domingo, 11 de janeiro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 01 — Capítulo 02

Volume 01: Aoi  Capítulo 02: Parece que Sua Alteza o Príncipe gosta mais de garotas


Após muitas tentativas, Koremitsu e Hikaru descobriram que era possível manterem uma certa distância em áreas espaçosas. A distância máxima entre os dois era de três metros. Em espaços apertados, como um banheiro químico, eram forçados a se aproximarem. Se Koremitsu não se movesse, Hikaru não conseguiria sair do espaço.

 

Que piada é essa? Agora temos que ficar juntos só para usar o banheiro?

 

Às vezes, algumas garotas amigas poderiam ter dado as mãos antes de irem para o banheiro, mas compartilhar a mesma cabine era impossível, e era ainda mais constrangedor para dois garotos. O que agravava o problema para Koremitsu e Hikaru de compartilharem o mesmo banheiro era o fato de que, acima de tudo, eram meros conhecidos.

 

Koremitsu lembrou-se da sensação desconfortável de encarar Hikaru e urinar, seu rosto parecia estar fervendo em fogo enquanto corava.

 

Nada parecia mais problemático do que sua presença. O pedido de Hikaru precisava ser atendido o mais rápido possível para que ascendesse ao Céu.

 

Na manhã seguinte, Koremitsu entrou na escola com essa firme determinação.

 

— É a primeira vez que ando num ônibus cheio de gente.

 

Brincando, Hikaru colocou a cabeça para fora de uma brecha na multidão a bordo, com os muitos passageiros amontoados como uma lata de sardinhas. Não parecia haver nada mais sobrenatural do que a visão de seu rosto fino se sobrepondo ao de estranhos em um ambiente tão lotado.

 

Ele não estava preocupado com Koremitsu, que desviava o olhar deliberadamente. Hikaru continuou resmungando para si mesmo assim que cada um desceu do ônibus e partiu para a escola.

 

No caminho, Hikaru se virou para falar.

 

— Eu era representante de jardinagem e íamos enterrar sementes de dália e capim-limão em maio. Em que atividade você está envolvido, Koremitsu?

 

Sem se dar conta, Hikaru o chamou de “Koremitsu” em vez de “Sr. Akagi”.

 

Koremitsu abriu a boca para repreendê-lo por ser muito íntimo, mas foi interrompido.

 

— Eu disse isso porque nós dois somos “designados” como amigos de agora em diante. Seria indelicado da minha parte chamá-lo de Sr. Akagi neste momento, certo? Pode me chamar de Hikaru também, Koremitsu.

 

Ele continuou sem parar, desviando-se de qualquer argumento.

 

— Então, o que costuma fazer? Entrou para um clube de artes marciais, certo? Era boxe ou kung fu?

 

— Eu era membro do Comitê de Criação de Animais de Estimação na escola primária. Na época, cuidava de perus e coelhos.

 

Franzindo a testa, Hikaru deu uma resposta um pouco sutil.

 

— Entendo. Então você gosta de animais.

 

— Os perus são deliciosos quando assados.

 

As palavras saíram sem nenhum complemento de Koremitsu.

 

— Aquele nariz vermelho é muito fofo. Parece um lírio-aranha vermelho.

 

Hikaru não pareceu se importar e continuou a conversa de maneira unilateral.

 

Este príncipe despreocupado sabia mesmo que havia morrido?

 

Koremitsu se conteve para não fazer birra com ele enquanto os dois passavam pelo elaborado portão da escola.

 

A Academia Heian era uma escola com todas as instalações educacionais, desde um jardim de infância afiliado até a universidade. O ensino fundamental e o ensino médio tinham portões diferentes, contudo estavam localizados na mesma área do campus.

 

Koremitsu pegou seus sapatos no armário e começou a calçá-los.

 

— Ah.

 

Hikaru soltou um suspiro.

 

Ele leu um jornal escolar com uma foto sua de quando estava vivo, preso no quadro de avisos no corredor.

 

Havia pedaços de papel colorido colados ao lado, com palavras de pesar escritas à mão em cada um.

 

“Até a próxima.”

 

“Fui eu quem mais te amou.”

 

“Nunca vou te esquecer.”

 

“Senhor Hikaru, você foi parte da nossa juventude.”

 

Mesmo agora, ainda havia meninas aglomeradas no quadro, com os olhos vermelhos enquanto escreviam mensagens.

 

Entre elas, havia uma menina que chorava ao ler os sentimentos de cada uma. Suas duas mãos cobriram o rosto, com sua boa amiga ao seu lado para consolá-la, apesar de estar com os olhos marejados.

 

Koremitsu sentiu seu corpo inteiro sendo amarrado ao chão.

 

Tenho que dizer, mesmo que você não tenha amigos, muitas pessoas aqui não estão tristes com sua morte?

 

Seu corpo sentia uma agonia cortante, e seu peito ardia de calor.

 

Pensou que Hikaru pudesse derramar uma lágrima, entretanto uma voz gentil soou ao seu lado.

 

— Você é como uma margarida balançando na brisa da primavera. Por favor, não chore. Lágrimas não combinam com você.

 

Hikaru inesperadamente se aproximou da garota que soluçava e levou as mãos às costas dela.

 

Abraçando-a, como se fosse um objeto frágil, com o que parecia ser uma experiência extraordinária (por mais habilidosa que fosse a demonstração, com seus braços desencarnados entrincheirados no corpo da garota). Então falou em seu ouvido em um suave tom.

 

— Sabe o que a Margarida representa na linguagem das flores? Significa estar “alegre”. Aqui, sorria. Mostre-me esse seu rosto alegre e sorridente.

 

A cena deixou Koremitsu sem palavras.

 

O que exatamente estava acontecendo?

 

Hikaru fechou os olhos lentamente e deixou escapar uma certa doçura por entre os lábios. Um brilho radiante parecia irradiar-se ao seu redor enquanto emitia uma voz encantadora de derreter a espinha.

 

— Oi!

 

Koremitsu ficou parado com uma expressão congelada enquanto Hikaru se aproximava outra vez de outra garota, segurava sua mãozinha trêmula e levava seus lábios aos ouvidos dela de forma coquete.

 

— E você que é como uma Centáurea Azul, por favor, recomponha-se. Centáureas representam “felicidade”. Não é da sua natureza ser alegre e radiante de esperança?

 

O jovem flutuou e apareceu entre as meninas que choravam, acariciando seus cabelos e apertando suas mãos.

 

— Para você, que é como um botão-de-ouro na natureza, fica fofa quando sorri. Ah, aquela que é como um floco de neve aí, o mesmo vale para você também. Se chorar assim, seus lindos olhos vão derreter. Você para de chorar se eu te beijar?

 

Hikaru segurou o rosto cheio de grandes lágrimas rolando com as duas mãos enquanto se aproximava delicadamente. Nesse momento, Koremitsu não conseguiu se conter.

 

— PARE COM ISSO AÍ, SEU GRANDE PERVERTIDO!

 

Hikaru ficou surpreso ao se virar para olhar para Koremitsu.

 

Este atacou Hikaru furiosamente.

 

— Que mensagens de amor são essas que está jorrando? Pense na sua própria situação! Não é hora de falar dessas coisas delicadas pelas costas dos outros! Ou será que é algum idiota?

 

Hikaru não aceitou a frustração de Koremitsu e o repreendeu.

 

— Para mim, não consigo me imaginar deixando uma menina chorando sozinha. Se ver uma flor murchando, não a alimentará com água e fertilizante e cuidará dela com todas as suas forças?

 

— Como se isso tivesse alguma coisa a ver comigo! Sou um cuidador de animais de estimação! Não sou um representante de jardinagem!

 

— Então, se vir um gato ferido, deve acariciá-lo com cuidado e tratar seus ferimentos, certo?

 

— Claro que não. Gatos de rua lambem as próprias feridas.

 

— Existem algumas feridas que não podem ser tratadas por você mesmo... Ei, Koremitsu, os outros estão olhando para nós aqui.

 

No momento em que Hikaru apontou isso, Koremitsu ficou paralisado.

 

Claro, não havia como alguém ouvir a voz de Hikaru.

 

Seu olhar percorreu os arredores, percebendo um espaço vazio de cerca de dois metros de raio que começou a se formar ao seu redor.

 

As meninas pararam de chorar e se encolheram com expressões horrorizadas ao ver Koremitsu. No momento em que seus olhos encontraram os de Koremitu, seus ombros se contraíram e elas desviaram o olhar.

 

Não pareço um cara perigoso que grita sem motivo algum no corredor?

 

Ele havia decidido agir de forma discreta na escola para nunca mais receber um apelido constrangedor como “O Diabo Vermelho”. Será que seu plano estaria arruinado agora?

 

— Ah... Erm...

 

Queria muito salvar a situação de alguma forma, mas forças mais fortes o faziam suar frio. Em choque, ele ficou sem palavras.

 

Pouco a pouco, seu rosto começou a arder de vergonha.

 

Isso é ruim. Meu rosto está vermelho agora?

 

— E-Eu não estou falando com vocês!

 

Ele rosnou com uma expressão confusa no rosto e saiu correndo do local.

 

— Não se preocupe, Koremitsu. Sua reputação não será abalada só por entrar na escola e gritar no corredor de repente. Além do mais, você é o 27º rei dos delinquentes, que sozinho derrotou um exército inteiro de delinquentes. Não há reputação pior do que esta, então, por favor, relaxe.

 

Que tipo de consolo é esse?

 

Ele jurou em seu coração nunca mais falar com Hikaru na frente de ninguém.

 

Devido à vergonha e ao arrependimento pelo seu infortúnio, a expressão de Koremitsu parecia três vezes mais assustadora do que o normal, seus olhos dez vezes mais aguçados. Ao chegar à sala de aula, abriu a porta e encontrou uma garotinha parada à sua frente, quase desmaiando no local.

 

— Hah... Bom, bom dia... Akagi.

 

Uma garota simples, de óculos, que usava o cabelo em uma trança curta, ela era a representante da classe.

 

Koremitsu não sabia o seu nome, e os outros colegas a chamavam de “rep” também.

 

Ele se lembrou do primeiro dia em que pisou nesta escola depois de ser hospitalizado.

 

— Ouvi dizer que ele é o lendário delinquente...

