Volume 01: Aoi — Capítulo 02: Parece que Sua Alteza o Príncipe gosta mais de garotas
Após muitas tentativas, Koremitsu e Hikaru descobriram que era possível manterem uma certa distância em áreas espaçosas. A distância máxima entre os dois era de três metros. Em espaços apertados, como um banheiro químico, eram forçados a se aproximarem. Se Koremitsu não se movesse, Hikaru não conseguiria sair do espaço.
Que piada é essa? Agora
temos que ficar juntos só para usar o banheiro?
Às vezes, algumas garotas
amigas poderiam ter dado as mãos antes de irem para o banheiro, mas
compartilhar a mesma cabine era impossível, e era ainda mais constrangedor para
dois garotos. O que agravava o problema para Koremitsu e Hikaru de
compartilharem o mesmo banheiro era o fato de que, acima de tudo, eram meros
conhecidos.
Koremitsu lembrou-se da sensação desconfortável de encarar Hikaru e urinar, seu rosto parecia estar fervendo em fogo enquanto corava.
Nada parecia mais
problemático do que sua presença. O pedido de Hikaru precisava ser atendido o
mais rápido possível para que ascendesse ao Céu.
Na manhã seguinte,
Koremitsu entrou na escola com essa firme determinação.
— É a primeira vez que
ando num ônibus cheio de gente.
Brincando, Hikaru colocou
a cabeça para fora de uma brecha na multidão a bordo, com os muitos passageiros
amontoados como uma lata de sardinhas. Não parecia haver nada mais sobrenatural
do que a visão de seu rosto fino se sobrepondo ao de estranhos em um ambiente
tão lotado.
Ele não estava preocupado
com Koremitsu, que desviava o olhar deliberadamente. Hikaru continuou
resmungando para si mesmo assim que cada um desceu do ônibus e partiu para a
escola.
No caminho, Hikaru se
virou para falar.
— Eu era representante de
jardinagem e íamos enterrar sementes de dália e capim-limão em maio. Em que
atividade você está envolvido, Koremitsu?
Sem se dar conta, Hikaru
o chamou de “Koremitsu” em vez de “Sr. Akagi”.
Koremitsu abriu a boca
para repreendê-lo por ser muito íntimo, mas foi interrompido.
— Eu disse isso porque
nós dois somos “designados” como amigos de agora em diante. Seria indelicado da
minha parte chamá-lo de Sr. Akagi neste momento, certo? Pode me chamar de
Hikaru também, Koremitsu.
Ele continuou sem parar,
desviando-se de qualquer argumento.
— Então, o que costuma
fazer? Entrou para um clube de artes marciais, certo? Era boxe ou kung fu?
— Eu era membro do Comitê
de Criação de Animais de Estimação na escola primária. Na época, cuidava de
perus e coelhos.
Franzindo a testa, Hikaru
deu uma resposta um pouco sutil.
— Entendo. Então você
gosta de animais.
— Os perus são deliciosos
quando assados.
As palavras saíram sem
nenhum complemento de Koremitsu.
— Aquele nariz vermelho é
muito fofo. Parece um lírio-aranha vermelho.
Hikaru não pareceu se
importar e continuou a conversa de maneira unilateral.
Este príncipe
despreocupado sabia mesmo que havia morrido?
Koremitsu se conteve para
não fazer birra com ele enquanto os dois passavam pelo elaborado portão da
escola.
A Academia Heian era uma
escola com todas as instalações educacionais, desde um jardim de infância
afiliado até a universidade. O ensino fundamental e o ensino médio tinham
portões diferentes, contudo estavam localizados na mesma área do campus.
Koremitsu pegou seus
sapatos no armário e começou a calçá-los.
— Ah.
Hikaru soltou um suspiro.
Ele leu um jornal escolar
com uma foto sua de quando estava vivo, preso no quadro de avisos no corredor.
Havia pedaços de papel
colorido colados ao lado, com palavras de pesar escritas à mão em cada um.
“Até a próxima.”
“Fui eu quem mais te amou.”
“Nunca vou te esquecer.”
“Senhor Hikaru, você foi
parte da nossa juventude.”
Mesmo agora, ainda havia
meninas aglomeradas no quadro, com os olhos vermelhos enquanto escreviam
mensagens.
Entre elas, havia uma
menina que chorava ao ler os sentimentos de cada uma. Suas duas mãos cobriram o
rosto, com sua boa amiga ao seu lado para consolá-la, apesar de estar com os
olhos marejados.
Koremitsu sentiu seu
corpo inteiro sendo amarrado ao chão.
Tenho que dizer, mesmo
que você não tenha amigos, muitas pessoas aqui não estão tristes com sua morte?
Seu corpo sentia uma
agonia cortante, e seu peito ardia de calor.
Pensou que Hikaru pudesse
derramar uma lágrima, entretanto uma voz gentil soou ao seu lado.
— Você é como uma
margarida balançando na brisa da primavera. Por favor, não chore. Lágrimas não
combinam com você.
Hikaru inesperadamente se
aproximou da garota que soluçava e levou as mãos às costas dela.
Abraçando-a, como se fosse
um objeto frágil, com o que parecia ser uma experiência extraordinária (por
mais habilidosa que fosse a demonstração, com seus braços desencarnados
entrincheirados no corpo da garota). Então falou em seu ouvido em um suave tom.
— Sabe o que a Margarida
representa na linguagem das flores? Significa estar “alegre”. Aqui, sorria.
Mostre-me esse seu rosto alegre e sorridente.
A cena deixou Koremitsu
sem palavras.
O que exatamente estava
acontecendo?
Hikaru fechou os olhos
lentamente e deixou escapar uma certa doçura por entre os lábios. Um brilho
radiante parecia irradiar-se ao seu redor enquanto emitia uma voz encantadora
de derreter a espinha.
— Oi!
Koremitsu ficou parado
com uma expressão congelada enquanto Hikaru se aproximava outra vez de outra
garota, segurava sua mãozinha trêmula e levava seus lábios aos ouvidos dela de
forma coquete.
— E você que é como uma
Centáurea Azul, por favor, recomponha-se. Centáureas representam “felicidade”. Não
é da sua natureza ser alegre e radiante de esperança?
O jovem flutuou e
apareceu entre as meninas que choravam, acariciando seus cabelos e apertando
suas mãos.
— Para você, que é como
um botão-de-ouro na natureza, fica fofa quando sorri. Ah, aquela que é como um
floco de neve aí, o mesmo vale para você também. Se chorar assim, seus lindos
olhos vão derreter. Você para de chorar se eu te beijar?
Hikaru segurou o rosto
cheio de grandes lágrimas rolando com as duas mãos enquanto se aproximava
delicadamente. Nesse momento, Koremitsu não conseguiu se conter.
— PARE COM ISSO AÍ, SEU
GRANDE PERVERTIDO!
Hikaru ficou surpreso ao
se virar para olhar para Koremitsu.
Este atacou Hikaru
furiosamente.
— Que mensagens de amor são
essas que está jorrando? Pense na sua própria situação! Não é hora de falar
dessas coisas delicadas pelas costas dos outros! Ou será que é algum idiota?
Hikaru não aceitou a
frustração de Koremitsu e o repreendeu.
— Para mim, não consigo
me imaginar deixando uma menina chorando sozinha. Se ver uma flor murchando,
não a alimentará com água e fertilizante e cuidará dela com todas as suas
forças?
— Como se isso tivesse
alguma coisa a ver comigo! Sou um cuidador de animais de estimação! Não sou um
representante de jardinagem!
— Então, se vir um gato
ferido, deve acariciá-lo com cuidado e tratar seus ferimentos, certo?
— Claro que não. Gatos de
rua lambem as próprias feridas.
— Existem algumas feridas
que não podem ser tratadas por você mesmo... Ei, Koremitsu, os outros estão
olhando para nós aqui.
No momento em que Hikaru
apontou isso, Koremitsu ficou paralisado.
Claro, não havia como
alguém ouvir a voz de Hikaru.
Seu olhar percorreu os
arredores, percebendo um espaço vazio de cerca de dois metros de raio que começou
a se formar ao seu redor.
As meninas pararam de
chorar e se encolheram com expressões horrorizadas ao ver Koremitsu. No momento
em que seus olhos encontraram os de Koremitu, seus ombros se contraíram e elas
desviaram o olhar.
Não pareço um cara
perigoso que grita sem motivo algum no corredor?
Ele havia decidido agir de
forma discreta na escola para nunca mais receber um apelido constrangedor como “O
Diabo Vermelho”. Será que seu plano estaria arruinado agora?
— Ah... Erm...
Queria muito salvar a
situação de alguma forma, mas forças mais fortes o faziam suar frio. Em choque,
ele ficou sem palavras.
Pouco a pouco, seu rosto
começou a arder de vergonha.
Isso é ruim. Meu rosto
está vermelho agora?
— E-Eu não estou falando
com vocês!
Ele rosnou com uma
expressão confusa no rosto e saiu correndo do local.
— Não se preocupe,
Koremitsu. Sua reputação não será abalada só por entrar na escola e gritar no
corredor de repente. Além do mais, você é o 27º rei dos delinquentes, que
sozinho derrotou um exército inteiro de delinquentes. Não há reputação pior do
que esta, então, por favor, relaxe.
Que tipo de consolo é
esse?
Ele jurou em seu coração
nunca mais falar com Hikaru na frente de ninguém.
Devido à vergonha e ao
arrependimento pelo seu infortúnio, a expressão de Koremitsu parecia três vezes
mais assustadora do que o normal, seus olhos dez vezes mais aguçados. Ao chegar
à sala de aula, abriu a porta e encontrou uma garotinha parada à sua frente,
quase desmaiando no local.
— Hah... Bom, bom dia... Akagi.
Uma garota simples, de
óculos, que usava o cabelo em uma trança curta, ela era a representante da
classe.
Koremitsu não sabia o seu
nome, e os outros colegas a chamavam de “rep” também.
Ele se lembrou do
primeiro dia em que pisou nesta escola depois de ser hospitalizado.
— Ouvi dizer que ele é o
lendário delinquente...
