quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Slayers — Volume 15 — Capítulo 63

Capítulo 63: Eles voltaram? A dupla atrapalhada de elfa e dragão!
















Tudo começou num dia comum.

“Bola de Fogo!”

Ba-bwooooosh! O feitiço de ataque que lancei mandou os seis bandidos ao redor da fogueira pelos ares!

“O quê?”

“São as autoridades?”

“As autoridades não atiram primeiro e perguntam depois, seu idiota! Só pode ser aquele organismo miserável de violência incomparável...”

“Mega Marca!”

Ka-fwooom! Minha segunda onda enfurecida silenciou seus discursos sem sentido.

Droga! Eu, a delicada e bela mestra espadachim/feiticeira Lina Inverse, não mereço ser tratada como um organismo não identificado! Agora vocês vão pagar caro! Ah, bem, posso acertá-los com mais alguns feitiços de ataque...

Mas, enquanto considerava a ideia, detectei uma presença hostil atrás de mim e ao meu lado. Dei um salto para a frente imediatamente quando... Whoooom! Um clarão de luz surgiu onde eu estava.

Um feitiço de ataque? Saltei pela grama para me distanciar. Ao aterrissar, um feiticeiro vestido de preto saiu, farfalhando as folhas. No ar seco e escaldante, nós dois nos encaramos.

Hmm...

“Você seria... Um guarda-costas contratado pelos bandidos, talvez?” perguntei. Não era incomum ver feiticeiros errantes que haviam caído em desgraça recorrendo à venda de seus serviços no mercado negro.

“E o que exatamente a traz aqui? Fazer trabalhos sujos para as autoridades... Não parece ser a sua praia!” respondeu o feiticeiro. Não consegui distinguir seu rosto, contudo sua voz o fazia parecer mais velho.

Estufei o peito.

“Heh. Não consegue adivinhar? Estava me sentindo entediada e inquieta, então vim surrar alguns bandidos para me animar!”

“Quem diria?” zombou o feiticeiro, exibindo em seguida um sorriso indomável. “Heh... Bom, não importa. De um jeito ou de outro, estou a serviço desses homens. É pura má sorte sua ter cruzado o meu caminho!” ele cortou o ar com as mãos, traçando um padrão enquanto entoava um feitiço. Uma luz azul percorreu o chão, tomando a forma de um grande pentagrama invertido!

“E-Espere um minuto...!” gritei surpresa.

O rosto do feiticeiro se curvou em outro sorriso.

“Apareça! Meu aliado jurado, o demônio inferior Jaldung!”

Fwsh! A luz do círculo mágico brilhou intensamente em todos os lugares, exceto no centro, onde uma figura disforme surgiu na escuridão. Aqueles membros retorcidos, aquelas asas escuras... Era, de fato, um demônio inferior.

“Não acredito...” sussurrei.

Demônios inferiores são os membros de menor hierarquia dos mazokus. Eles estão longe de serem inteligentes, no entanto seu poder mágico e suas capacidades defensivas os tornam uma ameaça real para um espadachim ou feiticeiro comum. Só que...

“Você usou aquele círculo mágico enorme e aquele encantamento exagerado... Para invocar um único demônio inferior? Haha... Bwahahaha!” não consegui conter a gargalhada.

“O que é tão engraçado?” retrucou o feiticeiro.

“B-Bem... É que foi um alarde tão grande, então pensei que seria algo legal!”

“Pare de rolar no chão rindo! Se não entende o quão aterrorizante um demônio inferior pode ser, então morrerá amaldiçoando sua própria ignorância!”

“Raaaaargh!”

Como se incitado pela raiva do mago, o demônio inferior uivou.

Ah, tudo bem, tanto faz...

Tinha acabado de começar a conjurar um feitiço rápido quando... Tha-thump... O mundo ao meu redor... Tremeu? Essa é a única maneira que consigo descrever o que aconteceu.

Hã...?

“O que foi isso?” o feiticeiro à minha frente gritou em pânico repentino. Pelo visto não fui a única que tinha sentido.

Algo sobre o frio do vento e o cheiro do ar... Não havia mudanças visíveis ao nosso redor, entretanto tinha um forte sentimento que havia algo errado. Nós dois ficamos parados ali por um tempo, sem palavras. Até que...

“Graaaaaaaah!” um grito do demônio inferior quebrou o silêncio.

Um tremor mortal percorreu a criatura e... Bwoosh! Suas costas explodiram! Não, emergiram asas! De repente, dois pares se arrastavam atrás dela como trapos negros ao vento.

Não tinha ideia do que estava acontecendo. E ainda assim... Senti um arrepio repentino na espinha. Em resposta a essa premonição sinistra, lancei o feitiço que havia entoado.

“Lança Elemekia!”

Minha lança de luz voou direto para o alvo, mas... Ziiing! Um som como o rangido de metal ecoou, e uma luz brilhante apareceu diante do peito do demônio. Em um instante, a luz tomou forma!

Um círculo mágico em forma de pentagrama invertido? O feitiço que eu havia lançado atingiu o pentagrama e... Skeeeeen! Com um guincho horripilante, ele se dispersou! Nem preciso dizer que o demônio inferior por trás do pentagrama permaneceu ileso.

“O quê?” exclamei.

O feitiço que havia escolhido causava dano ao alvo pelo lado astral. Já havia usado a Lança Elemekia para lidar com mais demônios inferiores do que gostaria, bem como com demônios de bronze de nível um pouco superior. Porém nunca tinha visto um usar uma barreira para bloquear um feitiço. Não é que os demônios inferiores não tivessem poder mágico para fazê-lo... Apenas não tinham inteligência.

