Capítulo 65: Um encontro em uma terra distante, sob um céu estrangeiro
“Você já vai embora?” Rubia, parada à porta da pequena floricultura, parecia contrariada.
Não fazia muito tempo que Xellos havia desaparecido.
“Bem, parece que nos metemos em outra bela enrascada.” eu disse sem jeito, coçando a nuca. “Não consigo nem imaginar o que está acontecendo... Mas se ficarmos aqui, só vamos te causar problemas.”
“Não é problema nenhum, na verdade...”
“Além disso, se algo acontecer com a estufa, duvido que consigamos alguém para consertá-la. E não vou permitir tal coisa!” cerrei o punho com força. “Não vou deixar que ela seja destruída! Aquela estufa é o ápice da civilização humana!”
“Eu... Não sei se iria tão longe, porém...”
“A questão é que temos negócios em outros lugares e qualquer atraso em resolvê-los só vai piorar as coisas para todos. Contudo fico feliz por termos conseguido te ver, Rubia. Fico feliz em vê-la tão bem.”
Rubia desviou o olhar ligeiramente quando falei isso.
“Dificilmente...” ela soltou um pequeno suspiro. “Fiquei emocionada em ver todos vocês depois de tanto tempo, no entanto vocês sabem... O que eu passei... Não é algo que posso esquecer.”
Ahh, aquele olhar em seus olhos... Era um profundo cansaço.
“Mas vou me virar de alguma forma.” Rubia se virou para mim com um sorriso para disfarçar sua tristeza. “Cuide-se em sua viagem, então. Espero que volte para me visitar se puder.”
Com essa deixa, Rubia fez uma pequena reverência.
Seus olhos marejados naquele momento me causaram uma forte impressão.
Sabia a origem de sua melancolia. O feiticeiro a quem servira outrora entrara numa onda de assassinatos, e Rubia fora forçada a matá-lo com as próprias mãos. Que emoções ainda persistiam em seu coração por causa do incidente? Não era difícil adivinhar. Ser forçada a tirar a vida de alguém daquela maneira... Como a própria disse, não era algo que esqueceria um dia.
Na verdade, não conseguia nem começar a imaginar o que estava sentindo. Entretanto, independentemente disso, ela escolhera viver e continuar caminhando em direção ao amanhã. Pelo menos, era nisso que eu queria acreditar.
“Tem alguma coisa te incomodando?” perguntou Mephy, me observando de lado.
“Oh, hmm... Só estou tentando descobrir onde jantar e onde ficar esta noite.” menti.
Tínhamos acabado de sair da casa da Rubia e voltado para a avenida principal da cidade.
“Hmm...” Mephy concordou de um jeito displicente.
“Bem, tenho certeza de que ela ficará bem. Embora não vá me atrever a perguntar o que aconteceu.”
“Do que está falando?” perguntei.
“Ah, sim, claro. Onde ficar esta noite.” Mephy respondeu, fingindo-se de desentendida.
Droga... Ela mostra um bom instinto de vez em quando.
“Bem, estamos meio que entre a cruz e a espada nesse aspecto.” continuou Mephy, lançando um olhar para o sol do final da tarde.
De fato, estava baixo demais no céu para chegarmos à próxima vila ou cidade antes do anoitecer, mas também era cedo demais para encontrar uma pousada e dormir um pouco. Estávamos mesmo entre a cruz e a espada. Em outras condições, ficaríamos perambulando pela cidade em momentos como esse, só que como tínhamos acabado de ser vítimas de uma emboscada, e não estou a fim de convidar outra para a porta de alguém.
“Teremos que deixar essa pergunta para depois.” disse Milgazia.
Percebi então que ele havia parado abruptamente. Gourry também. Nós duas nos viramos para seguir seus olhares.
“Hã?” ela comentou, enquanto eu engasgava com o que via. Lá, no final da rua... Que estava ainda mais deserta agora do que naquela manhã... Havia um jovem magro com um rosto comum e um olhar discreto.
Bradu? Maldição! Pensei que tivesse fugido!
E no meio tempo em que pensava... Thwum! Meu corpo estremeceu. Meus músculos amoleceram.
Será que isso... É aquele ataque desconhecido de antes? Vi alguns outros transeuntes se contorcerem e desmaiarem.
Vvvvvmmm! A armadura de Mephy zumbiu, ganhando vida. Minha força retornou. E então...
“Hraaah!” Milgazia uivou! O raio que ele disparou percorreu uma direção aparentemente aleatória, sacudindo as pontas dos galhos das árvores ao longo da estrada até que...
Skreee! Um grito estranho ecoou ao nosso redor, e o inseto cerebral se revelou... Ou melhor, desabou da vegetação próxima. Havia um grande buraco em seu cérebro central, presumo que causado pelo raio de Milgazia. Suas pernas continuaram a se debater no ar por um tempo, antes de enfim pararem de vez, e todo o seu corpo desmoronou como um castelo de areia seca.
Os transeuntes não deviam ter ideia do que estava acontecendo, contudo era óbvio que havia problemas. Eles saíram correndo e gritando. Isto nos deixou sozinhos com Bradu... Embora aposto que o mazoku-árvore morta não estava longe.
