Capítulo 26: Na Casa de Geloë
A figura que permanecia emoldurada pela luz quente da porta não se moveu nem falou enquanto os companheiros subiam a longa ponte de madeira que se estendia da entrada até a margem do lago. Enquanto Simon seguia Binabik, carregando cuidadosamente a criança Leleth, não pôde deixar de se perguntar por que aquela mulher, Geloë, não tinha uma entrada mais permanente, algo ao menos com um corrimão de corda. Seus pés cansados estavam com dificuldade para se manter na ponte estreita.
“Suponho que ela não receba muitas visitas, para começar.” pensou, olhando para a floresta que escurecia rapidamente.
Binabik parou antes do degrau da frente e fez uma reverência, quase empurrando Simon para dentro das águas calmas.
— Valada Geloë! — anunciou. — Binbines Mintahoqis solicita sua ajuda. Trago viajantes.
A figura na porta recuou, deixando o caminho livre.
— Poupe-me dos modos nabbanos, Binabik.
Era uma voz áspera e musical, com um sotaque carregado e estranho, embora inconfundivelmente feminina.
— Eu sabia que era você. Qantaqa está aqui há uma hora. — na extremidade da rampa próxima à margem, a loba ergueu as orelhas. — Claro que você é bem-vinda. Acha que eu negaria?
Binabik entrou na casa. Simon, um passo atrás, falou.
— Onde posso colocar a garotinha? — ele se abaixou para passar pela porta, tendo uma rápida impressão de um teto alto e longas sombras ondulantes projetadas pelas chamas de muitas velas, então Geloë se colocou à sua frente.
A mulher vestia um robe rústico de tecido cor de areia, amarrado meio sem jeito com um cinto. Sua altura era intermediária entre a de Simon e a do gnomo, seu rosto largo e bronzeado pelo sol, marcado por rugas ao redor dos olhos e da boca. Seus cabelos escuros estavam grisalhos e curtos, de modo que parecia quase uma sacerdotisa. Contudo foram seus olhos que o cativaram... Olhos amarelos, redondos e com pálpebras pesadas, com pupilas grandes e negras como azeviche. Eram olhos antigos e sábios, como se pertencessem a alguma ave ancestral das alturas, e havia um poder por trás deles que o paralisou. Ela pareceu medi-lo por completo, virá-lo do avesso e sacudi-lo como um saco, tudo em um instante. Quando seu olhar enfim se voltou para a menina ferida, Simon se sentiu tão oco como um odre de vinho vazio.
— Esta criança está ferida.
Não era uma pergunta.
Simon, impotente, deixou que a mulher pegasse Leleth de seus braços enquanto Binabik se aproximava.
— A menina foi atacada por cães. — relatou. — Cães com a marca do Pico das Tormentas.
Se esperava um olhar de surpresa ou medo, ficou desapontado. Geloë passou e se dirigiu até um colchão de palha no chão, onde deitou a menina.
— Procure comida se estiver com fome. — disse ela. — Preciso trabalhar agora. Vocês foram seguidos?
Binabik se apressou em relatar os últimos acontecimentos, enquanto Geloë despia o corpo inerte da criança, quando Malaquias enfim se aproximou do colchão. Ele se agachou perto, pairando enquanto Geloë limpava os ferimentos de Leleth. Quando Malaquias se aproximou demais, atrapalhando seus movimentos, a valada tocou gentilmente o ombro do menino com uma mão sardenta de sol. Manteve o contato, olhando-o por um momento, até que Malaquias ergueu os olhos e se encolheu. Após um instante, ergueu os olhos para Geloë mais uma vez, e algo pareceu passar silenciosamente entre eles antes que Malaquias se virasse e se encostasse na parede.
Binabik cutucou o fogo, engenhosamente instalado em um poço profundo no chão. A fumaça... Surpreendentemente pouca... Subiu até o teto; Simon imaginou que devia haver uma chaminé escondida nas sombras acima.
A própria cabana, que na verdade era um grande cômodo, lembrava-o em muitos aspectos dos aposentos de estudo de Morgenes. Uma infinidade de objetos estranhos estava pendurada nas paredes rebocadas de barro: galhos frondosos amarrados em feixes cuidadosos, sacos de flores secas derramando suas pétalas e talos, juncos e raízes longas e escorregadias que pareciam ter vindo a contragosto do lago abaixo. A luz da fogueira também tremeluzia sobre uma multidão de pequenos crânios de animais, delineando suas superfícies brilhantes e polidas sem penetrar a escuridão dos olhos.
Uma parede inteira era dividida entre o chão e o teto por uma prateleira na altura da cintura feita de casca esticada em uma moldura; ela também estava coberta de objetos curiosos: peles de animais e pequenos feixes de gravetos e ossos, belas pedras polidas pela água de todas as formas e cores, e uma pilha organizada de pergaminhos, com as alças voltadas para fora como um monte de lenha. Estava tão desorganizada que Simon levou um momento para perceber que não era uma prateleira, e sim uma mesa; ao lado dos pergaminhos havia uma pilha de livros e uma pena de escrever em um tinteiro feito de outro crânio de animal.
Qantaqa choramingou baixinho e encostou o focinho na coxa dele. Simon coçou o focinho da loba. Havia cortes em seu rosto e nas orelhas, contudo a pelagem havia sido limpa do sangue seco. Ele se virou da mesa para a parede larga que dava para o lago, com suas duas pequenas janelas. O sol já havia se posto, e a luz de velas que saia projetava dois retângulos longos e irregulares na água; Simon conseguia ver sua própria silhueta desengonçada em um deles, como a pupila de um olho brilhante.
— Preparei uma sopa. — disse Binabik atrás dele, oferecendo uma tigela de madeira. — Eu também estava precisando. — sorriu o gnomo. — E você e todos os outros também. Espero nunca mais ter um dia como este.
Simon soprou o líquido quente e, em seguida, tomou um pouco. Era picante e um pouco amargo, como cidra de Elysiamansa quente.
— Está bom! — agradeceu, e tomou mais um pouco. — O que é isso?
— É melhor não perguntar. — Binabik sorriu maliciosamente.
Geloë ergueu os olhos do colchão, as sobrancelhas se inclinando para baixo até a ponte de seu nariz afilado, e encarou Binabik com um olhar penetrante.
— Pare com isso, gnomo, vai dar dor de barriga para o menino. — resmungou, irritada. Só tem cicuta, dente-de-leão e erva-de-pedra, garoto.
Binabik pareceu envergonhado.
— Desculpe, Valada.
— Gostei. — intercedeu o jovem, preocupado por tê-la ofendido de alguma forma, mesmo que apenas como alvo das brincadeiras de Binabik. — Obrigado por nos acolher. Meu nome é Simon.
— Ah... — resmungou Geloë, voltando-se em seguida para limpar os ferimentos da menina. Imperturbável, Simon terminou seu caldo o mais silenciosamente possível.
Binabik pegou a tigela e a voltou a encher; terminou essa quase tão rápido quanto a anterior.
Binabik começou a pentear a espessa pelagem de Qantaqa com seus dedos grossos, jogando as folhas e ramas que soltava no fogo. Geloë aplicava curativos em Leleth em silêncio, enquanto Malaquias observava, com os cabelos negros e lisos caindo sobre o rosto. Simon encontrou um lugar um pouco mais desimpedido para se encostar na parede da cabana.
Uma legião de grilos e outros cantores noturnos preenchiam os espaços vazios da noite enquanto Simon deslizava para um sono exausto, seu coração batendo em ritmo lento.
***
Ainda era noite quando despertou. Balançou a cabeça estupidamente, tentando se livrar do resíduo pegajoso de um sono curto demais; levou um momento olhando ao redor do lugar desconhecido até que se lembrasse de onde estava.