“O que foi isso?” perguntei sem falar com ninguém em particular.

“Eu... Não sei!” afirmou o feiticeiro que o havia invocado. “Isto nunca aconteceu antes! Contudo... Ah, não importa! Demônio inferior!” chamou a criatura, e ela voltou seus olhos para o feiticeiro. O feiticeiro então apontou para mim. “Mate aquela mulher!”

O demônio inferior soltou um rosnado bestial. Instantes depois, dezenas de lanças de fogo apareceram... Não, lanças de luz!

Krababababash! Cortando listras brancas na noite, as lanças empalaram o feiticeiro que havia invocado o demônio! O feiticeiro, confuso com o que havia acontecido, desabou sem sequer um grito.

Então, o demônio inferior voltou seu olhar para mim.

Rapidamente comecei a entoar um feitiço. Antes que pudesse terminar, o demônio inferior, uivando, invocou mais lanças de luz. Ele as lançou... Não em minha direção, e sim ao meu lado. A chuva de luz perfurou a escuridão e... Krrsh! Um súbito clarão prateado espalhou os projéteis. Uma espada os havia literalmente cortado!

Quem foi o responsável, você pergunta? Quem mais?

Eu não precisava ver a silhueta brevemente iluminada pela luz para saber que o único guerreiro capaz de tal feito era meu belo espadachim loiro e companheiro de viagem extraordinário. Seu cérebro era tão encharcado quanto os campos durante a estação chuvosa, e seu nome era... Gourry Gabriev!

“Graaah!” depois de rasgar as lanças de luz, ele soltou um rugido e em poucos instantes se aproximou do demônio inferior. As quatro asas da criatura bateram enquanto tentava recuar para o ar, mas antes que pudesse escapar, Gourry estava bem na sua frente. Meu garoto era rápido como sempre!

Slash! Houve um brilho de sua lâmina prateada, e as asas negras e esfarrapadas se espalharam como folhas mortas. Um instante depois, o corpo do demônio desabou no chão, partido em dois.

“Ei, Lina!” Gourry chamou com um suspiro enquanto embainhava sua espada. “Você estava saindo escondida à noite para intimidar bandidos de novo...”

“Deixe o sermão para depois!” interrompi, examinando os arredores com uma expressão séria.

Os bandidos se dispersaram aterrorizados no momento em que o demônio inferior descontrolado matou o feiticeiro. E agora que este também estava morto, a área parecia livre de inimigos. Foi por isso que Gourry embainhou sua espada. E ainda assim...

“O demônio inferior se transformou do nada e matou o feiticeiro que o invocou. Isso não deveria ser possível. Talvez o feiticeiro só não tenha usado as precauções corretas, porém... Sei lá. Pode haver algo mais acontecendo. Não devemos baixar a guarda.”

“Ah... Você acha?” respondeu Gourry, examinando a área ao nosso redor também.

Eu já sabia muito bem que não havia nenhum inimigo por perto. Essa era a minha estratégia patenteada para evitar sermões em ação! Claro, só funciona com os desavisados.

Mal sabia eu, naquele momento, que havia muito mais acontecendo do que eu poderia imaginar.



Um céu escuro. Uma cidade congelada. Cada inspiração daquele ar fresco e gélido parecia queimar meus pulmões.

Figuras de asas negras, inúmeras, circulavam acima. A neve fora de época parecia absorver todos os sons e deixar tudo envolto em um silêncio vazio. Era como uma pintura monocromática ou um pesadelo descrito por algum profeta insano. Contudo não era uma pintura nem um pesadelo... Era a realidade.

“O que... Está acontecendo?” sussurrei, com a voz trêmula. Não tinha certeza se era por causa do frio ou de outra coisa.

“Ainda não é inverno... É?” Gourry também sussurrou, atônito, de onde estava ao meu lado.

Era o dia seguinte à minha caçada aos bandidos. Nós dois tínhamos saído da nossa pousada e nos deparado com esta pequena cidade em uma passagem de montanha, a caminho da próxima cidade. Já vinha me perguntando há algum tempo por que de repente havia ficado tão frio, no entanto quando chegamos ao topo da colina ao longo da estrada principal, este domínio congelado governado por demônios foi a visão que nos saudou.

“Vamos lá, Gourry!” falei enquanto seguia em frente.

Ele me seguiu meio passo atrás.

“Ir para onde?”

“Ainda há demônios lá embaixo! O que significa que pode haver pessoas vivas, certo?”

“Entendi!” respondeu Gourry.

Assenti com a cabeça e comecei a entoar o feitiço. Ainda estávamos a uma certa distância da cidade. Se corrêssemos a toda velocidade o caminho todo, estaríamos tão cansados ​​que não conseguiríamos lutar quando chegássemos, o que teria anulado todo o propósito de chegarmos para ajudar. Em vez disso, peguei a mão de Gourry e ativei meu feitiço de voo amplificado em alta velocidade.

“Lei Asa!”

Envoltos em uma barreira de vento, disparamos para frente! Estávamos nos aproximando rapidamente, entretanto não havia sinal de vida humana.

Será que estão escondidos em suas casas, ou será que todos...?

Afastei esse pensamento pessimista e, logo, chegamos a cidade. Era realmente uma cidade da morte. Estávamos longe demais para ver antes, mas agora tenho uma visão privilegiada das ruas cobertas de cadáveres de humanos massacrados. Seus corpos sem vida estavam parcialmente ocultos pela neve que se acumulava sobre eles.

Parecia que os sobreviventes haviam fugido para dentro de casa, pois a maioria das casas estava trancada. O único movimento que podíamos ver era a neve caindo e os demônios que sobrevoavam nossas cabeças. Alguns deles perceberam nossa aproximação e mergulharam em nossa direção. Todos tinham a mesma silhueta de quatro asas do demônio inferior que tínhamos visto na noite anterior.

