segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 02 — Capítulo 25

Capítulo 25: O Lago Secreto


Ele golpeou e lascou freneticamente, dobrando o galho com todo o seu peso, a faca escorregadia em seus dedos trêmulos. Simon levou muitos segundos preciosos para arrancar um galho que lhe servisse, por mais patética que fosse tal defesa resultasse, e cada segundo aproximava os cães. O galho que enfim quebrou era tão comprido quanto seu braço, com uma protuberância em uma das extremidades, onde outro galho havia caído.

O gnomo estava remexendo em sua bolsa, uma das mãos agarrando a pesada pele no pescoço de Qantaqa.

— Segure-a! — gritou para Simon. — Se a soltarmos agora, ela atacará muito cedo. Eles a arrastarão para baixo e a matarão em pouco tempo.

O garoto se agachou com um braço em volta do pescoço largo da loba. Ela tremia de excitação, o coração batendo forte sob seu braço. Simon sentiu seu próprio coração acelerar em sincronia... Tudo aquilo era tão irreal! Apenas esta manhã os dois estavam sentados calmamente ao lado da fogueira...

O grito da matilha se intensificou; subiram a colina como cupins brancos fugindo de um ninho desmoronando. Qantaqa avançou, arrastando Simon para seus joelhos.

— Hinik Aia! — Binabik gritou e cutucou o nariz da loba com seu tubo de osso oco, depois o largou enquanto puxava um pedaço de corda do fundo de sua bolsa e começava a fazer um laço. Simon, pensando que havia entendido, olhou para a borda do cânion atrás deles e balançou a cabeça em desespero. Era muito longe até o fundo, mais que o dobro do alcance da corda de Binabik na íngreme parede rochosa. Então viu algo e sentiu a esperança ainda lutando dentro de si.

— Binabik, olha! — ele apontou.

O gnomo, apesar da impossibilidade de descer, estava passando sua corda em volta de um toco ancorado a menos de um metro da borda do cânion. Ao terminar, olhou para cima para seguir o dedo indicador de Simon.

A menos de cem passos de onde estavam agachados, uma enorme e velha cicuta jazia inclinada para baixo, sua extremidade inferior equilibrada na borda mais próxima, a ponta presa a meio caminho da parede do cânion, em uma saliência.

— Podemos escalar até o outro lado! — disse o garoto, porém o homenzinho balançou a cabeça.

— Se conseguirmos descer com Qantaqa, então eles também podem. Não levaria a lugar nenhum. — sua mão gesticulou. A saliência onde a árvore estava presa não passava de uma ampla plataforma na rocha. — Contudo será de alguma ajuda. — ele se levantou e puxou a corda, testando o nó em volta do toco.

— Leve Qantaqa para lá, se puder. Não é longe, talvez apenas dez côvados. Segure-a até que eu chame, entendeu?

— Mas... — Simon começou, então olhou para baixo, na encosta.

As formas brancas, talvez uma dúzia ao todo, estavam quase sobre eles. Agarrando a relutante Qantaqa pela nuca, empurrou-a em direção à cicuta caída.

O suficiente da árvore havia permanecido na borda do cânion para que houvesse espaço entre as raízes retorcidas e a borda rochosa. Não era fácil manter o equilíbrio enquanto se agarrava à loba. Esta estremeceu e recuou, rosnando; o som foi quase abafado pelo clamor dos cães que se aproximavam. Não conseguiu convencê-la a subir no tronco largo e se virou para Binabik em desespero.

— Ummu! — o gnomo chamou roucamente, e um momento depois ela saltou para cima da cicuta, ainda rosnando.

Simon subiu no tronco o melhor que pôde, com seu porrete atrapalhando em seu cinto. Deslizou para trás sobre o traseiro, mantendo-se firme com Qantaqa, até estar bem longe da borda do cânion. Nesse instante, seu companheiro gritou, e Qantaqa se virou na direção do som de sua voz. Simon agarrou-se ao pescoço da loba com os dois braços enquanto seus joelhos se cravavam na casca áspera. De repente, sentiu frio, muito frio! Abaixou o rosto em sua pelagem, sentiu seu cheiro forte e selvagem e sussurrou uma oração.

Elysia, mãe do nosso Redentor, tenha misericórdia, proteja-nos...

Binabik estava parado com um rolo de corda na mão, a um passo da borda.