 

— Alunos de outras escolas vieram procurá-lo para causar problemas durante o Ensino Fundamental, e houve um incidente sangrento...

 

— Ouvi dizer que espancou 10 pessoas até quase matá-los.

 

Havia todo tipo de rumores estranhos a seu respeito.

 

Koremitsu era evitado pelos colegas de classe, que passaram a acreditar nesses rumores à medida que eles pioravam com o tempo, e ela acabou se tornando a única pessoa com quem podia falar.

 

Ainda assim...

 

— B-Bem... Sou a representante da turma... P-Por favor, cuide de mim, Akagi. S-Se houver algo que não saiba, pode me perguntar.

 

Era visível como seu rosto ficou tenso. A garota estava tão nervosa que sua saudação só pôde ser proferida em um tom estridente.

 

Obrigado. Onde fica a cantina?

 

Era isso que queria dizer, mas quando Koremitsu estava prestes a responder, a representante da classe falou.

 

— E-E-Então, nesse caso, vou me retirar.

 

Ela aproveitou a oportunidade e correu de volta para seu assento como um coelho fugindo desesperado de lobos vorazes.

 

Koremitsu observou-a manter as mãos entrelaçadas, tremendo em sua mesa, obviamente rezando para que não a chamasse. Se perguntasse onde ficava o refeitório naquela hora, a garota provavelmente teria gritado e se escondido debaixo da mesa.

 

Ainda que tenha terminado dessa forma, a garota cumpriu sua responsabilidade como representante de classe, e sempre que seus olhos encontravam os de Koremitsu, dizia a ele “B-Bom dia”, ou “Adeus”.

 

Normalmente, ela iria embora logo após dizer o que queria, mas dessa vez permaneceu onde estava, fazendo-lhe uma pergunta hesitante.

 

— Akagi... Você compareceu ao funeral do Senhor Hikaru ontem, não é? Você o conhece?

 

Parecia que também estava presente naquele momento.

 

Ele queria responder que não eram próximos, porém ao seu lado, Hikaru o importunava, dizendo que eram considerados amigos.

 

— Somos amigos próximos agora, Koremitsu.

 

Desde quando somos amigos próximos?

 

Tem que haver um limite para essa sua atitude descarada!

 

Quando estava prestes a gritar, recobrou a postura, rangendo os dentes e franzindo a testa.

 

Foi por pouco. Quase assustei todo mundo de novo.

 

Contudo, no momento seguinte, a representante da turma saltou como uma lebre.

 

— D-D-Desculpe por perguntar de forma tão interrogativa. Tudo bem, não precisa responder!

 

Seu rosto ficou vermelho enquanto saía correndo.

 

Koremitsu parecia zangado quando cerrou os dentes e franziu a testa, então não era de se admirar que estivesse apavorada. Ela voltou para seu assento, sua trança curta tremendo.

 

— Uma garota assim, que fica tímida tão facilmente, é muito fofa, como uma flor de ameixeira mudando de cor.

 

Hikaru falou em um tom relaxado.

 

Não, aquilo não era ser tímida. Parecia... Apavorada, não importa como eu olhe.

 

Koremitsu se perguntou se, se pensasse nas coisas com entusiasmo como Hikaru, talvez também morresse com um sorriso no rosto. Sentiu inveja de Hikaru por isso, no entanto não queria deixar que esses sentimentos o dominassem enquanto ia colocar a bolsa na mesa.

 

O assento de Koremitsu era o mais próximo do corredor, na última fileira.

 

Olhando para o assento em frente ao corredor estreito, a garota sentada ali não parecia nada animada naquela manhã, fazendo beicinho e franzindo a testa, mexendo no celular.

 

Ela escrevia mensagens deslizando os dedos rapidamente pela tela.

 

Estava sempre usando o telefone, fosse antes da escola ou durante o intervalo.

 

Seus cabelos brilhantes, cor de chá, desciam pelos ombros esguios, cobrindo as têmporas e aninhando-se sobre as orelhas. Koremitsu notou que seus dedos não paravam. Seus olhos carregavam uma certa ferocidade, brilhando com mais intensidade do que antes, e parecia absorta na mensagem enquanto olhava para a tela do celular.

 

A garota ignorou o delinquente selvagem ao seu lado.

 

Uma coisa era Koremitsu se incomodar com o medo que todos sentiam dele, entretanto pior ainda era não lhe dar a mínima atenção. Ela nem sequer o olhou, muito menos o cumprimentou. Alguém poderia se perguntar qual era o seu problema.

 

A garota sentada ao lado de um Koremitsu frustrado seguia cuidando da própria vida como se nada estivesse errado. Tinha uma força de vontade tão forte que correspondia à sua total falta de temor.

 

Não, acho que também tem sido mal interpretada como tendo uma personalidade violenta, pois nasceu com olhos ferozes e foi deixada sozinha por causa disso. É por essa razão que tem usado o celular para passar o tempo. Deve ser uma pessoa muito solitária.

 

Essa linha de raciocínio fez com que a chama em seu estômago se apagasse.

 

Todavia para Hikaru, que estava ao lado, parecia que não importava o quão estranho fosse o descuido da garota com qualquer coisa ao seu redor... Não importava o quanto ignorasse a presença de Koremitsu, ambos eram pontos de atração.

 

— Uma garota totalmente focada em fazer algo é como um hibisco vermelho. Será que está mandando uma mensagem para o namorado?

 

Hikaru tentou espiar o conteúdo do telefone.

 

— Ei, pare com isso.

 

Koremitsu o alertou.

 

No momento em que falou, a garota ao lado parou de digitar e se virou para encarar Koremitsu.

 

Seus olhos emitiam um brilho intenso, como um felino que não quer ser abordado.

 

Ele queria explicar que não estava falando com ela, mas não disse.

 

Decidiu encará-la, algo que se arrependeu de ter feito.

 

Um colega de classe gritou pelo corredor enquanto corria em direção à porta da sala de aula.

 

— Ei! O Rei Delinquente enlouqueceu de repente no armário de sapatos! Parece que gritou para as garotas soluçantes que deixavam seus recados no quadro de avisos do Lorde Hikaru: “POR QUE VOCÊS ESTÃO CHORANDO, SEU BANDO DE CACHORRINHAS LASCIVAS! POSSO LAMBER TODAS VOCÊS SE QUISEREM TANTO ASSIM!”. Foi bárbaro, satânico... Ack!

 

O mais provável era que o ‘ack!’ no final foi uma responsa involuntária ao sentir o desejo assassino irradiando do corpo de Koremitsu.

 

Naquele momento, o jovem ficou encharcado de suor frio, sem saber o que fazer.

 

— Não... Er-Erm... “O Rei Delinquente” não se refere ao nosso “Mestre Delinquente” nesta classe... É-É alguém de outra classe... Bem, erm, sobre isso... SINTO MUITO!

 

O garoto se ajoelhou para implorar por perdão, e a cor desapareceu dos rostos dos colegas que assistiam ao ocorrido.

 

Eu sou o Rei Delinquente, não importa o que aconteça agora? Por que está se desculpando, seu idiota desgraçado?

 

Enquanto o coração de Koremitsu afundava em desespero, o culpado Hikaru falou com espanto enquanto lançava um olhar de lamentação.

 

— Nossa, é a primeira vez que vejo alguém se ajoelhar pra pedir perdão. Com certeza tem um impacto inesquecível em mim. Com certeza farei com uma garota da próxima vez.

 

Enquanto a comoção continuava, a garota sentada ao lado de Koremitsu manteve a testa franzida enquanto continuava enviando mensagens.

 

***

 

O calouro ruivo e delinquente forçou seu colega de classe a se ajoelhar e “se desculpar”.

 

Depois que o colega se desculpou, não conseguiu nem andar direito, teve dificuldade para falar e foi embora.

 

Em pouco tempo esse boato circulou pela escola.

 

Depois da aula, um deprimido Koremitsu arqueou as costas enquanto caminhava pelo corredor do 3º andar.

 

Os alunos que passavam por ele mantinham distância, evitando-o como se fosse uma praga.

 

— Anime-se! Não há nada que possa abalar sua lenda como o mais forte agora.

 

Não considero isso sequer como algum consolo!

 

Minha reputação já ruim acabou de piorar. De quem você acha que é a culpa?

 

Esse desgraçado despreocupado aqui já está morto, e mesmo assim continua tentando dar em cima das garotas sem nenhum pudor.

 

— Você não percebe que tem uma responsabilidade aqui?

 

Seus punhos cerraram enquanto murmurava a pergunta.

 

— Hã, por minha causa? Mas, Koremitsu, ainda sinto que, quando vejo uma garota chorando, devo confortá-la com o meu melhor esforço.

 

Hikaru falou quase como se estivesse narrando suas crenças.

 

— Bem, assim que meu desejo for realizado, irei para o Céu em paz. Vou lhe causar muitos problemas antes disso, porém, por favor, aguente firme por agora.

 

A voz de Hikaru tinha um tom de admiração, e era difícil continuar a invejá-lo.

 

Parecia um príncipe tranquilo, embora era inesperadamente inteligente.

 

Eu sei disso e ainda saio com ele.

 

Koremitsu se virou para olhar para Hikaru e questioná-lo.

 

— Deixa eu perguntar de novo. Aquela garota com certeza faz parte do clube de artes, né?

 

No momento em que essas palavras foram ditas, os olhos de Hikaru ficaram ternos e seu impulso amoroso entrou em ação.

 

— Sim. Ela sempre pintava na sala de artes depois da aula. É como uma princesa da era Heian. Seu cabelo preto e sedoso é deslumbrante. É tão delicada, pura, extremamente refinada como uma dama, e uma garota muito fofa.

 

Mesmo que fale desse jeito da sua própria amante, não consigo sentir nada.

 

Hikaru fez uma referência às princesas da Era Heian, como aquelas mencionadas no livro didático que usavam trajes cerimoniais¹. As vestes eram frequentemente justas e o corpo da usuária ficava saliente. Todavia, ter o cabelo comprido tornava difícil de lavar, e seria repugnante ter muitas pulgas e piolhos dentro.

 

No que diabos estou pensando?

 

— Porém ela é a sua namorada, e vocês se dão tão bem que planejavam comemorar o aniversário juntos, certo? Ontem foi o seu funeral. Não seria difícil apenas continuar seguindo as atividades do clube depois de uma perda tão grande?