Geloë e Binabik conversavam baixinho, a mulher em um banquinho alto, o gnomo de pernas cruzadas a seus pés, como um estudante. Atrás deles, no colchão, jazia uma forma escura e irregular que Simon por fim reconheceu como Malaquias e Leleth, encolhidos juntos, dormindo.
— Não importa se você foi inteligente ou não, jovem Binabik. — dizia a mulher. — Teve sorte, o que é uma coisa melhor.
Simon decidiu avisá-los de que estava acordado.
— Como está a garotinha? — perguntou, bocejando.
Geloë voltou seu olhar encapuzado para ele.
— Muito mal. Gravemente ferida e febril. Os cães... Bem, não é bom ser mordido. Eles comem carne impura.
— A valada fez tudo o que podia ser feito, Simon. — disse Binabik. Ele tinha algo nas mãos... Uma nova bolsa que estava costurando com pele enquanto falava. O garoto se perguntou onde o companheiro poderia encontrar novos dardos. Ah, e uma espada... Até mesmo uma faca! Pessoas em aventuras sempre tinham espadas ou inteligência afiada. Ou magia.
— Contou a ela...? — Simon hesitou. — Contou sobre Morgenes?
— Eu já sabia. — Geloë o encarou, a luz da fogueira avermelhando seus olhos brilhantes. Quando falou, foi com poderosa deliberação. — Você estava com ele, garoto. Sei seu nome e senti a marca de Morgenes em você quando o toquei ao pegar a criança.
Como que para demonstrar, ela estendeu sua própria mão larga e calejada.
— Você sabia meu nome?
— No que diz respeito ao doutor, sei muitas coisas. — Geloë inclinou-se e cutucou o fogo com um longo pedaço de pau enegrecido. — Um grande homem se foi, um homem que nós não podíamos nos dar ao luxo de perder.
Simon hesitou. A curiosidade por fim venceu o temor.
— O que quer dizer? — ele rastejou pelo chão para se sentar perto do gnomo. — Isto é, o que nós quer dizer?
— ‘Nós’ significa todos nós. — respondeu. — ‘Nós’ significa aqueles que não acolhem a escuridão.
— Eu contei a Geloë o que nos aconteceu, amigo Simon. — Binabik falou baixinho. — Não é segredo que tenho poucas explicações.
Geloë torceu o rosto e apertou seu robe grosseiro ao redor do corpo.
— E não tenho nada a acrescentar... Ainda. Está claro para mim agora, no entanto, que os sinais meteorológicos que vi até mesmo aqui no meu lago isolado, os gansos voando para o norte que deveriam ter sobrevoado o local há quinze dias, todas as coisas que me fizeram refletir nesta estranha estação... — ela juntou as palmas das mãos, como em um gesto de oração. — São reais... E a mudança que pressagiam também é real. Terrivelmente real.
A mulher deixou as mãos caírem em seu colo e as encarou.
— Binabik tem razão... — continuou. Ao seu lado, o gnomo assentiu com a cabeça, todavia Simon achou ter visto um brilho de satisfação nos olhos do homenzinho, como se tivesse recebido um grande elogio. — Isto é muito mais do que um conflito de um rei e seu irmão. As contendas dos reis podem devastar a terra, arrancar árvores e banhar os campos em sangue. — uma rama caiu no fogo com um estalo de faíscas, e Simon deu um pulo. — Porém as guerras dos homens não trazem nuvens escuras do norte, nem mandam os ursos famintos de volta para suas tocas no mês de maya.
Geloë se levantou e se espreguiçou, as mangas largas de seu manto pendendo como asas de pássaro.
— Amanhã tentarei encontrar algumas respostas para vocês. Agora todos devem dormir enquanto podem, pois temo que a febre da criança volte com força durante a noite.
A mulher foi até a parede oposta e começou a colocar pequenos potes de volta nas prateleiras. Simon estendeu sua capa no chão perto da borda da lareira.
— Talvez não devesse dormir tão perto das chamas. — advertiu Binabik. — Uma faísca que salte pode incendiá-los.
Simon olhou o olhou o amigo com atenção, mas o gnomo não parecia estar brincando, então puxou sua capa alguns metros para trás e deitou-se sobre ela, enrolando o capuz como uma almofada sob a cabeça, depois puxou as laterais para cima e sobre si mesmo. O homenzinho se afastou em direção ao canto e, após um momento de farfalhar e batidas, também se acomodou.
O canto dos grilos havia cessado. Simon encarava as sombras que tremeluziam nas vigas e ouviu o suave sussurro incessante do vento passando pelos galhos das árvores e para fora, através do lago.
***
Não havia lanternas acesas, nem fogo; apenas a luz pálida da lua filtrando-se pelas janelas altas, pintando o quarto desarrumado com uma espécie de brilho gelado. Simon olhou ao redor para as silhuetas curiosas e irreconhecíveis que cobriam as mesas e para as formas quadradas e inertes dos livros empilhados em montes tortos, brotando do chão como lápides em um cemitério. Seus olhos foram atraídos por um livro em particular que estava aberto, brilhando como a casca de uma árvore recém polida. No meio da página aberta, havia um rosto familiar... Um homem de olhos flamejantes, cuja cabeça ostentava os chifres ramificados de um cervo.
Simon olhou para o cômodo e depois voltou a olhar para o livro. Estava nos aposentos de Morgenes, é claro. É claro! Onde pensava que estava?
Mesmo depois de se dar conta, enquanto as silhuetas assumiam as formas familiares dos frascos, suportes e retortas do doutor, ouviu-se um ruído cauteloso de arranhão na porta. O garoto se sobressaltou com o som inesperado. Listras diagonais de luar faziam a parede parecer inclinar-se. O arranhão voltou a se fazer audível.
— Simon...?
A voz era muito baixa, como se o falante não quisesse ser ouvido, porém a reconheceu no mesmo instante.
— Doutor?
Levantando-se num salto, atravessou até a porta em poucos passos.
Por que o velho havia batido? E o que estava fazendo voltando tão tarde? Talvez tivesse estado em alguma jornada misteriosa e, tolamente, se trancado para fora... Era isso, claro! Sorte que Simon estava lá para deixá-lo entrar.
Sua mão tateou a tranca escura.
— O que o senhor andou fazendo, Doutor Morgenes? — sussurrou. — Estou esperando o senhor há tanto tempo!
Não houve resposta.
Ainda enquanto destrancava a porta, foi tomado por uma súbita sensação de inquietação. Parou com a porta entreaberta, ficando na ponta dos pés para espiar por uma fresta entre as tábuas.
— Doutor?
No corredor interno, banhado pela luz azul das lâmpadas, a figura encapuzada e envolta em manto do velho estava diante da porta. Seu rosto estava sombreado, embora não havia como confundir seu velho manto esfarrapado, sua constituição franzina, as mechas de cabelo branco que escapavam do capuz, tingidas de azul pela luz do lampião. Por que não respondia? Estaria ferido?
— Você está bem? — perguntou Simon, abrindo a porta. A pequena figura curvada não se moveu. — Onde esteve? O que descobriu? — pensou ter ouvido o doutor dizer algo e se inclinou para a frente.
— O quê?
As palavras que lhe subiram eram vazias, dolorosamente ásperas.
— Falso... Mensageiro...
Foi tudo o que entendeu.... A voz seca parecia se esforçar para falar... E então o rosto se ergueu e o capuz caiu para trás.
