Volume 03: Demon Deathchase — Capítulo 20: Um Porto para as Estrelas
Parte 1
Ele estava um pouco perdido por causa da garota. Não tinha muita certeza do que deveria fazer com ela. Embora a garota fosse tão vibrante quanto um dia ensolarado, ela não havia dito nada sobre onde morava ou por que aquele caçador com o furúnculo no rosto a estava perseguindo. Claro, naquele estado, Grove não podia apenas perguntar, então não teve escolha a não ser esperar que lhe contasse. Quando a jovem recuperou a consciência, tentou entrar na floresta logo depois. Grove fez menção de ir junto, mas a jovem pareceu incomodada com isso, então decidiu ficar de fora. Porém, pensando melhor, seria perigoso para uma mulher estar sozinha na floresta.
De acordo com o que a garota havia dito, estava atravessando a floresta em uma carruagem com outra pessoa quando aquele caçador os atacou, ou algo assim. Grove tinha suas dúvidas de que a história fosse tão simples como havia dito, porque algumas partes do relato só não se encaixavam. Teve a impressão de que as partes mais nebulosas de sua história estavam de alguma forma ligadas a ele e seus irmãos, contudo não representava um problema para ele em seu estado atual.
Acompanhando a garota enquanto esta o agradecia várias vezes e ia embora, Grove começou a segui-la alguns minutos depois que desapareceu na floresta, no entanto a garota não tinha ido mais do que um passo da entrada... Estava parada ali. No fim, acabou acompanhando-a em busca de seu amado, tal qual a jovem havia pedido.
Depois de uma hora caminhando em busca do amor de sua vida, a garota estava quase exausta. Respirava com dificuldade e gotas de suor se acumulavam em sua testa.
Tão fraca, pensou Grove, confiante em seu próprio corpo saudável. Com esse pensamento, sentiu uma onda de pena. Realmente queria ajudá-la a encontrar quem quer que estivesse procurando. Afinal, não havia como saber quando teria que voltar.
Ajudando a garota a se levantar de novo, a estava ajudando a continuar a busca quando o crepúsculo chegou. A floresta era perigosa à noite. Tentou guiar a garota para fora da mata, todavia não deu muito certo. Agora também se encontrava perdido. Quando a garota o viu com os ombros encolhidos, Grove temeu que se assustasse, entretanto para sua grande surpresa, a jovem deu uma risadinha. Independentemente de estar viajando com seu amado ou não, devia ter coragem de fazer um passeio de carruagem tão longe das trilhas principais na Fronteira.
Embora seu brilho parecesse não ter fim, havia um toque de melancolia em seu sorriso que despertou os instintos protetores de Grove. Nesse momento, a garota disse algo bastante estranho: que assim que anoitecesse, seu amado certamente viria procurá-la. Desconfiado da confiança em seus olhos, não conseguia acreditar que isso fosse verdade. Seria melhor pedir ajuda aos seus irmãos, que deviam estar se aproximando a cada minuto.
Dando a volta por trás da garota para não a assustar, Grove lançou um raio no ar. A faixa incandescente estendeu-se sem fazer nenhum som pelo azul profundo do céu noturno.
Borgoff estava no banco do motorista do ônibus que saía de um vale estreito, e seus olhos amendoados brilharam ao ver o raio de energia.
— Ora, se o velho Grove se deu ao trabalho de nos dar um sinal... Bem, deve ter encontrado alguma coisa.
Correndo pela mata fechada na escuridão, Caroline olhou para o céu e sorriu amplamente.
— Essa é a mesma luz que vi na aldeia. — disse. — Com certeza é um sinal de que aquele garoto encontrou alguma coisa.
Mergulhado em pensamentos enquanto se debruçava sobre o cadáver do que fora Mashira, Mayerling se pôs em posição de sentido ao ver o raio de luz que rasgava o céu, surgindo de uma parte da mata não muito distante.
— Estava me perguntando quem poderia ter matado Mashira... — murmurou o vampiro. — Tanto poder bruto... Bem, não me importa quem seja. Se alguém a tocou, não vai acabar bem, eu juro.
A garota sentiu uma estranha paz. Isso graças ao jovem rapaz à sua frente. Seu rosto inocente e tez macia como a de um bebê lhe davam uma sensação incomparável de segurança. O rapaz não parecia se encaixar nas florestas da Fronteira, mas parecia mais adequado para uma vida na Capital.
O sol logo iria se pôr. Seu amor deveria chegar em pouco tempo. Não importava onde estivesse, sabia que a encontraria. A garota tinha certeza disso. Enquanto seu olhar gentil percorria o jovem parado à sua frente, acariciado pela brisa da noite, a garota pensou em como era triste que ele parecesse tão saudável e, ao mesmo tempo, não conseguisse dizer uma palavra.
De repente, a garota piscou. O jovem se virou em sua direção, parecendo surpreso. Um bosque era visível através de seu rosto radiante. O jovem estava desaparecendo.
Seus olhos tristes fitaram a garota, e seus lábios formaram uma palavra.
— Adeus.
A garota estendeu a mão para ele. O jovem estava se tornando cada vez mais transparente, como vidro desaparecendo na água.
— Adeus! — respondeu com pressa. Independentemente de quem fosse, queria agradecê-lo enquanto partia. — Adeus, adeus, obrigada e adeus.
E então o jovem desapareceu. Em um canto da floresta, que ficava cada vez mais escuro e crepuscular, a garota ficou sozinha.
O vento parecia ficar mais frio. Os olhos de inúmeras feras sedentas de sangue a encaravam das profundezas da floresta.
Estou com medo, pensou do fundo da sua alma. Muito medo. Depressa, salve-me, meu amor.
Houve um farfalhar nos galhos das árvores. Vinha de algum lugar atrás dela e à direita. A garota se virou com medo. Alguém estava se aproximando. Não conseguia dizer se era um homem ou uma mulher, nem como estavam vestidos. O medo apertou sua garganta. Estava chegando mais perto. O som de musgo sendo pisoteado e galhos quebrando. A uns cinco ou seis metros à sua frente, a figura parou de se mover. Uma voz inquisitiva perguntou.
— Quem está aí? É você, Grove?
Mesmo sabendo que era uma voz feminina, o medo não havia se dissipado. Lembrou-se de que o homem que a atacara antes tinha dois parceiros, e um destes era uma mulher. Quanto ao nome do outro homem, não conseguia se lembrar.
Quando a figura deu um passo à frente e pôde distinguir o rosto de uma mulher que nunca vira antes, a garota enfim suspirou de alívio e deixou a tensão escapar de seus ombros.
— Deixe-me adivinhar... Você é a passageira da carruagem?
Combinando perfeitamente com o tom negro do lenço enrolado na base do pescoço, a mulher era ninguém menos que Leila Marcus.
