sábado, 10 de janeiro de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 09

Primeira Temporada  Capítulo 09: O Amor de um Pai

Rusty Quill Apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio nove: O Amor de um Pai



JONATHAN SIMS

Depoimento de Julia Montauk sobre as ações e motivações de seu pai, o assassino em série Robert Montauk. Depoimento original prestado em 3 de dezembro de 2002. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Meu pai era um assassino. Não há como negar isso neste momento; as provas apresentadas pela polícia foram devastadoras e eu mesma vi o galpão. Não estou aqui para tentar limpar o seu nome. Não faria muito sentido, de qualquer forma, como vocês sabem, ele morreu na prisão no ano passado. Sete anos não é muito tempo para cumprir de uma sentença de prisão perpétua, mas duvido que tenha sido a liberdade condicional antecipada que ele esperava.

Desculpe, talvez não tenha sido de bom gosto. Ainda assim, sua morte é o motivo pelo qual sinto que posso contar essa história; algo que nunca me senti à vontade para fazer antes. Sempre esperei que meu pai falasse sobre isso durante o frenesi da mídia que cercou seu julgamento, porém por algum motivo se manteve em silêncio. Acho que entendo um pouco melhor agora por que nunca falou a respeito, preferindo que as pessoas tirassem suas próprias conclusões, embora na época não consegui entender por que só ficava sentado em silêncio, deixando que outros falassem por ele. Gostaria de contar para alguém agora, contudo... Só terminei há pouco tempo minhas sessões de aconselhamento determinadas pelo tribunal, então prefiro não contar para os tabloides e ter “Meu Pai Matou Para Alimentar a Magia de um Culto, Diz Filha de Monstro” estampado na página 7 da edição de fim de semana. Então, só me resta vocês. Respeitável não é bem a palavra que usaria, entretanto é melhor do que nada.

Sim, meu pai matou pelo menos quarenta pessoas ao longo dos cinco anos anteriores à sua prisão, em 1995. Não vou relatar os detalhes sórdidos... Se tiver interesse, pode procurar por Robert Montauk nos arquivos de jornais de qualquer biblioteca. Haverá bastante informação lá, era evidente que os jornais não se importavam muito com o bombardeio americano, porque em abril daquele ano pareciam estar falando apenas do meu pai. Há também alguns livros sobre ele, nenhum dos quais eu realmente recomende, todavia acho que “Nem um Corpo no Galpão”, de Ray Cowan, é o mais próximo do que consideraria preciso, embora de a entender que fui cúmplice, apesar de ter apenas 12 anos na época. Sendo honesta, descobri a maioria dos detalhes pelos jornais e pelo tribunal, assim como todo mundo. Meu pai passou meus anos de formação matando dezenas de pessoas e eu não fazia ideia. Mas quanto mais penso na minha infância, mais tenho certeza de que havia algo mais acontecendo. Não tenho nenhuma teoria sobre o que tudo isso significa, porém preciso anotar em algum lugar. E este parece um bom lugar para começar.

Sempre morei na mesma casa na York Road, em Dartford. Mesmo agora, depois de tudo o que aconteceu e de tudo o que sei sobre o que se passou lá, não consigo me obrigar a sair. Pelo que sei, o galpão já estava na casa; sempre ficava no jardim: velho, feito de madeira e silencioso. Não me lembro de tê-lo visto ser usado até depois da noite em que minha mãe desapareceu. Foi aí que tudo começou a ficar estranho.

Minha memória da primeira infância é fragmentada, composta em sua maior parte de imagens e impressões isoladas, contudo me lembro da noite em que ela desapareceu como se fosse ontem. Eu tinha sete anos e tinha ido ao cinema naquela noite pela primeira vez na vida. Tínhamos ido assistir a “Convenção das Bruxas” no que era então o ABC, na avenida Shaftesbury. Já tinha visto filmes antes, é claro, na nossa pequena televisão da sala de estar, contudo ver um filme na telona foi fascinante. O filme em si era aterrorizante, e mesmo agora digo que é muito mais assustador do que qualquer “filme infantil” deveria ser. Lembro de ter passado boa parte do tempo perto das lágrimas, no entanto fiquei muito orgulhosa por não ter chorado nada. Quando chegamos em casa, fiquei acordada por um longo tempo. Aquela cena em que Luke se transforma em um rato não saía da minha cabeça e, por algum motivo, me deixou com muito medo de dormir.