A cabeça que ostentava a franja esfarrapada de cabelo branco era uma ruína queimada e enegrecida: um nódulo com buracos rachados e vazios no lugar dos olhos, o pescoço esguio do qual balançava um pedaço de pau carbonizado. Mesmo enquanto Simon cambaleava para longe, um grito incontrolável preso em sua garganta, uma fina linha vermelha se espalhou pela frente da bola preta e coriácea que era a cabeça; um instante depois, a boca se abriu, um sorriso entreaberto de carne rosada.
— O... Falso... Mensageiro... — tornou a dizer, cada palavra um suspiro rouco. — Cuidado...
E então Simon gritou, até o sangue pulsar em seus ouvidos, pois a coisa queimada falou, sem dúvida, com a voz do Doutor Morgenes.
***
Seu coração acelerado levou um bom tempo para se acalmar. Ele se sentou, respirando com dificuldade, e Binabik sentou-se ao seu lado.
— Não há nada que temer aqui. — disse o gnomo, pressionando a palma da mão contra a testa de Simon. — Você está gelado.
Geloë voltou do catre onde havia recolocado o cobertor de Malaquias, que fora chutado para fora quando o grito de Simon o acordou assustado.
— Você tinha sonhos tão intensos como este quando morava no castelo, garoto? — perguntou a mulher, encarando-o com um olhar severo, como se o desafiasse a negar.
Simon estremeceu. Diante daquele olhar penetrante, não sentiu vontade de dizer nada além da verdade.
— Não até... Até os últimos meses antes... Antes...
— Antes de Morgenes morrer! — disse Geloë. — Binabik, a menos que meu conhecimento tenha me abandonado, não acredito que seja coincidência ele sonhar com Morgenes na minha casa. Não um sonho assim.
Binabik passou a mão pelos cabelos despenteados pelo sono.
— Valada Geloë, se você não sabe, como eu poderia saber? Filha das Montanhas! Sinto que estou ouvindo ruídos na escuridão. Não consigo distinguir os perigos que nos cercam, no entanto sei que são perigos. Simon sonha com um aviso contra ‘falsos mensageiros’... Todavia isso é apenas uma das muitas coisas misteriosas. Por que as nornas? E o rimmerio negro? Os imundos Bukken?
Geloë se virou para Simon e, com delicadeza, embora com firmeza, o empurrou de volta para sua capa.
— Tente voltar a dormir! — disse. — Nada entrará na casa da bruxa que possa lhe fazer mal. — ela se virou para Binabik. — Acho que, se o sonho que descreveu for tão coerente quanto parece, será útil em nossa busca por respostas.
Deitado de costas, Simon viu a valada e o gnomo como formas negras contra o brilho dos vaga-lumes das brasas. A sombra menor se inclinou perto dele.
— Simon... — sussurrou Binabik,. — Há algum outro sonho que tenha omitido? Que não tenha contado?
O jovem balançou a cabeça lentamente de um lado para o outro. Não havia nada, nada além de sombras, e estava cansado de falar. Ainda sentia o gosto do medo vindo da coisa queimada na porta; só queria se entregar ao poder sedutor do esquecimento, dormir, dormir...
Mas não foi tão fácil. Apesar de manter os olhos bem fechados, as imagens de fogo e catástrofe continuavam a surgir na sua frente. Virando-se de um lado para o outro, sem conseguir encontrar uma posição que relaxasse seus músculos tensos, ouviu a conversa baixa do gnomo e da bruxa arranhando as paredes como ratos.
Por fim, até aquele ruído cessou, e a respiração solene do vento voltou a soar em seus ouvidos; abriu os olhos. Geloë estava sentada sozinha diante da lareira, com os ombros erguidos como um pássaro se protegendo da chuva, os olhos semicerrados; não conseguia dizer se ela estava dormindo ou observando o fogo se extinguir aos poucos.
Seu último pensamento ao acordar, que surgiu lentamente de dentro dele, tremeluzindo como um fogo sob o mar, foi o de uma colina alta, uma colina coroada de pedras. Aquilo fora um sonho, não fora? Deveria ter se lembrado... Deveria ter contado a Binabik.
Um fogo irrompeu na escuridão do topo da colina, e ouviu o rangido de rodas de madeira, as rodas do sonho.
***
Quando a manhã chegou, não trouxe o sol consigo. Da janela da cabana, Simon podia ver as copas escuras das árvores na extremidade da bacia, porém o próprio lago estava envolto em um denso manto de neblina. Mesmo estando logo abaixo da janela, a água era difícil de ver, uma névoa que girava lentamente, tornou tudo nebuloso e insubstancial. Acima do topo da linha de árvores escuras, o céu era um cinza profundo.
Geloë havia levado Malaquias consigo para colher um certo musgo curativo, deixando Binabik para trás para cuidar de Leleth. O gnomo parecia um pouco animado com o estado da criança, contudo quando Simon olhou para seu rosto pálido e os movimentos fracos de seu pequeno peito, se perguntou que diferença o homenzinho conseguia ver que ele não conseguia.
Simon reacendeu a fogueira com uma pilha de galhos secos que Geloë havia empilhado cuidadosamente no canto, e então foi ajudar a trocar os curativos da menina.
Enquanto Binabik puxava o lençol do corpo de Leleth e removia as bandagens, Simon fez uma careta, embora não se permitiu desviar o olhar. Todo o torço da pequena estava enegrecido por hematomas e marcas de dentes feias. A pele havia sido rasgada debaixo do braço esquerdo até o quadril, um corte irregular de trinta centímetros. Quando o homenzinho terminou de limpar o ferimento e a enfaixou de volta com largas tiras de linho, pequenas rosas de sangue brotaram através do tecido.
— Ela realmente tem alguma chance de viver? — perguntou Simon.
Binabik deu de ombros, com as mãos ocupadas em fazer nós cuidadosos.
— Geloë acha que sim. — respondeu. — Ela é uma mulher de mente severa e direta, que não coloca as pessoas acima dos animais em sua estima, mas ainda assim é uma estima altíssima. Não lutaria contra o impossível, suponho.
— Ela é mesmo uma bruxa como disse?
Binabik puxou o lençol sobre a menina, deixando apenas seu rosto magro exposto. A boca de Leleth estava entreaberta; Simon percebeu que a menina havia perdido os dois dentes da frente. Sentiu uma súbita e amarga pontada de empatia pela criança... Perdida com apenas o irmão na floresta selvagem, capturada e atormentada, assustada. Como o Senhor Jesuris poderia amar um mundo assim?
— Uma bruxa? — Binabik se levantou.
Lá fora, Qantaqa subiu a ponte da porta da frente aos trancos e barrancos: Geloë e Malaquias viriam logo atrás.
— De fato é uma mulher sábia e um ser de rara força. Em sua língua, entendo que ‘bruxa’ significa uma pessoa má, alguém do seu Diabo que prejudica seus vizinhos. Essa valada certamente não o é. Seus vizinhos são os pássaros e os habitantes da floresta, e ela cuida deles como um rebanho. Mesmo assim, deixou Rimmersgardia há muitos anos... Muitos, muitos anos atrás... Para vir para cá. É possível que as pessoas que antes viviam ao seu redor tenham pensado alguma bobagem como essa... Talvez essa tenha sido a causa de sua vinda para este lago.
Binabik se virou para cumprimentar a impaciente Qantaqa, coçando a pelagem espessa de suas costas enquanto esta se contorcia de prazer. Em seguida, levou uma panela até a porta da frente e a colocou na água. Ao retornar, pendurou-a em uma corrente com gancho sobre o fogo.
— Você disse que conhecia Malaquias do castelo?
Simon observava Qantaqa, a loba havia trotado de volta para o lago e estava parada na parte rasa, mergulhando o focinho na água.
— Está tentando pescar? — perguntou, rindo.
Binabik sorriu pacientemente e assentiu.