— E você é...? — o rosto da garota, que se iluminara de alegria ao descobrir que a recém-chegada não era Caroline, se contraiu assim que viu o traje de Leila.
Um dardo e uma pistola de prata... Não havia como confundir os apetrechos de uma Caçadora. Não havia como uma Caçadora ficar vagando sozinha por um lugar como aquele. O que só podia significar que tinha vindo atrás dela. Primeiro Mashira, agora uma Caçadora... Com um encontro aterrorizante atrás do outro, os ombros da garota caíram desanimados.
— Não consegui ver seu rosto lá atrás, mas você é a garota que estava na carruagem preta, não é? — perguntou Leila com indiferença. — Sou Leila Marcus. Sou uma Caçadora de Vampiros e estou aqui para pegar seu namorado.
A garota apoiou a mão no chão.
— O que foi? — perguntou Leila, incrédula. — Você pode ir para casa agora.
Embora ouvisse as palavras da mulher Marcus com suspeita, a garota não estava concentrada o suficiente para perceber como a voz de Leila parecia um pouco fraca.
— Vá. Por favor! — implorou à Caçadora. — Apenas se apresse e saia daqui.
— Eu perguntei o que houve?
— Tenho certeza de que meu amor chegará em breve. — disse a garota. — Vocês dois lutarão até que o outro morra. E não quero que ninguém tenha de morrer por minha causa.
Leila olhou para a escuridão azul que preenchia a área.
Ela assentiu.
— Suponho que tenha razão. A noite é o mundo da Nobreza... — por um instante, a expressão feroz de uma guerreira preparada para a batalha surgiu em seu rosto, porém logo foi substituída por uma estranha expressão de ódio contido. E mais uma vez, desta vez de forma surpresa, Leila perguntou. — Você... Ainda é humana, não é?
A garota assentiu.
— Então, o Nobre não te violentou e te arrastou para longe. Sério, você foi por vontade própria... Foi isso que aconteceu, não foi?
— Sim, fui por minha própria vontade. — respondeu a garota, assentindo com a cabeça. A bela e pálida mulher olhou para Leila. Havia um brilho intenso em seus olhos. Enquanto tivessem esse brilho, uma pessoa poderia suportar quase tudo.
— Então foi o que aconteceu... — um sentimento de inveja e tristeza suavizou o tom de Leila. — Você o ama, não é? Está apaixonada por um Nobre.
A garota não respondeu. Seu silêncio foi a resposta, contudo seus olhos brilhavam.
Leila se encostou no tronco da árvore gigantesca. Em seu âmago, sentia uma sensação quente e pegajosa. Ela se espalhava por todo o seu corpo como uma névoa levada pelo vento. Era fadiga. Vinte anos de fadiga enfim haviam se infiltrado em seu corpo.
Leila olhou para a garota. Essa garota havia sido raptada por um nobre e renunciara à sua humanidade, no entanto ainda possuía uma confiança e fé infinitas. Ela, por outro lado, era renomada como uma das maiores caçadoras de vampiros da Terra, entretanto agora apenas aguardava um destino terrível. Seria possível que a perseguida fosse mais feliz que a perseguidora?
— Isso não te incomoda? — perguntou Leila à garota.
— Hã?
— Não te incomoda? Viver fugindo. Ele não tem para onde voltar, não há amanhã.
— Nem eu! — respondeu a garota.
— É, suponho que estar na mesma situação ajudaria os dois a se darem bem.
A garota esboçou um débil sorriso.
— Não se preocupe comigo. Saia daqui enquanto pode. Ele chegará em breve.
— Não me importo! — disse Leila. — Estou exausta. Esperarei aqui pelo seu amado. Então, por que não continuamos nossa conversinha?
Uma voz grave vinda de trás delas disse.
— Suponho que vocês não gostariam que eu também ouvisse.
A garota gritou, e Leila se virou com uma velocidade sobrenatural. O rosto que se apresentou aos olhos de ambas era o do caçador.
Parte 2
Na entrada da mesma floresta onde vira o rastro de luz, Borgoff parou o veículo. Por um instante, não se moveu do banco do motorista. Uma expressão estranha surgiu em seu rosto quando se levantou. Uma expressão desprovida de qualquer emoção... Quase o rosto de um imbecil.
Passando furtivamente pelos alojamentos, Borgoff foi até o arsenal e pegou um pequeno temporizador e um explosivo de uma caixa de madeira, depois voltou para os beliches. Indo até a cama de Groveck, puxou com cuidado o cobertor. Um rosto emaciado apareceu. Ele levou o polegar áspero aos lábios quase sem cor.
Havia um leve sopro de ar. Groveck seguia vivo.
Uma única lágrima escorreu do olho de Borgoff. Quando aquela gota brilhante se prendeu em sua barba assustadora, ficou ali pendurada para sempre.
— Parece que só restam você e eu! — disse Borgoff ao mais querido de seus irmãos. Era este, o terceiro filho, que ele amava mais do que Nolt ou Kyle, ou até mesmo mais do que Leila. — Mas este trabalho está quase no fim. Realmente preciso do seu poder aqui. O que seria ótimo, porém você acabou de voltar de um ataque e não há motivo para sofrer outro tão cedo.
Nesse momento, Borgoff soluçou.
— É por isso que tem que ser assim. Odeio ter de dizer, contudo você vai ter que me deixar te dar um. Suponho que não vai aguentar mais um desses ataques. Depois do próximo, não haverá mais salvação. Sendo assim, quero que de a sua vida por mim.
Suas palavras poderiam ser interpretadas como tristes e perturbadoras, no entanto o que Borgoff fez enquanto chorava foi horrível. Puxando o cobertor ainda mais para baixo, bem onde ficava o coração do irmão... Sobre o esterno fino e acima das costelas salientes, prendeu a bomba-relógio com fita adesiva. Embora a bomba-relógio fosse apenas um tubo de plástico de dez centímetros, o explosivo contido dentro facilmente destruiria as costelas e atingiria parte dos órgãos internos de Grove.
Isto não poderia ser o que planejava fazer com o peito do irmão enquanto Grove lutava para respirar, poderia?
Borgoff disse que sentia muito. Suas lágrimas corriam sem parar. “De sua vida por mim.”
Embora uma tira de fita adesiva fosse suficiente para impedir que a bomba escorregasse, Borgoff colocou uma terceira camada, depois uma quarta, só por precaução, caso Groveck tentasse arrancá-la. Assim que terminou seu trabalho e recolocou o cobertor com cuidado, Borgoff acariciou de leve a testa do irmão.
— Até logo. — disse. — Com certeza voltarei.
E então, com seu arco mortal e aljava de flechas nas costas, saiu com passos firmes.
O entardecer estava prestes a mudar de azul para preto.
Borgoff correu. Seu instinto lhe dizia de onde viera o rastro de luz de Groveck.