“Vamos lá, Gourry!”

“Certo!”

Gourry desembainhou sua espada e eu murmurei um feitiço. Havia cinco ou seis demônios vindo em nossa direção, porém não sabia quantos havia no total. Poderia ter usado um Dragon Slave para acabar com todos de uma vez, todavia estar em um assentamento humano limitava minhas opções.

Um grito dos demônios, quase como um uivo furioso, fez com que inúmeras flechas de luz cruzassem nosso caminho, vaporizando a neve que caía ao redor! Sua mira era boa, o que, por sorte, facilitou o desvio! Nós saímos correndo, voando para um beco próximo.

Ka-bloosh! As flechas de luz explodiram contra o chão, soltando um chiado de vapor. Alguns dos demônios que nos perseguiam pousaram, enquanto outros permaneceram no ar, olhando para nós no beco. Aproveitei a oportunidade.

“Bram Blazer!”

Whoosh! A onda de choque azul que liberei derrotou vários dos demônios agrupados no chão. Pensei que poderiam usar barreiras defensivas como o da noite anterior, entretanto parece que ainda é possível pegá-los desprevenidos.

Os demônios no ar voltaram seus olhos para mim. Mas...

“Graaah!”

Nesse momento, Gourry, que havia usado uma série de chutes nas paredes do beco para ganhar altitude, saltou sobre os demônios voadores com um grito de guerra. Ele cortou a cabeça de um deles e então chutou suas costas para mudar de direção, cortando as asas de outro. Logo fez o mesmo com um terceiro em seu caminho de volta para o chão.

Os demônios restantes voltaram sua atenção para meu companheiro. Quando isso aconteceu, saltei para fora do beco, entoando um feitiço.

Gourry matou sem esforço os dois demônios que havia derrubado no chão, bem como outro que fora descuidado o suficiente para se aproximar demais. O demônio solitário restante pareceu perceber que estava em desvantagem... Ou talvez pretendesse atacar Gourry de cima, porque bateu suas grandes asas para sair do alcance da espada e alçar voo.

Só que foi aí que terminei meu feitiço!

“Zellas Bullid!”

Disparei um raio de luz contra o demônio. Ziiing! Com um rosnado metálico igual ao da noite anterior, este conjurou uma barreira defensiva. Pena que Zellas Bullid não pudesse ser bloqueado tão facilmente!

Krash! Meu raio destruiu a barreira e continuou, atravessando o demônio que estava atrás. Seu corpo atingiu o chão sem forças, espalhando neve por toda parte.

Tínhamos acabado com todos que vieram atrás de nós. A única questão era quantos restavam na cidade...

“Acho que vamos ter que vagar por aí e derrotar todos que encontrarmos. Vamos lá!”

Estava prestes a sair correndo, porém...

“Espere!” Gourry me parou. Ele havia pressentido a presença de... Algo.

Olhei ao redor e procurei por mim mesma. As ruas brancas. Os cadáveres. O único movimento, mais uma vez, eram os flocos de neve caindo indiferentemente.

Por um tempo, tudo era neve e silêncio.

“Por que você não se mostra logo?” Gourry perguntou de repente no meio de sua vigilância. Seu olhar estava fixo no telhado de uma casa civil não muito longe dali. “Não está aí só para observar, está? Se quiser terminar as coisas, apareça aqui.”

Shff... Ao chamado de Gourry, uma figura vermelha se levantou no telhado. Em seguida, saltou para o chão e caminhou a lentos passos em nossa direção. Assim que a figura se aproximou o suficiente para que pudesse distingui-la, acabei recuando instintivamente.

Ewww!

Há algum tempo, vi um modelo anatômico na biblioteca de um conselho de feiticeiros. Era exatamente assim que essa coisa se parecia... Como um ser humano sem pele. No entanto, em vez de olhos, tinha protuberâncias de carne cor de sangue que balançavam e tremiam como as de um caracol ou uma lesma.


É claro que aquela coisa não era um humano ou monstro comum. Era inegavelmente um mazoku. Eles sempre tinham uma aparência bem estranha, mas este era particularmente impressionante no quesito mau gosto.

“Quem quer que você seja... Ser capaz de me detectar... Deve significar que é alguém excepcional.”

A criatura parou a certa distância de nós e falou com Gourry através de uma boca sem lábios, repleta de dentes expostos.

“Não importa quem sejamos. Atacar uma cidade para se alimentar de seu pânico e medo... Sei que é só um lanche da tarde para a sua espécie, mas poderia parar de ser tão irritante?” interrompi.

“Ohh...” a interrupção pareceu aumentar o interesse do mazoku, porque seu olhar... Bem, seus tentáculos oculares... Se voltou para mim. “Então sabe um pouco sobre nós, não é? Nesse caso sabe o quão formidável um mazoku puro pode ser. Você parece ter uma habilidade considerável... Gostaria de colocá-la à prova?”

“Tenho quase certeza de que não temos escolha, não é?” respondi.

Nesse instante, os músculos nos cantos da boca do mazoku se contraíram... Em um sorriso.

“Que bom que entendeu. Agora, vamos começar!” declarou ele, firmando os pés no chão e preparando os punhos na altura dos quadris.

Nesse momento... Vrnnnn! Um som semelhante ao zumbido de asas de inseto ecoou, e a neve ao redor do mazoku começou a se espalhar. As ondas da vibração invisível rasgaram a neve em direção a Gourry! O grandalhão não tentou se esquivar. Em vez disso, avançou!

“Tolo!” o mazoku sorriu com desdém. Porém...