Foi então que ouvi um baque vindo do andar de baixo, como se algo pesado tivesse caído. Como não tinha relógio no meu quarto, não fazia ideia de que horas eram, no entanto me lembro de olhar pela janela e o mundo estar escuro e completamente silencioso. O baque veio de novo e decidi descer para ver o que era. O patamar estava quase todo escuro e tentei fazer o mínimo de barulho possível para que ninguém soubesse que estava lá. O quarto degrau de cima para baixo da escada sempre rangia, e ainda range na verdade, entretanto acho que nunca o ouvi ranger tão alto quanto naquela noite, enquanto descia os degraus bem devagar. As luzes do andar de baixo estavam todas apagadas, exceto a da cozinha, que pude ver do pé da escada.

Entrei na cozinha e a encontrei vazia. A porta dos fundos estava aberta e uma brisa fresca entrava, fazendo-me estremecer por estar de pijama. Vi algo brilhante sobre a mesa. Estendendo a mão, encontrei o pingente da minha mãe. O design sempre me impressionara: era de prata, uma forma abstrata de uma mão com um símbolo que, acredito, representava um olho fechado. Nunca a tinha visto sem ele. Na minha cabeça de criança, presumi que apenas o tivesse deixado sobre a mesa, um acidente, e que a porta aberta não significava nada. Voltei para o andar de cima, com o colar na mão, para devolvê-lo a ela. É claro, minha mãe não estava na cama; o espaço ao lado de onde meu pai dormia profundamente estava vazio.

Toquei e balancei o ombro do meu pai adormecido, que acordou aos poucos. Perguntei onde a mãe estava, e ele começou a dizer algo quando viu a corrente de prata que segurava nas mãos. Ele se levantou rápido da cama e começou a se vestir. Enquanto vestia uma camisa, perguntou onde eu a tinha encontrado e respondi que estava na mesa da cozinha. Me seguindo escada abaixo, seu olhar se fixou na porta aberta e parou. Em vez de sair, caminhou até a pia da cozinha e abriu uma das torneiras. Imediatamente começou a fluir um líquido escuro e sujo, e o cheiro nauseabundo e salgado de água salobra atingiu meu nariz, embora na hora não entendi o que era aquilo.

A luz da cozinha se apagou naquele instante e o cômodo ficou muito escuro. Meu pai disse que estava tudo bem, que deveria voltar para minha cama. Suas mãos tremiam de leve enquanto pegava o pingente de mim, e não acreditei no que disse, mas fiz o que me foi dito. Não sei quanto tempo fiquei ali deitada, esperando meu pai voltar naquela noite, porém sei que já estava clareando quando enfim adormeci.

Acordei em algum momento. A casa estava silenciosa e vazia. Eu havia perdido o início das aulas por horas, mas tudo bem, porque não queria sair de casa. Apenas fiquei sentada na sala de estar, em silêncio e imóvel. Já era quase noite quando meu pai voltou. Seu rosto estava pálido e mal olhou para mim, apenas caminhou direto para o armário e se serviu de um copo de uísque. Sentando-se ao meu lado, virou o copo e me disse que minha mãe havia partido. Não entendi. Ainda não entendo, na verdade. Porém me disse isso com tanta certeza que comecei a chorar e não parei por um bom tempo.

Meu pai era policial, como acredito que já deva ter lido, então, quando criança, apenas presumi que a polícia havia procurado minha mãe e não a encontrado. Foi só muito tempo depois que descobri que eles nunca haviam sequer registrado um boletim de ocorrência de seu desaparecimento. Pelo que sei, nunca tive avós vivos e, pelo que pareceu, ninguém notou que ela tinha ido embora, o que foi estranho, já que tenho vagas lembranças dela recebendo muitos amigos em casa antes de desaparecer. Todos presumem que foi uma das primeiras vítimas do meu pai, contudo nunca houve provas suficientes para adicioná-la à contagem oficial. Não importa muito.

Para que conste, não acho que o tenha feito. Não vou negar que faça sentido visto de fora, no entanto me lembro de como meu pai ficou devastado quando minha mãe desapareceu. Ele começou a beber muito. Acho que tentou cuidar de mim da melhor maneira possível, entretanto na maioria das noites acabava desmaiado na poltrona. Foi também nessa época que começou a passar muito tempo no galpão. Eu nunca tinha prestado muita atenção nisso antes. Para mim, a estrutura de madeira resistente era apenas o lar de ninhos de aranha e das ferramentas de jardinagem enferrujadas que meus pais usavam uma vez por ano para atacar o mato que era o nosso quintal. Todavia logo após o desaparecimento da minha mãe, um novo cadeado resistente foi colocado na porta e meu pai começou a passar muito tempo lá dentro. Ele me dizia que estava trabalhando com madeira e, às vezes, ouvia o som de ferramentas elétricas vindo de dentro e ele me presenteava com algum pequeno objeto de madeira que havia feito, mas na maior parte do tempo havia silêncio. Talvez deveria ter me incomodado mais do que incomodou, as horas que passava lá dentro e aquele cheiro estranho que às vezes sentia, como de carne enlatada. Porém nunca dei muita atenção a aquilo e tinha meu próprio luto para lidar.