Seu ritmo acelerou cada vez mais. Os músculos de suas pernas estalaram e rangeram enquanto inchavam e, talvez mais surpreendentemente, até os ossos engrossaram. Seu tronco permanecia tão maciço quanto antes, embora seus membros inferiores haviam se transformado nas pernas de um verdadeiro gigante. E, contudo, seus pés quase não faziam barulho ao tocarem o chão coberto de musgo. Na verdade, mal deixavam uma marca no musgo.
Talvez fosse um desejo de seus pais, que diziam possuir tecnologia de engenharia genética. No entanto por que, ao subir uma ladeira, seu corpo permanecia quase perpendicular ao terreno?
Ele adentrou na floresta. A uma velocidade quase cinco vezes maior que a de uma pessoa comum, dirigiu-se para o interior das árvores. Pelo jeito que seus pés se moviam, parecia que desconheciam o significado da palavra parar. Logo, entretanto, pararam de repente. Ele acabara de chegar a uma área bizarra. Ali, podia ver o que parecia ser uma maquete da Capital feita inteiramente de terra. Um conjunto de edifícios cônicos com cerca de cinco metros e meio de altura estava conectado por tubos de transporte com meio metro de espessura. A Capital parecia se estender infinitamente pela floresta.
Todavia, o olhar de Borgoff não estava fixo nas estruturas em si, e sim no chão sob seus pés. Havia coisas brancas espalhadas por ali... Um crânio encarando-o com órbitas negras e abertas, um fêmur que parecia que daria um machado improvisado, costelas, um úmero... Eram todos ossos. A maioria era de espécies que Borgoff reconhecia, o resto era de aves e animais com os quais não estava familiarizado, mas os ossos humanos eram fáceis de identificar. Apesar de todos os restos mortais, o ar ali não tinha o menor cheiro de decomposição. Era como se algo os tivesse despojado de sua carne e sangue.
Deixando apenas sua exclamação surpresa de “Whoa!” em sua posição anterior, Borgoff saltou para a frente uns bons dois metros. Seu corpo aterrissou sem perturbar o musgo. No local de onde acabara de saltar, havia várias criaturas que pareciam grãos de arroz pretos correndo de um lado para o outro.
— Desculpem, ainda não posso me dar ao luxo de ser o jantar de vocês! — gritou para as minúsculas criaturas. — Até logo.
Havia algo horripilante em sua voz enquanto falava, e então, quando estava prestes a dar outro salto, um arrepio percorreu sua espinha. Naquele instante, percebeu quem enfrentaria. A distância até o inimigo que pressentia era de sete metros e meio à frente e um pouco à direita, com a sinistra maquete da Capital bem no meio.
Toda a energia se esvaiu do corpo de Borgoff. Preparando-se para a batalha, assumiu uma pose que lhe permitiria usar seus músculos como quisesse. A tensão que outros poderiam sentir quando uma luta até a morte era iminente não significava nada para um Caçador da classe de Borgoff. Agachando-se para escapar da aura feroz e sobrenatural que o atravessava, Borgoff lançou uma flecha com a velocidade de um raio, e já tinha outra flecha engatilhada e pronta.
A aura sobrenatural se dissipou.
O Caçador não sabia para onde sua flecha tinha ido ou qual efeito ela causara. Mas, pela ausência de som de folhas ou galhos balançando, ele podia imaginar muito bem.
O ar roçou sua bochecha direita. Ele saltou para a frente com toda a sua força. O que acabara de cortar o ar e se cravar no chão era a flecha que disparara. Embora o fato de alguém ter parado seu disparo com as próprias mãos não o surpreendesse, a força impressionante com que fora arremessada de volta causou arrepios em Borgoff. Qualquer pedra ou galho ali poderia se tornar uma arma mortal nas mãos de seu inimigo.
À sua frente, o Caçador sentiu alguém se mover. Levantando-se e preparando-se para disparar uma segunda flecha, Borgoff enrijeceu. Ali, contra o pano de fundo da escuridão azulada, uma figura de preto surgiu de repente. Os olhos aguçados de Caçador de Borgoff captaram o par de presas que se projetavam dos cantos da boca de seu inimigo.
— Então você é minha presa? Por fim nos encontramos! — disse Borgoff em um tom repleto de deleite enquanto alinhava o alvo de sua flecha mortal com o coração de seu inimigo.
— Não tenho palavras de saudação para um cão vadio à espreita de carne e sangue. — disse a figura vestida de preto em voz baixa. — No entanto, não desejo um conflito desnecessário. Se colocar o rabo entre as pernas e fugir, não farei nada com você.
Borgoff riu.
— É gentil da sua parte oferecer isso. — a direção para a qual sua flecha apontava estava mudando pouco a pouco. Em direção ao céu. — Mas receio que não posso!
O que Borgoff fez em seguida foi quase milagroso. Quase exatamente ao mesmo tempo em que as duas flechas que disparou verticalmente deixaram a corda do arco, tirou mais duas de sua aljava e as lançou em seu alvo. A velocidade de seu ataque foi tão grande que o Nobre... Mayerling, ficou abalado. Outra flecha voou pelo ar como se tentasse bloquear o caminho de Mayerling, depois que mal conseguiu se esquivar das duas primeiras e se moveu para a direita. O nobre teve que se contorcer no ar para evitá-la. No instante em que pousou, mais duas flechas cravaram-se no chão a seus pés em rápida sucessão.
Mayerling saltou para trás. Um grito de fúria rasgou seus lábios. Como um mero mortal, com nada mais do que um arco e flecha primitivos, poderia colocá-lo em tal perigo?
Porém, uma última surpresa ainda restava na armadilha que Borgoff havia preparado. Quando Mayerling tentou se esquivar da ameaça estridente que caía de cima, seus olhos avistaram uma luz negra cortando a escuridão. Não importava para onde saltasse, estaria sob fogo! E, quando seus movimentos se enrijeceram por um instante, duas flechas caíram do céu em uma trajetória quase perfeitamente vertical e perfuraram ambos os ombros do nobre com o que parecia uma precisão calculada.
Gemendo de agonia, Mayerling tentou arrancar as flechas, contudo suas mãos não se moviam.
— Não adianta... — Borgoff gargalhou. — Não me importa se é um nobre ou não, não vai conseguir tirá-las. Para começar, você não consegue levantar os braços. Então, o que acha da minha estratégia de perseguição com flechas?
A risada confiante de Borgoff era sem dúvida um elogio apropriado à sua própria habilidade magistral. Levando em conta onde as duas primeiras flechas que disparou cairiam, ele havia levado Mayerling até lá com suas ondas implacáveis de ataques. No entanto, Mayerling tinha liberdade para se mover como quisesse. O que poderia, de fato, atrair alguém com várias vezes a velocidade e a força de um humano e conduzi-lo direto para o alvo no instante em que as flechas caíssem?
