olá, Princesa Púrpura!

Sou estudante do segundo ano do Ensino Fundamental II.

Comecei a namorar meu namorado há cerca de um mês.

Ele é um rapaz esportivo e sincero, participa do clube de tênis, me leva para assistir a jogos de futebol ou tênis quando estamos em encontros e pode até jogar basquete quando estamos viajando.

Eu me sinto feliz quando saímos juntos... Porém sou péssima em esportes e não entendo nada quando assisto a esportes (≧д≦)ノ

Sempre que jogamos juntos, não consigo pegar a bola, me sinto um verdadeiro peso morto!

Porém ele sempre me diz: ‘Você pode melhorar se praticar mais, A-mi, faça o seu melhor!’ E me leva para jogar tênis de novo na semana seguinte.

Gosto muito dele, contudo se isso continuar, acho que vai ser doloroso continuar o namoro nesse ritmo!

O que posso fazer? Estou muito, muito preocupada!

PS: Eu li a novel que foi atualizada esta semana! Fiquei muito animada quando vi a cena em que o Takuma persegue a Natsuno por trás e a abraça forte!! (ノノノ▽ノノノ)”

 

“Olá, Srta. A-mi,

É realmente preocupante que seus interesses não coincidam.

Minha amiga reclamou uma vez que, em encontros, ela queria ir a restaurantes de massas e crepes, no entanto seu namorado sempre a levava a restaurantes de ramen, mesmo quando ela não queria!

Também é como o seu caso, senhorita A-mi, pois gosta do namorado e não quer deixá-lo infeliz. Por isso, não teve coragem de dizer que prefere massa.

Um dia, enfim reuniu coragem, e seu namorado ficou muito surpreso: ‘Por que você ficou calada sobre isso?’ Ele até a repreendeu com raiva por não o ter dito.

Mais tarde, quando começaram a namorar, revezavam-se para ir a restaurantes de ramen e aos que ela recomendava, e ela dizia, feliz, que embora não gostasse de ramen de porco, achava o ramen com sal delicioso.

Então, acho que deveria tentar conversar a respeito com seu namorado, Srta. A-mi.

Pode ser que esteja com medo e nervosa.

É por esse motivo que esta Princesa Púrpura lhe dará um conselho.

Antes de começar, segure-o delicadamente pelas mãos.

Se ele ficar chocado e perguntar ‘O que houve?’, continue segurando suas mãos, abaixe um pouco a cabeça, mostre lágrimas nos olhos e encare os seus olhos com a expressão mais triste que conseguir.

Deve expressar seus pensamentos com a convicção de que não deve soltar aquelas mãos. E ele certamente entenderá!”

 

Após terminar sua resposta, Honoka se lembrou de algo que não queria lembrar e começou a se sentir deprimida de novo.

 

Ela apoiou a bochecha direita na mesa e soltou um suspiro.

 

(Por que meu coração dói sempre que penso no Akagi...?)

 

No dia anterior, quando emprestou o guarda-chuva dobrável para Koremitsu no palco do parque, este franziu a testa, hesitante.

 

Mas, após um momento de dúvida, sua expressão rígida relaxou um pouco.

 

— Então... Vou usá-lo... Como um talismã.

 

Ao ouvir essa frase desajeitada, Honoka quase se emocionou até às lágrimas. Sentiu um leve nó na garganta, porém mesmo assim estava feliz, sorrindo como uma boba.

 

— Certo, com certeza vai funcionar.

 

Após dizer aquilo, ela empurrou o guarda-chuva para as mãos de Koremitsu.

 

Com um sorriso marejado no rosto, observou Koremitsu segurar seu guarda-chuva e caminhar naquela noite ventosa e tempestuosa, protegida por ele.

 

Que sensação era aquela?

 

Naquela noite, recebeu uma mensagem de Koremitsu.

 

“Desculpe incomodá-lo hoje.

O guarda-chuva foi muito útil.

Obrigado.

Te vejo na escola amanhã.”

 

O conteúdo seco desta mensagem provocou uma mistura de emoções em Honoka, que se sentiu feliz e inquieta ao mesmo tempo.

 

(Ele já falou com a Kanai?)

 

Ela queria perguntar, contudo estava tão apavorada que não conseguia, e não entendia por que estava tão apavorada.

 

“Que bom que pude ajudar.

Te vejo amanhã.

Boa noite.”

 

Estava extremamente hesitante, reescreveu a mensagem algumas vezes e só conseguiu digitar estas palavras no final.

 

Depois disso, ela continuou esperando, no entanto nunca recebeu uma resposta.

 

(Akagi não é esse tipo de pessoa, para começo de conversa...)

 

Honoka já sabia, todavia, no fundo, sentia-se muito sozinha.

 

Pela manhã, Koremitsu devolveu o guarda-chuva, seco e muito bem dobrado, a Honoka com as duas mãos.

 

— Seu guarda-chuva me ajudou muito.

 

Quando fez uma reverência profunda e agradeceu, Honoka ficou olhando para o redemoinho no meio daquele cabelo ruivo. Seu coração apertou de repente e se sentiu muito sentimental.

 

— N-Não é nada, por que precisa exagerar tanto? Eu quero saber mais sobre... Como a Kanai está.

 

— Ohh...

 

Koremitsu desviou o olhar e respondeu friamente.

 

— Prometi à Yu que encontraria o guarda-chuva dela.

 

— Guarda-chuva? Está falando daquele de um ano atrás? É impossível!

 

— Mesmo que seja impossível, tenho que fazer.

 

Koremitsu disse em tom inflexível.

 

A determinação que transparecia em seus olhos enquanto ele olhava para o lado causou uma sensação insuportável em Honoka, como se alguém estivesse apertando seu coração.

 

Depois disso, Koremitsu se remexeu e voltou para o seu assento com as costas arqueadas.

 

Assim que terminou a primeira prova, ele saiu correndo da sala de aula e não voltou por um tempo.

 

Com uma expressão exausta no rosto...

 

— Akagi está aprontando de novo, Honoo!

 

Michiru correu para avisá-la e, naquele exato momento, o sinal da segunda aula tocou. Pouco depois do início da prova, avistou o retorno de Koremitsu.