— E ela sabe pescar, sim. Malaquias?
— Ah, sim, eu o conheci lá... Um pouco. Uma vez o peguei me espionando. Ele negou, no entanto. Ele falou com você? Contou o que estava fazendo em Aldheorte com sua irmã, ou como foram capturados?
Qantaqa pescou um peixe, uma coisa prateada e brilhante que se debatia descontroladamente, embora sem propósito, enquanto a loba subia na margem do lago, que escorria pela água.
— Eu teria mais sorte tentando ensinar uma pedra a cantar. — Binabik encontrou uma tigela de folhas secas em uma das prateleiras de Geloë e esfarelou um punhado na panela de água fervente. Pouco depois, o cômodo se encheu de aromas quentes e mentolados. — Ouvi cinco ou seis palavras da sua boca desde que os encontramos lá em cima naquela árvore. Apesar que me lembra um pouco de você. Várias vezes o vi te observando com olhar fixo. Acho que não é perigoso, na verdade, tenho bastante certeza disso... No entanto, ainda assim precisa ser vigiado.
Antes que pudesse falar, Simon ouviu Qantaqa dar um latido curto lá embaixo. Olhou pela janela a tempo de ver a loba saltar, com sua presa quase toda devorada na margem do lago, e disparar pela trilha; em um instante, desapareceu na névoa. Logo voltou trotando, seguida por duas figuras indistintas que gradualmente se tornaram Geloë e o estranho garoto de rosto de raposa, Malaquias. Os dois estavam tendo uma animada conversava.
— Qinkipa! — Binabik bufou enquanto mexia a panela de água. — Veja como está falando agora.
Enquanto raspava as botas na entrada, Geloë inclinou a cabeça para dentro.
— Há névoa por toda parte. — disse. — A floresta está sonolenta hoje.
Entrou na casa sacudindo sua capa, seguida por Malaquias, que outra vez parecia cauteloso. O rubor estava intenso em suas bochechas.
Geloë foi prontamente para sua mesa e começou a separar o conteúdo de dois sacos. Hoje estava vestida como um homem, com grossas calças de lã, um gibão e um par de botas gastas, mas resistentes. Exalava uma aura de força calma, como um capitão de guerra que havia feito todos os preparativos possíveis e agora esperava apenas o início da batalha.
— A água está pronta? — perguntou ela.
Binabik inclinou-se sobre a panela e cheirou.
— Parece que sim. — respondeu após de um momento.
— Ótimo.
Geloë desamarrou um pequeno saco de pano do cinto e retirou um punhado de musgo verde-escuro, ainda brilhando com gotas de água. Depois de despejá-lo sem cerimônia na panela, mexeu-o com o graveto que Binabik lhe dera.
— Malaquias e eu estávamos conversando... — disse ela, semicerrando os olhos para o vapor. — Falamos sobre muitas coisas. — sua cabeça levantou, mas Malaquias apenas abaixou a cabeça, suas bochechas rosadas ficando um pouco mais coradas, e foi se sentar ao lado de Leleth no catre. Tomando a mão da pequena, acariciou sua testa pálida e úmida.
Geloë deu de ombros.
— Bom, conversaremos quando Malaquias estiver pronto. Por ora, temos tarefas suficientes.
Ela pegou um pouco do musgo na ponta da vareta, cutucou-o com o dedo, depois pegou uma tigela de uma pequena mesa de madeira e retirou toda a massa pegajosa da panela. Levou a tigela fumegante até o colchão.
Enquanto Malaquias e a bruxa faziam cataplasmas de musgo, Simon caminhou até a margem do lago. O exterior da cabana da bruxa parecia tão estranho à luz do dia quanto o interior à noite; o telhado de palha terminava em uma ponta, como um chapéu estranho, e a madeira escura das paredes estava toda coberta de pinturas rúnicas em preto e azul. Enquanto caminhava ao redor da casa e descia até a margem, as letras desapareciam e reapareciam conforme o ângulo do sol mudava. Imersos nas sombras escuras sob a cabana, os dois pilares sobre os quais se apoiava também pareciam cobertos com algum tipo de telha incomum.
Qantaqa havia retornado à carcaça de seu peixe, delicadamente separando os últimos pedaços de carne dos ossos finos. Simon sentou-se ao seu lado em uma pedra, depois afastou-se um pouco em resposta ao seu rosnado de aviso. Lançou algumas pedrinhas na névoa densa, ouvindo o som do mergulho, até que Binabik desceu para se juntar.
— Quer o desjejum? — perguntou o gnomo, entregando-lhe um pedaço de pão escuro e crocante generosamente untado com queijo forte. Simon comeu-o com grandes e rápidas mordidas, depois sentaram-se e observaram alguns pássaros bicando a areia da margem do lago.
— Valada Geloë gostaria que você se juntasse a nós, para participar do que faremos esta tarde. — disse Binabik, rompendo o silêncio.
— Que coisa?
— Buscar. Buscar respostas.
— Buscar como? Vamos a algum lugar?
Binabik o encarou com seriedade.
— De certa forma, sim... Não, não faça essa cara feia! Vou explicar. — ele atirou uma pedrinha. — Há algo que se faz às vezes, quando os caminhos para descobrir as coisas se fecham. Algo que os sábios podem fazer. Meu mestre Ookequk chamava isto de trilhar a Estrada dos Sonhos.
— Porém não foi isso que o matou?
— Não! Quer dizer... — a expressão do gnomo era de preocupação enquanto buscava as palavras certas. — Quero dizer que sim, ele morreu na estrada. Contudo um homem pode morrer em qualquer estrada. Não significa que qualquer um que caminhe por ela morrerá. Pessoas já foram esmagadas por carroças na sua Avenida Principal, no entanto centenas de outras a atravessam todos os dias sem sofrer nenhum dano.
— O que exatamente é a Estrada dos Sonhos? — perguntou Simon.
— Primeiro devo admitir... — disse Binabik com um meio sorriso triste. — Que a Estrada dos Sonhos é mais perigosa do que a Avenida Principal. Meu mestre me ensinou que esta estrada é como uma trilha de montanha mais alta do que qualquer outra. — o gnomo ergueu a mão acima da própria cabeça. — Desta estrada, embora a subida seja muito difícil, poderá ver coisas que jamais veria de outra forma... Coisas que seriam invisíveis da estrada do dia a dia.
— E a parte do sonho?
— Aprendi que sonhar é uma maneira de chegar a esta estrada, uma maneira que qualquer pessoa pode usar. — Binabik franziu a testa. — Todavia quando alguém chega à estrada através de um sonho noturno comum, não pode mais caminhar por ela; verá apenas de um ponto e depois precisa descer. Então... Ookequk me disse, essa pessoa muitas vezes não sabe o que está vendo. Às vezes... — ele gesticulou para a névoa que envolvia as árvores e o lago. — É apenas neblina o que ve. O sábio, porém, pode caminhar pela estrada, uma vez que domine a arte de subir até ela. Pode caminhar e observar, vendo as coisas como são, como mudam.
Ele deu de ombros.
— Explicar é difícil. A estrada dos sonhos é um lugar para ir e ver coisas que não podem ser vistas claramente de onde estamos, sob o sol desperto. Geloë é uma veterana desta jornada. Eu mesmo tive alguma experiência, embora não seja um mestre.
Simon ficou sentado, olhando em silêncio para a água por um tempo, pensando nas palavras de Binabik. A outra margem do lago era invisível; perguntou-se, distraído, a que distância estaria do outro lado da água. Suas lembranças cansadas da chegada no dia anterior estavam tão nebulosas quanto o ar da manhã.