A habilidade sobrenatural de Borgoff, e as flechas de perseguição, poderiam.
Naquele momento, algo na cena mudou. O chão aos pés de Mayerling de repente ficou negro. Algo como uma mancha escura avançava, em sua direção. Quando tentou pular para o lado, o aço impiedoso passou zunindo de ambos os seus lados.
Em tom estridente, Borgoff perguntou.
— Bem, qual é o problema? Não vai fugir? Não pode escapar agora, pode? Se você se mexer, eu enfio uma flecha no seu coração. É claro, aqueles monstros sentiram o cheiro do sangue, e se ficar aí parado, será a próxima refeição delas.
O caçador tinha razão. A onda negra que se aproximava sem parar dos pés de Mayerling era, na verdade, um grande enxame de formigas carnívoras temíveis, também conhecidas como formigas-de-menta. Este lugar, tão parecido com a Capital, era de fato uma metrópole... Uma catedral para centenas de milhões das menores e mais ferozes criaturas.
— Ora, ora, ora. Não tem tempo para pensar nisso. — disse Borgoff. — O que vai ser? Um tiro direto no coração, ou prefere acabar na barriga daquelas formigas-de-menta, sem nada além dos seus ossos? Nobreza ou não, não voltará só com ossos. O que vai ser?
Quando Borgoff esticou a corda do arco, viu as mãos do Nobre se moverem.
— Quem diabos é você? — perguntou Leila. O homem não parecia alguém contra quem precisaria de algo tão pesado quanto a pistola de prata, e ela segurou seu dardo casualmente enquanto permanecia em frente ao caçador. Foi só quando Leila viu a marca de queimadura no estômago de Mashira que seu rosto endureceu. Eu juraria que esse ferimento foi causado por um dos raios de poder do Groveck, pensou ela. E ainda assim, esse cara continua...
— Esse não é ele! — gritou a garota com a voz trêmula. — Antes, ele era um dos nossos guarda-costas, mas sua consciência foi transferida para um corpo diferente. Agora tem esse outro rosto na barriga que...
Antes que pudesse terminar, a garota se curvou como um camarão, como se estivesse sofrendo de dores de estômago agonizantes.
Sem entender o que estava acontecendo, Leila lançou o dardo. Seus hábitos de caçadora, de “atirar primeiro, perguntar depois”, vieram à tona. O homem não se moveu. O dardo deveria ter cravado em seu estômago, porém, quando a ponta foi parada por um estrondo seco, Leila saltou para trás. Ao saltar, sua mão direita agarrou a pistola prateada em seu quadril. O cabo da arma, ao sair do estômago do homem, derrubou a arma de sua mão.
— Já basta! — disse o homem. Ao que parecia, conseguia manipular os nervos e as cordas vocais de um cadáver, e essa explosão ameaçadora da boca do caçador falecido, junto com o cano erguido do rifle de grosso calibre, paralisou Leila. — Faz tempo que não encontro uma pequena e destemida felina como você. — disse o caçador com a voz do carbúnculo de rosto pálido. — Isto é perfeito. Farei de vocês duas minhas mulheres. Venham.
Como se acionada por aquela voz maligna, Leila deu alguns passos à frente. A mão livre do caçador levantou sua camisa. Ao ver o rosto humano que inchou em sua barriga, Leila gritou de surpresa. Seus lábios se franziram e um ligamento marrom aterrorizante disparou em direção ao estômago de Leila.
Um grito se ergueu. Não pertencia nem a Leila, nem à garota. Tinha sido desencadeado pelo carbúnculo de rosto pálido. Havia uma única agulha de madeira áspera cravada bem no meio do umbigo marrom que o carbúnculo aparentemente usara para se transferir. Quando o caçador, tomado pela dor, se virou em busca de seu inimigo, mais agulhas o perfuraram no coração e bem entre os olhos. Claro, o cadáver não caiu.
Embora não soubesse quando aparecera, Leila lançou um grito apaixonado de — D! — para o cavaleiro e sua montaria, que pararam sob um brilho intenso de luar.
Observando o galante Caçador de Vampiros desmontar do cavalo, o caçador não se moveu.
— D, quando foi...
Acenando de leve com a cabeça em resposta às palavras de Leila, D levou a mão direita por cima do ombro. Não deixaria o carbúnculo escapar. A agulha que atravessava a membrana de transferência também o impedia de afundar de volta em seu corpo.
Quando o som de uma lâmina saindo da bainha ecoou das costas de D, o estômago do caçador se inflou de súbito. Com um baque surdo, como uma pedra atirada em uma vala lamacenta, uma massa cinzenta voou do abdômen do caçador. Sangue e vísceras escorreram atrás dela. A massa desapareceu nos arbustos com uma velocidade alarmante.
— Oh, que surpresa! — disse uma voz baixa vinda da cintura de D. — Eu não imaginava que algum da minha espécie pudesse voar. Que divertido, que divertido!
Embainhando sua espada nua, D não disse uma palavra enquanto caminhava em direção a Leila e à garota. A recuperação da síndrome da luz solar levava dias e, como regra geral, quanto mais resistente um dampiro fosse, mais tempo levava para se recuperar. Entretanto D já parecia ter a superado, e os olhos que fixou nas duas jovens brilhavam com um espírito incrivelmente negro. Talvez aquele jovem não fosse um dampiro comum, afinal.
— Oh! Parece que vocês duas estão a salvo. Deveriam me agradecer por ter visto aquela luz. O bonitão aqui ainda estava dormindo. — a voz fraca vinda da mão do Caçador não chegou aos ouvidos de Leila ou da garota.
Seguindo a linha de visão de D, quando percebeu que não estava focada nela, Leila viu que a garota estava caída no chão. Ela correu em pânico.
— Vamos, acorde! — gritou.
D se aproximou e se abaixou ao lado da jovem. Colocando a mão esquerda sobre as mãos que agora pressionava contra o próprio plexo solar, ele perguntou.
— É aquela coisa que acabamos de ver?
— Sim. — diante a resposta emitida por sua mão esquerda, os olhos de Leila se arregalaram. — Ainda há tempo para salvá-la se fizer isso agora! — acrescentou a voz.
D assentiu. Deitando a garota de costas na vegetação rasteira, gentilmente colocou as mãos dela de volta ao lado do corpo. Suas belas mãos entraram em ação, expondo o estômago da garota.
Leila abafou um grito. No centro daquele estômago liso e de porcelana, um rosto humano disforme emergia. Suas feições eram idênticas as daquele que estivera preso à barriga do caçador momentos antes.
— Todos os amiguinhos desse cara são iguais. — afirmou a mão esquerda de D. — Além do mais, eles têm uma consciência coletiva. Os pensamentos de um são transmitidos aos outros. Essas coisas podem ser um verdadeiro incômodo.
— Por que a infectaria? — perguntou D.