“Isso foi inútil!” disse Milgazia, com os olhos fixos em Bradu, que permanecia impassível. “Aquele mazoku esfregou as pernas para produzir vibrações sonoras que os ouvidos humanos não conseguem perceber. Os humanos jamais seriam capazes de identificar a fonte, no entanto Mephy e eu conseguimos com facilidade.”
Claro... Então essa era a habilidade do inseto cerebral. Mephy percebeu e fez sua armadura vibrar em uma frequência diferente para abafar o som.
Uma vez que sabe o truque, é fácil de neutralizar. Entretanto como o som era totalmente inaudível para os humanos, não tínhamos a menor chance de detê-lo sozinhos. Era perfeito para lutar contra nós... E não sei o que teríamos feito sem a ajuda de Milgazia e Mephy.
“Por favor. Não me afeta em nada.” Bradu apenas acenou com a mão, indiferente. “Assim que percebi que eles tinham um dragão e uma elfa junto, considerei Vaidaz inútil de qualquer forma. Quer dizer, valia a pena tentar, todavia o fracasso era esperado. E já que não tinha mais nada a contribuir, não há nenhuma perda real em sacrificá-lo para declarar minhas intenções hostis, não é?”
“Pensei que ele fosse seu querido companheiro.” disparei.
“Ah, sim... Era!” respondeu Bradu em tom de brincadeira. “E quando um querido companheiro é morto, a gente canaliza a tristeza e a raiva em uma busca por vingança... Vocês humanos adoram esse tipo de história, não é?”
“Prefiro confrontos unilaterais entre vilões de segunda categoria que matam seus próprios companheiros. Esses sim me empolgam.”
“Que pena. Parece que temos gostos diferentes. Mas preciso corrigir um ponto... Do meu ponto de vista, eu sou a estrela deste show. Vocês são os vilões.”
“Nesse caso, você é um protagonista bem patético. Quem foi que deu meia-volta e fugiu só porque o Xellos sorriu?”
“Sim, é verdade... Considerem essa nossa revanche. Embora reconheço que ainda é um pouco cedo para uma.”
“E seu ‘companheiro’ morreu dois segundos depois. Se você é o herói desta história, parece que está buscando um final trágico.”
“Estou? Não vejo dessa forma. Talvez devêssemos colocar nossas alegações à prova?”
“Não há muito mais o que fazer, não é?”
“Claro.”
No momento em que Bradu respondeu... Crash! As lajes da estrada explodiram e o mazoku-árvore morta irrompeu. Correção! Na verdade, foram três!
“Receio que também conheçamos o truque deles!” Milgazia uivou e disparou três feixes de luz, cada um destes avançando em direção a um mazoku-árvore diferente.
“Acha que pode vencer só porque conhece o truque?” Bradu sorriu zombeteiramente e conjurou uma bala de luz.
Ker-psh! Um dos feixes de Milgazia se estilhaçou no ar. E então... Blam! Os três mazokus-árvore explodiram no mesmo instante!
“Eu acho que sim!” disse Mephy com confiança.
Enquanto Bradu estava concentrado no ataque de Milgazia, Mephy disparou um feixe em uma trajetória diferente, atravessando as três árvores ao mesmo tempo. Contudo...
“Tem tanta certeza?” perguntou Bradu, com um tom de deboche.
Com um grito de surpresa, saltamos para longe de onde estávamos. Lanças de madeira, semelhantes às que haviam ceifado a vida do mazoku musculoso antes, perfuraram as lajes... E se transformaram em quatro mazokus-árvore morta!
Espere, tem mais?
“Viu?” provocou Bradu.
Enquanto nos dispersávamos, cada um dos quatro nos perseguiu individualmente. Desviei das flechas de madeira enquanto murmurava um encantamento. Milgazia uivou e Mephy desdobrou sua armadura. A espada de Gourry reluziu e...
Roarrr! Três das quatro árvores foram derrubadas quase instantaneamente! No entanto eu não havia terminado meu feitiço rápido o suficiente para derrubar a minha! O mazoku-árvore restante disparou suas flechas de madeira em direções aleatórias, produzindo em seguida mais três de sua espécie.
“Com licença! O que acha que está fazendo?” Mephy reclamou.
Cale a boca! Você sabe que humanos levam tempo para recitar feitiços! Consegui terminar meu encantamento, escolhi o momento certo e...
“Lança Elemekia!”
Vwoosh! Lancei meu feitiço no mazoku-árvore morta à minha frente. Milgazia e Mephy também lançaram seus raios. Gourry também brandiu sua espada.
“Não, que pena.” Bradu disparou sem cerimônia uma bala de luz que interceptou o raio de Mephy no ar. O resultado? Derrotamos três e, mais uma vez, o sobrevivente disparou flechas de madeira para se propagar.
Droga. Esses caras não são difíceis sozinhos, mas...
Considerando a forma como derrotaram o mazoku musculoso, era claro que os mazokus-árvore sabiam como dar um soco, porém tinham defesas escassas e padrões de ataque simples. Sendo franca, eram bem fracos para o padrão de mazokus puros. O problema era que continuavam se regenerando. Eram apenas quatro, contudo não importava quantos derrotássemos, continuavam surgindo como brotos de bambu...
