domingo, 18 de janeiro de 2026

Slayers — Volume 15 — Capítulo 64

Capítulo 64: Toda vez que viajo, nos encontramos no meio do caminho

“Um sósia, hein?” Milgazia sussurrou com sua expressão estoica de sempre depois que expliquei o que tinha visto.

‘Sósia’ era uma palavra que se referia ao fenômeno de vislumbrar por um momento um duplo de si mesmo com o canto do olho, ou ao próprio duplo. Isto, claro, se a situação não fosse algum tipo de comovente história de ‘gêmeos idênticos separados ao nascer’. Algumas pessoas acreditavam que o sósia era uma premonição de morte iminente. Outras pensavam que era algum tipo de monstro metamorfo. E outras o classificavam como mera invenção da imaginação. Ninguém sabia ao certo a verdade.

Nós quatro... Eu, Gourry, Milgazia e Mephy... Estávamos discutindo as possibilidades enquanto caminhávamos pela avenida principal. Não foi surpresa que a guarda local tivesse vindo correndo depois de toda a confusão, mas o incidente era bem óbvio. Dissemos a eles que Gourry havia matado um mazoku atacante, e foi tudo. Eles não tinham motivos para pensar que tínhamos qualquer responsabilidade. Por sorte, apesar dos ferimentos dos outros clientes, não houve mortes. Infelizmente, os danos ao restaurante foram tão grandes que não conseguíamos nem sentar e ter uma conversa tranquila, muito menos terminar nossa refeição. Daí a decisão de ir embora.

“Já que estamos falando a respeito, o que dragões e elfos dizem sobre sósias?” perguntei.

“Tendemos a achar que são relatos falsos ou casos de identidade trocada.” disse Milgazia com naturalidade. “Nunca ouvi falar de um dragão ou elfo que tenha vivenciado o fenômeno do sósia, porém sabemos que ocorre em sociedades humanas. Acreditamos que sejam boatos que surgem de diferenças culturais... Ou seja, relatos falsos, ou casos de identidade trocada baseados em semelhanças superficiais.”

“Então acha que eles não são reais?”

“Pode ser um caso de identidade trocada também. Talvez essa outra pessoa apenas se pareça muito com você.” sugeriu Mephy.

“De jeito nenhum.” balancei a cabeça. “Existem muitas pessoas por aí, então sim, todo mundo tem um ou dois sósias. Só que usar justo a mesma bandana e ombreiras?”

“Então...” disse Mephy, olhando para Gourry em seguida. “Você viu essa pessoa? A tal sósia dela?”

“Não, não vi.” respondeu ele secamente.

“Beeeem?” Mephy estufou o peito enquanto me lançava um olhar sério de soslaio. “Tem certeza de que não estava vendo coisas?”

Nossa, essa doeu... Felizmente, alguém inesperado me deu uma mãozinha.

“Não podemos afirmar com certeza, Mephy.”

“Como assim, tio Milgazia?”

“Não se lembra do incidente em Dils? Dinastia assumiu a aparência do rei, foi tão perfeito que nem mesmo aqueles que o conheciam bem conseguiram notar a diferença.”

“Então acha que essa outra ‘eu’ é...”

“É possível. Também pode ser um caso de identidade trocada, como Mephy sugeriu. E mesmo que seja um mazoku disfarçado com a sua aparência, não sabemos qual é o seu objetivo.”

“É verdade, mas...”

“De qualquer forma, precisamos encontrar um lugar para sentar.” Gourry interrompeu. “Não podemos ficar andando por aí o dia todo, podemos?”

“É, boa ideia.” concordei com a cabeça. Afinal, aquele mazoku havia interrompido nosso almoço, então procurei outro restaurante por perto. “Bom, poderíamos entrar lá.”

“O tio e eu não precisamos de um lugar específico...” Mephy tentou objetar, porém eu a interrompi.

“Vamos lá, nos dê um pouco de atenção. Além do mais, precisamos de um lugar mais reservado para conversar.”

Eu meio que os arrastei para dentro e escolhi uma mesa aleatória.

“Você disse que precisamos de um lugar reservado para conversar.” disse Milgazia assim que nos sentamos. “Contudo não vejo como discutir mais sobre o assunto será útil.”

“Guh!” ele meio que me pegou nessa.

“De fato, acho que ela só quer comer. Humanos, fala sério...” Mephy murmurou.

“C-Cala a boca! Não controlo quando fico com fome!”

Enquanto conversávamos, uma garçonete se aproximou.

“Oh? Achei que você tivesse saído.” disse ela.

...

“Senhorita?” a garçonete me chamou.

“Hã?” respondi de uma forma um tanto estúpida.

A garçonete parecia estar falando comigo... No entanto tinha quase certeza de que nunca tinha estado naquele restaurante antes.

“Comigo?” perguntei, apontando para mim mesma.

Sua cabeça assentiu.

“Ora, claro que sim. Ah, entendi. Já se esqueceu das instruções que lhe dei? Vou tentar não te sobrecarregar com nomes de vilarejos desta vez. Que tal? Saia da cidade pela entrada norte e siga um pouco pela estrada. Quando chegar à grande bifurcação, vá para oeste... Ou melhor, para a esquerda, e chegará a uma cidade chamada Atlas. De lá, siga para noroeste até...”

“E-Espere um minuto!” interrompi suas instruções.

A garota piscou confusa a princípio, depois disse.

“Ah... Claro. É muita coisa para lembrar, não é? Que tal assim, então? Saia da cidade pelo norte. Quando a estrada se dividir, pegue o caminho da esquerda. Depois siga por ele até chegar à Cidade de Atlas. Quando chegar lá, pergunte a outra pessoa...”

“Já disse para esperar! Do que diabos está falando?”

“Ora, o caminho para a cidade de Sairaag, é claro. Você me perguntou quando esteve aqui antes.”

“Hã?” voltei a balbuciar. Quando estive aqui? O caminho para Sairaag? Já sei como chegar a Sairaag e, desculpe repetir, mas nunca estive aqui...

Espere aí!

“Ei!” levantei-me bruscamente e agarrei a mão da garçonete. “Acho que era minha irmã gêmea! Fomos separadas ao nascer!”