“Agora que penso sobre...” percebeu. “Quão longe cheguei? Muito longe, mais longe do que jamais imaginei viajar. E ainda tenho muitas léguas pela frente, tenho certeza. Vale a pena o risco para aumentar nossas chances de chegar a Naglimund vivos?”
Por que tais decisões haviam recaído sobre seus ombros? Era bastante injusto. Continuava a se perguntar amargamente por que Deus o havia escolhido para tal tratamento cruel, se de fato era verdade, como o Padre Dreosan costumava dizer, que Ele mantinha os olhos em todos.
Mas havia mais em que pensar do que apenas em sua raiva. Binabik e os outros pareciam estar contando com sua ajuda, e isso era algo a que Simon não estava acostumado. Esperava-se dele agora.
— Vou ajudar. — disse por fim. — Porém me diga uma coisa. O que realmente aconteceu com seu mestre? Por que ele morreu?
Binabik fez um lento aceno com a cabeça.
— Dizem que há duas maneiras pelas quais as coisas podem acontecer na estrada... Coisas perigosas. A primeira, e esta em grande parte se reserva aos inexperientes, é que se alguém tenta percorrer a estrada sem a sabedoria adequada, é possível perder os lugares onde a estrada dos sonhos e o caminho da vida terrena se separam. — o gnomo separou as palmas das mãos. — O caminhante então não consegue encontrar o caminho de volta. Contudo Ookequk, creio, era sábio demais para isso.
A sensação de estar perdido e sem lar naqueles reinos imaginários tocou um ponto sensível em Simon, e inspirou fundo o ar úmido.
— Então, o que aconteceu com Ook... Ookequk?
— O outro perigo que me ensinou... — explicou Binabik enquanto se levantava. — É que existem outras coisas além dos sábios e dos bons que vagam pela Estrada dos Sonhos, e outros sonhadores de um tipo mais perigoso. Acredito que tenha encontrado um desses.
Binabik conduziu Simon pela pequena rampa até a cabana.
***
Geloë destampou um pote largo e enfiou dois dedos, retirando-os cobertos com uma pasta verde-escura ainda mais pegajosa e com um cheiro mais estranho do que a cataplasma de musgo.
— Incline-se para a frente. — disse ela, e passou um pouco da pasta na testa de Simon, logo acima do nariz, e depois fez o mesmo em si mesma e em Binabik.
— O que é isso? — perguntou o garoto. A sensação na pele era estranha, quente e fria ao mesmo tempo.
Geloë acomodou-se diante da fogueira e fez um gesto para que o menino e o gnomo se juntassem a ela.
— Beladona, falsofila, casca de pau-branco para dar a consistência adequada...
Alinhou o rapaz, o gnomo e a si mesma ao redor da lareira em um triângulo, colocando a panela no chão ao lado do joelho.
A sensação em sua testa era muito curiosa, concluiu Simon enquanto observava a valada jogar gravetos verdes no fogo. Fios brancos de fumaça subiam em espiral, transformando o espaço entre eles em uma coluna nebulosa através da qual seus olhos sulfurosos brilhavam, refletindo a luz do fogo.
— Agora esfreguem nas duas mãos. — disse a mulher, pegando mais um pouco para cada um deles. — E um pouco nos lábios, mas não na boca! Só um pouquinho, aqui...
Quando terminou, pediu que estendessem as mãos e as juntassem. Malaquias, que não havia falado desde que Simon e o gnomo retornaram, observava do catre ao lado da criança adormecida. O estranho menino parecia tenso, no entanto sua boca estava contraída em uma linha rígida, como se ele se esforçasse para esconder seu nervosismo. Simon estendeu os braços para os lados, segurando a pequena mão seca de Binabik com a mão esquerda e a mão robusta de Geloë com a direita.
— Segure firme. — disse a bruxa. — Nada de terrível acontecerá se você soltar, entretanto será melhor nos mantermos juntos.
Ela baixou os olhos e começou a falar baixinho, as palavras inaudíveis. Simon olhou para seus lábios em movimento, para as pálpebras caídas de seus olhos arregalados; outra vez ficou impressionado com o quanto se parecia com um pássaro, um pássaro orgulhoso. Enquanto continuava a olhar através da coluna de fumaça, o formigamento nas palmas das mãos, na testa e nos lábios começou a incomodá-lo.
De repente, a escuridão o envolveu por completo, como se uma nuvem densa tivesse passado diante do sol. Em um instante, não conseguia ver nada além da fumaça e do brilho vermelho do fogo abaixo; todo o resto havia desaparecido nas paredes de escuridão que se erguiam de ambos os lados. Seus olhos estavam pesados e, ao mesmo tempo, sentiu como se alguém tivesse pressionado seu rosto contra a neve. Sentia frio, muito frio. Caiu para trás, tombando, e a escuridão o envolveu por completo.
Depois de um tempo... E Simon não tinha ideia de quanto tempo poderia ter sido, apenas que, durante todo esse tempo, ainda conseguia sentir a vaga sensação do aperto em ambas as mãos, uma sensação muito reconfortante... A escuridão começou a brilhar com uma luz sem direção, uma luz que aos poucos se resolveu em um campo branco. A brancura era irregular: algumas partes brilhavam como a luz do sol em aço polido; outros lugares eram quase cinza. Um momento depois, o campo branco se tornou uma vasta e brilhante montanha de gelo, uma montanha tão incrivelmente alta que seu topo estava escondido nas nuvens rodopiantes que revestiam o céu escuro. Colunas de fumaças jorravam de fendas em suas laterais vítreas e subiam para se juntar ao halo de nuvens.
E então, de alguma forma, se deu conta que estava dentro da grande montanha, voando tão rápido quanto uma faísca por túneis que levavam cada vez mais para dentro, túneis escuros que, todavia, eram revestidos de gelo espelhado. Incontáveis milhares de formas percorriam a névoa, as sombras e o brilho da geada, formas angulares de rosto pálido que marchavam pelos corredores em meio a emaranhados de lanças cintilantes, ou cuidavam das estranhas fogueiras azuis e amarelas cuja fumaça coroava as alturas acima.
A faísca que era Simon ainda sentia duas mãos firmes segurando as suas, ou melhor, sentia algo mais que lhe dizia que não estava sozinho, pois certamente uma faísca não poderia ter mãos para segurar. Por fim encontrou-se em uma grande câmara, uma vasta cavidade no centro da montanha. O teto era tão alto acima das lajes vidradas de gelo do chão que a neve caía em rajadas de suas partes superiores, saltando, rodopiando nuvens de neve como exércitos de minúsculas borboletas brancas. No centro da imensa câmara havia um poço monstruoso, cuja boca cintilava com uma luz azul pálida, e que parecia a fonte de um medo horrível e paralisante. Algum calor devia estar emanando de suas profundezas insondáveis, pois o ar acima era uma coluna turbulenta de névoa, uma coluna nebulosa brilhando com cores difusas como um titã de gelo captando a luz do sol.
Suspenso de alguma forma na névoa acima do poço, sua forma não muito clara ou suas dimensões totalmente previsíveis, estava algo inexplicável: uma coisa composta de muitas coisas e muitas formas, todas incolores como vidro. Parecia... À medida que seus contornos apareciam aqui e ali na coluna de névoa rodopiante... Uma criação de ângulos e curvas amplas, de complexidade sutil e assustadora. De alguma forma não totalmente definível, parecia um instrumento musical. Se assim fosse, era um instrumento tão enorme, estranho e assustador que a centelha que era Simon sabia que jamais poderia ouvir sua música terrível e sobreviver.
De frente para o poço, em um assento angular de rocha negra incrustada de geada, uma figura estava sentada. Podia vê-la com clareza, como se de repente pairasse sobre o terrível poço de chamas azuis. Envolta em um manto branco e prateado de fantástica complexidade. Cabelos brancos como a neve caíam sobre seus ombros, misturando-se quase invisíveis com as vestes brancas imaculadas.