“Hahh!”

Vwum! Um estrondo ecoou quando a espada de Gourry cortou o ar. A neve que caía ao nosso redor tornara a onda de choque, antes invisível, visível a olho nu, permitindo que ele a cortasse com sua espada.

“O quê?” gritou o mazoku, momentaneamente pego de surpresa.

Todavia parecia que Gourry não conseguira dissipar por completo a onda de choque. Ele também ficou paralisado, enquanto eu, por outro lado, não ia deixar uma chance como essa escapar! Comecei a liberar o feitiço que havia conjurado.

“Dynast...” mas antes que pudesse pronunciar as palavras de poder, o mazoku produziu uma segunda onda de choque que espalhou a neve e cobriu o mundo ao nosso redor de branco! Uma distração? Ignorando-a, terminei de liberar meu feitiço.

“Blas!”

Ker-kyewww! O relâmpago mágico avançou, brilhando em um azul pálido além da névoa de neve antes de desaparecer... Porém não havia sinal de que tivesse atingido algo.

Nesse instante... Detectei uma presença hostil aparecendo atrás de mim!

“Lina!” Gourry se moveu em uma velocidade absurda para me proteger, a espada em sua mão reluzindo.

Bwam! Outra explosão ecoou.

O mazoku me contornou e liberou uma terceira onda de choque, que Gourry cortou. Só as reverberações foram suficientes para estourar nossos tímpanos. Pelo menos, foi essa a sensação. Se tivesse recebido o impacto direto, teria desmaiado na melhor das hipóteses... E morrido na hora na pior.

“Obrigada, Gourry!” agradeci antes de começar meu próximo encantamento.

No entanto foi então que notei algo. A hostilidade aguda que emanava do nosso oponente havia desaparecido repentinamente. O mazoku, porém, não havia desaparecido. Assim que a neve que caía baixou, pudemos vê-lo parado a certa distância. Entretanto não emanava mais nenhuma malícia.

Em vez disso, emanava... Incerteza?

“Lina... Gourry...” o mazoku sussurrou como se estivesse perturbado.

“Você reconheceu nossos nomes?” perguntei em tom desafiador.

É claro que nós dois já tínhamos lutado contra inúmeros mazokus, então não era irracional pensar que nossa reputação nos precedia entre os da espécie deles. Ainda assim, um mazoku puro como esse não parecia ser do tipo que se assustaria com boatos.

“Lina... Inverse. Gourry... Gabriev.”

Ok, sim. Ele definitivamente nos conhecia.

“Está bem interessado em nossos nomes, hein?” comentou Gourry.

E então, o mazoku saltou... Direto para trás, para longe de nós!

“Hã?”

Ignorando minha surpresa atônita, nosso oponente se virou, saltou para o telhado mais próximo e então pulou de telhado em telhado até desaparecer na neve que caía. Assim, sem mais nem menos.

Logo, pude ouvir o bater de asas acima de nós se afastando também.

Oooooooook... Então só acabou fugindo? E levou os demônios inferiores juntos?

“Isso foi muito impressionante, Lina.”

Depois que os todos se foram, Gourry embainhou a espada e pousou a mão no topo da minha cabeça.

“Pensei que fossem apenas bandidos... E agora até mazokus fogem ao ouvir seu nome!”

“Não é isso que está acontecendo aqui, droga!”

Wham! Meu gancho mortal derrubou Gourry no meio da neve.

———

A tensão na cidade era tão palpável que dava para cortar com uma faca. Estou vendo mais soldados agora, e as pessoas que iam e vinham pareciam exaustas. Claro, era compreensível. Fazia uns dez dias desde a noite em que testemunhei um demônio inferior se transformar em uma forma ainda mais distorcida do que o normal. Desde então, padrões climáticos estranhos e ataques de demônios a cidades e vilarejos só se tornaram mais frequentes.

“Diga, Lina...”

Gourry e eu estávamos caminhando pela avenida principal em busca de uma pousada para passar a noite quando ele falou.

“Você já sentiu algo parecido antes?”

“Sim!” admiti. “Um pouco antes do incidente em Dils, tudo tinha essa atmosfera.”

“Oh, eu me lembro daquilo.” disse Gourry, batendo o punho na palma da mão de forma despreocupada.

Sheesh... Sério? Durante o incidente, embora não tenha se revelado de fato, um mazoku de altíssimo nível... Dinasta Graushera, estava por trás de tudo. Na época, víamos hordas frequentes de demônios inferiores e de bronze atacando assentamentos humanos. Conseguimos resolver toda a situação, mas o medo que instilou ficou enraizado fundo na memória das pessoas, e esses incidentes estavam trazendo essas memórias à tona de novo. Será que a mesma coisa poderia estar acontecendo de novo?

Fiquei olhando ao redor da cidade e pensando a respeito quando... Soltei um pequeno suspiro de surpresa. Será...? Saí correndo.

“Hã? Ei, Lina!”

Ignorei Gourry e continuei correndo. Espiei um beco e... Ninguém?

“O que diabos aconteceu?” meu companheiro perguntou.

“Ah... Não é nada. Apenas um caso de identidade trocada.” respondi com desdém. “Achei que tinha visto alguém conhecido.”

“Hmm?” Gourry aceitou minha desculpa sem pensar muito.

Na verdade, devia ser uma ilusão de ótica. Muitas pessoas se pareciam, e só vi essa pessoa de relance, de costas.

“Bem, vamos encontrar aquela estalagem...” comecei, contudo fui interrompida no meio da frase por um grito distante que ecoou pela cidade.

Trocamos um breve olhar silencioso entre nós, e então... Olhei ao redor e vi um turbilhão de caos e gritos vindo em nossa direção pela avenida.