“Hã?” minhas palavras fizeram com que não apenas a garçonete, como também Gourry e Mephy, soltassem um suspiro de surpresa.


“Eu a procurei por anos! Pensar que finalmente a encontraria aqui... Você disse que viu alguém que se parecia muito comigo?”

“Er, sim. Te... Tem certeza de que não era você? Ela estava vestida do mesmo jeito...”

“Há quanto tempo foi isso? Como parecia? Também te ouvir dizer alguma coisa sobre perguntar como chegar a Sairaag, certo?”

“Vocês quase se encontraram... Bom, não exatamente quase, porém não faz muito tempo. Era por volta do meio-dia. E quanto à sua aparência... Calma, diria. Ela fez uma refeição leve e depois perguntou como chegar a Sairaag. Parecia que queria ir embora o mais rápido possível.”

“Entendo...” assenti e me sentei de novo. “De qualquer forma, gostaríamos de pedir algo para comer!”

“O quê? Não vai atrás da sua irmã? Ainda pode encontrá-la na cidade se for agora!”

“Não, tudo bem. Quer dizer, agora que sei para onde ela está indo, posso ir com calma. Apressar as coisas só estragaria o reencontro. Agora, sobre o meu pedido...”

“Er... Sim, claro.” a garçonete pareceu um pouco insatisfeita, contudo anotou nossos pedidos e se retirou para os fundos. Enquanto esperávamos...

“L-Lina... Você tem uma irmã gêmea?”

“Não caia nessa história estúpida, Gourry!”

“Quer dizer que estava mentindo?” perguntou Milgazia, que pelo visto também havia acreditado. Ele permaneceu impassível o tempo todo, então presumi que havia desconfiado de mim.

“Tive que mentir para fazer com que contasse a história, ok? No entanto agora temos uma prova! Tem alguém na cidade que se parece igual a mim!”

“Não está pregando só uma peça elaborada na gente? Até porque esse lugar foi escolha sua...” sugeriu Mephy.

Todavia foi Gourry quem dissipou suas suspeitas.

“Não tem como ser. Aquela moça disse que estava calma. E que fez uma refeição leve. Nada disso soa como a Lina, né?”

“Verdade.”

“Concordo.”

“Espere aí, pessoal. O que vocês estão... Ok, não vou perguntar o que estão insinuando, porque sei que vão dizer ‘justo o que parece’, então vou deixar pra lá. Mudando de assunto! Acho que todos podemos concordar que tenho uma sósia por aqui, certo?”

“Mesmo assim, é uma coincidência incrível que ela tenha parado aqui...”

“Não acho que seja coincidência.” continuei. “Podemos investigar depois de comermos, mas digamos que minha sósia foi a todos os restaurantes da região perguntar como chegar a Sairaag. É bem provável que eu acabasse descobrindo, não é? E aposto que fizeram algo parecido na cidade onde encontramos vocês, porém a destruição indiscriminada causada por uma certa elfa que não vou mencionar nos obrigou a fugir às pressas...”

“Com licença! Discordo dessa frase!”

“Então a pergunta é... Quem fez isso e por quê?”

“Não me ignore!”

“A resposta é simples. Este é um convite dos mazokus... Para a Cidade de Sairaag.”

Nesse momento, Mephy se calou.

“Verdade... Essa parece ser a conclusão mais lógica.” sussurrou Milgazia, esperando a garçonete servir a salada e sair. “Contudo, o será que está acontecendo em Sairaag?”

A melhor maneira que consigo pensar para descrever a Cidade de Sairaag é dizer que disputava o título de “cidade mais azarada do mundo” com a Cidade de Gyria.

Há cerca de cem anos, foi incendiada pela besta demoníaca Zanaffar, uma versão mutante de uma espécie de armadura mágica viva que os humanos tentaram replicar de maneira descuidada. Depois de enfim se reerguer, a cidade foi destruída novamente há dois anos por um aspirante a sábio que enlouqueceu. Então, o Mestre do Inferno estabeleceu uma base nas ruínas, e o Senhor dos Pesadelos fez uma visitinha, e...

Ok, retiro o que disse. Gyria não chegava aos pés de Sairaag. Gyria teve sua cota de intrigas na corte, no entanto a cidade em si só havia sido incendiada uma vez. Quer dizer, não que alguém esteja contando, entretanto aquilo foi fichinha em comparação!

E além de tudo isso, agora cheirava como se os mazokus estivessem tramando algo novo em Sairaag. O lugar era quase uma exposição permanente de infortúnios. Sério, um conselho para quem estiver pensando em morar lá? Não more.

Agora, deixando de lado a triste história de Sairaag...

“A cidade deve estar repleta de energia negativa depois de tudo o que passou. Talvez os mazokus achem fácil de usar.” sugeri, pegando meus vegetais.

“É possível!” concordou Milgazia estoicamente. “Sabemos que várias tragédias terríveis assolaram a cidade nos últimos tempos. Sempre me perguntei qual poderia ser a causa.”

Erk. Bem, além daquela coisa com Zanaffar, um século atrás, todas essas tragédias envolveram a mim e a Gourry... Todavia não tinha certeza se queria tocar nesse assunto. Quer dizer, não é como se a culpa fosse nossa! O aspirante a sábio e os mazokus nojentos começaram tudo! Nós dois fomos as vítimas!

“A questão continua: o que eles querem?” falei, engolindo minha alface e tentando mudar de assunto.

Embora Milgazia continuou me encarando, com a cara fechada.

“Vamos descobrir quando chegarmos lá.”

“É, talvez, mas... Espera aí! Está falando como se a gente fosse junto!”

“O quê?” a sobrancelha de Milgazia se ergueu. “Não me diga que não pretende ir, humana!”

“Pode apostar que não! Isso é uma armadilha óbvia, sem nenhum incentivo para cair nela! Por que eu iria só porque eles querem, hein?” argumentei, brandindo minha faca para enfatizar.

Porém Milgazia foi insistente.

“É mesmo? Tem certeza absoluta de que não tem nenhuma relação com o incidente no restaurante mais cedo?”

“Hã?”