 

Talvez esteja descansando em casa, sem poder ir à escola.

 

No entanto...

 

— Ahh, sim, não precisa se preocupar com essa possibilidade. Aoi com certeza estará na sala de artes como sempre.

 

A voz de Hikaru soou vaga de repente enquanto desviava o olhar sutilmente.

 

— Hã?

 

Koremitsu deixou claro em voz alta sua preocupação com isso.

 

Bem, acho que está tudo bem. Se estiver aqui, posso me apressar e resolver esse assunto o quanto antes.

 

Ele não se aprofundou mais na conversa ao chegar em frente à sala de artes. Então, abriu a porta.

 

Wah! São todas meninas!

 

O aroma de perfume pairava na ampla sala de aula. Brilhantes raios de sol adentravam pelas amplas janelas, e havia mesas, cadeiras, estátuas de gesso e telas espalhadas por toda parte.

 

Havia oito garotas lá dentro.

 

Elas estavam fazendo seus próprios desenhos, colorindo, lendo revistas que estavam deixadas de lado e fazendo as unhas umas das outras enquanto conversavam.

 

Para Koremitsu, todas as garotas pareciam iguais.

 

Ao mesmo tempo, as garotas do lado oposto ficaram atordoadas com a chegada do lendário delinquente ruivo que surgiu de repente.

 

A sala de aula foi tomada pelo silêncio.

 

Suas expressões congeladas e olhos aterrorizados denotavam um forte medo e impotência. Uma das garotas que fazia as unhas segurava uma tampa em uma mão e uma garrafa de vidro na outra, estremecendo ao olhar de Koremitsu.

 

— Ah... Tem alguém aqui chamado Aoi Saotome?

 

Sentiu uma dor perto do estômago, talvez devido ao nervosismo, e sua expressão ficou mais aflita do que o normal. Seus olhos afiados e lupinos eram algo com o qual havia nascido, e não conseguia mudar isso.

 

Os membros do clube ficaram com medo enquanto recuavam em direção à janela.

 

Nesse momento, houve uma menina que exalava um certo orgulho e continuou pintando sozinha.

 

Seus cabelos eram longos o suficiente para chegar à cintura e tinham uma linda fita branca em forma de borboleta amarrada. Era um pouco mais baixa do que a média e parecia mais magra do que a média também.

 

Hein? Onde é que já vi essa menina antes...?

 

Enquanto tentava se lembrar da identidade da garota, esta se levantou e fez uma expressão ameaçadora enquanto caminhava em direção a Koremitsu.

 

Seus membros eram extremamente finos, e seu rosto era tão pequeno que Koremitsu conseguia cobri-lo com as mãos.

 

Seus longos cabelos sem babados balançavam docemente ao ritmo dos passos. Cílios longos eram como uma moldura para seus olhos, tão grandes que pareciam prestes a cair, e dirigiu um olhar beligerante para Koremitsu.

 

No momento em que viu sua expressão severa, ele percebeu.

 

Entendo! Foi ela quem causou a comoção no funeral do Hikaru!

 

“VOCÊ É MESMO UM IDIOTA POR SE AFOGAR NUM RIO ASSIM! QUE VERGONHA! PENSEI QUE SERIA ESFAQUEADO ATÉ A MORTE POR UMA MULHER! FOI POR SER TÃO MULHERENGO QUE O CARMA FEZ SEU TRABALHO!”

 

Não havia dúvidas de que era aquela garota.

 

“SEU MENTIROSO!”

 

Essa voz voltou a ecoar em seus ouvidos.

 

Droga. É ela a pessoa que você não consegue abandonar no seu coração?

 

A garota, Aoi Saotome, caminhou em direção a Koremitsu e parou na frente dele.

 

Koremitsu pretendia explicar as coisas primeiro, mas ela interveio primeiro.

 

— Eu recuso.

 

Uma voz carregada de desgosto encheu a sala, negando-o.

 

Nem falei nada ainda!

 

Aoi enfatizou outra vez com um tom forte.

 

— Eu me recuso. Me recuso a tudo o que disser! Não gosto de homens e não tenho nada para conversarmos!

 

Depois disso, Aoi mordeu os lábios delicados e virou as costas.

 

O que há com essa mulher?

 

Nesse momento, Koremitsu ficou sem palavras em vez de furioso. Não havia saída; não podia recuar, mesmo que fosse pelo bem da sua vida.

 

— Espere! Na verdade é sobre Mika-Hikaru...

 

Ele queria sua atenção, porém, para sua surpresa, os cabelos negros esvoaçantes ondularam quando a garota se afastou.

 

— E-E-Eu realmente odeio tudo naquela pessoa! Me sinto... Contaminada no momento em que ouço seu nome!

 

Ela parecia pronta para matar com os olhos enquanto rosnava, batendo a porta da sala de aula bem na frente de um Koremitsu desconcertado.

 

— Ei.

 

Koremitsu ficou de fora, sussurrando baixinho para Hikaru.

 

— O que está acontecendo... Vocês dois não estão namorando?

 

Hikaru, flutuando atrás de Koremitsu o tempo todo, deu um sorriso amargo.

 

— Em vez de dizer que estamos namorando, diria que... Estamos noivos.

 

Noivos!

 

Isso pode acontecer na Era Heian, contudo estudantes do ensino médio estão sendo prometidos em casamento nos dias de hoje... Na Era Heisei japonesa? Bem, suponho que seja normal entre os ricos.

 

Koremitsu olhou de novo para Hikaru, que respondeu com uma expressão fria.

 

— Aoi sempre ficava chateada comigo, dizendo coisas como “Você é um príncipe de harém inútil” e “Você é um mulherengo que troca de parceiras todos os dias”. Bem, não tenho amigos homens, então brincava com garotas desde pequeno. Não recusei nenhum pedido que me chegasse e aceitava presentes de bom grado se uma garota tivesse boas intenções. Sempre que vejo uma moça bonita, acho que seria indelicado da minha parte não tentar puxar assunto com ela; e quando vejo uma garota bonitinha, com certeza vou e digo que ela é bonitinha.

 

— Não consigo dormir sozinho, pois tenho medo da solidão, e só consigo relaxar quando alguém me acompanha. Certo! Mulheres são como flores, e acho que é responsabilidade do homem fazer florescer a beleza delas! Isso é algo que ultrapassa a exaltada Lei da Natureza, algo equivalente aos princípios da religião... Hm, hã? Koremitsu? Por que está segurando a cabeça? Parece que as veias estão saltando das suas têmporas. Está me ouvindo? Em outras palavras, meu amor apaixonado pela existência conhecida como feminina é como minha afeição apaixonada pelas flores...

 

Chega. Não continue! Não fale em exaltação ou superação com esse olhar tão sério!

 

Koremitsu gritou em seu coração, mais convencido do que nunca de que aquela pessoa era sem dúvida um playboy.

 

Ele provavelmente já tentou bajular garotas para conquistar o afeto delas antes, assim como fez esta manhã. Se a sua noiva tivesse presenciado, com certeza o teria acusado de traição. Só havia mulheres no seu funeral, então era de se esperar que lhe desse uma bronca.

 

Pensar que ele poderia chamá-la de “namorada” sem vergonha.

 

— Podemos acabar com essa parceria, Mikado?

 

Atordoado, Hikaru respondeu.

 

— Mas Koremitsu!

 

Hikaru implorou.

 

Nesse ponto, Koremitsu só conseguia pensar em se separar de Hikaru e voltar para casa.

 

Koremitsu se deixou enganar pelas alegações de Hikaru de não ter amigos. Ele, que só conseguia almoçar sozinho, era diferente de Hikaru, que sem dúvida tinha companhia para aproveitar. Hikaru estava cercado de garotas, algumas até esperando para lhe servir seus almoços feitos à mão.

 

Não havia razão para Koremitsu ajudar esse Casanova.

 

Entretanto, se não ajudasse Hikaru a ir para a vida após a morte, Hikaru estaria observando-o sempre que fosse ao banheiro, e quando estivesse tomando banho, dormindo ou fazendo qualquer coisa.

 

Koremitsu não aguentaria mais que tal vergonha continuasse. Já era visto como um delinquente e evitado a todo custo pelos colegas, então não conseguiria suportar se alguém o chamasse de possuído que falava sozinho.

 

Como esperado, tinha que realizar o desejo de Hikaru o mais rápido possível.

 

Tch, deixa pra lá!

 

Koremitsu suportou a infelicidade em seu coração enquanto abria a porta da sala de artes de novo.

 

— Aoi Saotome. Eu... Entendo muito bem seus sentimentos! Seu noivo, Hikaru, continuou a sair com outras garotas, e é o pior bastardo inútil de harém, mas...

 

Aoi se aproximou e bateu à porta novamente.

 

Koremitsu, por sua vez, não desanimou, abrindo caminho para outra tentativa.

 

— Porém Mi... Hikaru sempre teve um pensamento especial por você em seu coração, e deixou comigo, como um a-a-amigo...

 

Slam!

 

A porta foi fechada pela terceira vez.

 

No momento seguinte abriu a porta.

 

— Concluirei o que ainda precisa ser feito!

 

— JÁ CHEGA!

 

BAM!

 

Ele tentou de novo. Contudo, desta vez, ouviu-se um clique do outro lado da porta quando ela se trancou.

 

Merda. A porta está trancada por dentro.

 

— Não! Ainda tenho o dever de transmitir as palavras de Hikaru a você!

 

Koremitsu gritou para o outro lado, batendo na barreira entre eles.

 

— Rejeitarei qualquer conselho religioso aqui.

 

Isso provocou uma recepção dura nos corredores.

 

— OUÇA, AOI SAOTOME!

 

No momento em que gritou, a porta se abriu...

 

Splash!

 

Água colorida foi jogada nele.

 

— Não quero ouvir nada sobre você ou o Hikaru. Não quero ouvir nada que envolva homens... Especialmente nada que envolva o Hikaru! Se tivesse que escolher entre ouvir sobre o Hikaru e uma sopa de lesmas, prefiro esta última!

 

Hikaru, que estava ao lado, levou as mãos ao peito após receber esse golpe violento.

 

A porta foi fechada com força e trancada.