“Os demônios! Os demônios estão atacando!”

Pude ouvir vozes gritando em meio aos berros.

Saímos correndo em direção ao pandemônio. Abrimos caminho pela multidão que se apressava e fugia, que diminuía gradativamente à medida que nos aproximávamos da origem do caos. Continuamos até que, no meio da rua, encontramos...

O cadáver de um demônio?

Me perguntei se a guarda local o havia derrotado, no entanto não havia sinal de guardas caídos por perto. Demônios inferiores e de bronze eram na sua maioria bucha de canhão para mim e para Gourry, embora eram adversários temíveis contra espadachins e feiticeiros comuns. Sinto muito em dizer, entretanto não havia como a guarda da cidade derrotar um destes ilesa. Nesse caso, quem o matou devia ter sido...

“Lina! Está vindo!” o grito de Gourry interrompeu meus pensamentos.

Olhei para cima e vi cerca de quatro demônios voadores vindo em nossa direção. Gourry desembainhou sua espada e comecei a entoar um cântico.

“Graaah!” com o grito dos demônios inferiores, uma massa de raios de luz cintilou e se manifestou.

Ou, pelo menos, a massa estava prestes a se manifestar quando...

Bababababwoosh! Uma dúzia de esferas de luz apareceram do nada, atingiram os demônios no ar e os pulverizaram.

Aquele ataque...!

“Não é seguro aqui!” gritou o conjurador de trás de um prédio próximo antes de virar a esquina. “Vão para um lugar seguro...” ele começou, mas parou ao nos ver, a mim e a Gourry.

Ele nos reconheceu... E eu o reconheci também. Era um homem loiro bonito que parecia ter meia-idade, vestindo uma cota de malha de couro leve sobre suas roupas azuis. Porém essa não era sua verdadeira forma. Na verdade, sua origem vinha do Pico dos Dragões, perto das Montanhas Katart, onde os mazokus viviam. Seu nome era Milgazia, e era na verdade um ancião dragão dourado que às vezes usava magia de transformação para assumir forma humana como esta.

“Você não é...”

“Milgazia. É Milgazia. Me chame pelo meu nome, humano.” disse Milgazia, avançando tão rapidamente que não houve tempo para Gourry terminar o que estava prestes a dizer.

“Ah... Certo.” respondeu Gourry, envergonhado.

Hmm. Acho que ainda está ressentido por Gourry tê-lo chamado de lagarto gigante antes, mesmo que não tenha tido a intenção de ofender.

“Já faz um tempo, ou talvez não para vocês, humanos. Mesmo assim, parece que não precisavam da minha ajuda.”

“Mestre Milgazia! O que está fazendo aqui... Na verdade, agora não é hora para gentilezas! Vamos acabar com esses demônios!”

“Não se preocupe. Não estou sozinho aqui. Ela cuidará dos demônios inferiores.”

Espere, o quê...? Senti o sangue fugir do meu rosto quando ouvi aquilo.

“O que foi? Seu semblante ficou pálido.” perguntou Milgazia.

“Er, quando diz ‘ela’, quer dizer que está aqui com...”

Olhei para o lado e vi com meus próprios olhos. Fwee! Kabwoom! Uma luz branca e brilhante destruiu vários demônios... E os prédios ao redor.

Milgazia e eu ficamos ali em silêncio.

“Diga... Isto não é um problema?” sussurrou Gourry.

Milgazia não respondeu, e enquanto eu observava os feixes de luz indiscriminados disparando para todos os lados... Só senti cansaço.

Ahh, aquela elfa idiota está aprontando de novo, lamentei.

———

Os demônios inferiores foram derrotados num instante, no entanto os danos à cidade foram severos. Quanto à causa principal dos danos... Melhor nem perguntar, tá bom? Por favor!

“E por que temos que ir para outra cidade? Os cidadãos deveriam ser gratos pela nossa ajuda!”

“Quer fazer o favor de pegar a indireta?”

Wham! Sem hesitar, pensar duas vezes ou ter reservas, dei-lhe uma pancada na nuca com uma chinela. E quem era essa vítima, você pode se perguntar. Ninguém menos que uma linda loira de armadura branca... Uma elfa exigente, egoísta e insensível! Sim, era Memphys Rhinesword, que tínhamos conhecido antes através de Milgazia.

“Você estava lançando raios laser como se não houvesse amanhã! Causou mais danos à cidade do que os demônios em si! Não tinha como ficarmos por lá depois daquilo!”

Depois que derrotamos os demônios, eu, Gourry, Milgazia e Memphys... Ou melhor, Mephy... Saímos correndo da cidade rumo à cidade vizinha.

“Eu me certifiquei de que não havia humanos nos prédios antes de atirar!” ela rosnou.

“Isso não justifica destruí-los!” retruquei.

Er... Ok, talvez eu também faça algo parecido de vez em quando. Mas enfim!

“Desconsiderando qualquer gratidão que possam sentir por terem os salvado, pelo menos uma pessoa viria nos pedir restituição. Queria mesmo ficar por ali para fazer carpintaria, Mephy?” disparei.

“Er, acho que não...” murmurou a elfa. “A-Aliás, por que diabos está andando com uma chinela na mão? Humanos não fazem o menor sentido para mim.”

“Porque é conveniente as vezes!” declarei com total convicção.

Mephy congelou por um instante... Depois bateu palmas, trocou um olhar com Milgazia e disse.

“Entendo! É realmente muito conveniente, tio Milgazia.”

“Sim... Deveríamos experimentar também.”

“Humanos têm boas ideias de vez em quando.”