A forma pálida ergueu a cabeça, e o rosto era uma massa de luz brilhante. Um instante depois, quando se virou de novo, pôde ver que era apenas uma bela escultura inexpressiva do rosto de uma mulher... Uma máscara de prata.
O rosto deslumbrante e exótico voltou-se para ele. Simon se sentiu repelido, de repente desconectado da cena como um gatinho agarrado sendo arrancado da barra de um vestido.
Uma visão surgiu diante, que de alguma forma fazia parte da coroa de névoas e da figura branca e sombria. A princípio, era apenas mais uma mancha de brancura alabastro; gradualmente, tornou-se uma forma angular entrecruzada de preto. As formas pretas tornaram-se linhas, as linhas tornaram-se símbolos; por fim, um livro aberto pairava à sua frente. Na página aberta, havia letras que Simon não conseguia ler, runas intrincadas que oscilavam e depois se tornavam nítidas.
Transcorreu uma quantidade incomensurável de tempo, então as runas começaram a brilhar outra vez. Elas se separaram e se reformaram em silhuetas negras, três formas longas e esguias... Três espadas. Uma tinha um cabo em forma da Árvore de Jesuris, outra um cabo como as vigas transversais de um telhado. A terceira tinha uma estranha guarda dupla, as peças transversais formando, com o cabo, uma espécie de estrela de cinco pontas. Em algum lugar, no fundo do ser de Simon, reconheceu esta última espada. Em algum lugar, em uma memória negra como a noite, profunda como uma caverna, vira uma lâmina assim.
As espadas começaram a desaparecer, uma a uma, e quando se foram, restou apenas um nada cinza e branco.
Simon sentiu-se recuando... Para longe da montanha, para longe da câmara do poço, para longe do próprio sonho. Uma parte sua acolheu esse recuo, horrorizado com os lugares terríveis e proibidos para onde seu espírito havia voado, contudo outra parte não queria desistir.
Onde estavam as respostas? Toda a sua vida fora presa, enredada pela passagem de alguma roda maldita, implacável e indiferente, e no fundo da parte mais íntima de si, ele estava desesperadamente furioso. Assustado também, preso em um pesadelo sem fim, no entanto o que sentia agora era a raiva; naquele momento, ela era mais forte.
Resistiu à força, lutando com armas que não entendia para reter o sonho, para extrair o conhecimento que desejava. Agarrou-se à brancura que se esvaía rapidamente e tentou moldá-la, transformá-la em algo que lhe dissesse por que Morgenes havia morrido, por que Dochais e os monges de São Hoderund haviam perecido, por que a pequena Leleth jazia à beira da morte em uma cabana nas profundezas da floresta selvagem. Lutou e odiou. Se uma faísca pudesse chorar, ela choraria.
Aos poucos, dolorosamente, a montanha de gelo se formou de volta a partir do vazio à sua frente. Onde estava a verdade? Queria respostas! Enquanto o eu onírico de Simon lutava, a montanha crescia, tornava-se mais esguia, começava a brotar galhos como uma árvore de gelo, alcançando os céus. Então os galhos caíram, e restou apenas uma torre branca e lisa... Uma torre que ele conhecia. Chamas ardiam em seu cume. Um som grande e estrondoso ecoou, como o toque de um sino monstruoso. A torre vacilou. O sino tornou a trovejar. Isso era algo de terrível importância, sabia disso, algo horripilante, algo secreto. Podia sentir uma resposta quase ao alcance...
Mosquinha! Você veio até nós, não é?
Um nada negro, horrível e abrasador, ergueu-se e o engolfou, bloqueando a torre e o som do sino. Sentiu o sopro da vida se extinguir dentro de seu eu onírico enquanto uma frieza infinita o envolvia. Encontrou-se perdido no vazio gritante, um minúsculo ponto no fundo de um mar de profundezas negras infinitas, liberto da vida, da respiração, do pensamento. Tudo havia desaparecido... Tudo, exceto o ódio horrível e esmagador da coisa que o agarrava... O sufocava.
E então, quando havia perdido toda a esperança, se viu livre.
Estava voando, vertiginosamente alto acima do mundo de Osten Ard, agarrado pelas fortes garras de uma grande coruja cinzenta, voando como o próprio filho do vento. A montanha de gelo desaparecia atrás, engolida pela imensidão da planície branca como osso. Em momentos impossivelmente rápidos, a coruja o carregou para longe, sobre lagos, gelo e montanhas, voando em direção a uma linha escura no horizonte. Assim que ficou claro para ele, quando a linha se transformou em uma floresta, sentiu que começava a escapar das garras da coruja. A ave o agarrou com mais força e mergulhou em direção à terra num assobio. O chão se elevou de forma brusca e a coruja abriu suas amplas asas. Elas se achataram, planando e girando sobre os campos de neve em direção à segurança da floresta. E então eles estavam sob os beirais, em segurança.
***
Simon gemeu e caiu para o lado. Sua cabeça latejava como a bigorna de Ruben, o Urso, durante o torneio. Sua língua parecia inchada, com o dobro do tamanho normal; o ar que respirava tinha gosto de metal. Agachou-se, movendo a cabeça pesada o mais devagar que podia.
Binabik estava deitado próximo, o rosto largo e pálido; Qantaqa encostava o focinho no flanco do gnomo, choramingando. Do outro lado da lareira fumegante, Malaquias, de cabelos escuros, sacudia Geloë, cuja boca estava entreaberta, os lábios brilhando úmidos. Simon gemeu de novo enquanto sua cabeça latejava, pendendo entre os ombros como uma fruta amassada. Ele rastejou até Binabik. O homenzinho respirava; mesmo quando Simon se inclinou sobre ele, o gnomo começou a tossir, ofegou e abriu os olhos.
— Nós... — sussurrou o homenzinho. — Nós... Estamos... Todos aqui?
Simon assentiu, olhando para Geloë, que permanecia imóvel apesar das atenções de Malaquias.
— Um momento... — disse, e se levantou aos poucos.
Ele saiu cautelosamente pela porta da frente da cabana, carregando um pequeno pote vazio. Se surpreendeu ao ver que, apesar da névoa densa, ainda era plena tarde... O tempo na estrada dos sonhos parecera muito mais longo. Também tinha a sensação incômoda de que algo mais havia mudado do lado de fora da cabana, embora não conseguia identificar o que era. A vista parecia um pouco estranha. Decidiu que devia ser algum efeito de sua experiência. Depois de encher o pote com água do lago e lavar a pasta verde pegajosa das mãos, voltou para a casa.
Binabik bebeu com sede e, em seguida, fez um gesto para que Simon levasse o recipiente para Geloë. Malaquias observava, meio esperançoso, meio ciumento, enquanto Simon segurava com cuidado o queixo da bruxa com uma das mãos e jogava um pouco de água em sua boca aberta. Ela tossiu, engoliu e Simon lhe deu mais um pouco.
Enquanto segurava sua cabeça, Simon percebeu de repente que, de alguma forma, Geloë o havia salvado enquanto todos caminhavam no sonho. Ao olhar para a mulher, que agora respirava com mais regularidade, lembrou-se da coruja cinzenta que o havia apanhado quando seu eu onírico estava em seu último suspiro e o levara embora.
Geloë e o gnomo não esperavam tal circunstância, pressentiu; na verdade, fora Simon quem os colocara em tanto perigo. Pela primeira vez, porém, não sentia vergonha de suas ações. Fizera o que precisava ser feito. Já havia fugido da roda por tempo suficiente.
— Como ela está? — perguntou Binabik.