Espere... Espere um minuto!
Enquanto desviava de mais um ataque simples de um dos mazokus-árvore, recitei o encantamento de amplificação dos talismãs de Sangue de Demônio. Então, murmurei...
“Zellas Bullid!”
O feixe de luz que produzi disparou em direção ao mazoku-árvore morta bem à minha frente. No entanto, pouco antes de atingi-lo... O feixe mudou de direção, almejando Bradu, que estava assistindo!
“Brincadeira de criança!” Bradu saltou para o lado. Minha luz o perseguiu, todavia um quinto mazoku-árvore morta apareceu para interceptá-lo. Smash! Não houve tempo para o feixe mudar de direção, então este se chocou contra o quinto mazoku e destruiu ambos.
“Era para ser um ataque surpresa?” Bradu gritou em tom de deboche.
Meu tom, por sua vez, era triunfante.
“Não, aquilo foi um experimento! Escutem, pessoal! Essas coisas são todas uma extensão do Bradu! Se o derrotarmos, elas vão virar pó!”
“O quê?” Bradu exclamou, chocado.
É isso aí. Eu sabia! O fato de o mazoku-árvore morta ter aparecido sozinho inicialmente me levou a crer que era uma entidade independente, entretanto era só parte da armadilha.
A princípio, pensei que os mazokus-árvore morta tivessem a mesma relação que o mazoku Vermelho/Cinza que enfrentamos há um tempo, mas foi um engano meu. Bradu e os mazokus parecidos com árvore eram mais como a General Sherra e a espada mágica Dulgoffa... Em outras palavras, um mestre e sua extensão. Indivíduos unidos, embora separados. Os mazokus-árvore morta continuariam a se regenerar enquanto Bradu estivesse vivo, e quando ele morresse, eles também morreriam.
Observando a maneira como eles continuavam a surgir, me ocorreu que eram muito parecidos com bambu... Isto é, um organismo central com raízes que se espalhavam e brotavam acima do solo. Contudo se fosse esse o caso, onde estava o núcleo?
A resposta era simples: bem diante dos meus olhos.
Bradu havia nomeado o mazoku de osso e o mazoku inseto cerebral. Até os chamou de seus preciosos companheiros. No entanto não o fez com o mazoku-árvore morta. Por quê? Seria porque eram apenas uma mera extensão de si mesmo? Essa foi minha conjectura.
E então havia Xellos. Quando o Sacerdote se dirigiu a Bradu pela primeira vez, ele intencionalmente colocou a mão em um mazoku-árvore morta. Talvez aquilo tenha sido uma declaração: ‘Seus truques não funcionarão comigo’. A conexão de Bradu com os outros também explicaria sua capacidade de se reconstituir de maneira indiscriminada. Talvez protegê-los fosse um blefe para nos dar uma impressão errada.
“Entendo! Confio em você, humana!” Milgazia produziu uma dúzia... Não, dezenas de bolas de luz que dispararam em direção a Bradu.
“Guh!” a forma de Bradu cintilou enquanto ameaçava desaparecer no ar.
Vwummmm! A armadura de Mephy então ressoou como asas zumbindo, ancorando Bradu ao nosso mundo. E por fim...
Ka-kroosh!
Um acerto! Quando as incontáveis esferas de Milgazia explodiram, tudo o que podíamos ver eram os mazokus-árvore... As extensões de Bradu... Em uma massa queimada, retorcida e entrelaçada.
Entendo. Então esta os usando tanto como espadas quanto como escudos.
Foi nesse momento que Gourry atacou. Krrshashashashah! Sua espada cortou o ar num turbilhão, e logo depois saltou para trás. E bem quando o ‘escudo’ em pedaços estava prestes a se despedaçar...
“Dynast Blas!”
Crackle-crackapop! Lancei um raio mágico direto nele!
“Graaah!” Bradu gritou quando sua fortificação de madeira explodiu, revelando-o mais uma vez. Ele parecia ter passado pelo inferno... Todavia ainda não estava liquidado!
Milgazia rugiu, conjurando uma luz azul pálida em sua mão.
“E-Espere!” Bradu implorou.
É, como se alguém fosse fazer isso.
“Você sabe o que está acontecendo em Sairaag? O que estão tramando lá?”
Ok, tudo bem, sua fala fez Milgazia parar para pensar. Quer dizer, tenho que admitir que estávamos bem curiosos a respeito...
“Sério, não precisa contar para eles.” disse uma nova voz.
Bradu engasgou, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa... Bwoosh! Uma broca negra apareceu do nada e o cortou ao meio na altura da cintura.
“Aquilo é...!” Milgazia exclamou, no exato momento em que o corpo de Bradu se transformou em cinzas brancas e começou a se espalhar ao vento. Um instante depois, os fragmentos de seu escudo e suas ‘extensões’ restantes tiveram o mesmo destino.
A essa altura, a broca negra que havia destruído Bradu já tinha desaparecida.
“Ceeeerto, imaginei que você ainda estivesse por perto... Xellos.”
“Oh? Vejo que não parece surpresa, Srta. Lina.”