— Alunos de outras
escolas vieram procurá-lo para causar problemas durante o Ensino Fundamental, e
houve um incidente sangrento...
— Ouvi dizer que espancou
10 pessoas até quase matá-los.
Havia todo tipo de
rumores estranhos a seu respeito.
Koremitsu era evitado
pelos colegas de classe, que passaram a acreditar nesses rumores à medida que
eles pioravam com o tempo, e ela acabou se tornando a única pessoa com quem
podia falar.
Ainda assim...
— B-Bem... Sou a
representante da turma... P-Por favor, cuide de mim, Akagi. S-Se houver algo
que não saiba, pode me perguntar.
Era visível como seu
rosto ficou tenso. A garota estava tão nervosa que sua saudação só pôde ser
proferida em um tom estridente.
Obrigado. Onde fica a
cantina?
Era isso que queria
dizer, mas quando Koremitsu estava prestes a responder, a representante da
classe falou.
— E-E-Então, nesse caso,
vou me retirar.
Ela aproveitou a
oportunidade e correu de volta para seu assento como um coelho fugindo desesperado
de lobos vorazes.
Koremitsu observou-a
manter as mãos entrelaçadas, tremendo em sua mesa, obviamente rezando para que
não a chamasse. Se perguntasse onde ficava o refeitório naquela hora, a garota
provavelmente teria gritado e se escondido debaixo da mesa.
Ainda que tenha terminado
dessa forma, a garota cumpriu sua responsabilidade como representante de
classe, e sempre que seus olhos encontravam os de Koremitsu, dizia a ele “B-Bom
dia”, ou “Adeus”.
Normalmente, ela iria
embora logo após dizer o que queria, mas dessa vez permaneceu onde estava,
fazendo-lhe uma pergunta hesitante.
— Akagi... Você
compareceu ao funeral do Senhor Hikaru ontem, não é? Você o conhece?
Parecia que também estava
presente naquele momento.
Ele queria responder que
não eram próximos, porém ao seu lado, Hikaru o importunava, dizendo que eram
considerados amigos.
— Somos amigos próximos
agora, Koremitsu.
Desde quando somos amigos
próximos?
Tem que haver um limite
para essa sua atitude descarada!
Quando estava prestes a
gritar, recobrou a postura, rangendo os dentes e franzindo a testa.
Foi por pouco. Quase
assustei todo mundo de novo.
Contudo, no momento
seguinte, a representante da turma saltou como uma lebre.
— D-D-Desculpe por
perguntar de forma tão interrogativa. Tudo bem, não precisa responder!
Seu rosto ficou vermelho enquanto
saía correndo.
Koremitsu parecia zangado
quando cerrou os dentes e franziu a testa, então não era de se admirar que
estivesse apavorada. Ela voltou para seu assento, sua trança curta tremendo.
— Uma garota assim, que
fica tímida tão facilmente, é muito fofa, como uma flor de ameixeira mudando de
cor.
Hikaru falou em um tom
relaxado.
Não, aquilo não era ser
tímida. Parecia... Apavorada, não importa como eu olhe.
Koremitsu se perguntou
se, se pensasse nas coisas com entusiasmo como Hikaru, talvez também morresse
com um sorriso no rosto. Sentiu inveja de Hikaru por isso, no entanto não
queria deixar que esses sentimentos o dominassem enquanto ia colocar a bolsa na
mesa.
O assento de Koremitsu
era o mais próximo do corredor, na última fileira.
Olhando para o assento em
frente ao corredor estreito, a garota sentada ali não parecia nada animada
naquela manhã, fazendo beicinho e franzindo a testa, mexendo no celular.
Ela escrevia mensagens
deslizando os dedos rapidamente pela tela.
Estava sempre usando o
telefone, fosse antes da escola ou durante o intervalo.
Seus cabelos brilhantes,
cor de chá, desciam pelos ombros esguios, cobrindo as têmporas e aninhando-se
sobre as orelhas. Koremitsu notou que seus dedos não paravam. Seus olhos
carregavam uma certa ferocidade, brilhando com mais intensidade do que antes, e
parecia absorta na mensagem enquanto olhava para a tela do celular.
A garota ignorou o
delinquente selvagem ao seu lado.
Uma coisa era Koremitsu
se incomodar com o medo que todos sentiam dele, entretanto pior ainda era não
lhe dar a mínima atenção. Ela nem sequer o olhou, muito menos o cumprimentou.
Alguém poderia se perguntar qual era o seu problema.
A garota sentada ao lado
de um Koremitsu frustrado seguia cuidando da própria vida como se nada
estivesse errado. Tinha uma força de vontade tão forte que correspondia à sua
total falta de temor.
Não, acho que também tem
sido mal interpretada como tendo uma personalidade violenta, pois nasceu com
olhos ferozes e foi deixada sozinha por causa disso. É por essa razão que tem
usado o celular para passar o tempo. Deve ser uma pessoa muito solitária.
Essa linha de raciocínio
fez com que a chama em seu estômago se apagasse.
Todavia para Hikaru, que
estava ao lado, parecia que não importava o quão estranho fosse o descuido da
garota com qualquer coisa ao seu redor... Não importava o quanto ignorasse a
presença de Koremitsu, ambos eram pontos de atração.
— Uma garota totalmente
focada em fazer algo é como um hibisco vermelho. Será que está mandando uma
mensagem para o namorado?
Hikaru tentou espiar o
conteúdo do telefone.
— Ei, pare com isso.
Koremitsu o alertou.
No momento em que falou,
a garota ao lado parou de digitar e se virou para encarar Koremitsu.
Seus olhos emitiam um
brilho intenso, como um felino que não quer ser abordado.
Ele queria explicar que
não estava falando com ela, mas não disse.
Decidiu encará-la, algo
que se arrependeu de ter feito.
Um colega de classe gritou
pelo corredor enquanto corria em direção à porta da sala de aula.
— Ei! O Rei Delinquente
enlouqueceu de repente no armário de sapatos! Parece que gritou para as garotas
soluçantes que deixavam seus recados no quadro de avisos do Lorde Hikaru: “POR
QUE VOCÊS ESTÃO CHORANDO, SEU BANDO DE CACHORRINHAS LASCIVAS! POSSO LAMBER
TODAS VOCÊS SE QUISEREM TANTO ASSIM!”. Foi bárbaro, satânico... Ack!
O mais provável era que o
‘ack!’ no final foi uma responsa involuntária ao sentir o desejo assassino
irradiando do corpo de Koremitsu.
Naquele momento, o jovem
ficou encharcado de suor frio, sem saber o que fazer.
— Não... Er-Erm... “O Rei
Delinquente” não se refere ao nosso “Mestre Delinquente” nesta classe... É-É
alguém de outra classe... Bem, erm, sobre isso... SINTO MUITO!
O garoto se ajoelhou para
implorar por perdão, e a cor desapareceu dos rostos dos colegas que assistiam
ao ocorrido.
Eu sou o Rei Delinquente,
não importa o que aconteça agora? Por que está se desculpando, seu idiota
desgraçado?
Enquanto o coração de
Koremitsu afundava em desespero, o culpado Hikaru falou com espanto enquanto
lançava um olhar de lamentação.
— Nossa, é a primeira vez
que vejo alguém se ajoelhar pra pedir perdão. Com certeza tem um impacto
inesquecível em mim. Com certeza farei com uma garota da próxima vez.
Enquanto a comoção
continuava, a garota sentada ao lado de Koremitsu manteve a testa franzida
enquanto continuava enviando mensagens.
***
O calouro ruivo e
delinquente forçou seu colega de classe a se ajoelhar e “se desculpar”.
Depois que o colega se
desculpou, não conseguiu nem andar direito, teve dificuldade para falar e foi
embora.
Em pouco tempo esse boato
circulou pela escola.
Depois da aula, um
deprimido Koremitsu arqueou as costas enquanto caminhava pelo corredor do 3º
andar.
Os alunos que passavam
por ele mantinham distância, evitando-o como se fosse uma praga.
— Anime-se! Não há nada
que possa abalar sua lenda como o mais forte agora.
Não considero isso sequer
como algum consolo!
Minha reputação já ruim
acabou de piorar. De quem você acha que é a culpa?
Esse desgraçado
despreocupado aqui já está morto, e mesmo assim continua tentando dar em cima das
garotas sem nenhum pudor.
— Você não percebe que
tem uma responsabilidade aqui?
Seus punhos cerraram enquanto
murmurava a pergunta.
— Hã, por minha causa?
Mas, Koremitsu, ainda sinto que, quando vejo uma garota chorando, devo
confortá-la com o meu melhor esforço.
Hikaru falou quase como
se estivesse narrando suas crenças.
— Bem, assim que meu
desejo for realizado, irei para o Céu em paz. Vou lhe causar muitos problemas
antes disso, porém, por favor, aguente firme por agora.
A voz de Hikaru tinha um
tom de admiração, e era difícil continuar a invejá-lo.
Parecia um príncipe
tranquilo, embora era inesperadamente inteligente.
Eu sei disso e ainda saio
com ele.
Koremitsu se virou para
olhar para Hikaru e questioná-lo.
— Deixa eu perguntar de
novo. Aquela garota com certeza faz parte do clube de artes, né?
No momento em que essas
palavras foram ditas, os olhos de Hikaru ficaram ternos e seu impulso amoroso
entrou em ação.
— Sim. Ela sempre pintava
na sala de artes depois da aula. É como uma princesa da era Heian. Seu cabelo
preto e sedoso é deslumbrante. É tão delicada, pura, extremamente refinada como
uma dama, e uma garota muito fofa.
Mesmo que fale desse
jeito da sua própria amante, não consigo sentir nada.
Hikaru fez uma referência
às princesas da Era Heian, como aquelas mencionadas no livro didático que
usavam trajes cerimoniais¹. As vestes eram frequentemente justas e o corpo da
usuária ficava saliente. Todavia, ter o cabelo comprido tornava difícil de
lavar, e seria repugnante ter muitas pulgas e piolhos dentro.
No que diabos estou
pensando?
— Porém ela é a sua
namorada, e vocês se dão tão bem que planejavam comemorar o aniversário juntos,
certo? Ontem foi o seu funeral. Não seria difícil apenas continuar seguindo as
atividades do clube depois de uma perda tão grande?