— Acho que ficará bem. — respondeu Simon, observando a bruxa. — Foi ela quem me salvou, não foi?
O homenzinho o encarou por um momento, os cabelos espetados e suados caindo sobre sua testa castanha.
— É provável que sim. — respondeu por fim. — Geloë é uma aliada poderosa, contudo até mesmo sua força foi levada ao limite dessa vez.
— O que isso significa? — perguntou Simon, confiando Geloë nos braços de Malaquias. — Você viu o que eu vi? A montanha, e... E a dama com a máscara, e o livro?
— Será que vimos tudo da mesma forma, Simon? — respondeu Binabik lentamente. — No entanto acho importante esperarmos até que Geloë possa compartilhar seus pensamentos conosco. Talvez mais tarde, depois de comermos. Estou com muita fome.
O garoto deu ao gnomo um meio sorriso trêmulo e se virou para encontrar Malaquias o encarando. O menino começou a desviar o olhar, todavia pareceu encontrar alguma resolução interna e sustentou o olhar, até que foi Simon quem começou a se sentir desconfortável.
— Era como se a casa inteira estivesse tremendo. — disse Malaquias abruptamente, assustando Simon um pouco. A voz do menino estava tensa, aguda e rouca.
— O que quer dizer? — perguntou Simon, fascinado tanto pelo fato de Malaquias estar falando quanto pelo que acabara de dizer.
— A cabana inteira. Enquanto vocês três estavam sentados olhando para o fogo, as paredes começaram a... A tremer. Como se alguém as tivesse levantado e colocado de volta no chão.
— Muito provavelmente foi só o jeito como estávamos nos movendo enquanto... Quer dizer... Ah, não sei.
Simon desistiu, desgostoso. A verdade era que não sabia de nada naquele momento. Seu cérebro parecia ter sido mexido com um graveto.
Malaquias se virou para dar mais água a Geloë. Gotas de chuva começaram a cair de repente no parapeito da janela; o céu cinzento não conseguia mais conter a tempestade.
***
A bruxa tinha uma expressão sombria. Eles haviam afastado as tigelas de sopa e se sentaram frente a frente no chão nu: Simon, o gnomo, e a dona da casa. Malaquias, embora com nítido interesse, permaneceu na cama ao lado da menina.
— Eu vi coisas malignas se movendo... — disse Geloë, e seus olhos brilharam. — Coisas malignas que abalarão as raízes do mundo que conhecemos. — ela havia recuperado suas forças, e algo mais: estava solene e régia em julgamento. — Quase desejei que não tivéssemos tomado a estrada dos sonhos, todavia esse é um desejo vão, da parte de mim que só quer ser deixada em paz. Vejo dias sombrios chegando e temo ser arrastada por eventos tão sinistros.
— O que quer dizer? — perguntou Simon. — O que foi tudo aquilo? Você também viu a montanha?
— O Pico das Tormentas. — a voz de Binabik era estranhamente monótona.
Geloë o olhou, assentiu com a cabeça e então se voltou para Simon.
— Verdade. Foi o Pico das Tormentas que vimos, como o chamam em Rimmersgardia, onde é uma lenda, pelo menos para os rimmerios. O Pico das Tormentas. A montanha das nornas.
— Nós, Qanuc... — disse o gnomo. — Sabemos que o Pico das Tormentas é real. Entretanto, ainda assim, as nornas não têm se intrometido nos assuntos de Osten Ard desde tempos imemoriais. Por que agora? Pareceu-me que, como se...
— Como se estivessem se preparando para a guerra! — concluiu Geloë em seu lugar. — Você tem razão, se o sonho for confiável. Se foi uma visão verdadeira, é claro, exigiria um olhar mais treinado do que o meu. Mas você disse que os cães que o perseguiram carregavam a marca do Pico das Tormentas; essa é uma evidência real no mundo desperto. Acho que podemos confiar nessa parte do sonho, ou pelo menos acho que deveríamos.
— Se preparando para a guerra? — Simon já estava confuso. — Contra quem? E quem era a mulher com a máscara de prata?
A bruxa parecia muito cansada.
— A máscara? Não era de uma mulher. Uma criatura lendária, digamos assim, ou uma criatura de um tempo além do tempo, como Binabik disse. Era Utuk’ku, a Rainha das Nornas.
O garoto sentiu um arrepio percorrer seu corpo. O vento lá fora cantava uma canção fria e solitária.
— E o que são essas nornas? Binabik disse que eram sitha.
— A sabedoria diz que já fizeram parte dos sitha. — respondeu Geloë. — Porém agora são uma tribo perdida, ou renegada. Nunca vieram para Asu’a com o resto de seu povo, e desapareceram no norte inexplorado, nas terras geladas além de Rimmersgardia e suas montanhas. Elas escolheram se separar das ações de Osten Ard, embora isso pareça estar mudando.
Por um instante, Simon viu um lampejo de profunda inquietação cruzar o rosto amargo e pragmático da bruxa.
“E essas nornas estão ajudando Elias a me perseguir?” refletiu, sentindo seu pânico voltar a aumentar. “Por que estou afundado neste pesadelo?”
Então, como se o medo tivesse aberto uma porta em sua mente, ele se lembrou de algo. Formas desagradáveis emergiram dos lugares escondidos de seu coração, e teve de lutar para recuperar o fôlego.
— Aqueles... Aqueles seres pálidos. As nornas. Eu já as vi antes!
— O quê? — Geloë e o gnomo falaram ao mesmo tempo, inclinando-se para a frente.
Simon, assustado com a intensidade deles, recuou.
— Quando? — perguntou a mulher bruscamente.
— Aconteceu... Acho que aconteceu, pode ter sido um sonho... Na noite em que fugi de Hayholt. Eu estava no cemitério e achei que ouvi algo me chamando pelo nome... A voz de uma mulher. Fiquei tão assustado que fugi, para fora do cemitério e em direção a Thisterborg.
Houve um movimento no estrado, Malaquias mudou de posição nervosamente. Simon o ignorou e continuou.
— Havia uma fogueira no topo de Thisterborg, lá em cima, entre as Pedras da Cólera. Você as conhece?
— Conheço. — a resposta de Geloë foi objetiva, contudo Simon percebeu um certo peso por trás das palavras que não entendia.
— Bem, eu estava com frio e com medo, então subi. Desculpe, no entanto tinha tanta certeza de que era um sonho. Talvez seja.
— Talvez. Continue.
— Havia homens no topo. Eram soldados, percebi porque usavam armadura. — o rapaz sentiu uma fina camada de suor brotar em suas palmas e as esfregou. — Um deles era o Rei Elias. Fiquei ainda mais assustado, então me escondi. Então... Então houve um rangido horrível, e uma carroça toda preta subiu o outro lado da colina. — estava voltando, tudo voltando a sua memória... Ou, pelo menos, parecia que tudo... Todavia seguia havendo sombras vazias. — Aqueles homens de pele clara... As nornas, era isso que eram... Estavam presentes, vários deles, vestidos com túnicas negras.
Houve uma longa pausa enquanto se esforçava para se lembrar. A chuva tamborilava no telhado da cabana.
— E? — perguntou a valada, em um tom gentil.
— Elysia, Mãe de Deus! — Simon rogou, e lágrimas começaram a brotar em seus olhos. — Não consigo me lembrar! Deram alguma coisa para ele, alguma coisa da carroça. Outras coisas aconteceram também, contudo parece que está tudo coberto por um véu na minha cabeça. Posso tocar, no entanto não consigo dizer o que é! Deram alguma coisa para Elias! Achei que fosse um sonho!
O garoto enterrou o rosto nas mãos, tentando afastar os pensamentos dolorosos de sua cabeça que girava.