Conseguia ouvi-lo, porém ele não apareceu. Sua voz parecia vir de todos os lados. Já tinha visto aquelas brocas pretas antes. Elas devem fazer parte da verdadeira forma de Xellos.
“Não estou. Antes, te ouvi dizer que era neutro nesse assunto, certo? Contudo, te conhecendo, não significa que não vai interferir. Significa apenas que está feliz em observar de fora, como um terceiro desinteressado.”
“Uma interpretação muito precisa.” respondeu o sacerdote com uma careta audível.
“Você disse que interferiu antes porque não queria perder mais mazokus. No entanto suspeito que esteja ainda menos ansioso para ver seus grandes planos irem por água abaixo. Sendo assim, mascarou sua presença e ficou por perto. Se Bradu recuasse ou se nós conseguíssemos matá-lo, tudo bem. Todavia no momento em que desse qualquer sinal de que ia revelar o jogo... Essa era a sua contingência, certo?”
“Instintos excelentes, Srta. Lina. Verdadeiramente excelentes!” disse Xellos com satisfação.
Sempre que esse cara se envolve, já dá pra saber que tem coisa ruim vindo por aí...
“De qualquer forma, a ‘estrela’ de segunda categoria está resolvida e, portanto, meus negócios aqui estão concluídos. Srta. Lina, Mestre Gourry... Desejo a ambos uma boa viagem para Sairaag.”
“Espere! Xellos!” gritei rapidamente, mas meu chamado não foi atendido.
———
As coisas correram bem depois disso. Obviamente, os ataques de demônios ainda estavam acontecendo pelo mundo e tivemos que enfrentar alguns demônios errantes na estrada. Encontramos até um mazoku puro de vez em quando, mas Milgazia cuidou de todos sem maiores problemas. Então, sim, para a maioria das pessoas, nossa viagem foi turbulenta. Embora, comparado a ser perseguidos por um mazoku do calibre de Bradu, foi quase um passeio no parque para nós. A questão é que não houve incidentes graves depois que saímos de Atlas.
Também não tínhamos visto Xellos desde que partimos. Conhecendo-o, é provável que não apareceria de novo (contanto que outro idiota como Bradu não ameaçasse revelar os segredos demoníacos). Também não tínhamos avistado meu doppelganger... Que presumo se tratar de algum outro mazoku disfarçado... Desde que partimos. No geral, podia-se dizer que a jornada estava indo bem, porém não havia como garantir que nossa boa sorte duraria. Afinal, estávamos quase chegando a Sairaag.
Estávamos caminhando por uma estrada arborizada na floresta ao redor da Cidade de Sairaag, antes conhecida como Floresta do Miasma. Éramos as únicas pessoas por perto.
“Cuidado, humanos.” sussurrou Milgazia de repente, com uma tensão palpável na voz.
O miasma que antes pairava na floresta havia desaparecido há muito tempo, contudo uma sensação diferente e curiosa pairava sobre o lugar agora. Não parecia uma emboscada iminente. Não sei como explicar. Não era exatamente desagradável ou desconfortável. Era apenas uma sensação de... Algo denso no ar. O que era, não sei dizer. Era a melhor descrição que conseguia dar. Porém os sentidos sobre-humanos de Milgazia... Ou melhor, seu instinto extraordinário... Pareciam ter descoberto a causa.
“A atmosfera está muito estranha... Você sabe por quê?” perguntei.
“Não sei.” sua resposta foi seca.
Bem, acho que é isso!
“Não sei, contudo algo está errado. E como não consigo identificar o quê, é motivo para que fique em alerta.”
“Certo, no entanto... É um pouco difícil ficar em alerta contra o desconhecido.”
“Só quero dizer para ficar esperta.”
“Já faço isso no dia a dia, obrigada.”
Sem ofensa, entretanto quão estúpido você teria que ser para baixar a guarda numa situação como essa? Ainda não sei por que os mazokus nos chamaram para Sairaag, todavia era óbvio que não era para biscoitos, bolo e uma boa refeição. Além do mais, embora não estivéssemos na cidade, sem dúvida estávamos perto agora. A ‘recepção’ poderia acontecer a qualquer momento.
“Tem alguém aqui.” anunciou Gourry enquanto Milgazia e eu conversávamos.
Olhamos curiosamente na direção para onde ele estava olhando e não vimos ninguém na estrada sinuosa e arborizada. Não demorou muito, porém, para que duas figuras... Antes ocultas pela floresta, surgissem à vista.
No instante em que as vimos, congelamos.
As duas figuras apenas ficaram ali, observando. Estavam nos esperando, sem dúvida.
Ambas eram mulheres que aparentavam ter cerca de vinte anos. Uma era alta, com cabelos loiros curtos que brilhavam como o sol. Seu olhar não demonstrava hostilidade, e se vestia como uma viajante comum. Não parecia portar armas ou armadura, mas tinha um ar sempre pronto para a ação. A outra mulher era mais delicada, com longos cabelos negros e ondulados. Usava um vestido azul feito de um tecido inegavelmente de alta qualidade, além de vários acessórios extravagantes, embora discretos.