Ele também ficava fora quase todas as noites. Muitas vezes acordei de um dos meus pesadelos para encontrar a casa silenciosa e vazia. Eu o procurava e não estava lá. Por algum motivo, nunca me desesperei com isso, não como quando minha mãe desapareceu. Sabia que voltaria em algum momento, quando terminasse o que acabei suponde ser “assunto da polícia”. Às vezes ficava acordada até que voltasse. Certa vez, enquanto estava acordada, ouvi-o entrar no meu quarto. Fingi estar dormindo. Não sei porquê, contudo achei que estaria em apuros se descobrisse que tinha ficado acordada. Ele se aproximou e acariciou meu rosto suavemente. Suas mãos tinham um cheiro estranho. Naquela época, não conhecia o cheiro de sangue, misturado com aquele leve odor de água salobra. Sussurrou para mim, quando pensou que estava dormindo, prometendo me proteger, garantir que “aquilo não me atingiria também”. Havia um tom sufocado em suas palavras; acredito que estivesse chorando. Quando saiu, abri os olhos o suficiente para vê-lo. Estava parado perto da porta, com o rosto entre as mãos, vestindo um macacão cinza-claro manchado com uma substância preta e espessa. Muitas vezes me arrependo de não tê-lo perguntado sobre aquela noite. Fico pensando, se soubesse que estava acordada, se tivesse perguntado naquele momento de fraqueza... Bem, agora é tarde demais para remoer.

Nos dois anos seguintes, notei que meu pai parecia se machucar com bastante frequência e raramente havia um momento em que não tivesse algum tipo de gesso, bandagem ou hematoma visível. Também encontrava as vezes pequenas manchas ou borrões de sangue no chão ou nas mesas, com mais frequência no corredor. Fiquei muito boa em limpá-las e nunca me ocorreu prestar muita atenção de onde vinham... Só presumi que o sangue era do meu pai. Ele começou a ficar em casa durante o dia e me disse que havia sido transferido permanentemente para o turno da noite. Acreditei na sua palavra, é claro, e foi somente depois de sua prisão que descobri que esse havia sido o momento em que pediu demissão da polícia. Não sei de onde veio o dinheiro depois disso, no entanto sempre parecíamos ter o suficiente.

Sabendo o que sei agora, soa horrível dizer, todavia aqueles foram alguns dos anos mais felizes da minha infância. Perdi minha mãe, entretanto meu pai me adorava e juntos parecia que superaríamos nossa dor. Sei que o descrevi como um alcoólatra recluso que vivia no galpão, mas essas costumavam ser atividades noturnas suas. Durante o dia, passávamos o tempo juntos.

Só me lembro de uma vez em que entrou no galpão durante o dia. Foi alguns anos depois do desaparecimento da minha mãe, e eu devia ter uns dez anos. O telefone da cozinha começou a tocar e meu pai estava lá em cima. Fazia pouco tempo que tinha recebido permissão do meu pai para atender o telefone, então fiquei animada para assumir minha nova responsabilidade. Peguei o fone e disse o meu roteiro telefônico decorado.

— Alô, residência Montauk!

Uma voz masculina pediu para falar com meu pai. Era uma voz rouca, como a de um homem idoso, e na época decidi que tinha sotaque alemão, embora, quando era mais novas, muitas nacionalidades e sotaques diferentes fossem agrupados na minha mente sob o rótulo “alemão”.

— Sobre o que é?

Perguntei, pois eu tinha uma conversa telefônica inteira decorada e queria usar o máximo possível dela. O homem pareceu surpreso com isso e disse, hesitante, que era do trabalho do meu pai. Perguntei se era da polícia e, após uma pausa, ele disse que sim. E me pediu para dizer ao meu pai que era o detetive Rayner na linha, com um novo caso.