Hmm, por que está tão impressionada? Quer dizer, sei que não sou nenhum gênio, contudo... Dragões e elfos não fazem sentido. Mesmo assim, descartei o pensamento. Não queria perder muito tempo imaginando o que um dragão ou elfo acharia conveniente em um chinelo que se pode tirar quando quiser.

“Então, uh, deixando toda essa conversa de lado...” comecei, saindo do meu momento de reflexão sobre a estranha admiração dos dois pelos meus hábitos. “Se estão de volta ao território humano, quer dizer que os demônios estão surgindo de novo?”

“Sim!” respondeu Milgazia com uma expressão séria (é verdade, sua expressão era sempre séria). “Quando interrompemos o plano anterior de Dinasta Graushera, este alegou que as desovas em massa de demônios eram apenas parte de um frenesi alimentar, no entanto não tenho certeza se acredito em suas palavras sem alguma prova.”

“Quer dizer...”

Milgazia assentiu com firmeza.

“Ainda é possível que os demônios estejam buscando uma repetição da Guerra das Encarnações. De qualquer forma, só porque as desovas anormais não afetam diretamente os dragões e elfos não significa que podemos só ficar de braços cruzados e observar.”

“Fico feliz em ouvir isso. Entretanto as estranhas irregularidades no clima começaram a acontecer quase ao mesmo tempo em que essa nova onda de desovas começou. Acha que elas estão conectadas?”

“Para ser honesto, não sei dizer. Não consigo imaginar mazokus afetando o clima.”

“Quer dizer que eles não deveriam ter tanto poder assim?”

“Bem, quando o Dragão Chamejante Ceifeed lutou contra Olhos de Rubi Shabranigdu, dizem que metade do continente conhecido como Dragão Adormecido foi vaporizado. Pode ser apenas uma lenda, é claro, todavia um mazoku forte o suficiente com certeza teria o poder de afetar o clima em algumas partes... Porém exigiria um gasto de poder verdadeiramente massivo, e é difícil imaginar por que eles se dariam ao trabalho.”

“Entendo...”

“Isso me lembra, tio Milgazia. A cidade por onde passamos há dois dias estava excepcionalmente quente. Porém sem nenhum sinal de mazokus.” acrescentou Mephy.

“Estava quente?” me vi franzindo a testa. “A cidade em que Gourry e eu paramos há dez dias estava super fria.”

“Hã? Tem certeza de que você não é apenas sensível ao frio?”

“Claro que não! Estava tão frio que... Hmm... Se o fator de arrepio cômico de uma das piadas de Milgazia é de cerca de sessenta, então...”

“Espere um momento, humana!” protestou Milgazia, mas continuei.

“O frio lá era... Cerca de 2,7.”

“Uma casa decimal?”

“Espere! O que está insinuando, humana?”

“Não estou insinuando nada. Disse justo o que queria dizer!”

“O quê?” o ancião dragão dourado parecia abalado. “Está sugerindo... Que minhas piadas não são engraçadas?”

“Não diria que elas são sem graça em si... É mais como se fossem armas de destruição psicológica em massa. Ah, e só para constar, qualquer coisa abaixo de cinco na minha escala de fator de arrepio cômico indicaria letalidade para seres vivos.”

“Minhas piadas são letais? Argh...” Milgazia cerrou os punhos. “Então os dias em que eu era conhecido como ‘Mestre Mil Alegrias’ acabaram...”

Quando exatamente esses dias teriam sido...?

Enquanto Milgazia se afundava na depressão, Mephy segurou seus ombros.

“Isso não é verdade, tio Milgazia! Suas piadas são sempre muito engraçadas! Talvez elas sejam apenas sofisticadas demais para esses humanos grosseiros e suas vidas curtas! Só de lembrar da número dezoito, aquela sobre a galinha e a estrada...”

Nesse momento, ela caiu na gargalhada.

Desculpe interromper sua doce lembrança, mas consigo sentir o quão horrível essa piada é daqui! Acho que não entendo mesmo os dragões e elfos...

“Sim, tem razão! Eu tenho essa piada!” Milgazia pareceu se animar de novo (não me pergunte por quê) e apontou na minha direção. “Agora, escute, humana! Prepare-se para a melhor piada do meu repertório!”

“Espere um minuto, Mestre Milgazia! Saímos do assunto!” tentei, quase desesperada, voltar ao foco, imaginando que ouvir qualquer piada que Milgazia e Mephy declarassem ‘a melhor do seu repertório’ me transformaria em um vegetal. E nem pense em mencionar que provoquei isso! “Estávamos especulando sobre o que os mazokus estão procurando! Tem alguma ideia do que está acontecendo ou para onde devemos ir agora? Se não, estamos às cegas.”

“Verdade... Isto é um problema!” concordou Milgazia.

Sim! Desgraça evitada!

“É claro que algo está acontecendo.” prosseguiu. “E pode significar o envolvimento de um mazoku de alta patente, como aconteceu durante o incidente com o Dinasta Graushera. Contudo se eles estiverem escondendo sua presença, não haverá como detectá-la. Mephy e eu retornamos ao território humano para ajudar, no entanto nosso objetivo principal é descobrir a causa por trás de tudo.”

“Hmm, entendi. Entretanto não é como se pudéssemos só perguntar aos mazokus o que está acontecendo, e vagar sem rumo não vai nos ajudar muito.”

“Verdade. Todavia se não conseguirmos encontrar uma maneira de procurar por pistas...”

“Acho que só nos resta uma coisa a fazer!” exclamei.

“Ah, é? O que seria?” perguntou Milgazia.

Em resposta, declarei com ar de quem sabe das coisas.

“Esquecemos tudo e vivemos nossas vidas ao máximo!”