Ao contrário da loira, a mulher de cabelos escuros não parecia nada com uma viajante. Qualquer pessoa na estrada com aquela roupa estava pedindo para ser atacada por bandidos. E ainda que tivesse a sorte de evitar tal destino, a barra daquele vestido bonito e elegante estaria em farrapos de tanto raspar na estrada em menos de dois dias.
“Estávamos esperando por vocês.” disse a mulher de cabelos negros em voz baixa. Não havia agressividade nem qualquer traço de gentileza em sua voz. Era uma saudação bastante profissional.
“Quem são vocês? Bem... Acho que não preciso perguntar.” respondi, sorrindo ironicamente para minha própria pergunta.
Em aparência e presença, ambas as mulheres pareciam humanas. Mas, depois de sermos convidados por mazokus, não precisávamos nos esforçar muito para adivinhar a verdadeira natureza de nossa pequena comitiva de boas-vindas.
“Quem são elas?” perguntou Gourry ao meu lado.
Vamos lá, cara, use esse seu cérebro... Na verdade, deixa pra lá. Conhecendo Gourry, é provável que diria que pensou sobre isso e ainda não conseguiu chegar a uma conclusão.
“Pense em nós como recepcionistas.” disse a mulher de cabelos negros, não consegui discernir se estava se dirigindo a mim ou a Gourry.
Recepcionistas? Não era exatamente a resposta que esperava...
“Lamento ter de dizê-lo depois de terem vindo de tão longe, porém precisaremos que o estimado senhor dos dragões e a estimada elfa permaneçam aqui.” disse a loira em um tom estranhamente formal.
Wow. É fácil identificar Mephy, contudo o fato de essas mulheres conseguirem perceber à primeira vista que Milgazia era um dragão dourado transformado... Também conhecido como senhor dos dragões... Elas devem ser muito poderosas, mesmo para mazokus.
“O convite é apenas para a estimada Lina Inverse e Gourry Gabriev.”
Heh... Dei uma risadinha.
“Desculpe, no entanto vocês acham mesmo que vamos concordar em nos separar? Por que o faríamos?”
“Vocês dois são os únicos dois convidados. Se o estimado senhor dragão e a elfa apenas esperarem em silêncio, nenhum mal lhes acontecerá.”
“Com mais razão ainda...”
“Elas não vão ouvir!” disse Mephy enquanto ela e Milgazia davam um passo à frente, colocando-se entre nós e as duas damas, numa postura protetora.
“Nenhum mal nos acontecerá, hmm? Isso sugere que algum mal acontecerá aos dois humanos.”
“Não sei o que poderia ter contra esses humanos, entretanto receio que não possamos permitir que eles aceitem seu convite.”
Ei, que ênfase é essa? Sério, Mephy! Está conseguindo ser mais grosseira do que a loira me chamando de “muito estimada”. Vadia.
“Hmm...” a loira pareceu um pouco preocupada. “Receio não poder dizer mais nada.”
Em contraste, a mulher de cabelos escuros parecia estar se divertindo.
“Deveríamos ter feito isso desde o início.” ela disse, estalando os dedos brancos como porcelana. De repente, Milgazia e Mephy se afastaram bruscamente. Não, não foram só os dois... Os dois mazokus, e até mesmo a paisagem ao nosso redor, pareciam se distanciar em instantes.
“O quê?” Gourry gritou surpreso ao meu lado.
Ele e eu permanecemos à mesma distância um do outro. E, claro, não era como se tivéssemos começado a correr para trás de repente ou algo assim. Era uma situação estranha... Mas tinha uma vaga ideia do que estava acontecendo.
“Interferência dimensional?” ouvi Milgazia ofegar. Sua voz parecia estar perto, apesar de sua figura estar ficando cada vez mais distante.
De fato, já havia experimentado uma situação semelhante uma vez, enquanto ajudava a resolver um drama familiar em Saillune. Não foi tão dramático, todavia de repente me senti muito longe da pessoa à minha frente e não conseguia alcançá-la, não importava o quão rápido corresse. Era como algo saído de um sonho. Então, no instante seguinte, fui arremessada para outra dimensão... Um lugar que não era lugar nenhum em particular.
Era o mesmo fenômeno em ação. Gourry continuou correndo na tentativa de se reunir com os outros, enquanto permaneci parada. Ainda assim, nós dois continuamos lado a lado.
“Não vou deixar que escapem impunes!” consegui ver a armadura de Mephy à distância se abrir em seis asas brancas. Vrmmmmm! Um som como o zumbido de insetos ecoou baixo ao nosso redor.
Então Milgazia falou... Não, uivou em um encantamento desumano. O movimento da paisagem ao nosso redor diminuiu. Porém foi só isso. Eles estavam apenas se afastando devagar de nós agora, embora o ímpeto da situação não havia se revertido.
“O-O quê?” Milgazia gemeu em choque.
Só então a realidade da situação me atingiu. A mulher de cabelos escuros estava tentando usar interferência dimensional para arrastar a mim e a Gourry para outra dimensão, e Milgazia e Mephy tentaram impedi-la.
Dimensões de bolso criadas à força não eram muito estáveis. Quando fui arrastado para uma em Saillune, escapei invocando um pombo. Contanto que consiga criar a menor conexão possível com o mundo de onde veio, poderá se desfazer da dimensão como uma bolha de sabão e retornar.