Nesse momento, meu pai desceu até a cozinha para ver quem estava ligando. Eu lhe disse e seu semblante empalideceu visivelmente, ele pegou o fone da minha mão e o levou ao ouvido, sem falar, contudo ouvindo com muita atenção. Depois de um instante, me disse para subir para o meu quarto, pois aquela era uma “conversa de adulto”. Me virei para sair, no entanto, enquanto subia as escadas, a lâmpada do patamar queimou. As lâmpadas da nossa casa queimavam com frequência... Meu pai dizia que tínhamos fiação defeituosa... Então, mesmo naquela idade, já era bastante habilidosa em trocá-las. Então, me virei e voltei para o andar de baixo para pegar uma lâmpada nova. Quando me aproximei do armário onde as guardávamos, ouvi a voz do meu pai vinda da cozinha. Ainda estava ao telefone e parecia irritado. Ouvi-o dizer: “Não, ainda não. Faça você mesmo.” Depois ficou muito quieto e escutou, antes de por fim dizer ok, que faria o mais rápido possível. Ele desligou o telefone, foi até o armário e se serviu de uma bebida. O restante do dia passou no galpão.

A única pergunta que me fizeram várias vezes durante a investigação sobre meu pai era se sabia onde estavam os outros corpos. Disse-lhes a verdade, que não fazia ideia. Eles alegaram que queriam confirmar as identidades das vítimas, o que não podiam fazer facilmente com o que restava. Não sabia onde os corpos estavam, no entanto também não lhes contei sobre a outra maneira pela qual poderiam ter identificado as vítimas: as fotografias do meu pai. Não disse nada porque não fazia ideia de onde as guardava e pensei que só pioraria as coisas se não pudessem encontrá-las, mas, sim, meu pai tirava fotografias.

Durante esses cinco anos, gradualmente comecei a notar cada vez mais caixas de filmes fotográficos espalhadas pela casa. Aquilo me intrigava, já que, embora nós dois às vezes fizéssemos pequenas viagens, nunca tirávamos muitas fotos. Ao perguntá-lo a respeito, meu pai me disse que estava tentando aprender fotografia, entretanto não confiava nos reveladores para não estragarem seus filmes, pois pelo visto já havia tido problemas antes. Sugeri que construísse um quarto escuro para revelá-los ele mesmo. Tinha visto um em Os Caça-Fantasmas 2 na TV no Natal anterior e adorei a ideia de ter um cômodo como aquele. Seu rosto se iluminou e disse que transformaria o quarto de hóspedes. Depois me avisou que, uma vez pronto, nunca poderia entrar lá sem a sua supervisão, pois haveria muitos produtos químicos perigosos. Não me importei; fiquei apenas muito feliz que uma ideia minha tivesse deixado meu pai tão contente.

Naquele verão, meu pai transformou o quarto de hóspedes em um quarto escuro para revelar fotografias. Assim como o galpão, ficava trancado quase o tempo todo, porém as vezes meu pai me levava para dentro e revelávamos fotos de carros, árvores ou qualquer outra coisa que uma criança de dez ou onze anos com uma câmera fotografasse. Contudo, na maior parte do tempo, meu pai trabalhava lá sozinho e mantinha a porta trancada enquanto o fazia. Parecia quase feliz naqueles últimos dois anos.

Não consegui dar uma olhada lá dentro sem supervisão até algumas semanas antes do meu pai ser pego. Era um sábado à noite no final do outono, e ele estava fora de casa. Passei o dia assistindo TV e lendo, no entanto quando começou a escurecer, me vi entediada e sozinha. Passando pela porta do que agora era o quarto escuro, notei que a chave ainda estava na fechadura. Às vezes penso naquele dia e me pergunto se meu pai a deixou lá de propósito. Ele tinha sido tão cuidadoso por tantos anos e então simplesmente se esqueceu? Eu sabia dos perigos, embora algo dentro de mim não resistiu à tentação de entrar.

Não havia fotos guardadas lá. Até hoje não sei onde meu pai guardava as fotos reveladas. Todavia havia cerca de uma dúzia de imagens penduradas para secar. Elas seguem vívidas na minha mente... Em preto e branco e banhadas no vermelho profundo do quarto escuro. Cada foto era do rosto de uma pessoa, em close-up e inexpressivo, seus olhos estavam opacos e vidrados. Nunca tinha visto cadáveres antes, então não entendia de fato o que estava vendo. Em cada rosto havia grossas linhas pretas que formavam símbolos que não reconhecia, entretanto que estavam claramente desenhados nos próprios rostos, não apenas nas fotografias. Receio não me lembrar dos símbolos em detalhes, apenas dos rostos em que estavam desenhados, apesar de não serem pessoas que reconheci. Nem correspondiam a nenhuma das fotos que a polícia me mostrou mais tarde. Nunca mais voltei ao quarto escuro depois de fechar e trancar a porta naquele dia. Passei as semanas seguintes me perguntando se deveria contar ao meu pai o que tinha visto. Não sabia o que tinha visto, na verdade não, mas parecia um segredo ruim e não sabia o que fazer.