— Hinik, Qantaqa! — chamou, e então os cães saíram das árvores e subiram a encosta final.

De onde estava sentado, segurando a loba que se esforçava para se mover, Simon não conseguia ver muita coisa deles, apenas costas brancas, longas e finas, e orelhas pontudas. As feras se moviam em direção ao gnomo a galope, fazendo um barulho como correntes de metal arrastadas em um piso de ardósia.

“O que Binabik está fazendo?” pensou Simon, o pânico dificultando sua respiração. “Por que não corre, por que não usa seus dardos... Qualquer coisa!”

Era como a repetição de seu pior pesadelo, como Morgenes em chamas interpondo-se entre Simon e a mão mortal de Elias. Não podia ficar parado e assistir Binabik ser morto diante de seus olhos. Quando começou a se arrastar para frente, os cães saltaram em direção ao gnomo.

Simon teve apenas um breve vislumbre de focinhos longos e pálidos, de olhos vazios e branco-pérola, e um lampejo de línguas vermelhas curvas e bocas da mesma cor... Então Binabik saltou para trás, para dentro do cânion.

— Não! — gritou o garoto, horrorizado. As cinco ou seis criaturas que estavam mais próximas avançaram, incapazes de parar, e despencaram do penhasco em um emaranhado estridente de pernas e caudas brancas. Impotente, Simon observou o amontoado de cães gemerem ao quicar contra a íngreme parede rochosa e despencar nas árvores lá embaixo com um estalo explosivo de galhos quebrados. Sentiu outro grito sufocado subir em seu peito...

— Agora, Simon! Solte-a!

De boca aberta, Simon olhou para baixo e viu os pés de Binabik apoiados na parede do cânion, o gnomo pendurado pela corda em volta da cintura a menos de doze pés do ponto onde havia saltado.

— Solte-a! — voltou a gritar, e Simon enfim soltou o braço que prendia Qantaqa pelo pescoço.

O restante dos cães se aglomerava na borda acima da cabeça de Binabik, farejando o chão e olhando para baixo, latindo ferozmente para o homenzinho que permanecia tão frustrantemente perto.

Enquanto Qantaqa subia com cautela o dorso largo da cicuta, um dos cães brancos virou seus olhinhos minúsculos como espelhos embaçados em direção à árvore e a Simon, soltando um rosnado rouco e profundo enquanto se apressava para frente; os outros o seguiram depois.

Antes que a matilha ladradora alcançasse a cicuta, a loba cinzenta percorreu os últimos passos, chegando à borda com um salto magnífico. O primeiro cão a alcançou num instante, seguido de perto por mais dois. O rosnado de guerra da loba se elevou, uma nota mais grave em meio aos latidos e uivos dos cães.

Simon, paralisado por um momento de indecisão, começou a avançar pouco a pouco em direção à borda. O tronco era tão largo que suas pernas abertas doíam, e considerou se levantar até os joelhos para rastejar para frente, sacrificando sua firmeza na árvore em prol da velocidade. Pela primeira vez, voltou o olhar para baixo. O topo das árvores era um tapete verde irregular lá embaixo. A distância era vertiginosa, muito maior do que o salto da parede até a Torre do Anjo Verde. Sua cabeça girou e desviou o olhar, decidindo manter os joelhos onde estavam. Ao olhar para cima, uma forma branca saltou da borda do cânion para o tronco largo da cicuta.

O cão rosnou e avançou, as garras agarrando a casca. Simon teve apenas um instante para puxar seu galho retorcido antes que a fera cruzasse a distâncias entre eles e mergulhasse em sua garganta. Por um momento, o galho ficou preso em seu cinto, porém o empurrou com a ponta mais estreita para baixo, o que salvou sua vida.

Assim que o galho se soltou, o cão estava sobre ele. Dentes amarelos brilharam enquanto tentava morder seu rosto. O garoto ergueu o galho o suficiente para desferir um golpe de raspão, desviando o bote do cão de modo que os dentes se chocaram no ar a um centímetro de sua orelha esquerda, respingando saliva nele. As patas estavam em seu peito, e o terrível cheiro de carniça de seu hálito atingiu seu rosto; estava perdendo o controle. Tentou puxar o porrete de volta para cima, contudo este ficou preso entre as patas dianteiras estendidas do animal. Inclinou-se para trás enquanto o focinho longo e rosnando mais uma vez serpenteava em direção ao seu rosto e tentou torcer o galho para soltá-lo. Houve um momento de resistência, então uma das patas do cão branco foi forçada pelo seu ombro e a fera perdeu o equilíbrio. Ela guinchou e caiu para longe, arranhando por um momento a casca da árvore, depois puxando o porrete de sua mão enquanto este deslizava do tronco da árvore para cair de ponta a ponta no cânion.