Contudo nem mesmo Milgazia, com seu equipamento que aprimorava magia, nem Mephy, com sua Armadura Zenafa criada por dragões e elfos, conseguiram romper o que deveria ser uma parede dimensional altamente instável.
Pior ainda, a julgar pelo comportamento dos dois mazokus, apenas a mulher de cabelos negros estava usando algum poder. A loira apenas a observava, parecendo um pouco irritada.
“Isto foi muito imprudente. Só para lembrar, aliás: não machuque o dragão nem a elfa.” disse ela.
“Oh, é verdade. Essas foram as nossas ordens.”
Ainda conseguia ouvir as vozes das duas mulheres.
“Nesse caso é melhor eu terminar o serviço...”
Então, de repente e sem cerimônia, todo o som cessou. O céu acima de nós se abriu em imensidão. O verde da floresta se tornou distante. O chão sob nossos pés se alargou em poucos instantes.
Nós dois estávamos em uma planície extensa e sem características marcantes.
“O quê?” Gourry deu alguns passos e parou. Ele estivera correndo o tempo todo, entretanto só agora fizera algum movimento concreto para a frente. “O que é tudo isso?” perguntou, chocado e confuso. “Não existe lugar assim, nem mesmo em Elemekia!”
Tinha razão. Não havia montanhas ao nosso redor, muito menos florestas ou cidades. Não era um deserto, válido dizer também. Apenas uma planície. Não havia um único fio de grama crescendo ali e nenhum sinal de vida à vista. Olhei para cima e vi apenas o céu azul sem nuvens. O ar ao nosso redor estava impregnado com uma versão mais concentrada daquela estranha sensação que senti pairando sobre a floresta.
Mesmo sabendo que era improvável que funcionasse, decidi tentar invocar uma pomba. E, como esperado, ela apenas voou para o céu vazio acima de mim. É, imaginei que não daria certo. O que sugeria que quem quer que tenha criado esta dimensão era muito mais poderoso do que o conspirador em Saillune. Ou então, haviam encontrado alguma maneira de estabilizar o espaço.
“O que está fazendo, Lina? Não é hora de invocar pombas! Debata-se! Entre em pânico! Onde diabos estamos?”
“Calma, Gourry. Estamos em outra dimensão.”
“Outra dimensão?” Gourry gritou e olhou ao redor outra vez. “Onde?”
“Bem, é...”
“Vocês ainda estão em Sairaag.” respondeu uma voz ao meu lado.
Nós dois nos viramos surpresos. Onde não sentia presença alguma, estava uma figura carmesim. Além da cor, sua capa e capuz lembravam a figura da Morte, e usava uma máscara branca onde deveria estar seu rosto. A máscara não tinha nariz nem boca, e no lugar dos olhos... Havia dois rubis brilhantes.
Não me diga... Senti gotas de suor se formando na minha testa.
“Mas, embora Sairaag esteja localizado aqui, estamos em outro mundo, separados por uma barreira finíssima. Um mundo temporário que criei para este propósito.”
Não me diga... Você é... Tentei dizer as palavras, porém elas congelaram na minha garganta. Eu não queria confirmação.
Não consegui detectar nenhuma presença da figura vermelha. Veja, não é como se estivesse escondendo nada, apenas se misturava naturalmente ao ar incomum ao nosso redor.
“Este é... Um mundo repleto de poder mágico. A magia é um poder que, fundamentalmente, não deveria existir em seu mundo. Contudo, assim como este mundo é separado do seu por uma tênue barreira, a barreira entre ele e outros mundos também é bastante fina. Assim, a magia permeia o ar. Talvez já a tenha sentido antes... O poder mágico que emana deste mundo.”
Entendo... Então a estranheza que senti era poder mágico concentrado.
O ceifador vermelho continuou.
“Neste mundo, mulher, sua lâmina do vazio não se extinguirá em poucos instantes. Não precisará entoar feitiços, pois poderá ativá-los através da pura força de vontade e palavras de poder. E você aí, homem. Essa sua espada canaliza a energia mágica próxima para aprimorar seu fio. Aqui, ela deve ser capaz de me ferir. Em outras palavras... Agora tem o poder de me derrotar.”
“O quê... O que diabos você quer?” Gourry exigiu.
“Isto é um ritual!” proclamou a figura vermelha, abrindo os braços e revelando vestes carmesim profundas sob sua capa. “Vocês se lembram do que os disse quando os dois me derrotaram uma vez?”
Eu sabia! Ouvi um rangido. Percebi que eram meus próprios dentes.
“Disse que nunca mais nos encontraríamos! No entanto parece que a era em que vocês vivem achou por bem orquestrar nosso reencontro! E assim, devo derrotá-los... Como meu primeiro passo para transformar o mundo em vazio! Teria sido fácil apenas matá-los, entretanto não teria significado. Quando eu os derrotar, aqueles que têm o poder de me matar... Então, e somente então, minha autoridade será consumada como o rei que destruirá um mundo. É por essa razão que os convidei para esta terra, para este lugar. O miasma residual da antiga besta mágica, a maldade do Mestre do Inferno e as distorções deixadas pela Mãe Dourada... Usei tudo isso para criar este mundo.”