Por fim, decidi contar. Ele estava bebendo no sofá naquele momento e desligou a televisão assim que mencionei ter ido no quarto escuro. Não disse uma palavra enquanto lhe contava o que tinha visto, apenas me olhou com uma expressão no rosto que nunca vi antes. Quando terminei, ele se levantou e caminhou em minha direção, antes de me abraçar e me dar o último e mais longo abraço que receberia dele. Depois, me pediu para não o odiar e disse que logo tudo acabaria, depois se virou para ir embora. Não faço ideia do que estava falando, porém, quando perguntei, apenas me disse que precisava ficar no meu quarto até que voltasse. Então ele saiu.

Fiz o que me foi dito. Subi para o meu quarto e me deitei na cama, tentando dormir. O ar estava pesado de alguma forma e, no final, passei a noite olhando pela janela para a rua lá embaixo. Estive esperando por algo, embora não soubesse o quê.

Lembro que eram 02:47 da manhã quando tudo começou. Enfim tinha um despertador e a imagem deste ainda está nítida na minha memória. Fiquei com sede e desci para pegar um copo d’água. Abri a torneira, contudo o que saiu foi um jato grosso de água barrenta, marrom e salobra. O cheiro era horrível e paralisei ao me lembrar da última vez que aquilo tinha acontecido. Meu pai ainda não tinha chegado em casa e fui para a sala de estar para olhar desesperadamente pela janela, procurando por seu retorno na rua. Eu estava apavorada.

Enquanto olhava para a rua, fiquei impressionada com o quão pequenas eram as poças de luz dos postes, que se estendiam até onde a vista alcançava. No entanto não tão longe quanto deveriam. Havia menos luzes do que deveria haver, tinha certeza. Então vi a luz no final da rua se apagar. Não havia lua naquela noite e todas as casas estavam silenciosas; quando os postes de luz se apagaram, não havia nada além de escuridão. O poste de luz mais próximo também parou de funcionar. Depois, o seguinte. E então veio a próxima. Uma lenta e ondulante camada de escuridão avançando sem pressa em minha direção. As poucas luzes que seguiam acesas nas casas ao longo da estrada também desapareceram com a aproximação da maré. Fiquei apenas sentada ali, incapaz de desviar o olhar. Finalmente, a maré chegou à nossa casa e, de repente, as luzes se apagaram e a escuridão tomou conta do interior. Ouvi uma batida na porta da frente. Firme, sem pressa e insistente. Silêncio. Não me movi. As batidas vieram de novo, mais fortes desta vez, e ouvi a porta ranger nas dobradiças. À medida que o som aumentava, começou a soar cada vez menos como uma pessoa batendo e mais como... Carne molhada sendo arremessada contra a madeira maciça da porta da frente.

Virei-me e corri em direção ao telefone. Ao pegá-lo, ouvi o tom de discagem e teria chorado de alívio se já não estivesse chorando de medo. Disquei para a polícia e, assim que atenderam, comecei a balbuciar sobre o que vinha acontecendo. A senhora do outro lado da linha foi paciente comigo e continuou insistindo gentilmente para que lhe desse o endereço até que por fim me acalmei o suficiente. Assim que lhe contei onde estava, ouvi a porta começar a se estilhaçar. Larguei o telefone e corri para os fundos da casa. Enquanto o fazia, ouvi a porta da frente se abrir com violência atrás de mim e ouvi um... Rosnado... Era um som grave, profundo e ofegante como o de um animal selvagem, todavia com um tom estranho que nunca consegui identificar. Não importava para onde me virasse, parecia vir da escuridão bem atrás de mim. Não tive tempo de pensar enquanto corria para o jardim dos fundos e me deparava com uma luz inesperada. Ali, diante de mim, estava o galpão. Ele brilhava, um azul opaco e pulsante em cada fresta e rachadura. Não parei, pois ouvi novamente aquele rosnado atrás de mim e corri em direção do galpão, puxando a porta.