Talvez esteja descansando
em casa, sem poder ir à escola.
No entanto...
— Ahh, sim, não precisa
se preocupar com essa possibilidade. Aoi com certeza estará na sala de artes
como sempre.
A voz de Hikaru soou vaga
de repente enquanto desviava o olhar sutilmente.
— Hã?
Koremitsu deixou claro em
voz alta sua preocupação com isso.
Bem, acho que está tudo
bem. Se estiver aqui, posso me apressar e resolver esse assunto o quanto antes.
Ele não se aprofundou
mais na conversa ao chegar em frente à sala de artes. Então, abriu a porta.
Wah! São todas meninas!
O aroma de perfume
pairava na ampla sala de aula. Brilhantes raios de sol adentravam pelas amplas janelas,
e havia mesas, cadeiras, estátuas de gesso e telas espalhadas por toda parte.
Havia oito garotas lá dentro.
Elas estavam fazendo seus
próprios desenhos, colorindo, lendo revistas que estavam deixadas de lado e
fazendo as unhas umas das outras enquanto conversavam.
Para Koremitsu, todas as
garotas pareciam iguais.
Ao mesmo tempo, as
garotas do lado oposto ficaram atordoadas com a chegada do lendário delinquente
ruivo que surgiu de repente.
A sala de aula foi tomada
pelo silêncio.
Suas expressões
congeladas e olhos aterrorizados denotavam um forte medo e impotência. Uma das
garotas que fazia as unhas segurava uma tampa em uma mão e uma garrafa de vidro
na outra, estremecendo ao olhar de Koremitsu.
— Ah... Tem alguém aqui
chamado Aoi Saotome?
Sentiu uma dor perto do
estômago, talvez devido ao nervosismo, e sua expressão ficou mais aflita do que
o normal. Seus olhos afiados e lupinos eram algo com o qual havia nascido, e
não conseguia mudar isso.
Os membros do clube
ficaram com medo enquanto recuavam em direção à janela.
Nesse momento, houve uma
menina que exalava um certo orgulho e continuou pintando sozinha.
Seus cabelos eram longos
o suficiente para chegar à cintura e tinham uma linda fita branca em forma de
borboleta amarrada. Era um pouco mais baixa do que a média e parecia mais magra
do que a média também.
Hein? Onde é que já vi
essa menina antes...?
Enquanto tentava se
lembrar da identidade da garota, esta se levantou e fez uma expressão
ameaçadora enquanto caminhava em direção a Koremitsu.
Seus membros eram
extremamente finos, e seu rosto era tão pequeno que Koremitsu conseguia
cobri-lo com as mãos.
Seus longos cabelos sem
babados balançavam docemente ao ritmo dos passos. Cílios longos eram como uma
moldura para seus olhos, tão grandes que pareciam prestes a cair, e dirigiu um
olhar beligerante para Koremitsu.
No momento em que viu sua
expressão severa, ele percebeu.
Entendo! Foi ela quem
causou a comoção no funeral do Hikaru!
“VOCÊ É MESMO UM IDIOTA
POR SE AFOGAR NUM RIO ASSIM! QUE VERGONHA! PENSEI QUE SERIA ESFAQUEADO ATÉ A
MORTE POR UMA MULHER! FOI POR SER TÃO MULHERENGO QUE O CARMA FEZ SEU TRABALHO!”
Não havia dúvidas de que
era aquela garota.
“SEU MENTIROSO!”
Essa voz voltou a ecoar
em seus ouvidos.
Droga. É ela a pessoa que
você não consegue abandonar no seu coração?
A garota, Aoi Saotome,
caminhou em direção a Koremitsu e parou na frente dele.
Koremitsu pretendia
explicar as coisas primeiro, mas ela interveio primeiro.
— Eu recuso.
Uma voz carregada de
desgosto encheu a sala, negando-o.
Nem falei nada ainda!
Aoi enfatizou outra vez
com um tom forte.
— Eu me recuso. Me recuso
a tudo o que disser! Não gosto de homens e não tenho nada para conversarmos!
Depois disso, Aoi mordeu
os lábios delicados e virou as costas.
O que há com essa mulher?
Nesse momento, Koremitsu
ficou sem palavras em vez de furioso. Não havia saída; não podia recuar, mesmo
que fosse pelo bem da sua vida.
— Espere! Na verdade é
sobre Mika-Hikaru...
Ele queria sua atenção, porém,
para sua surpresa, os cabelos negros esvoaçantes ondularam quando a garota se
afastou.
— E-E-Eu realmente odeio
tudo naquela pessoa! Me sinto... Contaminada no momento em que ouço seu nome!
Ela parecia pronta para
matar com os olhos enquanto rosnava, batendo a porta da sala de aula bem na
frente de um Koremitsu desconcertado.
— Ei.
Koremitsu ficou de fora,
sussurrando baixinho para Hikaru.
— O que está
acontecendo... Vocês dois não estão namorando?
Hikaru, flutuando atrás
de Koremitsu o tempo todo, deu um sorriso amargo.
— Em vez de dizer que
estamos namorando, diria que... Estamos noivos.
Noivos!
Isso pode acontecer na
Era Heian, contudo estudantes do ensino médio estão sendo prometidos em
casamento nos dias de hoje... Na Era Heisei japonesa? Bem, suponho que seja
normal entre os ricos.
Koremitsu olhou de novo para
Hikaru, que respondeu com uma expressão fria.
— Aoi sempre ficava
chateada comigo, dizendo coisas como “Você é um príncipe de harém inútil” e “Você
é um mulherengo que troca de parceiras todos os dias”. Bem, não tenho amigos
homens, então brincava com garotas desde pequeno. Não recusei nenhum pedido que
me chegasse e aceitava presentes de bom grado se uma garota tivesse boas
intenções. Sempre que vejo uma moça bonita, acho que seria indelicado da minha
parte não tentar puxar assunto com ela; e quando vejo uma garota bonitinha, com
certeza vou e digo que ela é bonitinha.
— Não consigo dormir
sozinho, pois tenho medo da solidão, e só consigo relaxar quando alguém me
acompanha. Certo! Mulheres são como flores, e acho que é responsabilidade do
homem fazer florescer a beleza delas! Isso é algo que ultrapassa a exaltada Lei
da Natureza, algo equivalente aos princípios da religião... Hm, hã? Koremitsu?
Por que está segurando a cabeça? Parece que as veias estão saltando das suas
têmporas. Está me ouvindo? Em outras palavras, meu amor apaixonado pela
existência conhecida como feminina é como minha afeição apaixonada pelas flores...
Chega. Não continue! Não
fale em exaltação ou superação com esse olhar tão sério!
Koremitsu gritou em seu
coração, mais convencido do que nunca de que aquela pessoa era sem dúvida um
playboy.
Ele provavelmente já
tentou bajular garotas para conquistar o afeto delas antes, assim como fez esta
manhã. Se a sua noiva tivesse presenciado, com certeza o teria acusado de
traição. Só havia mulheres no seu funeral, então era de se esperar que lhe
desse uma bronca.
Pensar que ele poderia
chamá-la de “namorada” sem vergonha.
— Podemos acabar com essa
parceria, Mikado?
Atordoado, Hikaru
respondeu.
— Mas Koremitsu!
Hikaru implorou.
Nesse ponto, Koremitsu só
conseguia pensar em se separar de Hikaru e voltar para casa.
Koremitsu se deixou
enganar pelas alegações de Hikaru de não ter amigos. Ele, que só conseguia
almoçar sozinho, era diferente de Hikaru, que sem dúvida tinha companhia para
aproveitar. Hikaru estava cercado de garotas, algumas até esperando para lhe
servir seus almoços feitos à mão.
Não havia razão para
Koremitsu ajudar esse Casanova.
Entretanto, se não
ajudasse Hikaru a ir para a vida após a morte, Hikaru estaria observando-o
sempre que fosse ao banheiro, e quando estivesse tomando banho, dormindo ou
fazendo qualquer coisa.
Koremitsu não aguentaria
mais que tal vergonha continuasse. Já era visto como um delinquente e evitado a
todo custo pelos colegas, então não conseguiria suportar se alguém o chamasse
de possuído que falava sozinho.
Como esperado, tinha que
realizar o desejo de Hikaru o mais rápido possível.
Tch, deixa pra lá!
Koremitsu suportou a
infelicidade em seu coração enquanto abria a porta da sala de artes de novo.
— Aoi Saotome. Eu... Entendo
muito bem seus sentimentos! Seu noivo, Hikaru, continuou a sair com outras
garotas, e é o pior bastardo inútil de harém, mas...
Aoi se aproximou e bateu à
porta novamente.
Koremitsu, por sua vez,
não desanimou, abrindo caminho para outra tentativa.
— Porém Mi... Hikaru
sempre teve um pensamento especial por você em seu coração, e deixou comigo,
como um a-a-amigo...
Slam!
A porta foi fechada pela
terceira vez.
No momento seguinte abriu
a porta.
— Concluirei o que ainda
precisa ser feito!
— JÁ CHEGA!
BAM!
Ele tentou de novo.
Contudo, desta vez, ouviu-se um clique do outro lado da porta quando ela se
trancou.
Merda. A porta está trancada
por dentro.
— Não! Ainda tenho o
dever de transmitir as palavras de Hikaru a você!
Koremitsu gritou para o
outro lado, batendo na barreira entre eles.
— Rejeitarei qualquer
conselho religioso aqui.
Isso provocou uma
recepção dura nos corredores.
— OUÇA, AOI SAOTOME!
No momento em que gritou,
a porta se abriu...
Splash!
Água colorida foi jogada
nele.
— Não quero ouvir nada
sobre você ou o Hikaru. Não quero ouvir nada que envolva homens... Especialmente
nada que envolva o Hikaru! Se tivesse que escolher entre ouvir sobre o Hikaru e
uma sopa de lesmas, prefiro esta última!
Hikaru, que estava ao
lado, levou as mãos ao peito após receber esse golpe violento.
A porta foi fechada com
força e trancada.