“O ataque do mazoku que parecia uma árvore morta. Talvez tenha sido mera coincidência ter aparecido naquele restaurante... Contudo o segundo que apareceu também demonstrou um comportamento curioso. Parecia que estava tentando impedir o mazoku-árvore morta. Eles não eram aliados, e também não eram inimigos. Se fossem, em vez de só interferir, o mazoku vermelho teria atacado o outro. Contudo era óbvio que o mazoku vermelho não estava lá para proteger as pessoas do restaurante. Era mais como...” Milgazia lançou um olhar na direção de Gourry. “Como se estivesse lá para protegê-lo.”

“Sim... Não percebi nenhuma hostilidade da sua parte.” ponderou Gourry, empurrando as rodelas de pimentão verde para o lado do prato antes de enrolar um pouco de linguiça picada em alface e levá-la à boca.

“Um mazoku te atacou. Um mazoku te protegeu. E agora mazokus estão tentando te atrair para Sairaag... Mesmo assim realmente acredita que tudo não tem ligação?”

“B-Bem, quando coloca dessa forma... É, acho que não.”

“Se essas duas situações estiverem relacionadas, então abrir mão de uma visita a Sairaag pode incitar os mazokus a tentarem um convite mais coercitivo. Além do mais, com essa informação em mente, Mephy e eu iremos a Sairaag por conta própria. Suspeito que haja uma conexão entre isto e o recente surgimento em massa de demônios inferiores, e embora não haja garantia de que descobriremos o que precisamos saber em Sairaag, é nossa única pista. Você irá conosco, mesmo sabendo que é uma armadilha? Ou se separará de nós aqui e seguirá seu próprio caminho? Se escolher a segunda opção, esteja ciente de que os mazokus provavelmente inventarão um motivo para obrigá-la a ir. O caminho mais simples seria fazer um refém, o que a colocaria em uma desvantagem muito maior, sem nenhuma vantagem real. Acho, então, que concordará que só há uma escolha razoável.”

“Hmm. Nghmmm...” enchi a boca com um pouco de salada enquanto refletia a respeito.

O ancião dragão dourado tinha razão. O Mestre do Inferno já havia usado essa estratégia antes, quando sequestrou Gourry para me forçar a agir. Se decidisse, por teimosia, não ir a Sairaag, os mazokus poderiam ficar furiosos o suficiente para tentar algo semelhante. Não queria lidar com aquilo de novo. Além disso, havia uma vantagem em tomar a iniciativa e ir a Sairaag agora: teríamos Milgazia e Mephy.

Eu tinha visto meu clone antes de encontrá-los, e o mazoku que nos atacou no restaurante não tinha forma humana... O que sugeria que não era muito poderoso para um mazoku puro. Era razoável supor que não soubessem nada sobre Milgazia e Mephy. Se soubessem com quem estavam lidando, teriam enviado alguém um pouco mais poderoso. Eles acabariam percebendo, todavia, por enquanto, esse arranjo era bastante vantajoso para nós.

Então, como Milgazia disse, a escolha era óbvia. Suspirei.

“Tudo bem, vou ir também. Só me deixem em paz...” falei com um ar de irritação enquanto esfaqueava minha linguiça moída.

———

Os estranhos fenômenos climáticos pareciam estar diminuindo aos poucos. A atividade demoníaca, por outro lado... Longe de diminuir, piorava a cada dia. Já tínhamos tido alguns encontros com demônios na estrada.

Em cidades ao longo do caminho, ouvimos rumores de que outros países estavam levando a sério a ameaça. Alguns diziam que o Império Elemekia estava enviando seus Cavaleiros Gungnir para matar demônios. Outros diziam que Saillune estava formando um grupo de caça liderado por uma mulher da família real. Algumas pessoas até diziam que Zephilia estava enviando as forças especiais da Rainha Eterna e a Cavaleira de Ceifeed.

Embora, se a Cavaleira de Ceifeed realmente estiver agindo, a situação vai ficar sob controle sem que eu precise fazer nada... Pro meu azar, não tínhamos como saber se alguma dessas coisas era verdade. Afinal, falar é fácil.

Então, deixando todos esses boatos de lado, acabamos chegando à Cidade Atlas.

“Este lugar não parece... Um pouco menos populoso do que da última vez que estivemos aqui?” perguntou Gourry, esticando o pescoço em todas as direções.

“Parece sim.” respondi sem me preocupar. Afinal, também houve ataques nesta parte do mundo. “Você viu quando chegamos, não é? Parte da muralha externa foi destruída. E as pessoas comentavam na vila que deixamos esta manhã sobre demônios que atacaram a Cidade Atlas não faz muito tempo.”

Gourry pensou por um minuto e disse.

“Ah! Eu me lembro de ter ouvido isso.”

“Wow, você se lembrou de alguma coisa pela primeira vez?”

“Foi quando coloquei um pedaço de pimentão verde na boca sem querer.”

Então foi isso que fez a memória grudar, né?

Felizmente, os danos à cidade foram mínimos, mas era evidente pela atmosfera na cidade que o ataque havia deixado os moradores apreensivos.

Gourry e eu já tínhamos estado em Atlas antes, e durante nossa última visita, as ruas estavam lotadas de barracas de mercadores. Agora, elas eram poucas e distantes entre si. A maioria dos vendedores vinha de vilarejos próximos para vender seus produtos, porém com demônios vagando pelas terras, poucas pessoas eram corajosas o suficiente para viajar. O mercado reduzido significava menos movimento, deixando a cidade como um todo um tanto desolada.

Olhei ao redor pelas ruas tensas e meus olhos encontraram um rosto familiar do outro lado da rua. Ela também me notou e parou... Então começou a caminhar em nossa direção.

“Senhora Lina. Mestre Gourry!” ela chamou. Seus cabelos, da cor do pôr do sol, farfalhavam na brisa. Seus traços eram tão delicados como sempre, contudo não havia mais tristeza em seus olhos.

Falei, timidamente, com um sorriso.

“Já faz tempo. Como você está, Rubia?”

———

A casa da Rubia ficava em uma área tranquila, no lado mais afastado da cidade. Sua casa... Ou talvez devêssemos chamá-la de loja? Sua pequena floricultura ficava no meio de um terreno baldio. Pelo que explicou, no caminho, o feiticeiro a quem servira um dia deixara a loja para ela após sua morte.