 

Koremitsu estava pingando água suja da cabeça aos pés.

 

Você está brincando comigo...?

 

Atônito, levou um momento para que compreendesse todo o peso de tudo aquilo.

 

— É por isso que eu digo, mulheres...

 

***

 

A senhorita Aoi é uma princesa pura.

 

Hikaru estava protegendo sua noiva.

 

— Como o próprio nome sugere, coisas impuras não conseguem se aproximar de uma malva-rosa branca pura.

 

Ao chegar em casa, Koremitsu mergulhou na banheira, com os olhos fixos no teto.

 

Não estava em estupor nem nada parecido. Seu olhar ficou fixo no teto, pois Hikaru, ainda vestido com o uniforme escolar, flutuava lá em cima, cercado de vapor.

 

— Malvas-rosa são flores que florescem no meio do verão. Quando há ventilação e luz solar suficientes, os caules verdes crescem retos e produzem flores rosa-creme. Elas são fofas, mas acho que flores brancas combinam muito mais com a Srta. Aoi; dizem que foram trazidas da Terra Santa pelos cruzados. Uma flor que floresce na Terra Santa é perfeita para a Srta. Aoi.

 

Hikaru continuou tagarelando, e era impossível dizer se estava defendendo Aoi ou se promovendo como um representante da jardinagem.

 

Por que tenho que ouvir uma palestra de um cara quando tomo banho...?

 

— Não quero ouvir nada que envolva homens, especialmente nada que envolva o Hikaru!

 

Koremitsu ficou deprimido ao pensar na angústia impetuosa na voz de Aoi enquanto gritava. Estava lidando com uma princesa que demonstrou seu desgosto e oposição desde o início.

 

O desejo de Hikaru parecia que nunca poderia ser realizado.

 

Acabarei como um delinquente assombrado por um fantasma pelo resto da minha vida?

 

Sentiu que não deveria ter ido ao funeral.

 

Se pudesse falar com seu eu do passado, Koremitsu o aconselharia a voltar para casa antes do funeral, para que não sofresse mais do que já tinha.

 

Além do mais, eu sou a pessoa certa? Não seria melhor possuir outra pessoa?

 

Seria preferível que Hikaru escolhesse um aluno amigável e disciplinado. Na visão de Koremitsu, Aoi não teria sido tão cautelosa com essa outra pessoa e teria aceitado os presentes sem problemas.

 

Haveria um contraste gritante com o delinquente de aparência feroz conhecido como “O Rugido da Besta Selvagem” tentando se aproximar dela.

 

“Só posso lhe pedir este favor, Sr. Akagi.”

 

“Eu não tenho amigos de verdade...”

 

Ele se lembrou do olhar que Hikaru lhe lançou naquele apelo sincero, e uma inexplicável sensação de responsabilidade tomou conta. Uma leve dor atingiu seu coração.

 

“Isto é muito importante, uma promessa muito importante.”

 

Bom, você disse tudo aquilo. Ugh... Não pode ficar com outra pessoa? Realmente tenho de fazê-lo? Guh...

 

Seu rosto encostou na banheira, resmungando. Hikaru, que enfim havia encerrado sua palestra sobre malvas-rosa, falou com ele com uma expressão mansa.

 

— Koremitsu, acabei de perceber uma coisa.

 

Não me diga que tem um plano brilhante para conquistar o coração de Aoi, mesmo que ela esteja começando a odiar os homens cada vez mais.

 

Koremitsu olhou para cima com expectativa, mas o que viu foi Hikaru vestido com um smoking roxo como se estivesse na Takarazuka Revue².

 

— O quê...

 

Koremitsu caiu para trás ao vê-lo, e Hikaru seguiu em frente com orgulho.

 

— Eu consigo trocar de roupa usando a imaginação. Viu, esse também é bom, né? Esse aqui é ótimo.

 

Hikaru começou a trocar de roupa, alternando entre roupas de tênis, trajes de jóquei, roupas casuais para atividades ao ar livre, roupas adequadas a um assalariado de elite de óculos e assim por diante.

 

Hikaru não fez reservas em seus experimentos.

 

— Ei, essa combina mais comigo, né? Sempre quis experimentar pelo menos uma vez.

 

Ele até acabou usando trajes completos da corte japonesa. Usados ​​durante o período Heian, eram as roupas mais formais usadas pelos oficiais da corte.

 

— Ei, qual você acha que é a mais bonita? É esta, né? Ah, queria muito tirar uma foto, porém acho que não vão me mostrar. Não consigo me ver no espelho, o que é bem inconveniente. Não consigo nem ver meu próprio rosto.

 

Hikaru suspirou com arrependimento.

 

Koremitsu queria muito jogar água nele, contudo se conteve, sabendo que a água só o atravessaria.

 

Em vez disso, enterrou a cabeça e deu de ombros para mostrar sua frustração, falando numa voz cheia de amargura com Hikaru.

 

— Seu... Desgraçado... Por quem acha que estou sofrendo? Não venha fazer um desfile de moda tão despreocupado!

 

Hikaru percebeu que estava errado e sentiu vergonha de suas ações.

 

Descendo na frente de Koremitsu, fechou os ombros e assumiu a posição Seiza outra vez (mesmo assim, seus joelhos não tocaram o chão).

 

— Bem, sim, estou refletindo a respeito. Fiquei muito animado antes... E fiquei preocupado por ter que depender de você todo esse tempo, Koremitsu. Tentei tudo o que pude para ajudar... Coisas sobrenaturais como usar telecinese para mover objetos e possuir animais, ou possuir seu corpo e falar direto com a Srta. Aoi.

 

— Whoa, não entre no meu corpo. Vou ficar arrepiado.

 

— Não se preocupe, não consegui.

 

— Sério?

 

Koremitsu deu um suspiro de alívio.

 

— Nesse caso, só pude trocar de roupa.

 

Isto não é nada útil, sabia?

 

— A propósito, como devemos prosseguir? Sua noiva acha seu nome impuro devido a sua mania de sair com garotas quando ainda estava vivo, e ela está nos rejeitando.

 

— Hm, a Srta. Aoi é uma pessoa séria, no entanto esse é um ponto fofo seu. Parece que só podemos abrir o coração dela aos poucos, até que esteja disposta a nos ouvir.

 

— Uwah... Quer que eu abra o coração dela? Por que tenho que tentar ganhar a simpatia de uma mulher? E está a chamando de fofa? Será que está louco?

 

— Por favor, tente fazê-lo! Você é o único que consegue ouvir a minha voz, Koremitsu. Se conseguiu derrotar um exército de delinquentes, com certeza conseguirá abrir o coração da Srta. Aoi.

 

— Já te disse antes que não tenho nada haver com delinquentes! Não me olhe com tanta expectativa! Além disso, não consigo me dar bem com mulheres, crianças e animais desde criança. Só de ficar parado ali sozinho e respirar já é o suficiente para esses caras me odiarem.

 

— Deixando de lado mulheres e crianças, e os animais? Não me disse antes que foi o responsável por cuidar deles quando era mais novo?

 

Hikaru, no estilo da Era Heian, segurava um leque e cobria a boca, enquanto a coroa com um longo pano preso inclinava-se para o lado junto com sua cabeça.

 

— Erm... É... Cuidava dos perus e dos coelhos na escola primária, mas eles nunca se aproximaram de mim durante os 6 anos em que os alimentei e limpei suas casas. Sempre que entrava naquela cabana de coelho, eles entravam em pânico e corriam para um canto para se esconder, encostando-se uns nos outros e tremendo. Os perus também se encolhiam sempre que eu olhava para dentro...

 

Koremitsu relembrou seu passado com tristeza estampada no rosto, e o rosto de Hikaru mostrou um sorriso forçado em troca.

 

— É-É mesmo?

 

Ele mudou o tom derrotado de sua voz para se recuperar.

 

— Porém ainda é incrível! Você cuidou dos animais, mesmo com medo! Não é qualquer um que consegue fazer tal coisa. Você é como um Buda moderno, por conseguir se esforçar ao máximo, apesar dos estereótipos que te são impostos!

 

— Não consigo ficar feliz com esse tipo de acompanhamento.

 

— É por esse motivo que, ao lidar com a Srta. Aoi, por favor, use essa atitude compassiva para persistir mais uma vez. Tudo bem, a Srta. Aoi é muito elegante. Não importa o quanto te odeie, não vai te chutar. O balde é muito pesado, então não pode usá-lo para jogar água; ela tinha que usar a paleta antes.

 

Hikaru continuou com o que nem sequer poderia ser considerado uma discussão.

 

— Por sinal, você não é um rei de harém amado por todas aqui? Um especialista em atrair garotas e entender seus corações. Não tem nenhuma sugestão útil aqui?

 

— Que especialista quer dizer? Não sou anfitrião de nenhum harém. Além disso, meus métodos podem ser difíceis demais de empregar.

 

Hikaru olhou fixamente para Koremitsu, parecendo ter dificuldade em articular o que queria dizer com aquilo.

 

— Deixa pra lá. Vamos tentar.

 

— Sério?

 

Apesar da oferta, Hikaru não estava entusiasmado.

 

— De qualquer forma, tente sorrir.

 

— Hã?

 

— O que quero dizer é que deve demonstrar aquele olhar de “também tenho interesse em você”. Tente sorrir como faço.

 

*Sorriso*

 

Hikaru deu um sorriso tão gentil quanto a brisa.

 

Era um sorriso realmente alegre, deslumbrante. Aquela sensação emotiva que os cantos dos seus olhos pareciam demonstrar era inesquecível.

 

— Woah... Acho que meu coração disparou!

 

Apesar da outra pessoa ser um cara.

 

— Se não funcionar, tente fechar os olhos devagar e dizer “Não estou com vontade de ir para casa hoje” com um olhar solitário.

 

Hikaru fechou os olhos.

 

Sem esforço, assumiu uma expressão trágica. Uma sensação confusa que encorajaria qualquer um a protegê-lo de todo o coração tomou conta de Koremitsu.

 

— Woah... Agora estou cativado de verdade.

 

Esse cara é incrível! Como esperado de um príncipe de harém! Não é de se espantar que todas as pessoas no seu funeral fossem mulheres!

 

Ele pensou essas palavras consigo mesmo; palavras que devastariam Hikaru se fossem ditas em voz alta.