 

Estava tomado por uma fúria intensa e parecia realmente infeliz, pois franzia a testa enquanto escrevia em seu roteiro.

 

Após o término da prova, ele se levantou e voltou a sair da sala de aula.

 

(Argh, sério, o que é que o Akagi está fazendo?)

 

Honoka ficou completamente perplexa ao ver aquilo, e estava tão tensa que sentiu um aperto no estômago.

 

Depois disso...

 

— OUVI DIZER QUE O AKAGI ESTUPROU UMA GAROTA NO BANHEIRO MASCULINO!!!

 

Assim que um certo garoto entrou correndo na sala de aula, gritando isso, Honoka quase sentiu seus olhos escurecerem diante de si.

 

(AKAGI!! O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO?????)

 

Koremitsu chegou atrasado para a prova do período seguinte e nem sequer olhou para Honoka. Assim que a prova terminou, ele foi chamado por um professor e saiu da sala de aula.

 

Incapaz de resistir ao impulso, Honoka o perseguiu.

 

Enquanto continuava a rondar a sala de aconselhamento estudantil, uma garota pequena, mas com seios fartos e cabelos curtos, chamou-a.

 

— Você também está esperando pelo Sr. Akagi, Srta. Shikibu?

 

Era Oumi Hiina, do clube de notícias.

 

Ela era supostamente a garota que Koremitsu arrastou para o banheiro masculino.

 

Ela, que já foi colega de classe de Honoka no Ensino Fundamental, fingiu ser carinhosa com Honoka enquanto dizia.

 

— Por que só o Sr. Akagi foi chamado aqui? Não é muito injusto? Será que a Presidente Saiga está fingindo usar sua autoridade para ficar a sós com ele, secretamente praticando um jogo de sadomasoquismo?

 

Com o coração cheio de dúvidas, Honoka sussurrou para Hiina, perguntando.

 

— O-Oumi, ouvi que o Akagi es... O que está acontecendo, afinal?

 

— Ah, é assim mesmo. Minha pureza foi manchada. Suponho que o Sr. Akagi assumirá a responsabilidade?

 

Honoka não achou graça nenhuma ao ouvir o tom de brincadeira de Hiina.

 

— Não seja ridícula. O Akagi jamais faria uma coisa dessas! Ele tem cara de delinquente, porém é um cabeça-dura com uma personalidade íntegra. Ele não se importa com nada a menos que seja uma garota de quem goste!

 

Foi assim que ela rebateu.

 

— Hoho, parece que você realmente entende o Sr. Akagi, Srta. Shikibu.

 

Hiina sorriu para Honoka com os olhos semicerrados, fazendo com que o rosto desta última ficasse corado.

 

— N-Não é nada. Só conversei sobre algumas coisas com o Akagi mais cedo, então estou um pouco preocupada com ele.

 

— Conversaram? Sobre o que vocês conversaram?

 

— Não é da sua conta.

 

Enquanto ambas conversavam em voz baixa, o desabafo de Koremitsu veio repentinamente de trás da porta.

 

— DESSA VEZ EU A PROTEGEREI!

 

Mesmo através da porta, essas palavras ecoaram claramente para Honoka e lhe causaram uma pontada no peito.

 

Hiina esperou na porta, ouvindo às escondidas lá dentro.

 

Honoka não queria ouvir, contudo não conseguiu resistir à tentação e também encostou o ouvido na porta.

 

E logo depois, ouviu a voz de Koremitsu, mais clara do que nunca.

 

— SE HOUVER ALGUM ESPÍRITO VINGATIVO, EU O DESTRUIREI PARA QUE NÃO SE APROXIME DA YU DE NOVO!

 

Os passos se aproximaram e a porta da sala de aconselhamento estudantil se abriu de repente com um estrondo.

 

Honoka e Hiina se esconderam atrás da porta, e Koremitsu não as viu enquanto aquele homem de cabelos ruivos e costas levemente arqueadas partia furioso.

 

Honoka o observava com o coração quase partido.

 

— Eu vou protegê-la, hein?

 

Com o rosto colado à mesa, Honoka murmurou para si mesma.

 

Sem que percebessem, começou a chover lá fora, e o som solitário das gotas de chuva podia ser ouvido em breves rajadas.

 

— Então não sou... A única.

 

Seu coração começou a doer outra vez.

 

Não se tratava de uma dor repentina e insuportável, no entanto desde que ouviu aquelas palavras de Koremitsu do lado de fora da sala de aconselhamento estudantil, seu coração começou a doer.

 

Quando teve um pequeno desentendimento com Asai por causa de Koremitsu, Koremitsu lhe disse... — Se Saiga tentar alguma coisa, vou te proteger.

 

Aquelas palavras foram ditas com paixão, sem qualquer fingimento, tratando a situação como o dever divino de um homem.

 

Era diferente do “proteger” que disse categoricamente naquele dia.

 

O “proteger”, ele disse, não tinha nenhum significado especial... Por que o coração dela disparou por causa disso? Era tudo uma grande bobagem.

 

— Não tenho nenhum sentimento especial pelo Akagi, ele não me trata como um interesse amoroso, apenas como alguém com quem pode conversar... No começo, o confundi com um pervertido, o chutei... E escolhi por conta própria ignorá-lo... Não me importa de quem ele gosta...

 

Deveria ser assim...

 

Entretanto por que estava com tanta dor de cabeça?

 

Por que estava sempre pensando em Koremitsu?

 

Honoka sentou-se e balançou a cabeça. Seu olhar se fixou no computador e viu que havia uma nova mensagem no quadro de avisos.

 

“Este é meu primeiro comentário.

Estou sempre me preocupando com alguém e fico esperando contato dessa pessoa. Quando não a vejo, fico triste. Por que isso acontece?

Discuti com essa pessoa da última vez.

Ele disse que meu raciocínio estava errado, e fiquei chocada. Senti que ele não entendia meus sentimentos de forma alguma.

Essa pessoa é completamente diferente de mim e, às vezes, tenho muito medo dela.

Ele me enviou uma mensagem pedindo desculpas, mas não respondi.

Espero que me abandone, não me mande mensagem e não me procure mais.

Nesse caso, poderei viver minha vida em paz de novo.

Só que quando essa pessoa parou de me mandar mensagem, comecei a me preocupar de novo e me sinto muito sozinha.