Koremitsu estava pingando
água suja da cabeça aos pés.
Você está brincando
comigo...?
Atônito, levou um momento
para que compreendesse todo o peso de tudo aquilo.
— É por isso que eu digo,
mulheres...
***
A senhorita Aoi é uma
princesa pura.
Hikaru estava protegendo
sua noiva.
— Como o próprio nome
sugere, coisas impuras não conseguem se aproximar de uma malva-rosa branca
pura.
Ao chegar em casa,
Koremitsu mergulhou na banheira, com os olhos fixos no teto.
Não estava em estupor nem
nada parecido. Seu olhar ficou fixo no teto, pois Hikaru, ainda vestido com o
uniforme escolar, flutuava lá em cima, cercado de vapor.
— Malvas-rosa são flores
que florescem no meio do verão. Quando há ventilação e luz solar suficientes,
os caules verdes crescem retos e produzem flores rosa-creme. Elas são fofas,
mas acho que flores brancas combinam muito mais com a Srta. Aoi; dizem que foram
trazidas da Terra Santa pelos cruzados. Uma flor que floresce na Terra Santa é
perfeita para a Srta. Aoi.
Hikaru continuou
tagarelando, e era impossível dizer se estava defendendo Aoi ou se promovendo
como um representante da jardinagem.
Por que tenho que ouvir uma
palestra de um cara quando tomo banho...?
— Não quero ouvir nada
que envolva homens, especialmente nada que envolva o Hikaru!
Koremitsu ficou deprimido
ao pensar na angústia impetuosa na voz de Aoi enquanto gritava. Estava lidando
com uma princesa que demonstrou seu desgosto e oposição desde o início.
O desejo de Hikaru
parecia que nunca poderia ser realizado.
Acabarei como um
delinquente assombrado por um fantasma pelo resto da minha vida?
Sentiu que não deveria
ter ido ao funeral.
Se pudesse falar com seu
eu do passado, Koremitsu o aconselharia a voltar para casa antes do funeral,
para que não sofresse mais do que já tinha.
Além do mais, eu sou a
pessoa certa? Não seria melhor possuir outra pessoa?
Seria preferível que
Hikaru escolhesse um aluno amigável e disciplinado. Na visão de Koremitsu, Aoi
não teria sido tão cautelosa com essa outra pessoa e teria aceitado os
presentes sem problemas.
Haveria um contraste
gritante com o delinquente de aparência feroz conhecido como “O Rugido da Besta
Selvagem” tentando se aproximar dela.
“Só posso lhe pedir este
favor, Sr. Akagi.”
“Eu não tenho amigos de
verdade...”
Ele se lembrou do olhar
que Hikaru lhe lançou naquele apelo sincero, e uma inexplicável sensação de
responsabilidade tomou conta. Uma leve dor atingiu seu coração.
“Isto é muito importante,
uma promessa muito importante.”
Bom, você disse tudo
aquilo. Ugh... Não pode ficar com outra pessoa? Realmente tenho de fazê-lo? Guh...
Seu rosto encostou na
banheira, resmungando. Hikaru, que enfim havia encerrado sua palestra sobre malvas-rosa,
falou com ele com uma expressão mansa.
— Koremitsu, acabei de perceber
uma coisa.
Não me diga que tem um
plano brilhante para conquistar o coração de Aoi, mesmo que ela esteja
começando a odiar os homens cada vez mais.
Koremitsu olhou para cima
com expectativa, mas o que viu foi Hikaru vestido com um smoking roxo como se
estivesse na Takarazuka Revue².
— O quê...
Koremitsu caiu para trás
ao vê-lo, e Hikaru seguiu em frente com orgulho.
— Eu consigo trocar de
roupa usando a imaginação. Viu, esse também é bom, né? Esse aqui é ótimo.
Hikaru começou a trocar
de roupa, alternando entre roupas de tênis, trajes de jóquei, roupas casuais
para atividades ao ar livre, roupas adequadas a um assalariado de elite de
óculos e assim por diante.
Hikaru não fez reservas
em seus experimentos.
— Ei, essa combina mais
comigo, né? Sempre quis experimentar pelo menos uma vez.
Ele até acabou usando
trajes completos da corte japonesa. Usados durante o período Heian, eram as
roupas mais formais usadas pelos oficiais da corte.
— Ei, qual você acha que
é a mais bonita? É esta, né? Ah, queria muito tirar uma foto, porém acho que
não vão me mostrar. Não consigo me ver no espelho, o que é bem inconveniente.
Não consigo nem ver meu próprio rosto.
Hikaru suspirou com
arrependimento.
Koremitsu queria muito
jogar água nele, contudo se conteve, sabendo que a água só o atravessaria.
Em vez disso, enterrou a
cabeça e deu de ombros para mostrar sua frustração, falando numa voz cheia de
amargura com Hikaru.
— Seu... Desgraçado... Por
quem acha que estou sofrendo? Não venha fazer um desfile de moda tão
despreocupado!
Hikaru percebeu que
estava errado e sentiu vergonha de suas ações.
Descendo na frente de
Koremitsu, fechou os ombros e assumiu a posição Seiza outra vez (mesmo assim, seus
joelhos não tocaram o chão).
— Bem, sim, estou
refletindo a respeito. Fiquei muito animado antes... E fiquei preocupado por
ter que depender de você todo esse tempo, Koremitsu. Tentei tudo o que pude
para ajudar... Coisas sobrenaturais como usar telecinese para mover objetos e
possuir animais, ou possuir seu corpo e falar direto com a Srta. Aoi.
— Whoa, não entre no meu
corpo. Vou ficar arrepiado.
— Não se preocupe, não
consegui.
— Sério?
Koremitsu deu um suspiro
de alívio.
— Nesse caso, só pude trocar
de roupa.
Isto não é nada útil,
sabia?
— A propósito, como
devemos prosseguir? Sua noiva acha seu nome impuro devido a sua mania de sair com
garotas quando ainda estava vivo, e ela está nos rejeitando.
— Hm, a Srta. Aoi é uma
pessoa séria, no entanto esse é um ponto fofo seu. Parece que só podemos abrir
o coração dela aos poucos, até que esteja disposta a nos ouvir.
— Uwah... Quer que eu
abra o coração dela? Por que tenho que tentar ganhar a simpatia de uma mulher?
E está a chamando de fofa? Será que está louco?
— Por favor, tente fazê-lo!
Você é o único que consegue ouvir a minha voz, Koremitsu. Se conseguiu derrotar
um exército de delinquentes, com certeza conseguirá abrir o coração da Srta.
Aoi.
— Já te disse antes que
não tenho nada haver com delinquentes! Não me olhe com tanta expectativa! Além
disso, não consigo me dar bem com mulheres, crianças e animais desde criança.
Só de ficar parado ali sozinho e respirar já é o suficiente para esses caras me
odiarem.
— Deixando de lado
mulheres e crianças, e os animais? Não me disse antes que foi o responsável por
cuidar deles quando era mais novo?
Hikaru, no estilo da Era
Heian, segurava um leque e cobria a boca, enquanto a coroa com um longo pano
preso inclinava-se para o lado junto com sua cabeça.
— Erm... É... Cuidava dos
perus e dos coelhos na escola primária, mas eles nunca se aproximaram de mim
durante os 6 anos em que os alimentei e limpei suas casas. Sempre que entrava
naquela cabana de coelho, eles entravam em pânico e corriam para um canto para
se esconder, encostando-se uns nos outros e tremendo. Os perus também se
encolhiam sempre que eu olhava para dentro...
Koremitsu relembrou seu
passado com tristeza estampada no rosto, e o rosto de Hikaru mostrou um sorriso
forçado em troca.
— É-É mesmo?
Ele mudou o tom derrotado
de sua voz para se recuperar.
— Porém ainda é incrível!
Você cuidou dos animais, mesmo com medo! Não é qualquer um que consegue fazer tal
coisa. Você é como um Buda moderno, por conseguir se esforçar ao máximo, apesar
dos estereótipos que te são impostos!
— Não consigo ficar feliz
com esse tipo de acompanhamento.
— É por esse motivo que,
ao lidar com a Srta. Aoi, por favor, use essa atitude compassiva para persistir
mais uma vez. Tudo bem, a Srta. Aoi é muito elegante. Não importa o quanto te
odeie, não vai te chutar. O balde é muito pesado, então não pode usá-lo para
jogar água; ela tinha que usar a paleta antes.
Hikaru continuou com o
que nem sequer poderia ser considerado uma discussão.
— Por sinal, você não é
um rei de harém amado por todas aqui? Um especialista em atrair garotas e entender
seus corações. Não tem nenhuma sugestão útil aqui?
— Que especialista quer
dizer? Não sou anfitrião de nenhum harém. Além disso, meus métodos podem ser
difíceis demais de empregar.
Hikaru olhou fixamente
para Koremitsu, parecendo ter dificuldade em articular o que queria dizer com
aquilo.
— Deixa pra lá. Vamos
tentar.
— Sério?
Apesar da oferta, Hikaru
não estava entusiasmado.
— De qualquer forma,
tente sorrir.
— Hã?
— O que quero dizer é que
deve demonstrar aquele olhar de “também tenho interesse em você”. Tente sorrir
como faço.
*Sorriso*
Hikaru deu um sorriso tão
gentil quanto a brisa.
Era um sorriso realmente
alegre, deslumbrante. Aquela sensação emotiva que os cantos dos seus olhos
pareciam demonstrar era inesquecível.
— Woah... Acho que meu
coração disparou!
Apesar da outra pessoa
ser um cara.
— Se não funcionar, tente
fechar os olhos devagar e dizer “Não estou com vontade de ir para casa hoje”
com um olhar solitário.
Hikaru fechou os olhos.
Sem esforço, assumiu uma
expressão trágica. Uma sensação confusa que encorajaria qualquer um a
protegê-lo de todo o coração tomou conta de Koremitsu.
— Woah... Agora estou cativado
de verdade.
Esse cara é incrível!
Como esperado de um príncipe de harém! Não é de se espantar que todas as pessoas
no seu funeral fossem mulheres!
Ele pensou essas palavras
consigo mesmo; palavras que devastariam Hikaru se fossem ditas em voz alta.