Pensando em como Gourry e eu conhecemos Rubia... Sendo franca, não tinha muita certeza de como interagirmos. Entretanto Rubia não parecia compartilhar da minha timidez e nos convidou para entrar como conhecidos.

“Entrem!” disse.

Entramos na loja repleta de folhagens e flores de todas as cores. Em seguida, nos ofereceu um chá aromático, cujo perfume se espalhou pelo ambiente.

“Obrigada!” agradeci enquanto tomava um gole, deixando seu sabor único preencher minha boca. Era um chá especialmente perfumado. O tipo que sempre me lembrava um pouco de remédio. E ainda assim... “Wow, é delicioso!” me peguei sussurrando. Com leite e açúcar adicionados, o aroma, a cremosidade e a doçura do chá atingiram um equilíbrio perfeito. Uma garota poderia se acostumar com um chá assim.

“De fato, é muito bom.”

Seria o chá ou a vegetação que havia acalmado Mephy? De qualquer forma, agraciou Rubia com um raro elogio.

“Fico feliz que tenha gostado!” respondeu Rubia com um sorriso.

“Você tem tantos tipos de flores...” continuou Mephy. “Em vasos também. Vejo que cuida bem delas, para uma humana.” claro, como uma elfa, conseguia avaliar a condição das flores na loja num relance. Gostaria que dedicasse o mesmo nível de atenção a qualquer outra coisa, se possível...

“Obrigada. Eu mesma as cultivei.” disse Rubia.

“Sozinha?” me peguei perguntando.

“Sim.” ela respondeu como se não fosse nada demais.

“Não é difícil?”

“Ah... Estou acostumada. Afinal, costumava cultivar ervas.” explicou a jovem.

Ah. Isso explica tudo.

Quando a maioria das pessoas pensa em um feiticeiro, imagina algum idiota lançando feitiços sem qualquer consideração, detonando vilões e monstros. Mas é um mal-entendido.

...

Sim, sei que não é convincente vindo de mim, porém estou lhe dizendo, é um mal-entendido!

Ahem. Quando falamos de magia, falamos de poderes que normalmente não existem neste mundo. Feitiçaria é a arte de usar esses poderes sobrenaturais por meio de vários métodos para nossos próprios propósitos. E um feiticeiro é uma pessoa que pratica essa arte.

Em outras palavras, qualquer tolo poderia memorizar um feitiço simples como Iluminação, recitar o encantamento e conjurá-lo. Porém isso não o torna um feiticeiro. Um feiticeiro de verdade possui uma vasta biblioteca mental de conhecimento e a capacidade de conectar fenômenos que não aparentam estar relacionados com base nesse conhecimento. Sabedoria, digamos assim.

Plantas e ervas desempenham um papel muito importante nos rituais e pesquisas que eles envolvem. Contudo quando você precisa de uma variedade específica, não há nada mais irritante do que ter que vasculhar alguma montanha em algum lugar remoto, então a maioria dos feiticeiros cultiva sua própria coleção. Dessa forma, pode colhê-las quando precisar e, se tiver excedentes, pode preservá-los e vendê-los em uma loja de magia por um bom dinheiro. Matando dois coelhos com uma cajadada só.

Então, como ex-assistente de feiticeiro, não havia nada de incomum em Rubia ter experiência com plantas.

“Mesmo assim... É impressionante que faça tudo sozinha.” elogiei com sinceridade.

Ela corou.

“Bom, não é nada comparado a criar uma mandrágora delicada...”

A mandrágora, com seu grito mortal... É, não é particularmente romântico.

“No entanto...” Mephy olhou ao redor e franziu a testa. “Vejo flores aqui que não estão na estação.”

“Ah, tenho uma estufa.” disse Rubia casualmente.

“Uma estufa?” exclamei sem querer.

“O que é essa coisa?” perguntou Gourry.

Não o culpei por sua ignorância. Eu só sabia porque tinha lido sobre estufas em pergaminhos e ouvido falar delas aqui e ali.

“É uma casa feita de vidro transparente para cultivar plantas. Pode regular a temperatura lá dentro para cultivar coisas fora de época.”

“Uma casa... Feita de vidro?” Gourry repetiu surpreso.

Não podia culpá-lo. O único vidro que tínhamos visto era o vitral das igrejas. Criar grandes painéis transparentes exigia um artesão habilidoso e, por consequência, costumavam ser bem caros. Além do mais, o vidro era frágil. Construir uma casa inteira de vidro para cultivar plantas... Pra falar a verdade, não conseguia imaginar ninguém conseguindo. Um pirralho da vizinhança com o hábito de atirar pedras poderia causar muitos danos em poucos minutos, e manter uma temperatura constante lá dentro devia ser um processo trabalhoso.

Fácil de quebrar, demorado... A maioria das pessoas, quanto mais feiticeiros, não teria tempo para construir uma estufa só para cultivar plantas. O feiticeiro a quem Rubia servia tinha um local afastado, digamos, e um assistente para cuidar dela em seu lugar. Mas ainda assim...

“Você realmente tem uma, Rubia?” gritei.

“Er... Não precisa parecer tão surpresa. Por que eu mentiria?”

“Bem, pensei que pudesse ser algum tipo de golpe. ‘Você também pode ser dona de uma estufa!’ Ou algo assim.”

“Jamais faria uma coisa tão tola. Gostaria de vê-la?” ela ofereceu.

“Sim! Por favor!” concordei na hora.

“Também quero ver!” Gourry fez o mesmo.

Enquanto nos empolgávamos, Milgazia e Mephy suspiraram e tomaram seus chás com seriedade.

“Vamos nos juntar a eles, tio Milgazia?”

“Suponho que sim, embora eu não entenda nada...”

———

“Esta é... Esta é ela...” lá estava, no jardim dos fundos da Rubia, brilhando com toda sua nobreza sob o sol da Cidade de Atlas. “A lendária estufa!”

“‘Lendária’?”

Falei ‘jardim dos fundos’, mas sua propriedade era, na verdade, um terreno bem grande cercado por árvores no meio de uma área agrícola. Várias flores e ervas cresciam por toda parte. Fiquei me perguntando se as árvores também produziam algum tipo de fruto medicinal.

E lá estava, no centro do quintal...