— Por lascívia, pura lascívia. Essas criaturas apreciam a beleza e as coisas boas da vida. Além do mais, esses bastardinhos sujos gostam de sexo através dos sentidos dos humanos que habitam. Imagino que era para por essa razão que queria usar o corpo dela.
Uma lâmina nua brilhava na mão direita de D.
Talvez percebendo a intenção de D, o rosto assustado estava prestes a magicamente voltar para o corpo da garota. Porém a lâmina do Caçador de Vampiros cravou em sua testa penetrou na cavidade oral do carbúnculo com precisão incomparável. Gritando de angústia, este revirou os olhos. Jatos de sangue jorraram de ambos os lados da boca antes que começasse a desaparecer de volta para o corpo da garota.
— Isso deve resolver! Agora acho que será assimilado pelos órgãos normais dela. — disse a voz.
Não estava claro se o procedimento havia sido doloroso ou não, contudo a garota havia desmaiado. D se levantou.
— Qual é a história dessa sua mão esquerda, D? — perguntou Leila.
D se limitou a responder...
— Você foi mordida por aquela mulher, não foi?
Leila assentiu, com uma expressão sombria.
— Então essa é mais uma pessoa que eu tenho que eliminar.
— Hã? — Leila reagiu surpresa.
— Eu pago minhas dívidas! — respondeu D sucintamente. Estava bem ciente da luta mortal em que Leila havia se envolvido.
— Quando a mão do Nobre não alcançou o ombro correspondente, mas a axila oposta, Borgoff empalideceu. Esquecendo-se de disparar seu próximo tiro mortal, assistiu ao impossível acontecer.
Agarrando com firmeza a ponta da flecha que atravessava sua axila, o Nobre a puxou com um único puxão. Não para cima, e sim para baixo. A outra extremidade, é claro, era emplumada com aletas para que voasse em linha reta. Assim como as hastes e pontas de todas as flechas de Borgoff, as aletas eram feitas de aço. Cortando carne e raspando osso, as flechas apontavam na única direção que daria ao Nobre sua liberdade de volta... Elas foram puxadas para baixo. As ações do Nobre e sua força sobrenatural desafiavam a lógica.
Agora foi atrás da outra flecha... No entanto, enquanto Borgoff ficava chocado, algo zuniu pelo ar. A flecha que o Nobre acabara de remover.
Uma dor aguda atravessou o abdômen de Borgoff. A flecha que seu inimigo acabara de atirar de volta estava indo mais rápido do que as que Borgoff havia disparado. Seu olhar atônito se voltou para a ponta da flecha que entrou por sua barriga e saiu pelas costas.
O sangue escorria pelo eixo em gotas e ouviu o Nobre se dirigir a ele.
— Nosso duelo acabou, vira-lata. Você será o banquete dos mendigos.
Borgoff arregalou os olhos.
— Receio que não. Esta luta está apenas começando.
Dito isso, o Caçador correu. Direto para o formigueiro. O ninho das formigas carnívoras era pouco mais que uma frágil metrópole de terra endurecida por um adesivo secretado pelas próprias formigas. Um pássaro grande pousando ali seria mais do que suficiente para esmagá-lo, para não falar no que o peso de um homem adulto faria.
Todavia Borgoff estava em pé sobre o formigueiro. Ou melhor, se agarrou a ele. Ambas as pernas estavam em um ângulo reto em relação à parede. Além do mais, devia estar usando algum tipo de truque, porque a frágil torre não apresentava uma única rachadura.
Naquela pose extravagante... Que, sem surpresa, arrancou um grito de espanto de Mayerling... Borgoff disparou suas flechas. Elas já não tinham o mesmo poder de alguns instantes atrás. A mão direita de Mayerling entrou em ação, e as armas de aço assassinas foram derrubadas uma após a outra.
Confundindo seu inimigo ao se mover para uma das passagens e se pendurar de cabeça para baixo como um macaco, o Caçador mergulhou mais uma vez em sua aljava. De repente, uma estranha sensação percorreu suas pernas. O sangramento abundante o havia roubado a capacidade de torná-lo leve como uma pluma, e seu corpo caiu com a terra desmoronando bem no coração do formigueiro carnívoro.
Sua próxima sensação foi a de inúmeros insetos infestando seu corpo.
Borgoff gritou. Extraindo cada gota de energia de seu corpo, se levantou e correu. Cada passo esmagava torres, destruía passagens... Ele nem sentia mais a dor na barriga. O medo de ser devorado vivo o paralisava.
Correu para o meio da floresta, seus gritos ecoando entre as árvores.
Parte 3
O luar delineava três sombras tênues no chão. D, Leila e a garota.
Leila soltou um suspiro profundo. A garota acabara de contar-lhes as circunstâncias que a trouxeram até ali. Apenas o vento soprava perto do trio, e a escuridão os envolvia.
— Só quero te perguntar uma coisa... — disse D. Ele ainda admirava o luar. — Você sabe o que os Estados de Claybourne são agora...
A garota assentiu.
— Entendo! — disse D. — Nesse caso acho que você pode ir. Mas o que fará depois?
— Não sei. — respondeu a garota. — Assim que chegarmos lá, nossa jornada terminará. De um jeito ou de outro.
D ficou em silêncio. O vento cantava uma melodia triste no topo das árvores.
— Porém é algo bom... — murmurou Leila. — O amor é tão maravilhoso... Então por que tem que dar tão errado?
Por um longo tempo, nenhum dos três se moveu.
D fez o luar oscilar.
— Parece que ele veio atrás de você. — comentou o Caçador de Vampiros. Seus olhos encarando as profundezas da floresta.
Lágrimas brilhavam nos olhos da garota.
— Não faça isso, eu imploro. Por favor, deixe-me ir até meu amor. Se continuarmos nesse ritmo, chegaremos aos Estados de Claybourne amanhã à noite. Tudo terminará lá. Depois disso...
D seguiu encarando a floresta.
— Não se mexa! — disse Leila. D se virou para encará-la. Ela tinha o cano da pistola prateada apontado para o seu peito. — Deixe-a ir. Podemos resolver as coisas quando eles chegarem aos Estados de Claybourne.
D não se moveu.
— Obrigada! — agradeceu a garota. — Obrigada... Obrigada aos dois.
Nas profundezas da floresta, uma silhueta alta surgiu à vista. A garota correu em sua direção. Parando por um instante, as duas silhuetas desapareceram entre as árvores como se abraçadas pela floresta. Assim que sumiram, Leila abaixou a pistola prateada.
— Desculpe, D! — disse ela.
— Por que o pedido de desculpas? Eu é que deveria te agradecer de novo.
Leila disse surpresa.
— Você não quer dizer que teria...
— Vá dormir. Amanhã de manhã te levo até onde você deixou o seu carro. Lá nos separamos. Depois, pode me seguir, voltar para seus irmãos ou o que quiser. Pode contar comigo para cuidar da dampira.