Simon se esticou, agarrando-se à árvore com as mãos, e tossiu, tentando expelir o hálito fétido da criatura de suas narinas. Foi interrompido por um rosnado baixo. Levantou a cabeça para ver outro cão em pé no tronco logo abaixo das raízes, olhos leitosos brilhando como os de um mendigo cego. O cão mostrou os dentes em um sorriso espumante, com a língua carmesim. Simon ergueu as mãos vazias em vão enquanto a besta avançava devagar pelo tronco, os músculos fibrosos se contraindo sob a pelagem curta.

O cão virou-se para mordiscar o próprio flanco, incomodando a pele por um instante, depois voltou seu olhar estranho e vago para Simon. Deu mais um passo, cambaleou, deu mais um passo trêmulo, e então se dobrou no lugar para deslizar da cicuta para o esquecimento.

— O dardo preto parecia o mais seguro. — disse Binabik.

O homenzinho estava a alguns metros abaixo da encosta, perto do emaranhado de raízes secas da árvore. Um instante depois, Qantaqa mancava ao lado dele, com o focinho pingando sangue vermelho escuro. Simon olhou fixamente, percebendo que eles haviam sobrevivido.

— Vá devagar agora. — aconselhou o gnomo. — Aqui, vou jogar a corda. Seria um absurdo perdê-lo depois de tudo o que passamos...

A corda se arqueou e caiu deslizando sobre o tronco onde Simon estava sentado. Ele a pegou agradecido, com as mãos tremendo como se estivesse com paralisia.



***



Binabik virou o corpo do cachorro com o pé. Era um que havia matado com um dardo, o algodão brotava da pelagem branca e lisa do pescoço da criatura como um pequeno cogumelo.

— Veja ali. — disse.

Simon se inclinou um pouco mais para perto. Não se parecia com nenhum cão de caça que ele já tivesse visto: o focinho fino e a mandíbula inferior lembravam-lhe mais os tubarões que os pescadores puxavam debatendo-se no Kynslagh. Os olhos brancos opalescentes, agora carentes de vida, pareciam janelas de alguma doença interior.

— Não, olhe ali. — Binabik apontou.

No peito do cão, queimado de preto através dos pelos curtos, havia um triângulo fino com uma base estreita. Era uma marca de ferro, como aquelas que os homens dos Thrithings gravavam nos flancos de seus cavalos com ferros aquecidos em chamas.

— Esse sinal é do Pico das Tormentas. — disse Binabik em voz baixa. — É a marca das nornas.

— E elas são...?

— Um povo estranho. Seu país fica ao norte até mesmo de Yiqanuc e Rimmersgardia. Há uma grande montanha lá... Muito alta e coberta de neve e gelo... Chamada Pico das Tormentas pelos rimmerios. As nornas não viajam pelos campos de Osten Ard. Alguns dizem que são sitha, mas não sei se é verdade.

— Como é possível? — perguntou Simon. — Olhe para a coleira. — ele se inclinou, cuidadosamente enfiando um dedo sob o couro branco para afastá-lo da carne rígida do cão morto.

Binabik sorriu sem graça.

— Que vergonha! Ignorei a coleira, branca sobre branco como é... Eu, ensinado desde criança a caçar na neve!

— Olhe bem para ela! — insistiu Simon. — Ve a fivela?

A fivela da coleira era de fato algo interessante: uma peça de prata martelada em forma de dragão enrolado.

— Esse é o dragão dos canis de Elias. — disse Simon com convicção. — Eu sei disso, costumava visitar Tobas, o tratador de cães, com frequência.

Binabik se agachou, encarando a carcaça.

— Acredito na sua palavra. E quanto à marca do Pico das Tormentas, basta verificar que esses cães não são criaturas criadas em seu Hayholt.

O homenzinho se levantou e deu um passo para trás; Qantaqa se aproximou para cheirar o corpo, depois recuou depressa com um rosnado retumbante.

— Um mistério cuja solução deve esperar. — apontou o gnomo. — Agora temos muita sorte de estarmos vivos, com todos os nossos membros intactos. Devemos seguir em frente. Não quero encontrar o dono deste cão.