Do tamanho de um galpão! Com hastes de metal na horizontal e na vertical! E vidro transparente entre elas! Um verdadeiro castelo de cristal da natureza! Ok, talvez esteja exagerando um pouco! Porém, de fato, era uma estufa!

Gourry e eu bombardeamos Rubia com perguntas.

“Ei! Posso chegar perto? Posso chegar perto?”

“Posso continuar respirando mesmo depois de chegar perto?”

“Sim, claro que pode...” Rubia respondeu com um sorriso forçado.

Nos aproximamos da estrutura com cuidado.

“Ei... Ei, posso tocar?” Gourry perguntou animado.

“Ah, por favor! Não preciso de permissão para tocar! Tome isto!” declarei, levantando a mão em direção ao vidro.

“Aha! Eu também!” Gourry fez o mesmo.

“Hehehe. Você foi lá e tocou, Gourry...”

“V-Você também, Lina!”

“Seu bobo! Estou usando luvas!”

“Também est... Espera, ah! As minhas são luvas sem dedos! Você me enganou!”

“Gwahahaha! Vejo que caiu na minha armadilha, Gourry! Contudo a culpa é toda sua! Agora que tocou na estufa com os dedos nus sem permissão... Terá de pagar o preço!”

“Er, com licença, vocês dois...” enquanto nós dois nos divertíamos, Rubia falou atrás de nós, consternada. “Não é uma casa assombrada e não vai amaldiçoá-los, então, por favor, não fique com essa cara de medo, Mestre Gourry. No entanto fico encantada que vocês estejam tão animados. Gostariam de entrar?”

Nesse momento, eu e o trêmulo Gourry nos inclinamos para a frente, com os olhos brilhando.

“Podemos? Não precisamos pagar entrada?”

“Claro que não.”

“E não seremos amaldiçoados se entrarmos?”

“Claro que não.”

“Woo-hoo!” nós dois soltamos um grito de alegria.

“Er... Por que eles estão tão felizes, tio Milgazia?”

“Realmente não entendo os humanos.”

Ignorando a recepção fria dos estraga-prazeres em relação a essa maravilha da tecnologia, Gourry e eu seguimos Rubia para dentro.

“Waaah! Tem ervas crescendo aqui! Ervas!”

“Bem, sim, é para isso que serve.”

“Waaah! Tem um pilar de pedra no centro!”

“Sim. Quando esfria, aqueço a pedra, o que mantém a estufa aquecida por um longo período.”

“Hehe! Só o fato de serem cultivadas aqui já confere a essas flores uma nobreza especial! Olha só! Como as folhas se curvam elegantemente nesta!”

“Senhorita Lina, essa é uma erva daninha.”

“Incrível! Tem uma árvore aqui também! Mesmo que esteja morta!” comentou Gourry.

“Uma árvore? Não cultivo árvores aqui...” Rubia franziu a testa, pelo visto ignorando a presença de uma árvore morta na estufa.

Espera... Uma árvore morta?

“Rubia! Corra!”

“O quê?” Rubia sussurrou, confusa.

Nesse instante, Gourry, que parecia ter percebido o que estava acontecendo, mergulhou, a pegou no colo e correu em direção à porta da estufa! Um rugido ecoou pelo ar, seguido pelo som de algo duro quebrando. Enquanto eu corria atrás de Gourry e Rubia, vi o pilar de pedra no centro da estufa se estilhaçar pelo canto do olho. E surgindo de trás...

“O que foi?”

“O que está acontecendo?”

“Um mazoku!” gritei para Milgazia e Mephy, que estavam chocados e corriam em minha direção, e então olhei de volta para a estufa. “É aquele da árvore morta que nos atacou antes! Tenham cuidado!”

A porta da estufa estava escancarada. O pilar de pedra lá dentro estava quebrado. Entretanto... Não havia sinal do mazoku-árvore morta.

“Onde está?” perguntou Mephy, franzindo a testa.

“Ele estava lá! Eu juro!” falei, com os olhos fixos no galpão de vidro.

“O que... O que foi isso?” perguntou Rubia, assustada.

“Um mazoku! Corra para um lugar seguro!” respondi.

“Correr para um lugar seguro? Onde?”

Abri a boca, mas não sabia o que dizer. De fato não havia lugar seguro quando se tratava de um mazoku puro, e deixar o grupo poderia deixá-la ainda mais vulnerável.

“Certo, só tome cuidado!”

No instante em que essas palavras saíram da minha boca, senti uma presença aparecer ao meu lado. Virei-me e vi o chão inchar antes de assumir a forma do mazoku-árvore morta. E enquanto tomava forma...

Slash! Gourry não ia deixar que fizesse o primeiro movimento. Ele se aproximou num piscar de olhos e o derrubou. Mesmo assim, sabia que não podíamos relaxar ainda. E, como esperado...

“Atrás de você!” gritou Mephy.

Rubia e eu saltamos para o lado a tempo de deixar flechas da cor da madeira morta passarem voando, cravarem-se no chão e regenerarem-se em um mazoku-árvore! Olhei na direção de onde as flechas vieram... E vi outro mazoku-árvore morta parado ali.

“O que está acontecendo aqui?” perguntou Gourry em pânico.

“Calma!” gritei em resposta. “Deve ser como os mazokus Vermelho e Cinza que enfrentamos no Pico dos Dragões! São dois em um, então se derrotar apenas metade, a outra metade se regenera!”

“Parece que precisaremos atacar os dois ao mesmo tempo, então!” declarou Milgazia, dando um passo à frente.

“Exato! Então, mãos à obra!”

“Permita-me!” Milgazia estendeu as mãos, apontando uma para cada um dos mazokus, e logo depois soltou um uivo ensurdecedor.

Percebendo o óbvio perigo que corriam, os dois mazokus começaram a afundar no chão... E então ressurgiram!

“Vocês não escaparão de nós!” proclamou Mephy enquanto sua armadura branca se expandia atrás dela como asas e soltava um uivo próprio. Os mazokus-árvore que tentavam escapar para o chão... Ou melhor, para o plano astral, foram arrastados de volta para o nosso pelo poder de sua armadura.

Vrrroosh! Raios de luz saíram das mãos de Milgazia e despedaçaram as árvores mortas. Bem... Uma delas, pelo menos.