Qual é exatamente o meu problema?

Se nos encontrarmos, com certeza voltaremos a discutir.

As palavras dessa pessoa com certeza me magoarão.

Porém ainda quero vê-lo.

Sei que com certeza vou me arrepender, contudo quero encontrá-lo.

Ainda estou esperando que essa pessoa me envie uma mensagem.

Meu coração está uma bagunça, e não consigo me acalmar.

Mesmo fechando os olhos, não consigo dormir.

O que posso fazer para me tornar eu mesma de verdade?”

 

Essa mensagem coincidiu com os sentimentos de Honoka, fazendo com que se sentisse triste e com o coração pesado.

 

Assim que se encontrassem, ela se sentiria ansiosa.

 

Mesmo que ele estivesse na sua frente, sentiria que havia uma distância entre eles por algum motivo.

 

No entanto, quando não se encontravam, sempre se pegava pensando nele.

 

Antes, esse com certeza não era o caso.

 

(Falando sério, o que seria o certo a fazer?)

 

— O que é o amor, eu me pergunto?

 

Aquela voz era fraca, a ponto de não se parecer em nada com a dela, e de repente se sentiu impotente, prestes a desabar em lágrimas.

 

Honoka deveria ser aquela que ouvia os outros, que ajudava os outros...

 

Entretanto, sentia que era ela quem estava frustrada, quem precisava pedir ajuda aos outros.

 

(Se fosse eu, que tipo de sugestão gostaria de ouvir? O que exatamente quero fazer?)

 

Honoka digitou timidamente em seu teclado.

 

“Será muito difícil recuperar sua forma original, então não posso lhe dar uma resposta fácil...

Todavia, se você encarar seus sentimentos com sinceridade e tentar dar um passo à frente, talvez consiga entender.”

 

***

 

— Tentar dar um passo em frente...

 

Yu murmurou as palavras na tela.

 

Havia uma cortina azul transparente cobrindo a janela.

 

As gotas de chuva continuavam a cair lá fora, pela janela.

 

Yu se lembrou da sensação da água gelada batendo em sua pele, penetrando em suas roupas, e sentiu arrepios. Sua mão puxou com mais força o cobertor que a cobria da cabeça aos pés e estremeceu.

 

— Eu não consigo fazer isso...

 

Yu não conseguiu dar um passo sequer para fora.

 

— Yu, vamos para a escola.

 

Foi o que Koremitsu disse.

 

Sua testa estava franzindo, como se estivesse muito zangado, e falou com Yu, que estava aterrorizada.

 

— Não é normal ficar trancada no quarto todos os dias, e também não faz bem para a saúde. A linha entre a realidade e os delírios também ficará tênue.

 

Seus olhos brilhavam como chamas enquanto a encarava.

 

— É melhor sair e dar uma caminhada antes que suas pernas comecem a criar nadadeiras!

 

Yu achava que o amigo de Hikaru, Koremitsu, era uma boa pessoa.

 

A princípio, tinha muito medo dele, com seus cabelos ruivos, olhos selvagens e expressão rígida, mas logo percebeu que, embora seus modos fossem rudes, suas ações eram sinceras e gentis.

 

Ele trouxe o açúcar cristalizado que Yu gostava como presente. Corou ao lhe dar um quebra-cabeça transparente tão azul quanto o mar. Ajudou-a a trocar a lâmpada. Sempre que Hikaru a procurava, se sentava no meio da sala, sorrindo gentilmente. Koremitsu, por sua vez, parecia preocupado com algo, sentado encostado na parede perto da entrada, com as costas curvadas e infeliz. Porém, desde que Koremitsu apareceu ali, ela começou a se sentir mais à vontade.

 

Quando Koremitsu corou, dizendo que também nunca havia se apaixonado, viu a mesma solidão que sentia em seus olhos e, de repente, percebeu uma sensação de familiaridade entre eles.

 

No entanto, ele disse exatamente o que Yu não queria ouvir.

 

Após o divórcio com o pai, a mãe de Yu mudou-se para a Austrália em busca de trabalho e continuou a enviar mensagens para ela.

 

Todas as mensagens falavam da mesma coisa, sempre.

 

“Por quanto tempo vai ficar trancada em casa?

Você não pode se trancar dentro de casa para sempre?

Seu pai tem uma nova família e um novo filho, não tem como ele ter tempo para cuidá-la. Você já tem 16 anos, que tal amadurecer?”

 

A mãe de Yu insistia para que ela fosse mais madura, dizendo que aquilo era o certo a fazer, entretanto ao ver aquelas palavras tão imponentes, Yu sentiu um peso em seu corpo, como se estivesse sendo sugada para a escuridão de um abismo.

 

Ultimamente, sempre que sua mãe enviava uma mensagem, Yu as apagava sem ler.

 

Desde o divórcio dos pais, sempre achou difícil se comunicar com a mãe.

 

Não, começou muito antes disso.

 

Quando Yu era negligenciada e desprezada pelas outras meninas, seus pais estavam ocupados falando sobre divórcio, sem perceber que estava falando menos em casa, e sem se darem conta de suas frustrações a ponto de não conseguir comer.

 

Ao acordar de manhã, sabia que tinha que ir para a escola, contudo ficava tão apavorada que começava a suar frio.

 

Talvez os sapatos de uso interno desaparecessem outra vez do seu armário de sapatos.

 

Talvez houvesse grafites por toda a sua mesa.

 

Talvez alguém a amaldiçoasse: “Você é apenas uma plebeia insignificante e ousa se aproximar descaradamente de um nobre!”, “Parece muito obediente para uma raposa ladra”, “Você é realmente a melhor em seduzir os outros”.

 

Sempre que erguia o guarda-chuva, conseguia esconder as bochechas vermelhas de vergonha e os olhos marejados. Ali, ao menos, encontrava algum consolo.

 

O guarda-chuva azul brilhante com um peixe-anjo estampado, foi um presente de aniversário que ganhou no primeiro ano do ensino fundamental. Depois de sair para jantar com os pais, eles passaram por uma loja de departamentos no caminho de volta.

 

— Que lindo esse guarda-chuva!

 

Ela correu até a loja, com os olhos brilhando.