— Eu... — Leila engoliu o resto das palavras. Pretendia dizer que queria ir junto. Contudo como viajaria com uma sombra?
Um cobertor foi jogado a seus pés. D pegou outro e caminhou até o tronco de uma árvore próxima. Estendendo o cobertor no chão, ele se encostou no tronco da árvore e cruzou os braços. A espada que estava em suas costas foi colocada ao seu lado esquerdo.
Após um momento de reflexão, Leila sentou-se ao lado de D. Este a encarou fixamente. Suas pupilas pareciam profundas o suficiente para engoli-la. Contendo uma onda de êxtase, a caçadora perguntou.
— Isso te incomoda? Sabe, eu ser uma vítima de vampiro e tudo mais?
— Não.
— Obrigada! — disse ela. Puxando o cobertor até o peito, Leila deitou-se no chão, usando o braço como travesseiro.
Havia uma fragrância no ar. Jasmim-da-noite, grama iluminada pela lua, peônias noturnas, luar... Doce e comovente... Havia vida à noite. O coaxar dos sapos, a música das mandíbulas dos bois longhorn, o sussurro dos grandes bichos-da-seda... Todos pequenos, resistentes e cheios de vida...
Por um instante, Leila esqueceu que era a presa de uma dampira. Nunca tinha sido assim para ela.
— Engraçado, não é? — comentou enquanto coçava a ponta do nariz.
D não se mexeu, mas parecia estar ouvindo.
— A noite não me assusta nem um pouco. Nenhum dos meus irmãos jamais me fez sentir segura assim... Todas as noites, tínhamos a sensação de que havia feras e espíritos malignos querendo nos pegar... Mesmo dentro do ônibus, ainda ficávamos tensos. E, no entanto, agora parece perfeitamente bem. Por que será que não me importo mais com a noite?
Depois de dizer isso, Leila ficou surpresa. Será que de fato pensou que aquele jovem austero lhe daria uma resposta? Pensou consigo mesma em seu coração. Porque estou com você...
Ainda depois que Leila adormeceu ouvindo a canção do vento, o jovem Caçador de Vampiros continuou a fixar o paciente olhar na escuridão da noite, a raiva e a tristeza longe do vazio que eram seus olhos.
Quase ao mesmo tempo, em uma parte da floresta não muito distante, um evento estranho e perturbador estava acontecendo.
Borgoff podia sentir seus órgãos internos sendo perfurados e devorados. Não havia mais dor. Formigas infestavam seu corpo. Havia formigas dentro de seu rosto também. Ele viu seu olho direito cair. A sensação das formigas rastejando em sua órbita ocular era estranhamente agradável. Dezenas de milhares delas se banqueteavam com sua carne. Cada mordida insignificante lhe causava um arrepio. Estava frio. Muito frio.
Uma coisa estranha emergiu da grama e apareceu no canto do seu olho esquerdo restante. Era um caroço cinza e viscoso. Curiosamente, embora não tivesse braços nem pernas, era evidente que tinha olhos e nariz.
— Oh, esta é uma bela descoberta que fiz. — disse a criatura. — Está um pouco mal tratado, porém se eu espantar todas as formigas, posso aproveitá-lo. Sim senhor, quando se trata de viajar, nada supera um corpo humano. — movendo-se para a boca de Borgoff, disse-lhe. — Com licença. Estou com um pouco de pressa também.
A massa viscosa e sem membros abriu à força lábios que o próprio homem não tinha forças para abrir, e Borgoff sentiu a coisa deslizar pelo seu esôfago até o estômago.
Parte 4
Não existia mais nenhum lugar chamado Estados de Claybourne. Os setores vizinhos só tinham ouvido falar da região da capital do 98º Setor da Fronteira porque o espaço porto ficava lá, e os Estados de Claybourne passaram a ser conhecidos também pelo nome do espaço porto. Contudo esse nome também havia sido esquecido há muito tempo, e ninguém o mencionava há eras.
Com seus sistemas automatizados de limpeza destruídos, o interior do prédio do terminal estava coberto de poeira, e os ventos que sopravam através dos painéis de vidro reforçado estilhaçados traçavam padrões finos e ondulantes na poeira acumulada.
Um andarilho que estava hospedado em um dos quartos do espaço porto naquela noite teve seu jantar modesto interrompido pela chegada inoportuna de convidados. Uma carruagem preta puxada por meia dúzia de cavalos entrou pelo portão central. Assim que parou na entrada do terminal, dois passageiros desembarcaram. Era um homem e uma mulher. O que surpreendeu o andarilho foi o fato de o casal ser composto por um nobre e uma humana. Ambos entraram no prédio, no entanto a forma como davam as mãos só aumentou sua consternação.
Uma humana e um nobre? Pensou o homem. Não pode ser! Saiu silenciosamente de seu quarto e dirigiu-se para fora do espaço porto como se tivesse acabado de ter um pesadelo.
O casal permanecia atordoado no crepúsculo azul do saguão. Ou, para ser mais preciso, apenas Mayerling estava atordoado. A pena na expressão da garota era dirigida ao seu amado.
— Não... Isto não pode ser... — Mayerling murmurou. Suas palavras ecoaram pelo vazio.
As únicas naves para navegar até as estrelas visíveis no vasto complexo eram ruínas horríveis. Uma espaçonave movida a fótons com motores derretidos, uma nave galáctica esmagada ao meio, uma escuna capaz de distorcer dimensões destruída irreparavelmente... Era uma morte silenciosa e cruel que cobria o pátio de manobras. Não havia estrada lá fora que pudesse levá-los juntos em uma viagem entre as estrelas.
— Não pode ser... — Mayerling gaguejou. — Os rumores diziam...
Em sua mente, os rumores de que o espaço porto ainda operava em pequena escala deviam parecer cada vez mais reais a cada dia que passava, tomando forma e se tornando a verdade absoluta para ele. Sabendo que sua espécie estava condenada, chegando a declarar isso por si mesmo, ele continuava sendo um Nobre, afinal.
Enquanto permanecia paralisado, uma mão tocou seu ombro com delicadeza. Ele viu o rosto da garota. Sua expressão perfeitamente plácida.
— Não importa! — disse ela. — Vamos para outro lugar agora. Contanto que eu esteja com você, irei para qualquer lugar. Juntos para sempre... Até que a morte nos separe...
— Mas... Eu não posso morrer. — respondeu Mayerling.
Com os olhos marejados enquanto se agarravam ao seu amado, a garota disse em um tom determinado.
— Nesse caso, faça-me igual a você...
— Não posso fazê-lo.
— Não me importo. — a garota balançou a cabeça. — Não me importo nem um pouco. Estive preparada para isso desde o início...