Todos nós prendemos a respiração. O segundo ataque de Milgazia foi bloqueado pouco antes de atingir o alvo... Não pelo mazoku-árvore, e sim pela mão de um jovem que não estava ali um instante atrás.

O cara parecia ter a idade de Gourry, com um rosto comum, cabelo loiro-acinzentado e um olhar discreto. Era alto e magro, e não parecia muito durão. Entretanto, claro, eu não estava julgando o livro pela capa! Afinal, ele apareceu do nada e parou o ataque de Milgazia... Um ataque forte o suficiente para obliterar um mazoku puro... Com uma única mão.

“Esta não é uma floricultura? Isso não é bom... Uma floricultura não deveria ser cruel com as árvores.” disse o rapaz com um tom displicente, voltando seu olhar para Milgazia e Mephy. “Ah, mas você também tem um dragão e uma elfa? É a primeira vez que ouço a respeito. Aha... Está usando essa armadura feia para disfarçar sua presença. Isso não é justo, é?”

“F-Feia?” Mephy gritou, numa clara descontentação por ouvir a verdade nua e crua. Porém, é claro, ela não era descuidada o suficiente para se deixar vulnerável. Sabia muito bem que, embora aquele cara parecesse um jovem, era sem dúvida um poderoso mazoku. Afinal, mazokus puros suficientemente poderosos podiam ter aparência humana.

“Plantas são coisas para serem valorizadas. Todos nós deveríamos colocar um pouco mais de verde no mundo.” com esse disparate, ele ergueu a mão, na qual... Era uma castanha? Algo parecido surgiu em sua palma. “Viu? Assim.”

Jogando a castanha, esta caiu com um som seco, abrindo-se para revelar a fruta dentro. Grmmm... O fruto cresceu até o tamanho de uma cabeça humana e, a partir deste, brotaram dezenas e dezenas de patas de inseto, elevando-o à altura de um humano! A aranha sem cabeça... Francamente, chamá-la assim parece um insulto às aranhas... Parecia um cérebro verde pulsante montado sobre inúmeras patas retorcidas.

A casca da qual o ‘fruto’ havia surgido sofreu sua própria transformação. Cresceu instantaneamente, inchou e tomou a forma de uma pilha humanoide de ossos. Se acha que estou descrevendo um esqueleto, está muito equivocado. Gostaria que tivesse sido um esqueleto. Não, estou sendo literal. Parecia mesmo algum tipo de osso... Não tenho certeza de que tipo eram, contudo com certeza não era deste mundo... Grandes e pequenos, agrupados de forma aleatória em uma vaga forma humanoide. Algum tipo de fluido verde vazava das junções onde os ossos se uniam.

Nem preciso dizer que essas coisas também eram mazokus. Para ser sincera, não achava que eles sairiam da castanheira. Aquilo foi apenas o sinal para que aparecessem de onde quer que estivessem escondidos.

“Bem, ambos são verdes... No entanto eu preferiria não ver mais nada disso neste mundo.”

“Oh, por favor. Não seja assim. O pequenininho verde é o Vaidaz. E o lindo verde é o Gwon. Ah... Ambos são verdes. Isso é confuso?”

“Não precisa esclarecer. Ambos são mazokus de segunda categoria que vamos esmagar em segundos.”

“Que crueldade. Eu, Bradu, considero ambos meus preciosos companheiros. E não é legal julgar os outros pela aparência, não senhor. Pessoas que não são legais merecem a morte. Sim, então está decidido.”

E com esse convite de Bradu, aparentemente, os mazokus entraram em ação!

“Skree!” com um grito estranho vindo de sabe-se lá onde, o mazoku inseto cerebral preparou as pernas para avançar. Aliás, só para constar, nem vou tentar aprender o nome dessas coisas!

Recitei um feitiço baixinho enquanto Gourry corria e se movia para me proteger.

“Não tão rápido!” Milgazia disparou uma bola de luz mágica. Todavia antes que pudesse atingir o inseto cerebral...

“Já disse para ser gentil com as plantas, não disse?” Bradu saltou da lateral e, com um movimento rápido, lançou uma bola de energia que interceptou o ataque de Milgazia no ar!

O que se seguiu foi uma rajada de ar e um clarão. A onda de choque estilhaçou o vidro da estufa próxima e nos paralisou.

Nãoooooo! A estufaaaaaaa! Ok, certo, prioridades!

Uma figura escura avançou através do clarão!

“Pare aí mesmo!”

Vwee! A armadura de Mephy disparou luz e reduziu o inimigo que se aproximava a faíscas! Era um dos mazokus-árvore morta.

Uma isca? Pensei, mas naquele mesmo instante, o mazoku de osso apareceu bem ao meu lado!

“Te peguei!” Gourry se moveu sem perder um segundo, sua espada brilhando enquanto brandia o golpe. Quando o ataque acertou, o corpo do mazoku de osso explodiu! Um fluido verde jorrou e...

Oh, merda!

Percebi instintivamente, sem qualquer base ou razão. A arma do mazoku de ossos não era feitiços ou força bruta... Era esse fluido! Ele havia cavalgado a onda de choque em nossa direção em pedaços, depois se reconstituído ao meu lado e deixado Gourry esmagá-lo para que uma chuva daquela coisa caísse à queima-roupa.

O momento pareceu durar uma eternidade. O líquido verde preencheu todo o meu campo de visão. E então... Whoosh! O jato mudou de direção de repente e espirrou no chão ao meu lado.

Bluuurshbrrrb... O chão coberto pela substância começou a fumegar com um ruído sinistro.

Funcionou bem como eu temia. Imaginei que Milgazia ou Mephy tivessem percebido o perigo e me salvado, porém...

“O quê?” quando a última luz se dissipou, Bradu soltou um som de surpresa, contudo não estava olhando para nós. Reflexivamente, olhei na direção para onde ele estava olhando e...

Gweh! Recuei meio passo.

A figura vermelha se moveu por uma longa distância num instante e agarrou o mazoku de osso que se reconstituía. Um grito desumano ecoou. Ouvi um estalo seco.

Greeeeyaaah! Era o estertor do demônio de osso se despedaçando...

“Gwon!” Bradu gritou, entretanto não havia mais nada para responder.