— Tudo bem, deixe-me
tentar.
Koremitsu levantou-se da
banheira otimista, encarando o espelho com um sorriso.
— Hã? O que foi?
Koremitsu?
— Bem, não consigo mover
os músculos do meu rosto.
Como isso pôde acontecer?
Ele já havia passado longos dias sem sorrir e, durante esse tempo, seus
músculos faciais enfraqueceram.
Não. Pensando melhor,
Koremitsu percebeu que suas fotos de bebê e de entrada no jardim de infância o
mostravam dando olhares horríveis, seus olhos brilhando como se estivessem
prestes a atacar a câmera.
É mesmo? Então não sou
bom em sorrir, né?
Entretanto não era da sua
natureza recuar antes que a batalha começasse. Ele ergueu com força as pontas
dos lábios e tentou dar um sorriso.
O espelho refletia a visão devastadora de um garoto de aparência selvagem, com os músculos faciais se contraindo. Se algumas manchas de sangue fossem adicionadas ao rosto, era provável que qualquer garota desmaiasse ao vê-lo.
Até Koremitsu ficou
horrorizado com o olhar daquela pessoa ameaçadora no espelho. Era assustador,
mesmo sendo seu próprio banheiro.
— Ugh... Não desisti
ainda!
Ele abriu as narinas e
cerrou os dentes para tentar de novo, contudo quanto mais tentava, mais
conseguia ver seu reflexo se tornando cada vez mais horrendo.
— B-Bem, Koremitsu, não é
bom se forçar.
Koremitsu se virou para
Hikaru, suas mãos ainda puxando seu rosto.
— Ah... Aaa... E-Então,
acho que é melhor ter uma expressão séria do que um sorriso, dada a sua
personalidade, Koremitsu. Veja bem, ao contrário de mim, que sou tão delicado,
seu jeito é mais másculo!
— É verdade?
— Sim! Acho que é a sua
cara esses papéis de sangue frio ou daqueles filmes de cinema! Os homens
realmente admiram essas coisas.
Hikaru tentou o seu
melhor para animar o ambiente.
— É. Acho que é verdade
que é falta de masculinidade começar a sorrir tolamente quando não há nada de
engraçado.
Koremitsu conseguiu se
recuperar.
— Nesse caso, tentarei
parecer amargurado e solitário...
Ele tentou mostrar a
expressão “Não quero ir para casa hoje à noite”.
Seus olhos se fecharam e
seus ombros abaixaram.
Entretanto, quando olhou
para cima e se olhou no espelho, percebeu que havia um homem o encarando com
uma aura negra e uma atitude vingativa.
Em vez de uma vibração de
“Não quero ir para casa hoje à noite”, estava emitindo uma vibração do tipo “Vamos
começar o banquete do inferno hoje à noite”.
Eu estou realmente...
Koremitsu estava abatido
em frente ao espelho.
— Na verdade, você fica
melhor quando age com naturalidade Koremitsu! Acho que já tem charme
suficiente!
— Não preciso que me
console!
Koremitsu levantou sua
cabeça de cabelo ruivo e gritou com raiva.
— É impossível para
alguém como eu abrir o coração de uma garota quando nenhuma cadela, gata, furão
ou hamster por perto se aproxima de mim! Serei assombrado por um príncipe
pervertido fantasiado flutuando sobre a minha cabeça, mesmo quando estiver
tomando banho!
— Não seja assim! Não
desista de si desse jeito! Se não gosta que eu esteja usando roupas, posso tirar.
Entendeu?
Antes que terminasse de
falar, as vestes nobres da era Heian desapareceram. Hikaru apareceu nu enquanto
flutuava no vapor que subia.
De repente, esse homem nu
apareceu diante dos olhos de Koremitsu.
— UWAAAAHH!
Cambaleando para trás em
choque, esse impulso fez com que sua cabeça batesse na parede. Ele então
escorregou em toda a sua confusão, caindo com o corpo esparramado e virado para
cima.
A porta de vidro do
banheiro se abriu e lá estava Koharu, vestida com um avental fino, de pé com as
mangas arregaçadas enquanto rosnava.
— Koremitsu! O que está
fazendo aqui sozinho?
— Sinto muito!
Koremitsu pediu desculpas
e, ao mesmo tempo, sentiu que era bom que Koharu não pudesse ver Hikaru.
Isso porque um Hikaru
completamente nu estava flutuando na frente dela, sua boca ainda sem dar sinais
de que iria parar.
— Sua irmã mais velha é
do tipo laranja trifoliata ou do tipo mandrágora. É sem dúvida incrível.
— Idiota, ela não é minha
irmã mais velha. É minha tia, divorciada uma vez, e é uma bruxa de 36 anos.
Koremitsu proferiu essas
palavras por reflexo. Koharu as retribuiu com uma surra.
***
Na manhã seguinte,
Koremitsu encontrou seu bento colocado no chabudai³.
Ele pensou que era para
compensar a surra excessiva do dia anterior e levou para a escola. Ao abrir a
lancheira durante o recreio, descobriu que estava cheia de pasta de feijão
vermelho.
— Ela quer brigar comigo?
Aquela bruxa de 36 anos?
— Incrível... É mesmo
pasta de feijão vermelho. Não parece nada apetitoso.
Hikaru murmurou enquanto
flutuava acima. Ele vestia o terno branco e a calça preta do uniforme escolar.
— Caramba.
Koremitsu colocou a caixa
de bento de volta na bolsa e saiu da sala de aula.
— Onde está indo?
— Para a lanchonete. Não
posso comer pasta de feijão vermelho no almoço.
Ele foi até a lanchonete
localizada no final do segundo andar.
No entanto, chegou um
pouco tarde demais, pois só havia uma fatia de pão de yakisoba, um pedaço de pão
de geleia, um pãozinho de chocolate e uma fatia de torrada doce disponíveis.
Koremitsu não gostava de
doces. Para ele, pão com geleia e pãozinho de chocolate eram opções
desagradáveis.
Assim, só pôde escolher o
pão yakisoba.
Bom, acho que ainda ter um
pão de yakisoba é melhor do que não ter nada para comer...
Com um olhar sombrio no
rosto, estendeu a mão para frente.
— !
Simultaneamente, outra
mão surgiu do outro lado, também agarrando o pão de yakisoba.
Isso é ruim. Meu almoço
estará perdido se eu não puder comprar isso.
Koremitsu olhou na
direção do dono da outra mão com seu olhar característico.
Diante de sua expressão
selvagem e olhar hediondo, qualquer pessoa comum teria desmoronado no mesmo
instante. Uma aura diabólica parecia brilhar por trás de suas costas
ligeiramente arqueadas.
Todavia, a outra pessoa
que pegou o pão de yakisoba era alguém que Koremitsu conhecia.
A garota de aparência
feroz que senta ao meu lado na sala!
A pessoa ao seu lado
compartilhou uma expressão de choque com Koremitsu. Mas, rapidamente se
transformou em um olhar de antagonismo.
Ela ergueu as
sobrancelhas, seus olhos queimando como chamas enquanto o encarava.
Era inacreditável pensar
que diante dessa pessoa conhecida pelos outros como “O Cão do Inferno”, havia
uma garota que ainda mantinha sua vontade de lutar.
Porém, não hesitou em sua
determinação de não entregaria o pão de yakisoba para ela.
— Ugh!
— Uuu!
Os dois eram como animais
selvagens que tinham acabado de encontrar seus inimigos naturais, pois cada uma
de suas expressões, lábios tensos e sobrancelhas trêmulas tentavam assustar o
outro.
— Uu! (Ei, solte isso.
Essa é minha presa.)
— Uuu! (Sem chance. Eu
peguei primeiro!)
Nenhum dos dois recuou
enquanto discutiam intensamente.
No meio do silêncio que
havia entre os dois, faíscas voaram.
O que devo fazer?
Em termos de força, era
certeza que não perderia para uma garota.
Contudo, se puxasse o pão
apenas com força bruta, poderia acabar rasgando a embalagem plástica e o pão
poderia cair no chão. Se tentasse puxar com mais força, acabaria amassando o
pão.
Tenho que pensar em um
plano aqui...!
— Koremitsu, você está
lidando com uma garota. De o pão a ela! Damas primeiro!
Atrás dele, Hikaru falou
com espanto.
— De jeito nenhum! Mesmo
sendo mulher, não vou entregar meu almoço!
Ele deixou essas palavras
escaparem e demonstrou arrependimento por tê-las dito. A garota diabólica
chutou Koremitsu no joelho.
Foi um chute brilhante,
que conseguiu a harmonia perfeita de velocidade, tempo e potência.
— Uooh.
Koremitsu perdeu o
equilíbrio e o pão escorregou de sua mão.
— Wah, Koremitsu!
O inimigo pegou o pão sem
piedade.
— Ack! Sua...
Koremitsu olhou e
descobriu que a garota já havia pago e ficado com o pão de yakisoba para si.
— Desprezível!
Ela pegou o pão, virou-se
inalterada e olhou para o furioso Koremitsu.
Seu cabelo bege claro e
brilhante balançava.
— A culpa é sua por não
me levar a sério só por ser uma garota.
Sua voz assumiu um tom
gélido, pelo visto zombando-o, e pegou o pão de yakisoba e uma xícara de café
com leite antes de sair.
Koremitsu observou suas
pernas longas e finas em uma saia curta desaparecerem gradualmente de seu campo
de visão.
— Ugh, por que ela é tão
violenta? Eu a deixei conseguir o que queria.
— Sim, essas pernas são
lindas.
Não sobrou nada no balcão
para o almoço de Koremitsu.
— Por que as outras
coisas já estão esgotadas?
Seu grito ecoou enquanto
sacudia as caixas vazias, assustando a moça da padaria.
— Droga, aquela garota...
Espero que seja acometida por uma doença que a deixe dependente de celulares e envie
tantas mensagens que desenvolva tenossinovite até seus dedos caírem.
Koremitsu, que estava no
telhado que deveria ser proibido, comeu seu almoço de pasta de feijão vermelho,
leite, suco de vegetais, bebida esportiva e água com vitaminas enquanto continuava
a lamentar a injustiça que acabara de sofrer.