— Estamos perto de Geloë?

— Fomos um pouco desviados da rota, contudo não a ponto de não podermos nos recuperar. Se partirmos agora, ainda conseguiremos escapar da escuridão.

Simon olhou para o longo focinho e a mandíbula feroz do cão, para seu corpo poderoso e olhar penetrante.

— Espero que sim. — disse.



***



Eles não encontraram nenhuma maneira de atravessar o cânion e, de má vontade, decidiram descer a longa encosta e procurar outra descida mais fácil do que a íngreme parede rochosa à sua frente. Simon estava quase tomado por uma infantil felicidade por não ter que descer ali, seus joelhos seguiam fracos como se tivesse tido febre. Não queria olhar outra vez para o abismo do cânion com nada abaixo além de uma longa, longa queda. Uma coisa era escalar as paredes e torres de Hayholt, com seus cantos retos e rachaduras de pedreiro... Um tronco de árvore suspenso como um galho frágil sobre o nada era uma história completamente diferente.

Na base da longa encosta, uma hora depois, viraram para a direita e começaram a seguir para noroeste. Não tinham percorrido mais de cinco furlongs quando um grito agudo e lamentoso cortou o ar da tarde. Ambos pararam de repente; Qantaqa aguçou os ouvidos e rosnou. O som veio novamente.

— Parece o grito de uma criança! — declarou Simon, virando a cabeça para localizar a origem do ruído.

— A floresta costuma pregar peças assim... — começou Binabik.

O fúnebre lamento voltou a se elevar. Logo em seguida, veio um latido furioso que conheciam muito bem.

— Pelos Olhos de Qinkipa! — Binabik praguejou. — Será que vão nos perseguir até Naglimund?

O latido aumentou mais, e ele escutou.

— Parece que é só um cachorro. Isso é uma sorte.

— É como se estivesse vindo lá de baixo. — Simon apontou para onde as árvores cresciam mais densamente a certa distância. — Vamos lá ver.

— Simon! — a voz de Binabik estava tomada de surpresa. — O que está dizendo? Estamos fugindo para salvar nossas vidas!

— Você disse que parecia ser só um. Temos Qantaqa. Alguém está sendo atacado. Como podemos fugir?

— Simon, não sabemos se esse choro é uma armadilha... Ou se pode ser um animal.

— E se não for? — perguntou o garoto. — E se essa coisa tiver pegado o filho de algum lenhador... Ou... Ou algo assim?

— O filho de um lenhador? Tão longe da beira da floresta? — Binabik o encarou com frustração por um momento. Simon retribuiu o olhar, desafiador. — Hah! — suspirou Binabik pesadamente. — Então será como você deseja.

Simon se virou e começou a correr em direção às árvores que se adensavam.

— ‘Mikmok hanno so gijiq’, dizemos em Yiqanuc! — gritou o gnomo. — ‘Se quiser carregar uma doninha faminta no bolso, a escolha é sua!’

O jovem não olhou para trás. Binabik bateu no chão com seu bastão e trotou atrás dele.

Em menos de cem passos alcançou Simon; em vinte passos, abriu seu bastão para soltar sua bolsa de dardos. Sibilou uma ordem para trazer Qantaqa de volta, e então, habilmente, enrolou lã grossa em um dos dardos de ponta escura enquanto corria.

— Você não pode se envenenar se tropeçar e cair? — perguntou Simon.

Binabik lançou lhe um olhar azedo e preocupado enquanto lutava para acompanhá-lo.

Quando enfim chegaram à cena, sua aparência era enganosamente inocente: um cachorro agachado diante de um freixo frondoso, olhando para uma forma escura encolhida em um galho acima. Poderia ter sido um dos cães do castelo de Hayholt com um gato encurralado em uma árvore, exceto que tanto o cachorro quanto a presa eram muito maiores.

Estavam a menos de cem passos de distância quando o cachorro se virou para eles. Eriçando seus pelos, o animal latiu um zurro rouco e feroz. Olhou para a árvore por um momento, depois esticou as longas pernas e correu em direção a dupla. Binabik diminuiu o passo e parou, levando seu tubo oco aos lábios; Qantaqa trotava ao seu lado. Quando o cão diminuiu a distância, o gnomo estufou as bochechas e soprou. Se o dardo atingiu o alvo, o cão não deu nenhum sinal; em vez disso, disparou para a frente, rosnando, e Qantaqa investiu para encontrá-lo. Este cão era ainda maior que os outros, tão grande ou até um pouco maior que a própria Qantaqa.