O mazoku de osso havia sido transformado em pó e espalhado pela mão musculosa da figura vermelha. Parecia que fora ele quem detivera o ataque fluido, não Milgazia ou Mephy.

Caramba, esse cara ainda é difícil de olhar. Mas primeiro no restaurante, e agora isso? Que diabos está havendo...?

Bradu permaneceu tão discreto como sempre, mesmo lançando um olhar odioso para o mazoku musculoso.

“Seu traidor!”

“Posso dizer o mesmo para você!” respondeu o vermelho, retribuindo o olhar.

“O que está acontecendo aqui?” perguntou Milgazia.

“Como vou saber?” retruquei instintivamente.

“Entendo... É uma questão de a quem você serve, então!” observou Bradu.

“Exato!” disse o mazoku vermelho.

“Ei! Alguém pode me explicar?” gritei, interrompendo a conversa. O mazoku musculoso parecia estar do nosso lado por enquanto, então pensei que estaria disposto a explicar, porém...

“Não tenho que explicar nada a uma mera humana!” ele cuspiu as palavras, com claro ódio na voz.

Bem, no mínimo confirma que... Não somos inimigos no momento, no entanto com certeza também não somos aliados.

“Que seja como quiser... Contudo ainda pretendo levar isso até o fim, e se tentar me impedir, vou te destruir também. Nada mais, nada menos!” declarou Bradu. O mazoku inseto cerebral e dois mazokus-árvore voltaram a avançar, e...

Twitch!

Senti um tremor percorrer meu corpo. Minhas pernas ficaram dormentes. O que... O que está acontecendo aqui? Caí de joelhos, completamente perplexa, então olhei ao redor e vi Gourry, Rubia e Mephy em estado semelhante. Milgazia seguia de pé, embora por pouco. Suas pernas tremiam. Sem dúvida tínhamos sido atingidos por algum tipo de ataque, todavia não tinha certeza do que era!

O mazoku musculoso, aparentando estar ileso, correu em direção ao inseto cerebral cambaleante! Quando o fez... Vwip! Uma lança marrom surgiu do chão e o empalou.

“Graaaah!” enquanto o cara de vermelho soltava um grito, a lança perfurante se dividiu em uma infinidade de galhos dentro dele. Foi isso. Seu corpo se despedaçou, virou cinzas brancas no ar e desapareceu com o vento.

Tudo sem nos dar nenhuma informação.

Os galhos da lança então se entrelaçaram... E se transformaram na forma de um mazoku-árvore morta!

Um terceiro? Pensei que fossem uma dupla! Baseado nas prioridades do cara de vermelho, pude inferir que o ataque desconhecido tinha vindo do inseto cerebral. Mas mesmo com esse conhecimento, não havia nada que pudesse fazer para impedi-lo.

Porém, assim que estava considerando minhas opções... Vwumm! A armadura de Mephy se abriu como asas e emitiu um zumbido baixo. No momento em que aconteceu, a moleza no meu corpo desapareceu como se fosse um pesadelo.

“Hraaaagh!” com um uivo que fez o ar vibrar ao seu redor, Milgazia conjurou uma bola de magia azul pálida e a arremessou contra o inseto cerebral!

A luz queimou o ar ao redor, evaporou algumas das pernas da criatura sinistra... E então parou de repente no ar.

“Minha nossa... Finalmente te encontro, e o que temos aqui?” enquanto o recém-chegado falava, o orbe se contraiu e foi absorvido por sua mão sem deixar vestígios. “Provocando mais uma briga, pelo que vejo. Contudo, bem, suponho que seja assim que você é, né...”

“Bwuh...?” sussurrei roucamente.

“Você...” Milgazia fez o mesmo.

Foi Gourry quem pronunciou seu nome. “Xellos!”

O Sacerdote da Grande Besta, Xellos... De fato, conhecíamos esse cara.

Aquele sorriso, totalmente inadequado para a situação. Aquelas vestes negras. À primeira vista, parecia o tipo de sacerdote misterioso que toda família tem um ou dois. Contudo havia mais nesse cara do que aparentava.

Ele era o servo pessoal da Grande Besta Zellas Metallium, um dos cinco tenentes do Lorde das Trevas. Também era o mazoku que sozinho destruiu um exército de dragões mil anos atrás na Guerra das Encarnações. Talvez fosse um dos mazokus mais fortes que existiam, com exceção do Lorde das Trevas e seus tenentes. E... Sim, pode-se dizer que Gourry e eu tínhamos um passado com ele.

“Não se envolva, Mephy!” disse Milgazia em um tom contido.

“O quê?” perguntou Mephy. Ela não sabia nada sobre Xellos.

“Ah, bem, bem... Entendi. Hahaha!” com a aparição de Xellos, Bradu soltou uma risadinha cúmplice. “Parece que a batalha acabou, então... Ou será que não?”

Com essas palavras, lançou seus orbes de luz em nossa direção! No entanto... Bwoosh! Um golpe do cajado de Xellos os dispersou no caminho.

“O quê?”

“Não me interprete mal, Mestre Bradu.” Xellos caminhou para frente sem cerimônia e colocou uma mão amigável no mazoku-árvore morta, seu olhar fixo em Bradu. “A verdade é que eu me solidarizo com o morcego da velha história...”

Nesse momento, Bradu se calou. Quer dizer, foi bem típico do Xellos, para ser sincera...

“Em outras palavras, sou uma parte neutra. Embora, falando como indivíduo... Ah, mas deixa pra lá.”

“Quando nos separamos da última vez, lembro que sugeriu que seríamos inimigos na próxima vez que nos encontrássemos!” falei no lugar do Bradu, que continuava em silêncio.

Xellos olhou para nós.

“Bom, é da natureza das circunstâncias mudarem, não é? Além do mais... Também não diria que estamos exatamente do mesmo lado.” admitiu sem rodeios.

“Entendo. E daí? O que está tramando desta vez? O que está acontecendo em Sairaag?”

“Isto é...”

“Não diga ‘é um segredo’! Conte-nos. É uma troca!”

“Uma troca?” a sobrancelha de Xellos se ergueu como se eu tivesse zombado dele. “Ora, ora... Senhorita Lina, não acredito que tenha nada para trocar comigo!”