— Já chega não é,
Koremitsu? Afinal, é uma garota. Um delinquente como você será odiado pelos
outros, sabia?
— Eu não sou um
delinquente.
— Se quer negar, tem que
manter suas ações sob controle.
As repreensões de Hikaru
começaram a lhe causar enxaqueca. Até então, a única pessoa que reclamava era
Koremitsu, dos maneirismos de Hikaru.
O que é isso? Por que
está agindo de forma tão madura de repente?
Ele lembrou que quando
Hikaru estava discutindo em frente ao armário de sapatos, ele alegou que “não
conseguia deixar uma garota chorando sozinha”, mostrando uma expressão severa.
Na verdade, esse cara é
muito gentil com as garotas. Será essa a definição de um cavalheiro? Bem,
talvez seja um exagero, mas me sinto infeliz por ser, em certa medida, verdade.
— Cale... Cala a boca.
— Além disso, quem está
sentada ao seu lado na aula é a Srta. Shikibu. Você deveria se dar melhor com
os outros.
— Ela se chama Shikibu?
Como sabe o seu nome?
— Sério, Koremitsu, como
pode não saber o nome da garota sentada ao seu lado? E é alguém tão bonita
também; tem sobrancelhas tão fofas e é uma garota muito atraente. Quanto a essa
Srta. Honoka Shikibu, é uma pessoa bastante popular.
— Hã? Aquela garota fria
que fica mandando mensagens?
Koremitsu certa vez
pensou que, como ela lançava um olhar tão feroz enquanto enviava mensagens,
transmitindo uma presença ameaçadora, sem dúvida seria o tipo de pessoa que
seria isolada pelos outros na sala de aula.
— A Srta. Shikibu não é
popular apenas com os meninos. Há também muitas fãs mulheres por aí. Ela é
atlética, ajuda os outros com frequência e tem um senso de cavalheirismo
apurado. Uma pessoa que as meninas realmente admiram.
Cavalheirismo?
Como ser útil aos outros?
— Não sei. Não sei o que
essas pessoas pensam!
— Mesmo que você desvie o
olhar e negue... Não acha que a Srta. Shikibu tem pernas muito bonitas?
— E VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO
QUE A ARMA USADA PARA ME CHUTAR É ATRAENTE?
— Aquela expressão
agressiva realmente me encantou.
— Só consigo achar nojento.
— O seu cabelo é de uma
cor bronzeada e sedutoramente liso.
— Como é agradável olhar
para essa cor parecida com a de um esquilo?
— Ei, Koremitsu, não acha
que está sendo muito exigente com as garotas?
— É. O vovô sempre me
disse para não ser muito gentil com as garotas.
Hikaru suspirou e
continuou.
— Não há nada mais bonito
e fofo do que garotas neste mundo. Elas são gentis, e ao mesmo tempo
resistentes.
A insistência em dizer aquilo
era algo que Koremitsu sentia que nunca conseguiria entender em toda a sua
vida, e queria que continuasse assim.
As mulheres eram uma
existência estranha para Koremitsu, pois ele às vezes as olhava com pupilas
sombrias... Elas em toda sua inexplicável fragilidade diante dele.
— Se você pudesse
entender a beleza das garotas.
Hikaru murmurou num tom
triste, mudando rapidamente de volta para sua voz para alegre.
— Ok, que tal tentar
namorar uma garota? Vamos encontrar uma garota que faça seu coração disparar.
Eu vou te mostrar. Depois, vamos chamar duas garotas e sair em um grupo de
quatro. Vai ser divertido!
— Tá esquecendo que já
está morto?
— Ah, é verdade.
— Sério, isso é algo
importante, ok? Vejo que esqueceu que é um fantasma com seus ritos funerários
concluídos.
Hikaru soltou uma
risadinha.
— A culpa é
definitivamente sua.
— HÃ?
Quase ignorando a
explosão de Koremitsu, Hikaru falou gentilmente em um tom que parecia exalar
uma fragrância maravilhosa com cada palavra.
— Porque você conseguiu
ouvir a minha voz e conversar comigo. É como se eu tivesse feito um amigo.
Podemos ir e voltar da escola juntos, podemos ir à casa um do outro... Podemos
até conversar durante os intervalos das aulas ou no horário do almoço.
A cabeça de Koremitsu
começou a ficar quente.
O que esse cara está
dizendo?
O coração de Koremitsu
começou a vacilar por algum motivo ridículo, e ele ficou confuso.
É-É mesmo? É isso que
significa ir à escola, voltar da escola e almoçar com um “amigo”? Entendo,
então é assim.
Ele refletiu sobre o que
Hikaru disse.
Seu rosto parecia estar
em um calor sufocante.
Seu peito começou a coçar
tanto que era quase insuportável.
— Não somos exatamente
amigos de verdade, só “designados” como tal, certo?
Enquanto falava, ele
deliberadamente desviou o olhar de Hikaru. Este permaneceu calmo em resposta.
— Bem, sim. Somos apenas
amigos “temporários” até darmos os presentes à Srta. Aoi.
Koremitsu percebeu que
talvez tivesse ferido os sentimentos de Hikaru ao dizer que eram apenas “designados”
como amigos. Seu coração doeu com o pensamento, acompanhado de uma anormal sensação
de forte solidão.
— Oh, então vou te ajudar
a realizar seu desejo e te deixar ascender ao céu! Eu não suporto quando você
começa a explicar coisas relacionadas a flores. Por sinal, flores murcham com
muita facilidade e podem quebrar com facilidade; podem ser esmagadas sem
esforço, não podem ser comidas e não servem para nenhum outro propósito.
Koremitsu não sabia o que
fazer com essa solidão inexplicável em seu peito, sua voz ficando mais rouca do
que antes.
Não havia razão para
mencionar flores.
Hikaru continuava tão
otimista quanto sempre.
— Ah, mas também há
flores comestíveis, como dente-de-leão, violetas, rosas e outras. Elas também
têm um gosto muito bom. Ah, sim, vamos convidar as meninas para colher grama na
próxima vez.
Koremitsu, tentando
conter seu desconforto até aquele momento, só conseguiu demonstrar perplexidade
em seus olhos ao ouvir a proposta de Hikaru.
Colher grama?
Animado, Hikaru começou a
explicar.
— Em outras palavras,
vamos colher capim comestível na natureza da próxima vez. Aquelas meninas que
gostam de ir ao ar livre, para as colinas e florestas, são muito fofas, e
podemos aumentar nossa intimidade uns com os outros enquanto preparamos comida.
Além disso, pode satisfazer seu desejo por comida, sabia? Ah, porém acho que as
meninas preferem que alguém lhes dê flores em vez de comê-las. Se colher uma
flor simples que só floresce na natureza, o carinho dela por você aumentará
muito!
Koremitsu tentou imaginar
a cena em sua mente.
“Viu só! Tem
dente-de-leão por todo lado! Vamos jantar tempurá de dente-de-leão e
dente-de-leão cozido hoje à noite!”
Em um campo verdejante,
Hikaru segurava dentes-de-leão em ambas as mãos, com um sorriso radiante no
rosto.
Por razões desconhecidas,
havia música Yodel ao fundo.
Ele estava cercado por um
grupo de garotas desconhecidas.
“Kya! Você é incrível,
Hikaru!”
“Quero experimentar sua
comida, Hikaru!”
Elas estavam pulando e
comemorando de alegria.
— Por exemplo, uma coroa
feita de dentes-de-leão ou trevos brancos será muito eficaz. Para um rapaz
robusto como você, as pessoas vão gostar se conseguir fazer uma coroa de flores
um pouco desajeitada. Tenho certeza de que se sentirá muito tocada. Mesmo que
seja apenas uma flor, pode colocá-la no dedo anelar. Seria muito eficaz também.
Vou te ensinar como fazer; é muito simples, e tenho certeza de que concordará,
Koremitsu...
— Já não te disse para
não falar comigo sobre flores e mulheres, seu príncipe do harém?
As palavras duras de
Koremitsu eram um fino véu sobre o arrependimento que sentia por sua
insensibilidade com Hikaru. A dor em seu coração persistia, embora a atmosfera
pesada foi dissipada com a sugestão de Hikaru.
Como esperado, esse cara
é apenas um bastardo mulherengo despreocupado!
Hikaru deu de ombros,
fingindo resignação.
— Parece que falhei.
— De qualquer forma,
agora não é hora de tentar conquistar garotas, e sim de pensar seriamente em
como podemos transmitir seus sentimentos à sua noiva. Ela é bem difícil
de lidar. Afinal, os presentes que com os quais quer presenteá-la não são do
tipo que se guarda num armário de sapatos.
Essa foi a coisa mais
problemática para Koremitsu.
Hikaru prometeu dar seis
presentes diferentes para Aoi em seu aniversário, mas não eram coisas que
pudessem ser compradas em uma loja e dadas a outros tão fácil como com um “Oi,
por favor aceite isso”.
Para fazê-la aceitar
todos esses presentes, o notório Akagi Koremitsu teve que agir como mensageiro
de Hikaru Mikado e fazer Aoi aceitar esses presentes de boa vontade.
Será que consigo mesmo?
Afinal, somos apenas
amigos “temporários”.
Koremitsu franziu a testa
com um gemido, e Hikaru falou.
— Ah, só esqueci de uma
coisa muito simples.
— Hã?
— Só a Srta. Aoi e eu
sabemos da minha promessa de dar os sete presentes.
— Oh.
— Em outras palavras, se contar
a ela, provará que é meu representante, e enfim ela abrirá o coração para você.
— Ahh... Esse tipo de ideia
pode funcionar!
Koremitsu se levantou.
— Devia ter dito isso
desde o começo, seu desgraçado. Agora já temos algum progresso.
— Ahaha, acabei ficando
distraído.
— Parece que meus dias de
ir ao banheiro e tomar banho sozinho estão ao meu alcance!
Sob o céu azul-celeste,
ambos seguraram as mãos carinhosas um do outro como amigos de verdade (mesmo
que fosse impossível), e aproveitaram o momento para saborear sua felicidade.