 

— Tudo bem, deixe-me tentar.

 

Koremitsu levantou-se da banheira otimista, encarando o espelho com um sorriso.

 

— Hã? O que foi? Koremitsu?

 

— Bem, não consigo mover os músculos do meu rosto.

 

Como isso pôde acontecer? Ele já havia passado longos dias sem sorrir e, durante esse tempo, seus músculos faciais enfraqueceram.

 

Não. Pensando melhor, Koremitsu percebeu que suas fotos de bebê e de entrada no jardim de infância o mostravam dando olhares horríveis, seus olhos brilhando como se estivessem prestes a atacar a câmera.

 

É mesmo? Então não sou bom em sorrir, né?

 

Entretanto não era da sua natureza recuar antes que a batalha começasse. Ele ergueu com força as pontas dos lábios e tentou dar um sorriso.

 

O espelho refletia a visão devastadora de um garoto de aparência selvagem, com os músculos faciais se contraindo. Se algumas manchas de sangue fossem adicionadas ao rosto, era provável que qualquer garota desmaiasse ao vê-lo.



Até Koremitsu ficou horrorizado com o olhar daquela pessoa ameaçadora no espelho. Era assustador, mesmo sendo seu próprio banheiro.

 

— Ugh... Não desisti ainda!

 

Ele abriu as narinas e cerrou os dentes para tentar de novo, contudo quanto mais tentava, mais conseguia ver seu reflexo se tornando cada vez mais horrendo.

 

— B-Bem, Koremitsu, não é bom se forçar.

 

Koremitsu se virou para Hikaru, suas mãos ainda puxando seu rosto.

 

— Ah... Aaa... E-Então, acho que é melhor ter uma expressão séria do que um sorriso, dada a sua personalidade, Koremitsu. Veja bem, ao contrário de mim, que sou tão delicado, seu jeito é mais másculo!

 

— É verdade?

 

— Sim! Acho que é a sua cara esses papéis de sangue frio ou daqueles filmes de cinema! Os homens realmente admiram essas coisas.

 

Hikaru tentou o seu melhor para animar o ambiente.

 

— É. Acho que é verdade que é falta de masculinidade começar a sorrir tolamente quando não há nada de engraçado.

 

Koremitsu conseguiu se recuperar.

 

— Nesse caso, tentarei parecer amargurado e solitário...

 

Ele tentou mostrar a expressão “Não quero ir para casa hoje à noite”.

 

Seus olhos se fecharam e seus ombros abaixaram.

 

Entretanto, quando olhou para cima e se olhou no espelho, percebeu que havia um homem o encarando com uma aura negra e uma atitude vingativa.

 

Em vez de uma vibração de “Não quero ir para casa hoje à noite”, estava emitindo uma vibração do tipo “Vamos começar o banquete do inferno hoje à noite”.

 

Eu estou realmente...

 

Koremitsu estava abatido em frente ao espelho.

 

— Na verdade, você fica melhor quando age com naturalidade Koremitsu! Acho que já tem charme suficiente!

 

— Não preciso que me console!

 

Koremitsu levantou sua cabeça de cabelo ruivo e gritou com raiva.

 

— É impossível para alguém como eu abrir o coração de uma garota quando nenhuma cadela, gata, furão ou hamster por perto se aproxima de mim! Serei assombrado por um príncipe pervertido fantasiado flutuando sobre a minha cabeça, mesmo quando estiver tomando banho!

 

— Não seja assim! Não desista de si desse jeito! Se não gosta que eu esteja usando roupas, posso tirar. Entendeu?

 

Antes que terminasse de falar, as vestes nobres da era Heian desapareceram. Hikaru apareceu nu enquanto flutuava no vapor que subia.

 

De repente, esse homem nu apareceu diante dos olhos de Koremitsu.

 

— UWAAAAHH!

 

Cambaleando para trás em choque, esse impulso fez com que sua cabeça batesse na parede. Ele então escorregou em toda a sua confusão, caindo com o corpo esparramado e virado para cima.

 

A porta de vidro do banheiro se abriu e lá estava Koharu, vestida com um avental fino, de pé com as mangas arregaçadas enquanto rosnava.

 

— Koremitsu! O que está fazendo aqui sozinho?

 

— Sinto muito!

 

Koremitsu pediu desculpas e, ao mesmo tempo, sentiu que era bom que Koharu não pudesse ver Hikaru.

 

Isso porque um Hikaru completamente nu estava flutuando na frente dela, sua boca ainda sem dar sinais de que iria parar.

 

— Sua irmã mais velha é do tipo laranja trifoliata ou do tipo mandrágora. É sem dúvida incrível.

 

— Idiota, ela não é minha irmã mais velha. É minha tia, divorciada uma vez, e é uma bruxa de 36 anos.

 

Koremitsu proferiu essas palavras por reflexo. Koharu as retribuiu com uma surra.

 

***

 

Na manhã seguinte, Koremitsu encontrou seu bento colocado no chabudai³.

 

Ele pensou que era para compensar a surra excessiva do dia anterior e levou para a escola. Ao abrir a lancheira durante o recreio, descobriu que estava cheia de pasta de feijão vermelho.

 

— Ela quer brigar comigo? Aquela bruxa de 36 anos?

 

— Incrível... É mesmo pasta de feijão vermelho. Não parece nada apetitoso.

 

Hikaru murmurou enquanto flutuava acima. Ele vestia o terno branco e a calça preta do uniforme escolar.

 

— Caramba.

 

Koremitsu colocou a caixa de bento de volta na bolsa e saiu da sala de aula.

 

— Onde está indo?

 

— Para a lanchonete. Não posso comer pasta de feijão vermelho no almoço.

 

Ele foi até a lanchonete localizada no final do segundo andar.

 

No entanto, chegou um pouco tarde demais, pois só havia uma fatia de pão de yakisoba, um pedaço de pão de geleia, um pãozinho de chocolate e uma fatia de torrada doce disponíveis.

 

Koremitsu não gostava de doces. Para ele, pão com geleia e pãozinho de chocolate eram opções desagradáveis.

 

Assim, só pôde escolher o pão yakisoba.

 

Bom, acho que ainda ter um pão de yakisoba é melhor do que não ter nada para comer...

 

Com um olhar sombrio no rosto, estendeu a mão para frente.

 

— !

 

Simultaneamente, outra mão surgiu do outro lado, também agarrando o pão de yakisoba.

 

Isso é ruim. Meu almoço estará perdido se eu não puder comprar isso.

 

Koremitsu olhou na direção do dono da outra mão com seu olhar característico.

 

Diante de sua expressão selvagem e olhar hediondo, qualquer pessoa comum teria desmoronado no mesmo instante. Uma aura diabólica parecia brilhar por trás de suas costas ligeiramente arqueadas.

 

Todavia, a outra pessoa que pegou o pão de yakisoba era alguém que Koremitsu conhecia.

 

A garota de aparência feroz que senta ao meu lado na sala!

 

A pessoa ao seu lado compartilhou uma expressão de choque com Koremitsu. Mas, rapidamente se transformou em um olhar de antagonismo.

 

Ela ergueu as sobrancelhas, seus olhos queimando como chamas enquanto o encarava.

 

Era inacreditável pensar que diante dessa pessoa conhecida pelos outros como “O Cão do Inferno”, havia uma garota que ainda mantinha sua vontade de lutar.

 

Porém, não hesitou em sua determinação de não entregaria o pão de yakisoba para ela.

 

— Ugh!

 

— Uuu!

 

Os dois eram como animais selvagens que tinham acabado de encontrar seus inimigos naturais, pois cada uma de suas expressões, lábios tensos e sobrancelhas trêmulas tentavam assustar o outro.

 

— Uu! (Ei, solte isso. Essa é minha presa.)

 

— Uuu! (Sem chance. Eu peguei primeiro!)

 

Nenhum dos dois recuou enquanto discutiam intensamente.

 

No meio do silêncio que havia entre os dois, faíscas voaram.

 

O que devo fazer?

 

Em termos de força, era certeza que não perderia para uma garota.

 

Contudo, se puxasse o pão apenas com força bruta, poderia acabar rasgando a embalagem plástica e o pão poderia cair no chão. Se tentasse puxar com mais força, acabaria amassando o pão.

 

Tenho que pensar em um plano aqui...!

 

— Koremitsu, você está lidando com uma garota. De o pão a ela! Damas primeiro!

 

Atrás dele, Hikaru falou com espanto.

 

— De jeito nenhum! Mesmo sendo mulher, não vou entregar meu almoço!

 

Ele deixou essas palavras escaparem e demonstrou arrependimento por tê-las dito. A garota diabólica chutou Koremitsu no joelho.

 

Foi um chute brilhante, que conseguiu a harmonia perfeita de velocidade, tempo e potência.

 

— Uooh.

 

Koremitsu perdeu o equilíbrio e o pão escorregou de sua mão.

 

— Wah, Koremitsu!

 

O inimigo pegou o pão sem piedade.

 

— Ack! Sua...

 

Koremitsu olhou e descobriu que a garota já havia pago e ficado com o pão de yakisoba para si.

 

— Desprezível!

 

Ela pegou o pão, virou-se inalterada e olhou para o furioso Koremitsu.

 

Seu cabelo bege claro e brilhante balançava.

 

— A culpa é sua por não me levar a sério só por ser uma garota.

 

Sua voz assumiu um tom gélido, pelo visto zombando-o, e pegou o pão de yakisoba e uma xícara de café com leite antes de sair.

 

Koremitsu observou suas pernas longas e finas em uma saia curta desaparecerem gradualmente de seu campo de visão.

 

— Ugh, por que ela é tão violenta? Eu a deixei conseguir o que queria.

 

— Sim, essas pernas são lindas.

 

Não sobrou nada no balcão para o almoço de Koremitsu.

 

— Por que as outras coisas já estão esgotadas?

 

Seu grito ecoou enquanto sacudia as caixas vazias, assustando a moça da padaria.

 

— Droga, aquela garota... Espero que seja acometida por uma doença que a deixe dependente de celulares e envie tantas mensagens que desenvolva tenossinovite até seus dedos caírem.

 

Koremitsu, que estava no telhado que deveria ser proibido, comeu seu almoço de pasta de feijão vermelho, leite, suco de vegetais, bebida esportiva e água com vitaminas enquanto continuava a lamentar a injustiça que acabara de sofrer.