 

E então, carregando o guarda-chuva, envolto em uma fita dourada, com o máximo cuidado, ela retornou.

 

Naquele dia, ambos os pais sorriam radiantes para Yu.

 

Era um guarda-chuva muito, muito importante para ela.

 

Um guarda-chuva que sempre protegeria Yu.

 

Um guarda-chuva que sempre a protegeria dos olhares cheios de malícia.

 

Um guarda-chuva mágico que a ajudaria a relembrar aquele momento maravilhoso.

 

No entanto o guarda-chuva desapareceu.

 

Aquele guarda-chuva era a única coisa que mal sustentava seu coração.

 

O peixe preto e grande abriu a boca e devorou ​​o peixe-anjo por inteiro. As vozes maldosas ecoavam em sua mente, estridentes e reverberantes.

 

— Ouvi dizer que seu guarda-chuva sumiu?

 

— Uma pena, mas acho que não havia nada que pudéssemos fazer.

 

— Se continuar andando com o uniforme completamente encharcado, quem sabe algum velho querendo paquerar uma garota te chame.

 

O riso continuava a ecoar em seus ouvidos sem parar.

 

Ainda se lembrava do desespero que sentiu no portão da escola, quando o aguaceiro forte quase penetrou sua pele e seu corpo se enrijeceu, dolorido.

 

— Você é forte... Não tem como entender...

 

Ele não sabia o quão aterrorizante era para ela sair daquele quarto apertado, e não sabia o quão doloroso era obedecer à ordem de sua mãe.

 

Assim como um peixe só consegue viver na água, Yu não conseguia respirar quando saía pela porta. Não importava quantos olhares e palavras hostis enfrentasse, Koremitsu tinha a coragem de revidar, era por isso que não conseguia entender.

 

Assim como sua mãe, Koremitsu sentia que sua vida era anormal.

 

Se o encontrasse, com certeza a chamaria para ir à escola.

 

O desejo de Yu não correspondeu à esperança de Koremitsu.

 

— Vou recuperar seu guarda-chuva. — disse Koremitsu.

 

Todavia como seria possível?

 

Ela não acreditou em Koremitsu, nem em sua fantasia.

 

Nesse ponto, mesmo que encontrasse Koremitsu, apenas se sentiria deprimida, sem saber o que dizer em seguida e sem saber como encará-lo. Não conseguia mais adormecer diante de Koremitsu.

 

(Hikaru não é como o Akagi... Ele não diria coisas tão cruéis para mim...)

 

Não perguntava por que não ia à escola, não dizia que era algo anormal ou que era peculiar, e não lhe dizia que não deveria continuar como estava.

 

— Você é como uma flor de cabaça, Yu.

 

Ele estreitou os olhos delicadamente, indicando a Yu que tipo de flor ela era.

 

— É uma flor frágil que não pode desabrochar sob a luz do sol, e isto a torna ainda mais delicada, adorável... E bonita. As pétalas brancas que desabrocham na escuridão a tornam pura e gentil. Ao contemplá-la, se sentirá como se estivesse em um sonho, capaz de alcançar um momento de paz.

 

A voz doce e gentil de Hikaru envolveu aos poucos o coração de Yu.

 

— Hikaru, você gosta de flores de cabaça?

 

— Sim, muito. Posso ficar olhando para elas a noite inteira.

 

— O melhor será que permaneça sendo quem você é, Yu, e continue sendo uma flor que desabrocha na noite.

 

Aquela flor tinha seu próprio valor. Eram palavras delicadas e comoventes... Palavras que jamais esqueceria.

 

Ele continuou descrevendo os nomes e formatos das belas flores que avistava no parque ou à beira da estrada, já que Yu não podia dar um único passo para fora de seu apartamento.

 

— Hikaru... Você está feliz...?

 

Ele era muito gentil e não lhe fez nenhum pedido, apenas sorriu. Assim, não resistiu ao impulso e perguntou, preocupada. Com os olhos claros...

 

— Estou.

 

Ele respondeu.

 

Seu tom era muito calmo e não demonstrava qualquer sinal de afetação.

 

— E você? Está feliz?

 

E assim, Yu também exibiu um sorriso sincero, dizendo.

 

— Estou feliz.

 

— Enquanto eu ficar aqui, me sentirei feliz. Ninguém me dirá nada cruel aqui... Não preciso ter medo, não preciso ficar me escondendo... E posso ir a qualquer lugar sempre que fechar os olhos... Posso ver todos os tipos de coisas belas...

 

Ela esfregou as bochechas no cobertor enquanto fechava os olhos.

 

Era suave, delicado... Um toque reconfortante. Realmente queria ficar ali para sempre.

 

Hikaru também respondeu com sua voz suave.

 

— Sim, este lugar tem tudo... Este é o lugar mais confortável do mundo inteiro.

 

Ambos fecharam os olhos e deixaram o tempo passar enquanto ouviam as ondas suaves que só eles conseguiam ouvir.

 

Porém Koremitsu definitivamente não conseguia ouvir as ondas. Com certeza não conseguia ver a paisagem que Yu e Hikaru viam.

 

Só Hikaru conseguia entendê-la. Por esse motivo, só precisava da companhia de Hikaru e Lapis.

 

Nesse dia, Lapis estava sentada junto à janela, olhando para fora através da fresta da cortina.

 

Essa era a posição que Lapis ocupava na maior parte do tempo.

 

Já fazia quase um ano desde que Lapis chegara. Sua audição era ruim, e ela era uma gatinha cautelosa e lenta, com o hábito de ficar olhando fixamente para as coisas.

 

As vezes Yu se lembrava do que aconteceu na escola, e sempre que estremecia de medo, seu coração se acalmava ao olhar nos sábios olhos cor de lápis-lazúli de Lapis, que a encaravam.

 

Lapis sempre se sentava ao lado de Yu enquanto esta chorava em desespero, fosse no dia em que seu pai ligou, dizendo que não podia garantir suas necessidades básicas, no dia em que sua mãe foi ao apartamento procurá-la pela única vez, dizendo “Se você gosta de esperar aqui, morra de fome!” e a repreendeu, ou no dia em que recebeu a notícia da morte de Hikaru por telefone.