Os dois animais não circularam, mas se atiraram um contra o outro, com as mandíbulas se fechando; um instante depois, caíram no chão rosnando, uma bola giratória e ofegante de pelos cinza e branco. Ao lado de Simon, Binabik praguejou bruscamente; seu estojo de couro caiu de sua mão na pressa de enrolar outro dardo. As agulhas de marfim se espalharam pelas folhas e musgo sob seus pés.

Os rosnados dos combatentes haviam subido para um tom mais alto. A longa cabeça branca do cão investiu para dentro e para fora: uma, duas, três vezes, como uma víbora atacando. Na última vez, voltou com sangue no focinho pálido.

Simon e o gnomo estavam trotando em direção a eles quando Binabik fez um estranho ruído de engasgo.

— Qantaqa! — gritou, e disparou para a frente.

Simon viu o brilho da lâmina de cabo de osso de Binabik e, um instante depois, inacreditavelmente, o homenzinho se lançou sobre os animais que se contorciam e mordiam, abaixou a faca, ergueu-a e golpeou de novo. O garoto, temendo pela vida de seus dois companheiros, pegou o tubo oco de onde Binabik o havia deixado cair e correu para a frente. Chegou a tempo de ver o homenzinho se preparar, agarrar a espessa pelagem cinza das costas de Qantaqa e puxar. Os dois animais se separaram; havia sangue em ambos. Qantaqa se levantou devagar, mancando de uma pata. O cão branco permaneceu em silêncio.

Binabik se agachou e passou um braço em volta do pescoço da loba, pressionando sua testa contra a dela. Simon, estranhamente comovido, afastou-se deles em direção à árvore.

A primeira surpresa foi que havia duas figuras nos galhos do freixo branco, um jovem de olhos arregalados que segurava uma figura menor e silenciosa no colo.

A segunda surpresa foi que Simon conhecia a maior das duas.

— É você! — ele olhou para cima, surpreso, para o rosto sujo e ensanguentado. — Você! Mal... Malaquias!

O menino não disse nada, apenas olhou para baixo com olhos assombrados, embalando a pequena figura em seu colo. Por um momento, a floresta ficou silenciosa e imóvel, como se o sol da tarde acima das árvores tivesse sido interrompido em seu caminho. Então, o som estridente de uma trompa rompeu o silêncio.

— Rápido! — Simon gritou para Malaquias. — Desça! Vocês precisam descer!

Binabik se aproximou por trás com Qantaqa mancando.

— É a trompa do caçador, tenho certeza. — foi tudo o que disse.

Malaquias, como se por fim compreendesse, começou a deslizar pelo longo galho em direção ao tronco, segurando com cuidado sua pequena companheira. Quando chegou à bifurcação, hesitou por um instante e então entregou o fardo inerte a Simon. Era uma menininha de cabelos escuros, com não mais de dez anos. A pequena estava imóvel, os olhos fechados em seu rosto pálido demais; quando Simon a pegou, sentiu algo pegajoso por toda a frente de seu vestido áspero. Um instante depois, Malaquias desceu do galho, caindo os últimos metros e cambaleando, levantando-se quase de imediato.

— E agora? — perguntou Simon, tentando equilibrar a menininha contra o peito. O som da trompa voltou a ecoar em algum lugar na borda do cânion que haviam deixado para trás, e agora se ouviu também o latido excitado de mais cães.

— Não podemos lutar contra homens e cães junto com eles. — disse o gnomo, com o cansaço estampado em seu rosto abatido. — Não podemos fugir dos cavalos. Precisamos nos esconder.

— Como? — perguntou Simon. — Os cães vão nos farejar.

Binabik inclinou-se para a frente e pegou a pata ferida de Qantaqa em sua pequena mão, dobrando-a para frente e para trás. A loba resistiu por um momento, depois sentou-se, ofegante, enquanto o homenzinho terminava suas manipulações.

— Dói, embora não esteja quebrada. — contou a Simon, e então se virou para falar com a loba. Malaquias ergueu o olhar do fardo de Simon para encará-la. — Chok, Qantaqa, minha brava amiga. — disse o gnomo. — Ummu chok Geloë!