“Entendo...” consegui dizer, enfim conseguindo falar desta vez. “Mas tudo isso parece muito insignificante para o suposto rei dos mazokus.”
“É porque sou o rei que esse ritual é importante.”
Suavemente, a figura vermelha deu um passo à frente. Gourry e eu, por reflexo, demos um passo para trás.
“Não quero participar desse ritual. Não vejo nenhuma vantagem para nós.” falei.
“E, mesmo assim, devem participar.”
Pouco a pouco... Lentamente, embora com certeza, uma mão negra surgiu debaixo de seu manto vermelho. Ela segurava algo parecido com um bastão.
“Há uma vantagem para vocês. Este mundo, que criei e mantenho... Se me destruírem, ele se desintegrará e os devolverá de onde vieram. Claro, só acontecerá se conseguirem me derrotar... Olhos de Rubi Shabranigdu.”
Olhos de Rubi Shabranigdu...
O Lorde das Trevas que, em tempos antigos, lutou contra o Dragão Chamejante Ceifeed pelo destino do mundo. Cujo corpo foi então dividido em sete pedaços e selado. O Lorde das Trevas da lenda.
Porém... Gourry e eu sabíamos que Shabranigdu era mais do que só uma lenda. Dois anos atrás, testemunhamos o despertar de um de seus fragmentos adormecidos.
“Nunca mais nos encontraremos...”
Havia apenas duas pessoas além de mim e Gourry que sabiam que o Lorde das Trevas havia proferido essas palavras. Uma estava em alguma jornada. A outra... Era o próprio Olhos de Rubi Shabranigdu. O que significava que o ser à nossa frente agora sem dúvida devia ser...
“Não que importe, contudo não poderia ao menos nos avisar um pouco antes de aparecer assim?” me peguei resmungando. Digamos que foi uma reação instintiva, embora minha voz estivesse tremendo horrores. “Quer dizer, nós temos vidas, temos compromissos. Poderíamos usar um pouco de tempo para nos preparar emocionalmente!”
“Essas coisas são irrelevantes para mim!” disse ele, e então deu mais um passo à frente. O Lorde das Trevas estava se aproximando. A luta estava prestes a começar.
Incapazes de suportar a pressão por mais tempo, Gourry e eu saltamos para a esquerda e para a direita.
“Lança Elemekia!” pronunciei essas palavras de poder. Este feitiço inicial não era tanto um ataque, e sim uma tentativa de confirmar o que o Lorde das Trevas havia dito. E, de fato, meu feitiço ativou sem uma conjuração completa. Além do mais, a lança de luz que produzi no ar estava muito mais brilhante do que o normal. “Vai!”
Quando gritei, a lança de luz disparou em direção ao Lorde das Trevas!
Thunk. O Lorde das Trevas cravou o cajado em sua mão no chão, produzindo uma gema vermelha do tamanho de uma cabeça humana em uma das extremidades.
“Heh.” com esse pequeno suspiro, o Lorde das Trevas balançou o cajado. A joia na ponta emitiu um tênue brilho, e minha lança de luz mágica se dissipou em uma névoa que logo desapareceu.
Claro. Aquele bastão... Não, aquele cajado...
Mesmo enquanto o Lorde das Trevas se movia, Gourry avançou em sua direção... Silenciosamente e com a espada desembainhada.
Ele é rápido!
Todavia... Zing! O Lorde das Trevas desviou a espada de Gourry, que podia cortar até mesmo magia, com seu cajado.
Aquilo devia ser... A arma demoníaca do Lorde das Trevas, o Cajado de Osso, mencionado apenas em lendas. Talvez seja uma extensão sua também, assim como Dulgoffa era para a General Sherra.
Usando o impulso de sua espada desviada, Gourry mudou de posição e desferiu um golpe rápido de uma nova direção. O cajado do Lorde das Trevas continuou sua trajetória em direção a Gourry, sem ser afetado ou desacelerado. Mesmo que parecesse um cajado, como arma do Lorde das Trevas, devia ter um poder destrutivo indescritível. O que aconteceria se atingisse uma pessoa?
Gourry deve ter tido um pensamento semelhante, pois mudou ainda mais a trajetória de sua lâmina para desviar o bastão e saltar para trás a certa distância.
Tudo aquilo aconteceu num piscar de olhos. Ambos os lutadores se moviam com uma velocidade incrível. Se eu não tivesse recebido treinamento de espada de Gourry, a troca de golpes entre eles agora teria me parecido apenas um choque rápido seguido de uma retirada. Mas ser capaz de acompanhar uma luta dessas à distância e fisicamente conseguir acompanhá-la eram duas coisas diferentes. Se tivesse que cruzar armas com o Lorde das Trevas, eu estaria morta em poucos movimentos.
O Lorde das Trevas se moveu atrás de Gourry, que recuava. Então, desferiu um golpe amplo no grandalhão.
Isso não é nada. Gourry pode só saltar para trás... Assim que pensei, o vento de miasma... Não, da própria magia, produzido pelo golpe rugiu em direção a Gourry!