 

— Já chega não é, Koremitsu? Afinal, é uma garota. Um delinquente como você será odiado pelos outros, sabia?

 

— Eu não sou um delinquente.

 

— Se quer negar, tem que manter suas ações sob controle.

 

As repreensões de Hikaru começaram a lhe causar enxaqueca. Até então, a única pessoa que reclamava era Koremitsu, dos maneirismos de Hikaru.

 

O que é isso? Por que está agindo de forma tão madura de repente?

 

Ele lembrou que quando Hikaru estava discutindo em frente ao armário de sapatos, ele alegou que “não conseguia deixar uma garota chorando sozinha”, mostrando uma expressão severa.

 

Na verdade, esse cara é muito gentil com as garotas. Será essa a definição de um cavalheiro? Bem, talvez seja um exagero, mas me sinto infeliz por ser, em certa medida, verdade.

 

— Cale... Cala a boca.

 

— Além disso, quem está sentada ao seu lado na aula é a Srta. Shikibu. Você deveria se dar melhor com os outros.

 

— Ela se chama Shikibu? Como sabe o seu nome?

 

— Sério, Koremitsu, como pode não saber o nome da garota sentada ao seu lado? E é alguém tão bonita também; tem sobrancelhas tão fofas e é uma garota muito atraente. Quanto a essa Srta. Honoka Shikibu, é uma pessoa bastante popular.

 

— Hã? Aquela garota fria que fica mandando mensagens?

 

Koremitsu certa vez pensou que, como ela lançava um olhar tão feroz enquanto enviava mensagens, transmitindo uma presença ameaçadora, sem dúvida seria o tipo de pessoa que seria isolada pelos outros na sala de aula.

 

— A Srta. Shikibu não é popular apenas com os meninos. Há também muitas fãs mulheres por aí. Ela é atlética, ajuda os outros com frequência e tem um senso de cavalheirismo apurado. Uma pessoa que as meninas realmente admiram.

 

Cavalheirismo?

 

Como ser útil aos outros?

 

— Não sei. Não sei o que essas pessoas pensam!

 

— Mesmo que você desvie o olhar e negue... Não acha que a Srta. Shikibu tem pernas muito bonitas?

 

— E VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO QUE A ARMA USADA PARA ME CHUTAR É ATRAENTE?

 

— Aquela expressão agressiva realmente me encantou.

 

— Só consigo achar nojento.

 

— O seu cabelo é de uma cor bronzeada e sedutoramente liso.

 

— Como é agradável olhar para essa cor parecida com a de um esquilo?

 

— Ei, Koremitsu, não acha que está sendo muito exigente com as garotas?

 

— É. O vovô sempre me disse para não ser muito gentil com as garotas.

 

Hikaru suspirou e continuou.

 

— Não há nada mais bonito e fofo do que garotas neste mundo. Elas são gentis, e ao mesmo tempo resistentes.

 

A insistência em dizer aquilo era algo que Koremitsu sentia que nunca conseguiria entender em toda a sua vida, e queria que continuasse assim.

 

As mulheres eram uma existência estranha para Koremitsu, pois ele às vezes as olhava com pupilas sombrias... Elas em toda sua inexplicável fragilidade diante dele.

 

— Se você pudesse entender a beleza das garotas.

 

Hikaru murmurou num tom triste, mudando rapidamente de volta para sua voz para alegre.

 

— Ok, que tal tentar namorar uma garota? Vamos encontrar uma garota que faça seu coração disparar. Eu vou te mostrar. Depois, vamos chamar duas garotas e sair em um grupo de quatro. Vai ser divertido!

 

— Tá esquecendo que já está morto?

 

— Ah, é verdade.

 

— Sério, isso é algo importante, ok? Vejo que esqueceu que é um fantasma com seus ritos funerários concluídos.

 

Hikaru soltou uma risadinha.

 

— A culpa é definitivamente sua.

 

— HÃ?

 

Quase ignorando a explosão de Koremitsu, Hikaru falou gentilmente em um tom que parecia exalar uma fragrância maravilhosa com cada palavra.

 

— Porque você conseguiu ouvir a minha voz e conversar comigo. É como se eu tivesse feito um amigo. Podemos ir e voltar da escola juntos, podemos ir à casa um do outro... Podemos até conversar durante os intervalos das aulas ou no horário do almoço.

 

A cabeça de Koremitsu começou a ficar quente.

 

O que esse cara está dizendo?

 

O coração de Koremitsu começou a vacilar por algum motivo ridículo, e ele ficou confuso.

 

É-É mesmo? É isso que significa ir à escola, voltar da escola e almoçar com um “amigo”? Entendo, então é assim.

 

Ele refletiu sobre o que Hikaru disse.

 

Seu rosto parecia estar em um calor sufocante.

 

Seu peito começou a coçar tanto que era quase insuportável.

 

— Não somos exatamente amigos de verdade, só “designados” como tal, certo?

 

Enquanto falava, ele deliberadamente desviou o olhar de Hikaru. Este permaneceu calmo em resposta.

 

— Bem, sim. Somos apenas amigos “temporários” até darmos os presentes à Srta. Aoi.

 

Koremitsu percebeu que talvez tivesse ferido os sentimentos de Hikaru ao dizer que eram apenas “designados” como amigos. Seu coração doeu com o pensamento, acompanhado de uma anormal sensação de forte solidão.

 

— Oh, então vou te ajudar a realizar seu desejo e te deixar ascender ao céu! Eu não suporto quando você começa a explicar coisas relacionadas a flores. Por sinal, flores murcham com muita facilidade e podem quebrar com facilidade; podem ser esmagadas sem esforço, não podem ser comidas e não servem para nenhum outro propósito.

 

Koremitsu não sabia o que fazer com essa solidão inexplicável em seu peito, sua voz ficando mais rouca do que antes.

 

Não havia razão para mencionar flores.

 

Hikaru continuava tão otimista quanto sempre.

 

— Ah, mas também há flores comestíveis, como dente-de-leão, violetas, rosas e outras. Elas também têm um gosto muito bom. Ah, sim, vamos convidar as meninas para colher grama na próxima vez.

 

Koremitsu, tentando conter seu desconforto até aquele momento, só conseguiu demonstrar perplexidade em seus olhos ao ouvir a proposta de Hikaru.

 

Colher grama?

 

Animado, Hikaru começou a explicar.

 

— Em outras palavras, vamos colher capim comestível na natureza da próxima vez. Aquelas meninas que gostam de ir ao ar livre, para as colinas e florestas, são muito fofas, e podemos aumentar nossa intimidade uns com os outros enquanto preparamos comida. Além disso, pode satisfazer seu desejo por comida, sabia? Ah, porém acho que as meninas preferem que alguém lhes dê flores em vez de comê-las. Se colher uma flor simples que só floresce na natureza, o carinho dela por você aumentará muito!

 

Koremitsu tentou imaginar a cena em sua mente.

 

“Viu só! Tem dente-de-leão por todo lado! Vamos jantar tempurá de dente-de-leão e dente-de-leão cozido hoje à noite!”

 

Em um campo verdejante, Hikaru segurava dentes-de-leão em ambas as mãos, com um sorriso radiante no rosto.

 

Por razões desconhecidas, havia música Yodel ao fundo.

 

Ele estava cercado por um grupo de garotas desconhecidas.

 

“Kya! Você é incrível, Hikaru!”

 

“Quero experimentar sua comida, Hikaru!”

 

Elas estavam pulando e comemorando de alegria.

 

— Por exemplo, uma coroa feita de dentes-de-leão ou trevos brancos será muito eficaz. Para um rapaz robusto como você, as pessoas vão gostar se conseguir fazer uma coroa de flores um pouco desajeitada. Tenho certeza de que se sentirá muito tocada. Mesmo que seja apenas uma flor, pode colocá-la no dedo anelar. Seria muito eficaz também. Vou te ensinar como fazer; é muito simples, e tenho certeza de que concordará, Koremitsu...

 

— Já não te disse para não falar comigo sobre flores e mulheres, seu príncipe do harém?

 

As palavras duras de Koremitsu eram um fino véu sobre o arrependimento que sentia por sua insensibilidade com Hikaru. A dor em seu coração persistia, embora a atmosfera pesada foi dissipada com a sugestão de Hikaru.

 

Como esperado, esse cara é apenas um bastardo mulherengo despreocupado!

 

Hikaru deu de ombros, fingindo resignação.

 

— Parece que falhei.

 

— De qualquer forma, agora não é hora de tentar conquistar garotas, e sim de pensar seriamente em como podemos transmitir seus sentimentos à sua noiva. Ela é bem difícil de lidar. Afinal, os presentes que com os quais quer presenteá-la não são do tipo que se guarda num armário de sapatos.

 

Essa foi a coisa mais problemática para Koremitsu.

 

Hikaru prometeu dar seis presentes diferentes para Aoi em seu aniversário, mas não eram coisas que pudessem ser compradas em uma loja e dadas a outros tão fácil como com um “Oi, por favor aceite isso”.

 

Para fazê-la aceitar todos esses presentes, o notório Akagi Koremitsu teve que agir como mensageiro de Hikaru Mikado e fazer Aoi aceitar esses presentes de boa vontade.

 

Será que consigo mesmo?

 

Afinal, somos apenas amigos “temporários”.

 

Koremitsu franziu a testa com um gemido, e Hikaru falou.

 

— Ah, só esqueci de uma coisa muito simples.

 

— Hã?

 

— Só a Srta. Aoi e eu sabemos da minha promessa de dar os sete presentes.

 

— Oh.

 

— Em outras palavras, se contar a ela, provará que é meu representante, e enfim ela abrirá o coração para você.

 

— Ahh... Esse tipo de ideia pode funcionar!

 

Koremitsu se levantou.

 

— Devia ter dito isso desde o começo, seu desgraçado. Agora já temos algum progresso.

 

— Ahaha, acabei ficando distraído.

 

— Parece que meus dias de ir ao banheiro e tomar banho sozinho estão ao meu alcance!

 

Sob o céu azul-celeste, ambos seguraram as mãos carinhosas um do outro como amigos de verdade (mesmo que fosse impossível), e aproveitaram o momento para saborear sua felicidade.