***
O intervalo para almoço
terminou e, quando Honoka Shikibu conseguiu avistar Koremitsu vindo do telhado
em direção à sala de aula, olhou para ele com uma expressão irada.
Koremitsu também se
lembrou de sua própria mágoa por ter seu pão de yakisoba tomado e pretendia
encará-la de volta; porém a esperança de que ainda pudesse resolver a situação
em relação a Aoi o impediu de fazê-lo.
Hmpf. Não sou um sujeito
mesquinho que se preocupa com detalhes.
Ele escolheu ignorá-la.
O dia escolar chegou ao
fim. Koremitsu levantou-se da cadeira e foi para a sala de artes no 3º andar
para cumprir sua responsabilidade como mensageiro de Hikaru.
— Hã? Não tem ninguém por
perto.
— Acho que chegamos um
pouco cedo.
Não havia ninguém na sala
de aula, apenas um gesso de pedra para desenho os observava. A tela e os
cavaletes estavam jogados em um canto.
— Esta é... A pintura da
Srta. Aoi.
Hikaru flutuou até uma
tela e sorriu.
Koremitsu também se
aproximou e deu uma olhada.
— Heh... Isso está
inesperadamente... Bem desenhado.
Ele não estava
elogiando-a por elogiar, estava de fato encantado com seu trabalho.
Era uma pintura da
escadaria da escola, desenhada a partir do degrau inferior, olhando para cima.
A pintura foi feita para parecer envolta em uma camada de névoa dourada,
coberta por uma esplêndida mistura de tons calmantes.
Os raios de luz que
entravam do alto da escada eram cálidos, e era impossível não fechar os olhos e
sentir seu abraço. No entanto, havia uma sensação de solidão na ausência de alguém
naquele cenário.
Essa pintura gentil e um
pouco solitária é daquela garota cínica...?
— A Srta. Aoi é muito boa
em pintar fundos, sejam as escadas, o armário de sapatos da escola, o corredor,
as estantes de livros na biblioteca, o palco de um ginásio vazio, o bebedouro
da escola... Ela sempre consegue usar cores suaves e retratar os pequenos
detalhes que as pessoas comuns costumam não notar.
Hikaru parecia ter sido
ele quem pintou a obra de arte enquanto sorria cheio de orgulho.
Observando a pintura,
seus olhos eram intensos... Como se estivessem protegendo um tesouro, e
repletos do que parecia ser uma mistura de emoções poderosas. A luz do sol
dançava em partículas no ar ao redor de uma janela aberta, onde elas flutuavam
enquanto Hikaru permanecia ali.
Esse cara é um playboy
impenitente, mas seus sentimentos pela Aoi são reais...
Até mesmo Koremitsu, que
era lerdo em questões românticas, conseguia entender um pouco do que Hikaru
sentia ao examinar a pintura de Aoi.
Ele, que antes não estava
disposto a ajudar Hikaru... Apenas esperando mandá-lo para o Céu... Depois de
ver o afeto sincero de Hikaru por sua namorada, realmente queria ajudar a
transmitir os seus sentimentos para ela.
Sou apenas seu amigo “temporário”
por enquanto... Porém acabei aceitando seu apelo por causa do destino. Com
certeza vou te ajudar a entregar seus presentes para a Aoi. Vou ter a certeza de
expressar seus sentimentos a ela.
Ele disse isso a si mesmo
como um compromisso.
— O que você está
fazendo?
Uma voz tensa veio de
trás.
Aoi, pálida, estava
parada na porta. Sua testa franziu um pouco e mordeu os lábios de raiva.
— Por favor, saia.
Seus ombros esguios
tremiam. Talvez estivesse com medo da aparência de Koremitsu.
— Senhorita Aoi, por
favor, ouça o Koremitsu.
Hikaru falou,
aparentemente para tentar acalmá-la.
Sua voz não conseguia
alcançar os ouvidos de Aoi.
— Como disse ontem, não
quero falar com você de forma alguma.
Koremitsu olhou para
Hikaru com uma expressão que dizia “Deixe comigo”. Seus músculos faciais
enrijeceram, fazendo a expressão mais séria que conseguiu e caminhou em direção
a Aoi.
Aoi não estava sozinha em
choque com isso.
— Eu não lhe dei o
segundo presente de Hikaru.
Ao ouvir tais palavras, o
corpo de Aoi se contraiu. Seus olhos revelavam surpresa. Estava, sem dúvida,
abalada por Koremitsu ter mencionado algo que só ela e Hikaru deveriam saber.
Ótimo, acho que consegui
a atenção dela.
Ele olhou de relance para
Hikaru, que os observava tenso e fazia sinal de positivo, indicando que as
coisas estavam indo bem.
— Hikaru prometeu te dar
sete presentes, e os seis restantes estão comigo por enquanto. Espero te dar no
seu aniversário, então, nesse dia, por favor...
De repente, uma sacola
foi jogada no seu rosto.
Quando Hikaru gritou.
— Senhorita Aoi, por
favor, pare!
— O quê... O quê no mundo...
Aoi parecia um gato com
os pelos eriçados enquanto ofegava e encarava Koremitsu.
Sua expressão ficou
lívida.
Seus punhos tremiam mais
do que antes no momento em que Koremitsu falou, mordendo os lábios com mais
força e suas sobrancelhas estavam franzidas.
Antes que Koremitsu
pudesse entender o que estava acontecendo, ela jogou tudo, de pincéis a baldes
e lápis de desenho na sua direção.
— Por favor, não minta dessa
forma! Por que o Hikaru te pediria uma coisa dessas antes de morrer? Ele morreu
em um acidente!
Argh, esqueci disso.
No momento em que Hikaru
deu a Aoi seu primeiro presente, não tinha como saber que estava prestes a
morrer.
— Senhorita Aoi.
Koremitsu ouviu de mim que eu pretendia dar sete presentes a uma garota muito
importante, e decidiu me ajudar a cumprir essa missão!
Hikaru continuou a
explicar enquanto estava ao lado deles.
— É-É verdade! Sou amigo
do Hikaru! Já ouvi falar dos sete presentes antes, que tinha intenção de
entregá-los a uma garota muito importante!
Sua voz se elevou
enquanto desviava dos pincéis e lápis. Como estava muito ansioso, acabava
dizendo as coisas de forma embaralhada.
— Você entrou na escola
pela primeira vez um dia antes da Semana Dourada4. Asa disse que
você só apareceu uma vez na escola antes da morte de Hikaru e que não pode ser
seu amigo. E disse que está pretendendo mentir para mim; que suas palavras são
mentiras e que não devo te dar ouvidos.
Quem é Asa? Hã?
— Senhorita Aoi. Por
favor, acalme-se. Sou amigo íntimo do Koremitsu há muito tempo.
— É verdade! Sou irmão juramentado
do Hikaru há dez anos.
— Hikaru nunca teve
amigos homens desde o jardim de infância! Todas as suas colegas eram mulheres!
Foi o que Asa disse também! Hikaru não pode ter amigos homens!
Quem diabos é essa Asa,
afinal?
Tubos de tinta vermelha,
azul, preta e verde foram atirados em sua direção. Aoi, que agora ofegava
descontroladamente sobre uma tela, cerrou os dentes enquanto seus olhos se
transformavam em chamas.
— Se o que disse for um pouquinho
verdade, significa que o Hikaru contou aos outros sobre a promessa que fez
comigo. Com certeza deixou escapar durante uma conversa de travesseiro com
outra mulher, e essa mulher contou aos outros por empolgação, foi assim que
descobriu.
— Isso não é verdade,
Srta. Aoi!
Hikaru ficou desesperado.
Aoi perdeu o controle das
emoções. Não importava o quanto tentassem negar suas acusações, ela se recusava
a ouvi-los.
— SAIA! POR FAVOR, SAIA!
POR FAVOR, NÃO ME TRATE COMO UMA IDIOTA! MESMO QUE ASA NUNCA O TENHA DITO, NÃO
VOU PERDOAR UMA PESSOA DESPREZÍVEL COMO VOCÊ!
Aoi continuou o ataque,
parecendo que até mesmo jogaria a tela e os cavaletes.
— Isso não vai dar certo,
Koremitsu. Vamos tentar outro dia.
— Ei, Mikado. Você não é nada
confiável, né?
— Por favor, vá!
Koremitsu ergueu a bolsa
para bloquear os projéteis atirados em sua direção durante sua fuga. Aoi não
parou até vê-lo sair pela porta. Então, ele voltou a abri-la.
— Eu voltarei!
Koremitsu gritou enquanto
colocava o rosto para fora da bolsa, e uma paleta atingiu seu queixo,
derrubando-o.
— Woah!
Ele escorregou e tentou
recuperar o equilíbrio, no entanto não conseguiu e caiu no chão dos corredores.
— KYAA!
Ouviu-se uma voz aguda, e
o nariz de Koremitsu captou algo doce, seu rosto enterrado em algo macio.
Hm? O que é isso? Por que
tem almofadas no chão?
— Droga, isso é péssimo,
Koremitsu! Nem eu fiz uma coisa dessas nos corredores da escola antes!
Por que Hikaru está tão
ansioso?
No momento seguinte...
— SEU PERVERTIDO!
Ele foi atingido com
força no peito.
Levantando a cabeça,
encontrou o rosto de Honoka Shikibu a centímetros de distância. Seu rosto
estava vermelho, e sua expressão assassina o encarou.
Os seios de Shikibu
estavam logo abaixo do rosto de Koremitsu, confirmando que aquela coisa
almofadada de antes era o decote de Shikibu. O pior era que o joelho de Honoka
pressionava seu abdômen.
Um impacto mais forte
veio. Shikibu cerrou o punho e o acertou no lado direito na testa de Koremitsu.
— GUAH!
Koremitsu saiu de cima
dela.
— PERVERTIDO! MOLESTADOR!
MORRA!
Shikibu começou a chutar
os ombros e o abdômen de Koremitsu com os calcanhares e os dedos dos pés.
Koremitsu chorou de
angústia enquanto recebia golpes de kickboxer.
— Senhorita Shikibu, você
está enganada! Foi um acidente!