Mephy e Milgazia criticaram minha sugestão fabulosa.

“Qual é o seu problema?” ela gritou.

“Isto não vai resolver nada, humana!” disse ele categoricamente.

“Era uma piada... Embora na verdade não pareça haver muito mais que possamos fazer.” eu disse.

“De fato...”

“É verdade.”

“Ei, vamos lá! Sem problemas, pessoal.” essa voz alegre, interrompendo nossa sessão de reflexão intensa, veio do nosso único membro restante da equipe, Gourry.

“Como assim, ‘sem problemas’?”

“Olha quem está conosco. Os problemas vão nos encontrar mais cedo ou mais tarde. Sempre encontram.”

“Cala a boca! Pode até ter razão, mas não é algo para se orgulhar!” gritei com toda a minha alma, deixando meu grito ecoar pelas ruas vazias da cidade.

———

Não me interpretem mal, porém sou bastante experiente em emboscadas. Até mesmo de mazokus. Às vezes, em uma estrada abandonada, sinto uma aura hostil vinda do mato e percebo a presença deles. Ou estou em um quarto da minha pousada e sou despertada por uma sensação estranha bem a tempo de sentir alguém se aproximando da minha janela.

Contudo preciso dizer... Um mazoku simplesmente invadindo um restaurante lotado em plena luz do dia? Essa foi a primeira vez para mim.

Por um breve instante, ninguém deu muita importância. A porta se abriu com um tilintar, e a criatura entrou como se nada tivesse acontecido. Se tivesse que descrevê-la, era como uma árvore morta com formato humano. Se tivesse apenas buracos vazios onde deveriam estar seus olhos e boca, seria até caricata. Contudo, no lugar da boca, tinha um olho anormalmente grande e injetado de sangue que examinava o salão inquieto. A criatura entrou no restaurante como se fosse qualquer outro cliente e começou a olhar em volta como se fosse encontrar alguém.

Não tenho certeza de quem percebeu primeiro, no entanto... Por mais estranho que pareça, uma onda de silêncio se espalhou pela taverna barulhenta até que, por fim, o silêncio reinou.

Gourry e eu estávamos sentados em uma mesa no canto com Mephy e Milgazia. Estávamos no meio da refeição e congelamos por um segundo antes de percebermos o que estava acontecendo. O mazoku fez seu movimento uma fração de segundo antes que pudéssemos nos recuperar do choque e agir.

Wuuum! Seus braços, que pareciam galhos secos, rasgaram o ar. Os clientes mais próximos cambalearam para trás, cuspindo sangue enquanto desabavam.

Gritos se seguiram, preenchendo o restaurante na mesma hora. Os clientes, em pânico, corriam fora de controle de um lado para o outro sem um objetivo claro em mente. Gourry e eu nos aproximamos do mazoku através da multidão, embora o restaurante estava tão caótico que não podíamos usar ataques de longo alcance como magia por medo de ferir as pessoas. O que significava que essa luta seria com armas!

O mazoku percebeu Gourry um instante antes de ele alcançá-lo. Levantou um braço e seus dedos se alongaram, estendendo-se em sua direção! Claro, um ataque tão direto jamais funcionaria contra aquele grandalhão. Ele desviou dos dedos, cortando-os à medida que avançava. Seu oponente se aproximou e...

Slash! Um clarão prateado o cortou na diagonal.

“Cuidado, Gourry!” gritei. “Isso foi fácil demais!”

“Entendi!” respondeu Gourry, e então...

Os dedos do mazoku, que haviam perfurado o chão após serem cortados, começaram a inchar e se reconstituíram em outro mazoku-árvore morta.

Esse é o corpo principal dele, então?

Gourry sentiu e se virou para o mazoku reconstituído, mas, nesse instante, um mazoku idêntico cresceu das raízes do monstro caído!

Este é um híbrido como os mazokus Vermelho e Cinza que enfrentamos antes?

A multidão em pânico continuava a impedir que eu, Milgazia e Mephy nos posicionássemos para apoiar Gourry. Os dois mazokus idênticos transformaram seus dedos em flechas e as lançaram contra o grandalhão. Ele preparou sua espada para bloquear, e...

Fwoosh! Antes que pudesse brandir sua espada pelo ar, o enxame de virotes de madeira que se aproximava soltou um som como uma explosão, estourou e caiu inutilmente no chão.

“Isto... É...” O mazoku-árvore morta murmurou algumas palavras estranhas e se virou.

Bwuh! Voltei meu olhar na mesma direção e me vi recuando... Pois, no centro da multidão caótica, estava o mazoku de olhos de lesma que havíamos encontrado naquela cidade congelada.

Esse cara de novo? Quando foi que...? Claro, sua aparição aumentou o pânico. Porém se não notamos sua chegada, isso significa...

Diagnostiquei o motivo em seguida, não havia hostilidade emanando de sua direção. E, na verdade... Dada a reação do mazoku-árvore, o mazoku modelo anatômico poderia até ter sido quem interrompeu seu ataque.

Contudo por quê? Bah, penso a respeito depois! Por enquanto, primeiro os inimigos!

É claro que ainda havia pessoas gritando e correndo ao nosso redor.


Crack!

“Gwuh!”

Fwup!

“Hrrk!”

Smack!

“Geh!”

“O que está fazendo, garota humana?” Milgazia perguntou do outro lado da multidão.

“Golpes de nocaute!” me limitei a dizer. “Se as coisas não se acalmarem, preciso acalmá-las eu mesma... Mesmo que signifique usar um pouco de violência! Todos vão morrer se eu não fizer isso!”

“É verdade.”

“Não preciso da sua ajuda, Senhorita Dano Colateral!”