 

***

 

O intervalo para almoço terminou e, quando Honoka Shikibu conseguiu avistar Koremitsu vindo do telhado em direção à sala de aula, olhou para ele com uma expressão irada.

 

Koremitsu também se lembrou de sua própria mágoa por ter seu pão de yakisoba tomado e pretendia encará-la de volta; porém a esperança de que ainda pudesse resolver a situação em relação a Aoi o impediu de fazê-lo.

 

Hmpf. Não sou um sujeito mesquinho que se preocupa com detalhes.

 

Ele escolheu ignorá-la.

 

O dia escolar chegou ao fim. Koremitsu levantou-se da cadeira e foi para a sala de artes no 3º andar para cumprir sua responsabilidade como mensageiro de Hikaru.

 

— Hã? Não tem ninguém por perto.

 

— Acho que chegamos um pouco cedo.

 

Não havia ninguém na sala de aula, apenas um gesso de pedra para desenho os observava. A tela e os cavaletes estavam jogados em um canto.

 

— Esta é... A pintura da Srta. Aoi.

 

Hikaru flutuou até uma tela e sorriu.

 

Koremitsu também se aproximou e deu uma olhada.

 

— Heh... Isso está inesperadamente... Bem desenhado.

 

Ele não estava elogiando-a por elogiar, estava de fato encantado com seu trabalho.

 

Era uma pintura da escadaria da escola, desenhada a partir do degrau inferior, olhando para cima. A pintura foi feita para parecer envolta em uma camada de névoa dourada, coberta por uma esplêndida mistura de tons calmantes.

 

Os raios de luz que entravam do alto da escada eram cálidos, e era impossível não fechar os olhos e sentir seu abraço. No entanto, havia uma sensação de solidão na ausência de alguém naquele cenário.

 

Essa pintura gentil e um pouco solitária é daquela garota cínica...?

 

— A Srta. Aoi é muito boa em pintar fundos, sejam as escadas, o armário de sapatos da escola, o corredor, as estantes de livros na biblioteca, o palco de um ginásio vazio, o bebedouro da escola... Ela sempre consegue usar cores suaves e retratar os pequenos detalhes que as pessoas comuns costumam não notar.

 

Hikaru parecia ter sido ele quem pintou a obra de arte enquanto sorria cheio de orgulho.

 

Observando a pintura, seus olhos eram intensos... Como se estivessem protegendo um tesouro, e repletos do que parecia ser uma mistura de emoções poderosas. A luz do sol dançava em partículas no ar ao redor de uma janela aberta, onde elas flutuavam enquanto Hikaru permanecia ali.

 

Esse cara é um playboy impenitente, mas seus sentimentos pela Aoi são reais...

 

Até mesmo Koremitsu, que era lerdo em questões românticas, conseguia entender um pouco do que Hikaru sentia ao examinar a pintura de Aoi.

 

Ele, que antes não estava disposto a ajudar Hikaru... Apenas esperando mandá-lo para o Céu... Depois de ver o afeto sincero de Hikaru por sua namorada, realmente queria ajudar a transmitir os seus sentimentos para ela.

 

Sou apenas seu amigo “temporário” por enquanto... Porém acabei aceitando seu apelo por causa do destino. Com certeza vou te ajudar a entregar seus presentes para a Aoi. Vou ter a certeza de expressar seus sentimentos a ela.

 

Ele disse isso a si mesmo como um compromisso.

 

— O que você está fazendo?

 

Uma voz tensa veio de trás.

 

Aoi, pálida, estava parada na porta. Sua testa franziu um pouco e mordeu os lábios de raiva.

 

— Por favor, saia.

 

Seus ombros esguios tremiam. Talvez estivesse com medo da aparência de Koremitsu.

 

— Senhorita Aoi, por favor, ouça o Koremitsu.

 

Hikaru falou, aparentemente para tentar acalmá-la.

 

Sua voz não conseguia alcançar os ouvidos de Aoi.

 

— Como disse ontem, não quero falar com você de forma alguma.

 

Koremitsu olhou para Hikaru com uma expressão que dizia “Deixe comigo”. Seus músculos faciais enrijeceram, fazendo a expressão mais séria que conseguiu e caminhou em direção a Aoi.

 

Aoi não estava sozinha em choque com isso.

 

— Eu não lhe dei o segundo presente de Hikaru.

 

Ao ouvir tais palavras, o corpo de Aoi se contraiu. Seus olhos revelavam surpresa. Estava, sem dúvida, abalada por Koremitsu ter mencionado algo que só ela e Hikaru deveriam saber.

 

Ótimo, acho que consegui a atenção dela.

 

Ele olhou de relance para Hikaru, que os observava tenso e fazia sinal de positivo, indicando que as coisas estavam indo bem.

 

— Hikaru prometeu te dar sete presentes, e os seis restantes estão comigo por enquanto. Espero te dar no seu aniversário, então, nesse dia, por favor...

 

De repente, uma sacola foi jogada no seu rosto.

 

Quando Hikaru gritou.

 

— Senhorita Aoi, por favor, pare!

 

— O quê... O quê no mundo...

 

Aoi parecia um gato com os pelos eriçados enquanto ofegava e encarava Koremitsu.

 

Sua expressão ficou lívida.

 

Seus punhos tremiam mais do que antes no momento em que Koremitsu falou, mordendo os lábios com mais força e suas sobrancelhas estavam franzidas.

 

Antes que Koremitsu pudesse entender o que estava acontecendo, ela jogou tudo, de pincéis a baldes e lápis de desenho na sua direção.

 

— Por favor, não minta dessa forma! Por que o Hikaru te pediria uma coisa dessas antes de morrer? Ele morreu em um acidente!

 

Argh, esqueci disso.

 

No momento em que Hikaru deu a Aoi seu primeiro presente, não tinha como saber que estava prestes a morrer.

 

— Senhorita Aoi. Koremitsu ouviu de mim que eu pretendia dar sete presentes a uma garota muito importante, e decidiu me ajudar a cumprir essa missão!

 

Hikaru continuou a explicar enquanto estava ao lado deles.

 

— É-É verdade! Sou amigo do Hikaru! Já ouvi falar dos sete presentes antes, que tinha intenção de entregá-los a uma garota muito importante!

 

Sua voz se elevou enquanto desviava dos pincéis e lápis. Como estava muito ansioso, acabava dizendo as coisas de forma embaralhada.

 

— Você entrou na escola pela primeira vez um dia antes da Semana Dourada4. Asa disse que você só apareceu uma vez na escola antes da morte de Hikaru e que não pode ser seu amigo. E disse que está pretendendo mentir para mim; que suas palavras são mentiras e que não devo te dar ouvidos.

 

Quem é Asa? Hã?

 

— Senhorita Aoi. Por favor, acalme-se. Sou amigo íntimo do Koremitsu há muito tempo.

 

— É verdade! Sou irmão juramentado do Hikaru há dez anos.

 

— Hikaru nunca teve amigos homens desde o jardim de infância! Todas as suas colegas eram mulheres! Foi o que Asa disse também! Hikaru não pode ter amigos homens!

 

Quem diabos é essa Asa, afinal?

 

Tubos de tinta vermelha, azul, preta e verde foram atirados em sua direção. Aoi, que agora ofegava descontroladamente sobre uma tela, cerrou os dentes enquanto seus olhos se transformavam em chamas.

 

— Se o que disse for um pouquinho verdade, significa que o Hikaru contou aos outros sobre a promessa que fez comigo. Com certeza deixou escapar durante uma conversa de travesseiro com outra mulher, e essa mulher contou aos outros por empolgação, foi assim que descobriu.

 

— Isso não é verdade, Srta. Aoi!

 

Hikaru ficou desesperado.

 

Aoi perdeu o controle das emoções. Não importava o quanto tentassem negar suas acusações, ela se recusava a ouvi-los.

 

— SAIA! POR FAVOR, SAIA! POR FAVOR, NÃO ME TRATE COMO UMA IDIOTA! MESMO QUE ASA NUNCA O TENHA DITO, NÃO VOU PERDOAR UMA PESSOA DESPREZÍVEL COMO VOCÊ!

 

Aoi continuou o ataque, parecendo que até mesmo jogaria a tela e os cavaletes.

 

— Isso não vai dar certo, Koremitsu. Vamos tentar outro dia.

 

— Ei, Mikado. Você não é nada confiável, né?

 

— Por favor, vá!

 

Koremitsu ergueu a bolsa para bloquear os projéteis atirados em sua direção durante sua fuga. Aoi não parou até vê-lo sair pela porta. Então, ele voltou a abri-la.

 

— Eu voltarei!

 

Koremitsu gritou enquanto colocava o rosto para fora da bolsa, e uma paleta atingiu seu queixo, derrubando-o.

 

— Woah!

 

Ele escorregou e tentou recuperar o equilíbrio, no entanto não conseguiu e caiu no chão dos corredores.

 

— KYAA!

 

Ouviu-se uma voz aguda, e o nariz de Koremitsu captou algo doce, seu rosto enterrado em algo macio.

 

Hm? O que é isso? Por que tem almofadas no chão?

 

— Droga, isso é péssimo, Koremitsu! Nem eu fiz uma coisa dessas nos corredores da escola antes!

 

Por que Hikaru está tão ansioso?

 

No momento seguinte...

 

— SEU PERVERTIDO!

 

Ele foi atingido com força no peito.

 

Levantando a cabeça, encontrou o rosto de Honoka Shikibu a centímetros de distância. Seu rosto estava vermelho, e sua expressão assassina o encarou.

 

Os seios de Shikibu estavam logo abaixo do rosto de Koremitsu, confirmando que aquela coisa almofadada de antes era o decote de Shikibu. O pior era que o joelho de Honoka pressionava seu abdômen.

 

Um impacto mais forte veio. Shikibu cerrou o punho e o acertou no lado direito na testa de Koremitsu.

 

— GUAH!

 

Koremitsu saiu de cima dela.

 

— PERVERTIDO! MOLESTADOR! MORRA!

 

Shikibu começou a chutar os ombros e o abdômen de Koremitsu com os calcanhares e os dedos dos pés.

 

Koremitsu chorou de angústia enquanto recebia golpes de kickboxer.

 

— Senhorita Shikibu, você está enganada! Foi um acidente!