 

Contudo, assim que se acalmava, Lapis se afastava sozinha e sentava-se junto à janela.

 

E continuava olhando para fora.

 

Lapis era uma gata que gostava de sua liberdade, e talvez de fato quisesse sair. Assim como Hikaru, ela poderia deixar Yu um dia.

 

(E ficarei sozinha.)

 

De repente, Yu sentiu uma dor aguda no coração, e suas mãos, agarrando-se ao cobertor, começaram a tremer.

 

A bolsa de golfe que seu pai usava, o ventilador e o fogão que sua mãe tanto prezava... A essa altura, tudo aquilo era lixo que haviam descartado.

 

E Yu foi abandonada por eles.

 

Então Lapis iria... E Koremitsu iria...

 

(Não! É assustador! Não quero pensar nisso de novo!)

 

— Tente dar um passo à frente, talvez você consiga entender.

 

Entender? O que entenderia?

 

A sensação paradoxal de temer um encontro com Koremitsu e, ao mesmo tempo, esperar que ele enviasse uma mensagem?

 

Yu virou lentamente a cabeça na direção onde Hikaru costumava esperar e falou com um tom hesitante...

 

— Hikaru... Se você estivesse aqui... Deveria ser capaz de me dizer, certo?

 

Hikaru certa vez disse a Yu com delicadeza... “Porque você nunca me amou”.

 

Ele a encarava com uma expressão triste e serena, e disse que um dia ela entenderia a alegria do amor.

 

Naquele momento, Hikaru se agarrava ao amor com todas as suas forças.

 

Não, deve ter se agarrado amargamente ao amor até a morte.

 

Ele continuou a mimá-la com amor e ternura puros e genuínos, sem esperar nada em troca, a cuidou, confortou-a e, ao mesmo tempo, amou de todo coração a única pessoa que não podia abraçar.

 

Sempre que pensava naquela pessoa, o perfil de seu rosto sereno se escurecia com profunda solidão... Os olhos sonhadores revelavam muita dor e sofrimento, no entanto persistiam em sua resistência...

 

Algumas vezes Yu acordou de seu sono leve e viu Hikaru encostar a testa nas mãos cerradas, com os olhos fechados. Então, abria os olhos e esboçava um leve sorriso melancólico.

 

Aquele sorriso o fazia parecer ainda mais sofrido do que quando fechava os olhos com força... E ainda mais solitário.

 

Por que Hikaru queria viver esse amor doloroso? Por que não desistiu?

 

Yu dirigiu um tímido olhar para o lugar coberto pela cortina, onde Lapis sempre olhava, e murmurou algo sem sentido.

 

— Amor... O que é isso?

 

E naquele instante, o celular que estava sobre a mesa vibrou.

 

— !

 

Seu corpo estremeceu pelo susto e quase não conseguiu respirar ao verificar a mensagem.

 

Assim que descobriu que era uma mensagem enviada por Koremitsu, seu coração, que havia se acalmado, voltou a bater intensamente.

 

O dedo rígido abriu o conteúdo da mensagem.

 

Yu arregalou os olhos em choque.

 

Havia uma pequena linha na tela.

 

— Amanhã, espantarei esse espírito vingativo.

 

***

 

Estava chovendo desde a manhã do terceiro dia das provas de meio de semestre, e fazia muito frio.

 

Os alunos do Ensino Médio da Academia Heian, que carregavam guarda-chuvas a caminho da escola, encontraram uma misteriosa sequência de palavras no corredor perto do cadeado para sapatos e ficaram todos aterrorizados.

 

— O espírito vingativo chegou.

 

Havia uma linha horizontal de palavras pretas e grossas, escritas com pinceladas na parede branca, e os traços que se estendiam para baixo e para os lados não conseguiam esconder a força usada para escrevê-las. A tinta espalhada por toda parte era como sangue derramado, tão vívida que parecia saltar da parede.

 

Os alunos ficaram chocados ao verem aquela frase, e seus corações foram aparentemente apertados por uma mão negra enquanto permaneciam imóveis, tremendo de medo.

 

Não faz muito tempo que a corrente de e-mails sobre Yu Kanai circulou por toda parte, então todos imediatamente associaram o espírito vingativo da escola às palavras diante deles.

 

Foi a mesma coisa naquela época, quando os guarda-chuvas foram pendurados, pingando uma água negra e assustadora, sujando as janelas e a parede.

 

O espírito vingativo do passado estava pronto para atacar outra vez.

 

Aquilo era um presságio.

 

Era uma escola com muitas tradições, repleta de crianças descendentes de famílias que existiam desde tempos antigos.

 

Nesses espaços selados únicos, onde superstições não científicas como adivinhações e maldições eram bastante difundidas, o poder desse espírito vingativo se manifestaria em sua plenitude.

 

O medo que brotava nos alunos aumentou a presença desse espírito vingativo, que se espalhou por todos os cantos da escola.

 

— O espírito vingativo apareceu!

 

— O que acontecerá desta vez?

 

— Alguém vai ser devorado de novo!

 

Algumas das meninas estavam tão arrasadas que chegavam às lágrimas, e houve uma grande confusão no corredor.

 

Koremitsu manteve a boca fechada enquanto encarava a cena com atenção.

 

Continuou encarando a reação aterrorizada de cada pessoa, como um cão selvagem à caça de sua presa e, depois de um tempo, afastou-se daquela comoção com as costas curvadas.

 

E assim, Asai Saiga ficou diante dele com uma expressão severa.

 

— O senhor realmente gosta de causar tumulto por aqui, Sr. Akagi.

 

Sua voz estava carregada de raiva.

 

— O que quer dizer?

 

— Você escreveu essas palavras, não foi?

 

— Quem sabe? Não foi aquele espírito vingativo que escreveu?

 

Imediatamente, Asai fez uma careta e um brilho gélido surgiu em seus olhos.

 

— Só saberei investigando um pouco, mas mesmo que não saiba, sei que essa palhaçada foi feita por ninguém além de você.

 

— É um elogio?

 

Ao perceber que Koremitsu pretendia se fazer de desentendido até o fim, Asai ergueu uma sobrancelha.

 

— Não esperava que fosse uma besta tão desprovida de bom senso. O que pretende fazer a seguir?