Binabik deu um tapinha desajeitado no joelho do amigo.
— Talvez isso responda à nossa outra pergunta. Também refleti sobre por que as nornas estariam se preparando para a batalha. Imaginei se elas lutariam contra Elias, o Supremo Rei, por alguma antiga queixa contra a humanidade. Agora, parece-me que o estão ajudando. Algum tipo de acordo foi firmado. É possível que tenha sido aquilo que Simon viu. Mas como? Como Elias pôde fazer tal pacto com as misteriosas nornas?
— Pryrates. — tão pronto Simon o disse, teve certeza de que era verdade. — Morgenes disse que Pryrates abria portas e que coisas terríveis passavam por elas. Pryrates também estava naquela colina.
Valada Geloë assentiu com a cabeça.
— Faz certo sentido. Uma pergunta que precisa ser respondida, porém que tenho certeza de que está além de nossas capacidades, é: qual foi o valor do acordo? O que esses dois, Pryrates e o Rei, poderiam oferecer às nornas em troca de sua ajuda?
Eles compartilharam um longo silêncio.
— O que o livro dizia? — Simon perguntou abruptamente. — Na estrada dos sonhos. Vocês também viram o livro?
Binabik bateu com a palma da mão no peito.
— Estava lá. As runas que vi eram de Rimmersgardia... ‘Du Svardenvyrd’. Em sua língua, significa: ‘O Feitiço das Espadas’.
— Ou ‘O Enigma das Espadas’. — acrescentou Geloë. — É um livro famoso nos círculos dos sábios, embora está perdido há muito tempo. Nunca o vi. Dizem que foi escrito por Nisses, um sacerdote que era conselheiro do Rei Hjeldin, o Louco.
— Aquele que dá nome à torre de Hjeldin? — perguntou Simon.
— Sim. Foi lá que Hjeldin e Nisses morreram.
Simon ponderou.
— Eu também vi três espadas.
Binabik olhou para Geloë.
— Eu só pude ver formas sombrias. — disse o gnomo. — Achei que pudessem ter a aparência de espadas.
A bruxa também não tinha certeza. Simon descreveu as silhuetas, mas elas não significavam nada para ela nem para Binabik.
— Então... — disse o homenzinho por fim. — Aprendemos o quê com a estrada dos sonhos, que as nornas estão ajudando Elias? Isso nós suspeitávamos. Que um livro estranho está desempenhando algum papel... Talvez? Isso é novidade. Tivemos um vislumbre onírico do Pico das Tormentas e dos salões da rainha da montanha. Podemos ter aprendido coisas que ainda não entendemos... Ainda assim, estou pensando, uma coisa não mudou em nada, devemos ir para Naglimund. Valada, sua casa será proteção por um tempo, entretanto se Josua sobreviver, ele precisa saber dessas coisas.
Binabik foi interrompido por uma fonte inesperada.
— Simon! — chamou Malaquias. — Você disse que alguém o chamou no cemitério. Era a minha voz que você ouviu. Era eu quem estava te chamando.
Simon ficou boquiaberto.
Geloë sorriu.
— Finalmente, um dos nossos mistérios começa a falar! Continue, criança. Conte-lhes o que precisa dizer.
Malaquias corou.
— Me... Meu nome não é Malaquias. É... Marya.
— Mas Marya é nome de menina... — começou Simon, todavia parou ao ver o sorriso cada vez maior de Geloë. — Uma menina...? — disse, sem jeito.
Ele encarou o rosto do garoto estranho e, de repente, percebeu o que era.
— Uma menina! — resmungou, sentindo-se incrivelmente estúpido.
A bruxa deu uma risadinha.
— Era óbvio, devo dizer... Ou deveria ter sido. Ela tinha a vantagem de viajar com um gnomo e um garoto, e a capa de eventos confusos e perigosos, porém eu lhe disse que o engano não poderia durar.
— Principalmente não até Naglimund, e é para lá que preciso ir.
Marya esfregou os olhos, cansada.
— Tenho uma mensagem importante para transmitir ao Príncipe Josua, da parte de sua sobrinha, Miriamele. Por favor, não me perguntem qual é, pois talvez eu não possa lhes contar.
— E quanto à sua irmã? — perguntou Binabik. — Ela não poderá viajar nessas condições.
O gnomo agora a olhava com os olhos semicerrados para a surpresa Marya, como se tentasse descobrir como havia sido enganado. Parecia tão óbvio.
— Não é minha irmã. — disse Marya com tristeza. — Leleth é a criada da princesa. Éramos muito próximas. Leleth estava com medo de ficar no castelo sem mim e estava desesperada para vir comigo. — Marya olhou para a criança adormecida. — Nunca deveria tê-la trazido. Tentei puxá-la para cima da árvore antes que os cães nos pegassem. Se eu tivesse sido mais forte...
— Não está claro... — interrompeu Geloë. — Se a menina algum dia poderá viajar. Não se afastou muito da beira da morte. Lamento dizer isso, mas é a verdade. Você deve deixá-la comigo.
Marya começou a protestar, porém Geloë não a ouviu. Simon ficou perturbado ao ver o que lhe pareceu um lampejo de alívio nos olhos escuros da garota. Irritou-o pensar que abandonaria a criança ferida, por mais importante que fosse a mensagem.
— Então... — disse Binabik finalmente. — Onde estamos agora? Ainda precisamos chegar a Naglimund, e estamos bloqueados por léguas de floresta e pelas encostas íngremes de Wealdhelm. Sem mencionar aqueles que estarão em nossa perseguição.
Geloë pensou cuidadosamente.
— Me parece óbvio... — falou. — Que vocês devem atravessar a floresta até Da’ai Chikiza. É um antigo assentamento sitha, há muito deserto, é claro. Lá poderão encontrar a Escadaria, que é uma antiga estrada pelas colinas de uma época em que os sitha viajavam com frequência entre lá e Asu’a... O Hayholt. Agora está inutilizada, exceto por animais, contudo será o lugar mais fácil e seguro para atravessar. Posso lhes dar um mapa pela manhã. Sim, Da’ai Chikiza...
Uma luz profunda acendeu-se em seus olhos amarelos, e ela assentiu devagar com a cabeça, como se estivesse perdida em pensamentos. Um instante depois, piscou e voltou a ser a mesma de sempre, ágil.
— Agora vocês deveriam dormir. Todos nós deveríamos dormir. Os acontecimentos do dia me deixaram frouxa como um galho de salgueiro.
Simon não compartilhava da opinião. Achava que a bruxa parecia forte como um carvalho... No entanto supôs que até um carvalho poderia sofrer numa tempestade.
***
Mais tarde, enquanto jazia encolhido em sua capa, com o volume quente da presença um tanto intrusiva de Qantaqa contra suas pernas, tentou afastar os pensamentos sobre a terrível montanha. Tais coisas eram vastas demais, obscuras demais. Em vez disso, imaginou o que Marya devia pensar dele. Um menino, Geloë o chamara, um menino que não sabia como era a aparência de uma menina. Todavia isso não era justo, quando haveria tempo para pensar nisso?
Por que ela estava o espionando em Hayholt? Para a princesa, talvez? E se tivesse sido Marya quem o chamara no cemitério, por qual motivo? Como sabia seu nome, por que se dera ao trabalho de aprendê-lo? Não se lembrava de tê-la visto no castelo... Ou pelo menos não como uma menina.
Quando enfim adormeceu, como um pequeno barco lançado em um oceano negro, sentiu como se perseguisse uma luz que se afastava, um lampejo de brilho fora de alcance. Lá fora, pelas janelas, a chuva cobria o espelho escuro do lago de Geloë.
***
Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair
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