Uma luz azul tingiu os rostos do jovem casal. O rosto de Mayerling aproximou-se aos poucos da nuca da garota. Ela estava com os olhos fechados. Seus longos e belos cílios tremiam. Quando sentiu os lábios de seu amado na base de seu pescoço, seus olhos se abriram de repente.
Um grito ecoou pelo saguão.
Mayerling olhou, atônito, para seu amor, que se libertara dele com aquele grito.
As emoções violentas da garota passaram rapidamente. Um enorme sentimento de remorso surgiu em seu rosto. Seus lábios tremeram.
— Eu... Eu... Aquilo foi uma coisa horrível da minha parte... — gaguejou a jovem.
Mayerling sorriu. Era o sorriso de um homem que acabara de perder algo.
— Está tudo bem! — respondeu em um gentil tom. — Estamos bem assim. Se você definhar e morrer primeiro, irei depois.
A garota se apertou contra o peito de seu amado e se agarrou com todas as suas forças. Ela não disse uma palavra, porém ele acariciou com gentileza seus ombros trêmulos.
— Vamos então? — sugeriu Mayerling. — Embora o caminho para as estrelas esteja bloqueado para nós, ainda podemos viajar pela Terra.
A garota o observou e assentiu. Acariciando seus longos cabelos em sinal de compaixão, ele deixou seus olhos vagarem até a saída do saguão. Uma figura de casaco preto surgiu de repente ali. O pingente azul em seu peito e sua beleza perturbadora marcaram a retina do nobre. Contendo a língua, Mayerling empurrou a garota para o lado.
— Sua viagem acabou! — disse D. — Me entregue a garota.
— Leve-a então. Isto se você sobreviver! — ameaçou Mayerling, não fazendo nenhum esforço para manter sua amada ao seu lado e evitar a briga.
— Por aqui, se não se importa. — disse Leila à garota enquanto vinha de uma das outras paredes, pegava-a pela mão e a levava para o canto.
D caminhou em direção a Mayerling e parou a três metros de distância.
— Sabe, D... — disse Mayerling, soltando as palavras como um suspiro. — Afinal, não há caminho para as estrelas. Contudo você já sabia o tempo todo, não é?
D não respondeu.
Vampiro e Caçador de Vampiros descartaram o ódio, a raiva e a tristeza, e se prepararam para a batalha. Garras afiadas cresceram nas pontas dos dedos da mão direita de Mayerling. Nenhum dos dois parecia se mover, no entanto a distância entre eles diminuiu mesmo assim.
Um clarão negro horizontal surgiu, e D alçou voo sem fazer barulho. A lâmina arcana que uivou com o golpe descendente do Caçador atingiu o braço esquerdo de Mayerling com uma chuva de faíscas. Novamente as garras negras atacaram, e outra vez encontraram apenas o ar quando D saltou para trás quase dois metros.
Este saguão, onde nada além de séculos de decadência permanecia estagnado, servia de palco, por aquela única noite, para um conflito condensado entre a vida e a morte.
Enquanto seus olhos estavam fixos na batalha mortal entre os dois, Leila sentiu um hálito quente roçando sua nuca.
— Venha por aqui. — disse alguém. A voz era sedutora e feminina. Estranhamente, a garota pareceu não notar nada. — Venha por aqui. — repetiu a voz.
Mesmo quando Leila se afastou silenciosamente para os fundos, a garota e sua alma permaneceram prisioneiras do duelo mortal de seu amado.
Uma faca foi colocada na mão direita de Leila.
— Pegue isto e esfaqueie a menina. — ordenou a voz. — Mate-a!
A pessoa que falava ainda devia acreditar que Mayerling seria seu se conseguisse se livrar da garota.
Leila assentiu. Seu aperto no cabo da faca se intensificou.
Contornando a garota por trás, ergueu a lâmina sem ser notada.
— Agora! — a voz ordenou.
Leila deu uma cambalhota. O rosto de Caroline, contorcido pelo êxtase, estava bem diante do seu agora. Antes que a expressão da mulher Barbarois pudesse registrar seu choque, a faca de prata já estava penetrando fundo no coração da dampira. Além do mais, aparentando estar preocupada em distrair os dois combatentes de sua batalha, Leila tomou a precaução adicional de tapar os lábios de Caroline com a mão esquerda. Sangue jorrou entre os dedos de Leila.
Enquanto os olhos de Caroline passavam de uma expressão de agonia e descrença para uma névoa de morte, Leila os encarou e sorriu com desdém.
— Que pena. Sabe, notei algo enquanto você me dava ordens. Parece que há pelo menos uma mulher que mordeu e que não acabou virando sua marionete pessoal.
Leila, ao que parecia, possuía uma resistência incomum ao chamado do demônio, embora não soubesse disso até então.
Quando Leila desviou o olhar do corpo da bela mulher que caía, o duelo mortal parecia prestes a ser decidido. Assim que rebateu todas as agulhas de madeira ásperas que D arremessou contra ele durante um salto para trás, Mayerling sentiu a compostura tomar conta de sua mente. No instante seguinte, viu um clarão prateado intenso. Seus braços feridos ainda não haviam recuperado a velocidade anterior. A espada longa de D, cravada com precisão calculada nessa brecha na defesa de Mayerling, deslizou com grande destreza para dentro do estômago do nobre.
Enquanto o nobre caía no chão em meio a uma névoa sangrenta, a garota correu como o vento para o seu lado.
— Por favor, tente não me sacudir tanto. — disse Mayerling a ela. Ele sorriu ironicamente em meio à respiração ofegante.
D se aproximou. Dois pares de olhos se encontraram, o caçador e a presa. Os olhos de ambos os homens tinham uma misteriosa tonalidade de emoção.
— Você se saiu bem ao desviar daquele golpe. — disse D em um baixo tom. Não importava a profundidade do ferimento no estômago de Mayerling, não seria o fim de um nobre. Uma vez que a espada fosse retirada, até mesmo um ferimento causado por D acabaria cicatrizando.
— Por que você errou? — perguntou Mayerling.
A garota e Leila, que também se aproximara após sua própria batalha mortal, olharam para D surpresas.
Sem responder, D se abaixou e pegou algumas mechas do longo cabelo da garota. Sacando uma adaga, cortou uma mecha de cerca de vinte centímetros e a guardou em um dos bolsos do casaco.
— Enquanto eu tiver um pouco do seu cabelo, o escritório do xerife poderá confirmar sua identidade. — respondeu. — O Barão Mayerling e seu amor humano estão mortos. Nunca mais se mostrem diante da humanidade.
Uma luz indescritível surgiu nos olhos da garota.
D segurou o cabo de sua espada longa e puxou o metal para fora do corpo de Mayerling. Sua lâmina deslizou de volta para a bainha.
— Ali estão os dez milhões. Dinheiro fácil.
Sem dizer mais nada, D caminhou em direção à saída.