 

Koremitsu lançou um olhar desafiador para Asai, com uma expressão tão cruel que ela ficou momentaneamente sem palavras.

 

— Se quiser saber o que acontece a seguir, basta observar em silêncio.

 

Enquanto isso, Honoka estava escondida atrás de uma esquina no corredor, sua respiração suspensa enquanto observava Koremitsu partir e Asai, que o encarava com raiva.

 

(Será que Akagi escreveu essas palavras?)

 

O avô de Koremitsu era professor de caligrafia, então Koremitsu devia ser muito habilidoso em escrever com pinceladas. Honoka também viu uma vez as palavras que escreveu, e elas eram bonitas e bem feitas.

 

(Mas por que o Akagi precisa causar tanta comoção?)

 

***

 

“Assim que as provas terminarem, venha ao laboratório de química.”

 

Ao ver o conteúdo das cartas escondidas no armário de sapatos, a garota ficou mortalmente pálida.

 

Chegou!

 

O silêncio amedrontador persistia desde um mês atrás.

 

Sempre que caminhava pelo corredor, sempre que conversava com os amigos na sala de aula, sentia um olhar penetrante e, sem querer, virava-se para trás para olhar.

 

Não conseguia ver aquela pessoa, porém aquele olhar penetrante continuava a perturbar seu coração, e aquela voz fria era algo que não conseguia esquecer. Sentia o frio nas costas e o sangue lhe sumiu do rosto.

 

Sempre que pensava nisso antes de dormir, balançava a cabeça com força, assustada, e encolhia o corpo.

 

Todos os dias, estava tomada pelos nervos.

 

Quando isso terminaria?

 

Não, quando “começaria”?

 

O longo período de observação a levou à beira do colapso, contudo há poucos dias, sua situação enfim começara a melhorar.

 

No entanto, naquele momento, o dia do julgamento havia chegado.

 

As mensagens terminavam com as seguintes palavras...

 

“Do espírito vingativo.”

 

A garota desviou o olhar dos que estavam ao seu lado e escondeu as mensagens no bolso do uniforme antes de seguir pelo corredor frio.

 

A garoa continuava lá fora, e isso fez com que se revirasse ainda mais de medo.

 

Certo, estava chovendo naquele dia...

 

Os dedos congelados abriram a porta que dava acesso ao laboratório de química.

 

Cinco guarda-chuvas estavam abertos em fila, pendurados nas grades das janelas.

 

O líquido preto pingava da ponta dos guarda-chuvas, e o cheiro de tinta chegou ao seu nariz, seguido pelo som de gritos.

 

— É O ESPÍRITO VINGATIVO!

 

— ISTO É VINGANÇA!

 

Os gritos continuavam a ecoar em seus ouvidos, como se um grande tufão negro os tivesse engolido por inteiro, sem que pudessem resistir de forma alguma. Algumas delas encaravam fixamente as gotas negras que pingavam do guarda-chuva, algo que não deveria estar acontecendo.

 

— Kawai.

 

Ao ouvir alguém chamá-la, a menina se virou em choque.

 

Assim que abriu a porta, fechou os olhos de medo.

 

No momento em que abriu as janelas, viu-as completamente encharcadas pela água da chuva, as cortinas cor de marfim caídas para o lado e os rostos pálidos de quatro pessoas.

 

— Você... Também recebeu a carta?

 

— Sim.

 

— Então, estamos todas aqui.

 

— Isso mesmo.

 

Um silêncio profundo tomou conta do local.

 

Todas baixaram a cabeça, aparentemente sem querer olhar umas para as outras. O som da chuva e o cheiro úmido e apodrecido de grama e folhas pairavam na sala de aula.

 

Por fim, alguém se impacientou com o clima pesado e se manifestou.

 

— Quem escreveu essas palavras na parede...

 

Outra pessoa disse com a voz trêmula.

 

— Quem nos escreveu... Deve ser o mesmo que escreveu aquelas palavras, certo?

 

Outra pessoa disse.

 

— Pensei... Que isso já tivesse acabado.

 

E então, começaram a falar freneticamente.

 

— O que fazemos? Será que o veterano Tojo ainda está zangado conosco?

 

— Com certeza. Ele está furioso. O seu tom estava calmo naquela época, mas a sua expressão era assustadora. Deve ser o mesmo dessa vez.

 

— Isso não tem nada a ver comigo! Não fui eu quem roubou o guarda-chuva da Kanai!

 

— Nem eu!

 

— Sério? Você é quem mais gostava de implicar com a Kanai.

 

— Não brinque comigo, Abe. Você que exagerou, só entrei na brincadeira depois. Você escondeu o guarda-chuva da Kanai, não foi? Foi por sua culpa que as coisas acabaram assim...

 

— Está querendo jogar a responsabilidade para cima de mim? Não foi a Marika que sugeriu ostracizar a Kanai e esconder o guarda-chuva?

 

— Não. Foi a Kawai quem sugeriu primeiro. Só estava seguindo o que ela disse. O guarda-chuva não tem nada a ver comigo.

 

— Não, quem escondeu foi a Marika. Foi você quem espalhou a foto do veterano Tojo dividindo um guarda-chuva com a Kanai, e ainda disse que não devíamos perdoá-la.

 

— Foi o que o Abe disse, não foi? A Abe disse que a Kanai estava se achando e que precisávamos lhe dar uma boa lição.

 

— Não sei nada sobre esse guarda-chuva... Antes que o veterano Tojo nos repreendesse, eu...

 

— NÃO AGUENTO MAIS!!!

 

Alguém enfim desabou em lágrimas.

 

— NÃO QUERO SER OSTRACIZADA POR TODOS E ENCARADA COM OLHOS FRIOS DE NOVO! FOMOS TRATADAS COMO AS VILÃS DAQUELA VEZ!

 

— Tive que sair do clube de cerimônia do chá por causa desse incidente também!

 

— E então levamos uma bronca do veterano Tojo...

 

— Tudo porque Kawai fez algo que não deveria ter feito!

 

— VOCÊS NÃO TINHAM CONCORDADO EM PARTICIPAR TAMBÉM?