O galpão não estava trancado naquela noite, e até hoje não sei se me arrependo disso. A primeira coisa que vi quando abri aquela porta foi meu pai, banhado pela luz azul pálida. Não conseguia ver a origem do brilho, mas era muito intenso. Ele estava ajoelhado no centro de um padrão ornamentado de giz rabiscado na madeira áspera do chão. À sua frente jazia um homem que eu não conhecia, porém estava claramente morto... Seu peito havia sido aberto e ainda sangrava debilmente. Em uma das mãos, meu pai segurava um punhal de aparência sinistra, e na outra, o coração do homem.


Meu pai cantava, e conforme a música subia e descia, o coração em sua mão batia no ritmo, e a luz azul aumentava e diminuía de intensidade. Olhei para as paredes e notei que estavam cobertas de prateleiras, cada uma contendo potes de vidro cheios do que descobriria mais tarde ser formol, com um único coração dentro, que também batia no ritmo do que pingava na mão do meu pai. Foi uma observação estranha na época, contudo me lembro que o homem morto usava o mesmo pingente que minha mãe... Uma mão de prata com um olho fechado.

Não sei quanto tempo fiquei ali parada, encarando congelada. Podem ter sido horas, ou talvez apenas um ou dois instantes. Então ouvi aquele rosnado atrás de mim e senti uma presença tão próxima que pude sentir a escuridão nas minhas costas. Antes que pudesse reagir, me mover ou gritar, o cântico do meu pai atingiu um crescendo e cravou a adaga no coração pulsante. De repente, a presença desapareceu e o brilho azul se apagou. Não conseguia mais ouvir as batidas dos corações. No silêncio, percebi que conseguia ouvir sirenes da polícia à distância. Ouvi meu pai me dizer que sentia muito e então ele começou a correr.

Você sabe o resto. Caçada humana, julgamento, prisão, morte. Dizem que havia 40 corações guardados naquele galpão, sem contar o da sua última vítima, no entanto é claro que a polícia só chegou quando tudo o que restava era um macabro armário de troféus. Seja lá o que eu tenha visto meu pai fazendo lá dentro, seus efeitos já haviam desaparecido há muito tempo. Não sei por que meu pai fez o que fez, e duvido que algum dia saberei, entretanto quanto mais relembro esses eventos, mais tenho certeza de que ele tinha seus motivos.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Não há muito mais a acrescentar aqui. Os relatórios policiais sobre Robert Montauk são bastante minuciosos, e há poucos detalhes a serem adicionados. A grande maioria da pesquisa sobre este caso já foi feita pela comunidade de entusiastas de assassinos em série que, embora estranha e profundamente perturbadora, muitas vezes se mostra surpreendentemente útil em casos de grande repercussão como este.

Além do corpo de Christopher Lorne, quarenta corações preservados foram recuperados do galpão de Robert Montauk. Eles estavam dispostos nas paredes em prateleiras individuais, formando padrões de onze corações em cada parede interna e sete na parede com a porta. As fotos dos padrões correspondem às várias fórmulas da geometria sagrada, embora não parecessem corresponder a nenhuma seita específica. De possível importância também é o fato de que o restante dos corpos nunca foi encontrado.

O símbolo nos dois pingentes é o da Igreja Popular da Hóstia Divina, um pequeno culto que cresceu em torno do ex-ministro pentecostal Maxwell Rayner em Londres, no final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Eu sabia que reconhecia o nome do Depoimento 1106922, apesar de, no atual momento, parecer apenas uma coincidência. Christopher Lorne era membro da igreja e sua família não tinha notícias suas nos seis anos anteriores ao seu assassinato. O próprio Sr. Rayner desapareceu da vista do público em algum momento de 1994 e o grupo se fragmentou logo depois. A polícia fez muitas tentativas de seguir essa pista no caso Montauk, todavia nunca conseguiu localizar nenhum membro disposto a prestar depoimento.

A casa na York Road ainda é habitada, embora os atuais proprietários tenham demolido o galpão há mais de uma década e o substituído por um pátio.

Robert Montauk morreu na prisão de Wakefield em 1º de novembro de 2002. Ele foi esfaqueado quarenta e sete vezes e sangrou até a morte antes que alguém o encontrasse. Depois de ler este depoimento, três pontos interessantes foram levantados: nenhum culpado ou arma jamais foi encontrado conectado ao assassinato; ele estava aparentemente sozinho em sua cela naquele momento, que deveria estar trancada; e no momento de sua morte a lâmpada em sua cela explodiu, o deixando na escuridão.

Fim da gravação.

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