“Não se faça de desentendido! Lembra daquele restaurante quando chegamos na cidade de Gyria? Você não tinha troco suficiente, então te emprestei duas moedas de cobre! Você tá me devendo, cara!”

“C-Com licença! Ainda se lembra disso?”

“Espere um minuto... Quer dizer que também se lembra! E se você se lembra, então não pagar o que deve seria a coisa mais baixa do mundo! Ou será que é assim como os servos da Grande Besta agem?”

“Bem, foi uma coisa tão pequena... Não sei por que sente necessidade de recorrer a ameaças. Ou de mencionar o nome do Lorde Grande Besta em tal assunto.” Xellos coçou a bochecha, parecendo genuinamente preocupado.

E durante nossa troca, Bradu permaneceu imóvel. Mais precisamente... Aposto que sentiu que não tinha escolha a não ser ficar imóvel.

Qualquer um que conhecesse o poder de Xellos seria inteligente em se manter discreto até descobrir qual era o seu plano.

“Bom... Discutiremos a questão das moedas mais tarde.” disse Xellos, e então voltou seu olhar para Bradu. “Se me permite a ousadia, Mestre Bradu, acredito que seja muito tolo para mazokus se matarem por algo tão trivial quanto isso.”

“Trivial?”

Hostilidade surgiu nos olhos de Bradu em resposta à afirmação casual de Xellos.

“Agora, não me entenda mal. Estou me referindo à vida de alguns humanos. Embora ocupemos posições ligeiramente diferentes agora, você ainda é um mazoku. Além disso, temos passado por maus bocados ultimamente. Não deveríamos lutar e arriscar a morte de um de nós. Sendo assim... Estava pensando se você poderia se retirar por enquanto, por respeito a mim?”

Bradu encarou Xellos nos olhos por um tempo. Acho que percebeu que não tinha chance, porque ele, o mazoku-árvore morta e o inseto cerebral desapareceram no ar ao mesmo tempo. Acabaram optando por recuar... Pelo menos por enquanto.

“Vejamos... Oh?” assim que Bradu se foi, Xellos olhou ao redor. Seus olhos pousaram na estufa destruída, como se a estivesse notando pela primeira vez. “Que visão rara, não é? Uma estufa, creio eu. Mas... Nossa. Tantos vidros quebrados. Suponho que aconteceu quando te atacaram, não é? O que significa que a culpa é sua, senhorita Lina. Cada vidro é tão caro, e as plantas lá dentro vão sofrer até que sejam substituídos. Que perda trágica!”

“Ei... O que está querendo insinuar, Xellos?”

“Nada!” respondeu, olhando para mim com seu sorriso imperturbável característico. “Porém se eu consertar a estufa, não acha que quitaria a dívida de dois cobres que te devo?”

“Vai consertá-la?”

Dois cobres não cobririam nem o custo de consertar uma única barra da estrutura. Contudo a ideia de Xellos consertando a estufa me deu a deliciosa imagem mental dele vestido de carpinteiro, brandindo um martelo.

“Certo. Vá em frente!” respondi sem pensar duas vezes.

“Muito bem. Nesse caso...” Xellos brandiu seu cajado. No instante seguinte, os fragmentos de vidro caídos se iluminaram, flutuaram no ar e começaram a se reagrupar em suas molduras vazias.


Logo depois veio um clarão de luz laranja, e quando se dissipou, a estufa estava restaurada sem sequer uma rachadura que indicasse o dano sofrido. Na verdade, parecia mais transparente e bem-feita do que antes.

Maldito seja você, Xellos! Queria te ver vestido de carpinteiro!

“Não... Não pode ser!” Mephy respirou fundo. “Extrair apenas os componentes de vidro de uma área específica e remontá-los na forma desejada... É teoricamente possível, no entanto fazê-lo tão rápido... Instantaneamente!” ela murmurou para si mesma.

Bem, era óbvio até para mim que o que Xellos tinha feito era bastante impressionante. Ele estava dizendo que tal feito valia apenas duas moedas de cobre para ele?

“De fato... Seria bastante difícil para você replicar, não é?” disse Xellos, sorrindo para Mephy. Não havia arrogância ou sarcasmo em seu tom. Parecia estar apenas constatando um fato.

“Quem é você?” Mephy respondeu em um sussurro tenso.

“Tenho certeza de que já ouviu falar a seu respeito, Mephy. Este é Xellos!” lembrou Milgazia.

Ela ficou em silêncio por um momento. Logo, exclamou.

“O Matador de Dragões da Guerra das Encarnações?”

Xellos apenas estalou a língua e balançou o dedo.

“Esse título é um pouco ousado demais para mim. Prefiro ser chamado de ‘o sacerdote misterioso’ ou ‘aquele jovem desconhecido, embora muito agradável’.”

“Que tal ‘manto de barata’? Ou talvez ‘demônio mensageiro’?” provoquei sarcasticamente.

“Senhorita Linaaa...” Xellos me encarou em resposta.

“Todavia...” começou Milgazia. Seu olhar seguia observando Xellos com atenção e cuidado. “Te ouvi dizer que ‘enfim encontrou’ alguém, e seu envolvimento sugere algum tipo de grande plano em andamento. O que quer, mazoku mensageiro?”

Caramba, o dragão realmente não sabe segurar a língua!

“Por favor, não me chame assim! É Xellos! X-E-L-L-O-S!” protestou, num raro evento onde levantou a voz. Em seguida, olhou para mim. “Agora que consertei a estufa, minha dívida com você está paga. E, portanto, nossos planos maiores devem permanecer...” e levou um dedo aos lábios.

“Um segredo?” perguntou Gourry casualmente, um segundo antes que Xellos pudesse terminar.

A boca do sacerdote se abriu em espanto, e por um momento pareceu prestes a chorar.

“Você é terrível, Mestre Gourry!” ele disse, com a voz de uma criança emburrada, e então desapareceu no ar.

Apenas o silêncio permaneceu em seu rastro.

“Bem... Ele...” disse Mephy timidamente após um feitiço. “Não é exatamente como eu imaginava.”

“É isso que o torna aterrorizante!” falei, em tom cortante. “É o tipo de pessoa que decapita alguém com um sorriso debochado.”

Demorei um pouco até poder enfim enxugar o suor frio que se formava na minha testa.

***

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