Não sei se ela não me ouviu ou só me ignorou, no entanto... Bwom! As asas brancas da armadura de Mephy se abriram explosivamente. Os clientes atingidos voaram pelos ares e caíram inconscientes.

“O que pensa que está fazendo, Senhorita Fogo Amigo?”

“A mesma coisa que você!”

“Não tem problema se eu fizer!”

“Não acho! Mais importante, agora teremos mais facilidade para nos locomover!”

“Justo!”

A garota tinha razão. O pânico havia diminuído após a ação exagerada da Mephy. Claro... As pessoas agora aglomeradas em um canto do restaurante estavam nos olhando como se fôssemos os vilões também. Entretanto tenho certeza de que era só a minha imaginação! (Com certeza!)

Agora que podíamos oferecer apoio, comecei a entoar um feitiço. Mas antes que pudesse terminá-lo, o mazoku-árvore morta mais atrás estendeu os dedos. Ele estava mirando... Não em Gourry, e sim no teto! Quando atingiu, usou o braço como um fulcro para girar, passar por Gourry e se reunir com o outro mazoku-árvore morta. Pés juntos e mãos dadas...

Creeeak...

Com um som como o de uma árvore se curvando ao vento, os dois mazokus se fundiram em seus corpos e se uniram outra vez em um instante. Então, sem hesitar, a criatura recém-formada girou e saiu correndo do restaurante. Depois de observar tudo, o mazoku com corpo de modelo anatômico afundou no chão e desapareceu.

“Tch!” Gourry resmungou e saiu voando pela porta. Eu o segui rapidamente.

Em momentos como esse, perseguir um mazoku poderia ser perigoso, todavia havia pessoas do lado de fora. A comoção poderia até ter atraído uma multidão. Se o mazoku corresse para lá, seria um banho de sangue.

Abri a porta e... Crash!

“Gweh!”

Dei de cara com Gourry, que havia parado do lado de fora. E, olha, bater com a cara na couraça de alguém? Que dor!

“Ei, Gourry! O que está...” comecei a reclamar. Então parei.

Como esperava, havia vários curiosos reunidos ao redor da pousada. Eles nos encaravam, a mim e a Gourry, seus olhares curiosos parecendo perguntar sem dizer nenhuma palavra o que diabos estava acontecendo lá dentro.

Em outras palavras... Nenhum deles tinha visto um mazoku saindo correndo do restaurante. Se tivessem visto, teriam entrado em pânico.

Quando parei para pensar, não houve nenhum sinal de pânico do lado de fora quando a criatura entrou no restaurante. E uma coisa assustadora como aquela andando como se fosse cotidiano pela rua principal certamente teria causado um alvoroço. Isso sugeria que tinha aparecido na própria porta... E desaparecido da mesma forma. Resumindo, apenas se teletransportou.

“Hum... Er...” Gourry, que não tinha entendido a situação, falou de forma meio desajeitada. “Diga... Um cara que parecia uma árvore morta saiu daqui?”

Essa pergunta que parecia ridícula foi recebida com silêncio.

Qual é, cara. Pense um pouco, ok? Desse jeito vai parecer meio maluco para qualquer um que não saiba sobre mazokus, ok?

“Hum, vocês viram alguém suspeito sair antes de nós?” eu me intrometi, tentando a façanha impossível de encobrir a estupidez de Gourry.

“A única pessoa suspeita aqui é aquele cara...”

Essa palavra-chave da minha pergunta lançou os curiosos em todo tipo de especulação.

“Por que está carregando uma espada?”

“O que aconteceu lá dentro? Uma briga? Um roubo?”

“Como sabemos que você não começou a briga?”

“Já está resolvido!” gritei, abafando a conversa da multidão boquiaberta. Eles se calaram por um momento, e aproveitei a oportunidade para observar o grupo enquanto continuava. “É claro que duvido que acreditem em qualquer coisa que estranhos armados com espadas tenham a dizer, mas podem obter os detalhes com o dono da loja mais tarde.”

Aceitando o que falei ou perdendo o interesse, a multidão começou a se dispersar enquanto as pessoas voltavam aos seus afazeres. Contudo...

“?”

Na periferia da multidão, vislumbrei cabelos castanhos. Sua dona parou por um instante... E olhou por cima da ombreira para mim. Vi apenas seu perfil, e realmente apenas por um instante. Com mais um farfalhar de seus longos cabelos, ela desapareceu na multidão.

Antes que me desse conta, me peguei repetindo.

“Lei Asa!” usando um feitiço de voo amplificado em alta velocidade, sobrevoei os outros curiosos.

Dei uma rápida examinada na área e a avistei a alguma distância. Assim que comecei a me aproximar, ela virou a esquina e desapareceu em um beco. Cheguei um instante depois e olhei para o beco... Havia pessoas lá, no entanto não a pessoa que eu procurava.

“Ei, Lina!” senti uma mão no meu ombro. Era Gourry, que acabara de me alcançar. “O que houve?”

“Vi um rosto familiar.”

“Hmm... Acho que já tivemos essa conversa antes...”

“Tivemos!” admiti.

“Então seu conhecido ainda deve estar por perto, certo? Vamos procurá-lo juntos. Como é sua aparência?”

“Uma linda garota de uns dezoito ou dezenove anos. Um pouco baixa. Cabelo castanho comprido. Usando uma bandana preta, ombreiras e uma capa de feiticeiro.”

“Então é meio parecida com você? Tirando as partes ‘linda’ e ‘um pouco baixa’, quero dizer.”

“Não!” respondi, prontamente, enquanto dava um chute em Gourry para garantir. “Ela não se parece um pouco comigo. É exatamente igual a mim.”


***

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