 

— E TODAS NÓS ÉRAMOS TRATADAS COMO AS GAROTAS MÁS. O TOJO, ATÉ DISSE: “SEUS CORAÇÕES SÃO TÃO NEGROS QUE NÃO PODEM SER ESCONDIDOS. NÃO QUERO VER ALUNAS TÃO DESPREZÍVEIS EM NOSSA ESCOLA!”

 

— É óbvio que o Tojo ainda está furioso com aquilo.

 

— E O QUE FIZEMOS DE ERRADO? NADA DISSO TERIA ACONTECIDO SE A KANAI NUNCA TIVESSE TENTADO FICAR COM O VETERANO TOJO!

 

— É VERDADE! A KANAI É APENAS UMA PLEBEIA QUE ENTROU PARA O GRUPO NO ENSINO FUNDAMENTAL, E SE ATREVEU A SEDUZIR ELE!

 

— TUDO É CULPA DA KANAI! NÃO SÓ SEDUZIU O VETERANO TOJO, COMO TAMBÉM O LORDE HIKARU... O LORDE HIKARU DEVE TER SIDO MORTO POR ESTAR COM ELA! É ISSO QUE TODAS AS MENSAGENS DIZIAM!

 

— SEM DÚVIDA! KANAI ESTÁ DEFINITIVAMENTE POSSUÍDA POR UM ESPÍRITO VINGATIVO!

 

— Vocês, meninas, são todas muito desprezíveis.

 

Koremitsu saiu rastejando de debaixo da mesa enquanto falava furiosamente.

 

As meninas, que estavam discutindo irritadas há pouco, gritaram “HIIIII!!!” enquanto permaneciam imóveis.

 

Com as costas curvadas, os olhos de Koremitsu ardiam de raiva, e passou pelas mesas pretas resistentes ao calor enquanto o eco de seus passos ecoava.

 

— Até hoje, vocês continuam a se esquivar das responsabilidades e acham que não têm culpa nenhuma? Se eu espremer seus corações, com certeza sairá água negra, como tinta.

 

Querem experimentar? Ele ergueu as sobrancelhas ao dizer aquelas palavras e olhou para elas, uma por uma.

 

Aquelas garotas ficaram aterrorizadas, seus rostos se contorceram logo em seguida e estremeceram por inteiro.

 

(Não adianta ficar com raiva delas.)

 

Ao pensar nisso, Koremitsu mostrou os dentes e ergueu os cantos dos lábios.

 

— !

 

As meninas arregalaram os olhos e deram alguns passos para trás.

 

— Nunca mais ousem falar mal de Yu Kanai, e não ousem intimidá-la, ou nem precisará esperar que o espírito vingativo aja. Eu arrancarei essas suas bocas imundas primeiro!

 

Koremitsu manteve os lábios curvados num sorriso enquanto falava com um olhar feroz.

 

Ele queria sorrir, mas aquelas garotas...

 

— NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!

 

Gritaram de terror enquanto corriam para a porta, os rostos banhados em lágrimas na tentativa de escapar, e acabaram se chocando umas contra as outras. Incapazes de se mover, berravam de medo, desabaram no corredor como uma avalanche, sem se importar com as saias levantadas e os cabelos desgrenhados. Fugiram sem se importar com a própria vida.

 

Cada uma caiu duas, três vezes antes de se começarem a se acalmar.

 

Bem, quem se importa com elas, afinal?

 

Koremitsu estava mais preocupado com o fato de aquelas garotas terem gritado “ELE É MAIS ASSUSTADOR QUE UM ESPÍRITO VINGATIVO!” enquanto fugiam, e isso era algo que não conseguia compreender.

 

Não foi um exagero?

 

Estava se sentindo deprimido por dentro e, ao seu lado, uma voz soou.

 

— Estou começando a sentir um pouco de pena daquelas garotas.

 

Hikaru esboçou um sorriso irônico.

 

— Seu “sorriso” é muito poderoso. Lembre-se: nunca, jamais o use em uma cena de amor.

 

— Não há necessidade de comentários desnecessários.

 

Koremitsu respondeu descontente.

 

Além do mais, havia algum motivo para ter pena de tais garotas? Ele realmente gostava de mimar as garotas.

 

— De qualquer forma, eu não consigo sorrir, e ainda estou com raiva de você. Não fale comigo assim do nada.

 

Hikaru deu de ombros e revelou um singelo sorriso.

 

— Porém... Depois de ver como aquelas garotas de coração negro continuaram a jogar a culpa umas nas outras, há algumas coisas que eu não entendo, como o caso do Tojo.

 

Koremitsu cruzou os braços e inclinou a cabeça, em dúvida. Hikaru pareceu ter entendido tudo, exibindo uma expressão sábia e dizendo.

 

— Então, acho que devemos procurar o Sr. Shungo.

 

***

 

Por sorte, Tojo ainda não tinha saído da escola.

 

— Deve estar lá.

 

Com Hikaru à frente, Koremitsu chegou a um jardim de bambu em um canto da escola. Havia arbustos baixos crescendo a seus pés, e o bambu e as plantas se eriçavam com a brisa.

 

Após caminharem um pouco, encontraram um monumento de pedra cercado por rochas cobertas de algas, e Tojo estava ao lado dele, segurando um guarda-chuva verde-escuro.

 

Ele estava parado, imóvel, com os olhos fechados, aparentando estar em meditação.

 

Koremitsu, segurando um guarda-chuva azul-marinho, aproximou-se de Tojo, e este deve ter ouvido o som de passos ao abrir os olhos, antes de lançar a Koremitsu um olhar penetrante e nada acolhedor.

 

Koremitsu também retribuiu o olhar, dizendo.

 

— Tenho algo para conversar com você.

 

— No entanto, eu não tenho nada a conversar com você.

 

O barítono soou claramente.

 

Tojo estava prestes a se virar e ir embora, entretanto Koremitsu o chamou com uma voz alta e clara.

 

— Escute logo, primeiro vou falar sobre a verdadeira identidade do espírito vingativo.

 

O guarda-chuva verde-escuro parou.

 

— Já chamei as garotas que atormentaram Yu e as interroguei.

 

— Elas já disseram?

 

Havia um tom de dúvida na voz que vinha de trás do guarda-chuva.

 

— Sim. Elas conversaram demais.

 

Koremitsu fingiu manter a calma enquanto respondia com frieza, observando em silêncio a reação de Hikaru.