— D! — Leila gritou. Estava prestes segui-lo, porém naquele momento um vento uivante chamou sua atenção.
Quando D se virou bruscamente ao ouvir o som de carne sendo perfurada, viu a flecha de aço que atravessou o peito de Mayerling. Pelo ângulo, deduziu de onde havia sido disparada, e um clarão branco prateado saiu da mão direita de D. Rebateu no teto alto e foi mal bloqueado por uma figura que se moveu lateralmente com facilidade e agilidade, como uma aranha.
— Borgoff! — Leila gritou.
D também viu o irmão. Contudo seria mesmo Borgoff? Havia um enorme buraco aberto em seu estômago que não escondia os pedaços vermelho-escuros de entranhas, tendões e ossos lá dentro. Metade de cada coxa estava osso exposto, e o lado direito do rosto era apenas um crânio. Tal era o destino de quem era atacado por formigas-de-menta carnívoras.
Emitindo um riso maníaco, ele gritou.
— Você é o próximo, idiota!
Raios negros cruzaram o céu em direção a D, no entanto todos foram atingidos. O cadáver não tinha mais a mesma habilidade que possuía em vida. Na esperança de atacar por um ângulo diferente, Borgoff correu pelo teto até a parede. Estava confiante em sua velocidade. Na velocidade que tinha em vida.
Um segundo depois, seu ombro e o topo de sua cabeça foram perfurados por lampejos brancos que dispararam verticalmente de baixo, de onde, em tese, ninguém deveria conseguir alcançá-lo. Se esse tivesse sido o limite do dano, o já morto Borgoff não teria tido nenhum problema. Porém, devido à habilidade sobrenatural de D, uma das agulhas de madeira ricocheteou e estilhaçou seu tornozelo direito, que era apenas osso exposto. Sua perna restante não conseguiu mais suportar seu peso de quase cento e vinte e cinco quilos, e o enorme corpo de Borgoff caiu de cabeça de uma altura de cerca de nove metros antes de se espatifar contra o chão do saguão.
— Droga! — ele cuspiu as palavras em seu próprio peito quase sem carne. — Mas se a memória dele não me falha, ainda há algo que posso fazer.
A grotesca mão direita de Borgoff... Ossos com pedaços de carne ainda presos a ela, foi para o bolso da calça.
Naquele momento, o andarilho que procurava comida no ônibus estacionado bem em frente ao espaço porto deu um pulo ao ouvir uma pequena explosão vinda de uma das camas enfileiradas na parte de trás.
D estava envolto em uma aura fantasmagórica enquanto caminhava em direção a Borgoff, todavia, de repente, um jovem se colocou entre eles.
— Aqui está você, Grove! — disse o cadáver de Borgoff com a voz de Borgoff. — Faça o que sabe fazer! Mate todos esses desgraçados.
Antes que terminasse de falar, D saltou. Sua espada longa afundou no ombro do jovem e o atravessou como água.
O jovem não olhava para D. Encarava a garota de cabelos longos em um canto do saguão enquanto ela embalava uma figura vestida de preto e soluçava. Uma tonalidade de tristeza invadiu seu rosto corado. Grove balançou a cabeça levemente de um lado para o outro.
— Gro... Grove? — Borgoff gaguejou incrédulo.
Antes que seu irmão terminasse de dizer seu nome, o jovem se tornou transparente e, em seguida, desapareceu em instantes.
Quando a agonia pareceu forçar o corpo ressecado de Grove a se sentar na cama, o andarilho horrorizado se aproximou cada vez mais, entretanto, no momento em que o jovem fantasmagórico apareceu à sua frente, o intruso ficou apavorado. O olhar triste do jovem se fixou no corpo convulsionando, e então ele se encostou nele. No segundo em que o fez, começou a se fundir com a forma frágil, e um tremor percorreu o corpo ainda ereto. Então, parou de se mover.
Caminhando até o corpo de Borgoff, D pressionou rapidamente a palma da mão esquerda contra o peito. Houve um grito de angústia... Dos pés de Borgoff.
Algo se contorcendo dentro da coxa de Borgoff parecia estar subindo pouco a pouco em direção ao seu peito, centímetro por centímetro, como se estivesse sendo puxado por um fio. Passou pelo estômago, deslizando por entre os órgãos expostos pela ferida aberta, e quando alcançou o ponto sob a palma da mão de D, o estalo de carne e osso reverberou. Deu um grito em seus estertores, contudo logo terminou.
D afastou a mão esquerda. A pequena boca no meio da palma da mão se abriu. Desta, algo parecido com uma cauda de bagre se contorceu para fora, embora logo foi sugado de volta. Mais uma vez, ouviu-se o som crocante da mastigação, e então a língua pendeu para fora, lambendo os lábios antes de desaparecer, lábios e tudo.
Sem sequer olhar para Borgoff, que agora era um cadáver de verdade, D se virou na direção da garota. A jovem havia caído ao lado de Mayerling. Verificando seu pulso, Leila olhou para D e balançou o rosto banhado em lágrimas de um lado para o outro.
Uma das garras de Mayerling estava cravada no peito da garota. Ela a agarrou e a cravou em seu próprio seio.
O olhar de D estava um tanto cansado enquanto contemplava a expressão incrivelmente serena que ela ostentava na morte. Ele ouviu a voz de Leila vinda de algum lugar. O amor é tão grande... Então por que tem que dar tão errado?
A humana e o Nobre... Cada um morreu como viveu. A humana como humana, o Nobre como Nobre...
— Ela disse obrigada! — disse Leila distraidamente.
D tirou a mecha de cabelo do bolso do casaco. Era tudo o que restava da garota agora.
Algum tempo depois, o andarilho... Que recebera uma grande quantia em ouro do belo jovem de preto para enterrar o casal... Entrou no saguão. O vento que entrou com ele soprou as mechas de cabelo que estavam no ombro da garota, espalhando-as aleatoriamente pelo corredor vazio.
Na entrada do espaço porto, Leila desmontou do cavalo de D.
— Vou para uma cidadezinha lá no norte. — disse para o belo rosto fixo em seus olhos. — É um lugar pequeno, sempre coberto de neve, porém um rapaz que tem o açougue lá me pediu em casamento uma vez. É o único que já soube meu sobrenome e disse que não importava. A essa altura, já deve ter esposa e filhos, contudo me disse que esperaria o tempo que fosse preciso. Estou meio que contando com isso.
D assentiu.
— Boa sorte! — disse ele.
— Digo o mesmo.
D incitou seu cavalo a seguir em frente. Leila permaneceu imóvel atrás, e quando a escuridão azul começou a escondê-la, um leve sorriso surgiu nos lábios de D. Se Leila o tivesse visto, talvez tivesse refletido com orgulho sobre como suas últimas palavras o inspiraram até o fim de seus dias.
Era um sorriso tão lindo.
***
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