 

Hikaru tentou o seu melhor para explicar, mas, como já havia sido provado naquele dia, suas explicações foram inúteis.

 

Shikibu lançou um olhar de desprezo para o abatido Koremitsu, que permanecia imóvel em seu uniforme desgrenhado.

 

— Se ousar empurrar outra garota na escola e enterrar sua cabeça nos seios dela, vou te dar uma boa surra!

 

Com essa declaração, ela foi embora.

 

Uma multidão se formou ao redor de Koremitsu enquanto os espectadores começavam a discutir a luta.

 

— Shikibu é incrível.

 

— O delinquente não terá uma vida difícil.

 

Aoi, que estava parada na porta, também deu sua opinião.

 

— Justo como o Asa disse. Você é o pior.

 

Seu murmúrio frio foi acompanhado do som da porta batendo.

 

Em meio aos livros didáticos e materiais de papelaria espalhados, Koremitsu estava esparramado no chão.

 

Droga! Não cai nos peitos da Shikibu por causa da paleta que você jogou em mim? E essa tal de Asa ou sei lá o quê me odeia, né?

 

Ele vociferou em sua mente.

 

Uma voz ao seu lado soou mais alta que as outras.

 

— Koremitsu! Aguenta firme, Koremitsu! Não morra também!

 

Hikaru disse algumas coisas ameaçadoras.

 

***

 

— Eu devia saber, mulheres não prestam. Aquela garota de cara feia me chutou sem me dar chance de explicar, e aquela sua noiva só enlouqueceu e jogou todos os pincéis e tintas em mim! Não sou nenhum alvo de tiro, pelo amor de Deus...! É por isso que digo, mulheres...

 

Koremitsu sentou-se no tatame de sua casa, murmurando o slogan de seu avô para desabafar suas frustrações.

 

Ainda se sentia dolorido pela surra que recebeu de Shikibu; seus ferimentos eram tão graves que quase foi hospitalizado.

 

— De qualquer forma... Sinto muito por essa confusão.

 

Hikaru, despreocupado por natureza, só conseguiu sentar e pedir desculpas a Koremitsu.

 

— A Srta. Aoi ter me considerado tão indigno de confiança... Não é como se nunca tivesse esperado, porém não podia imaginar que seria tão sério... A Srta. Aoi levou a sério meu tratamento com as mulheres? Só que cada flor tem um encanto próprio.

 

— É melhor que sua reflexão nesse assunto seja tão profunda quanto o mar, seu grande pervertido.

 

— Sim...

 

Hikaru se encolheu diante dessas palavras.

 

— Então, o que devemos fazer agora? Ela te tratou como um mulherengo que saiu tagarelando sobre sua promessa durante uma conversa de travesseiro com outras meninas, e por isso, sua aversão está ainda pior. Será que podemos mesmo abrir seu coração antes do aniversário?

 

— Esqueci que a Srta. Aoi é diferente das outras garotas.

 

Hikaru franziu a testa, desanimado.

 

— Não consigo me recompor sempre que encaro a Srta. Aoi... Mesmo quando eu estava vivo, fazia muito mais coisas para irritá-la do que para alegrá-la. Uuh... Sou um galã inútil.

 

— Não diga que você é um galã, ok? Além do mais, não podemos deixar isso continuar.

 

— Precisamos de alguém que entenda o coração de uma mulher para dar sugestões.

 

Koremitsu ficou surpreso com a proposta de Hikaru.

 

— Por exemplo, precisamos de uma irmã mais velha, educada e gentil, admirada por todas as meninas do primeiro ano, alguém com quem todos possam conversar. Assim como a flor do amor da América do Sul, Heliotrópio... Chamado de fragrância roxa em japonês, uma mulher confiável, radiante, elegante e com grande conhecimento.

 

— Mulheres de novo?

 

De repente, ambos ouviram uma canção alegre.

 

— O-O que é isso?

 

Era um sucesso de alguma banda famosa. A letra dos vocais femininos era um incentivo ao amor. Todavia, era de se perguntar de onde vinha.

 

— Koremitsu, seu telefone está tocando.

 

Koremitsu não se lembrava de ter definido essa música como toque de celular. Deixando essa parte de lado, era inacreditável que tivesse recebido uma mensagem.

 

Ele vasculhou sua bolsa e encontrou o telefone tocando.

 

O telefone era lilás, decorado com acessórios brilhantes, e havia um chaveiro de um urso feio, ou algo assim, pendurado.

 

— Este telefone não é meu.

 

— Parece ser de uma menina.

 

O telefone continuou tocando. Devo atender?

 

Ele abriu o telefone, mas não estava familiarizado com seu funcionamento. Apertou alguns botões aleatoriamente e o toque parou. Então, um registro de mensagens apareceu na tela.

 

“Para: Princesa Púrpura: sobre o primeiro encontro que tive com Tomonori (>_<)”

 

— Princesa Púrpura?

 

Koremitsu continuou com as outras mensagens.

 

“Re: Princesa Púrpura: Vou me confessar amanhã!”

 

“Princesa Púrpura! Yuuki quer falar com você sobre o ex-namorado dela!”

 

“Re: Princesa Púrpura: Fiz as pazes com K.”

 

Ele examinou a lista e encontrou o nome Princesa Púrpura em todos os lugares.

 

— Princesa Púrpura? Que nome idiota. — comentou e Hikaru interveio.

 

— Já ouvi falar disso antes. É algo que as meninas conversam entre... Bem, espera, por favor, deixa eu me lembrar. Minha memória se multiplica por dez quando se trata de meninas. Ah, sim, foi quando estive voltando com a segundanista, a Srta. Reiko, da Academia Seibi, depois que fomos ver a exposição de Renoir...

 

Sua mão pousou abaixo do queixo enquanto ponderava por um tempo.

 

— Ah, sim! Ela é uma romancista de internet!

 

— Uma romancista de internet?

 

— Sim, é uma doce história de amor com muitas mudanças de humor. Assim que postou no blog, houve muitas respostas pedindo conselhos amorosos, e ela foi aclamada como a “especialista em amor”. Seu celular consegue acessar a internet, Koremitsu?

 

— Acho que sim, mas nunca entrei na internet antes.

 

— Então, vamos tentar procurar por essa Princesa Púrpura.

 

Com Hikaru o guiando, Koremitsu usou seu telefone para digitar o nome “Princesa Roxa” na barra de pesquisa.

 

A principal pesquisa mostrou um blog chamado “Mansão da Princesa Púrpura”.

 

— Achei.

 

Koremitsu clicou no link e apareceu uma página da web deslumbrante, em roxo, com todos os tipos de funções para exibir.

 

Havia algumas abas classificadas que incluíam “romance”, “conversa de amor” e “diário”. Ele clicou em “romance” e apareceu prosa em muitos parágrafos e quebras de linha.

 

“O suspiro do guaxinim

Desce sobre meu rosto.

Frio.

Picante.

Meu coração dói.

Não é bom.

Acho que realmente me apaixonei.”

 

— ???

 

Um hálito picante? Dor no coração? Não entendo nada. E por falar nisso, isto é um romance? Ou é um poema?

 

Sua cabeça inclinou e clicou na aba “conversa de amor”.

 

“Hoje, vou responder aos problemas da Senhorita Flor de Cacto!

Este é o e-mail enviado pela Srta. Flor de Cacto!”

 

“Princesa Púrpura, por favor, me escute.

Sou uma estudante do primeiro ano do ensino médio que realmente ama K, da minha turma.

K me trata como uma mera amiga e nunca me tratou como uma garota antes.

K gosta de Y-bi, minha colega de clube, e me pediu para ajudá-lo a perguntar se há alguém com quem ela está saindo.

O que devo fazer?”

 

Após essa pergunta, veio a resposta da Princesa Púrpura...

 

“Senhorita Flor de Cacto!

Você definitivamente deve mostrar seus sentimentos para K.

Sei que tem medo de terminar seu relacionamento com K, porém será ainda mais insuportável se K sair com outra garota.

Precisa agir agora!

Para que sua confissão seja um sucesso, esta Princesa Púrpura lhe dará algumas dicas.

Primeiro, precisa deixá-lo saber que você, Flor de Cacto, é uma menina. Isto é o mais importante!

Seu penteado, joias e maquiagem devem ser um pouco femininos.

E então, se K perguntar o que está acontecendo, deve parecer fraca e responder com sutileza.

‘Tem alguém de quem eu gosto e espero que ele me note.’

Depois disso, ele provavelmente vai se perguntar quem é a pessoa de quem você ‘gosta’.”

 

Essas perguntas e respostas sobre o amor continuaram na página.

 

Koremitsu olhou para o telefone.

 

— Ei, a dona deste telefone dentro da minha bolsa é a “Princesa Púrpura”, certo?

 

— Pelo título do e-mail, parece ser o caso.

 

— Acabei de levar um chute feio do Shikibu na frente da sala de artes, certo?

 

— Sim, a saia dela estava bem exposta. Suas belas pernas estavam à mostra, e suas coxas estavam bem visíveis.

 

— Assim que ela saiu, eu me levantei. As coisas da minha bolsa caíram para todos os lados quando me levantei. Fiquei envergonhado e furioso, e de qualquer forma, só peguei tudo que estava no chão e coloquei na minha bolsa...

 

— Sim.

 

Hikaru e Koremitsu olharam para o telefone com intriga.

 

— Talvez o telefone de Shikibu... Acabou dentro da minha bolsa.

 

— Essa é uma possibilidade.

 

— Em outras palavras, este telefone...

 

Koremitsu teve um mau pressentimento enquanto falava.

 

— Shikibu é a Princesa Púrpura?

 

Notas:

1. Jūnihitoe, traduzido literalmente como túnica de doze camadas; usada por damas da corte desde a Era Heian. Notável por seus designs intrincados e graciosos.

2. Uma trupe musical e teatral exclusivamente feminina no Japão.

3. Chabudai é uma mesa de refeições comum no Japão. Em geral, elas são de forma retangular ou circular, e muitas são dobráveis.

4. A Semana Dourada é a junção de quatro feriados nacionais no final de abril / início de maio, que ocorre no Japão. Combinada com alguns fins de semana, torna-se uma das datas preferidas das pessoas, o que causa uma grande aglomeração nas cidades.


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