 

Hikaru flutuava silenciosamente entre Koremitsu e Tojo, observando o impasse entre os dois lados.

 

Nesse momento, Koremitsu ainda não entendia o que Hikaru estava pensando, nem a intenção por trás daquelas palavras que havia mencionado no dia anterior.

 

(De qualquer forma, não me importo. Só quero ajudar Yu o máximo que puder.)

 

Não havia tempo para pensar nisso, se continuasse encarando Hikaru, Tojo ficaria desconfiado.  Não podia demonstrar qualquer hesitação ou brecha na frente deste último.

 

Certo, o importante era o sujeito à sua frente, envolto em uma arrogância digna de um nobre.

 

Pois ele possivelmente é o mentor por trás da comoção causada pelo espírito vingativo um ano atrás, que fez com que Yu tivesse pavor de ir à escola.

 

Koremitsu fez o possível para desviar o olhar de Hikaru e encarou as costas robustas sob o guarda-chuva verde-escuro.

 

— Todas disseram a mesma coisa. Parafraseando-as, não fui eu quem roubou o guarda-chuva.

 

Você escondeu o guarda-chuva, não foi?

 

Não fui eu. Não foi você?

 

Todas as meninas disseram que não foram elas que pegaram o guarda-chuva e começaram a se culpar mutuamente. Pelo que Koremitsu disse, não foi possível perceber nenhum traço de remorso em suas palavras.

 

— Talvez de fato não tenham roubado o guarda-chuva da Yu, todavia foram tratadas como culpadas por todos e, por serem malvistas pelos colegas, entraram em pânico.

 

— NÃO QUERO SER OSTRACIZADA POR TODOS E ENCARADA COM OLHARES FRIOS DE NOVO! FOMOS TRATADAS COMO VILÃS NAQUELA ÉPOCA!

 

— TIVE QUE SAIR DO CLUBE DE CERIMÔNIA DO CHÁ POR CAUSA DESSE INCIDENTE TAMBÉM!

 

As meninas gritavam histericamente, a plenos pulmões, insistindo que eram inocentes.

 

— Claro que mereceram, já que estavam intimidando a Yu. Viram que ela estava frustrada por ter perdido o guarda-chuva e continuaram a zombar da sua situação maldosamente. Porém, nunca pensaram em refletir sobre suas ações e apenas pensaram em como mudar a situação infeliz em que “eram culpadas sem terem feito nada de errado”. Sentiram-se vítimas, pensando em como se proteger... Por esse motivo decidiram “se fazer de vítimas para atrair ainda mais a atenção dos outros”.

 

Os bambus tremeram com mais força, produzindo um som farfalhante.

 

Tojo olhou em volta e franziu a testa.

 

A chuva caía do céu como flechas.

 

A expressão altiva sob o guarda-chuva verde-escuro ainda não demonstrava nenhuma fraqueza.

 

Mas não se virou e foi embora, permaneceu onde estava, ouvindo atentamente Koremitsu.

 

— No dia seguinte ao dia em que Yu perdeu seu guarda-chuva, os guarda-chuvas delas desapareceram e foram encontrados pendurados na grade da janela da sala de química. Isso foi algo que elas mesmas planejaram e encenaram para ganhar alguma simpatia e se livrar de suspeitas.

 

O vento bagunçou os cabelos ruivos de Koremitsu.

 

Os cabelos negros de Tojo também ondularam ao vento.

 

Contudo...

 

— E daí? Isso tem alguma coisa a ver comigo?

 

Ao que parece, ele não tinha a menor intenção de se incomodar com isso, pois perguntou friamente.

 

O temperamento de Koremitsu se exaltou em seguida.

 

Como esperado, não é um cara qualquer que revelaria qualquer brecha. Muito bem, vou arrancar essa sua máscara arrogante de nobre!

 

Os olhos de Koremitsu ardiam de raiva, e concluiu em tom de deboche.

 

— Claro que sim. É o que penso.

 

Me mostre um pouco de pânico, Tojo.

 

Deixe-me ver seu rosto se contorcer, sua voz tremer. O jeito como você parece perdido.

 

— Porque é óbvio que elas não têm medo do espírito vingativo, mas de você, Tojo! Nunca disseram nada sobre o espírito vingativo, apenas repetiram sem parar a frase “O veterano Tojo ficou com raiva”.

 

Ele exibiu o sorriso que tanto Hikaru quanto as garotas tanto desprezavam.

 

Era um sorriso horripilante, sem dúvida inadequado para uma cena de amor que exigisse ternura, embora perfeitamente apropriado para um duelo.

 

Ele mostrou os dentes e ergueu os cantos dos lábios. Seus olhos brilhavam enquanto sorria.

 

Pela primeira vez, Tojo pareceu chocado, arregalou os olhos e recuou.

 

— Você disse algo para elas.

 

O rosto de Koremitsu assumiu uma expressão aterradora enquanto pronunciava as palavras ditas por aquelas garotas, com os semblantes pálidos.

 

— Seus corações são tão negros que não podem ser escondidos. Não quero ver alunas tão desprezíveis em nossa escola .

 

O rosto de Tojo escureceu enquanto ele estreitava os olhos. Koremitsu continuou a atacar de forma implacável.

 

— É verdade que armaram com seus guarda-chuvas, porém foi você quem derramou a tinta neles! O motivo de tudo isso ter sido culpa sua, Shungo Tojo!

 

O espírito vingativo tem origem na malícia presente no coração de uma pessoa.

 

Contudo, o espírito vingativo que ganhou consciência estava sendo manipulado por essa pessoa!

 

A água escura que escorria pelas pontas do guarda-chuva era a mensagem que transmitia àquelas meninas.

 

Insinuando em segredo os corações negros que não conseguiam esconder.

 

Usou esse método para ameaçar aquelas garotas superficiais e, como resultado, alcançou algum objetivo.

 

Em meio a esse bosque de bambus, Koremitsu encarou o veterano com uma expressão arrogante, cabelos despenteados e um rosto bonito contorcido, rugindo.

 

— QUAL ERA O SEU OBJETIVO?

 

Nesse instante, uma voz veio de trás.

 

— É vingança. Ele quer vingança pela Yu Kanai.


***


Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...

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