A loba ronronou fundo em seu peito e então saltou em seguida para o noroeste, para longe do clamor crescente atrás deles. Mantendo a pata dianteira ensanguentada, ela desapareceu de vista entre as árvores em questão de instantes.

— Espero... — explicou Binabik. — Que a confusão de cheiros aqui... — gesticulou para a árvore e depois para o enorme cão deitado perto dela. — Os distraia, e que o cheiro que seguirem seja o de Qantaqa. Acho que não conseguiram pegá-la, mesmo mancando, ela é esperta demais.

Simon olhou em volta.

— E ali? — perguntou, apontando para uma fenda na encosta formada por um grande retângulo de pedra listrada que se soltara e caíra para trás, como se tivesse sido partido por uma enorme cunha.

— Só que não sabemos para que lado eles vão. — argumentou Binabik. — Se descerem a encosta, teremos sorte. Se descerem mais para trás, passarão direto pelo buraco ali. É arriscado demais.

Simon teve dificuldade para pensar. O latido dos cães que se aproximavam era assustador. Binabik estava certo? Seriam perseguidos até Naglimund? Não que pudessem correr por muito mais tempo, cansados ​​e machucados como estavam.

— Ali! — exclamou, de repente.

Outro afloramento rochoso erguia-se do chão da floresta a alguma distância, três vezes a altura de um homem. Árvores cresciam próximas à sua base, cercando-o como crianças pequenas ajudando o avô a mancar até a mesa do jantar.

— Se conseguirmos subir ali. — disse Simon. — Estaremos acima até mesmo daqueles que estão a cavalo!

— Sim! — disse Binabik, acenando com a cabeça. — Certo, você tem razão. Venha, vamos subir.

Ele caminhou em direção ao afloramento, com o silencioso Malaquias logo atrás. Simon ajeitou a menina contra o corpo e correu atrás.

Binabik subiu um pouco e se agarrou ao galho de uma árvore inclinada enquanto se virava.

— Me passe a pequena.

Simon fez isso, estendendo os braços ao máximo, e então se virou para colocar uma mão guia no cotovelo de Malaquias, que procurava um ponto de apoio inicial. O menino recusou o gesto prestativo de Simon e subiu com cuidado.

Simon foi o último. Quando chegou à primeira saliência, pegou a figura imóvel da menina e a colocou delicadamente sobre o ombro, depois subiu até o topo arredondado da rocha. Deitou-se com os outros entre as folhas e galhos, escondido do chão por uma cortina de ramos. Seu coração batia forte de exaustão e medo. Parecia que estivera correndo e se escondendo por uma eternidade.

Mesmo enquanto se remexiam, tentando encontrar posições confortáveis ​​para os quatro corpos, o latido dos cães aumentou para um tom horrível; um instante depois, a mata abaixo estava cheia de formas brancas que se moviam agitadas.

Simon deixou a menina nos braços de Malaquias e, sem fazer nenhum som, se aproximou até poder se juntar a Binabik na beira do afloramento rochoso, espiando com o gnomo por uma abertura na folhagem. Os cães estavam por toda parte, farejando, latindo; havia pelo menos vinte deles correndo de um lado para o outro entre a árvore, o corpo de seu companheiro e a base do afloramento. Um deles até pareceu olhar direto para Simon e Binabik, com os olhos brancos e vazios brilhando e a boca vermelha sorrindo ferozmente. Um momento depois, trotou de volta para se juntar aos seus companheiros ensopados.

A trompa soou por perto. Em um minuto, uma fila de cavalos apareceu, descendo a densa encosta arborizada. Agora os cães tinham uma quarta curva em seu circuito e corriam zurrando entre as patas cinza-pedra do cavalo da frente, que caminhava com a calma tal qual se as bestas fossem mariposas. Os cavalos que vinham atrás não estavam tão tranquilos; um cavalo logo atrás se assustou um pouco, e seu mestre o cortou da fila, esporeando-o na última pequena ladeira até fazê-lo parar de forma brusca perto do afloramento rochoso.

Este cavaleiro era jovem e tinha a barba feita, com um queixo forte e cabelos cacheados da cor de seu cavalo castanho. Ele usava uma sobreveste azul e preto sobre sua armadura prateada, com um desenho de três flores amarelas dispostas diagonalmente do ombro à cintura. Sua expressão era azeda.