Hikaru tentou o seu
melhor para explicar, mas, como já havia sido provado naquele dia, suas
explicações foram inúteis.
Shikibu lançou um olhar
de desprezo para o abatido Koremitsu, que permanecia imóvel em seu uniforme
desgrenhado.
— Se ousar empurrar outra
garota na escola e enterrar sua cabeça nos seios dela, vou te dar uma boa
surra!
Com essa declaração, ela
foi embora.
Uma multidão se formou ao
redor de Koremitsu enquanto os espectadores começavam a discutir a luta.
— Shikibu é incrível.
— O delinquente não terá
uma vida difícil.
Aoi, que estava parada na
porta, também deu sua opinião.
— Justo como o Asa disse.
Você é o pior.
Seu murmúrio frio foi
acompanhado do som da porta batendo.
Em meio aos livros
didáticos e materiais de papelaria espalhados, Koremitsu estava esparramado no
chão.
Droga! Não cai nos peitos
da Shikibu por causa da paleta que você jogou em mim? E essa tal de Asa ou sei
lá o quê me odeia, né?
Ele vociferou em sua mente.
Uma voz ao seu lado soou
mais alta que as outras.
— Koremitsu! Aguenta
firme, Koremitsu! Não morra também!
Hikaru disse algumas
coisas ameaçadoras.
***
— Eu devia saber,
mulheres não prestam. Aquela garota de cara feia me chutou sem me dar chance de
explicar, e aquela sua noiva só enlouqueceu e jogou todos os pincéis e tintas
em mim! Não sou nenhum alvo de tiro, pelo amor de Deus...! É por isso que digo,
mulheres...
Koremitsu sentou-se no
tatame de sua casa, murmurando o slogan de seu avô para desabafar suas
frustrações.
Ainda se sentia dolorido
pela surra que recebeu de Shikibu; seus ferimentos eram tão graves que quase
foi hospitalizado.
— De qualquer forma... Sinto
muito por essa confusão.
Hikaru, despreocupado por
natureza, só conseguiu sentar e pedir desculpas a Koremitsu.
— A Srta. Aoi ter me
considerado tão indigno de confiança... Não é como se nunca tivesse esperado, porém
não podia imaginar que seria tão sério... A Srta. Aoi levou a sério meu
tratamento com as mulheres? Só que cada flor tem um encanto próprio.
— É melhor que sua
reflexão nesse assunto seja tão profunda quanto o mar, seu grande pervertido.
— Sim...
Hikaru se encolheu diante
dessas palavras.
— Então, o que devemos
fazer agora? Ela te tratou como um mulherengo que saiu tagarelando sobre sua
promessa durante uma conversa de travesseiro com outras meninas, e por isso,
sua aversão está ainda pior. Será que podemos mesmo abrir seu coração antes do aniversário?
— Esqueci que a Srta. Aoi
é diferente das outras garotas.
Hikaru franziu a testa,
desanimado.
— Não consigo me recompor
sempre que encaro a Srta. Aoi... Mesmo quando eu estava vivo, fazia muito mais
coisas para irritá-la do que para alegrá-la. Uuh... Sou um galã inútil.
— Não diga que você é um galã,
ok? Além do mais, não podemos deixar isso continuar.
— Precisamos de alguém
que entenda o coração de uma mulher para dar sugestões.
Koremitsu ficou surpreso
com a proposta de Hikaru.
— Por exemplo, precisamos
de uma irmã mais velha, educada e gentil, admirada por todas as meninas do
primeiro ano, alguém com quem todos possam conversar. Assim como a flor do amor
da América do Sul, Heliotrópio... Chamado de fragrância roxa em japonês, uma
mulher confiável, radiante, elegante e com grande conhecimento.
— Mulheres de novo?
De repente, ambos ouviram
uma canção alegre.
— O-O que é isso?
Era um sucesso de alguma
banda famosa. A letra dos vocais femininos era um incentivo ao amor. Todavia,
era de se perguntar de onde vinha.
— Koremitsu, seu telefone
está tocando.
Koremitsu não se lembrava
de ter definido essa música como toque de celular. Deixando essa parte de lado,
era inacreditável que tivesse recebido uma mensagem.
Ele vasculhou sua bolsa e
encontrou o telefone tocando.
O telefone era lilás,
decorado com acessórios brilhantes, e havia um chaveiro de um urso feio, ou
algo assim, pendurado.
— Este telefone não é
meu.
— Parece ser de uma
menina.
O telefone continuou
tocando. Devo atender?
Ele abriu o telefone, mas
não estava familiarizado com seu funcionamento. Apertou alguns botões
aleatoriamente e o toque parou. Então, um registro de mensagens apareceu na
tela.
“Para: Princesa Púrpura:
sobre o primeiro encontro que tive com Tomonori (>_<)”
— Princesa Púrpura?
Koremitsu continuou com
as outras mensagens.
“Re: Princesa Púrpura:
Vou me confessar amanhã!”
“Princesa Púrpura! Yuuki
quer falar com você sobre o ex-namorado dela!”
“Re: Princesa Púrpura:
Fiz as pazes com K.”
Ele examinou a lista e
encontrou o nome Princesa Púrpura em todos os lugares.
— Princesa Púrpura? Que
nome idiota. — comentou e Hikaru interveio.
— Já ouvi falar disso
antes. É algo que as meninas conversam entre... Bem, espera, por favor, deixa
eu me lembrar. Minha memória se multiplica por dez quando se trata de meninas.
Ah, sim, foi quando estive voltando com a segundanista, a Srta. Reiko, da
Academia Seibi, depois que fomos ver a exposição de Renoir...
Sua mão pousou abaixo do
queixo enquanto ponderava por um tempo.
— Ah, sim! Ela é uma
romancista de internet!
— Uma romancista de
internet?
— Sim, é uma doce
história de amor com muitas mudanças de humor. Assim que postou no blog, houve
muitas respostas pedindo conselhos amorosos, e ela foi aclamada como a “especialista
em amor”. Seu celular consegue acessar a internet, Koremitsu?
— Acho que sim, mas nunca
entrei na internet antes.
— Então, vamos tentar
procurar por essa Princesa Púrpura.
Com Hikaru o guiando,
Koremitsu usou seu telefone para digitar o nome “Princesa Roxa” na barra de
pesquisa.
A principal pesquisa
mostrou um blog chamado “Mansão da Princesa Púrpura”.
— Achei.
Koremitsu clicou no link e
apareceu uma página da web deslumbrante, em roxo, com todos os tipos de funções
para exibir.
Havia algumas abas
classificadas que incluíam “romance”, “conversa de amor” e “diário”. Ele clicou
em “romance” e apareceu prosa em muitos parágrafos e quebras de linha.
“O suspiro do guaxinim
Desce sobre meu rosto.
Frio.
Picante.
Meu coração dói.
Não é bom.
Acho que realmente me
apaixonei.”
— ???
Um hálito picante? Dor no
coração? Não entendo nada. E por falar nisso, isto é um romance? Ou é um poema?
Sua cabeça inclinou e
clicou na aba “conversa de amor”.
“Hoje, vou responder aos
problemas da Senhorita Flor de Cacto!
Este é o e-mail enviado
pela Srta. Flor de Cacto!”
“Princesa Púrpura, por
favor, me escute.
Sou uma estudante do
primeiro ano do ensino médio que realmente ama K, da minha turma.
K me trata como uma mera
amiga e nunca me tratou como uma garota antes.
K gosta de Y-bi, minha
colega de clube, e me pediu para ajudá-lo a perguntar se há alguém com quem ela
está saindo.
O que devo fazer?”
Após essa pergunta, veio
a resposta da Princesa Púrpura...
“Senhorita Flor de Cacto!
Você definitivamente deve
mostrar seus sentimentos para K.
Sei que tem medo de
terminar seu relacionamento com K, porém será ainda mais insuportável se K sair
com outra garota.
Precisa agir agora!
Para que sua confissão
seja um sucesso, esta Princesa Púrpura lhe dará algumas dicas.
Primeiro, precisa deixá-lo
saber que você, Flor de Cacto, é uma menina. Isto é o mais importante!
Seu penteado, joias e
maquiagem devem ser um pouco femininos.
E então, se K perguntar o
que está acontecendo, deve parecer fraca e responder com sutileza.
‘Tem alguém de quem eu
gosto e espero que ele me note.’
Depois disso, ele provavelmente
vai se perguntar quem é a pessoa de quem você ‘gosta’.”
Essas perguntas e
respostas sobre o amor continuaram na página.
Koremitsu olhou para o
telefone.
— Ei, a dona deste
telefone dentro da minha bolsa é a “Princesa Púrpura”, certo?
— Pelo título do e-mail, parece
ser o caso.
— Acabei de levar um
chute feio do Shikibu na frente da sala de artes, certo?
— Sim, a saia dela estava
bem exposta. Suas belas pernas estavam à mostra, e suas coxas estavam bem visíveis.
— Assim que ela saiu, eu
me levantei. As coisas da minha bolsa caíram para todos os lados quando me
levantei. Fiquei envergonhado e furioso, e de qualquer forma, só peguei tudo
que estava no chão e coloquei na minha bolsa...
— Sim.
Hikaru e Koremitsu
olharam para o telefone com intriga.
— Talvez o telefone de
Shikibu... Acabou dentro da minha bolsa.
— Essa é uma
possibilidade.
— Em outras palavras,
este telefone...
Koremitsu teve um mau
pressentimento enquanto falava.
— Shikibu é a Princesa
Púrpura?
Notas:
1. Jūnihitoe, traduzido literalmente como túnica de doze camadas; usada por damas da corte desde a Era Heian. Notável por seus designs intrincados e graciosos.
2. Uma trupe musical e teatral exclusivamente feminina no Japão.
3. Chabudai é uma mesa de refeições comum no Japão. Em geral, elas são de forma retangular ou circular, e muitas são dobráveis.
4. A Semana Dourada é a junção de quatro feriados nacionais no final de abril / início de maio, que ocorre no Japão. Combinada com alguns fins de semana, torna-se uma das datas preferidas das pessoas, o que causa uma grande aglomeração nas cidades.


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