“Ngh!”
Gourry saltou ainda mais para trás. O Lorde das Trevas avançou em perseguição! É provável que pretendesse atingir Gourry assim que aterrissasse, antes que pudesse recuperar o equilíbrio. Porém...
Não tão rápido! Naquele exato momento, enquanto havia algum espaço entre Gourry e o Lorde das Trevas, pude dar cobertura a ele!
Thump! Bati com a mão no chão.
“Videira Astral!” recitei um encantamento para um feitiço de aprimoramento de arma... Ou melhor, apenas as palavras de poder. Em ocasiões normais, as pessoas usavam Videiras Astrais para imbuir espadas com o poder de ferir mazokus, contudo conjurei esta direto no chão.
Incapaz de compreender o que estava fazendo, o Lorde das Trevas voltou sua atenção para mim por um instante.
Quando o fez... Thump! Bati com a outra mão no chão.
“Terra, atenda ao meu chamado! Dug Haute!”
Vwoosh! Respondendo ao meu comando, o chão inchou, formando inúmeros espinhos que avançaram em direção ao Lorde das Trevas. Esses pilares de terra comum jamais seriam capazes de ferir um mazoku em circunstâncias normais. Mas agora? Eles estavam imbuídos com o poder da minha Videira Astral!
“Tch!”
O Lorde das Trevas parou e brandiu o Cajado de Osso. A joia brilhou mais uma vez, e os espinhos de terra imbuídos de magia foram esmagados em pedaços. Nesse instante...
Rompendo através dos espinhos que desmoronavam, Gourry estava sobre o Lorde das Trevas mais uma vez! Zing zing zing! Sua espada brilhou com uma luz branca que voou em linha reta em direção ao seu inimigo. Pego de surpresa, o Lorde das Trevas foi forçado a recuar um pouco. Contudo...
Vrsh! De repente, uma escuridão envolveu o Lorde das Trevas e se expandiu.
Gourry, sempre vigilante, saltou para trás. Naquele mesmo instante, uma figura carmesim saltou para a frente, rasgando a escuridão! A ponta de seu cajado estendido encontrou a espada de Gourry e a desviou com algum tipo de pressão!
Uma expressão de surpresa desprotegida apareceu no rosto de Gourry, no entanto seu corpo se moveu com o impulso de sua espada desviada e deixou que ela o levasse além do cajado de seu inimigo. Então, com uma série de saltos, voltou para o meu lado.
Aos poucos, Shabranigdu se virou para nos encarar. Gourry falou comigo baixinho, com os olhos ainda fixos no Lorde das Trevas.
“Lina! Quero chegar perto dele!”
“Entendido!” respondi, batendo a mão no chão mais uma vez. “Dug Haute!”
Bam! A terra entre nós e o Lorde das Trevas se rompeu em inúmeros espinhos, avançando em direção à figura carmesim mais uma vez! Olhos de Rubi ergueu seu cajado, pronto para enfrentá-los. Nossa linha de visão foi interrompida pela terra que subia...
E acrescentei mais um!
“Dug Haute!”
Crash! O chão ao nosso redor inchou como uma onda gigante, avançando em direção ao Lorde das Trevas... Com Gourry em cima!
Não tinha certeza se era resultado de um feitiço do cajado do Lorde das Trevas ou o quê, entretanto meus espinhos e minha onda de areia começaram a ceder diante de globos invisíveis. Quando aconteceu, Gourry emergiu do tsunami de areia... E pulou!
“O quê...” Gourry gritou no ar.
Ei! Não chame atenção para si mesmo agora, cara!
O Lorde das Trevas, depois de achatar meus espinhos e minha onda, ergueu seu cajado contra Gourry mais uma vez.
Todavia Gourry continuou com raiva.
“Que diabos você pensa que está fazendo?”
Por algum motivo... Seu grito pareceu fazer Olhos de Rubi hesitar. Slash! O Lorde das Trevas recuou um pouco, bem na hora em que a espada de Gourry cortou uma imagem residual prateada no ar. Ele acertou o golpe, embora foi superficial! O Lorde das Trevas colocou a mão livre sobre o rosto. Gourry parou, ficando completamente imóvel.
“Eu te perguntei o que diabos pensa que está fazendo?” ele berrou, a voz cheia de fúria.
O Lorde das Trevas não se moveu. Nem respondeu.
Gourry continuou.
“Você não pode mudar seu estilo de luta tão fácil assim. Sua esgrima continua a mesma, sem mencionar o jeito como usa a escuridão como distração e envolve sua arma em vento!”
“Hahh...” os ombros do Lorde das Trevas caíram enquanto soltava um longo suspiro. Parecia cansado... Exausto, até. “Descobriu, hein? Pensei que talvez tivesse me safado. E com certeza não pensei que você seria o único a me desmascarar...”
Dei um pequeno suspiro. Aquela voz... Não era a do Lorde das Trevas. Era uma que conhecia bem. Uma que Gourry conhecia bem.
A figura carmesim removeu a mão que cobria o rosto. Clunk. A máscara que Gourry havia partido em duas caiu no chão.
E em voz quase inaudível, pronunciei seu nome.
“Lu... Luke?”
***
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