— Mais um morto. — cuspiu. — O que acha disso, Jegger? — sua voz assumiu um tom sarcástico. — Oh, me perdoe, eu quis dizer Mestre Ingen.

Simon ficou impressionado com a clareza das palavras do homem, como se falasse direto para os ouvintes escondidos, e reteve sua respiração.

O homem de armadura olhava para algo fora de seu campo de visão, e seu perfil de repente pareceu muito familiar. Simon tinha certeza de que já tinha visto aquele homem em algum lugar, provavelmente em Hayholt. Era bastante evidente que se tratava de um erkyno, dado seu sotaque.

— Não importa como você me chama. — disse outra voz, uma voz profunda, suave e fria. — Você não nomeou Ingen Jegger mestre desta caçada. Você está aqui por... Cortesia, Heahferth. Porque estas são suas terras.

O garoto percebeu que o primeiro homem era o Barão Heahferth, um frequentador assíduo da corte de Elias e um comparsa do Conde Fengbald. O segundo homem cavalgou seu cavalo cinza para dentro da abertura por onde Simon e Binabik observavam. Cães brancos agitados se enroscavam nos cascos do cavalo.

O homem chamado Ingen estava vestido todo de preto, sua sobreveste, calças e camisa, tudo da mesma tonalidade sombria e sem brilho. A princípio, parecia ter barba branca; um instante depois, ficou evidente que os bigodes curtos em seu rosto duro eram de um amarelo tão claro que chegava a ser quase incolor... Tão incolor quanto seus olhos, tênues manchas pálidas em seu rosto escuro. Talvez fossem azuis.

Simon encarou o rosto frio emoldurado pela touca preta, o corpo poderoso e musculoso, e sentiu um medo diferente de qualquer outro que sentira durante todo aquele dia perigoso. Quem era aquele homem? Parecia um rimmerio, seu nome era o de um, todavia falava de forma estranha, com sotaques lentos e estranhos que Simon nunca ouvira.

— Minhas terras terminavam na orla da floresta. — disse Heahferth, e virou sua montaria relutante de volta ao lugar.

Meia dúzia de homens com armaduras leves havia descido para a clareira atrás e sentado em seus cavalos, esperando.

— E onde minhas terras terminavam... — continuou Heahferth. — Minha paciência também. Isto é uma farsa. Cães mortos espalhados como palha...

— E dois prisioneiros escaparam! — concluiu Ingen, com pesar.

— Prisioneiros! — zombou Heahferth. — Um menino e uma menina! Vocês acham que esses são os traidores que Elias está tão ansioso para pegar? Acham que duas crianças... — ele inclinou a cabeça em direção à carcaça do grande cão. — Fizeram isso?

— Os cães estavam perseguindo alguma coisa. — Ingen Jegger encarou o cão morto. — Veja. Veja os ferimentos. Não foi um urso, nem um lobo que fez isso. É a nossa presa, e ainda está correndo. E agora, graças à sua estupidez, nossos prisioneiros também continuam fugindo.

— Como ousa? — disse o Barão Heahferth, elevando a voz. — Como ousa? Com uma palavra, posso fazer de você um ouriço cravejado de flechas.

Ingen ergueu lentamente o olhar do corpo do cão.

— Mas não irá. — respondeu em voz baixa.

O cavalo de Heahferth recuou, empinando, e quando o Barão o dominou, os dois homens se encararam por um momento.

— Ah... Muito bem, então... — disse Heahferth. Um tom diferente surgiu em sua voz enquanto desviava o olhar do homem vestido de preto para contemplar a floresta. — E agora?

— Os cães têm um rastro. — disse Ingen. — Faremos o que for preciso. Continuar.

O homem de preto ergueu a trompa que balançava ao seu lado e a tocou uma vez. Os cães, que estavam rondando a borda da clareira, latiram e dispararam na direção em que Qantaqa havia desaparecido; Ingen Jegger esporeou seu alto cavalo cinza atrás deles sem dizer uma palavra. O Barão Heahferth, praguejando, acenou para seus homens e os seguiu. Em questão de cem batidas do coração, a floresta abaixo do afloramento rochoso estava vazia e silenciosa outra vez, mas Binabik os manteve no lugar por algum tempo antes de deixá-los descer.

Uma vez no chão, fez um rápido exame na menina, abrindo seus olhos com um dedo delicado e grosso, inclinando-se para ouvir sua respiração.

— Ela está muito mal. Qual é o nome dela, Malaquias?

— Leleth. — respondeu o menino, olhando fixamente para o rosto pálido. — Minha irmã.

— Nossa única esperança é levá-la o quanto antes para a casa de Geloë. — disse Binabik. — E torcer também para que Qantaqa tenha desviado aqueles homens, para que cheguemos lá vivos.

— O que você está fazendo aqui fora, Malaquias? — perguntou Simon. — E como escapou do Heahferth?

O menino não respondeu e, quando Simon tornou a perguntar, virou a cabeça.

— Deixe as perguntas para depois. — disse Binabik, levantando-se. — Precisamos de rapidez agora. Poderia carregar esta menina, Simon?

Eles seguiram para noroeste pela densa floresta, com o sol poente penetrando entre os galhos. Simon perguntou ao gnomo sobre o homem chamado Ingen e seu jeito peculiar de falar.

— É um rimmerio negro, creio. — especulou Binabik. — São pessoas muito estranhas, raramente vistos, exceto nos assentamentos mais ao norte, onde às vezes vêm para negociar. Não falam a língua de Rimmersgardia. Dizem que vivem nas fronteiras das terras pertencentes às nornas.

— As nornas de novo. — resmungou Simon, abaixando-se sob um galho que brotou da mão descuidada de Malaquias. Ele se virou para encarar o gnomo.

— O que está acontecendo? Por que essas pessoas estão tão interessadas em nós?

— Tempos perigosos, amigo Simon! — disse Binabik. — Estamos passando por tempos perigosos.



***



Várias horas se passaram e as sombras da tarde se alongaram cada vez mais. Os pedaços de céu que brilhavam por entre as copas das árvores mudaram aos poucos de azul para rosa-claro. Os três continuaram caminhando. O terreno era quase todo plano, com declives ocasionais que lembravam uma tigela rasa. Nos galhos acima, esquilos e gaios continuavam suas discussões intermináveis; grilos zumbiam na folhagem emaranhada a seus pés. Certa vez, Simon viu uma grande coruja cinzenta voando como um fantasma entre os galhos entrelaçados acima. Mais tarde, viu outra, tão parecida com a primeira que parecia ser sua gêmea.

Binabik observou atentamente o céu enquanto passavam pelas clareiras e os conduziu um pouco para o leste; logo chegaram a um pequeno riacho na floresta que murmurava entre milhares de pequenos quebra-mares de galhos caídos. Caminharam por um tempo pela grama alta que margeava suas margens; quando a imponência de uma árvore bloqueou sua passagem, saíram e seguiram em frente, apoiando-se nas costas das pedras que pontilhavam o curso suave do riacho.

O leito do riacho se alargou com a entrada de outro pequeno curso d’água, e em instantes Binabik ergueu a mão para fazê-los parar. Acabavam de contornar uma curva no curso d’água; ali, o riacho de repente despencava, formando uma pequena cachoeira que descia por uma série de lajes de pedra.

Eles estavam na borda de uma grande cavidade, uma extensão inclinada de árvores que descia até um lago amplo e escuro. O sol havia se posto, e no crepúsculo zumbido de insetos, a água parecia púrpura e profunda. Raízes de árvores se retorciam na água como serpentes. Havia uma atmosfera de quietude no lago, de segredos silenciosos sussurrados apenas entre às árvores infinitas. Do outro lado, tênue e difícil de ver na escuridão crescente, uma alta cabana de palha se erguia sobre a água de tal forma que, a princípio, parecia flutuar no ar; um instante depois, Simon percebeu que estava elevada acima da superfície do lago sobre palafitas.

Uma luz suave brilhava nas duas pequenas janelas.

— A casa de Geloë. — disse Binabik, e começaram a descer para a bacia arborizada.

Com um silencioso bater de asas, uma forma cinza se desprendeu das árvores acima deles e planou para fora, circulando baixo sobre o lago duas vezes, antes de desaparecer na escuridão ao lado da cabana. Por um instante, Simon pensou ter visto a coruja entrar na cabana, todavia suas pálpebras estavam pesadas de cansaço e não conseguia enxergar com clareza. O canto noturno dos grilos ecoava ao redor enquanto as sombras se aprofundavam. Uma forma saltitante surgiu velozmente ao redor da borda do lago em sua direção.

— Qantaqa! — Binabik riu e correu para encontrá-la.

***

Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair

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